quinta-feira, 23 de março de 2017

JACINTO - PARTE IV


" Ele não fala muito.. Tem um temperamento especial..." desculpa-se a mãe " Vamos deixá-lo trabalhar. Muito obrigada por tudo." e estende-me a mão que aperto.

" Adeus, Francisco. Volta sempre que quiseres!" mas o miúdo não me olha e eu não sei se me ouviu.

Enquanto trato das orquídeas, penso no que a mãe disse.  Não fala muito? Temperamento especial?

Mudo? Autista? Asperger? Qual deles? Inclino-me mais para autismo. Pobre miúdo! lamento, mas entretanto, a viúva chama-me e passo o resto da tarde a falar dos meus planos para o jardim.

Ela concorda que plante arbustos perto do muro e fica entusiasmada quando lhe conto que vou plantar novas roseiras.

" Ah, vai ser muito bom ver este jardim novamente com vida!" confessa-me " A paixão dele eram as orquídeas, mas manteve sempre o jardim limpo e florido. Obrigada!"

Não respondo...  Não sei verdadeiramente o que dizer...

" Não digas nada!" aconselha-me a minha Mãe quando lhe conto o que se passou " Dá-lhe o jardim mais bonito do Mundo para que ela se sinta em paz!"

CONTINUA

segunda-feira, 20 de março de 2017

JACINTO - PARTE III


" Pronto! Já está! " digo e o miúdo olha-me sorridente.

" Não é melhor ires para casa? A tua mãe não estará preocupada?" pergunto, mas não obtenho qualquer resposta.

Ele continua a olhar-me e percebo que está feliz. 

Feliz porque esteve a fazer um monte de folhas? Estranho! penso, mas sorrio também.

" O Senhor desculpe..." diz uma voz por trás de mim.

Viro-me e vejo uma senhora loira, com um ar aflito encostada ao portão.

" Viu um menino ruivo com uns calções azuis e uma T-Shirt Branca?"  continua com a voz alterada.

Nesse instante, o miúdo espreita também e a senhora relaxa.

" Oh, Francisco! Tenho andado à tua procura! Não podes fazer mais isto!" e quando lhe abro o portão, entra e ajoelha-se em frente do miúdo.

Dá-lhe um forte abraço e depois um pequeno safanão.

" Não podes fazer mais isto!" repete e eu explico:

" Encontrei-o aqui com outros miúdos a brincarem neste monte de folhas. Os outros fugiram, mas ele ficou a ajudar-me. Ele não respondeu às minhas perguntas, caso contrário já o teria levado a casa."

CONTINUA

sexta-feira, 17 de março de 2017

JACINTO - PARTE II


Preciso de cortar a relva, mas primeiro varro. 

Há um canteiro com ervas aromáticas e outro com rosas.  

Há um outro canteiro que parece estar vazio; amanhã tenho que perguntar se posso plantar qualquer coisa.

Talvez amores perfeitos... Ou rosas de outra cor....

Faço um monte com as folhas perto do portão das traseiras que dá para o parque.  Saio por lá; gosto de passear pelo parque, às vezes fico a conversar com os jardineiros.

No dia seguinte, encontro uns miúdos a brincar no monte de folhas.  O muro é baixo e devem ter saltado.

" Ah, pestes! Fora daqui!" grito mesmo de antes de abrir o portão.  

São quatro e devem ter uns 8, 9 anos e olham-me divertidos.  Riem-se e saem pelo portão a correr.

" E não voltem!" digo e só então é que reparo que um deles ainda está sentado no monte de folhas.

" Não me ouviste? Vai-te embora!" mas o miúdo apenas sorri e não obedece. Levanta-se quando me aproxima, mas não fala.

" Agora tenho que juntar as folhas novamente! O que é que vocês aprendem na escola? Não respeitam o trabalho dos outros?" resmungo e começo a juntar as folhas.

Fico surpreendido quando o vejo fazer o mesmo.

CONTINUA

terça-feira, 14 de março de 2017

JACINTO


Jacinto Jardineiro.... A alcunha ficou e até a minha Mãe me chama assim...

Houve uma altura em que isso me incomodava, mas a verdade é que sou um jardineiro e adoro o que faço.

A minha verdadeira paixão são as orquídeas e uma senhora viúva contratou-me recentemente para tomar conta da estufa do marido.

Diz ela que não é capaz de as destruir; seria uma traição à memória do marido. 

" Mas também não sei como as tratar..." confessa " Era o Mundo dele e só se entrava aqui por convite." conta com um sorriso muito triste.

Tenho carta branca para fazer o que quiser. Mas eu respeito as orquídeas e estas foram muito amadas.

Quero continuar o trabalho do velho senhor e por aqui, aqui estou longe do Mundo.

Numa estufa perfeita no meio de um jardim bem cuidado que exploro cuidadosamente.

CONTINUA

sábado, 11 de março de 2017

LOUCURA TOTAL - FIM



" Como? Que história é essa? Explica-te, Bernardes!" exige Leandro.

" O Torcato gosta desse tipo de livros e como é fã da dupla, resolveu investigar. Há um livro, " A Cor" em que a protagonista morre, não há sinais visíveis de estrangulamento ou tiros. Concluí-se na autopsia que...." conta Bernardes, mas o telefone  interrompe-o.

Leandro atende; é o médico legista com resultados e Bernardes nota que o inspector fica perturbado.

