segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

CARTA - O SORRISO


" Meus caros amigos,

Será esta a última carta que vos escrevo em 2016?

Não sei... Na verdade, neste momento não quero decidir nada.

Poderá não ser boa prática adiar o inevitável e sei que tenho que o fazer.

Até já o posso ter decidido, mas hoje, neste momento em que respiro ao Sol, não quero falar nisso.

Esta poderá não ser a última carta de 2016 e prometo escrever várias em 2017...

Para que não se esqueça a arte de a escrever.

O papel personalizado ou a folha A4 que se arranca do caderno.

A caneta de tinta permanente ou a esferográfica BIC.

Se vou rir, chorar ou apenas desabafar, será apenas o retrato da Vida.

A que ninguém poderá viver por mim, é certo, mas podem ouvir-me...

Como sempre... 

Com um sorriso... Um abraço... Uma palavra... Uma mão estendida...

Até já.

Deixo....

                                                 Um sorriso


"

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

CARTA - II


"
Caro Pai Natal,

Eu sei... Sei muito bem...

O que prometi no Natal passado... Talvez não devesse ter feito a promessa...

Mas não posso resistir à leveza do tecido, às cores quentes do estampado e à forma como esculpe o corpo...

E a maquilhagem e o cabelo têm que estar perfeitos... 

Eu sei... Sei que prometi ser mais discreta, mas para quê negar?

Adoro ser o centro das atenções...

Por isso, Pai Natal, perdoe-me se não fizer qualquer promessa este ano...

Apenas posso ser eu e pensando bem, Pai Natal?

Eu sei que gosta que eu seja assim...

Vaidosa, feliz...



Boas Festas para todos


terça-feira, 20 de dezembro de 2016

A CARTA


" Caro Pai Natal,

O que quero para o Natal?

Gostava que a janela do meu quarto abrisse realmente para o mar.  

Que ele entrasse no meu quarto e me confessasse as suas paixões.  

Que me levasse na crista das ondas nos dias do Sol.  

Que me explicasse o porquê da fúria nos dias de Tempestade.

Que não fosse apenas a pintura que faço nas paredes para esconder as manchas de humidade.

A história que escrevo ao desenhar cuidadosamente a prancha de surf e as nuvens.

O sorriso que só eu vejo quando paro de pintar e contemplo a minha obra.

Porque, apesar da janela que não fecha bem, das manchas de humidade, o meu quarto, Pai Natal, é lindo.

Fi-lo bonito, tornei-o meu.

Podia pedir-te muita coisa.  Uma casa nova, bonita, maior...

Mas não...  Só queria que a janela abrisse para o mar e ele embalasse o meu sono.


Feliz Natal


sábado, 17 de dezembro de 2016

O VIAJANTE


Mateus adora mapas.

Faz girar o globo terrestre, fecha os olhos e com o indicador, segue o movimento.

Onde está o dedo quando o globo para é o destino da viagem de Mateus.

Procura mapas das estradas, guias das cidades e entretém-se a planear o trajecto desde casa, ali na Rua do Almada até uma cidade interessante como Milão.

Tão convincente é ao descrever essas viagens que toda a gente pensa que ele é um felizardo, por viajar tanto e conhecer locais tão exóticos.

Mal eles sabem que a única viagem grande que Mateus fez até hoje foi a Lagos....

Um dia, o Pai vai buscá-lo ao Karaté e enquanto espera que ele se vista, resolve falar com o professor.

" Ora viva, como está? Deve estar ainda cansado da viagem..."  pergunta o professor sorridente.

" Viagem? Que viagem? " repete o Pai de Mateus, confuso.

" Sim, a viagem que fez até Milão. Foram de carro, não foram? O Mateus descreveu-me tudo..." explica o professor, surpreendido com a reacção " Até trouxe o mapa com os locais por onde passaram assinalados..."

" Mas nós só fomos até Lagos!" responde o Pai e ri-se quando percebe o que aconteceu. " Este meu filho tem uma imaginação... Adora mapas e passa o tempo a planear viagens."

O professor também se ri e confessa: " É um hobby interessante. Acha que vai ser escritor de viagens, guia turístico, tradutor oficial?"

O Futuro o dirá...

