domingo, 22 de outubro de 2017

DESCOBERTAS - PARTE V


" Sim, Letícia, tem calma!" aconselha o Luis também irritado " A Esmeralda ainda não sabe bem o que vai fazer e tu estás já a armar confusão."

Letícia senta-se contrariada e mal toca na comida que os outros apreciam imenso.

A Esmeralda responde calmamente às perguntas dos dois homens. Mas pouco fala sobre o passado, embora lhe peça desculpas se os ofendeu de alguma coisa.

Joaquim pergunta-lhe se ainda canta o fado.

" Fado??? " Esmeralda ri-se " Nunca mais! Foi um sonho ridículo e quase me destruí. E, não vale a pena!" acrescenta.

" Mas ajudou-te a definir prioridades!" comenta o Luis.

" Ah, sim, ainda tenho um longo caminho, mas está tudo a correr bem. Não posso é desistir!" responde a antiga fadista.

Letícia não se contém e diz pausadamente:

" Não acredito em ti! Não quero as tuas desculpas, não quero saber do teu negócio, não te quero ver mais! E, NÃO TE ATREVAS A DAR-ME CABO DO NEGÓCIO! ESMAGO-TE!!!" e afastando a cadeira, abandona a mesa e o restaurante.

 Os outros três olham-se, confusos. 

Minutos depois, a Esmeralda pede desculpas e saí também.

CONTINUA

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

DESCOBERTAS - PARTE IV


Para quem tinha tão mau gosto, a Esmeralda está decididamente diferente.

Calças pretas de corte clássico; uma túnica estampada em tons de branco e vermelho e os acessórios em vermelho.

Se está maquilhada, é muito discreta e o corte de cabelo é moderno e assenta-lhe bem ao formato do rosto, repara o Luis.

Em contrapartida, a Letícia exagerou no vestuário e na maquilhagem. 

" O que se passa? " sussurra o Luis, mas o Joaquim abana a cabeça e aconselha baixinho: " Não queira saber..."

" Então, Esmeralda, quais são os teus planos? "  diz alto o Luis.

" Estou a pensar em abrir novamente a banca no Mercado. Com doces, claro, mas vou introduzir algumas mudanças. Vou utilizar ingredientes naturais como o mel, ervas aromáticas..."

" O QUÊ? " interrompe a Letícia, assustando os outros clientes " Vais fazer-me concorrência? " 

Esmeralda fica surpreendida e explica: " Não, não. Não é gourmet; é apenas uma outra forma de fazer bolos. Conheci alguém que cultiva ervas aromáticas e que está interessada em investir noutra maneira de as apresentar no mercado. Mas ainda estou a estudar o assunto." acrescenta.

" Eu já sabia!" explode Letícia " Deste cabo da vida do Jacinto e pelos vistos, do Tadeu e agora, queres dar cabo da minha!" e levanta-se.

Mas Joaquim impede-a, segurando-lhe a mão com força.

" Senta-te já!" ordena.



 CONTINUA

terça-feira, 17 de outubro de 2017

DESCOBERTAS - PARTE III


Esmeralda regressa à pensão discreta onde se hospedou.

Joaquim e Letícia discutem calorosamente. Ele quer ouvir o que a Esmeralda tem para dizer; ela recusa-se.

Quando o Joaquim tem a ousadia de sugerir que a contratem para trabalhar na loja (precisam de uma outra doceira), a Letícia fica muito corada e fecha-se à chave no quarto.

Joaquim suspira e faz a cama no sofá.

Quanto ao Luis Abençoado, vai passear com o cão. A vizinha faz-lhe companhia e passam meia hora a discutirem as raças, os hábitos alimentares e afins dos cães.

Quando regressa a casa, depois de dar de comer ao cão, resolve telefonar ao Tadeu.

Este atende-o à primeira tentativa e fica verdadeiramente surpreendido quando sabe que a Esmeralda regressou à vila.

" Ela está bem? " pergunta " Sim, ela esteve aqui no Bar para me pedir desculpa, mas não disse nada sobre um possível regresso."

" Pois, está cá e já está a armar confusão com a Letícia." confirma o Luis " A Letícia é teimosa, não sei como vamos resolver o assunto. Eu  estarei presente para apaziguar os ânimos. Se bem que não compreenda muito bem o porquê da Esmeralda querer pedir desculpa à Letícia e ao Joaquim..."

Despedem-se e no dia seguinte, como combinado, encontram-se para almoçar na Tasca da Vila.

