segunda-feira, 31 de maio de 2021

A FUGA - FIM


No fim de Agosto, a Catarina e o Tomás despedem-se de todos e mudam-se para outra cidade, com novos planos, novos objectivos.

A Glória espera que a Catarina não arrependa, sussurra à Natália, mas esta garante que a Catarina é uma mulher forte, vai saber como vencer as dificuldades.

O Francisco diz que matriculou o Luís no mesmo infantário das irmãs, para ele não se sentir tão sozinho, justifica-se, e anuncia que se vai mudar para um apartamento ali perto.

Fico mais perto dos avós maternos e de vocês, explica, podemos até combinar a boleia.

A boleia? repete o Major, sim, uma semana eu levo o trio ao infantário e o Pai vai buscar por exemplo e na semana seguinte, trocamos continua o filho.

É uma boa ideia, pensa a Glória, o Francisco está a tentar aproximar-se do Pai, uma forma de o compensar pela ausência do irmão.

Eu não sei nada destas combinações; estou a ter sucesso, faço parte da elite da sociedade local, até encontrei uma boa amiga com quem partilho a casa.

É muito diferente da Catarina, é desinibida, embeleza a casa com risos, alegria, festas exuberantes.

Até ao dia em que estou no porto, vou sair de barco com uns amigos e vejo um rapaz alto, de cabelo escuro que me olha fixamente.

Tenho a impressão de que já o vi antes, mas descarto a ideia e por isso, junto-me aos meus amigo, preparado para um dia cheio de Sol, mergulho e churrasco numa praia deserta.

O rapaz que observou atentamente o Frederico é o Gustavo, casou-se há uns meses e teve que adiar a lua-de-mel por causa do trabalho.

Na realidade, não conhece bem o Frederico, se o viu umas duas vezes, foi muito, mas aquele homem é muito parecido com o Major, confessa à mulher naquela noite, e eu conheço bem o Major!

Tens a certeza? pergunta a Luísa, o Gustavo abana a cabeça, não tenho a certeza absoluta, mas que ele tem ares do Major, tem!

Não será o filho que desapareceu? insiste a Luísa e o Gustavo encolhe os ombros, talvez, não sei, repete e não pensa mais no assunto até regressar.

Encontra o Major numa festa familiar, este faz-lhe perguntas engraçadas sobre a lua-de-mel e o Gustavo conta-lhe o que viu.

No dia seguinte, o Major apresenta-se na Polícia, diz que tem fortes razões para acreditar que o filho pode estar naquela ilha do Pacífico.

Mal sei eu o que me vai acontecer quando acordo para mais um dia de Sol radioso numa terra onde o tempo anda devagar.

Mas não tão devagar para a Polícia.

FIM



domingo, 30 de maio de 2021

A FUGA - PARTE V

 

Tentei acalmá-la, conta a Natália ao Nicolau nessa noite ao jantar, mas ela está muito revoltada! Não deixa de ter razão, aquele rapaz foi muito egoísta!

O Nicolau suspira, o Amadeu deixou de falar no assunto, não é bom sinal, responde, sei que ele está a sofrer, mas não está a falar sobre isso, vai voltar a ser o homem sombrio que conheci no início do Clube.

Talvez não, agora tem a Glória e as miúdas, são pessoas diferentes, atalha a Natália, não está sozinho como quando o conheceste; tem uma estrutura familiar e a Glória é uma mulher activa, interessada.

O Nicolau tem as suas reservas, conhece bem o Amadeu, mas às vezes, as pessoas surpreendem-nos.

O tempo passa, o Amadeu fala cada vez menos do filho, a Glória diz à Natália que o Major ainda contacta a Polícia, mas estes têm poucas pistas e o caso está mais ou menos parado.

Nunca pensei que aquela rapaz fosse esperto a este ponto, comenta, desapareceu por completo! Pagou tudo em dinheiro, quis mesmo desaparecer e nem sequer temos a certeza de que está metido no esquema de fraude de que o acusam!

A Catarina telefona ao fim da tarde, a Glória acaba de chegar da Universidade, ainda tem o casaco vestido e a Márcia resolveu fazer uma cena.

Posso passar por aí? pergunta a nora do Amadeu, claro que sim, aconteceu alguma coisa, tens notícias do Frederico? pergunta a Glória.

O Amadeu e a Mariana entram nesse momento, a Márcia chora ainda mais alto e a Glória avisa-o que a nora deve estar a chegar.

Vê se te acalmas, Márcia, repete a Glória e leva-a para o quarto, a Mariana segue-as e o Amadeu fica sozinho na cozinha à espera da nora.

Será que teve notícias do Frederico? mas a Catarina é rápida a esclarecer o assunto quando chega.

Não, não tive notícias do Frederico, eu é que tomei uma decisão e é justo que saibam o que decidi, explica.

O Major e a Glória olham-na surpreendidos, mas o que é que aconteceu? repetem e a Catarina sorri, um pequeno sorriso cansado.

Recebi uma proposta de emprego e vou aceitar, explica, é numa outra cidade, eu e o Tomás vamos embora no fim do ano lectivo, vai ser bom para todos recomeçar do zero.

Tens a certeza? interrompe o Major, achas que vai resolver o problema?

Nunca vou esquecer o que aconteceu, o Pai do meu filho desapareceu sem se preocupar com o bem-estar dele, esclarece a ex-nora, mas tenho que tentar dar ao Tomás uma vida mais livre, mais sincera e nesta cidade, não vou conseguir.

A Glória suspira, compreende o ponto de vista, mas fica preocupada, sozinha com uma criança numa cidade nova.

Pode ver o Tomás sempre que queira, continua a Catarina, os meus Pais também estão cá, fins de semana prolongados, férias e vão lá, não vão?

Claro que sim, apressa-se a Glória a confirmar, já que o Amadeu parece novamente uma estátua de gelo.

CONTINUA



sexta-feira, 28 de maio de 2021

A FUGA - PARTE IV

 

Claro que não voltei a falar no assunto, foi mais ou menos nessa altura que conheci as pessoas que me iam ajudar a revolucionar a minha vida.

Por isso, se é essa a vida que o meu irmão quer, não o posso impedir, mas eu estou neste paraíso e ele continua preso a regras.

Já estou atrasado, saio, respiro fundo e resolvo ir a pé.

No outro lado do mundo, o Major convida a companheira para jantar fora, isto não tem sido fácil para ela, tenho que a compensar de tudo isto, pensa.

Jantam num restaurante italiano que a Natália recomendou, o ambiente é agradável, o pessoal é uma simpatia, vão gostar, diz.

A esta altura, a Natália e o Nicolau devem estar arrependidos de terem ficado com as miúdas, comenta a Glória, a Márcia pode ser uma peste, principalmente quando não conhece as pessoas.

Ela conhece muito bem a Natália, interrompe o Major, e o Nicolau é uma pessoa calma, vai contar-lhe histórias.

Sobre os trovadores? ri-se a Glória e o Major ri também.

Estou certo que vai arranjar uma maneira de contornar o assunto, observa, ele falou há uns tempos na possibilidade de adaptar uma das histórias dele para o mundo infantil. Quem sabe, as nossas filhas vão ser as cobaias!

A Glória volta a rir, mas no dia seguinte, a Mariana só fala de alaúdes, de toucados, de festas medievais, o tio Nicolau prometeu levar-nos a uma dessas festas, anuncia triunfante.

Pois, o tio Nicolau vai ter que cumprir a promessa, diz a Glória muito séria e o Major sorri.

Pensando bem, até é uma boa ideia, concorda o Amadeu, por umas horas não vamos pensar no Frederico.

A Polícia continua sem dizer nada? pergunta a Glória, o Major abana a cabeça, vasculharam a vida dele toda, mas ele foi muito inteligente e não deixou nada fora do lugar.

A Glória fica em silêncio, não sabe o que dizer, sente-se impotente e ao mesmo tempo, furiosa com o Frederico.

Criatura egoísta e imatura! confessa à Natália, sinto-me mal em dizer isto, é filho do Amadeu, mas nunca lhe perdoarei!

Compreendo, se calhar está num desses paraísos fiscais e nem sabe o que a família está a passar aqui, responde.

