quarta-feira, 31 de maio de 2017

O REGRESSO


Leandro sentia-se velho...

Ou convenceu-se de que era, afinal, mortal.... 

Nestes dois meses que esteve ausente do Departamento, além da ida diária ao fisioterapeuta, tinha organizado a biblioteca, comprado novos livros e num passeio pelos arredores da cidade, tinha encontrado uma casa com um pequeno jardim.

Talvez pudesse arrendar o apartamento da cidade quando se reformasse e ir viver para ali naquela pacata vila, longe do transito, do barulho.

Mas, para já, tinha que estudar o relatório do Sargento Bernardes. Que história macabra era aquela de terem encontrado uma mão no Jardim e mais tarde, dois corpos quase em decomposição numa casa abandonada?

E porque razão tinha sido o Comandante a tomar conta do caso e não o Meireles?

Não que se surpreendesse com o facto; às vezes, o Meireles agia como um imbecil... Mas mesmo assim...

Bateu no vidro e Bernardes entrou de imediato.

" Oh, Ch... Inspector, que bom estar de volta!" confessou o sargento.


CONTINUA

domingo, 28 de maio de 2017

ESTRANHO - O FIM


Avançaram com cuidado; em alguns locais, o telhado tinha caído.

Encontraram velhas seringas, colheres enferrujadas, garrafas vazias e numa das salas das traseiras, meia escondida por uma escadaria podre, viram um outro corpo.

Com o lenço a tapar o nariz e a boca, Bernardes aproximou-se com cuidado para não contaminar o local.

" Este está irreconhecível. A cara está feita num bolo. Assinala o local e diz a equipa que também tem que o processar." ordenou ao Torcato que acenou que entendia.

Quando voltaram para o exterior, o médico legista já estava a examinar o outro corpo e o sargento perguntou-lhe:

" Acha que a mão que encontramos é dele? " e o médico riu-se:

" Sabe muito bem que ainda não lhe posso responder. Mas creio ter elementos ainda hoje..." acrescentou.

" Pois, há outro corpo dentro da casa. O Torcato explica-lhe tudo. Eu vou falar com o comandante." anunciou o Bernardes.

" ... tenho mesmo que esperar pelas autópsias e resultados da análise da cena da crime, mas tudo leva a crer que a mão encontrada no jardim pertence ao corpo que estava na mala do carro. Sei que há muitos pontos de interrogação, mas achei melhor informá-lo." concluiu o Bernardes.

O Meireles, que estava presente, agitou-se na cadeira e repetiu irónico: " Pois, tudo leva a crer... "

" Bom trabalho, Bernardes." atalhou o Comandante e, sorrindo, acrescentou: " O Inspector Leandro regressa na segunda-feira. Explique-lhe tudo e mantenham-me informado. Pode sair."

Bernardes nem queria acreditar. Leandro de regresso! A vida estava de volta ao normal!

Isto merecia uma bebida; ele pagaria a primeira rodada. 



FIM 


 

quarta-feira, 24 de maio de 2017

ESTRANHO - PARTE V


Entretanto, o Torcato tentou contactar um colega nos Narcóticos e o Bernardes consultou casos antigos para tentar descobrir um desconhecido sem a mão direita.

O telemóvel do Bernardes tocou e era uma patrulha que tinha visto um carro suspeito em frente a uma casa em ruínas.

Como a casa ficava numa rua transversal ao Jardim, acharam melhor avisar o Departamento.

" Fiquem aí até chegarmos."  instruiu o Bernardes que fez sinal ao Torcato que se levantou de imediato.

Os dois seguiram à velocidade máxima permitida e dez minutos depois, examinavam o carro, um Citroen vermelho.

O Torcato verificou a matrícula enquanto o Bernardes abriu a porta da frente que não estava trancada.

Viu logo manchas suspeitas no lugar do condutor e no banco traseiro. Resolveu abrir a mala do carro e recuou com o cheiro nauseabundo.

Lá dentro, estava um corpo, sem a mão direita, reparou de imediato Bernardes que pediu ao polícia para chamar o médico patologista e a equipa forense.

" O carro é de Jorge Viriato, dito "Bicudo" e corresponde à descrição que nos deram ontem. Tem cadastro por posse de droga, mas fez serviço comunitário. Nunca esteve preso!" esclareceu o Torcato. " Ups! Será este? "

" Não sei." admitiu Bernardes " Vamos dar uma volta pela casa. Pode ser que se encontre alguma coisa que explique o que se passou aqui."


CONTINUA




segunda-feira, 22 de maio de 2017

ESTRANHO - PARTE IV


Satisfeito, o Bernardes fez o relatório preliminar e no fim do turno, saiu sem informar o Meireles.