CONTINUA
 

domingo, 15 de outubro de 2017

DESCOBERTAS - PARTE II


" O passo nove." responde Esmeralda.

" Ah, compreendo!" diz o Luis.

" O que é isso?" indaga a Letícia, mas o Luis interrompe-a: " Estás, então, a pedir desculpa a quem ofendeste?"

" Sim." confirma a antiga doceira " Já falei com o Tadeu; ele ajudou-me muito. Não apresentou queixa quando lhe dei o tiro...."

" O QUÊ?" grita a Letícia " Deste um tiro ao Tadeu? Também nos vais dar um tiro??? É preciso ter lata..."

" Oh, Letícia, tem calma." atalha o Joaquim " Deixa a Esmeralda falar! Isto está a ser difícil para ela...."

" Difícil para ela? E, para mim? " reage a namorada " Encobri-a, ajudei-a na banca e ela quase arruína as nossas vidas...."

Esmeralda começa a chorar e o Luis apressa-se a intervir.

" Calma, muita calma! Estamos todos muito exaltados. É melhor falarmos amanhã! O que dizem?" 

Os outros concordam... 

Está a ser um encontro muito emotivo e precisam realmente de pensar em tudo o que aconteceu.


CONTINUA

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

DESCOBERTAS


" Ai, meu pobre Jacinto!" lamenta-se Esmeralda.

" Meu Pobre Jacinto?" repete, indignada a Letícia " Trataste-o abaixo de cão e dizes isso??? " o que faz com que Esmeralda chore ainda mais.

" Oh, Letícia, tem calma!" aconselha o Joaquim e o Luis abana a cabeça em sinal de concordância.

O relógio marca sete e meia da tarde; a loja está fechada e a Letícia preparava-se para a limpar quando a Esmeralda bateu à porta.

O Joaquim abriu-lhe a porta e estavam os três sentados na cozinha a beber chá e a comer os últimos bolos quando o Luis apareceu.

Não sabem o que pensar ou dizer... Nem sequer sabiam que a Esmeralda tinha regressado e porque é que os procurava agora.

Ela tinha-lhes perguntado pelo Jacinto e quando soube, desatou num pranto que os tinha assustado. Ao Joaquim e ao Luis, porque a Letícia não estava disposta a perdoar nada.

" Diz-me uma coisa, Esmeralda " pergunta Luis, suavemente " O que aconteceu para procurares agora o Jacinto?"

CONTINUA

terça-feira, 10 de outubro de 2017

MORTE SUSPEITA - O FIM


Chama os técnicos e pede igualmente a presença de um colega da Brigada Anti-Roubo.

Lembra-se de uma conversa que teve com o Inspector Guilherme da Brigada há umas semanas e deste lhe ter explicado as várias formas de fazer contrabando de pedras preciosas.

Talvez as tenham escondido nos vasos das rosas; talvez o Jacinto tenha desconfiado de alguma coisa e resolvido averiguar antes de avisar as autoridades.

Ou talvez ele próprio estivesse envolvido.

Toda a gente lhe disse que ele era um homem honesto, mas Leandro não pode rejeitar qualquer hipótese.

Há várias hipóteses a confirmar; terá que trabalhar com a Brigada Anti-Roubo.

O primeiro a interrogar será o Mestre Vicente e falar novamente com o Ernesto não é uma má ideia.

Mas o Bernardes só encontra o Ernesto.  O Mestre Vicente desapareceu sem deixar nova morada.

O que levanta grandes suspeitas...

Coitado do Jacinto! Se calhar, morreu a defender o que achava ser unica e exclusivamente seu:

O jardim...


FIM

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

MORTE SUSPEITA - PARTE V



" Como compreende, este caso é muito delicado." começa o Padre Antunes " Estamos certos de que serão discretos. O Senhor Bispo pediu-me para lhes dizer que estamos à vossa disposição."

" Faça o favor de assegurar o Senhor Bispo que estamos a fazer todas as diligências para sermos rápidos na conclusão do caso." afirma Leandro " Contudo, temos poucas pistas. O Jacinto era estimado."

" Sim, um homem bem educado, bom profissional. Sobretudo, muito discreto." confirma o Padre " Não entendo como isto aconteceu. Ainda por cima, no roseiral, um local que ele não frequentava muito."

" Curioso, já não é a primeira pessoa que me diz isto." confessa Leandro.

" O que é que o roseiral tem de tão especial? " murmura e decide ir ver o dito roseiral.

O roseiral fica ao fundo de uma avenida de árvores majestosas. 

À direita, há um labirinto de sebes bem podadas com um pequeno lago no centro.