Nem sequer pensou no filho! repete a Glória, o miúdo não para de perguntar pelo Pai e a Mãe não sabe o que dizer!

CONTINUA

quinta-feira, 27 de maio de 2021

A FUGA - PARTE III

 

A Polícia pouco ou nada tem a acrescentar.

Não há nada suspeito nos extractos bancários; se o Frederico, e o Inspector frisa o " se ", cometeu fraude, o dinheiro foi directo para uma conta secreta num paraíso fiscal.

É inútil, Pai, repete o Francisco quando o Major lhe conta a conversa, o meu irmão não quer ser encontrado e fez tudo para que isso acontecesse.

Não posso aceitar, tenho que encontrar uma explicação, diz o Pai, não posso enterrar isto na areia!

Estou tão surpreendido, tão revoltado como o Pai, observa o Francisco, não sei se algum dia lhe vou perdoar, mas tenho que seguir a minha vida! Tenho que pensar no meu filho, talvez esteja a ser egoísta, mas é o que tenho a fazer. O Pai também tem que pensar nas suas filhas!

O Major suspira, em parte, o filho tem razão, há outras pessoas que dependem deles.

O verdadeiro egoísta foi o Frederico; pensou apenas em si.

A nora telefona-lhe nessa noite, o Tomás está sempre a perguntar pelo Pai e ela não sabe como responder.

Não é que o Frederico tenha sido um pai muito presente, comenta, mas tinha sempre muito imaginação, sabia como o divertir. Deixou para mim o papel da chata, ri-se.

Pois, a situação é complicada, mas tens que lhe dizer qualquer coisa, concorda o Major, diz que está a viajar e não sabes quando volta.

Já disse isso, mas o Tomás está a achar que está a viajar há muito tempo, queixa-se a Catarina, é muito novinho para perceber que o Pai fugiu e deixou o nome sujo na praça.

O Major volta a suspirar, o Francisco também se queixou de uma certa distância por parte dalguns amigos, mas não vou mudar de nome por causa da estupidez do meu irmão, afirma.

Continua a dizer isso, não vejo outra solução, continua o Major, não tenho esse problema com a Mariana e a Márcia, elas não o conhecem bem. Acho que ele só vou a Mariana em bebé e foi porque estávamos em tua casa!

No outro lado do mundo, eu preparo-me para trabalhar. Não preciso de fato e gravata, posso usar uma camisa de manga curta e optei por calças de linho.

Vou trabalhar até às quatro da tarde, depois vou fazer surf ou velejar, ainda não decidi.

O tempo aqui decorre devagar, todos parecem felizes e eu estou encantado.

Nem penso na família que deixei para trás. São todos tão aborrecidos, até o Francisco, que foi sempre o meu grande companheiro, está diferente.

Desde que a Maria o abandonou e o deixou com o miúdo, tentei que ele o entregasse aos sogros, mas fiquei admirado quando ele bateu o pé.

É MEU FILHO! gritou, e vou ficar com ele! Não voltas a dizer isso, estamos entendidos?

CONTINUA


quarta-feira, 26 de maio de 2021

A FUGA - PARTE II

 

Enquanto isso, o Major assinala num mapa as rotas que pensa que o Frederico pode ter usado.

A filha mais velha, a Mariana observa tudo atentamente. Acha piada às setas que o Pai desenha naquele papel cheio de traços e pede para fazer uma.

O Major sorri, senta-a no colo e guia a mãozinha. A Mariana ri feliz e os dois estão tão entretidos que nem notam que a Glória e a filha mais nova já chegaram.

A Glória não diz nada, há semanas que não vê o Amadeu tão relaxado. Sabe que ele tenta disfarçar, mas está a ser complicado gerir os acontecimentos.

Há aquela sensação de que as pessoas os estão a observar, discutem o assunto nas costas deles e a maior parte das vezes, os comentários são grosseiros, brutais.

Como se eles fossem culpados pela atitude do Frederico; a Glória não compreende totalmente o que se passou.

O Frederico era um profissional de sucesso, respeitado por todos e a empresa estava a considerar uma promoção com grandes benefícios.

Ou era apenas uma fachada e ele já estava a preparar o golpe.

É um puzzle que a Glória está a construir aos poucos, com base no que o Francisco vai contando.

Um Francisco que está a lidar muito mal com a situação, profundamente desapontado com um irmão que adorava, alguém com quem podia contar.

Estás bem? o Major interrompe-lhe os pensamentos, a Glória sorri-lhe.

Estou bem, tive um dia um pouco complicado, responde, ah, meninas, está na hora do banho, deixem isso para depois, pois as filhas já estão sentadas no chão, a Márcia a mostrar o desenho que fez à irmã.

Eu começo a fazer o jantar, oferece-se o Major, queres um copo de vinho? mas a Glória abana a cabeça e leva as duas miúdas para o quarto.

O Major suspira, vai fazer qualquer coisa simples, amanhã tem que ir às compras e talvez aproveite para ir até à Polícia.

Talvez saibam mais alguma coisa, o Frederico pode ter ir até Roterdão e daí, apanhado um avião para as Caraíbas, quem sabe?

O cunhado da Rita foi prestável, fez-lhe as perguntas certas, até conversou com o colega que se encarregou do caso, mas também o avisou que pode demorar meses, até anos para encontrarem o Frederico.

Mas o Major não quer acreditar, não pode aceitar isso.

CONTINUA


terça-feira, 25 de maio de 2021

A FUGA

 

E cá estou eu num pequeno paraíso fiscal; ninguém vai pensar que eu fugi para aqui.

Fiz uma viagem de reconhecimento, estudei o país, as leis, investi numa pequena unidade hoteleira, abri uma agência de consultadoria e comprei uma casa.

Nada luxuoso para não chamar muito a atenção, inscrevi-me num dos melhores clubes para conhecer as pessoas certas e preparei a minha fuga.

Um dia, terei que explicar tudo ao Tomás, mas por agora, é melhor está calado e gozar a vida.

No outro lado do oceano, o Francisco desabafa com a Catarina, nunca pensei que o meu irmão iria fazer uma coisa destas, desviar fundos!

Deram-te pormenores? pergunta a ex-cunhada, mas o Francisco abana a cabeça, não, não, sei que a investigação está a decorrer, mas nada mais do que isto!

Por um lado, ainda bem que já me divorciei, diz a Catarina, mas mesmo assim, foi complicado! Ter sido chamada à Polícia para responder a perguntas um pouco incómodas... eu sei que têm que as fazer, mas mesmo assim...

Compreendo, também mas fizeram, confirma o irmão do ex-marido, o meu Pai não ficou nada satisfeito e detesto ter que dizer isto, mas concordo com ele.

Continuo sem perceber a razão dessa frieza com o teu Pai, interrompe a Catarina, quando o conhecemos bem, é uma pessoa interessante,simpática, divertida. Ah, não atires as culpas para o facto de não ter estado muito presente enquanto cresceram! Vocês são adultos agora!

O Francisco fica corado, reconhece que a Catarina tem razão, o Pai tem sido incansável nestas últimas semanas, não quer desistir de procurar o irmão.

A esta hora, o Frederico está escondido algures, o Francisco tem quase a certeza de que fugiu para um paraíso fiscal, o irmão é bastante inteligente, arquitectou o esquema perfeito.

O Pai tem sido incansável, quer explorar todas as possibilidade, concede o Francisco, mas o Frederico está longe e muito longe daqui!

Essa é realmente uma das hipóteses da Polícia, observa a Catarina, deve ter apanhado um comboio até Espanha ou França e daí até às Caraíbas!

Voltaremos a ter notícias dele? murmura o Francisco, a Catarina encolhe os ombros e responde.

Estou mais preocupada com o que vou dizer ao Tomás.


CONTINUA

segunda-feira, 24 de maio de 2021

O PROBLEMA - FIM

 

Mais tarde, a Glória dirá que a viagem de regresso foi um pesadelo, pois o Major parecia feito de mármore.

Não lhe dirigiu a palavra, apenas interrompeu o silêncio para lhe perguntar o nome do cunhado da Rita, ele é inspector da Polícia Judiciária, talvez nos possa ajudar, explica.

