sexta-feira, 19 de junho de 2020

O PASSEIO - PARTE IV


Estou tão cansado que adormeço de imediato, nem janto.

Na cozinha, todos jantam em silêncio e é só quando a Matilde e a Clarinha estão já no quarto que os adultos conversam.

" Falei com a agente que estava de serviço no parque e ela diz que, apesar do pânico, o Gustavo foi bastante competente." observa o Inspector Bernardes " Foi essa a palavra que ela usou " competente", fez uma descrição pormenorizada da Clarinha, mostrou uma foto que tinha no telemóvel, levou-os ao sítio onde ela estava a brincar, onde ele e os amigos a procuraram..."

" É teu filho; falas dos teus casos, discursas sobre a importância dos pormenores... ele ouviu-te." interrompe a Madalena e a Rita sorri.

No fundo, o cunhado até está orgulhoso do filho, ela própria está, mas a Madalena continua preocupada.

" Pena que não tenha escutado tudo... Porque já tivemos este tipo de conversa: se estão com a Clarinha, vejam o que ela faz, para onde vai. Sigam-na... O Gustavo falhou redondamente..." continua a Madalena.

" Não discordo, mas ele também provou ser uma pessoa capaz de enfrentar a situação e assumir a culpa." comenta a Rita.

A Mãe não está convencida, ainda está muito magoada.

A Clarinha adorou ver o esconderijo dos patos, ficou assustada porque não soube voltar para trás, o Gustavo não teve culpa, frisa.

" Para a próxima vez, chamas o Gustavo e ele vai contigo, ok? Ficamos muito assustados, não sabíamos onde estavas..." explica a Madalena, mas a Clarinha não percebeu.

A Rita levanta-se, está a ficar tarde, amanhã tem uma reunião importante.

" Amanhã, o Gustavo vai falar contigo. Ouve-o... ele está muito arrependido e precisa que tu o perdoes." pede e saí.

A Madalena entra no quarto das filhas, tira o telemóvel da mão da Matilde e dá um beijo na cabeça da Clarinha.

O filho está a dormir profundamente em cima da cama, a Mãe estende uma manta por cima dele.

Depois, vai para o quarto dela e desata novamente a chorar nos braços do marido.

CONTINUA

quinta-feira, 18 de junho de 2020

O PASSEIO - PARTE III

 
A Mãe não diz nada, tira-me a Clarinha dos braços e olha-me tão magoada, tão triste que eu fico envergonhado.

O Pai também não diz nada e o rosto da Rita, sempre tão exuberante está sombrio.

" Senta-te, Gustavo." pede o Pai muito formal e eu obedeço, será assim que ele fala com os suspeitos? " Sabes qual é o meu trabalho, já lidei com este tipo de situações e o desfecho pode ser muito doloroso. Não só para nós, profissionais como também para a família da vítima. Por isso, compreendes como isto foi uma irresponsabilidade? Puseste a tua irmã em perigo... E, porquê?... não, não me interrompas... É nisto que quero que penses. Também espero que compreendas a razão porque vais voltar a ficar " confinado "...."

" Oh, Pai!" deixo escapar, mas o meu Pai continua a falar, a explicar o que espera de mim nas próximas semanas.

Para ganhares novamente a nossa confiança, esclarece.

" Nada de telemóveis, video chamadas ou afins, saídas apenas as indispensáveis - escola, aulas de remo e mais nada. Porque, quero que tenhas isso em mente... sempre que saíres com a tua irmã, a prioridade máxima é a segurança dela. Nada mais! Tens muito em que pensar, tens que falar com a tua Mãe... Porque ninguém aceita que tenhas sido tão irresponsável!" remata.

Cedo à pressão e, para minha grande consternação, desato a chorar.

Não é o Pai que me abraça, é a Rita que diz baixinho:

" Calma! Foi um erro que poderia ter sido fatal, nem quero pensar. O importante agora, Gustavo é o que aprendes com isso. O que estavas a fazer? "

" Encontrei dois amigos, estávamos a conversar. A Clarinha estava no labirinto, estava entretida... Foi só uns minutos, Rita!" explico.

" Foi o que bastou!" responde a minha Tia " Agora, vai tomar um duche, muda de roupa. E, depois, tens que conversar com a tua Mãe. Não hoje.." acrescenta " ela está muito magoada, mas amanhã, tens que ser franco com ela."

Sigo o conselho dela, vou tomar um duche e quando chego ao quarto, vejo que o Pai já lá esteve.

O telemóvel desapareceu, a consola de jogos também. Só ficou o computador, mas não me atrevo a ligá-lo.

CONTINUA

quarta-feira, 17 de junho de 2020

O PASSEIO - PARTE II


Ali perto, há um parque com baloiço e um labirinto que a Clarinha quer explorar.

Fico cá fora, coloco as bicicletas no local adequado e sento-me no muro a vigiar a minha irmã.

Avisto, entretanto, dois amigos meus, o Manuel e o Vicente e ficamos ali uns minutos a conversar.

