domingo, 23 de novembro de 2014

REDUZIDA

Podemos escrever muitas cartas na vida, algumas divertidas, outras mais tristes, mas nunca pensamos verdadeiramente como uma carta nos pode surpreender, magoar até.
Não, nunca pensei receber uma carta tão seca, tão formal que tive que a ler uma outra vez para ter a certeza de que compreendi o conteúdo.
A primeira reacção foi amarfanhar a pobre carta e protestar contra a estupidez de quem a enviou. Depois, mais calma, alisei o papel e reli-a.
Uma vida inteira reduzida a isto – uma simples folha de papel cheia de termos pomposos.
Posso voltar a usar o meu nome de solteira se quiser; fico com a casa e tudo o que estava só em meu nome – o resto será dividido como previsto.
Nem isso me consegues dizer!!! Podíamos conversar sobre o assunto; mas não, tinhas que pedir ao teu advogado para me mandar esta carta.
Sim, estou furiosa e com vontade de te telefonar. Ou talvez te escreva uma carta, uma carta verdadeira escrita com o coração, que deixe a nu a minha dor.
Pensando bem, para quê desperdiçar as palavras com alguém que as poderia utilizar contra mim?
Golpe baixo, meu caro, atitude de quem se sente inseguro. E tens o Mundo a teus pés!


Nota:
"Tema: Carta"
Excerto do texto desenvolvido para o tema, mas não enviado para a Editora para publicação na Colectânea"

1 comentário:

Sofá Amarelo disse...

Escrevi muitas cartas na vida. Cartas, mesmo cartas, e a partir de certa altura textos em formas de cartas e com o mesmo objectivo se bem que entregues de outra maneira que não através do correio... e se há uma coisa que devemos separar das cartas, tenham elas que forma tiverem, é não magoar quem está a receber a missiva ou a mensagem... se há coisas para dizer, pendentes, que se digam pessoalmente...