Nota-se que há ainda trabalho a fazer. Talvez plantar relva, mas Leandro não entende nada de jardinagem.

O corpo já foi removido e o inspector sabe que recolheram também amostras da terra e as rosas partidas.

" O que sucedeu aqui? O que estavas aqui a fazer, Jacinto?" pergunta Leandro e é então que repara num monte de terra.

Terão sido os técnicos ao retirarem o corpo? Não, o corpo estava no centro do roseiral e aqui é o princípio da avenida.

Aproxima-se e vê qualquer coisa a brilhar.  Tira uma luva do bolso e começa a escavar delicadamente.

Não fica surpreendido quando encontra uma pedra semi-preciosa. 



CONTINUA

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

MORTE SUSPEITA - PARTE IV


" Acho estranho o corpo estar no roseiral. O Jacinto interessava-se mais pelas árvores, pelas ditas exóticas. Também sabia muito sobre orquídeas e até convenceu o Bispo a ter uma estufa própria para isso. " diz Ernesto, mudando de posição " Mas as rosas... não lhe diziam nada. Colaborou com o plano, mas sentia-se que não era a sua paixão."

" Portanto, o facto de aparecer morto no roseiral será uma mensagem? É isso que depreende? Para quem? "  insiste Leandro.

" Isso não sei." afirmou o estagiário com um leve sorriso como quem diz " É a tua área. Descobre!" 

" Quem tratava do roseiral? " pergunta Leandro. Olha-o fixamente e Ernesto volta a sentir-se desconfortável. 

" Eu, às vezes e o Mestre Vicente. É um bom tipo, mas um pouco gabarola. Acha que é tão bom como o Jacinto, mas não sabe nem metade ..." concluí Ernesto.

Leandro não tem mais perguntas e prepara-se para chamar o Mestre Vicente quando o secretário do Bispo pede para falar com ele.


CONTINUA

domingo, 1 de outubro de 2017

MORTE SUSPEITA - PARTE III


Ernesto responde calmamente às perguntas.  

Terá uns 25, 30 anos no máximo, calcula Leandro e pergunta-lhe:

" Como era trabalhar com o Jacinto? "

" Sabia o que estava a fazer, sem dúvida. Lia muito sobre o assunto e estava aberto a novas ideias. Aprendi bastante com ele." acrescenta Ernesto.

" O que quer dizer com novas ideias? " interrompe Leandro.

" Estou a fazer o mestrado em arquitetura paisagística e o Jacinto ouvia-me. Depois expunha-me as ideias dele, explicava-me porque resultava ou vice versa. Isso é importante para a minha tese. Vou sentir a falta dele." diz o estagiário.

" Havia alguma tensão entre ele e os outros trabalhadores? Problemas com família, amigos?" insiste Leandro.

Ernesto suspira e comenta: " Lamento, não sei nada da vida particular dele. Nem sei se tem família... e não notei nada de anormal na relação com os outros trabalhadores. Era exigente, mas isto é um trabalho exigente. O que é estranho..." interrompe-se.

" O que é estranho? " inquire o inspector.

Ernesto fica desconfortável; não sabe se há de falar ou não no assunto. Mas está a falar com a polícia e talvez seja melhor contar tudo.

CONTINUA

terça-feira, 26 de setembro de 2017

MORTE SUSPEITA - PARTE II


Mas a Esmeralda está a gozar um momento zen e nem sequer pensa no Jacinto.

Por isso, quem matou o Jacinto? E, porquê?

Ninguém sabe e o Inspector Leandro está preocupado.

Informaram-no sobre a rivalidade entre o Jacinto e o Falcão, o chefe da segurança, mas este desvaloriza a situação.

" Havia o problema dos horários; o Jacinto dizia que a jardinagem não tem um horário fixo e eu tenho um plano a cumprir. " explica o Falcão " Não se trata de rivalidade, mas sim, de objectivos diferentes. Tivemos, sim, uma discussão por causa disso, mas chegamos a um acordo. Ia matar o homem, porquê?" remata.

O Inspector concorda com ele e fala com os outros membros da equipa.

A opinião é geral: o Jacinto era um homem justo, sempre atento ao pormenor e exigente.

" Mas a jardinagem era a paixão dele... Lia tudo sobre o assunto e estava a tentar convencer o bispo a investir em orquídeas." conta o Eduardo, o aprendiz.

" Namoradas, amigas?" interrompe Leandro.