Confesso que não me lembro da Clarinha, não me passa pela cabeça que ela pode ficar aborrecida e decidido seguir uma família de patos até ao seu esconderijo.

Só vejo que ela não está no parque quando a Mãe telefona e pergunta porque é que não estamos ainda em casa.

Fico imediatamente aflito, pergunto a toda a gente se viu uma miúda com leggings azuis escuras e T-Shirt rosa, a fita do cabelo também é rosa, acrescento.

Há uma senhora que me diz que a viu sair do parque e subir aquele carreiro, aponta e leio no olhar dela uma certa censura.

Subimos o carreiro, mas há tantas bifurcações que decidimos separar-nos e explorar.

Não a encontramos, estamos os três sem fôlego e eu estou desesperado.

Procuro funcionários do parque, um polícia, sou Gustavo Bernardes, identifico-me à agente que está à entrada do parque, não sei onde está a minha irmã, pode ajudar-me?

Em menos de um minuto, organiza-se uma equipa de salvamento e busca e ligo então à minha Mãe.

A Mãe, conta a Matilde mais tarde, ficou tão branca que a minha irmã pensou que ela ia desmaiar.

Afligiu-se, pediu ajuda à vizinha e como a Mãe começou a chorar descontroladamente, telefonou ao meu Pai e à Tia Rita.

Por isso, quando duas horas mais tarde, apareço em casa com uma Clarinha muito suja e muito assustada nos braços, enfrento um júri muito hostil que me aplicará a pena máxima.

CONTINUA

terça-feira, 16 de junho de 2020

O PASSEIO



Ups! Já posso treinar remo e que sorte que o clube é perto de casa, pois não posso usar os balneários.

" Que horror! Cheiras mal!" queixa-se a Clarinha quando entro em casa.

Eu rio, porque agora posso sair, maldito confinamento, penso e já não tenho que a aturar.

Depois arrependo-me, a miúda só tem cinco anos, o jardim infantil fechou e ela aborreceu-se imenso.

Por isso, de vez em quando, batia à porta do meu quarto, oh, Gustavo, fazes um desenho comigo? A Matilde não quer.

Pois, a Matilde deve sentir-me como eu - presa, frustrada, sem festas, sem saídas com as amigas.

" Atenção às regras! Máscara, higienizar as mãos e manter o distanciamento social." os Pais estão sempre a chamar a atenção para isso, mas nem sempre é fácil.

Se queres ver um video ou ler um post engraçado no Face, tens que te aproximar.

Como filho de um Inspector da Polícia, tenho que dar o exemplo, mas é tão duro...

Hoje, a Mãe pede-me para levar a Clarinha ao parque. 

Tem uma série de coisas a fazer, não pode arrastar a miúda, ela aborrece-se imenso, queixa-se e desorganiza-me o dia, diz.

Porque é que a Matilde não a leva? pergunto, mas a minha irmã quer dar uma volta pela Baixa com as amigas, ver as novidades, esclarece.

Não me agrada muito, faço saber à Mãe, mas esta não admite mais discussões.

Trouxemos as bicicletas, a Clarinha está feliz por estar ao ar livre.

Damos uma volta ao parque e depois paramos ao pé do lago.

CONTINUA

Nota:
Gustavo, Matilde e Clarinha são sobrinhos da Rita.


segunda-feira, 15 de junho de 2020

OS CUNHADOS - FIM



" Vocês param com isso?" reage a Teresa " A atacarem dessa maneira quando têm que estar unidos??? Ok, o António não devia dizer isso, depois falam nisso, mas agora temos que pensar na Laura e como a podemos ajudar."

" Oh, pá, desculpa!" o António é o primeiro a pedir desculpas.

" Deixa lá." concede o Gonçalo " Eu também fui um bocado estúpido. É como a Teresa diz, temos que pensar na Laura."

" Pois... vamos dar-lhe espaço, ver o que ela decide!" diz o António e o Gonçalo despede-se uns minutos depois.

Nem telefona à Rita, vai para casa dele directamente, precisa de pensar.

A Mãe telefona nesse fim de semana, a Laura pediu para passar uns dias com eles e o médico concordou.

Não, é melhor não aparecerem cá, o médico quer ver como ela reage, não quer muita gente à volta dela.

Os irmãos compreendem, o Pedro fica um pouco desapontado, queria conversar com a Laura, saber o que ela quer fazer.

" Dá-lhe espaço!" aconselham as irmãs " Deixa-a gozar a companhia dos Pais e do Miguel.  Ela cresceu naquela casa, tem boas memórias e isso pode ajudar."

Mas o Pedro não está convencido, está a ficar frustrado com a situação, sente-se a sufocar.

O Gonçalo e a Rita convidam-no para jantar, tentam distraí-lo, mas o Pedro confessa não estar na melhor das disposições.

A Rita e o Gonçalo não sabem o que fazer mais, a Teresa e a Carolina sentem-se impotentes, a única coisa que podem fazer é apoiá-lo.

A Laura gosta de passar aqueles dias na quinta, interessa-se pelo que lá acontece e até sugere algumas mudanças.