" Então? " pergunta o sargento. Leandro demora uns segundos a responder e quando o faz, surpreende-o:

" Nesse livro, a protagonista morre de choque anafilático? "

" Exactamente!" confirma o Bernardes. " Mas o que aconteceu? A Teresa Emanuel morreu disso? "

" Ao que parece, era alérgica a ibuprofeno e deve ter tomado alguma coisa com isso na composição. " diz Leandro lentamente " Como é que vamos provar isso? Alguém lho deu?...
Mas ela era capaz de perguntar se tinha ibuprofeno... Ou estava na carteira dela e ela pensou ser o comprimido que tomava habitualmente." concluí Leandro.

" Ups! Vai ser complicado provar isso!" concorda Bernardes, mas Leandro está pensativo e não o escuta.

Tem quase a certeza de que foi Luisa. Afinal, as duas moravam na mesma casa e era fácil para Luisa colocar o comprimido na carteira da amiga.

Desviar as atenções dela para o ex-marido ausente tinha sido um golpe de mestre. Mas porquê? A não ser que o ex-marido também fizesse parte do plano...

" Oh, Bernardes, quem são os suspeitos no livro? " quer saber Leandro.

" O marido e a irmã. São amantes e querem ficar com a fortuna dela. O que é que está a pensar? Que foi a Luisa e o Tomás que engendraram tudo? " murmura Bernardes.

Sim, coincidência ou o crime perfeito? Na mente organizada de Leandro, tal não existe.

Terá que dar o caso como concluído.... 

Mas nunca se sabe o que acontecerá e tanto o Tomás como a Luisa podem dar um passo falso.


FIM 

quarta-feira, 8 de março de 2017

LOUCURA TOTAL - PARTE VI


Despedem-se e saem para a rua. Leandro dá instruções claras ao Bernardes: quer ter detalhes sobre a situação financeira de Teresa, de Luisa e da editora.

Enquanto Bernardes investiga, Leandro vai ter com o médico legista e este diz-lhe que a autópsia é inconclusiva.

Tem a certeza de que não morreu de ataque cardíaco, mas não pode adiantar mais nada.
Vai fazer mais alguns testes, mas não espera ter grandes resultados.

 " Este caso vai ser um beco sem saída. Mas porque é que a agente gritou que ela foi assassinada?" e com isto em mente, entra no gabinete.

O Bernardes está ao telefone, mas faz-lhe sinal de que tem novidades.

" Segundo informações da antiga editora, a Teresa Emanuel ainda recebe royalties dos livros que escreveu em parceria com o ex-marido. É esse dinheiro que está a sustentar a editora que abriu juntamente com a Luisa. Com o sucesso do 1º livro, recebeu uma proposta... " Bernardes cala-se por uns segundos, lê os apontamentos e recomeça:

" ... de uma grande editora o que lhe permitiria ter uma maior margem de manobra em termos financeiros e logísticos. Além disso, embora seja apenas um rumor, a editora até está disposta em "absorver" a da Teresa..."

" O que a Luisa não gostaria nada... " interrompe Leandro.

" Pois não.  Porque o outro rumor é que a Luisa foi despedida por ter desviado fundos e está cotada como "persona non grata" no mundo editorial!" anuncia triunfante Bernardes.

" Se sabia disso, pode ter engendrado uma forma de se livrar da Teresa..." concluí o inspector. 

" Se o fez, inspirou-se no enredo de um dos livros escritos pela dupla Teresa/Tomás..."  continua o sargento, sorrindo.

CONTINUA 

domingo, 5 de março de 2017

LOUCURA TOTAL - PARTE V


Aquele arranhão no dedo intriga Leandro, mas acha que nem o médico legista vai responder à pergunta que não o deixa em paz.

Mas são quase onze horas e a agente está à espera deles.

Chama-se Luisa, é baixinha e um pouco roliça.  Tem uns olhos pretos muito vivos e um sorriso cativante.

A primeira pergunta é: " Foi assassinada, não foi?" e parece desapontada quando Leandro diz que estão apenas a confirmar depoimentos.

" A senhora e a Teresa Emanuel eram amigas?" questiona Bernardes.

" Sim, amigas de infância. Fomos juntas para a Universidade, frequentamos o Curso de Literatura e Línguas Modernas e trabalhamos durante algum tempo na mesma editora. Entretanto, ela conheceu o Tomás e saiu. Eu continuei lá.... Mas já falaram com o Tomás? Tenho a certeza de que foi ele..." interrompe.

Leandro sorri calmamente e explica pacientemente: " Como disse, estamos a confirmar depoimentos. Preciso de conhecer um pouco mais a Teresa..."

" Mas..." insiste Luisa e Bernardes replica: " Sabemos que eles escreviam livros em parceria e separaram-se. A Teresa explicou-lhe o motivo? "

" O Tomás era, é muito ciumento e a Teresa pouco ou nada escreveu nos dois últimos livros da série. Quando se separaram, a Teresa veio morar comigo. Fiquei desempregada, entretanto e como tenho vários contactos no mundo editorial e a Teresa não queria publicar com uma editora conhecida, resolvemos abrir uma. O livro de estreia da Teresa foi um sucesso... Mas não entendo estas perguntas! Foi o Tomás quem a matou, tenho a certeza!" explode.

" Como pode ter tanta certeza?" pergunta Leandro " Há várias testemunhas que dizem que a senhora gritou isso bem alto. Mas o que a leva a dizer isso? Nós ainda não temos o resultado da autópsia... "

" E o ex-marido está na Argentina e só regressa dentro de dois dias." acrescenta Bernardes.

Luisa fica calada e cora violentamente.  Abre a boca para dizer qualquer coisa, mas o olhar de Leandro é tão frio que desiste.

CONTINUA