O Nicolau e a Natália também não sabem o que dizer, não há muito para dizer, não podemos dizer que vai ficar tudo bem, diz o professor, não temos todos os factos.

O que achas que aconteceu? pergunta a Natália, mas o Nicolau abana a cabeça, estaria a especular e nestas circunstâncias, isso pode levar a más interpretações.

O avião aterra com um ligeiro atraso, a Glória suspira de alívio e são os primeiros a saírem.

O Major alega " urgência familiar ", está tão sério que ninguém se atreve a contrariá-lo.

Recolhem a bagagem, as portas abrem-se e o Francisco é a primeira pessoa que vêem.

Está muito sério, está acompanhado por um senhor com um ar muito cansado e que se identifica como Inspector Gonçalves.

Se me quiser seguir, posso pedir a alguém que leve a esposa a casa, sugere quando vê o Major hesitar e olhar para a Glória que está tão pálida que parece que vai desmaiar.

O Nicolau prontifica-se a levar a Glória a casa, o Francisco diz que a Catarina já lá está com as miúdas, com o Tomás e o Luís, o filho dele.

O Major beija a Glória suavemente nos lábios, murmura um tem calma, vai correr bem e entra no carro do Inspector.

Na esquadra, contam-lhe que encontraram o carro do Frederico abandonado num viaduto, sem sinais do ocupante.

Como o viaduto é perto da estação de comboios, estão a verificar a possibilidade do Frederico ter viajado para o estrangeiro.

Abandonou o carro? Viajar de comboio para o estrangeiro? o Major está perplexo, mas porquê?

A empresa apresentou uma queixa-crime contra ele, Pai, interrompe o Francisco, suspeitam que ele está a desviar fundos e o desaparecimento dele...

Confirma a suspeita, continua o Major e suspira. 

Está tão perdido como o filho que o olha verdadeiramente desamparado.

Será que o Frederico fez o que a empresa diz? Se tinha problemas porque é que não falou com ele?

Oh, meu Deus, onde é que eu falhei? sussurra, para onde é que ele foi?

Mas ainda vai demorar algum tempo até obter uma resposta para essa questão.

FIM

domingo, 23 de maio de 2021

O PROBLEMA - PARTE VI

 

O queres dizer com isso? e a Glória levanta-se e fecha a porta da casa de banho, não quer que o Major acorde.

Exactamente isso, responde a Catarina, ele simplesmente desapareceu. Não sabemos onde está, com quem está, faltou a uma reunião importante e como ele não atendia o telemóvel, ligaram para o Francisco. 

E? insiste a Glória, o Francisco ficou surpreendido, tinha falado com ele no domingo e estava tudo bem, continua a Catarina, a casa estava desarrumada, mas aparentemente não faltava nada. O carro não estava na garagem, mas o que se passou entre a garagem de casa e o escritório...

Ninguém sabe, termina a Glória preocupada, já avisaram a Polícia? Ah, como é que vou dizer isso ao Amadeu?

Vocês não regressam amanhã? pergunta a Catarina, diz-lhe durante a viagem, a Polícia vai querer falar com ele depois.

A Glória suspira, não tem a certeza de que isso será uma boa ideia,  mas a Catarina acha que não vai resolver nada dizer naquele momento.

Quando desliga, a Glória não sabe dizer se está chocada, preocupada, confusa, olha para o relógio.

Talvez a Natália ainda esteja acordada, talvez possam conversar. A amiga atende ao primeiro toque, estamos no bar, vem cá ter, convida.

A Glória veste-se rapidamente, o Amadeu continua a dormir, mas ela está inquieta demais.

A Natália e o Nicolau ficam horrorizados com a notícia, concordam com a Catarina, diz-lhe amanhã durante a viagem e mesmo assim, vai ser complicado.

Não sei, não sei, repete a Glória, ele vai odiar-me se não lhe disser já.

Não, não, interrompe o Nicolau, diz durante a viagem, nós ajudamos-te.

No dia seguinte, o Amadeu acorda feliz, o que faz com que a Glória se sinta culpada, vou " matar " tudo isto quando lhe contar, pensa.

O Amadeu desafia-os para um último passeio pelo parque antes de irem para o aeroporto e a Glória não consegue ficar calada.

Conta-lhe, a alegria desaparece do olhar do Major, volta a ser o militar com um ar duro, inexpressivo.

Liga imediatamente ao Francisco que responde bruscamente às perguntas do Pai.

CONTINUA

sábado, 22 de maio de 2021

O PROBLEMA - PARTE V


A Catarina fica encantada, vai ser engraçado ver o Tomás a tomar conta das tias, ri-se.

Não te importas? Vais ficar doida com três crianças aos berros, pergunta a Glória preocupada, mas a Catarina abana a cabeça, a minha Mãe ajuda-me. Vão ao Frankfurt, descansem que bem merecem.

A viagem é um sucesso, o Major adora a cidade, compra Mapas, visita antiquários e a Glória suspira, mais tralha para o escritório! Não sei se lhe vou perdoar, Nicolau! mas vê-se que está feliz, o Major está relaxado, desapareceu o ar sombrio.

Foi uma boa ideia, Nicolau, diz a Natália naquele noite, acho que já me " perdoou " ter-te " roubado "!

Ora, isso nunca esteve em causa! O Amadeu precisava de se redefinir, de encontrar novos horizontes, observa o Nicolau, esquecer um pouco os problemas com os filhos mais velhos!

É estranho a hostilidade, a frieza que há entre eles, concorda a Natália, todos temos problemas com os nossos Pais e conseguimos superar isso!

Não conheci a primeira mulher do Amadeu, confessa o Nicolau, e ele pouco fala dela! Viviam mais ou menos separados, os rapazes estavam só com ela, não conhecem bem o Pai e não sabemos o que ela lhes dizia!

Mas mesmo assim, Nicolau, estarem semanas, meses sem se falarem, a Glória diz que só viram o neto mais novo uma ou duas vezes, frisa a Natália, isso não é normal!!!

Minha querida, o Amadeu não é uma pessoa fácil e tu sabes que sou muito amigo dele, comenta o ex-professor, os filhos são pessoas complicados e sobretudo muito egoístas. Por isso, vai ser muito complicado chegarem a um compromisso!

A Natália não diz, a análise do Nicolau pode estar certa e sinceramente, agora não quer pensar no Major nem nos problemas com os filhos.

Quer desfrutar da noite, da cidade, da companhia do Nicolau e por isso, sugere que desçam até ao bar para tomar uma última bebida.

O Amadeu adormeceu e a Glória aproveita para telefonar à Catarina.

Esta demora algum tempo a atender, o que preocupa a Glória, será que a Mariana está bem? A Márcia engasgou-se e tiveram que ir até ao Hospital?

A Catarina atende finalmente e pelo tom de voz, a Glória nota que ela está cansada.

Bem te disse que ficares com três crianças em casa, ia ser demais! brinca a Gloria, há silêncio do outro lado, o que é estranho, porque a Catarina é muito brincalhona.

O que se passa, Catarina? Aconteceu alguma coisa às miúdas? insiste, sente a Catarina suspirar e fica imóvel quando a nora explica calmamente que não têm notícias do Frederico desde o início da semana.

CONTINUA

sexta-feira, 21 de maio de 2021

O PROBLEMA - PARTE IV

 

O Major está muito desanimado, tentou ligar os filhos, mas não conseguiu.

Nem sei se estão no País! suspira, não sei verdadeiramente o que fiz de errado!

O Amadeu não fez nada de errado; trabalhou apenas, responde o Nicolau, se não compreendem isso, azar deles, o meu amigo não deve deixar que isso o atormente.

Gostava de ter uma vida mais normal, continua o Major, como a que tenho com a Glória e as meninas! Ás vezes, até penso que eles têm inveja da minha vida!

Oh, Amadeu, não pense nisso! interrompe o Nicolau, eu e a Natália  sempre vamos a Frankfurt, vamos dentro de duas semanas. Tenho que estar na Feira uns dois dias, mas depois, vamos fazer um tour pela cidade. Porque é que o Major e a Glória não vêm também? repete.

