segunda-feira, 24 de abril de 2017

"MAGIE NOIRE" - O FINAL



Não, não venhas atrás de mim...

Não sei se vou ficar aqui... não tenho a certeza do que vou fazer...

Tenho que o fazer sozinha e, sim, sei que estarás aí para me ajudar se for preciso...

E isso basta-me...

Tenho que deixar que te preocupes contigo, que invistas na tua carreira...

Talvez a Luisa te dê uma nova oportunidade, quem sabe?

Aproveita-a, goza-a... Tem um filho, dois... Vou ser uma tia babada...

Este é o meu momento de repensar, reconsiderar, renovar a minha vida.

Sem apoios... sozinha, numa cidade desconhecida...

E, prometo que não procurarei o seu lado negro.

Miguel, meu irmão, fica bem. 

Vou ter muitas saudades tuas!

Um xi muito apertada da tua irmã maluca.


FIM


sexta-feira, 21 de abril de 2017

"MAGIE NOIRE" - PARTE III


Nunca o saberei, pois fui cobarde e fugi.

Felizmente, o bar estava cheio e o segurança estava a tentar impedir a entrada de uns idiotas, já muito bebidos.

Ninguém me viu, a não ser aquele sem abrigo que dorme na viela.  E sei que não vai dizer nada; só quer que o deixem em paz.

Não respeitei os limites da velocidade e não sei como consegui chegar a casa, ilesa e sem encontrar um polícia.

Fui buscar uma mala e atirei para lá roupa.  Voltei a sair, mas achei melhor deixar o carro na garagem.

Apanhei um táxi e segui para a estação de comboios.  Fiquei parada no átrio, sem saber muito bem o que fazer.

Ir para onde?  Olhei para o quadro e não consegui decifrar nada. Alguém deu-me um empurrão e perguntou, mal humorado:

" Então? Vai ficar aí parada a noite inteira? " e então, respirei fundo e fui até à bilheteira.

Comprei o bilhete para Madrid.


CONTINUA

terça-feira, 18 de abril de 2017

"MAGIE NOIRE" - PARTE II



Espero bem que não... Não aguentaria saber que te fiz isso...

Destruir a minha vida? Ah, não te preocupes comigo... 

Tenho que encontrar uma saída e tenho que o fazer sem a tua ajuda.

És um bom irmão; nunca disseste "não" e provoquei-te tantas vezes.

" Roubei-te" a bicicleta, o carro e sempre que bebia demais, telefonava-te e lá aparecias tu.

Indignado, é certo, com vontade de levantar a mão e bater-me, a dizer que era a última vez, mas eu sabia que era treta. Que o farias novamente, as vezes que fosse preciso!

Desta vez, não é um simples telefonema e levar-me inconsciente para a cama.

Eu matei o Telmo! Dei-lhe um soco que lhe tirou o ar, o fez desequilibrar e bater com a cabeça no balcão.

Um acidente? Achas mesmo que a polícia ia acreditar em mim?


CONTINUA


domingo, 16 de abril de 2017

"MAGIE NOIRE" - PARTE I



Miguel, meu irmão,

Desculpa-me.... 

Sei que fiz asneira mais uma vez e deveria ter ficado para enfrentar as "feras" contigo.

Deixar-te assim tão doente... custou-me imenso, mas sei que me vais perdoar...

À menina tonta que sempre fui e que deveria deixar de ser. 

Apaixono-me sempre pelo tipo errado e o Telmo foi o pior de todos.

Arrogante, egoísta, "negro" como a música que escolhe para a noite.

" Magie Noire"... para quem quer esquecer e esconder-se do Mundo.

Eu nunca gostei das regras do Mundo; lutei contra elas, mas nunca pensei que as ia quebrar desta maneira e destruir-me.

O que me doí é que não sei se te destruí também...


