domingo, 26 de janeiro de 2020

APRESENTAÇÃO - PARTE V


O Pai tem razão: o Bernardo aceita o desafio do Major e na quarta-feira seguinte, já terminou o livro.

Tomou imensos apontamentos, explica claramente as ideias e surpreende o grupo com a sua análise coerente.

O Major sorri e expõe igualmente a sua opinião sobre o livro. 

O António tenta interromper, há um pormenor com que não concorda, gostava de explicar o ponto de vista. 

O Major ignora-o, continua a falar até que o Nicolau se ergue e diz pausadamente:


" O Major desculpe, mas isto é um clube e os membros podem falar à vontade. Entendemos, respeitamos a sua opinião, mas agora gostaríamos de ouvir a dos outros." e volta a sentar-se.


O Major fica muito vermelho, ainda abre a boca para protestar, mas pensa melhor e cala-se.

" Deve estar a pensar " quem é este idiota para me mandar calar". " sussurra a Rita e a Aida tosse para disfarçar o riso.

O António considera que o livro fala do esquecimento a que o País do autor foi votado.

" A cidade é o palco de todos os problemas com que o País em si se depara; há revoluções, mas ninguém ganha. Aliás, é o que acontece em muitos dos Países colonizados..." acrescenta o António.

" Então, o título tem a ver com a solidão do País? " repete o Bernardo.

" E com a impotência dos homens." acrescenta o Nicolau e as duas mulheres concordam.

" Não sei se estou de acordo." intervém o Major " É porque não têm uma estrutura militar..."

" Desculpe, mas uma resposta militar não é a solução para tudo." observa o Nicolau " E, depois, estamos a discutir um livro e não a situação política."

" O livro pode ter uma mensagem política, não se pode negar, mas não é só isso." diz a Rita.

O Major prepara-se para interromper mais uma vez e a Aida decide dar por terminada a sessão.

Talvez na próxima sessão possam falar de outro autor, de um outro autor.

" E, porque não um autor português? " propõe o Major.

CONTINUA

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

APRESENTAÇÃO - PARTE IV


" Se não me engano, o autor é sul-americano e esses Países foram colonizados..." começa a explicar o Major quando a Aida o interrompe.

" Vai-me desculpar, mas hoje vamos discutir os dois primeiros capítulos. Poderemos falar nisso quando terminarmos o livro."

" Mas é uma explicação simples..." protesta o Major, mas felizmente, o Nicolau e o António entram nesse momento.

Pelos vistos, os dois  já estão a meio do livro e discutem alegremente as características das personagens.

Uma vez que há dois novos membros, um dos quais ainda não leu o livro, optam por falar do escritor, da escrita fluída, a forma como as personagens " nascem".

" Esta conversa é interessante, mas acho que devemos ficar por aqui." diz a Aida " Para a semana, o Major já nos poderá acompanhar e apresentar as suas próprias ideias."

" Dizer se estou ou não de acordo com o que ouvi aqui. Que foi muito interessante!" interrompeu o Major Almeida " Aliás, Bernardo, vou fazer uma aposta contigo."

" Uma aposta? " repete o rapaz.

" Sim, para a semana, temos que estar a meio do livro, como estes dois senhores. Para podermos dar a nossa opinião!" responde o Major.

O Bernardo fica desconfiado, a Aida sorri e os outros membros do clube acham uma boa ideia.

" Espero que ele veja isto como um desafio." conta a Aida ao marido depois do jantar " Ele estava muito aborrecido, animou-se um pouco, porque o deixei atender dois adolescentes... Não sei se foi uma boa ideia."

" Relaxa. As ideias, a tua e a do tal Major foram óptimas...e pode ser que ele esqueça um pouco a tecnologia e perceba que esta é um complemento." aconselha o marido.


CONTINUA


quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

APRESENTAÇÃO - PARTE III


Na quarta-feira seguinte, o Bernardo está já sentado na sala com um ar muito infeliz quando a Rita chega.

" Olá, quem és tu? " e a Aida, que entra nesse momento, responde por ele:

" É o meu filho Bernardo, teve uns problemas na escola e está a ajudar-me. Espero que não se importe que ele esteja presente na sessão do Clube."

" Claro que não! " diz a Rita e prepara-se para conversar um pouco com o Bernardo quando um homem alto, musculado, com cabelo cortado à escovinha entra na sala e pergunta:

" É aqui o Clube de Leitura? "

" Seja bem vindo. Eu sou a Aida Nascimento, a gerente da livraria, esta é a Rita Ghent e o meu filho Bernardo. E o Senhor é? "

" Major Amadeu Almeida, reformado. Sei que se reuniram na semana passada, não sei se..."

" Não há problema, estivemos a discutir os objectivos do clube." e a Rita faz-lhe um pequeno resumo que o Major ouve atentamente.