O Major acha a ideia péssima, quem é que fica com as meninas? diz e o Nicolau volta a suspirar, o Amadeu consegue ser muito teimoso, pensa.

Tenho a certeza de que a Glória pode organizar isso, afirma, não é desculpa! Vamos os quatros, exploramos um local diferente, vai ser bom para todos.

O Major não tem tanta certeza e o Nicolau atreve-se a expressar alto o que lhe passa no pensamento.

O Amadeu tem algum problema com a Natália? Com o facto de estarmos a viver juntos? e o Major fica tão surpreendido que não responde por uns minutos.

Não, claro que não tenho! Porque é que pensa isso? Agora é o Nicolau que está a ver conspirações! exclama.

O Amadeu não tem sido propriamente simpático, digamos assim, replica o Nicolau, tem medo de quê? Que ela me esteja a explorar por ser anos mais nova do que eu?

O Major sente que lhe falta o ar, o Nicolau pôs o dedo na ferida como se costuma dizer.

Em parte, confessa, o Nicolau tornou-se uma pessoa importante, um autor aclamado!

Mas a Natália conheceu-me antes de eu ser famoso, até me ajudou na pesquisa para os primeiros livros, frisa o Nicolau, entrou nesta relação de olhos bem abertos!

O Major cala-se por uns segundos, a Glória tem razão, está a ser um idiota, não está a pensar claramente.

Desculpe, Nicolau, não estou a pensar claramente, comenta, esta situação com os meus filhos...

Mais uma razão para desanuviar, vem connosco a Frankfurt, decide o Nicolau, eu vou primeiro e a Natália, a Glória e o Amadeu vão lá ter. Tenho a certeza de que a sua nora Catarina não se importa de ficar com as cunhadas! brinca.

CONTINUA


quinta-feira, 20 de maio de 2021

O PROBLEMA - PARTE III

 

Enquanto a Glória suspira sem saber muito bem como agir, a Carolina continua sentada no sofá.

Devia ir para a cama, mas está tão confortável ali que será um sacrifício levantar-se, despir-se e deitar-se.

Planeias ficar aí toda a noite? pergunta o Gustavo e a mulher encolhe os ombros, sorri e confessa que não sabe.

O jantar correu bem, não achas? Se bem que o Major parecia estranho, não gosta muito da Natália, pois não? observa o Gustavo.

Uma estupidez, que a própria mulher não entende, riposta a Carolina, acha que a relação que tem com o Nicolau vai mudar. Mas a Natália já fazia parte do grupo; agora, está a viver com o Nicolau.

As prioridades das pessoas alteram-se, concorda o Gustavo, mas isso não significa obrigatoriamente o fim de uma amizade. A pessoa adapta-se se realmente está interessada em preservar a amizade.

Até gosto da Natália, diz a mulher, é inteligente, interessada, divertida. Hoje, notava-se que estava feliz, muito diferente da Natália que regressou dos States.

Chegaram a saber o que aconteceu? questiona o Gustavo, mas a mulher abana a cabeça, ela foi extremamente vaga sobre o assunto. Mas acho que contou tudo ao Nicolau.

O Gustavo suspira, convence a mulher a deitar-se, também está cansado e a Inês deve dar o sinal de alvorada dentro de umas horas.

O Nicolau levanta-se cedo, a Natália ainda fica na cama e por isso, ele desce até à cozinha, prepara o pequeno almoço.

Fica uns minutos no jardim, depois vai até ao escritório, ver os emails. A Editora ficou de lhe enviar um sobre a possível ida à feira de Frankfurt.

Talvez a Natália possa ir, mas precisam de saber as datas exactas para ela poder organizar a agenda na Universidade.

Falaram nisso a noite passada, a Glória confessou que tinha inveja,  estou mesmo a precisar de sair daqui, talvez até pudéssemos ir todos,sugere mas o Major ignorou o comentário da companheira.

Ai, Amadeu, mas o que é que o está a preocupar? murmura o Nicolau, não vai interferir na nossa amizade. Só se deixares!

A falar sozinho? interrompe a Natália e o Nicolau sorri, não, estou a ver os emails. Estou à espera do da Editora sobre a Feira de Frankfurt.

Era óptimo se o Major e a Glória viessem também, podíamos organizar um tour engraçado, Porque não vais passar todos os dias na feira, certo? e o Nicolau acha que não haverá qualquer problema.

Pagamos do nosso bolso as noites extras, esclarece, e exploramos a cidade.

Há bip, sinal de que chegou um email e o Nicolau apressa-se a abrir.

A Natália lê também, daqui a três semanas, vou ter tempo suficiente para organizar tudo, beija o Nicolau carinhosamente, vou tomar banho, murmura e saí da sala.

O Nicolau resolve telefonar ao Major.

CONTINUA


quarta-feira, 19 de maio de 2021

O PROBLEMA - PARTE II

 

O jantar é em casa da Carolina, a Teresa e a Madalena são as responsáveis pelo menu com pratos feitos com os produtos da loja.

É um jantar animado, mas a Natália sente-se um pouco posta à margem.

Não sei explicar, confessa ao Nicolau quando chegam a casa, todos falaram comigo, incluíram-me no grupo, mas houve ali uma barreira que não pude transpor. Acho que a Carolina e a Madalena foram as que se esforçaram mais para me fazer sentir parte do grupo. Não falo da Glória, porque a questão nem se coloca.

E a Rita? pergunta o Nicolau e a Natália sorri, a Rita está completamente apaixonada pela filha, a conversa gira em torno das gracinhas da menina. O que é perfeitamente normal, acrescenta.

O Nicolau também sorri, sentiu um pouco de hostilidade por parte do Major, o que o surpreendeu bastante.

O António e o Gonçalo aceitaram a Natália como mais uma no grupo, não deixaram que ela perturbasse a dinâmica do grupo.

Mas o Amadeu preocupa-o; o Nicolau sabe que ele continua a ser um homem amargurado, distante dos filhos do primeiro casamento e vê o neto porque a nora se impôs.

É exactamente isso que a Glória está a dizer ao companheiro, trataste a Natália como se ela fosse uma desconhecida! Até parece que ela nunca esteve aqui nesta casa, a jantar connosco, a brincar com as nossas filhas! O facto dela estar a viver com o Nicolau não é um golpe! repete.

Ok, ok, concede o Amadeu, acho que foi tudo rápido demais! Foi uma questão de meses! Nem sabemos se ela gosta dele!

A Glória suspira, o Amadeu pode ser teimoso às vezes, não, não sabemos, admite, mas tem que haver qualquer coisa forte para os unir e eles decidirem viver juntos. Conheço a Natália o suficiente para saber que ela ponderou isto, foi uma decisão com cabeça, tronco e membros!

Ok, desculpa, prometo que terei mais cuidado da próxima vez que a encontrar! diz o companheiro, mas o tom de voz não convence a Glória.

Há semanas que não tem notícias do Frederico e do Francisco, sempre que lhes telefona, estão sempre muito ocupados, há sempre um almoço, uma viagem de negócios e nunca sabem quando voltam.

A Catarina também se queixa que o Frederico pouco vê o filho, adia quase sempre as visitas e o Tomás fica sempre tão desiludido.

Fica amuado durante dias, não participa nas actividades da escola, conta, não sei mesmo o que fazer, pois não consigo falar com o Frederico, dá sempre a mesma desculpa.

CONTINUA


terça-feira, 18 de maio de 2021

O PROBLEMA

 

A decisão da Natália e do Nicolau de viverem juntos foi uma surpresa para alguns, um choque para outros.

Apenas o Gonçalo riu com vontade, por amor de Deus, diz, actualizem-se! Eu vivo com uma mulher mais velha e qual é o problema???

A Natália tem a sua própria carreira, não precisa do dinheiro do Nicolau! protesta a Glória nessa noite ao jantar.

As meninas já estão a dormir e ela e o Major usufruem de um jantar de adultos tranquilo.

Eu não disse nada! defende-se o Amadeu, mas a Glória interrompe de imediato, mas estás a pensar que isto é um golpe da Natália! Mas são duas pessoas inteligentes, com interesses comuns que concluíram que partilharem a vida é o melhor para ambos!

