terça-feira, 16 de outubro de 2018

O CONVITE - PARTE III


Acabo por rejeitar aquele rascunho e os posteriores....

Há qualquer coisa falsa que não me deixa continuar.... 

Nada tem sentido... Como o facto de ter aceite o convite...

Pouco ou nada me lembro dos colegas... 

Seguimos rumos diferentes, temos prioridades opostas...

Por isso, pergunto-me: o que vou lá fazer? O que vou responder à pergunta " O que é feito de ti?" ?

" És tão complicada! Vai, diverte-te!" aconselham, mas eu tenho essa pequena dúvida enraizada na mente e desorganiza os meus dias.

" Não te percebo! És assim no trabalho? Demoras cinco dias a responder a um email?" repetem. 

Não, não demoro cinco dias a responder, faço o possível e o impossível para ser o mais rápida possível e até me torno aborrecida de tanto insistir com os fornecedores nessa resposta.

Isto é não é uma cotação, uma encomenda, uma análise de vendas que exige toda a minha atenção e ponderação.

É um simples discurso e sei o irónico que é dizer que não me sinto à vontade.

Por isso, vou improvisar; talvez tenha sorte e seja um sucesso.

Ou um fracasso...

Mas a minha vida não depende disso...


CONTINUA






segunda-feira, 15 de outubro de 2018

O DISCURSO - PARTE II


Ou talvez não...

Supostamente é um evento festivo... Estão à espera de um discurso brincalhão, que os faça rir...

Falar de consciência, projectos, sonhos.... vou ser vaiada pelos mais superficiais...

Ou talvez não...

As pessoas mudam... podem surpreender-nos pela positiva ou pela negativa...

E eu não sei quem vai... 

" Ai, tantas reticências! Escreve qualquer coisa e não penses mais no assunto!" dizem-me para me dizerem quase de imediato quando lêem o primeiro rascunho.

" Que piroso! Caros colegas, é com prazer que.... Opta por um estilo mais simples, mais terra a terra!"

Fico a matutar no assunto e escrevo uma nota:

" Talvez não deva confessar isto, mas não sei porque me pediram para escrever um discurso.
Um discurso sobre o qual pensei muito para concluir rapidamente que não sei como escrever um discurso.
Porque sei que não me querem ouvir... continuo a ouvir risinhos e tagarelice...
Por isso, o que vamos fazer? O que querem que eu diga?."

" Ainda às voltas com o discurso??? Que disparate é este?"

" A verdade!" digo.

Calam-se.... Talvez porque a pergunta que faço faz todo o sentido... Ou não...


CONTINUA





domingo, 14 de outubro de 2018

O DISCURSO


Não sei muito bem como escrever um discurso...

Pode ter um tema, ter citações, mas deve ser coerente, fluido e sobretudo, não ser maçador.

O que é importante, porque me lembro muito dos discursos do 10 de Junho: complexos, cheios de mensagens políticas e muito longos.

Por isso, não quero escrever um discurso muito longo e aborrecido. 

Nem vou falar sobre a situação política.

É um evento amigável; posso intercalar momentos sérios com piadas inocentes.

Mas continuo sem saber sobre o que vou escrever e porque é que aceitei essa tarefa ingrata.

Porque é ingrato falar para pessoas com quem, salvo raras excepções, se tem pouca ou nenhuma afinidade.

Que me consideravam estranha, introvertida, misteriosa, a quem não se podia dizer nada porque se ofendia facilmente.

Talvez isso seja realmente um defeito, mas preferi ignorar do que viver eternamente em guerra.

Se fui cobarde? Talvez... mas estou em paz com a minha consciência...

Ah, acabo de encontrar o tema para o meu discurso.

CONTINUA



sexta-feira, 12 de outubro de 2018

A DISCUSSÃO - O FIM


Mas a Anabela continua a dizer não e as discussões sucedem-se...

Cada vez mais sérias, cada vez mais azedas...

Até que o Alexandre saí de casa e pede o divórcio...

Mostra-se irredutível, embora aceda almoçar com a Teresa que os tenta reconciliar.

A Teresa fica preocupada com a Anabela que aceita tudo o que é proposto; não luta, não pede nada.

Uma das condições do divórcio é a venda da casa. O valor da venda será dividido pelos dois.

Teresa ajuda a filha a desmontar a casa; Alexandre deu uma lista das coisas com que quer ficar.

O que a Anabela não quiser, será igualmente vendido e depois dividido.

" O que vais fazer agora? " pergunta-lhe.

Anabela abana a cabeça e responde calmamente:

" Ainda não sei. Não pensei nisso!"

" Vai comprar um apartamento mais pequeno? Há uns perto da casa do teu irmão que são bem engraçados." insiste a Teresa.

" Mãe, não sei!" repete a filha e cala-se.

A casa é vendida, o dinheiro dividido e a Anabela continua indecisa.

O Alexandre conhece outra pessoa, casa-se novamente e uns meses mais tarde, convida a Teresa para almoçar para lhe dizer que vai ser pai.

Anabela não reage quando a Mãe lhe conta e Teresa desabafa com os outros filhos que a aconselham a ter calma.

Um dia, Anabela surpreende-a com a notícia de que aceitou um novo emprego numa outra cidade.

É raro vê-la e quando se encontram, constata que a filha pouco ou nada mudou.

Continua apenas interessada no trabalho, na promoção, na possibilidade de se tornar sócia e nada mais existe.

A Teresa questiona-se se isto é realmente viver.