" Então, já escolheram um livro. Gabriel Garcia Marquez, Cem Anos de Solidão? Sinceramente, não me lembro se o li." confessa o Major.

" Mas não há problema!" repete a Aida " Hoje, vamos falar sobre os dois primeiros capítulos, sobre as personagens, etc... "

" Se quer saber a minha opinião..." interrompe o Bernardo " é uma seca!".

" Oh, Bernardo! Mas isso diz-se?" repreende a Aida, mas a Rita apenas se ri.

" Acredito que na tua idade este livro seja uma seca, mas é o retrato de um País esquecido." explica a Rita.

" Um País esquecido?  Porquê? " comenta o Bernardo interessado.


CONTINUA

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

APRESENTAÇÃO - PARTE II


Pelo sorriso da Aida, a Rita percebe que a gerente também acha ridícula a apresentação do contabilista.

O António continua a falar, concorda também com a ideia da Aida:

" Um dos meus autores favoritos é o Gabriel Garcia Márquez. Gostei muito da  Crónica de uma Morte Anunciada."

" Pois, eu prefiro o  Cem Anos de Solidão." diz a Rita e há uma breve discussão, pois a Aida fala no " Amor em Tempos de Cólera".

O Nicolau tem estado calado, a observar simplesmente e a Aída pede-lhe a opinião.

" Para ser franco..." responde polidamente " sempre vivi rodeado por livros, sou professor de Literatura Clássica, especializado na medieval e confesso que não conheço esse autor."

" Prefere falar sobre os autores portugueses? " pergunta a gerente, mas o Nicolau abana a cabeça.

" Não, não. É uma boa ideia, concordo com a escolha do autor, provavelmente terei que ler os três livros."

A Rita e o António estão admirados, quem é que não conhece o Gabriel Garcia Márquez?, mas concordam em começar pelo " Cem Anos de Solidão".

Fica então resolvido que se reúnem na próxima quarta-feira para falarem sobre os primeiros dois capítulos.

O Nicolau acaba por comprar os três livros, a Aída está satisfeita com o resultado da primeira sessão.

Está cansada, mas feliz quando chega a casa. 

Contudo, há más notícias, diz-lhe o marido.

O filho, Bernardo com 16 anos foi suspenso por se recusar a entregar o telemóvel antes de entrar na sala de aula.

Aida fica furiosa, ainda mais quando sabe que são duas semanas, mas apressa-se a decidir o que acontecerá:

" Vais ajudar-me na livraria e no clube de leitura que começou hoje. Por isso, começa a ler o " Cem Anos de Solidão " do Gabriel Garcia Márquez."

" Oh, Mãe!" protesta o Bernardo, mas os Pais dizem de imediato que não há " liberdade condicional ", a " pena " vai ser cumprida na íntegra.


CONTINUA

Nota:
Podem dar a vossa opinião 
sobre o livro e o autor.


segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

APRESENTAÇÃO


" Organizar eventos que promovam a leitura e a venda de livros. " diz a nota da Administração Geral e a Aida Nascimento, uma mulher habitualmente cheia de energia sente-se um pouco intimidada.

É ao ver o site de uma livraria rival (se soubessem, despediam-me de imediato) que concluí que um clube de livraria é capaz de ser uma boa resposta à questão.

Faz mais alguma pesquisa e coloca um placard à entrada a anunciar o evento.

Pede aos colegas para colocarem igualmente um flyer em cada livro que venderem e aguarda.

Algumas pessoas pedem mais detalhes, têm que se inscrever, pagar alguma coisa?

Ter o cartão da livraria, acumular pontos que serão descontados na compra de livros, pagar o que consumirem (o clube reunir-se-á no bar uma vez por semana).

Ah, diz o senhor calvo de camisa xadrez, é capaz de ser interessante e a senhora muito faladora e que a Aida sabe que se chama Rita, concorda também.

Decidem que a primeira sessão será na semana seguinte, para já com eles os dois e a Aída que, como representante da livraria, acha que deve estar presente.

Está tudo pronto para a sessão quando um senhor alto e elegante, com uma pasta pergunta se vai ainda a tempo de se inscrever.

Claro que sim e até pode participar nesta sessão. diz a Aida, pensando que quatro é um bom numero para começar.

" Obrigada por terem vindo. Chamo-me Aida Nascimento e sou a gerente desta livraria e estarei presente em todas as sessões." explica " O objectivo deste Clube é divulgar e falar sobre livros. Mas, antes de desenvolver a acção do clube, devemos começar por nos conhecer - saber qual o vosso autor, livro preferido, porque é que esse livro vos marcou..."

" Falar também nos outros livros desse autor, por exemplo..." interrompe a Rita " Desculpe, não queria interromper..."