O Major suspira, não acrescenta mais nada, quer usufruir da noite. No fundo, receia que terminem os jantares de quarta-feira.

O António nem sempre aparece, mas para ele e para o Nicolau, aquele jantar semanal é sagrado.

O Nicolau ri-se quando lhe conta, ah, meu bom amigo, está enganado! Porque é que a Natália ia interferir nisto? responde quando o Amadeu lhe confessa os seus receios.

A vida dá tantas voltas, já não temos o Clube, comenta o Major, a Aída foi promovida, o Bernardo está a fazer aquele estágio naquela cidade com nome esquisito, a Rita tem uma filha...

E o Amadeu também tem uma nova vida, interrompe o Professor, é muito bom saber que os nossos amigos encontraram um rumo. Deixe que encontre o meu!

Quando regressa a casa, a Natália está a despir o casaco, acabou de chegar, teve um workshop na universidade.

Resolvem sentar-se no escritório, beber um chá antes de subirem para o quarto.

O Nicolau conta-lhe resumidamente o que se passou no jantar e a Natália sorri.

Surpreendemos realmente os nossos amigos, observa, mas as coisas não têm que ser diferentes! Apenas estarei mais presente! Não vou interferir nos teus jantares de quarta-feira e já era convidada para as festas, não vejo qual é o problema! repete.

Tens a certeza de que não vai haver problemas? e a Rita frisa bem a palavra " problemas ".

Valha-me Deus! Mas o que é que se passa convosco? Deu-vos um ataque de estupidez??? questiona o Gonçalo, a Natália já fazia parte do grupo, a única diferença é que agora vem com o Nicolau!

Não sei; às vezes, as coisas descontrolam-se e não voltam a ser o que eram, explica a Rita.

O Gonçalo não responde, acha tudo uma idiotice e propõe organizarem um jantar para esclarecerem tudo.

CONTINUA

segunda-feira, 17 de maio de 2021

A INTRUSA - FIM

 

O que se segue é uma grande confusão.

A Teresa dá-me um sermão, o António tenta acalmar a Sofia que me chama " ruim " e eu encolho os ombros.

No meio disto tudo, o Gonçalo continua a dormir e os meus Tios suspiram de alívio quando a Filipa e o novo namorado chegam para me levarem para casa.

A Filipa apercebe-se de imediato que aconteceu qualquer coisa e quando a Teresa lhe conta, desfaz-se em desculpas.

A Teresa ri-se, são coisas de criança, diz, a Inês vai fazer mais isto? mas claro que estou decidida em continuar em guerra com a Sofia.

Na rua, a Filipa pergunta-se se sou tolinha, o que é que te passou pela cabeça para deitares a boneca à água? mas eu apenas sorrio.

O Gaspar ou Gualter, não sei bem, acha imensa piada, a tua irmã é destemida, afirma, mas a Filipa não fica nada satisfeita com o comentário.

Pois, contribui para a festa, protesta, eu a tentar que ela perceba que fez mal e tu ris-te! Assim, ela não aprende nada!

O namorado não faz mais comentários, faz-me uma careta, eu também faço uma e quando chegamos a casa, somos dois bons amigos.

A Mãe também não fica muito satisfeita quando a Filipa explica o que sucedeu.

Olha-me muito séria, o que é que eu vou fazer contigo, Inês? hum, não gosto nada desta voz! Sarilhos e grandes, penso.

Gostavas que a Sofia fizesse mesmo às tuas bonecas? Não, claro que não gostavas! Por isso, vou confiscar as tuas bonecas, não vais poder brincar com elas uns tempos para ver se compreendes o que fizeste!

Fico preocupada, olho em volta, onde é que está o Edgar? o que é que a Mãe quer dizer?

A Filipa começa a tirar as bonecas do quarto, oh, Mãe, não é uma decisão drástica demais? mas a Mãe nem responde.

Percebo finalmente o que está a acontecer, abro a boca e desato num choro tão dorido que o Matias e o Edgar aparecem a correr e exigem saber o que é que estão a fazer à " criança".

Ninguém dá explicações, o meu quarto fica despido e deixam-me lá sozinha a "pensar".

Choro uns minutos mais, mas depois, murmuro, sou mesmo uma idiota! Fui apanhada, tenho apenas que encontrar uma maneira de ninguém dar conta!

Quando me deitam, pareço estar muito submissa, pensam que aprendi a lição, mas eu...

Eu estou já a pensar na minha próxima vingança.

FIM



domingo, 16 de maio de 2021

A INTRUSA - PARTE V

 

No infantário, mostro-me muito fria com a Sofia, mas esta só pensa o melhor das pessoas e continua a ser a mesma pessoa feliz.

Tão feliz, tão sorridente que até irrita, será que não percebe que estou zangada com ela, que me estou a preparar para lhe pregar uma partida?

A Teresa e o António são pessoas felizes, ouço a Mãe dizer ao Pai uma vez, estes miúdos também são felizes e alegres!

E nós não somos? pergunta o Pai indignado, mas a Mãe ri-se, claro que sim, mas temos que nos organizar doutra maneira, a nossa vida não é tão simples com sete pessoas a falar ao mesmo tempo!

O Pai também se ri, não percebo porquê, para mim o que a Mãe disse é puro chinês e dá-lhe um grande beijo.

É outra coisa que não entendo: às vezes, queixam-se que tiverem um dia muito duro, pedem para falarmos baixo e passado dez minutos, estão a falar como dois apaixonados.

Suspiro, a educadora pergunta se estou bem, mas eu afasto-me da mão dela e ela ri-se.

Hoje, é o António quem nos vem buscar, fico lá em casa até à hora do jantar.

O António deixa-nos no quarto da Sofia, um quarto cor de rosa cheio de rendinhas e florinhas.

Prefiro o quarto do Gonçalo, tem mais cor, brinquedos mais interessantes, mas hoje, o Gonçalo tem febre e quer estar sozinho.

A Sofia sorri-me, eu tenho vontade de lhe bater e olho em volta para ver o que há disponível para lhe atirar à cabeça ou esconder.

Ah, ah, está ali a boneca favorita dela, sentada no chão encostada à arca de brinquedos e é a minha vez de sorrir.

A Sofia não vê o que faço, está à procuro de qualquer coisa para me mostrar, é a oportunidade ideal para fugir.

Encontro a porta da casa de banho aberto, o António deve ter dado banho ao Gonçalo, a banheira ainda não esvaziou totalmente e eu deixo cair lá a boneca.

INÊS, o que é que estás a fazer? é a Teresa quem grita, tenta ainda salvar a boneca, mas esta está já molhada.

O António aparece a correr, a Sofia também e desata a chorar quando vê a boneca a pingar nas mãos da Mãe.

CONTINUA


sexta-feira, 14 de maio de 2021

A INTRUSA - PARTE IV

 

Só o Gonçalo é que come o pudim de chocolate, a Sofia faz beicinho e não percebe muito bem porque é que não o pode comer.

Então, não disse onde estava o urso? Mas o Edgar explica que somos as duas culpadas, não importa quem teve a ideia, participamos as duas.

É o que acontece numa equipa: mesmo que o erro seja de um, todos são castigados, concluí e eu deito-lhe a língua de fora.

Para mim, está a falar chinês, mas o Edgar está convencido que estamos a aprender uma grande lição.

A Teresa e o António aparecem depois do jantar para levarem os filhos, o Gonçalo já adormeceu, mas a Sofia ainda está bem desperta.

Quando a meter na cama, adormece logo, confidencia a Mãe e despedem-se.

Agora, minha marota, vamos nós para a cama também, diz a Mãe e eu apresso-me a fugir.

O Matias vem atrás de mim, mas eu sou rápida demais para ele e fujo a toda a velocidade para o corredor.

Má sorte a minha, o Miguel abre a porta da rua nesse altura e depara comigo a tentar decidir qual a melhor rota de fuga.

Ora, ora, o que é que temos aqui? pergunta o meu irmão mais velho, uma fugitiva! É a hora de dormir e aqui a Mestre do Crime não gosta da ideia!