" Não, não lhe conheço ninguém." responde o aprendiz, pensativo 

" Mas não recebia visitas?" insiste Leandro, mas o aprendiz abana a cabeça. Vive fora da propriedade e, como só tem 18 anos, não se mistura com os tipos mais velhos.

Leandro deixa-o ir e pede para falar com o estagiário.


CONTINUA

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

MORTE SUSPEITA


"
MORTE SUSPEITA NOS JARDINS DO BISPO

Esta manhã, os jardineiros ao serviço do bispado depararam-se com um corpo no roseiral.
Trata-se de um homem com cerca de 35, 40 anos que aparentava sinais de espancamento om um objecto ainda não identificado.

Contudo, suspeita-se que seja o Chefe da Equipa de Jardinagem, Jacinto Almeida, mais conhecido por Jacinto Jardineiro.

A polícia está a investigar várias pistas, sendo que o motivo do acontecimento e o facto do corpo ter sido deixado no roseiral está a intrigar as autoridades.

O que foi dito é que Jacinto Jardineiro era um homem afável, trabalhador, mas um pouco solitário.

"

" OH, OH!!!" exclama Letícia, incrédula " O Jacinto... o Jacinto está morto! Oh, Joaquim, o que terá acontecido???" e o Joaquim, que cobiçava o último pedaço de torrada, esquece-a por completo, tal é o espanto.

" O quê??? O Jacinto? O Jacinto que eu conheço... está morto???" pergunta Luis Abençoado ao cão que lhe põe a pata no joelho num gesto solitário.

A primeira reacção do Tadeu Policarpo é " Bem feito!" ainda a lembrar-se da sova que ele lhe deu, mas arrepende-se de imediato.

Coitado, o homem estava magoado com o facto dele, Tadeu, lhe ter roubado a namorada.

" Terá sido a Esmeralda?" pensa.


CONTINUA

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

ABENÇOADO - FIM


A Letícia tem razão.

O Jacinto encontrou o Tadeu e a Esmeralda aos beijos em plena rua em Lisboa e chovem insultos e socos.

Conclusão: O Tadeu e a Esmeralda ficam em Lisboa e o Jacinto, que parece estar mais envergonhado que os " traidores", resolve aceitar o convite do Bispo e fica em Lamego.

Sei disto porque resolvo visitar o pobre rapaz e dar-lhe um pouco de conforto.

Mas, embora pareça estar satisfeito com a minha visita, sinto que quer distância do passado.

Por isso, volto a casa, um pouco desiludido por não o conseguir ajudar.

Mas posso ajudar a Letícia e o Joaquim com a sua loja gourmet.

Empresto-lhes o capital necessário para o fazerem e estão a ter um grande sucesso.

O Joaquim está a acabar o curso de Gestão e Marketing e a Letícia resolveu frequentar um Curso de Culinária, pois o objectivo a longo prazo é abrir um catering.

Pagam-me todos os meses uma quantia para reduzir o valor do empréstimo e estão felizes.

Eu?

Eu estou mais interessado na vida, se bem que, às vezes, lembro-me de tudo o que me aconteceu e bebo demais.


FIM

domingo, 17 de setembro de 2017

ABENÇOADO - PARTE IV


Começo a jantar uma ou duas vez por semana com eles. 

São pessoas bem educadas, simpáticas, com planos para a vida e sinto-me um privilegiado por os partilharem comigo.

Também apareço no escritório com mais frequência e até fecho dois negócios razoáveis.

Claro que quando bebo demais, faço "gazeta", mas isso já não está a acontecer tão frequentemente.

Naquele fim de semana, o Tadeu anuncia os seus planos de viagem. Vai até Lisboa com a Esmeralda; tem uma reunião com um dos seus contactos do " Mundo da Música" como diz e " quem sabe? se não será a grande oportunidade da Esmeralda? "

O Jacinto não está muito satisfeito, nota-se, mas como tem um serviço em Lamego, não os pode acompanhar.

" Isto vai explodir!" confidencia a Letícia no dia seguinte.

" Não quero saber!" afirma o Joaquim " Eles que se entendam... Que se matem uns aos outros, mas que nos deixem em paz!"

" Concordo contigo! Mas não sei quem é mais parvo... Não acredito que o Tadeu tenha contactos no Mundo da Música." repito.

CONTINUA

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

ABENÇOADO - PARTE III


A porta do camarim da Esmeralda é fechado com estrondo e nós escapulimo-nos.

