domingo, 17 de novembro de 2019

VERA


" Respira fundo, Vera, não mostres medo!" pensar é fácil, agir é mais complicado e a Vera sente-se muito sozinha.

Culpa sua, talvez, mas rejeita de imediato o pensamento. 

A médica não quer que pense nisso, tem apenas que compreender que não faz parte da vida daquelas pessoas, que nunca foram suas amigas.

Toleram-na apenas, é alguém que trabalha com eles e não existe fora do escritório.

Mas o pior, acha a Vera, é a divisão entre as pessoas, trabalham na mesma empresa, mas a médica diz que está a ter uma visão muito romântica da vida.

Será?  Encontre os seus próprios amigos, invista nas coisas de que gosta, seja quem é e não uma sombra, aconselha a médica.

Mesmo que os outros não gostem? E a médica apenas sorri, porque a realidade é essa.

Encontramos pessoas com quem estabelecemos laços para toda a vida e outras que não suportamos.

E, com isto em mente, a Vera abre a porta e entra.

Há sorrisos, oh, pá, estás melhor, mas esquecem-na pouco depois e a Vera fica a olhar para a secretária vazia.

Aquele primeiro dia é complicado, a secretária permanece vazia e ninguém lhe fala.

Vera sente-se frustrada. Ok, esteve ausente dois meses, mas esteve bastante doente e ninguém pensou que recuperasse.

Assim é que não recupero, murmura quando sai e nem responde quando, em casa lhe perguntam como correu o dia.


CONTINUA



sexta-feira, 15 de novembro de 2019

O REGRESSO - O FIM


O almoço até corre bem, a Sandra não está propriamente à vontade, mas a Cristina está bem disposta e só conta anedotas.

Combinam que, pelo menos um vez por mês almoçam juntas. 

Naquela restaurante ou noutro e cada uma paga o seu.

A Sandra agradece a companhia e desaparece na sala do arquivo. 

Diz que tem muita coisa a catalogar, mas talvez se encontrem na cafetaria mais tarde para um café?

Porque não? pensam a Carla e a Cristina, uma troca de palavras amáveis é essencial para a vida.

" Pena a Beatriz!" comenta a Carla nessa noite " A Sandra mostrou-se um pouco hesitante, um pouco indecisa, mas suspeito que está a reaprender a viver..."

" Vai demorar a confiar nas pessoas." confirma o Brites " Não te preocupes com a Beatriz, parece-me ser aquele tipo de pessoa que é um herói quando tudo corre bem, mas esquiva-se quando as coisas dão para o torto."

" Sim, porque ela também alimentava a troca de comentários impróprios... Claro que a Sandra também me disse que tinha a vida garantida porque estou casada com um detective, mas eu fiz de conta."

" Vida garantida?" ri-se o Brites, atraindo-a a si, mas a Sofia resolve interromper o romance dos pais.

Os meses passam, a Sandra começa a sorrir mais, mais descontraída, mais confiante e a Carla recebe uma proposta de emprego irrecusável.

O Brites incentiva-a a aceitar e os colegas oferecem-lhe um jantar de despedida.

A Cristina e a Sandra obrigam-na a prometer que continuam a almoçar juntas uma vez por mês e a Carla ocupa satisfeita o novo lugar.

É num desses almoços, quase um ano depois, que a Sandra conta tudo o que lhe aconteceu às duas amigas.

Porque confia nelas....


FIM


quinta-feira, 14 de novembro de 2019

O REGRESSO - PARTE V



Naquela tarde, a Carla encontra a Sandra a chorar na casa de banho.

A outra tenta recompor-se, mas a Carla apenas lhe aperta o ombro em sinal de solidariedade.

" Se precisar de ajuda, posso indicar-lhe um grupo de apoio." e a Sandra olha-a com curiosidade.

A Carla sorri-lhe e continua a falar:

" Parece que o tempo vai melhor! Amanhã, vamos almoçar no restaurante da esquina, porque não vem connosco? "

Surpreendida, a Sandra aceita e a Cristina, que entra nesse momento, acrescenta:

" Espero que goste de bacalhau no forno. É o prato do dia e é muito bom!"

" Sim, gosto muito. Com batatas a murro? " diz a Sandra.

" Com tudo a que temos direito!" e as três riem.

