terça-feira, 31 de janeiro de 2017

A REUNIÃO - O FIM


Geralmente, a Eduarda aparecia logo a oferecer café e uma fatia de bolo, mas hoje não se ouve nada vindo da cozinha.

O Machado convida-nos a sentar; parece que envelheceu dez anos. O olhar está parado, arrasta os pés e senta-se com dificuldade.

" Estão cá por causa da porta?" indaga, mas não esboça qualquer sorriso. 

" Sim, ao que parece, foi uma grande confusão. A Susana não podia entrar, a D Filomena não podia sair e tiveram que chamar um serralheiro!" respondo bruscamente " Este assunto devia ter sido discutido na reunião e vou ter que convocar uma extraordinária, até porque alguém terá que pagar a deslocação do serralheiro...." continuo, mas o Meireles interrompe-me:

" Sabes alguma coisa sobre o que se passou?" e o Machado olha-o com tanta dor que me arrependo de ter falado tão bruscamente.

" A Eduarda saiu hoje de casa... Não volta!  Tivemos uma grande discussão e deve ter sido ela quem fechou a porta ao sair... Talvez para me impedir de ir atrás dela... mas a humilhação já é grande..."  conta quase num sussurro.

Eu e o Meireles entreolhamo-nos. Não sabemos o que dizer, mas creio que o Machado não espera nada da nossa parte.

" Lamento... Isto pode esperar! Paga-se com o fundo de maneio e depois vê-se!" atalho, pondo-me de pé.

" Concordo." apressa-se a dizer o Meireles " O melhor a fazer agora é descansar... Espere uns dias e fale com a Eduarda. Talvez possam resolver o assunto..." aconselha, mas o outro nem o escuta.

Cá fora, no átrio eu e o Meireles combinamos alguns detalhes, mas o que pensamos verdadeiramente é:

Será que a Eduarda tinha realmente um affair?

Mas essa é uma outra história....




FIM

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A REUNIÃO - PARTE IV


A conclusão é óbvia: foi o Machado que fechou a porta.  

Mas esse não é o verdadeiro problema; é o que aconteceu depois.

Houve interferência na vida das pessoas e estas esperam uma resolução imediata do assunto.

A porta tem que sair ou se ficar, terá que funcionar noutros moldes.

Resignado, mando um mail aos proprietários a marcar uma reunião extraordinária " devido à situação caricata vivida hoje no prédio" e telefono ao Meireles.

Este ri-se dos acontecimentos, mas concorda com a minha decisão de convocar uma nova reunião e aceita ir comigo falar com o Machado naquela noite.

" Se foi ele, vai ser ele a pagar a conta do serralheiro!" digo, mas o Meireles aconselha-me a ter calma e a decidir isso depois de falar com ele.

Por isso, depois do jantar, eu e o Meireles tocamos-lhe à porta.

O Machado demora algum tempo a abrir e ficamos surpreendidos por só haver luz na sala.


CONTINUA


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

A REUNIÃO - PARTE III


" Um affair??? Quem, aquela mosca morta da Eduarda que mal fala? " Susana volta a rir e eu aviso:

" Olha as crianças!" mas também eu começo a ver o lado cômico da situação e desato-me a rir.

Aproveitamos ao máximo o fim de semana, pois a Susana entra ao serviço no domingo às oito da noite.

Depois de acalmar as crianças e as convencer a dormir, leio um bocadinho e apago a luz cedo.

 A manhã de segunda feira é sempre complicada, mas dou por mim a pensar nas razões por detrás da preocupação do Machado com a porta.

" O homem não regula bem da cabeça... Questiona tudo, não propõe nada..." divago, mas o telefone interrompe-as.

Trabalho como louco o resto do dia e já nem estou a pensar no Machado e nas preocupações dele quando recebo um telefonema estranho da Susana.

" Diz-me uma coisa: a porta estava aberta quando saíste esta manhã? pergunta.

" Estava... Porquê? O que se passou? " replico e a Susana diz que encontrou a porta fechada quando chegou às oito da manhã.

Tentou abri-la, sem sucesso, mas felizmente a D Filomena descia naquele momento.

Contudo, nem a D Filomena a conseguiu abrir e ficaram a duas sem saber o que fazer.

Uma não podia entrar e a outra não podia sair. A D Filomena voltou a subir para pedir ajuda ao filho e este telefonou aos bombeiros e um serralheiro.

" Só perto das onze é que consegui subir para descansar!" conclui a Susana, muito irritada e com toda a razão.



CONTINUA



sábado, 21 de janeiro de 2017

A REUNIÃO - PARTE II


Apresento as propostas, esclareço os prós e contras. 

Quando dou a reunião por terminada, já passa da uma da manhã e até já o valor da quota extra está estabelecido.

Eis que o Machado volta a falar da porta.  Exasperada, a D Rute diz:

" Nem pensar!!! Para mim, chega! Estou cansada e vou para cima! Boa Noite!" e saí na companhia da D Filomena.

" Mas acho que é importante... Está em causa a segurança!" repete o Machado. 

