segunda-feira, 23 de abril de 2018

BERNARDES - PARTE V


Quando regresso, dizem-me que o Inspector vai ser transferido e o Inspector Mateus tomará conta da investigação.

Provisoriamente, acrescentam, sem mais explicações.

O Torcato encolhe os ombros e o Tavares limita-se a passar-me as notas.

Porque eu tenho razão: o local onde foi encontrado o corpo era uma casa "segura" do Gangue da Paixão, mas tem estado abandonada, porque a Brigada Anti-Droga fez lá uma rusga e apreendeu vários quilos de heroína e alguns milhares de euros.

Onde opera agora o Gangue da Paixão, a Brigada ainda não descobriu, mas, atendendo à forma violenta como o homem morreu, tudo leva a crer que foi um ajuste de contas.

" Dizem que são brutais." comenta o Tavares. " Já foi identificado? "

" Ainda não! Mas pode estar relacionado com o Gangue, porque um dos meus contactos disse - me que houve uma luta entre os da Paixão e da Boa Vida." comenta o Torcato.

" Luta pela rota ou pela zona? " pergunta o Inspector Mateus.

" Talvez as duas coisas! Temos algum contacto com a Gangue da Boa Vida? " sugiro e o Inspector Mateus concorda.

O Tavares e o Torcato voltam a sair e o Inspector pede para me sentar.

" Esta situação com o novo Inspector não é bom para ninguém, Bernardes. É provável que haja alguma sanção disciplinar, o Chefe ainda não decidiu. Como também ainda não decidiu o que vai fazer com a Unidade!" declara.

" Acha que a vai desmantelar? Ou incorporar noutra unidade? " questiono.

" Não sei, Bernardes. Mas é possível que sim! A outra hipótese é destacar-vos para outras unidades. " responde Mateus " Há quantos anos é Sargento, Bernardes? "


CONTINUA

sábado, 21 de abril de 2018

BERNARDES - PARTE IV


Os dias são enfadonhos na unidade a rever pormenores já confirmados e é com alívio que tomamos conta de um novo caso.

O local do crime não é me estranho e confesso ao Torcato que poderá ser uma boa ideia contactar a Brigada Anti-Drogas.

" Houve qualquer coisa relacionado com aquela casa no ano passado. Tenta saber se pertence a algum gangue, se há alguma guerra... enfim, tudo o que puderes saber." digo.

" Ainda não sabemos quem é!" interrompe o inspector " Temos que esperar pela autopsia. Eu já disse que sou eu quem decide como a investigação vai ser feita!"

" Mas aquele é um local conhecido por guerras de gangues e droga! É uma linha a seguir!" explico.

"NÃO! JÁ DISSE QUE NÃO! VAMOS ESPERAR PELA AUTOPSIA!" grita o inspector.

" Mas o que é que quer fazer então? Não diz o que pensa, veta toda e qualquer ideia, obriga-nos a rever detalhes que já foram verificados... temos uma pessoa morta num local que sabemos que pode estar na fronteira de guerra de gangues e temos que esperar pela autopsia??? " expludo.

" O que é que se passa aqui? " pergunta o Chefe que entrou sem nos apercebermos.

O Inspector cora e dá uma breve explicação. O Chefe fica calado por uns segundos e diz:

" O Bernardes quer falar com a Brigada Anti-Drogas? Acha que o crime está relacionado com drogas?... Sim, também concordo consigo, Bernardes. E pessoas desaparecidas? O Tavares pode tratar disso e o Torcato volta ao local do crime para interrogar vizinhos, etc." decide.

O Tavares e o Torcato desaparecem e ficamos os três em silêncio no meio da sala.

O Chefe olha severamente para o Inspector, este abre a boca para falar, mas acaba por não dizer nada.

" Bernardes, vá falar com a Brigada e depois com o médico legista. Eu e o senhor inspector vamos ter uma pequena reunião."


CONTINUA


quinta-feira, 19 de abril de 2018

BERNARDES - PARTE III


" Nem o Inspector Leandro permitia! " contraponho " Mas consentia que seguíssemos a nossa ideia. Até certo ponto, porque a última palavra era dele, mas permitia que explorássemos outras linhas de investigação."

O novo Inspector fica muito sério e repete:

" Eu comando esta unidade e determino o que se faz. Estamos entendidos? " e faz-me sinal para sair.

Como se eu quisesse ficar no gabinete mais um minuto!

Ao fim da tarde, antes de irmos para casa resolvemos ir até ao café perto da esquadra.

" Vamos ter sérios problemas com este idiota!" diz o Tavares.

" Tem cuidado com a língua!" aconselha o Torcato " Mas não posso negar que tens razão! Vamos perder tanto tempo a confirmar aqueles depoimentos! Não sei o que ele quer fazer!"

" Eu também não!" confesso " Ele é que comanda a unidade e ai de quem o desafiar... foi muito claro nisso!"

" Que é que vais fazer? " questiona o Torcato.

" Se me chatear muito, peço transferência para outra unidade!" decide o Tavares.

Dou por mim a pensar no mesmo.


CONTINUA
 

terça-feira, 17 de abril de 2018

BERNARDES - PARTE II


O novo inspector interrompe o silêncio desconfortável. 

Tem uma voz baixa, educada, mas um pouco ríspida.

" A morte do Inspector Leandro foi um choque para todos. Contudo, temos que superar esta situação e não deixar que a equipa fique à deriva. Tenho a certeza de que, juntos vamos fazer um bom trabalho. Reunião no meu gabinete dentro de uma hora para actualização."  e entra no antigo gabinete do Leandro.

" Deriva... uma ova! " comenta o Tavares " Somos profissionais!"

