OS AMANTES FIM

 “ Oh, Manuel, tem visto o Joaquim?” pergunta o Vicente.

“ Sim, vem cá todas as manhãs tomar café. Também aparece à tarde, mas é raro. Passa-se alguma coisa?” o Tio Manuel não resiste à curiosidade.

“ Não, não. Queria trocar umas impressões com ele sobre um novo programa informático. Se o vir, Manuel, diga-lhe para me telefonar, ok?” e com um sorriso, o Vicente despede-se e sai.

“ Programa informático? Que desculpa tão esfarrapada! ” concluo enquanto pego na mochila para me ir embora “ Desconfias de alguma coisa como eu!” remato, triunfante.

No dia seguinte, temos sorte e o Filipe apanha o autocarro por um triz.  Uma hora mais tarde, manda-me um SMS a dizer que a Catarina deve estar atrasada e que o Joaquim está a ficar impaciente.

“ Tem calma! “ escrevo “ Fica perto deles e tenta escutar o que dizem.” e aguardo pelas novidades, também impaciente.

O tio Manuel nota e repreende-me: “Oh, João, onde estás com a cabeça? Leva esse café antes que fique frio! Estes adolescentes são uns irresponsáveis!” e alguns clientes concordam.

O Filipe continua sem dizer nada e eu começo a ficar preocupado. O que terá acontecido? Não houve encontro? Ou perdeu-os de vista? Bolas, a minha Mãe tem razão; não devia ler tantos livros policiais! 

Às 18h00, o Filipe entra no café e pede um sumo. Diz que está cansado, precisa de desanuviar um pouco antes de me contar o que viu.

Sirvo-lhe o sumo e sento-me em frente dele.

“ Então? O que se passou?” mas o Filipe abana a cabeça novamente e repete “ É melhor falarmos lá fora!” e como o Tio Manuel diz que já não precisa de mim, esgueiramo-nos pela porta dos fundos.

“ Diz lá!” interpelo o Filipe quando nos sentamos no autocarro. O Filipe encosta-se no banco e diz, sorridente:

“ Subi no elevador com eles. A Catarina - que corpo sexy, pá! - estava muito excitada e só repetia: “Vais adorar a ideia que eu tive!” e o Joaquim sorria como um tolo.  Saíram no 12º Andar e entraram no apartamento 12B. Fiquei ali, no átrio, à espera deles. Passou uma empregada que ficou um pouco surpreendida por me ver ali e tive que improvisar uma história. Disse que estava à espera dos meus Tios, que estavam a ver um dos apartamentos. Foi assim que fiquei a saber que cada andar tem 4 apartamentos, T2 de luxo com serviço de limpeza, lavandaria, etc incluído e que naquele andar só o 12B estava ocupado. Infelizmente, a senhora não sabia o nome dos proprietários,  mas eu deduzo que tenha sido o Joaquim a comprar!” remata o Filipe, feliz com a descoberta.

“ E depois?” incito “ O que aconteceu? Estiveste lá até eles saírem?” mas o Filipe diz sensatamente:

“ Não, porque a senhora achou estranho eu ter ficado no átrio enquanto os meus Tios estavam a ver o apartamento. Por isso, antes que ela voltasse, escapei-me, mas agora podemos organizar as coisas doutra maneira.”

“ Como? Roubar a chave ao Joaquim?” brinco. O Filipe olha para mim muito sério e sei que é exactamente isso que ele vai sugerir.

“ Ou esperamos que alguém entre no apartamento para fazer a limpeza e escondemos-nos lá!” frisa o meu amigo. 

Não me atrevo a respirar, porque acho a ideia perigosa. Mas o Filipe continua a fazer planos e nos dias seguintes, pouco o vejo.

Manda-me, finalmente um SMS, a dizer que “é hoje”, mas quando pergunto: “O que vais fazer?”, o Filipe nem se digna a responder-me.

Fico completamente confuso quando o Joaquim e o Vicente entram no café e se sentam a uma mesa.

Conversam calmamente, riem-se de vez em quando e até trocam piadas.

Chegam-me aos ouvidos palavras como “ óptimo programa”, “manutenção fácil”, “formação incluída” e já não compreendo nada. Então, o que é que se passa entre a Catarina e o Joaquim? Ou isto será uma manobra de diversão para que o Vicente não desconfie de nada?