CONTINUA

quarta-feira, 12 de abril de 2017

O DJ - O NOVO CASO DO INSPECTOR LEANDRO - FIM


É o Torcato quem interrompe o silêncio da sala ao avisar de que está alguém à espera do Inspector na sala 4.
“ Quem é?” perguntou Leandro, mas o Torcato abanou a cabeça. 
Tinha perguntado, mas a pessoa insistiu que só falaria com o inspector encarregado do caso.
O homem na sala de interrogatórios estava visivelmente doente. Tinha os olhos inchados, o nariz vermelho e apesar do casaco grosso, tremia. 
O Sargento Bernardes apressou-se a pedir um copo de água e Leandro mandou-o sentar-se.
“ Sou o inspector Leandro Marques e este é o Sargento Bernardes. O senhor é?”
“ Miguel... Miguel Fontes.” respondeu e teve de imediato um ataque de tosse. 
O Sargento deu-lhe o copo de água e Leandro esperou até que ele o bebesse.
“ Porque é que veio, Snr Miguel Fontes? O senhor está muito doente e podiamos interrogá-lo mais tarde.” explicou o inspector.
“ Mas eu tinha que vir. Eu tinha que lhe dizer...” e tossiu novamente. Meteu as mãos nos bolsos à procura de um lenço, mas um novo ataque de tosse impediu-o.
“ Chame o INEM!” ordenou o Leandro ao Bernardes “ Este senhor tem que ir de imediato para o Hospital.” continuou ao ver que Miguel tinha dificuldade em respirar.
Miguel Fontes abanou a cabeça e estendeu a mão por cima da mesa.
“ O senhor não sabe o que eu fiz!” sussurrou “ Fui eu... fui eu quem matou o Telmo!” e desmaiou.
“ Este senhor desmaiou! Onde está a ambulância?” gritou Leandro.
Bernardes entrou novamente na sala e com um “Raios” entre dentes, ajudou o inspector a pôr o homem numa posição mais confortável.
Um outro polícia entrou com um cobertor e cobriram o dono do bar que continuava sem dar acordo de si. O INEM chegou entretanto, para grande alívio de Leandro e meia hora depois, Miguel Fontes estava a caminho do Hospital.
“ Ele disse alguma coisa?” perguntou Bernardes quando a situação acalmou.
“ Que foi ele quem matou o DJ.” retorquiu Leandro “Mas porquê? E como se está gravemente doente?”
Ninguém lhe respondeu, pois estavam tão perdidos como o Inspector. 
Excepto o Tavares que apareceu, sabe-se lá donde, todo excitado.
“ Sabem com quem esse tal DJ andava?” perguntou e fez uma pausa para criar impacto.
Mas o olhar severo do Inspector fez com que mudasse de ideias e anunciou:
" A irmã do Miguel Fontes e consta que a separação foi turbulenta."
E todos na sala tiveram a certeza naquele momento de que tinha sido ela a assassinar o DJ Mórbido e o irmão a estava a proteger.

Se é ou não verdade, fica para uma outra história.

FIM


domingo, 9 de abril de 2017

O DJ - O NOVO CASO DO INSPECTOR LEANDRO - PARTE V


Pois! A autópsia é só logo à tarde!” lamentou-se Leandro “ Temos que esperar! Oh, Torcato, volta ao bar e interroga discretamente os comerciantes da zona. Talvez tenham visto qualquer coisa...” e o detective desapareceu de imediato.
O inspector leu os mails, assinou relatórios de casos já concluídos e esperou. Perto do meio dia, o Sargento Bernardes entrou no gabinete com novidades:
O nosso DJ Mórbido chama-se Telmo Roseira, tem 35 anos e é divorciado. Como o Russo disse, não trata nada bem as mulheres; a ex-mulher apresentou queixa contra ele três vezes, a última há cerca de mês e meio. Pelos vistos, o nosso DJ não aceitou muito bem o facto de a mulher ter pedido custódia total dos filhos, um de seis anos e outro de ano e meio. Fez um escândalo à porta do prédio, ameaçou matá-la e chamaram a polícia. Mas não, não tem qualquer ligação com drogas, nem como consumidor. Acho que podemos excluir essa hipótese.” concluiu.
Pois!” repetiu Leandro “ Temos que falar com a ex-mulher. Sabes onde vive?”
" Sim, mandei alguém buscá-la e está na sala de interrogatório." disse o Bernardes, sorridente.
Quando entram na sala, a primeira coisa que Clotilde Roseira perguntou foi:
Aconteceu alguma coisa aos meus filhos???
Não, não. Tenho a certeza de que os seus filhos estão bem. É com o seu ex-marido.” disse Leandro e Clotilde suspirou aliviada.
O que se passa com o Telmo? Se isto é algum esquema da parte dele, está tudo definido pelo Tribunal...” defendeu-se.
Não, o seu ex-marido foi encontrado morto esta madrugada no bar onde costumava tocar.” explicou o Sargento Bernardes “ Sabemos que a Senhora apresentou várias queixas contra ele, que ele ameaçou matá-la...”
E pensa que eu o matei?” interrompeu Clotilde indignada, mas Leandro interveio:
Não, são perguntas de rotina. Como a Senhora esteve casada com ele e apresentou queixas na Polícia, gostaríamos de ter mais detalhes."
Mas Clotilde abanou a cabeça e apenas confirmou o que o Bernardes tinha apurado no Tribunal de Família.
Não, nem sequer sabia que ele trabalhava naquele bar. Só tinha notícias dele através do advogado e pelas piores razões.
Mas, afinal como morreu?” perguntou no fim da entrevista.
Foi encontrado com uma seringa no braço no vestiário do bar onde tocou ontem à noite.” esclareceu o Sargento Bernardes “ Sabe porquê?”
Uma seringa no braço? Pensam que foi overdose? “ espantou-se Clotilde “ Não, não... Ele desprezava esse tipo de coisa... Mas tudo pode acontecer.” suspirou “Já falaram com o Miguel? O Miguel Fontes?”
Miguel Fontes? O proprietário do Bar?“ repetiu o Sargento Bernardes, consultando as notas.
Clotilde olhou-o, incrédula e Leandro suspirou, pensando que o caso era mais complicado do que pensava.
Quando ela saiu, Leandro permaneceu sentado uns minutos e Bernardes não se atreveu a interromper.