Por enquanto, Mateus viajará pelo globo terrestre à procura de locais exóticos e aventuras excitantes...




quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

SIMÃO, O IRMÃO PERFEITO





Olá, lembram-se de mim?


O Simão, o traquina, o terrorista do bairro? 

Claro que sim; o bairro não sobrevive sem o meu “savoir-faire”…


Mas hoje… 


Hoje, tenho que ser “responsável”, pois a Mãe confiou-me a guarda do meu irmão mais novo e não posso falhar.


Por isso, nada de trepar às árvores, saltos acrobáticos ou corridas de obstáculos.


A solução? Cowboys e Indíos e o Gonçalo bate palmas, contente.


Tudo corre bem até que o Mateus, armado em parvo e convencido de que me vai derrotar nas próximas eleições para líder carismático do bairro, captura o Gonçalo.


O Gonçalo assusta-se, tropeça e caí. Segue-se um berreiro assustador e eu não hesito um segundo.


Atiro um murro ao Mateus que o derruba. Refaz-se depressa e dá-me outro em cheio no nariz.


O sangue não me impede de lhe bater novamente e se o Jacinto Jardineiro não chegasse naquele momento, não sei o que aconteceria.


Quando chego a casa, com a camisa rasgada, um olho inchado e a sangrar do nariz, a Mãe dá um grito e chama-me “irresponsável”.


“ Onde é que tens a cabeça, Simão? Bonito exemplo para o teu irmão, não há dúvida! Nem mais uma palavra! Já para o teu quarto!” exige.


Obedeço; aceito a derrota de cabeça erguida, como líder que sou. 


A Mãe é a única pessoa que não posso desafiar, mas não me importo, porque o Gonçalo abraça as minhas pernas e diz, com toda a confiança do Mundo:


“ Goto do Imão!”


domingo, 11 de dezembro de 2016

AS REGRAS


Era uma vez...

Um menino que não gostava de regras.

Não entendia porque é que tinha que lavar as mãos antes de comer ou vir para casa quando começava a chover.

Ou porque é que tinha que interromper o jogo, o jogo que estava a ganhar, porque eram horas de ir para a cama.

Porquê? Era a sua pergunta favorita e muitas vezes, não obtinha qualquer resposta.

" São regras!" explicava o irmão que obedecia a todas, sem as questionar.

Mas, um dia, tudo mudou. 

As pessoas apareceram vestidas de preto, falavam baixo e o avô, muito sério, disse-lhes para se portarem bem.

Intrigados, os dois irmãos sentaram-se na varanda. À espera de uma explicação que lhes foi dada por uma mãe chorosa e que repetia no fim de cada frase que "tinham que ser fortes".

O menino ia perguntar: "Porquê?" mas compreendeu, naquele momento, que não o devia fazer.

Não se tratava de uma regra; era algo mais forte que exigia toda a sua atenção e compromisso - a dor.

Silencioso, deslizou do banco e abraçou a mãe que chorou ainda mais.

O irmão nada fez. Fugiu, escondeu-se na casa da árvore e quando o encontraram horas mais tarde, era uma pessoa diferente.

Tornou-se agressivo, desobediente. 

 Como se culpasse as regras pelo que tinha sucedido ao Pai naquele dia de tempestade...




quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

O CHAPÉU DE PAPEL



Esta é a história de um chapéu de papel amarelo

Com uns corações pintados na dobra.

O chapéu sentiu-se importante e pensou: " Ah, gostam de mim! Ninguém me vai esquecer!"

Que ilusão! Um dia, esqueceram-se dele na mesa do jardim e veio o Vento que o atirou para longe.

O chapéu ainda gritou por socorro, mas ninguém o ouviu; ninguém lhe acudiu.

O Vento levou-o até a uma praia deserta e deixou-o cair na areia molhada.

Amarrotado, meio rasgado, o pobre chapéu assustou-se com a imensidão do Mar.

" Ele é sempre assim?" perguntou, hesitante à areia.

A areia riu-se e respondeu:

" Hoje está calmo! Mas nunca se sabe o que vai acontecer. Pode transformar-se num gigante em segundos."


" Mas porquê?" quis saber o chapéu, mas a areia apenas sorriu.

Minutos depois, tal como a areia tinha explicado, o Mar enfureceu-se. Tornou-se cinzento, agressivo e reclamou a posse da praia.