Sento-me no local mais sossegado do bar e pergunto:

" Há quanto tempo dura isto? " e a Letícia suspira antes de confessar: 

" Desde que ela começou a cantar aqui... Ainda por cima, o Tadeu disse-lhe que tem contactos numa editora e lhe pode arranjar uma audição."

" E, tem? " questiono, mas a Letícia abana a cabeça.

" A única coisa que sei é que o Jacinto não gosta da ideia.... Mudando de assunto, quer jantar comigo e com o Joaquim amanhã? No K, por volta das sete da tarde? " convida.

Fico surpreendido com o convite, mas aceito e não sei se é por isso que, no dia seguinte apareço a uma hora escandalosa no escritório.

Onze horas da manhã! Ficam todos a olhar para mim, ainda mais porque peço para ver os novos projectos, dou uma ou duas sugestões e revejo os antigos.

Às sete da tarde, estou já sentado a uma mesa no K, com uma cerveja na mão.

A Letícia e o Joaquim aparecem pouco depois e o jantar é muito agradável.


CONTINUA

terça-feira, 12 de setembro de 2017

ABENÇOADO - PARTE II


O Tadeu até nem é má pessoa, mas ficou parvo quando conheceu a Esmeralda, aspirante a fadista.

Loira, roliça com um ar tão frágil que o Tadeu a quis proteger.  

Por isso, ao regressar de uma visita à casa de banho, tropeço e quase caio se não fosse a Letícia segurar-me.

" O que fazes aqui, rapariga? " pergunto, pois este corredor é interdito ao pessoal do bar durante o espectáculo.

" Shh..." sussurra e puxa-me para um camarim vazio. Apaga as luzes, deixa uma nesga da porta aberta e esperamos.

Tento falar, mas a Letícia pede-me silêncio. E, esperamos os dois, sei lá por quem ou quê.

O Tadeu aparece, vindo do corredor que leva ao escritório, vestiário do pessoal e armazém.

Uns segundos depois, a Esmeralda (a artista da noite) desce as escadas de serviço e ao ver o Tadeu, suspira:

" Ai, meu amor, esperei todo o dia por este momento!" e os dois beijam-se com tal sofreguidão que eu fico assustado.

" O Jacinto vem cá este noite? " indaga o Tadeu.

" Não, tem uns planos para rever. Podemos ficar juntos a noite toda. Disse - lhe que ficava em casa da Letícia." responde Esmeralda.

" Mentirosa!" murmura a minha companheira do crime.

CONTINUA

sábado, 9 de setembro de 2017

ABENÇOADO


Abençoado... Que raio de nome, principalmente porque não me sinto nada abençoado!

Não, não estou a falar de traumas de infância... Foi normal com uns pais atentos, carinhosos, mas que sabiam impor limites.

Tirei o curso que quis; abri a empresa e conheci a Beatriz por quem me apaixonei loucamente e com quem casei. 

E, uma noite, depois de uma noite divertida, perdi o controlo do carro, fui de encontro a uma árvore e a Beatriz teve morte imediata.

Foi depois de sair do hospital que comecei a beber. Mais do que devia... Não o suficiente para ficar bêbado, mas muito alegre.

Tive a sorte de conhecer a Letícia Violeta e o Joaquim Tacanho que tentaram manter-me nos eixos.

A Letícia limpava-me a casa de vez em quando e deixava-me comida feita no frigorífico e o Joaquim Tacanho fez um acordo com um taxista para me levar a casa quando via que eu já não estava em condições de guiar.

Nunca me pediram dinheiro; pelo contrário, sempre o recusaram.

Nada como o Tadeu que tenho a impressão de que, e se a Letícia não estivesse com atenção, cobrava-me o dobro do preço...

CONTINUA

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

TADEU - FIM


Tadeu desmaia e quando acorda, está no Hospital.

Não tem nada partido; por precaução, uma vez que os ligamentos estão doridos, aconselham que mantenha o braço ligado e não faça esforços por uns dias.

E, o que aconteceu a Esmeralda? Pensa enquanto o barman o leva a casa.

" Sabes alguma coisa da maluca que apareceu no bar?" pergunta-lhe.

" O Gonçalves diz que ela enfrenta uma série de acusações: invasão de propriedade, posse de arma de fogo não declarada e ataque a terceiros. O chefe vai ter que falar com a polícia." explica o barman.

Tadeu sobe a escada com esforço. O elevador está em manutenção e, como não tem horários normais, não gosta de fazer barulho e acordar os vizinhos.

" Ah, Esmeralda, Esmeralda, o que faço agora?" sussurra.

Tem que avançar com a queixa; há duas testemunhas que assistiram ao incidente e têm o direito de trabalhar num sítio seguro.