CONTINUA

quinta-feira, 6 de abril de 2017

O DJ - O NOVO CASO DO INSPECTOR LEANDRO - PARTE IV



O vestiário era uma sala quadrada, com um sofá encostado a uma das paredes. As outras duas tinham cacifos e a quarta tinha um balcão a todo o comprimento. A equipa técnica tinha marcado o local onde estava o corpo e Leandro lembrou-se do que a gerente tinha dito sobre isso.
... encostado à parede...” Como, se havia ali aquele balcão e aparentemente o corpo não tinha qualquer golpe e não havia ali vestígios de sangue?
Marcas de arrastamento? “ perguntou ao técnico, mas este abanou a cabeça e continuou a fotografar.
Leandro ficou pensativo uns minutos e resolveu ir directamente até ao Instituto de Medecina Legal. Talvez já lhe pudessem dar alguns pormenores, mas a médica-legista riu-se:
Oh, Inspector Leandro, acabo de receber o corpo. Só lá para o fim da manhã, princípio da tarde... O Senhor está sempre com muita pressa!” queixou-se.
Há qualquer coisa estranha nisto!” justificou-se Leandro, mas a médica não ficou convencida.
Há sempre qualquer coisa estranha nos seus casos, Inspector!” argumentou.
Entreguem a roupa à equipa técnica, ok?” recomendou Leandro e a médica fez um gesto exasperado:
Senhor Inspector, sabemos muito bem qual é o protocolo!” e saiu da sala.
Leandro respirou fundo para acalmar e saiu para a rua já cheia de gente apressada e de carros.
Quando chegou ao escritório, só lá estava o Torcado que encolheu os ombros à pergunta muda de Leandro. Não, não sabia onde estava o Tavares e muito menos o Bernardes.
O sargento apareceu uns minutos depois e apressou-se a dizer:
Calma, chefe. Já pedi as informações bancárias e os registos telefónicos do bar. E o Tavares está a contactar a empresa de segurança que trata do bar. Vou agora contactar o tal Miguel e marcar uma entrevista para hoje à tarde.” acrescentou.

CONTINUA

segunda-feira, 3 de abril de 2017

O DJ - O NOVO CASO DO INSPECTOR LEANDRO - PARTE III



O Sargento Bernardes fechou a porta e disse:
Muito segura de si, não é ? Será que esconde alguma coisa?” falou mais para si do que para o inspector que lhe pediu:
Investiga as finanças do bar; não é ela quem trata da parte administrativa do bar? Vê o que descobres mais sobre ela e o sócio, Miguel... “
Miguel Fontes” terminou o Sargento “ Vai interrogar agora o barman? Ou vai ver o local?” perguntou.
Manda entrar esse tal Russo!” suspirou Leandro.
O barman não tinha mais do que 30 anos. Era franzino; a camisa branca parecia grande demais para ele. Tinha um olhar vivo, observador e a alcunha vinha do cabelo ruivo.
Depois das perguntas rotineiras (idade, anos de trabalho no bar, etc), Leandro pediu:
Já conhecia este Dj Macabro? O que me pode dizer sobre ele?”
De nome. Pessoalmente, só quando começou a actuar cá. Chamou mais gente...” acrescentou o barman.
Novos clientes? O “Mad” Joe referiu-se à música dele como “magie noire”; o que é que ele quis dizer com isso?”
O Russo riu-se e disse: “ De magia, não tinha nada! Era puro teatro; brincava com luzes, por vezes, aparecia vestido de esqueleto e misturava música clássica com a moderna. O pessoal delirava e só fazia disparates...”
Ele conversava com os clientes? O que é que estes diziam dele? “ Leandro consultou as notas e repetiu: “ O “Mad Joe” também disse que o ambiente é diferente nos outros dias. Mais calmo, mais familiar. Concorda com ele?... Vá lá, Russo, você é o barman e as pessoas falam consigo!” insistiu Leandro ao ver que ele hesitava.
É, era muito arrogante e vaidoso. E, se notava que as pessoas não gostavam da música, tratava-as tão mal que algumas só apareciam cá nos dias em que ele não actua. Com as mulheres... era um verdadeiro biltre!” desabafou o Russo.
OK... Sabe se estava metido em drogas?” perguntou Leandro.
Não, não ouvi falar nada. Se houvesse alguma suspeita, creio que o Miguel não o contrataria. “ Russo bocejou e fez a mesma pergunta do “Mad” Joe:
Vai demorar muito, inspector? Tenho um workshop esta tarde e queria dormir um bocado. 
Leandro fechou o bloco de notas, fez sinal ao Sargento e levantou-se.Não, para já é tudo. Deixe os seus contactos com o Sargento; é natural que haja mais perguntas.” e depois de apertar a mão ao barman, saiu para ver o local do crime.

