quarta-feira, 8 de outubro de 2014

CONTOS DE PRAZER - 1ª PARTE


O SEDUTOR

Relaxo com uma chávena de café na mão.
Deixo que esse cheiro agridoce me domine e fujo da manhã cinzenta, da chuva aborrecida, do vento frio.
Não sei se estou no Brasil ou no Taiti; estou onde o sonho me leva e tudo é diferente.
Até o ritmo, o sorriso e, sobretudo, o desejo.
Esse desejo incontrolável que aprisiona os sentidos e torna a vida banal.
Apressada e insignificante! Ou talvez seja eu quem é insignificante! Não sei...
Neste momento, não penso em nada. Saboreio o café com todo o tempo do Mundo.
Sei que tenho que voltar, entrar novamente naquele escritório desarrumado e sorrir serenamente.
Como se fosse surda, imune ao veneno escondido em cada uma das palavras que ali se pronuncia.
Não conheço tais palavras; as minhas podem soar banais e frouxas, mas, pelo menos, fui eu quem as escolheu e lhes deu tempo e espaço.
Não o café; deixo que seja ele a seduzir-me, a consolar-me e até os meus segredos já lhe confessei.
Tenho pena de deixar o café barulhento, o calor humano.
Mas o sabor está ainda tatuado na boca; o cheiro entranhado nas narinas e o sonho do País quente ainda não se desvaneceu.
Perfuma-me o dia; liberta-me da mesquinhez e escrevo na mente histórias mirabolantes.
Sorrio misteriosamente; estarei louca por ler tudo isto numa chávena de café que os outros bebem para acordar?
Se estou, viva a loucura! Ainda bem que sou louco e que poucos me entendem...
Nunca serão felizes por completo, porque quem desconhece a arte de sedução, não a vê, não a sente numa simples chávena de café...está perdido!


1 comentário:

Graça Pires disse...

Muito bom, Marta."estou onde o sonho me leva e tudo é diferente."
Beijo.