O Meireles dá-lhe uma palmada nas costa e sugere:

" Esqueça o assunto! A D Rute tem razão; é tarde, estamos todos cansados!" e abandona por sua vez a sala.  

Espero delicadamente que o Machado também saia para fechar a porta. Ele fá-lo com uma lentidão impressionante e ainda para para me recomendar que devo mencionar na acta que ele falou na porta.

" Esteja descansado!" digo e nem espero pelo elevador. Subo as escadas e entro em casa como se alguém me perseguisse.

A Susana ainda está acordada e ri-se quando lhe conto a discussão sobre a porta.

" Ainda não percebi porque é que colocaram aquela porta. Para mim, era um verdadeiro tormento...  Nunca abria à primeira e houve um dia em que pensei mesmo que tinha que telefonar para o serralheiro." confessa.

" Está preocupado com a segurança e ouvi as senhoras dizerem que é por causa da mulher!" confidencio.


CONTINUA

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A REUNIÃO


A reunião está ao rubro. 

Falam alto, rejeitam sugestões e trocam insultos e eu sinto a cabeça a latejar.

Tento acalmar os ânimos, mas ignoram-me por completo e acabo por resolver o assunto à moda antiga.

Dou um valente soco na mesa e todos me olham assustado. O Meireles reage de imediato, dizendo:

" Oh, Brites, enlouqueceste de vez? " ao que respondo apressadamente:

" Sim, devo ter enlouquecido.  Temos assuntos importantes a tratar e vocês só falam da maldita porta!"

" É por razões de segurança!" sugere o Machado, mas eu abano a cabeça e digo:

" Mas não acham que devemos resolver a questão do telhado? Há telhas partidas, a estrutura está podre e tem que ser substituída.  O 5º andar está a queixar de infiltrações..."

" Mas o que fazemos em relação à porta?" insiste o Machado e a D Rute do primeiro andar direito comenta:

" Esta porta não é necessária! Devemos, mas é substituir a porta da rua e colocar as caixas de correio no exterior. Assim, o carteiro escusa de entrar e evita-se também a entrada de elementos indesejáveis!" frisa.

" Não concordo consigo!" contrapõe o Machado e o Meireles interrompe:

" Vamos deixar o Brites falar! Ele tem razão; estamos a perder tempo com assuntos insignificantes" e a D Rute segreda baixinho:

" Tem medo que lhe roubem a mulher!" e a D Filomena do quarto andar esquerdo ri-se.



CONTINUA

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

DEPOIS DO JULGAMENTO - O FIM


O " Silencioso" resmunga qualquer coisa quando lhe conto.

Também não fica satisfeito quando lhe falo do jogo que organizei para aquela noite numa quinta nos arredores da cidade.

" Não sei se é seguro! Ainda por cima, falaste no Bar!" censura.

" Não há problema! A sala está fechada para remodelação! E a quinta é segura; assegurei-me disso!" explico.

O " Silencioso" não diz nada... Em que pensa?  Estou a ficar nervoso.

" Não, não contes comigo!" e desliga.

" Malcriado!" penso, mas como já estou atrasado, agarro no casaco e na chave do carro e saio.

O jogo é um sucesso e estou tão cansado que até me deito vestido.

Quando acordo por volta do meio dia e abro o jornal, nem quero acreditar...

Não é que o " Cintilante " é o " Silencioso"?

Pouco depois o telefone começa a tocar e todos estão incrédulos com a notícia.

E eu fico a pensar no verdadeiro significado da visita do Inspector Leandro...

Para me avisar de que a prisão estava iminente? Ou para ter a certeza de que eu não sabia nada?

Nunca o saberei.... Apenas sei que poderei ficar aqui mais algum tempo....


FIM   

       

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

DEPOIS DO JULGAMENTO - PARTE IV



Retenho a respiração por uns segundos e penso: " Este homem é mesmo bom!"

Considero dizer uma mentira qualquer, mas decido dar apenas uma resposta vaga, sem me comprometer.

" Talvez não seja, Inspector! Mas sei que não veio cá para falar nisso!" sublinho.

" Tens razão, Zé!" concorda Leandro " Quero apenas fazer-te uma pergunta sobre a noite."

" A noite?" repito incrédulo. 

" Sim, os locais favoritos, as pessoas presentes. Tu sabes o que eu quero dizer." insiste Leandro.

" Onde queres chegar?" sussurro baixinho. " Se conheço o Cintilante?" e alto, comento:

" Não sei muito! Frequento o Bar do Cais, sei que o Restaurante Togas está na moda e abriu há um mês e pouco um outro, mas ainda não tive oportunidade de lá ir. Quanto às pessoas, o grupo que frequenta o Bar do Cais é gente de respeito." concluo.

Leandro não está muito satisfeito com as minhas respostas, mas não me pressiona.

Levanta-se, eu imito-o e saímos para o corredor. Abro-lhe a porta e o inspector para.

" Ok, obrigada. Mas tem cuidado por onde andas.  Não deixes que se repita o que se passou na Capital!" e atravessa o jardim em direcção ao carro.