CONTINUA

sábado, 1 de abril de 2017

O DJ - O NOVO CASO DO INSPECTOR LEANDRO - PARTE II



O inspector tossiu e perguntou:
Margarida Nunes, gerente. Há quantos anos trabalha cá?”
Margarida sorriu amavelmente e numa voz baixa, educada respondeu:
Desde que o bar abriu, há 5 anos. Sou responsável pela parte administrativa – contactos com fornecedores, bancos, pessoal, etc. Geralmente, não faço noites, mas ontem, o Miguel, o meu sócio estava doente e pediu-me para vir.”
Tem, portanto uma quota do negócio?” e Margarida confirmou com um aceno. “ Foi a senhora que contratou o Dj? Conhecia-o bem?”
Não, muito mal, poucas vezes falei com ele. Foi o Miguel quem teve a ideia de organizar noites temáticas e encarregou-se de tudo – aluguer de equipamento, contratar cantores, DJ's, etc. Qualquer problema relacionado com esses eventos é o Miguel que resolve. Apenas fiscalizo a papelada!” acrescentou com um sorriso.
Certo, falaremos então com o Miguel. Descreva-me o que se passou ontem.” pediu o inspector.
Cheguei por volta das 23h; o Dj tinha começado o show, mas eu não fiquei a assistir. Fui para o escritório, estive a rever uns relatórios e voltei à sala por volta da uma da manhã. O show tinha terminado e sentei-me na mesa de umas pessoas conhecidas e tomei uma bebida com eles. Eles foram-se embora por volta das duas e meia e eu voltei para o escritório. Continuei a trabalhar até o Joe me chamar e pedir para ligar à polícia.” concluiu.
Viu o corpo? “ e a gerente hesitou antes de responder “ Sim, vi até porque o Russo duvidou do Joe e eu tive que intervir para não haver uma discussão idiota. Por isso, fomos os três até ao vestiário e lá estava ele, encostado à parede, com a manga arregaçada e a seringa presa.”
O vestiário é só o pessoal ou para os clientes também?” interveio Leandro, sem saber muito bem o que pensar deste novo relato muito claro, muito calmo, nada emocional.
É só para o pessoal... Posso fazer-lhe uma pergunta, inspector?... Vamos ter que fechar o bar por muitos dias? É que se factura bastante ao fim de semana...” observou Margarida
Leandro olhou-a cautelosamente. A gerente voltou a sorrir, mas Leandro notou que só ficou nos lábios.
Lamento, mas este fim de semana vai ficar fechado. Depois avisamos quando podem voltar a abrir. Obrigada; deixe o seu contacto com o meu sargento. Podemos ter mais perguntas para si.” repetiu Leandro, cansado de repente.
Margarida levantou-se e saiu tão discreta como entrara.