No dia seguinte, o médico legista apenas confirmou que estava à espera dos resultados das impressões digitais e do teste de ADN.

Sim, era a mão de um rapaz jovem; não teria mais de vinte, vinte e dois anos. Os dedos tinham sido partidos com um objecto de madeira, talvez um bastão e sim, o corte tinha sido feito post-mortem.

Não, não podia adiantar mais; o Bernardes já sabia que ele não gostava de especular.

" Bolas! Espero que o Torcato e o Tavares tenham descoberto qualquer coisa; caso contrário, terei que arquivar o caso..." resmungou para consigo o Sargento.

Mas o Torcato e o Tavares tinham algumas coisas para contar. A "família" não os tinha acolhido calorosamente, mas depois de assegurarem não serem dos Narcóticos, lá tinham confessado que o " Bicudo" não aparecia no local há alguns dias.

" E quem é o Bicudo?" perguntou o Torcato e o que dava pelo nome de " Bigodes" explicou que o " Bicudo" era um "gajo" com dinheiro que, de vez em quando, lhes pagava a " festa".

" Não sabem o nome dele?" inquiriu o Bernardes e o Tavares riu-se, acenando-lhe um papel.

" Não, mas lembram-se do carro e da matrícula!" exclamou e, vendo o olhar carregado do Sargento, acrescentou " Vou tentar descobrir detalhes."

CONTINUA

sábado, 20 de maio de 2017

ESTRANHO - PARTE III


" Mas o que é isto? Insubordinação? Onde é que estiverem? " perguntou o Meireles.

" Recebemos uma chamada sobre um objecto estranho no Jardim da Praça... " explicou o Bernardes.

" Que objecto estranho? " interrompeu de imediato o inspector " Uma bola de uma criança? " e riu-se.

" Não, por acaso, foi uma mão humana. Já está com o médico legista; devo ter mais detalhes amanhã." continuou o Sargento, calmamente.

" Oh, não seja ridículo! Nem pense que vai perder tempo com isso." desvalorizou o Meireles.

" Não concordo consigo!" disse uma voz por trás do Meireles que se virou rapidamente, pronto a enfrentar quem o ousava desafiar em frente dos homens.

Corou violentamente quando viu que era o Comandante.

" Peço imenso desculpa... " mas o Comandante nem o quis ouvir, pois estava mais interessado em saber o que o Bernardes estava a planear fazer.

".... por isso, esta noite, o Torcato vai falar com a "família" que frequenta o jardim à noite para saber se notaram alguma coisa estranha... " concluiu o Bernardes.

" Perfeito! Fica responsável pela investigação. Mantenha-me informado." pediu o Comandante.

O Meireles nem se atreveu a falar.

CONTINUA

quinta-feira, 18 de maio de 2017

ESTRANHO - PARTE II


" Então, o que é? " perguntou o Torcato ao técnico forense " É um esqueleto de um animal?"

Mas o técnico abanou a cabeça: " Não, é uma mão humana. Os dedos estão partidos e o corte foi ao nível do pulso." concluiu.

" O resto do corpo estará por aqui? " questionou o Bernardes e o Torcato olhou em volta.

" Vamos escavar o jardim? " sugeriu e o Bernardes respondeu:

" A primeira coisa a fazer é falar com quem frequenta o jardim à noite, saber se há alguém que não tem aparecido... Depois, teremos que ver aquelas casas abandonadas..." 

" Ok, eu e o Tavares podemos vir cá esta noite e falar com a "família"." anuiu o detective, ligando o telemóvel.

Bernardes ligou para o departamento e pediu uma equipa de técnicos para fazerem uma busca nas casas abandonadas.

Depois deu uma volta pelo jardim, mas não viu nada de suspeito.

De quem era a mão? Luta entre gangues? Perseguição de drogados? Extorsão?

" Meu Deus!" exclamou " Pareço o Inspector Leandro!"

" Já pensaste no que vais dizer ao Meireles?" interrompeu o Torcato, trocista.

E o Meireles estava à espera deles quando entraram no gabinete.


CONTINUA

terça-feira, 16 de maio de 2017

ESTRANHO


O Sargento Bernardes estava aborrecido...

Melhor dizendo, "chateado", mas segundo o Inspector Meireles, o inspector interino, essa palavra não existe no vocabulário da policia.

" Bolas!" pensa o Sargento " Porque raio havia do Inspector Leandro adoecer agora?"

Não que Leandro fosse para brincadeiras.... Não, exigia respeito, dedicação e rigor...

Mas tratava os subordinados de igual para igual e todos apreciavam isso.

Por isso, quando o Torcato lhe falou da chamada estranha que a central tinha recebido, o Bernardes não hesitou.