O médico acaba por lhe dar alta, a Laura instala-se na quinta e pede aos irmãos para a visitarem.

Contudo, não diz nada ao Pedro.

Pelo contrário, contrata um advogado para concluírem o divórcio e discutirem a custódia do Miguel.

Quando o António lhe pergunta se tem a certeza, a irmã sorri e diz que tem a certeza absoluta, está na altura de controlar a vida sozinha, com as suas próprias regras.


FIM




domingo, 14 de junho de 2020

OS CUNHADOS - PARTE V


No dia seguinte, enquanto tomam o pequeno almoço, a Rita volta a perguntar ao Gonçalo:

" Achas que isto foi uma boa ideia?"

" Rita, isto já aconteceu entre nós... não vai mudar nada entre nós. Somos adultos, somos responsáveis..." responde o Gonçalo pacientemente.

" Mas também trabalhamos juntos." observa a Rita, mas o Gonçalo abana a cabeça, explicando que a relação  profissional é possível porque se conhecem pessoalmente.

" Por falar nisso, tive uma ideia..." e expõe o que pensa fazer no novo projecto que estão a desenvolver.

" É assim que vão começar os dias?" brinca a Rita, o Gonçalo dá-lhe um beijo intenso que lhe tira o fôlego.

" Maluco!" ri-se a Rita e o Gonçalo diz: " E, tu adoras!!!"

Despedem-se, o Gonçalo tem uma reunião fora e já está atrasado.

A Teresa telefona-lhe ao fim da tarde, pode passar lá por casa e falar com o António? ele está muito desanimado, comenta.

O Gonçalo não sabe bem o que dizer ao irmão, partilha as preocupações, claro, mas a única pessoa que tem que resolver os problemas é a própria Laura.

"... acho que ela não quer...talvez queira que tenham pena dela!" concluí.

" Por amor de Deus, Gonçalo! Como podes dizer isso?" explode o António.

" Já pensaste bem como a nossa irmã reage quando a situação não lhe é favorável? Esconde-se, espera que os outros reparem que as coisas não estão bem..." continua o Gonçalo e a Teresa suspira.

Não pode negar que o Gonçalo tem uma certa razão, não é fácil para o António admitir que a irmã gémea tem problemas sérios.

" Desculpa, António, a Laura também é minha irmã, mas temos que ser sinceros. Só assim a podemos ajudar. A Rita acha que ela é mimada..." e o António interrompe-o:

" Andas a discutir isto com a Rita? A que propósito? "

" Qual é o problema? " insurge-se o Gonçalo " A Rita é minha amiga, trabalha comigo, confio nela."

" E também dormes com ela!" e mal acaba de pronunciar a frase, o António percebe como foi cruel.

Oh, António, diz a Teresa muito baixinho e a expressão do rosto do Gonçalo muda.


CONTINUA


sábado, 13 de junho de 2020

OS CUNHADOS - PARTE IV


A mãe está desapontada, não sabe realmente o que se passa com a Laura, desabafa com o marido nessa noite, educamos os três da mesma maneira e a Laura, sempre tão activa e exuberante, é a que está a ter mais problemas. Onde é que falhamos?

Mas o marido não concorda, temos que nos concentrar no que podemos fazer agora para a ajudar.

O Pedro está magoado, a Teresa está preocupada com ele e com o António também, embora este não fale sobre o assunto.

Só o Gonçalo é que consegue dizer abertamente o que lhe vai na alma.

O Miguel fica com os avós, precisas de descansar, Pedro, diz a Mãe da Laura e este aceita a sugestão com alívio. Tem muito em que pensar.

Por isso, regressam os quatro à cidade, um pouco desanimados e pouco falam.

O Gonçalo resolve telefonar à Rita, precisa da companhia de uma mulher bonita, confessa e a Rita ri.

" O que aconteceu à Eduarda? " pergunta quando já estão a tomar o café.

" Não a vejo há uns meses. Acho que tínhamos objectivos diferentes e era um pouco ciumenta. Não lido muito bem com isso..." explica o Gonçalo.

" Por causa da tua irmã? " comenta a Rita e bate-lhe carinhosamente na mão. 

" Em parte... Está a ser muito duro, sabes? nunca vi a minha Mãe tão triste, tão desanimada." diz o sócio, apertando-lhe a mão.

" Também não entendo a atitude da Laura. Bem sei que ela teve uma série de problemas, mas...." interrompe-se, não quer magoar o Gonçalo.

" ... a Laura não os soube enfrentar... O que é uma contradição em si, porque a Laura sempre foi expansiva, pró-activa..." termina o Gonçalo por ela.

Suspira, olha-a intensamente e a Rita advinha o que ele está a pensar.

" Achas que é uma boa ideia? "

" O quê? Ficarmos juntos esta noite?...." comenta o Gonçalo " Ora, Rita, conhecemos-nos há muito tempo, há qualquer coisa em nós que é inabalável... e respeitamos-nos o suficiente para não ultrapassar limites."

" Sempre soube que eras um romântico!" diz a Rita muito baixinho e segue-o até ao carro.

CONTINUA