CONTINUA

quinta-feira, 30 de março de 2017

O DJ - O NOVO CASO DO INSPECTOR LEANDRO


O inspector Leandro não entendia a razão das pessoas escolherem alcunhas como “Mad” Bastos, “Red” Zé ou “Top” Ventura.
Mas ali estava ele, naquele bar deserto ainda com vestígios da loucura da noite, sentado em frente de um segurança conhecido como “Mad” Joe.
Mad, hem? Pavio curto é? “ perguntou irónico, mas o segurança esboçou um sorriso e comentou:
Não, chefe. Sou muito calmo! O meu físico impõe respeito!” e riu-se.
Leandro sorriu e concordou com ele. Devia ter mais de um metro e noventa de altura e devia passar horas no ginásio para ter aqueles músculos.
Conte-me o que aconteceu ontem à noite. Quem é este...” parou um momento para consultar o bloco que tinha aberto à frente dele “ DJ Macabro?”
É o responsável pela música às 5ªs Feiras. Escolhe umas músicas estranhas, chama-lhes “magie noire” e o pessoal fica louco. Gritam, dançam e ontem até tive que expulsar uns 4 ou 5, porque umas raparigas queixaram-se que as estavam a assediar...”
Isso é habitual?” interrompeu Leandro e o “Mad” Joe encolheu os ombros, continuando:
Acontece, não vou negar, mas o ambiente é diferente nos outros dias. Mais calmo, mais familiar. Bem, a música começou por volta das 23 horas; durou cerca de hora e meia e vi-o tomar uma bebida com um grupo... Entretanto, chamaram-me e fui lá para fora vigiar a porta de entrada. O bar fechou às cinco da manhã, com os atrasados só às cinco e meia é que tranquei a porta. “
Certo! Além de si, quem ficou cá?” perguntou o inspector.
O barman, Russo e a gerente, Margarida. O Russo estava a preparar as Máquinas de Lavar e a Margarida estava no escritório a fechar a caixa, penso eu. Fiz uma ronda pelas instalações, recuperei copos (as pessoas deixam-nos nos lugares mais incríveis), verifiquei as casas de banho e os vestiários. E foi aí que descobri o corpo. Avisei logo a Margarida e ela chamou a polícia.” Calou-se e endireitou-se na cadeira, olhando Leandro nos olhos.
Não tem nada a esconder; está a dizer a verdade!” pensou Leandro que aclarou a garganta antes de falar.
Mas o “Mad Joe” interrompeu-o: “ Oh, chefe, ainda vai demorar muito? Tomo sempre o pequeno-almoço com a minha filha e depois levo-a à escola.” explicou, ansioso.
Sim, sim. Deixe o seu contacto ao Sargento Bernardes quando sair. Podemos ter outras perguntas para si.” concordou Leandro que fez sinal ao sargento.
 O “Mad” Joe agradeceu-lhe com um aperto de mão e saiu rapidamente do local.
Então, chefe? “ questionou o Sargento Bernardes.
Um relato muito claro, Bernardes e não, não me parece que tenha alguma coisa a ver com isto. Mas nunca se sabe, nunca se sabe!” confessou Leandro. “ Vou falar com a gerente, Margarida, não é?”

É, sim, chefe. Vou buscá-la.” E desapareceu, trazendo minutos depois uma mulher com cerca de 40 anos, vestida discretamente. 
Tinha cabelos ruivos compridos, uma pele muito sardenta e uns olhos verdes que cativaram Leandro de imediato. Sentou-se elegantemente e esperou que Leandro falasse.

CONTINUA

segunda-feira, 27 de março de 2017

JACINTO - O FIM


Nas semanas seguintes, estou tão ocupado que nem penso no Francisco. 

Pobre miúdo! Quem sabe se ele não gostaria de cuidar de uma planta? Ou ajudar-me aqui no jardim?

Naquela manhã, estou a preparar os canteiros para plantar as roseiras quando ouço alguém a abrir o portão.

" Talvez seja um dos filhos da viúva!"  penso e recrimino-me de imediato " Que mania de lhe chamar viúva! D.Sofia! Sofia, Sofia..."

" Bom dia!" e reconheço de imediato a voz da mãe do Francisco. 

Viro-me e lá está ele de calções de ganga e um polo vermelho.

Sorridente, é certo, mas não se precipita ao meu encontro. Segura a mão da mãe e se bem que esteja a olhar para mim, não sei se me reconhece.

" Olá, Francisco! Vieste ver o jardim ou vens ajudar-me?" digo.

Francisco solta a mão da mãe e caminha devagarinho até onde estou. 

Levanta o rosto, olha-me nos olhos, sorri e enfia a mãozinha na minha.

Espantado, procuro o olhar da mãe que me tranquiliza, dizendo:

" Confia em si! Tem um amigo para a vida! Pode ficar aqui uma meia hora, uma hora no máximo? " pede.

" Oh, sim!" concordo e com a mão do Francisco segura na minha, mostro-lhe um monte de pedras com que tenciono marcar o canteiro das ervas aromáticas.

" Agora, vais colocar as pedras aqui." exemplifico e o Francisco pega numa pedra e coloca-a no mesmo alinhamento da outra.

" Isso mesmo!" elogio-o e deixo-o a trabalhar. De vez em quando, espreito para ver como vai o trabalho e vejo que ele está profundamente concentrado.

Quando termina, toca-me no ombro e sem uma palavra, ajoelha-se ao meu lado. Mete as mãozinhas na terra, cobre um bocadinho da raiz da roseira e olha-me.

" Ok, tapa bem, não pode ficar nada à mostra! Muito bem, é isso mesmo!" explico.

Quando a mãe chega, estamos os dois sentados num dos bancos do jardim a beber um sumo que a D Sofia nos trouxe.

Tenho pena de o ver partir, mas de vez em quando, a mãe deixa-o ficar a trabalhar comigo.

Diz que ele está muito feliz  e mais atento. 

" Nem sempre é fácil interessá-los pelas coisas. Vivem num Mundo muito deles. É muito bom vê-lo assim." confessa-me um dia.