Escrevo uma mensagem rápida ao Filipe, mas continuo a não ter resposta. Começo a ficar preocupado, a pensar que ele está preso no apartamento, sem poder sair, mas respiro de alívio quando o vejo entrar.  Senta-se a uma mesa, faz-me sinal e apresso-me a levar-lhe um sumo para disfarçar.

“ Então? O Joaquim e o Vicente acabam de sair daqui; por isso, hoje não houve encontro!” digo baixinho para o Tio Manuel não ouvir.

Filipe bebe um pouco de sumo, respira fundo e comenta: “Pois, eu sei! Estudei os horários do pessoal da limpeza e hoje, enquanto a empregada limpava o quarto, escondi-me na sala. Uma sala enorme, sei lá...” e olha em volta “ maior que este café, com zona de estar, jantar e um pequeno escritório.  Móveis luxuosos, quadros caros, etc.  Os dois quartos também são enormes, cheios de luz, um deles tipo suite. Depreendi que fosse o quarto onde eles se encontram e por isso, escondi-me na casa de banho que há no corredor e donde podia observar o corredor e os quartos.

E esperei... Esperei muito tempo, mas ninguém apareceu... Fiquei aterrado, sem saber o que fazer; como é que vou sair dali? Não posso ficar toda a noite fechado no apartamento. Podia tentar sair pela varanda, mas o andar ao lado está vazio. Estava a pensar em telefonar-te quando ouvi alguém meter a  chave na fechadura. Meti-me no armário, com a porta entreaberta. Era a empregada e dois homens que vinham entregar umas caixas. Foram para a sala e eu aproveitei a distracção. E cá estou!” concluí. “ E tu? O que se passou?”

Faço um breve resumo e o Filipe fica tão confuso como eu.

“ Estranho esse encontro!!! É uma manobra deles os dois; manter a normalidade para que o Vicente não desconfie de nada!” opina o Filipe

“ Mas, se vão fugir, para quê o apartamento? “ questiono  “ Ainda por cima de luxo e está a ser mobilado!” 

Isto está a ficar complicado... Ainda mais quando a Tia Eduarda aparece no café, toda satisfeita e diz que o Joaquim a contratou para organizar o buffet do almoço de aniversário da mulher.

“... é uma surpresa para a mulher. E quer que seja servido no novo apartamento que lhe comprou no Largo das Universidades. Ouvi dizer que os apartamentos são enormes, mesmos luxuosos.  Vou lá hoje com a Catarina para ver o espaço e combinar os detalhes de almoço...” conta, excitada

Eu não quero acreditar no que estou a ouvir. O apartamento é um presente para a mulher do Joaquim? Não é para ele ter encontros escaldantes com a Catarina? E qual é o papel desta nesta história? 

“ João, JOÃO!” interrompe as minhas especulações o Tio Manuel desesperado “ Este nosso sobrinho, Eduarda, anda sempre na Lua! Não ouviste a tua tia? Queres ganhar um dinheiro extra e ajudar a servir o almoço?”

A Tia Eduarda ri-se e dá-me um beijo, segredando: “ Depois falo contigo!” e diz para o marido:

“ Tenho que ir. Combinamos às 15h00...” e sai.

Vê-se que o Tio Manuel está feliz; talvez possa expandir agora o negócio, confidencia-me, mas eu não estou verdadeiramente interessado nos planos de expansão da Tia Eduarda.

Gostava de compreender esta história, mas não sei se será boa ideia fazer mais perguntas à Tia.

“ Claro que sim! Pede-lhe para te levar ao apartamento e enquanto lá estás, vais fazendo perguntas!” opina Filipe “ Tens que ser discreto para não desconfiar. Elogia o apartamento, faz perguntas sobre a decoração, porque a esta hora, ela já tem os detalhes todos.”

“ Sabes muito sobre mulheres!” troço e o Filipe explica: “ Basta apenas observar... A minha Mãe sabe tudo sobre toda a gente!" Mas a Mãe do Filipe não é um bom exemplo. Não tem uma carreira profissional e tem que ocupar o tempo com alguma coisa, nem que seja a bisbilhotice.

Não sei bem como, mas consigo convencer a Tia Eduarda a levar-me ao apartamento uns dias antes do dito almoço.

“ A mesa com os aperitivos e as bebidas  vai ficar aqui!” decide enquanto eu olho em volta com interesse. “Ups! O Filipe tem razão; isto é enorme!” , mas não me atrevo a comentar alto.