" De nada. É uma óptima ideia. A Senhora é? " pergunta a Aida.

" Rita Ghent, directora de marketing."

" Nicolau Vaz, professor universitário reformado." apresenta-se o senhor calvo com a camisa xadrez.

" António Gonçalves, contabilista no activo." e a Rita, brincalhona por natureza, tem que fazer um esforço para não se rir.


CONTINUA

sábado, 18 de janeiro de 2020

O CLUBE DE LEITURA - FIM


Felizmente, a Madalena não dá conta e continua a falar.

" Sabes quem tem um fraquinho por ti? O Major...  Quando abraçaste o Fernando, se o olhar matasse... nem tu nem ele resistiam."

" Não estás boa da cabeça! O Chorão?? Só se preocupa com ele mesmo e tem um prazer em cortar as palavras aos outros...." responde a Rita.

" Mas não a ti... Deixou-te falar à vontade... No meu livro, isso é paixão." ri-se a irmã.

" Maria Madalena, faça o favor de respeitar a sua irmã mais velha!" diz a Rita, fingindo-se zangada.

As duas desatam a rir, o Bernandes, que entra nesse momento, insiste em saber do que se trata para se rir também e só quando chega a casa, é que a Rita volta a pensar no comentário da irmã.

O Fernando era amigo do Rafael, era presença habitual nos jantares, nas festas que organizavam lá em casa.

Quando o Rafael morreu, ele foi um dos primeiros a aparecer, apoiou-a e encontrarem-se para tomar um café ou um almoço no restaurante da esquina tornou-se um hábito.

Agora com o clube, estão a passar ainda mais tempo juntos, partilham os mesmos interesses.

Será que a Madalena tem razão e ela e o Fernando estão a apaixonar-se? 

E quanto " Chorão", a Madalena só pode ter enlouquecido.

A verdade é que o " Chorão" parece um cordeirinho quando ela fala.

Ai, Rita, estás a perder faculdades, tu que eras tão namoradeira nos tempos de juventude, pensa.

Sorri... e sonha que está a ser disputada pelos dois homens.

Com o dia, regressa o bom senso e a Rita afasta a questão.

Mas ela fica lá, à espera de uma resposta.

FIM

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

O CLUBE DE LEITURA - PARTE IV


" Mas o que é que te aconteceu? Roupa nova, cabelo cortado e barba aparado? Hum... gosto!" e a Rita abraça o amigo.

" Conhecem-se? " pergunta o Nicolau interessado.

" Há muitos anos! Estamos inclusive a organizar um clube de leitura!" responde a Rita, pensando que o Nicolau enlouqueceu de vez com aquela camisa xadrez de um amarelo berrante.

" O do Jardim? Ah..." diz o Nicolau, enquanto a Madalena, que continua sentada, observa a reacção dos outros à conversa.

A Aida cora violentamente e ri-se nervosamente quando a Rita a apresenta.

O Major endireita-se na cadeira e o olhar que lança ao Fernando e à Rita é duro. Como se estivesse ressentido pela atenção que a irmã dispensa ao amigo.

Dir-se-ia que tem ciúmes, murmura a Madalena para si. (estás doida, dirá a Rita mais tarde).

O António e o Bernardo são os únicos que estão à vontade quando cumprimentam o Fernando.

O Nicolau pede para se sentarem, explica que o próximo tema a discutir será a poesia portuguesa e é essa a razão porque o Dr Fernando está presente.

" Estive presente numa das sessões organizadas pelo Dr Fernando no outro clube e ele foi muito eloquente a falar do Fernando Pessoa."

" Vamos falar do Fernando Pessoa? " interrompe o Major, mas o Nicolau apressa-se a esclarecer que escolheu Eugénio de Andrade.

" Eugénio de Andrade, porquê? Não gosto da poesia dele!" queixa-se o Major e o Fernando intervém.

" Eugénio de Andrade é um poeta simples, muito terra a terra. Tente novamente, tenho a certeza de que vai gostar."

O Major abre a boca para falar, mas o Fernando continua a falar e a Rita lança-lhe um tal olhar que o " Chorão " desiste.

O Fernando sabe como despertar o interesse pelo tema e quando sugere que cada um escolha um poema para discutirem na próxima sessão, todos concordam.

Batem palmas quando ele termina, agradecem-lhe efusivamente e a Rita dá-lhe um outro abraço o que irrita solenemente o Major.

Já em casa, o Bernardes ainda não veio do ginásio, e enquanto preparam qualquer coisa para comerem, a Madalena pergunta-lhe:

" Ouve lá, estás apaixonada por esse tal Fernando?"

A Rita abre a boca para brincar como habitualmente, mas não consegue.

É que sinceramente não sabe o que sente pelo Fernando.


CONTINUA