Pega em mim ao colo, tento bater-lhe, mas ele esquiva-se a rir, ah, marota!

Ela escondeu o urso da Francisca! confidencia o Matias e o Miguel olha para mim, muito sério.

Fizeste isso a um bebé inocente. Inês? e em resposta, recebe um novo murro meu.

Queres luta? Olha que vais ter! avisa o Miguel, Mãe, eu deito esta terrorista! e eu sei que perdi a batalha.

O Miguel é muito carinhoso, acende a luz de presença, dá-me a zebra (pois, também não consigo dormir sem ela, sou mesmo má!) e dá-me um beijo na testa.

Espero que não aprontes mais asneiras! diz, o Mundo pode ser muito mais divertido se não fizeres mais asneiras, aconselha.

Apaga a luz de cima e eu fico sozinha.

Respiro fundo, estou cansada, mas estou já a pensar no que vou fazer à Sofia por me ter denunciado, mas o sono vence-me e adormeço.

CONTINUA

quinta-feira, 13 de maio de 2021

O HUMOR - PARTE III

 

A missão é um sucesso, o urso fica escondido no meio dos meus peluches e eu sorrio vitoriosa.

O Matias entra nesse momento, o Gonçalo e o Edgar continuam entretidos com o jogo de xadrez e nós as duas estamos sentadas no meio dos almofadões com ar de anjos.

Vocês aprontaram alguma, diz o Matias, eu e a Sofia rimos. O meu irmão aproxima-se, senta-se ao pé de nós e pergunta, então, quem é que vai contar uma história hoje?

É o jogo favorito do Matias, gosta de construir histórias, até de inventar palavras que eu repito e faz com que os Pais me olhem como se eu fosse uma ser extraterrestre.

O que é que lhe andas a contar? pergunta o Pai, ela repete isto no infantário e todos pensam que ela não sabe pronunciar as palavras!

O Matias encolhe os ombros, adora ser original, qual é o problema em ser criativo? protesta e os Pais respondem que não é esse o problema, é apenas o facto de eu trocar os "f's" pelos " g's" e dizer " estapafúrdio".

Estamos a meio da história, o Matias sabe como conquistar as audiências, quando a Rita e a Mãe entram.

A Rita pega na Francisca com todo o cuidado, veste-lhe o casaco, sempre a falar baixinho e a Mãe fecha o saco.

Não te esqueces de nada? observa a Mãe, a Rita olha em volta, falta o urso, sem o urso ela não dorme! exclama, ia jurar que estava aqui!

Não terá rolado para debaixo da cama? sugere o Matias, ajoelha-se e espreita, não, não está cá nada! confirma.

O Edgar já se levantou e procura por detrás das cortinas, também não está aqui! declara.

A Mãe olha-me fixamente, lembra-se das minhas "asneiras" anteriores e por isso, acha que eu sou culpada no desaparecimento do urso.

Inês, onde está o urso da prima? e pega-me na mão, escondes o urso da Francisca, não foi? És muito marota, Inês, continua, vá lá, onde está o urso?

A Sofia ri-se então, eu empurro-a e a Mãe suspira, então, temos duas conspiradoras! Talvez a Sofia conte e possa comer o pudim de chocolate que a D. Margarida fez para o jantar!

Sei então que vou perder a aliada, porque a Sofia não resiste ao chocolate e aponta de imediato para o monte dos meus peluches.

O Matias apressa-se a resgatar o malfadado urso, a Rita agradece-lhe com um sorriso e despede-se.

E, nós vamos para o banho! diz a Mãe, e não há pudim de chocolate para ninguém, acrescenta o Matias.

Os olhos da Sofia enchem-se de lágrimas, eu dou-lhe uma cotovelada e murmuro, traidora, devias estar calada!

CONTINUA

quarta-feira, 12 de maio de 2021

A INTRUSA - PARTE II

 

Rio-me e dou-lhe uma palmada na cara. O meu irmão interpreta isso como sendo um murro e prende-me as mãos.

Isso não se faz, Inês!!! Já não te expliquei porque é que não se faz isso? o Matias está indignado, mas pelo canto do olho, vejo o Edgar a disfarçar um sorriso.

Ok, senta-se aqui e não saias daqui, ordena o Matias muito sério, o que arranca uma gargalhada ao Gonçalo, o recado também é para ti, fedelho, acrescenta e saí muito empertigado do quarto.

O Edgar senta-se no chão e desafia o Gonçalo para um jogo de xadrez. Claro que o Gonçalo não entende nada e espalha as peças pelo chão.

A Sofia acha piada e observa-os atentamente. Eu desinteresso-me, olho em volta à procura de qualquer coisa.

Não sei bem o quê, mas o ursinho da Francisca caiu, está meio escondido nas almofadas e é a oportunidade perfeita para a aborrecer.

Sei que não dorme sem o urso, desata num berreiro sem fim até que encontrem o malfadado peluche e lho coloquem na mão.

Faço sinal à Sofia, tenho uma coisa para te dizer, murmuro e a minha prima fica curiosa, segue-me até ao nosso esconderijo favorito, por trás das cortinas.

Vamos pregar uma partida à Francisca, digo, o urso está ali no chão, vamos raptá-lo e esconder em qualquer sítio.

Ra...o quê? a Sofia tem dificuldades em pronunciar a palavra, e vamos esconder o urso porquê? A Francisca não dorme sem ele, é mau!

Estou farta de ouvir dela! expludo, Francisca para aqui, Francisca para lá! E nós??? Esqueceram-se de nós?

Claro que não! afirma a Sofia, é porque ela é pequenina! e eu mordo os lábios. Parece a tia Teresa a falar, sempre a acalmar os ânimos!

Já não basta termos o Miguel sempre a berrar, agora temos que aturar esta! repito, vamos esconder o urso, sim senhora e ver o que acontece.

Vamos ser descobertas! avisa a Sofia, eles descobrem sempre tudo!

Mas eu encolho os ombros, afasto a cortina, o Gonçalo e o Edgar continuam a tentar jogar xadrez e parecem bem divertidos.

Rastejamos, porque é que temos que rastejar? pergunta a Sofia, estamos a fazer o reconhecimento, não queremos que o inimigo nos veja e a minha prima abana a cabeça em concordância.

CONTINUA

terça-feira, 11 de maio de 2021

A INTRUSA

 

Mas quem é esta intrusa? O que é que ela faz no meu quarto? E estão todas a sorrir porquê?

Parecem todos uns idiotas e eu que os ature! Francamente, se isto é o comportamento de gente civilizada!

O Gonçalo é um palerma, nunca resmunga, está sempre a sorrir e a Sofia está encantada com o novo membro da família.

É capaz de passar minutos, horas a olhar para a bebé a quem chamaram Francisca.

Mas isto é nome de gente??? Eu dou-lhe uma olhadela rápida, a Francisca devolve-me o olhar muito séria, mas depois faz beicinho.

O Matias acorre, afasta-me, pergunta-me, o que é que lhe fizeste, Inês? e depois acalma a inimiga.

Porque ela é uma inimiga, não gosto dela, está decidido e tenho que convencer o Gonçalo e a Sofia que não podem ser amigos dela.

Vou até à sala procurar a minha Mãe, mas esta está a conversar com a Rita que está deslumbrante, a maternidade fez-te bem, declara.

A Rita ri-se, está feliz, está orgulhosa, bondade tua, Carolina, tive sorte de manter o meu peso!

Tive alguns problemas com o peso depois de nascer a Inês, declara a minha Mãe, consegui emagrecer uns quatro quilos, gostava de emagrecer um pouco mais, mas a médica diz que estou muito bem. 

Agora que a Francisca está mais crescida, vou voltar a fazer natação, observa a Rita, para o próximo mês, volto a trabalhar. Eu e o Gonçalo decidimos que nesta primeira fase, trabalho de manhã no escritório e à tarde, fico em casa, em teletrabalho.

Uma decisão acertada, concorda a Carolina, também tens a D. Branca que te ajuda bastante.

Ah, sim, a D. Branca trata a Francisca como se fosse neta dela, e a Rita volta a rir.

É nessa altura que decido derrubar as revistas, quero ter a atenção total da minha Mãe.