" Juntos vamos fazer um bom trabalho!" imita o Torcato, acrescentando " Dandy!"

" Calem-se! Como diz o Tavares, vamos ser profissionais! Quem sabe? Pode ser tão bom como o Inspector Leandro." observo, mas tenho as minhas dúvidas.

O novo Inspector cansa-nos com detalhes e constantes pedidos de explicação.

Leandro era exigente, mas estava aberto a sugestões e ouvia-nos sem interromper como este.

" Não estou a entender! Foi uma perda de tempo seguir esta linha de interrogatório! Digo já que não vou admitir isto! Quero que revejam estes relatórios e voltem a contactar as testemunhas!" diz.

O Torcato e o Tavares pegam nos processos e saem da sala. Preparo-me para fazer o mesmo, mas o Inspector impede-me:

" Sargento Bernardes, como elemento mais graduado, espero da sua parte total colaboração. Não quero atalhos nem explicações sem pés nem cabeça! "

CONTINUA      


domingo, 15 de abril de 2018

BERNARDES


" Matei o Inspector Leandro!" e acordo todo suado.

Tenho todas as noites o mesmo pesadelo... 

A morte do Inspector foi um acontecimento traumático; abriram fogo, ripostei e procurei um abrigo, convencido de que o Inspector me seguia.

Mas não; tinha sido atingido mortalmente e, embora ainda respirasse quando o tiroteio terminou, não sobreviveu.

Houve um inquérito, uma reconstituição do tiroteio e concluiu-se que o Inspector foi morto pelos membros do gangue, que estão a monte.

Não sei porque me sinto tão culpado quando a culpa não foi minha.

É o que a minha mulher e o psiquiatra dizem... o inspector não reagiu a tempo, estava ferido demais...

Tenho que ir trabalhar... Temporariamente, até nomearem outro inspector, sou responsável pela equipa.

Para já, estamos só a fazer trabalho de secretária... O Tavares não se importa, mas o Torcato odeia.

Quando chego, o Chefe já lá está.  Está acompanhado por um homem alto, magro, de cabelo ruivo cortado à escovinha e dom olhos verdes.

Veste um fato cinzento, uma camisa branca e uma gravata azul escura. Um modelo, penso, olhando para o Torcato de calças de ganga e T-Shirt e o Tavares, de blusão de cabedal preto tipo motard.

" Oh, Bernardes, este é o Inspector Carlos Neiva. Vai assumir o comando da equipa. Ponha-o a par dos casos em aberto, está bem? pede-me o Chefe e, sem esperar resposta, saí da sala.

Ficamos os quatro a olhar uns para os outros num silêncio embaraçado.

CONTINUA




sexta-feira, 13 de abril de 2018

O FIM DO LIVRO - O FIM




A autopsia revela que a senhora morreu de causas naturais. 

Um ataque de coração fulminante e tanto o médico de família como o filho confirmaram que ela não se sentia bem há alguns dias.

A única coisa de que o investigador tinha culpa era ter saído de casa sem se ter apercebido de que a mulher estava a morrer.

" Porque... " diz-me a D.Guida, deliciada " ele ouviu os senhores baterem à porta, admitiu isso à Polícia. Mas estava a fazer as malas e saiu pela porta da cozinha, indo directo para a garagem. Deixou-a sozinha na sala e tadinha, morreu sozinha!" acrescenta.

" Pois... Sabe o que vão fazer do andar? " desvio a conversa para outros assuntos e D.Guida responde imediatamente.

" Ah, nem o marido nem o filho querem a casa; vão vender... Se bem que é melhor não dizerem que morreu lá uma pessoa... " comenta.

Sorri, pois tenho a certeza absoluta de que arranjará uma maneira de o dizer aos futuros inquilinos.

Termino o meu livro antes do prazo. 

O Jorge pressiona-me, pois quer saber todos os detalhes da história, mas eu convenço-o a ir ao lançamento.

Tenho uma surpresa para ele e ele fica sem palavras quando abre o livro e lê a dedicatória.

" Aos meus amigos, Jorge e D.Guida
Por estarem presentes... 
Por me fazerem rir com ideias mirabolantes."




FIM


quarta-feira, 11 de abril de 2018

O FIM DO LIVRO - PARTE V


Respondo calmamente às perguntas dos dois polícias. 

Eles querem apenas confirmar os acontecimentos da noite passada e quando pergunto porquê, apenas dizem que a senhora está morta e estão a tentar localizar o marido.

" Muito calados, não acha? " comenta a D.Guida

" Ainda é cedo para dizerem qualquer coisa.  Quem sabe? A senhora pode ter tido um ataque de coração fulminante!" digo.

" Não conseguiste saber nada? Mesmo nada?" interroga-me o Jorge ao almoço.

" Não. Estão apenas a inteirar-se dos factos. Mas que é estranho ele ter desaparecido... é!" confesso.

" Tens a certeza de que ele estava lá? Quem te diz que não gravaram a discussão antes? " sugere o meu amigo.

Olho-o surpreendido. É uma possibilidade... Com as novas tecnologias, tudo é possível.

" É uma possibilidade... não digo que não... Mas não a vou partilhar com a polícia! " acrescento.

Jorge ri-se e diz:

" Depois não digas que não te dou boas ideias!"

A verdade é que os acontecimentos da noite anterior fazem com que reescreva o enredo já alinhavado na minha mente.

O meu editor fica admirado quando lhe envio o primeiro rascunho.

" OH, ISTO É UMA MARAVILHA!" grita tanto ao telefone que a D.Guida se assusta.

Mas o que terá verdadeiramente acontecido no andar de cima?


CONTINUA