A Carla pede desculpa, tem que se ir embora, já está atrasada para ir buscar a Sofia e separam-se no átrio.

No dia seguinte, a Beatriz pergunta à Carla:

" Vocês convidaram a Sandra para almoçar connosco? "

" Qual é o problema? É uma forma de lhe dizermos que pode contar connosco." mas a Beatriz abana a cabeça e observa:

" Então, eu não vou. Não estou para a aturar! " e a Carla fica surpreendida pela reacção da outra.

" Por amor de Deus! Esquece isso! Ok, ela não foi propriamente um modelo de educação, mas tu também foste culpada. Ela deu-me alguma bocas, mas, como a ignorei, ela calou-se."

" Se calhar, foi porque sabe que o teu marido é Sargento na Polícia!" replica a Beatriz.

" Sem comentários! Se não vens almoçar, tudo bem! Problema teu!" a Carla está furiosa e desabafa com a Cristina:

" Nunca pensei que a Beatriz fosse assim, rancorosa!"


CONTINUA

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

O REGRESSO - PARTE IV


" A Sandra voltou hoje, mas está diferente!" e, em resposta à pergunta muda do marido, a Carla explica " Está mais magra, mas até precisava, mas nota-se que está assustada com qualquer coisa."

" Com quê? " interrompe o Brites, mas a Carla encolhe os ombros.

" Não sei! Acho que ela foi, está a ser vítima de violência doméstica. Ela que gostava de tops e saias curtas, aparece agora com camisas de manga comprida e lenços ao pescoço."

" Pode ser sinal de violência... mas não podes abordar a questão frontalmente!" aconselha o marido " É uma questão muito complicada, tens que estar segura disso para não a afastares!"

" Sargento Filipe Brites, conheces-me. Sou a discrição personificada!" interrompe a Carla.

No dia seguinte, a Carla convida a Sandra para um café, mas esta recusa.

Tem os olhos vermelhos, deve ter chorado e, como o lenço está um pouco torto, a Carla vê que parte do pescoço da Sandra está pisado.

" Ali, naquela zona... não, não foi nenhuma pancada. Alguém a tentou sufocar." comenta com a Cristina mais tarde.

" Mas concordo com o teu marido, não temos a certeza e não lhe podemos falar no assunto." diz a colega.

" Eu sei, aprendi muitas coisas com o Filipe. Não é que ele fale em detalhe dos casos, não o pode fazer, mas há certas coisas que podemos discutir!" admite a Carla.

Continua a estar atenta às atitudes da Sandra. 

Se alguém fala mais alto, ela assusta-se e até pede ao Chefe para deixar de fazer serviço externo.

Trabalha na sala do arquivo, substitui a Beatriz na recepção se necessário e trata do correio.

" Isto confirma as minhas suspeitas!" afirma a Carla, mas a Cristina pede-lhe calma.

A Beatriz acha que tudo aquilo é um absurdo e como a Sandra parece submissa e não reage a quaisquer provocações, faz de conta que a outra não existe.

CONTINUA


terça-feira, 12 de novembro de 2019

O REGRESSO - PARTE III


" Se calhar, meteu baixa!" responde o Brites quando a Carla lhe conta as peripécias do dia.

" A Sandra? Gaba-se de nunca ter estado doente!"

" Nem uma constipação?" ri-se o Brites, mas a Sofia chora nesse momento e a Carla deixa-o sozinho na sala.

Quando regressa, está tão cansada que acaba por adormecer no sofá.

O Brites tem pena dela e não a acorda. 

Se a Sofia chorou de noite, a Carla não deu conta e pela cara do Brites, é fácil adivinhar de que a rapariga passou bem a noite.

Na empresa, todos falam da Sandra.

Alguém da família, não se identificou, entregou o papel da baixa.

" Acreditas nisto? " pergunta a Beatriz " A Sandra de baixa? Dizia sempre que era de aço inoxidável."

"Às vezes, é melhor a pessoa ficar calada. No fundo, a Sandra é muito insegura!" comenta a Cristina.

" O quê? Com aquela língua afiada? " espanta-se a Beatriz.

" Sim, é uma forma de esconder que é frágil, não tem a certeza das coisas. Por isso, ataca." acrescenta a Carla " O Brites diz que é dessa forma que sabe que as pessoas estão a mentir. Constroem uma história e repetem-na até à exaustão."