Ah, Inês, marota, o que fazes aqui? pergunta-me, porque é que não estás a brincar no teu quarto?

Deixa-a ficar, pede a Rita, mas a minha Mãe abana a cabeça, não, esta marota não está quieta um segundo, tem que aprender a respeitar as regras, explica e chama o Matias e o Edgar.

Os meus irmãos aparecem de imediato, um pouco aborrecidos, estávamos no meio de um jogo importante, protestam, mas a Mãe não quer saber.

E a vossa irmã aproveitou a distracção para se escapulir do quarto! responde a Mãe e entrega-me ao Matias.

Má, má, és mesmo má, Inês, murmura o meu irmão.

CONTINUA

segunda-feira, 10 de maio de 2021

O HUMOR - FIM

 

Então, não temos mais nada a dizer, diz o Bernardo lentamente e a Rosário encolhe os ombros, parece que não! Isto é o fim! Espero que continuemos amigos, responde e estende-lhe a mão.

O Bernardo olha-a duramente, a Rosário baixa os olhos, a mão, murmura qualquer coisa e afasta-se.

O Bernardo saí atarantado do ginásio, não consegue pensar direito e fica sentado no carro durante uns minutos.

Acho que era a única solução, não deixes que isso interfira com os teus planos, recomenda o Major.

O Bernardo telefonou-lhe, convidou-o para tomar um café, devia falar com a minha Mãe sobre isto, mas não estou preparado, confessa.

O Major compreende, quem lhe dera que os filhos confiassem nele, mas a relação continua a ser distante, até um pouco hostil.

Quando sabe, a Aída apenas o abraça, lamento, filho, e não comenta mais nada.

Incentivam-nos a telefonar ao Gustavo, o Bernardo acaba por aceitar o convite para jantar deste e a noite é agradável.

O Gustavo está cheio de planos, quer abrir uma empresa dela, talvez me possas ajudar, observa, mas o Bernardo é cauteloso, não se compromete com nada.

Regressa à empresa, ao estágio, concentra-se no trabalho que está a desenvolver.

Mas sente-se um pouco sozinho, os novos amigos percebem que algo está mal, mas não insistem quando o Bernardo responde delicadamente que é um assunto pessoal.

Tenta divertir-se, descobrir mais sobre a cultura do País, interessa-se por ciclismo e é no Clube que conhece a Maggie.

A Maggie é uma grande fá do desporto "outdoor" e em breve, ela e o Bernardo tem uma rotina para os fins de semana.

A Maggie é estudante de arte e restauro e o Bernardo fica a saber imenso sobre a arte no Século XVI que é área de interesse da nova amiga.

Um dia, a Maggie dorme em casa dele e tornam-se um casal.

O estágio está a chegar ao fim, tem que regressar e o Bernardo está um pouco dividido, mas a Maggie decide acompanhá-lo.

Está em contacto com uma Universidade, é um programa de intercâmbio, explica, encaixa no que quero fazer.

E, depois? pergunta o Bernardo, mas a namorada apenas sorri, um dia de cada vez, Bernardo.

O Bernardo corresponde ao sorriso, pode ser que isto resulte, pensa e senta-se à mesa para discutir vários pormenores com a namorada.

FIM

domingo, 9 de maio de 2021

O HUMOR - PARTE V


O Bernardo parte naquele madrugada, a Rosário não quis vir ao Aeroporto, despediu-se dele em casa.

O Bernardo está apreensivo, não tem a certeza do que vai acontecer entre eles, mas o Major aconselha-o a concentrar no estágio que vai fazer.

Um estágio que o vai manter bastante ocupado e abrir os horizontes para o que pode fazer a seguir.

Mas também tem tempo para conhecer pessoas novas, visitar novos locais e é um guia perfeito para a família e os amigos quando o visitam.

Todos menos a Rosário que tem sempre uma desculpa para não lhe telefonar tantas vezes, passar um fim de semana lá.

Em vez de aceitar o convite dos novos amigos para passar um fim de semana prolongado numa estância de ski, o Bernardo resolve voltar a casa.

A Aída fica contentíssima e tem milhares de planos, mas o filho explica-lhe calmamente que voltou para " esclarecer as coisas com a namorada".

Que namorada??? questiona a Aída, mas o Bernardo abana a cabeça e saí.

Sabias que ele tinha uma namorada? Disse-te alguma coisas? mas o Bruno também ficou surpreendido com a notícia.

O Major devia saber, mas claro que não disse nada! suspira a Aída, espero que o meu filho não fique desiludido, pois se sente que tem que esclarecer as coisas...

Não é uma relação estável, concorda o Bruno e esperam que o Bernardo fique calmo e não muito desiludido com o resultado da conversa.

O Bernardo tem alguma dificuldade em encontrar a Rosário; por fim, encontra-a no ginásio que frequenta com umas amigas.

A Rosário fica um pouco contrariada quando o vê, mais ainda quando o Bernardo insiste em falar sobre o que está a acontecer.

Também estou muito ocupada, tenho muito pouco tempo livre, diz enquanto se sentam no bar do ginásio.

O Bernardo queria sair dali, ir para um local mais sossegado, mas a Rosário recusa-se, tenho uma aula dentro de meia hora.

Isso não é desculpa, quando as pessoas estão interessadas, fazem por ter tempo, responde o Bernardo, a minha família, os meus amigos já me visitaram e todos são pessoas ocupadas.

Que bom para eles! a Rosário é um pouco irónica e o Bernardo morde o lábio, sinal de que começa a ficar furioso.

Não, corrige, são pessoas que gostam de mim e se preocupam com o meu bem-estar, observa, resta saber o que é que tu queres desta relação.

Neste momento, nada! apressa-se a esclarecer a Rosário e o Bernardo suspira, tem que admitir que é a resposta que esperava, mas tinha uma vaga esperança de que não fosse verdade.

CONTINUA

sábado, 8 de maio de 2021

O HUMOR - PARTE IV

 

A proposta é interessante, o Bernardo fica entusiasmado, porque insinuam que o cargo a ocupar quando regressar será diferente.

Posso ser director, explica à Mãe quando ela lhe telefona nessa noite, já pensaste nisso?

Estás a ser arrogante, recrimina a Aída, tem calma, faz o estágio, torna-te indispensável, mas não sejas ambicioso demais.

O que é queres dizer com isso? pergunta o Bernardo, confuso e a Aída suspira, és um rapaz inteligente, acho que sabes perfeitamente o que quero dizer! 

Vencer utilizando as nossas próprias armas? responde o filho, estás a ver como sabes o que quero dizer? concorda a Aída.

Quando é que vais? Tão cedo? repete quando o filho lhe diz que tem duas semanas para preparar tudo e partir.

Onde é que vais ficar? insiste a Mãe, mas não fica muito tranquilo quando o Bernardo esclarece que é  a empresa que se encarrega de tudo.

Será que ele fica bem? E supermercados, farmácias, restaurantes? insiste, mas o companheiro, o Bruno acha que está a ser paranoica.

O rapaz tem vinte e três anos, sei que teve aquele acidente estúpido e foi complicado, afirma, mas tens que o deixar em paz. São só seis meses e até lhe vai fazer bem, ir para um local novo!

A Aída continua apreensiva, a Madalena compreende-a, quando o Gustavo esteve fora, estava sempre ansiosa, a perguntar-lhe se estava a comer, a dormir em condições, confessa.

Mas o Bernardo está satisfeito, a explicar os processos em aberto à pessoa que o vai substituir e a fazer as malas.

A Rosário ajuda-o, mas o Bernardo está preocupado porque ela não fala sobre o que sente com ele.

Dá-lhe tempo, aconselha o Major, o almoço de despedida que a tua Mãe está a organizar é uma boa oportunidade para a apresentares, a Aída fica a saber que tens alguém que te apoia!

O Bernardo fica calado, a Rosário continua a não falar muito com ele e por isso, é uma incógnita saber o que ela pensa verdadeiramente.

Depois daquela primeira conversa, o Bernardo convenceu-se que ela o apoiava e por isso, fica surpreendido quando ela recusa ir ao almoço.