Eu também estou feliz; sinto que o Francisco me compreende e que fiz um amigo para a vida...  

Quanto à D Sofia, segui o conselho da minha Mãe e dei-lhe um jardim maravilhoso...

FIM
 

      

quinta-feira, 23 de março de 2017

JACINTO - PARTE IV


" Ele não fala muito.. Tem um temperamento especial..." desculpa-se a mãe " Vamos deixá-lo trabalhar. Muito obrigada por tudo." e estende-me a mão que aperto.

" Adeus, Francisco. Volta sempre que quiseres!" mas o miúdo não me olha e eu não sei se me ouviu.

Enquanto trato das orquídeas, penso no que a mãe disse.  Não fala muito? Temperamento especial?

Mudo? Autista? Asperger? Qual deles? Inclino-me mais para autismo. Pobre miúdo! lamento, mas entretanto, a viúva chama-me e passo o resto da tarde a falar dos meus planos para o jardim.

Ela concorda que plante arbustos perto do muro e fica entusiasmada quando lhe conto que vou plantar novas roseiras.

" Ah, vai ser muito bom ver este jardim novamente com vida!" confessa-me " A paixão dele eram as orquídeas, mas manteve sempre o jardim limpo e florido. Obrigada!"

Não respondo...  Não sei verdadeiramente o que dizer...

" Não digas nada!" aconselha-me a minha Mãe quando lhe conto o que se passou " Dá-lhe o jardim mais bonito do Mundo para que ela se sinta em paz!"

CONTINUA

segunda-feira, 20 de março de 2017

JACINTO - PARTE III


" Pronto! Já está! " digo e o miúdo olha-me sorridente.

" Não é melhor ires para casa? A tua mãe não estará preocupada?" pergunto, mas não obtenho qualquer resposta.

Ele continua a olhar-me e percebo que está feliz. 

Feliz porque esteve a fazer um monte de folhas? Estranho! penso, mas sorrio também.

" O Senhor desculpe..." diz uma voz por trás de mim.

Viro-me e vejo uma senhora loira, com um ar aflito encostada ao portão.

" Viu um menino ruivo com uns calções azuis e uma T-Shirt Branca?"  continua com a voz alterada.

Nesse instante, o miúdo espreita também e a senhora relaxa.

" Oh, Francisco! Tenho andado à tua procura! Não podes fazer mais isto!" e quando lhe abro o portão, entra e ajoelha-se em frente do miúdo.

Dá-lhe um forte abraço e depois um pequeno safanão.

" Não podes fazer mais isto!" repete e eu explico:

" Encontrei-o aqui com outros miúdos a brincarem neste monte de folhas. Os outros fugiram, mas ele ficou a ajudar-me. Ele não respondeu às minhas perguntas, caso contrário já o teria levado a casa."

CONTINUA

sexta-feira, 17 de março de 2017

JACINTO - PARTE II


Preciso de cortar a relva, mas primeiro varro. 

Há um canteiro com ervas aromáticas e outro com rosas.  

Há um outro canteiro que parece estar vazio; amanhã tenho que perguntar se posso plantar qualquer coisa.

Talvez amores perfeitos... Ou rosas de outra cor....

Faço um monte com as folhas perto do portão das traseiras que dá para o parque.  Saio por lá; gosto de passear pelo parque, às vezes fico a conversar com os jardineiros.

No dia seguinte, encontro uns miúdos a brincar no monte de folhas.  O muro é baixo e devem ter saltado.

" Ah, pestes! Fora daqui!" grito mesmo de antes de abrir o portão.  

São quatro e devem ter uns 8, 9 anos e olham-me divertidos.  Riem-se e saem pelo portão a correr.

" E não voltem!" digo e só então é que reparo que um deles ainda está sentado no monte de folhas.

" Não me ouviste? Vai-te embora!" mas o miúdo apenas sorri e não obedece. Levanta-se quando me aproxima, mas não fala.

" Agora tenho que juntar as folhas novamente! O que é que vocês aprendem na escola? Não respeitam o trabalho dos outros?" resmungo e começo a juntar as folhas.

Fico surpreendido quando o vejo fazer o mesmo.

CONTINUA

terça-feira, 14 de março de 2017

JACINTO


Jacinto Jardineiro.... A alcunha ficou e até a minha Mãe me chama assim...

Houve uma altura em que isso me incomodava, mas a verdade é que sou um jardineiro e adoro o que faço.

A minha verdadeira paixão são as orquídeas e uma senhora viúva contratou-me recentemente para tomar conta da estufa do marido.

Diz ela que não é capaz de as destruir; seria uma traição à memória do marido. 

" Mas também não sei como as tratar..." confessa " Era o Mundo dele e só se entrava aqui por convite." conta com um sorriso muito triste.