" Vamos lá ver o que se passa!" e pegou no casaco.

" Se calhar, é o esqueleto de um cão!" contrariou o Torcato.

" Quero lá saber!" disse o Sargento e abriu a porta do gabinete.

O Meireles estava numa reunião e por isso, os dois atravessaram o átrio calmamente, desceram até à garagem e requisitaram um carro.

Cinco minutos, seguiam para a Praça da República onde os aguardava um grupo de curiosos.


CONTINUA

sábado, 13 de maio de 2017

A DISCUSSÃO - O FIM


A peça continuava sem aparecer no final do expediente.

A Sofia tinha contactado a UPS e estes pediram imensa desculpa pelo atraso. 

A razão era simples: tinha havido um acidente de viação e o estafeta tinha alterado a rota.

De qualquer maneira, seria entregue naquele dia.  

Apesar de terem na portaria um segurança que receberia a peça, o Fontes decidiu ficar mais algum tempo.

O Arnaldo até sugeriu, malicioso: " Um dia destes, ainda trás uma cama e dorme aqui..."

Todos se riram e a peça, agora designada " a perdição do Fontes" virou objecto de piadas bem-humoradas.

No dia seguinte, o segurança confirmou a recepção da peça, ter entregue ao Fontes, mas não tinha visto este sair.   

" Talvez saísse enquanto estava a fazer a minha ronda." admitiu, o que originou mais uma série de piadas.

De repente, ouviu-se um grito e os passos apressados de alguém a subir a escada que ligava os gabinetes ao armazém.
 
O Arnaldo apareceu no patamar, muito agitado e gritou:

" Alguém chame o 112... O Fontes deve ter tido um ataque, está estendido no meio do chão e não responde.... Corre... Anda lá!" disse à Sofia.

Enquanto a Sofia telefonava, os outros desceram até ao armazém.

O Fontes estava deitado de lado, com uma das mãos segurava uma ferramenta e a outra estava estendida como se quisesse alcançar qualquer coisa.

A Cristina reparou que o telemóvel estava a uns centímetros da mão do Fontes.  "Tentou pedir ajuda!" pensou, sentindo-se culpada, não sabendo bem porquê.

Entretanto, o INEM chegou e após um exame preliminar, transportou o Fontes para o hospital.

" Bem... já passou!" disse Sofia " Mas o que lhe deu para ficar aqui toda a noite? "

" Reparar a Máquina!" disse o Arnaldo, mas a Sofia riu-se: " Não brinques!"

Mas o Arnaldo abanou a cabeça e repetiu: " Ele reparou a Máquina! Está pronta para fazer o ensaio que fazemos antes de entregarmos ao cliente."

E ficaram ali todos parados, a olharem uns para os outros, sem fazerem qualquer comentário.   

Talvez porque não havia nada mais a dizer....

FIM 



quinta-feira, 11 de maio de 2017

A DISCUSSÃO - PARTE III


" E o estafeta? Sabe onde está que eu vou ter com ele? " insistiu o Fontes, fazendo com que a Cristina gritasse, exasperada.

" OH, FONTES...." mas o Sr Daniel, que chegou naquele momento, decidiu intervir e numa voz baixa, pediu:

" Cristina, ao meu gabinete, se faz favor." e esperou que ela entrasse para fechar a porta.

O resto do pessoal concentrou-se no trabalho e nem sequer se atreveu a fazer qualquer comentário.

A Cristina reapareceu dez minutos mais tarde, muito corada e muito nervosa. A Sofia ainda pousou a mão no braço dela, mas a Cristina abanou a cabeça.

O Fontes apareceu dali a uns minutos e teve também uma conversa à porta fechada com o Sr Daniel.

Quando pararam para almoço, a peça ainda não tinha aparecido, mas o dia de trabalho ainda não tinha terminado e segundo o site, a entrega seria feita até ao fim do dia.

O Fontes não voltou a falar sobre a peça com a Cristina e esta, quando questionada, apenas respondeu:

" O assunto está entregue ao Sr Daniel." e continuou a trabalhar calmamente. Como se nada tivesse acontecido, mas a Sofia sabia que ela estava furiosa.

CONTINUA

segunda-feira, 8 de maio de 2017

A DISCUSSÃO - PARTE II


" Aquele Fontes.... " queixou-se a Cristina à saída " Está impossível de aturar.... Sei que já enviaram a peça e até podem entregar na 2ª Feira, mas aquela insistência dele... aborrece-me de tal forma que tenho vontade de o esbofetear..."

A Sofia riu-se e comentou:

" É 6ª Feira! Diverte-te e deixa lá o Fontes entregue à estupidez..." e dando-lhe um abraço rápido, correu para apanhar o autocarro.