FIM



quinta-feira, 11 de outubro de 2018

A DISCUSSÃO - PARTE V



Alexandre envia-lhe um SMS. Vai estar dois dias fora e a Anabela nem se preocupa em fazer o jantar.

Deixa-se ficar sentada na sala às escuras. Tem muito em que pensar, mas tem a cabeça vazia.

Sente-se magoada por não ter sido escolhida. Tinha grandes planos para a delegação, tinha a certeza absoluta que ia ser convidada para sócia.

Aí, talvez pudesse pensar num filho. Podia gerir o tempo em função das necessidades do filho.

Agora está ainda a pisar em terreno escorregadio. Tem que consolidar ainda mais a posição.

Não, o Alexandre pode pensar o que quiser, mas ela não está ainda pronta para um filho.

Não vai gostar, mas não, não quer arriscar perder tudo o que conseguiu até agora.

Egoísta, é o que a Mãe vai pensar. 

Insegura é o que vai dizer a Vera, a irmã mais velha que decidiu trabalhar só em part-time para acompanhar os filhos.

E a cunhada Joana não vai dizer nada, obcecada pelo fitness, até a vai apoiar.

Mas engana-se, porque a Joana anuncia que está grávida nesse domingo. 

Está radiante, feliz e pede a toda a gente que escreva no bloco que traz um nome de rapaz e outro de rapariga.

Quando o bebé nascer, o nome que tiver mais votos vai ser o escolhido.

" Só espero que não escolham Cunegundes." ri-se.

" Grávida? Pensei que não querias estragar a tua figura!" diz a Alexandra.

" Estou em boa forma física, vou continuar a treinar de acordo com os conselhos do médico e quando o bebé nascer, organizo um outro plano de fitness." responde a cunhada.

Alexandre não comenta, mas quando chegam a casa, pergunta:

" A nossa cunhada tem tudo organizado para a vinda do bebé. Porque é que não podemos fazer um plano igual?"


CONTINUA

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

A DISCUSSÃO - PARTE IV


Não falam um com o outro naquela semana.

Quando o Alexandre chega, come qualquer coisa e fecha-se no escritório. 

Dorme no quarto de hóspedes e a Anabela não diz nada.

Está decidida, quer chefiar a nova delegação durante seis meses e regressar quando tudo estiver organizado.

É um duro golpe para ela quando a Administração decide contratar alguém de fora.

Conhece bem a zona, tem bons contactos e tem bastante experiência na área do negócio.

Vai passar uns três meses ali na sede para se familiarizar com os objectivos/regras da empresa e depois, a Anabela descobre, virá às reuniões trimestrais para prestar contas.

É um homem simpático, faz questão de se apresentar a toda a gente e a Anabela não pode apontar uma falha.

Apenas lhe roubou o lugar...

" Roubou de facto? " pergunta Teresa, deveras espantada com o convite da filha para almoçar num dia de semana.

" Talvez não... Talvez me tenha precipitado; toda a gente sabia que iam abrir a nova delegação..." confessa a Anabela.

" E convenceste que te iam pedir para a chefiar... " termina a Mãe. " Um castelo no ar, não é verdade? Promoveram-te há 6 meses? e já queres chefiar uma delegação... Por amor de Deus, Anabela, pensa melhor nas coisas. E o Alexandre? O que pensa disto?"

" Não sei; não falamos desde domingo. Tem dormido no quarto de hóspedes!" diz a filha.

" Por amor de Deus, Anabela! Como é que deixaste as coisas chegarem a este ponto? " observa Teresa.

" Ele quer ter um filho." conta a Anabela e bebe um pouco de vinho.

" Um filho? " repete Teresa " E o que pensas tu sobre isso?"

" O problema é esse: não sei!" admite a filha.

CONTINUA

terça-feira, 9 de outubro de 2018

A DISCUSSÃO - PARTE III


" Então, falaste com a tua mãe sobre a tua última loucura?" pergunta o Alexandre quando regressam a casa depois do almoço em família.

" Não é uma loucura, como tu e a minha Mãe podem pensar!" replica a Anabela " Se fizer isto, posso ser convidada a fazer parte da sociedade."

" E é tudo o que te interessa? Ser sócia? Eu gostava de ter um filho!" responde o marido.

" Mais tarde, não agora! Não vou ter tempo para cuidar de um filho agora!" contesta a Anabela.

Alexandre para o carro e diz calmamente:

" Isto está a passar dos limites! Não descansaste enquanto não te promoveram, tudo bem, eu aceitei. Eu próprio estava concentrado no meu trabalho, mas agora que já consolidamos as nossas posições, podemos pensar na família. Dizes que este não é o momento???"

" Não sei, Alexandre, não sei, está bem? Não sei o que quero neste momento!" Anabela exalta-se e saí do carro.

" Não, sabes muito bem o queres. Queres organizar a delegação da empresa, porque isso pode ser a porta de entrada para te tornares sócia da empresa. Por isso, não digas que não sabes. Tens um plano e não tens espaço para ninguém." contesta o Alexandre.

" Tu também tens planos!" acusa a mulher.

" Claro que sim. Mas agora estou pronto a organizar a vida de forma a ter tempo e espaço para um filho. " esclarece o Alexandre " Obviamente tu não estás!" e volta para o carro.

Anabela segue-o e observa:

" É a primeira vez que falas em termos em filho!"

" Concordamos em adiar até termos o emprego estável e pensei que, com a tua promoção, fosse a altura ideal. Pelos vistos, enganei-me!" concluí o Alexandre.

Não voltam a falar e quando chegam a casa, o Alexandre deixa-a sozinha na sala e vai para o escritório.

CONTINUA