A areia desapareceu e o pobre do chapéu ficou submerso.  Não sobreviveu à violência.

Ficou feito em pedaços, enterrado na areia que sorriu ao Sol.

O Mar acalmou-se. O Vento partiu para o outro lado do Mundo.

E, alguém fez um outro chapéu de papel.

Escolheu uma outra cor e um outro menino pediu para desenharem tartarugas e macacos na dobra.


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A minha história de Natal....

Para as Catarinas, as Marianas, as Matildes e as Margaridas.

Para os Pedros, os Guilhermes, os Simãos e os Davids.

Para os meninos e meninas que conheço e para os que não conheço.

Que sejam Felizes... Que saibam que há dias em que perdemos, mas que há alternativas.

Exigem esforço e tempo, mas a Vida é isso mesmo....

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

ZÉLIA - FIM


" Sabes onde está a teu irmão?" insiste a Mãe antes de eu pedir explicações ao Pai.

" Não, disse que tinha que "desaparecer" por uns dias; deixou-me um nº de telemóvel..." confesso " mas já tentei ligar e dá sinal de impedido." 

Os meus Pais não dizem nada por uns minutos e eu começo a sentir-me desconfortável.

" Mas o que se passa? Porque é que me chamaram?" questiono.

" Veio cá um individuo muito educado, verdade seja dita, e perguntou-nos pelo teu irmão." conta o meu Pai, acendendo um charuto.

O cheiro incomoda-me, mas não digo nada.

" Não o conheço; deve ser de algum grupo novo e da pesada!" confidencia " Respondemos que não sabíamos, que não o víamos há uns dias e ele apenas sorriu."

" Depois, polidamente pediu-nos para comunicarmos ao Bruno Machado que aguarda uma resposta até ao fim do mês!" concluí a Mãe " Sabes o que ele anda a fazer, Maria Teresa? Quem é que ele irritou?"

Abano a cabeça; o meu irmão respeitou a minha decisão de me manter à margem dos negócios da família e se me avisou do "desaparecimento" foi, talvez, por pensar que não associariam o meu nome ao dele.

Ia explicar isso aos meus Pais quando a porta se abre e o guarda-costas do meu Pai anuncia solenemente:

" Está aqui a Polícia!"


E eu sinto a minha vida, pela qual lutei tanto, a desmoronar-se....



FIM

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

ZÉLIA - PARTE V


A Mãe fica calada por uns minutos e sugere:

" É melhor vires até cá. Não devemos falar nisto ao telefone!" e desliga sem esperar pela minha resposta.

Não posso ir sem terminar a reunião e é com alívio que vejo que a outra equipa recusa o nosso convite para almoço.

A minha assistente arruma os dossiers e pergunta: " Vamos almoçar?"

" Não, obrigada. Tenho que sair; surgiu um problema familiar. Espero estar de volta a meio da tarde. Discutimos então os pormenores." e, pegando na carteira, desço até à garagem.

A Andreia deve ter ficado admirada com a minha saída abrupta. Geralmente, após reuniões importantes como esta, gosto de rever de imediato todos os detalhes e enviar a proposta final antes do final do expediente.

Mas não hoje! Hoje fui "convocada" à casa dos meus Pais e "proibida" de desobedecer.

Os meus Pais moram numa vivenda num bairro sossegado. O portão está aberto e eu entro sem problemas.

Fico ali parada por uns minutos a observar o jardim antes de tocar à porta

É a minha Mãe quem abre. Como sempre, o cabelo está impecável e a roupa foi escolhida com cuidado.

" Ah, Maria Teresa. Não sei se gosto desse teu novo corte de cabelo!" é o cumprimento que me dirige.

Sorrio e dou-lhe um beijo. 

" A Mãe está óptima! Os anos não passam por si!" retribuo irónica, mas a Mãe atalha de imediato.

" Deixa de ser engraçada, Maria Teresa! Vai cumprimentar o teu Pai; temos muito que conversar." e empurra-me para a sala de estar.

O meu Pai levanta-se do sofá e cumprimenta-me, muito sério. Também não gostou muito da atitude que tomei, mas foi mais compreensivo.

" Isto é muito sério, Teresa." confidencia.

(CONTINUA)