Fecho a porta e hesito antes de pegar no telefone.  Ligo para o " Silencioso"; é melhor que ele saiba por mim que o Inspector esteve em minha casa.



CONTINUA



segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

DEPOIS DO JULGAMENTO - PARTE III



É efectivamente o Inspector Leandro, o " homem da Capital ". 

Dizem os entendidos que procura o "Cintilante".

Quem é o " Cintilante"? Não sei, mas ouvi dizer que escapou há um mês e meio a uma rusga organizada pela Brigada dos Narcóticos e pode ter fugido para aqui.

Agora que sei que não sou eu o suspeito, respiro calmamente, mas não entendo muito bem porque é que me bate à porta naquela sexta-feira.

Durante uns minutos, não diz nada; admira apenas a decoração da sala que mantive simples.

Depois senta-se no sofá encostado à parede e eu sorrio. Daquele local, ele pode observar o jardim e o corredor.

Sento-me à frente dele e pergunto: " O que o traz cá, Inspector?" 

" Pois, Zé ou devo dizer Manuel Vicente?" comenta com um sorriso.

" Sabe muito bem que o meu nome completo é José Manuel Vicente e que Zé do Laço é apenas uma alcunha! E creio que não veio discutir isso comigo, Inspector." respondo.

" Sim, queres começar de novo... Eu entendo, mas achas que organizar jogos ilegais é a forma mais correcta de endireitar a vida, José Manuel Vicente? "



CONTINUA

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

DEPOIS DO JULGAMENTO - PARTE III



Nessa mesma noite, recebo um telefonema inesperado.

É o "Silencioso", um dos jogadores da Mesa Alta que aposta quase sempre o mínimo da aposta exigida. Não fala muito, mas é astuto e observador. 

Fico em estado de choque quando me aconselha a adiar o jogo do próximo fim de semana.

" Mas porquê?" insisto e o "Silencioso" demora a responder. 

Não sabe se deve confiar em mim; afinal, só organizo os jogos e nunca aposto.

" Soube-se que está cá um Inspector da Capital.  Não sabemos exactamente as razões da visita dele, mas não queremos surpresas." 

" Um inspector da Capital? E é essa a razão porque não podemos organizar o jogo? " pergunto. 

" É essa a razão! Faça o favor de avisar os outros jogadores e diga que não sabe a data do próximo jogo!" e desliga sem me dar mais explicações.

Fico parado no meio da sala, a pensar na comissão que vou perder por não se organizar o jogo pela razão mais estúpida que se pode imaginar. 

Lembro-me então do Inspector Leandro.  Será ele o Inspector da Capital?

Se há uma coisa que eu sei acerca do Inspector Leandro, é que ele é um bom profissional e muito respeitado no meio...

CONTINUA
 

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

DEPOIS DO JULGAMENTO - PARTE II


A vida começa a ter sentido e relaxo...

Demais, pois quem vou encontrar na fila para pagar o estacionamento? O Inspector Leandro...

Tal é a surpresa que deixo cair o porta-moedas. Todos olham e claro que o Inspector me reconhece e diz amavelmente:

" Olha, olha...O meu amigo Zé! Por aqui?"

" Pois é, o Mundo é mesmo pequeno.  E o Inspector? Foi transferido ou está apenas de visita?" pergunto delicadamente.

" De visita, Zé... E tu? Não te vejo desde o..." Céus, espero que não fale do julgamento; essa parte da minha vida não existe aqui.

" Quando nos encontramos no Hotel das Fragas." digo num momento de inspiração.

O Inspector fica calado, olha-me fixamente e eu tenho vontade de desaparecer.

Felizmente, é a vez dele pagar e considero a hipótese de fingir que me esqueci de qualquer coisa e voltar ao Centro Comercial.

"Não, não, pensa, idiota, não achas que ele consideraria isso suspeito e não avisaria as autoridades locais de que há um novo burlão na cidade?" murmuro para os meus botões.

O Inspector tira o recibo, dobra-o cuidadosamente, cede a vez ao próximo e ao passar por mim, aconselha:

" Tem cuidado contigo, Zé... Não te percas!" e afasta-se. 

Suspiro de alívio e apresso-me a pagar. Quero sair deste parque o mais rápido possível...



                                                          CONTINUA





domingo, 1 de janeiro de 2017

DEPOIS DO JULGAMENTO


Não, não emigrei para o Dubai.

Aquele calor, a areia... não, não é o meu estilo.   

Mas não fiquei na capital depois daquele julgamento ridículo.  Quero estar longe de toda aquela gente, a que me conhece e a que sabe apenas o meu nome.

Não quero entrar em esquemas duvidosos; quero ter paz e sossego.  Mereço depois destes meses atribulados.

Por isso, aqui estou numa cidade pequena no interior, onde ninguém me conhece e eu não quero conhecer ninguém...

Um homem como eu não resiste à noite e hoje procuro a vida nocturna da cidade.

Não demoro muito a perceber que o Bar do Cais é o local ideal para beber e relaxar.

Há uma sala de jogos secreta e em breve ganho a confiança dos jogadores.

Passo a ser eu a organizar os jogos...


CONTINUA