" Nunca pensei nisso!" admite a Beatriz " Mas ela não deixa as pessoas aproximarem-se."

As outras encolhem os ombros, a Beatriz não deixa de ter razão, a Sandra põe as pessoas à distância, mostra-lhe o lado menos agradável da sua personalidade.

A Sandra regressa passadas duas semanas. Está diferente, está mais magra e, apesar do calor, traz uma camisa de mangas compridas e um lenço ao pescoço.

Nota-se que está nervosa e sobressalta-se com o mais pequeno barulho.

A Carla observa-a atentamente e pensa se não terá sido vitima de violência doméstica.

" Ups, já estou a pensar como o Brites!"


CONTINUA




segunda-feira, 11 de novembro de 2019

O REGRESSO - PARTE II


A Sandra continua a fazer comentários irónicos e a Beatriz tenta controlar-se.

A discussão torna-se-ia agressiva, se a Clara, a calma em pessoa, não decidisse intervir.

" Ou calam-se ou chamo o Chefe, porque há aqui pessoas que querem trabalhar." e como, nem a Sandra nem a Beatriz querem falar com o Chefe, calam-se.

A meio da tarde, telefonam da creche, a Sofia está agitada, tem febre, talvez seja melhor levá-la ao médico e a Carla saí a correr.

Não assiste à discussão que a Sandra provoca com um comentário estúpido relativamente ao vestido que a Beatriz comprou à hora de almoço.

Apesar dos conselhos práticos da Clara, as duas discutem tão alto que o Chefe ouve e pede uma explicação.

Como não está habituado a trabalhar com " miúdos malcriados", diz, pede-lhe para se apresentarem no gabinete dele no dia seguinte às nove horas em ponto.

Naquele dia, a Carla só vai de tarde, teve que deixar a Sofia em casa da Mãe e fica admirada por ver a Beatriz com os olhos vermelhos e muito calada.

Interroga a Clara com o olhar e esta conta-lhe baixinho o que se passou.

" Ela não disse o que se passou no Gabinete do Chefe, apenas que ele estava furioso, ainda mais porque a Sandra não apareceu."

" Não apareceu? " e só agora é que a Carla se apercebe que a secretária da " faz tudo" está vazia.

" Pensei que ela estivesse a fazer serviço externo." confessa a Carla, mas a Clara abana a cabeça.

" Não, já lhe telefonamos, para o fixo e para o telemóvel e ninguém atende!"

" Fugiu!" e as duas desatam a rir.

A tarde passou-se sem grandes sobressaltos; a Beatriz continua calada e não há quaisquer notícias da Sandra.


CONTINUA


domingo, 10 de novembro de 2019

REGRESSO


Carla não sabe o que fazer.

O nascimento da filha mudou as prioridades e o regresso ao trabalho não está a ser fácil.

As pessoas estão diferentes. 

Dantes, havia um ambiente de cumplicidade, de partilha e agora, há uma frieza, uma tal arrogância que o melhor é fingir que não existe.

Mas é impossível ignorar, as pessoas explodem rapidamente e fazem observações maldosas. 

A Carla sente-se encurralada, começa a sentir-se infeliz e mal pode esperar que o dia de trabalho acabe para rever a filha e marido.

O Brites aconselha-a a candidatar-se a outro emprego, mas a Carla está hesitante.

Mas o que se passa naquela manhã torna a decisão mais fácil.

A Beatriz critica a " faz tudo " da empresa por não dizer " bom dia" e esta insurge-se, dizendo:

" Não posso fazer o que eu quiser? " e a Beatriz perde a cabeça e pergunta:

" A Sandra é uma grande malcriada! Nunca lhe disseram que dizer " bom dia" faz parte das regras básicas da boa educação? "

Mas a Sandra ri-se, o que enerva a Beatriz.

" Já olhou bem para si? Está sempre calada, armada em importante! Pensa que é a Chefe? "

A Carla acha melhor intervir e observa calmamente:

" Deixem-se disso! Beatriz, não ouves o telefone? E, a Sandra vá tratar do arquivo? "

" Ah, a Carla também está armada em Chefe? " e o riso da Sandra é desagradável.

A Carla ergue as mãos num sinal de impotência e resolve atender o telefone.

Do outro lado, há um cliente furioso, que observa que está há mais de vinte minutos a tentar contactar a empresa.

CONTINUA