Seria um pouco estranho ele desistir da queixa e talvez seja o que a Esmeralda precise para enfrentar a realidade.

Esmeralda fica com pena suspensa e uma das exigências do acordo é entrar num programa de reabilitação.

Tadeu visita-a e aconselha-a a voltar à profissão de doceira.

" Até podes frequentar workshops e aperfeiçoar o Bolo de Kiev.... Aproveita a oportunidade, Esmeralda; esquece esse sonho maluco de seres fadista."

Mas Esmeralda olha-o desconfiada. Afinal, foi por causa das promessas dele que tudo isto aconteceu.

Por isso, pede-lhe para sair e Tadeu regressa ao bar, derrotado.

Meses depois, sabe que Esmeralda voltou para a terra e reabriu a banca de bolos.

Quem lho diz é o Luis Abençoado que decidiu fazer uma visita aos bares da capital.

E aqui está ele a beber um gin duplo e a contar as novidades.

" Oh, Abençoado, diga-me uma coisa..." pergunta o Tadeu " Abençoado é mesmo o seu nome? "

Mas Luis não lhe responde.  A sua história é apenas sua...

Ele só veio contar as novidades...


FIM

domingo, 3 de setembro de 2017

TADEU - PARTE III


Atravessa o corredor e quando abre a porta de acesso ao bar, ouve a voz da Esmeralda a gritar:

" SERVE-ME UMA BEBIDA, IDIOTA.... BEM SERVIDA, NÃO SABES O QUE É ??? "

" Não acha que já bebeu mais do que devia? " interrompe o segurança e põe-lhe a mão no braço.

Mas a Esmeralda dá-lhe um safanão e tira qualquer coisa da carteira.

" Para trás ou atiro!" ameaça e Tadeu vê que ela segura uma arma. " Onde é que esta maluca arranjou uma arma? " pensa antes de avançar.

" Mas o que se passa aqui?" pergunta " Esmeralda, baixa essa arma. Ainda magoas alguém!"

" QUERO UMA BEBIDA. Pelos vistos, o teu empregado chique não sabe o que é uma bebida bem servida." acusa a ex-amante.

" Não, não vais beber mais nada!" decide o Tadeu, fazendo sinal ao barman para se afastar.

" Baixa essa arma, Esmeralda.... Não, Gonçalves, não vale a pena chamar a polícia... Pelo menos, para já." acrescenta e aproxima-se da mulher que está com um aspecto terrível.

Precisa de cortar o cabelo, tomar um bom banho e o vestido está rasgado e cheio de nódoas.

" EU DISPARO!" volta a gritar a Esmeralda e Tadeu encolhe os ombros, estendendo a mão.

O impossível acontece e Tadeu surpreende-se quando a bala lhe roça o ombro.

A arma caí ao chão, Esmeralda grita e o segurança aproveita a confusão para a dominar.

" CHAMA A A POLÍCIA! E uma ambulância!" ordena ao barman que se precipita para o telefone.


CONTINUA

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

TADEU - PARTE II


De vez em quando, a Esmeralda aparece e pede-lhe dinheiro emprestado.

Desesperado, Tadeu sugere:

" Porque é que não voltas a fazer o teu famoso " Bolo de Kiev" e não o tentas vender numa banca no Mercado? "

" Não, não.... Quero ser fadista!" repete Esmeralda, um pouco embriagada.

Tadeu desiste e empresta-lhe cento e cinquenta euros.

" UNHAS DE FOME! " grita-lhe a ex-amante, mas aceita o dinheiro que o Tadeu sabe que vai desaparecer rapidamente.

Também não compreende porque é que ela insiste naquele sonho maluco de ser fadista.

Pior, porque é que afirma que está a ser um sucesso, se só canta nas tascas mais pobres da zona. 

Talvez os clientes estejam tão embriagados como ela e não prestem atenção à voz medíocre que tem.

Tadeu suspira e concentra-se no trabalho. 

Os últimos clientes já devem ter saído e o segurança e o barman conversam baixinho.

" Horas de ir para casa." pensa e faz logout.

Está já de pé, com o casaco na mão quando se apercebe do silêncio.

As máquinas deviam estar a funcionar; o barman devia estar no vestiário e regra geral, o segurança bate-lhe à porta para lhe dizer que está tudo fechado.


CONTINUA




terça-feira, 29 de agosto de 2017

TADEU



Tadeu Policarpo é um homem infeliz...

Amaldiçoa Esmeralda e o dia em que a conheceu.