Não quero, já te expliquei as razões, esclarece, e não sabemos o que vai acontecer nestes seis meses.

Pensei que estavas de acordo, replica o companheiro, se conheceres a minha Mãe, podem apoiar-se mutuamente.

Tenho a minha Mãe, grita e o Bernardo abre a boca de espanto.

Se pensas assim, é melhor não conheceres a minha Mãe! murmura, pega nas chaves do carro e saí.

O almoço é em casa do Major, a casa da Aída é pequena demais para as pessoas convidadas.

O Bernardo recebe imensos conselhos, o Gonçalo oferece-lhe uma pasta, o Major um desenho da cidade para onde vai.

E, todos lhe prometem fazer uma visita. Até mesmo a bebé Francisca.

CONTINUA


sexta-feira, 7 de maio de 2021

O HUMOR - PARTE III

 

Aproveita a oportunidade, mas fala com a tua namorada, aconselha o Gonçalo, ela tem que saber e apoiar-te.

E, se não apoiar? pergunta o Bernardo e o Gonçalo hesita na resposta, mas o Major intervém.

Talvez não seja a tal, talvez não tenha os mesmos objectivos, explica e o Bernardo volta a suspirar.

Receia a conversa, a Rosário tem uma visão muito própria das coisas e nem sempre aceita as sugestões dos outros.

Por isso, não estranha quando a Rosário explode e o acusa de hipocrisia.

Estás louca! protesta o Bernardo, estou a discutir o assunto contigo! É uma oportunidade única, vai contribuir para o sucesso da minha carreira.

Ah, a tua carreira é mais importante que nós? interrompe a Rosário, fico a saber um pouco mais sobre ti, não há dúvida!

Mas a tua carreira também é importante para ti, continua o Bernardo, estiveste fora um mês e não te importaste que eu ficasse sozinho! 

A Rosário fica corada, o Bernardo tocou num ponto delicado e tem toda a razão, tem que concordar.

Senta-se devagarinho no sofá e diz baixinho, mas não são seis meses! O que é que nos vai acontecer?

Não sei, responde o namorado, não posso dizer que não, oferecem o estágio a outro e eu fico para trás. Isso não pode acontecer! Podes ir passar uns fins de semana lá, eu faço o mesmo, não sei, temos que tentar!

A Rosário suspira, temos que tentar, repete, manda lá o email ao chefe e conversamos melhor quando tiveres os detalhes todos.

Em casa da Rita e do Gonçalo, vive-se um raro momento de descanso.

A Francisca está a dormir sossegada e os Pais estão a conversar baixinho, nada de trabalho! pede o Gonçalo e a Rita ri-se.

Achas que o Bernardo já falou com a namorada? Engraçado, a Aída não me contou nada! observa a Rita.

Creio que ainda não falou com eles sobre ela! conta o Gonçalo, segundo percebi, a relação é muito recente, estão ainda a conhecer-se e ela não quer conhecer a família para já.

Estranho! comenta a Rita, eu também guardei segredo sobre a nossa relação durante uns tempos, mas a certa altura, tem que ficar exposta.

Fiquei com a impressão de que a rapariga é muito senhora do seu nariz, tipo posso, faço e mando, explica o Gonçalo, um pouco como tu! acrescenta, trocista.

A Rita bate-lhe com uma almofada, o Gonçalo ri-se bem humorado e ataca-a também.

Depois, beija-a carinhosamente, mas a Francisca resolve acordar nesse momento e eles levantam-se rapidamente do sofá e correm para o quarto da filha.

CONTINUA


quinta-feira, 6 de maio de 2021

O HUMOR - PARTE II

 

Entretanto, a empresa faz uma proposta ao Bernardo, trabalhar seis meses numa sucursal do Grupo no estrangeiro.

Compreendem que precise de algum tempo para pensar, frisam, mas o Bernardo nem hesita.

Estou interessado, é uma oportunidade a não perder, explica ao Major quando se encontram no fim de semana para o almoço de anos da Teresa, conhecer novos métodos de trabalho, de gestão, não, não vou dizer não!

Olha a sorte que tenho! diz a Aída irónica, ao menos, está a dizer abertamente e em público!

Oh, Mãe, tens que perceber que é uma oportunidade única! protesta o Bernardo e a Aída dá-lhe uma palmada nas costas.

Estou a brincar, meu filho! Claro que tens que aproveitar as oportunidades, estou apenas um pouco apreensiva, não me podes proibir isso! responde e o filho dá-lhe um abraço.

Só te disseram isso? Não falaram do que pretendem realmente? insiste o Major e o Bernardo abana a cabeça.

Marcaram uma nova reunião para terça-feira, comenta o rapaz, deve ser para esclarecerem todos os detalhes! Esta noite, vou enviar um mail ao Director para confirmar que estou interessado.

E a Rosário? O que é que ela diz disto tudo? pergunta o Amadeu, mas nesse momento, chega a Rita com o novo membro da família nos braços e este reclama toda a atenção de todos.

Só quando terminam o almoço e as mulheres vão para a sala de estar, é que o Major volta a falar no assunto.

Então, o que é que diz a Rosário? repete e o Gonçalo interrompe, a Rosário é a tua namorada?

Falei, falei, confirma o Bernardo, por alto, não entrei em detalhes, também não os tenho! Acho que ela não assimilou bem!

Mas tens que conversar com ela sobre isso, aconselha o Gonçalo, esclarecer tudo muito bem. Ela pode não gostar muito da ideia!

Tu também estiveste fora seis meses e não afectou a tua relação com a Rita! afirma o António.

Vamos lá esclarecer as coisas! Claro que afectou a minha relação com a Rita, foi por isso que estive seis meses fora! observa o Gonçalo, tomei uma decisão empresarial e não a consultei! Depois resolvemos a situação, porque temos uma relação bastante forte! Por isso, como é que está a tua relação?

O Bernardo suspira, não tem a certeza, o relacionamento com a Rosário é muito recente, há muitas coisas que ainda não definiram.

CONTINUA

quarta-feira, 5 de maio de 2021

O HUMOR

 

Após o acidente e os meses de fisioterapia, o Bernardo não estava à vontade para conduzir.

Mas as reuniões terminavam tarde, está dependente da boa vontade dos outros ou tinha mesmo que chamar um Uber.

Por isso, um dia, alugou um carro e conduziu até casa da Mãe na cidade vizinha.

Respeitou os limites da velocidade, teve cuidado com as ultrapassagens e chegou ileso.

A Mãe e o Bruno brincaram com o facto, o Bernardo respondeu bem humorado e a única nuvem negra naquele jantar foi perguntarem-lhe pela namorada.

O Bernardo encolheu os ombros e deu uma resposta vaga, desviando o assunto para águas mais seguras.

Afinal, tens ou não tens namorada? pergunta-lhe o Major no dia seguinte.

Continuam amigos, o Bernardo confia mais nele do que no próprio Pai e o Major retribuiu a confiança, convidando-o para padrinho da filha mais nova.

Ter, tenho, explica o Bernardo, mas a Rosário diz que ainda é muito cedo para conhecermos as respectivas família. Por causa do que aconteceu com o irmão; namorou vários anos com uma rapariga, as famílias já saiam juntas e de um momento para o outro, terminaram e foi complicado.

Compreendo, afirma o Major, mas a tua Mãe vai ficar desconfiada, pode ir até lá e vocês estarem juntos. Será um momento um pouco estranho, tens que admitir.

O Bernardo suspira, o Major tem toda a razão, a Mãe vai desconfiar e não vai descansar até saber tudo.

Não, não, repete a Rosário, estamos muito bem assim, sem interferências da família. A minha também me faz essas perguntas.

Ok, fazemos como tu queres, o Bernardo sente-se derrotado, mas, um dia teremos que admitir que estamos juntos.

A Rosário encolhe os ombros, ainda não têm a certeza de nada, conheceram-se há poucos meses, estão a conhecer-se.

O Bernardo é um pouco reservado, só há pouco deixou de ter pesadelos com o acidente, sobre o qual se recusa a falar.

Mas quando se descontraí, geralmente quando conhece bem as pessoas, consegue ser muito divertido, com um humor um pouco negro.

CONTINUA