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SOFIA COMO A POETISA PARTE II

  O Pai olha para o relógio, são horas de fechar a luz e dormir, diz, mas ainda não acabei, protesto. Amanhã, amanhã acabas, repete o Pai, ajuda-me a meter na cama, dá-me um beijo e saí, fechando a porta. Fico um pouco amuada, mas acabo por adormecer e quando acordo, já não me lembro do desenho. Estamos atrasados, o Pai tem uma reunião importante, por isso, é a Mãe quem nos leva à escola. A Inês já lá está, tenho uma coisa para vos mostrar, sussurra, falamos no recreio! Eu e o Gonçalo olhamos um para o outro, o meu irmão encolhe os ombros, mas eu tenho quase a certeza de que vamos ter sarilhos. Mas confesso que estou curiosa e sigo a Inês quando nos faz sinal para nos escondermos atrás da árvore. Continuamos à vista de todos, mas estamos longe o suficiente para não ouvirem o que a Inês vai revelar. Já sei como podemos escapar e ir até ao Parque, conta a minha prima e mostra dois cartões azuis. O que é isso? pergunta o Gonçalo, bilhetes de autocarro, explica triunfante a Inês, não s...

SOFIA COMO A POETISA

  Não me importo de viver na sombra da minha prima Inês, sempre tão exuberante. Participo nas brincadeiras que ela inventa para gozar o momento, ouço calada o discurso do Pai sobre boas maneiras e respeito pelos outros, mas esqueço de imediato. É que descobri as letras e estou fascinada com a maneira como formam as palavras. A Mãe encontra-me muitas vezes sentada no chão do quarto a tentar decifrar as palavras das histórias que lê à noite à hora de dormir. Sorri, um sorriso que lhe ilumina os olhos e nos faz confiar nela de imediato e senta-se também no chão. Juntas, lemos as palavras, construímos as frases e fazemos desenhos. Nem a Inês nem o Gonçalo têm paciência para isso, conta o meu irmão que a professora está sempre a chamar-lhe a atenção. Imagino como deve ser difícil para a Inês ficar fechada numa sala e a pedirem-lhe para repetir as letras. A Carolina disse-me que a chamaram novamente à escola, diz a Mãe nessa noite ao jantar, a Inês escondeu-se na casa de banho, andou tod...

CLARINHA FIM

  A minha vontade é chamar um táxi e ir-me embora, mas o Sérgio não quer ouvir disso, não sejas casmurra! É sexta-feira, vamos divertir-nos! Chego a casa por volta das três da manhã, abro a porta do quarto da Matilde, a cama está vazia, está em casa do Bernardo, é a conclusão óbvia. Vou para o meu quarto, tenho que ficar acordada, quero ver a que horas ela chega, mas estou tão cansada que adormeço mal me estendo na cama. Acordo tarde e maldisposta, ouço vozes na cozinha, será a Mãe? não foi trabalhar? acho que este é o fim de semana dela na loja. Levanto-me, arrasto-me pelo corredor e entro na cozinha onde a Matilde e o Pai, ainda de pijama, conversam animadamente. Olá, divertiste-te ontem? pergunta a Matilde alegremente e eu olho-a sem uma palavra, ela está realmente diferente! Está mais descontraída, mais efusiva, quase parece a Matilde do antigamente. Como é que não me apercebi disso? e por isso, não respondo. Mas acho que a Matilde não quer saber verdadeiramente, pois diz,...