Um simples affair torna-se num pesadelo e obriga-o a mudar de vida...

E, tudo porque a Esmeralda quer ser uma fadista de renome... Fez promessas que não devia; afinal, tudo o que queria era passar um bom momento.

Mas o pior até não foi isso... Foi o incidente com o Jacinto Jardineiro, o namorado pacato que ela enganava vergonhosamente.

Depois daquele murro em plena rua, Tadeu não quis voltar e a Esmeralda, deslumbrada com a proposta para cantar o fado numa tasca chique, também ficou.

Por isso, ali está ele a explorar um bar pequeno numa zona "in" de Lisboa.

Os clientes são diferentes, mais exigentes, mas Tadeu actualizou-se e conseguiu uma certa projecção.

A pedra no sapato continua a ser Esmeralda, embora já estejam separados....


CONTINUA

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

O CABARET - O FINAL


Jacinto abre a boca para o chamar, mas o Tadeu apressa o passo e não o ouve. 

Ou finge que não ouve, pensa o jardineiro atravessando a rua, sem se preocupar com o transito.

Chega ao fim da rua e pensa que o perdeu, mas ouve uma risada conhecida e olha em volta.

Vê-os então abraçados.  Esmeralda - valha-me Deus, o que é que fez ao cabelo? E o que tem vestido? - e Tadeu aos beijos em plena rua.

Jacinto fica cego e desata a correr em direcção aos amantes felizes.

Dá-lhes um encontrão e a Esmeralda caí. Tadeu consegue manter-se em pé e pergunta-lhe:

" Oh, pá, o que se passa contigo? " Mas Jacinto responde-lhe com um murro no nariz.

Esmeralda já está de pé e grita-lhe: " Ordinário! Imbecil!" e levanta a mão.

Jacinto prende-a na sua, aproxima o rosto do dela e diz-lhe: " Ordinária és tu!!! Fadista uma ova!" e dá-lhe uma bofetada de tal maneira forte que Esmeralda volta a cair.

Alguém grita, Tadeu levanta-se com esforço e Jacinto foge.  Não porque tenha medo da polícia, mas porque quer distância daqueles dois.

" Ordinários os dois"  pensa " Nunca mais vou acreditar numa mulher!" jura já no comboio a caminho de Lamego.

No Cabaret, Joaquim e Letícia discutem os últimos detalhes com Luis Abençoado para abrirem a loja gourmet.

" Quando o Tadeu regressar, demitimo-nos!" decidem, felizes e o Luis Abençoado pede outro brandy para brindar.

Mas o Tadeu não regressa nem a Esmeralda. 

Ficam em Lisboa, Esmeralda a cantar em restaurantes de bairro, convencida de que será uma fadista famosa e o Tadeu abriu um pequeno bar.

Quanto ao Jacinto, decide ficar em Lamego e acaba por aceitar trabalhar em exclusivo nos jardins do bispo.

Nem o Joaquim Tacanho nem a Letícia Violeta o voltam a ver. 

O Luis Abençoado ainda o visita em Lamego, mas, se bem que o goste de ver, o Jacinto não lhe explica o porquê da decisão.


FIM



Estarei ausente entre 25 e 29 de Agosto. 

Até lá, boas férias.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

O CABARET - PARTE VI


Entretanto, em Lisboa, o Tadeu e a Esmeralda estão completamente loucos...

Passam o dia fechados no quarto e à noite, saem para visitarem os locais onde se canta o fado.

" O que fazemos se o Jacinto telefonar e perguntar como vão as coisas? " pergunta a Esmeralda ao regressarem ao Hotel uma noite.

" Diz-lhe que tens que ficar mais uns dias... Tens que gravar um video de apresentação..." e Tadeu cala-a com um beijo profundo.

Em Lamego, Jacinto está cansado, mas não consegue dormir.  Não tem notícias da Esmeralda; só uns SMS a dizerem que está muito ocupada.

A única vez que lhe telefonou, disse que ia sair, que tinha uma entrevista e que dava notícias logo que pudesse.

Até hoje... Jacinto não sabe se a entrevista correu bem, se já voltou a casa...

" Amanhã vou até Lisboa." decide e assim faz. Deixa instruções claras aos rapazes, despede-se do secretário do bispo e a meio da tarde está em Lisboa.

Lisboa é enorme, está cheia de gente, mas ele lá consegue descobrir o Hotel onde supostamente a Esmeralda está.

Fica surpreendido quando lhe dizem que não têm ninguém com aquele nome nos registros.