Tenho carta branca para fazer o que quiser. Mas eu respeito as orquídeas e estas foram muito amadas.

Quero continuar o trabalho do velho senhor e por aqui, aqui estou longe do Mundo.

Numa estufa perfeita no meio de um jardim bem cuidado que exploro cuidadosamente.

CONTINUA

sábado, 11 de março de 2017

LOUCURA TOTAL - FIM



" Como? Que história é essa? Explica-te, Bernardes!" exige Leandro.

" O Torcato gosta desse tipo de livros e como é fã da dupla, resolveu investigar. Há um livro, " A Cor" em que a protagonista morre, não há sinais visíveis de estrangulamento ou tiros. Concluí-se na autopsia que...." conta Bernardes, mas o telefone  interrompe-o.

Leandro atende; é o médico legista com resultados e Bernardes nota que o inspector fica perturbado.

" Então? " pergunta o sargento. Leandro demora uns segundos a responder e quando o faz, surpreende-o:

" Nesse livro, a protagonista morre de choque anafilático? "

" Exactamente!" confirma o Bernardes. " Mas o que aconteceu? A Teresa Emanuel morreu disso? "

" Ao que parece, era alérgica a ibuprofeno e deve ter tomado alguma coisa com isso na composição. " diz Leandro lentamente " Como é que vamos provar isso? Alguém lho deu?...
Mas ela era capaz de perguntar se tinha ibuprofeno... Ou estava na carteira dela e ela pensou ser o comprimido que tomava habitualmente." concluí Leandro.

" Ups! Vai ser complicado provar isso!" concorda Bernardes, mas Leandro está pensativo e não o escuta.

Tem quase a certeza de que foi Luisa. Afinal, as duas moravam na mesma casa e era fácil para Luisa colocar o comprimido na carteira da amiga.

Desviar as atenções dela para o ex-marido ausente tinha sido um golpe de mestre. Mas porquê? A não ser que o ex-marido também fizesse parte do plano...

" Oh, Bernardes, quem são os suspeitos no livro? " quer saber Leandro.

" O marido e a irmã. São amantes e querem ficar com a fortuna dela. O que é que está a pensar? Que foi a Luisa e o Tomás que engendraram tudo? " murmura Bernardes.

Sim, coincidência ou o crime perfeito? Na mente organizada de Leandro, tal não existe.

Terá que dar o caso como concluído.... 

Mas nunca se sabe o que acontecerá e tanto o Tomás como a Luisa podem dar um passo falso.


FIM 

quarta-feira, 8 de março de 2017

LOUCURA TOTAL - PARTE VI


Despedem-se e saem para a rua. Leandro dá instruções claras ao Bernardes: quer ter detalhes sobre a situação financeira de Teresa, de Luisa e da editora.

Enquanto Bernardes investiga, Leandro vai ter com o médico legista e este diz-lhe que a autópsia é inconclusiva.

Tem a certeza de que não morreu de ataque cardíaco, mas não pode adiantar mais nada.
Vai fazer mais alguns testes, mas não espera ter grandes resultados.

 " Este caso vai ser um beco sem saída. Mas porque é que a agente gritou que ela foi assassinada?" e com isto em mente, entra no gabinete.

O Bernardes está ao telefone, mas faz-lhe sinal de que tem novidades.

" Segundo informações da antiga editora, a Teresa Emanuel ainda recebe royalties dos livros que escreveu em parceria com o ex-marido. É esse dinheiro que está a sustentar a editora que abriu juntamente com a Luisa. Com o sucesso do 1º livro, recebeu uma proposta... " Bernardes cala-se por uns segundos, lê os apontamentos e recomeça:

" ... de uma grande editora o que lhe permitiria ter uma maior margem de manobra em termos financeiros e logísticos. Além disso, embora seja apenas um rumor, a editora até está disposta em "absorver" a da Teresa..."

" O que a Luisa não gostaria nada... " interrompe Leandro.

" Pois não.  Porque o outro rumor é que a Luisa foi despedida por ter desviado fundos e está cotada como "persona non grata" no mundo editorial!" anuncia triunfante Bernardes.

" Se sabia disso, pode ter engendrado uma forma de se livrar da Teresa..." concluí o inspector. 

" Se o fez, inspirou-se no enredo de um dos livros escritos pela dupla Teresa/Tomás..."  continua o sargento, sorrindo.

CONTINUA 

domingo, 5 de março de 2017

LOUCURA TOTAL - PARTE V


Aquele arranhão no dedo intriga Leandro, mas acha que nem o médico legista vai responder à pergunta que não o deixa em paz.

Mas são quase onze horas e a agente está à espera deles.

Chama-se Luisa, é baixinha e um pouco roliça.  Tem uns olhos pretos muito vivos e um sorriso cativante.

