segunda-feira, 27 de março de 2017

JACINTO - O FIM


Nas semanas seguintes, estou tão ocupado que nem penso no Francisco. 

Pobre miúdo! Quem sabe se ele não gostaria de cuidar de uma planta? Ou ajudar-me aqui no jardim?

Naquela manhã, estou a preparar os canteiros para plantar as roseiras quando ouço alguém a abrir o portão.

" Talvez seja um dos filhos da viúva!"  penso e recrimino-me de imediato " Que mania de lhe chamar viúva! D.Sofia! Sofia, Sofia..."

" Bom dia!" e reconheço de imediato a voz da mãe do Francisco. 

Viro-me e lá está ele de calções de ganga e um polo vermelho.

Sorridente, é certo, mas não se precipita ao meu encontro. Segura a mão da mãe e se bem que esteja a olhar para mim, não sei se me reconhece.

" Olá, Francisco! Vieste ver o jardim ou vens ajudar-me?" digo.

Francisco solta a mão da mãe e caminha devagarinho até onde estou. 

Levanta o rosto, olha-me nos olhos, sorri e enfia a mãozinha na minha.

Espantado, procuro o olhar da mãe que me tranquiliza, dizendo:

" Confia em si! Tem um amigo para a vida! Pode ficar aqui uma meia hora, uma hora no máximo? " pede.

" Oh, sim!" concordo e com a mão do Francisco segura na minha, mostro-lhe um monte de pedras com que tenciono marcar o canteiro das ervas aromáticas.

" Agora, vais colocar as pedras aqui." exemplifico e o Francisco pega numa pedra e coloca-a no mesmo alinhamento da outra.

" Isso mesmo!" elogio-o e deixo-o a trabalhar. De vez em quando, espreito para ver como vai o trabalho e vejo que ele está profundamente concentrado.

Quando termina, toca-me no ombro e sem uma palavra, ajoelha-se ao meu lado. Mete as mãozinhas na terra, cobre um bocadinho da raiz da roseira e olha-me.

" Ok, tapa bem, não pode ficar nada à mostra! Muito bem, é isso mesmo!" explico.

Quando a mãe chega, estamos os dois sentados num dos bancos do jardim a beber um sumo que a D Sofia nos trouxe.

Tenho pena de o ver partir, mas de vez em quando, a mãe deixa-o ficar a trabalhar comigo.

Diz que ele está muito feliz  e mais atento. 

" Nem sempre é fácil interessá-los pelas coisas. Vivem num Mundo muito deles. É muito bom vê-lo assim." confessa-me um dia.

Eu também estou feliz; sinto que o Francisco me compreende e que fiz um amigo para a vida...  

Quanto à D Sofia, segui o conselho da minha Mãe e dei-lhe um jardim maravilhoso...

FIM
 

      

1 comentário:

Sofá Amarelo disse...

Um dos textos mais bonitos que já li... lição de vida que todos deveriam ler e sentir. Se calhar há alguns Francisco que passam nas nossas vidas mas não lhes damos a atenção que merecem , na correria dos dias que temos... Parabéns pela história, muito bem contada e de grande sensibilidade :-)