" E Tadeu Policarpo? " mas o recepcionista abana a cabeça.

Jacinto não sabe o que pensar e saí para a rua. Talvez a Letícia saiba alguma coisa e e está já com o telemóvel na mão quando olha para o outro lado da rua e vê o Tadeu Policarpo.


CONTINUA

domingo, 20 de agosto de 2017

O CABARET - PARTE V


Joaquim Tacanho ri-se e oferece-lhe um banco.

" Sente-se aqui.  Como se sente hoje?" 

" Bem.... Então, isto é que é a banca da Esmeralda? Mas eu pensava que ela só vendia o famoso Bolo de Kiev!? " comenta, curioso, o Luis ao reparar nas miniaturas e nos cupcakes.

" Quando ela está..." explica Letícia " Quando estou eu, trago sempre umas surpresas e os clientes gostam! Sim, porque sou tão boa doceira como a Esmeralda!" concluí risonha.

" Ou melhor!" acrescenta o Tacanho " Os clientes já sabem os dias em que ela está cá e fazem-lhe encomendas. Ela é tão honesta que deixa uma percentagem do que ganha à Esmeralda."

" Ah, ah..." ri o Luis " E a Esmeralda sabe?... Não??? Pois, está tão doida com o sonho em ser fadista e com o Tadeu!!!" e continua a rir.

Aparecem os primeiros clientes e há tanto que fazer que o Luis fica com a cabeça à roda.

Escapa-se para beber uma "ginginha" na banca ao lado e quando regressa, Letícia e Joaquim estão exaustos.

Mas o negócio correu bem, pois a banca está vazia.

" Ups" diz o Luis " Isto é que foi vender... Diz-me cá, Letícia, mas porque não abres tu uma banca e deixas o Cabaret? " pergunta curioso.

" Temos que trabalhar lá para juntar dinheiro suficiente para isso!" esclarece o Joaquim " Estou a acabar o curso de Marketing, a Letícia tem participado em workshops sempre que pode..."

" Mas porque não falaram comigo? Eu empresto-vos o dinheiro!!!" interrompe Luis.


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quinta-feira, 17 de agosto de 2017

O CABARET - PARTE IV


Jacinto e os rapazes partem no domingo à noite para Lamego e Esmeralda segue na manhã seguinte de comboio para Lisboa.

Nem uma hora depois da partida, já está o Tadeu a bater à porta e a Esmeralda abre-a de imediato, envolta num kimono tão transparente que nem conseguem chegar ao quarto.

Nesse entretanto, a Letícia Violeta prepara os doces para expor na banca da Esmeralda.

Além do famoso bolo de Kiev, a Letícia, que é uma doceira tão boa ou melhor que a Esmeralda, resolve fazer uns queques miniatura de cenoura e uns cupcakes de café.

Com a ajuda do Joaquim Tacanho, monta a banca com arte e aguardam os primeiros fregueses.

Fiel à sua promessa, Luis Abençoado aparece e fita a Letícia boquiaberto.

Ninguém diria que a Letícia era assim tão elegante.  O vestido simples de linho assenta-lhe bem e escolheu o vermelho vivo para os acessórios.

Se está maquilhada é uma coisa tão leve que Luis fica na dúvida.

" Oh, rapariga, mas tu és UM ESPANTO!" grita " Nunca devias trabalhar naquele Cabaret... mas sim à luz do dia...."

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segunda-feira, 14 de agosto de 2017

O CABARET - PARTE III


" Que falta de respeito!" queixa-se o Luís " Mas estás perdoada se me trouxeres mais um copo!"

Esmeralda acaba de cantar e senta-se no bar ao lado deles.  Beija apaixonadamente o Jacinto, mas coloca disfarçadamente a mão na coxa do Tadeu.

Letícia abre novamente a boca, mas o Joaquim Tacanho, o segurança que chega nesse momento, dá-lhe um abraço de urso.

" Ai, para que me estás a magoar!" refila a rapariga " És mesmo bruto, pá! Qual é a tua? "

" Impedir-te de dizeres o que não deves!" sussurra o Tacanho e, batendo amigavelmente no ombro do Luis Abençoado, recomenda:

" Está na hora de ir para casa, Abençoado. Venha comigo que eu chamo-lhe um táxi." e leva-o.

Tadeu, Esmeralda e Jacinto ficam sozinhos no bar. Jacinto ainda acha que a viagem a Lisboa é uma estupidez, mas Esmeralda faz tanta questão que não se opõe.

Combinam ir na semana seguinte.


CONTINUA