Cristina passou um fim de semana agradável em casa de uns amigos e só quando regressou no domingo à noite, é que se lembrou do que a esperava na segunda de manhã.

" Aquele homem vai entrar a matar logo às nove." disse para o marido que encolheu os ombros e a aconselhou a ter calma.

Quando entrou no escritório, a Sofia contou-lhe que o Fontes já lá estava desde as sete da manhã.

" Diz o Arnaldo que não saí da rampa das descargas!" ao que Cristina replicou com azedume:

" Pensa mesmo que o estafeta vai dar prioridade à entrega da nossa mercadoria??? " e abanou a cabeça.

Às onze horas, o telefone interno tocou e a Cristina atendeu, um pouco contrariada, pois estava a preparar um orçamento complicado.

" Então? A peça? Sabe onde está a peça?" exigiu saber o Fontes " Já cá devia estar... "

" Oh, Fontes, deve estar com o estafeta." disse a Cristina, já com a voz alterada.

CONTINUA

sábado, 6 de maio de 2017

A DISCUSSÃO



A discussão surpreendeu-os e todos esticaram o pescoço para ver melhor o que se passava.

Bem, quase todos, porque a Sofia, a recepcionista tentava ao telefone acalmar um cliente nervoso.

Mas, nem os espectadores nem os dois envolvidos na discussão se aperceberam do apelo mudo da recepcionista para que falassem mais baixo.

" Preciso de ter a peça cá na 2ª Feira, sem falta.  Eles prometem entrega em 24 horas!" dizia o Fontes.

" Mas hoje é sexta-feira e mesmo que a enviem hoje, não vai entregar de certeza absoluta a Máquina ao cliente na segunda à tarde." contradizia a Cristina.

" Tem que ser! Em vez de estar aqui a discutir comigo, devia estar a pressionar o fornecedor." sugeriu o Técnico das Reparações.

" Não posso! Já fiz tudo o que tinha a fazer... Não faça este tipo de promessas; já lhe chamaram a atenção para isso, mas o Fontes insiste. ESTOU FARTA!!!" gritava a Cristina.

" E consigo não se pode falar..." mas não continuou, porque a Sofia interrompeu a troca de acusações, perguntando com um sorriso irónico nos lábios: 

" Tenho o Sr Daniel aqui ao telefone a perguntar que gritaria é esta. Que respondo?"

O Fontes apressou-se à descer à oficina.  Quanto à Cristina, decidiu sentar-se no refeitório e beber uma água para acalmar.

Nenhum dos dois queria enfrentar o Sr Daniel. Não seria uma conversa muito agradável.

CONTINUA

quarta-feira, 3 de maio de 2017

O LADO ESQUERDO - FIM


Felizmente, consegui salvar grande parte do texto e terminei-o mesmo em cima das 18h00.

Ainda estávamos a desligar os computadores e já a Madalena saia, sem um "até amanhã".

" Trata-nos como se fossemos lacaias dela!" disse a Cristiana baixinho.

Eu sorri e apressei-me a sair para a noite ventosa, desagradável.

Não me importei com isso; manteve-me alerta, protegida.

Há dias em que não nos apetece conversar e analisar minuciosamente as atitudes de alguém nocivo pode ser muito negativo.

Por isso, quando cheguei a casa, abri o computador e escrevi tudo o que estava abafado na alma.

Pequenas histórias, poemas sobre sorrisos e alegria... 

Sem palavras tristes e enfadonhas... Sem lágrimas, sem queixas...

Mesmo que haja uma lágrima teimosa no canto do olho... 

Porque este foi o meu momento feliz... 

Apesar de ter acordado no lado esquerdo da vida e  de ter duvidado do meu lugar nela...


FIM

segunda-feira, 1 de maio de 2017

O LADO ESQUERDO - PARTE II


Como disse, acordei para o lado esquerdo...

E, quando o computador avariou, sem me dar tempo de gravar o texto em que trabalhava, entrei em pânico.

Ouviu-se um riso e a voz estridente da Madalena encheu a sala: "Acudam que ela vai ter um chilique!"

Voltei a não responder... Para quê? 

Há pessoas que vivem com a desgraça dos outros e não entendem as regras de boa educação e respeito.

Ou até sabem quais são, mas acham que só funcionam unilateralmente.

A palavra "unilateral" sugere-me uma ideia para um novo texto. 

Enquanto o informático trabalha no computador, escrevinho umas notas, umas frases chave.

A Madalena passou nesse momento e atirou nova boca: "A mandriar nas horas de expediente?"

E estar horas ao telemóvel é o quê? Porque discutir o corte de cabelo ou as cores da nova estação não é trabalhar....


CONTINUA