“ Talvez queiras tratar disso... “ deixa a sugestão no ar e continua “ Aqui a mesa com os pratos quentes e ali perto da janela, a das sobremesas. Só montamos as mesas na vespéra e as flores umas horas antes do almoço. Que achas?”

“ Vai ser óptimo!” sorri “ Mas a mulher do Joaquim não sabe nada de nada? Nem mesmo que este apartamento é o presente?”

“ Não! É uma surpresa total! Até a decoração; ele pediu ajuda à irmã dela e fizeram tudo sem a consultarem. Tu conheces a irmã dela, não conheces? É a Catarina, a mulher do Vicente?” indaga a Tia Eduarda.

“ A Catarina?” espanto-me “Aquela brasa ruiva? “ e a Tia repreende-me imediatamente:

“Oh, João, que é isso? Não tolero esse tipo de comentários! Ainda bem que o teu tio não está aqui!” e eu calo-me, com a cabeça feita num oito.

A Catarina, irmã da mulher do Joaquim? Não acredito; estão a organizar este almoço para iludir a mulher do Joaquim e o Vicente. Vão dar o golpe depois, tenho quase a certeza. Não, esta história não pode terminar assim; é fácil demais!

Sábado amanhece cheio de Sol e às 10h00 estamos todos, inclusivé o Tio Manuel, no apartamento a dar os últimos retoques.

A Tia Eduarda dispõe os arranjos florais em locais estratégicos, as mesas estão nos locais escolhidos e às 12h30, o Tio Manuel abre o vinho e o champanhe e eu disponho os aperitivos na mesa.

Os convidados começam a aparecer, sirvo-lhe as bebidas e a conversa torna-se fluida, bem disposta.

A Catarina, deslumbrante num vestido justo preto, e o Vicente são os últimos a entrar. Nem 10 minutos depois, a Catarina pede silêncio, a porta abre-se e eis que a convidada de honra (sei lá o que lhe devo chamar) está finalmente na minha frente. 

As pessoas gritam “Surpresa!”, ela só repete “Mas o que é isto?” e o Joaquim responde feliz: “ Este almoço no teu novo apartamento é o teu presente!”

Pouco falta para ela desmaiar, mas alguém oferece-lhe champagne e propõe um brinde. 

A Tia Eduarda aproveita para anunciar o almoço e as pessoas dispersam-se em pequenos grupos.

Recolho os copos sujos, leva-os para a cozinha e volto a ocupar o meu posto. Tento ver onde estão o Joaquim e a Catarina e descubro-os num pequeno grupo instalado perto da janela.  Não vejo nem o Vicente nem a mulher do Joaquim, que sei agora que se chama Mónica.  

A conversa está animada no grupo e observo-lhes os gestos e os olhares atentamente, mas não noto nada de especial.

O Tio Manuel chama-me para o ajudar e quando regresso à sala, já eles estão integrados noutro grupo num local mais afastado e é impossível continuar a vigiá-los.

O almoço é um sucesso, a Tia Eduarda está satisfeita porque recebeu muitos elogios e ficou com o contacto de algumas pessoas e eu, apesar de tudo, diverti-me.

Por isso, ninguém esperava o que aconteceu depois. Os convidados já se tinham ido embora, nós estamos a arrumar as loiças e a guardar os restos quando a Mónica entra na cozinha e pergunta:

“ Não viram o Joaquim? Estou farta de lhe ligar para o telemóvel e vai directo para o Voice Mail... “

“ Não!” diz o Tio Manuel “ E se tentasse ligar para o Vicente?” sugere, mas nesse preciso momento, ouve-se a voz deste na sala.

Abre a porta da cozinha de rompante, nota-se que está zangado e tem uma carta na mão.

“ Mónica, não te importas de vir aqui à sala? Tenho um assunto muito grave para discutir contigo!” pede.

Segura a porta e assim que a Mónica entra na sala, fecha a porta. “Fugiram!” balbucio baixinho e como os meus Tios continuam calmamente a trabalhar, não me dando atenção, aproximo-me da porta para escutar.

Ouço a Mónica a chorar e o Vicente a vociferar contra aqueles “descarados, mentirosos”. 

Só apanho algumas palavras, mas são o suficiente para eu concluir que a Catarina e o Joaquim fugiram.

“ OH, JOÃO! “ berra o Tio Manuel “ O que estás a fazer?”

Mas antes que ele continue com o discurso sobre boas maneiras, eu atiro triunfante para o ar a novidade:

“Eu tinha razão! A Catarina e o Joaquim são amantes e fugiram!”


FIM


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