quinta-feira, 16 de março de 2006

UMA ESTÁTUA CHAMADA DOR


Eu já sabia que o tempo ia mudar!
Soube-o assim que vi o nevoeiro, espesso subir
e espalhar-se sobre o rio e não me enganei!
Hoje, o jardim está só, triste e a única pessoa que por aqui passou foi o jardineiro!

Pouco me importa este silêncio e esta solidão – eu gosto de estar aqui neste Jardim; tudo é diferente, porque aqui sou única, não passo despercebida.
Lá onde eu estava, escondida, esquecida anos a fio, era apenas uma entre muitas e o silêncio era mais pesado, mais sombrio.
Aqui, há mais movimento – o ar é mais limpo.
Há risos, há conversas, há beijos apaixonados, há vida!
Gosto, principalmente das crianças a esvoaçarem pelos caminhos, a fazerem mil perguntas e apesar de lhe dizerem que não, a passarem a mão pelo meu vestido.
Chamo-me DOR
sou uma estátua de um
a mulher prostrada,
sem acção,
com a boca entreaberta, num grito que não se solta.
Conheço quem este texto escreve;
esteve cá no fim do Verão passado,
num dia muito quente e muito seco.
Estava muito triste, muito só
e os olhos castanhos denunciavam uma dor muito grande.
Observei-a atentamente,
tentei ler-lhe o rosto, mas ela perdeu-se a contemplar o rio.
Como à saída tocou no tronco de oliveira,
suspirei de alívio e penso que ela agora estará em paz.
P.S.: Infelizmente, não encontrei imagem da referida estátua, que está no Jardim dos Sentimentos no Porto.
Por isso, fica a imagem destes anjos

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