CLARINHA PARTE VI

  Todos, à excepção da Luísa e da Mãe que preferem o yoga, inscrevem-se numa aula de hidroginástica às sextas-feiras ao fim da tarde. Ás vezes, jantamos juntos num restaurante perto e os mais novos vão até a um bar, dançar numa discoteca da moda. Naquela sexta-feira, a Luísa e o Gustavo têm outros planos e por isso, só eu, a Matilde e o Bernardo é que vamos até ao bar. Estou um pouco cansado, diz o Bernardo, não vamos ficar até tarde, ok? e a Matilde concorda. Eu fico um pouco amuada, estou cheia de energia, sair daqui à meia noite, uma hora, vai ser um grande sacrífico. Felizmente, alguns dos meus colegas escolheram aquele bar para tomarem umas bebidas e em breve, estou envolvida numa nuvem de conversa alta, " bocas maldosas" e risos histéricos. A minha irmã e o Bernardo ficam num canto do bar, a conversar baixinho, mas eu vigio-os pelo canto do olho. Convido-os a juntarem-se ao grupo, mas eles apenas sorriem, não, são teus colegas, diverte-te, responde a Matilde. Não digo m...

CLARINHA PARTE V

  Então, Clarinha, o que estás a fazer? pergunta-me e fica espantado quando lhe digo que estou a estudar Ciências de Educação. O meu objectivo é ser Ministra da Educação e revolucionar o ensino, concluo e o Gustavo ri, vou ter uma irmã activa na política, brinca, mas o Bernardo está muito sério. É uma ideia interessante, Clarinha, quais são os teus planos exactamente? insiste e escuta atentamente os meus planos. Podem não resultar, às vezes, no papel, as coisas parecem ter cabeça, tronco e membros, mas depois...e a Matilde abana a cabeça. Todos a olhamos surpreendidos, há muito tempo que ela não dizia uma frase completa, os comentários limitavam-se às palavras "sim", " não", " talvez". O que eu quero dizer, continua a Matilde, um pouco corada, pois é o centro das atenções, na prática, muitas ideias não resultam. Teremos que as adaptar às situações, concorda o Bernardo, como aproveitar um ribeiro que passa pelo terreno onde queremos construir...  Ou investi...

CLARINHA PARTE IV

  Volto para a sala, decidida a monopolizar a atenção do Bernardo, mas este está a falar sobre Cabo Verde e todos escutam atentamente. Até mesmo a Matilde, conheces o Bernardo desde pequena, vais estar presente, sim, senhora, olha o disparate, disse a Mãe ontem à noite e a minha irmã não se atreveu a protestar. Há pequeno sorriso nos lábios dela, o quê? pôs Gloss? e deixou o cabelo solto, escolheu também uma T-Shirt branca em vez das pretas que usa normalmente. O Bernardo sorri-lhe, pergunta-lhe qualquer coisa que não entendo, estou tão surpreendida que nem sei bem como agir. A Matilde sorri, responde calmamente às perguntas, o Pai e o Gustavo olham um para o outro, suspiram de alívio. Mas que segredos são esses? interrompo bruscamente a conversa entre os dois, diz-me, Bernardo, vais voltar para lá? Maria Clara, deixa o nosso convidado em paz, protesta o Gustavo e o Pai faz-me sinal para o seguir. Estás a ser inconveniente, Maria Clara, observa quando chegamos ao corredor, deixa o ...

CLARINHA PARTE III

  Alguém nos chama para jantar, o Gustavo não responde à minha pergunta, a Matilde está sentada à mesa, mas não fala com ninguém. Tenho quase a certeza de que não está a prestar atenção à conversa, logo ela que sempre se mostrou activa, criativa. O que é que se passa com ela? Abano a cabeça, nunca a vou entender... O Gustavo e a Luísa despedem-se, a Matilde ajuda a Mãe a arrumar a cozinha e eu fecho-me no quarto. Quero impressionar o Bernardo, a roupa tem que ser ousada, mas não demasiado, se o for, corro o risco da Mãe me dizer para mudar. As roupas ficam espalhadas em cima da cama, sou incapaz de decidir, suspiro, tenho que comprar nova, mas será que vou convencer a Mãe? Por isso, quando abro a porta ao Bernardo, estou com jeans e uma T-Shirt branca, nada ousado, apenas confortável. O Bernardo está magro, parece cansado, mas continua a ter o mesmo sorriso calmo, discreto de que me lembro. Fica surpreendido por me ver tão crescida, percebo isso no olhar dele, mas puxo-o para dentr...