A primeira pergunta é: " Foi assassinada, não foi?" e parece desapontada quando Leandro diz que estão apenas a confirmar depoimentos.

" A senhora e a Teresa Emanuel eram amigas?" questiona Bernardes.

" Sim, amigas de infância. Fomos juntas para a Universidade, frequentamos o Curso de Literatura e Línguas Modernas e trabalhamos durante algum tempo na mesma editora. Entretanto, ela conheceu o Tomás e saiu. Eu continuei lá.... Mas já falaram com o Tomás? Tenho a certeza de que foi ele..." interrompe.

Leandro sorri calmamente e explica pacientemente: " Como disse, estamos a confirmar depoimentos. Preciso de conhecer um pouco mais a Teresa..."

" Mas..." insiste Luisa e Bernardes replica: " Sabemos que eles escreviam livros em parceria e separaram-se. A Teresa explicou-lhe o motivo? "

" O Tomás era, é muito ciumento e a Teresa pouco ou nada escreveu nos dois últimos livros da série. Quando se separaram, a Teresa veio morar comigo. Fiquei desempregada, entretanto e como tenho vários contactos no mundo editorial e a Teresa não queria publicar com uma editora conhecida, resolvemos abrir uma. O livro de estreia da Teresa foi um sucesso... Mas não entendo estas perguntas! Foi o Tomás quem a matou, tenho a certeza!" explode.

" Como pode ter tanta certeza?" pergunta Leandro " Há várias testemunhas que dizem que a senhora gritou isso bem alto. Mas o que a leva a dizer isso? Nós ainda não temos o resultado da autópsia... "

" E o ex-marido está na Argentina e só regressa dentro de dois dias." acrescenta Bernardes.

Luisa fica calada e cora violentamente.  Abre a boca para dizer qualquer coisa, mas o olhar de Leandro é tão frio que desiste.

CONTINUA

quinta-feira, 2 de março de 2017

LOUCURA TOTAL - PARTE IV


Enquanto janta, faz uma pequena lista do que deverá ser feito, mas quando chega ao gabinete na manhã seguinte, o Sargento Bernardes já tomou algumas providências.

" A agente já teve alta e pode receber-nos hoje às onze. Ainda não consegui localizar o ex-marido e o médico legista diz que podemos passar por lá depois das quinze horas." relata o sargento.

" E as análises à garrafa e ao copo? " pergunta Leandro, mas o telefone toca nesse momento  e o Bernardes atende.

Leandro senta-se à secretária e assina alguns documentos. O Sargento aparece alguns minutos depois e diz:

" Era a editora responsável pela publicação dos livros do ex-marido. Ele está na Argentina, a fazer pesquisa para o próximo livro e deve regressar dentro de dois dias. Pedi-lhes para nos contactarem quando tiverem confirmação do dia de chegada... O que é acha, chefe? "

" Não sei... Temos que esperar pela autópsia e a análise da garrafa e do copo. Pode ser que confirme a versão da agente." opina Leandro " Viu o golpe no dedo dela? "

O Sargento confessa que não e Leandro pede-lhe para localizar o fotografo. Quer ver as fotos antes de sair.


CONTINUA

domingo, 26 de fevereiro de 2017

LOUCURA TOTAL - PARTE III


Entregam ao sargento a garrafa desaparecida que este, juntamente com o copo, manda para análise.

" Para confirmar a possibilidade de veneno!" murmura Bernardes, mas Leandro está céptico.

Pede para falar com a gerente e os dois sentam-se num dos recantos da livraria perto do café que está já fechado.

" Disseram-me que a Teresa Emanuel escrevia em parceria com o marido, que estão agora separados." pergunta o inspector.

Dolores sorri e confirma: " Tomás Bento. Uma dupla de sucesso. Livros policiais, o Detective Lucas era a personagem principal... Conhece?" e perante o aceno afirmativo de Leandro, continua: "  Depois, separam-se e seguem rumos completamente diferentes. Ela com livros românticos e ele sobre viagens."

" Sabe a razão da separação? Profissional e pessoalmente, ao que parece?"  comenta Leandro.

Dolores volta a sorrir e Leandro repara que ela está perfeitamente calma.

" Creio que não o posso ajudar. Houve muitos rumores sobre o assunto, mas não sei nada de concreto. Apenas posso dizer isto: o Tomás continua a trabalhar com o mesmo agente e editora e a Teresa investiu numa editora nova, que é a responsável pelo lançamento dos livros dela e de outros novos autores."

Leandro toma nota dos nomes, agradece-lhe a paciência e colaboração e fazendo sinal a Bernardes, saí.

Já passa das nove e Leandro resolve jantar num restaurante ali perto.

CONTINUA