terça-feira, 31 de agosto de 2021

O DILEMA DE LUÍSA FIM

 

A Leonor não diz nada, faz um gesto vago na direcção da nova colega que entra nesse momento na sala.

Há qualquer coisa nela que não me agrada, conto mais tarde à Dra Lúcia, e não, não sei explicar se é o sorriso rápido, se é a frieza no olhar. Vou estar atenta, noto que os meus colegas ficam muito desconfortáveis quando falo nela.

Há pessoas muito tóxicas, concorda a médica, concentre-se nos seus planos, no seu filho.

O Gustavo também me dá o mesmo conselho e descubro verdadeiramente o caracter da nova colega quando tem um grande discussão com a Leonor.

A Leonor fica muito vermelha, a Rosário ri-se triunfante e o meu chefe é incapaz de intervir.

A Leonor levanta-se, murmura qualquer coisa que soa como " não tenho que aguentar isto" e desaparece no gabinete da gerência.

Ficamos todos calados, o chefe encontra finalmente a voz, dá instruções que ninguém segue, pois estamos preocupados com o que poderá acontecer com a Leonor.

A Leonor aparece meia hora mais tarde, tem os olhos vermelhos, esteve a chorar certamente e começa a arrumar a secretária.

Oh, Leonor, o que é que fizeste? pergunto baixinho, mas a Leonor não responde.

Telefona-me mais tarde, conta que se despediu e que ficou com a impressão de que era isso que a gerência queria, não quiseram saber porquê, explica, acho que foi por educação que perguntaram se tinha a certeza, se não queria antes ser transferida para outro departamento.

Fico logo de pé atrás, mas a Dra Lúcia não quer ouvir falar de pensamentos negativos, tem um plano, faça com que resulte, recomenda.

Quando sabe da história, a minha Mãe desvaloriza a situação, não sabes se te vai acontecer o mesmo, limita-te a fazer o teu trabalho, frisa e o Pai concorda, tem calma, presta atenção ao que se passa, mas não te envolvas muito.

Com o Tobias, o curso, as palestras e o estudo, tenho o tempo bem ocupado, mas não se esqueça de que é importante estar com o seu filho, a sua família, os seus amigos, divertir-se, esclarece a médica.

Um dia, a gerência marca uma reunião comigo, não sei porquê, acho que me vão convidar para sair, confesso ao Gustavo, mas ele acha que é prematuro falar nisso.

Mas é exactamente isso que a gerência faz e passado o choque inicial, encolho os ombros, começo a fazer novos planos.

A tia do Gustavo, Rita oferece-me um part-time que aceito, é essencial que continue a estar activa, a Dra Lúcia insiste nesse ponto, não me disse que essa senhora tem muitos conhecimentos? Quem sabe se não lhe poderá arranjar um estágio numa empresa do ramo?

A universidade também me pode arranjar o estágio, digo, mas a Dra Lúcia abana a cabeça, mantenha as opções em aberto, aconselha.

Não sei o que vai acontecer, estou concentrada no momento, encontrarei um novo emprego, estou certa disso, repito.

Apenas a minha Mãe permanece céptica, ninguém me escuta, queixa-se, eu bem previa que uma coisa destas ia acontecer! Mas esta gente nova pensa que sabe tudo!

FIM

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

O DILEMA DE LUÍSA PARTE V

 

O Gustavo cumpre a promessa: apresenta-me vários cursos, assinala mesmo a opção que lhe parece mais viável.

Também fico interessada, faço uma pesquisa mais profunda e tento ignorar os comentários da minha Mãe.

A vida não termina só porque tenho um filho, penso e tanto a Dra Lúcia como o Gustavo concordam.

Organizamos um horário do Tobias, diz o Gustavo, a minha Mãe e a Clarinha ajudam e tenho a certeza de que os teus Pais também.

A minha Mãe está contra, acho que estou a ser egoísta, conto, tenho que pensar no meu filho, na minha idade, tenho que ter um emprego estável. Isto dito por alguém que me acusa de não ser batalhadora e o mais irritante disto tudo, continuo, é que não o diz a mim, mas aos outros!

Confronta-a com isso, aconselha o Gustavo e a Dra Lúcia também o diz.

Não, não me sinto com forças para isso, contrario, vou receber um sermão sobre boas maneiras, sobre os deveres dos filhos, etc.

Parece-me que a sua Mãe é uma grande egoísta, comenta a Dra Lúcia, devia ficar contente agora que a Luísa está finalmente a batalhar como ela diz.

Nunca entendi a minha Mãe, confesso, tentei, mas a certa altura, desisti. É uma pessoa muito complicada, é muito rigorosa, muito exigente.

Mas temos que ser um pouco flexíveis, estar abertos a novas ideias, explica a médica, compreendo que a sua Mãe cresceu numa determinada época, tem outros valores, mas não pode exigir que os filhos fiquem presos nesse passado!

Fico calada, não há mais nada a dizer, a verdade é que não quero falar sobre a minha Mãe.

Estou entusiasmada com o curso, logo que me é possível, volto para o meu apartamento com o Tobias.

A minha Mãe protesta, ainda não estás em condições para estar sozinha, mas eu não cedo.

O Gustavo fala-me em contratar uma baby sitter, eu levo-o ao infantário de manhã, ela pode ir buscá-lo à tarde, trata do banho, do jantar, etc, fica até tu chegares, sugere.

Acho uma boa ideia, principalmente porque volto ao trabalho.

Encontro um ambiente hostil, de desconfiança e sinto-me um pouco perdida.

Numa pausa para café, pergunto à minha colega Leonor, o que é que se passa? pergunto, parece que têm medo uns dos outros.

CONTINUA

domingo, 29 de agosto de 2021

O DILEMA DE LUÍSA PARTE IV

 

A Dra Lúcia despede-se, diz que volta no dia seguinte e deixa-me só com os meus pensamentos.

E tenho muito em que pensar; a médica lançou-me um desafio e eu tenho que o aceitar.

Talvez a vida fique mais fácil, talvez seja mais feliz, não sei, mas tenho que tentar.

A voz da minha Mãe soa-me na mente, tens a certeza? acho que é melhor não arriscares e lembro-me como tentou dissuadir-me de casar com o Gustavo, és nova demais, vais arrepender-te.

A única coisa de que me arrependo neste momento é ter-me divorciado; o Gustavo foi, é um óptimo companheiro, amigo, amante e deitei tudo a perder por ser radical.

O Gustavo visita-me naquela manhã, fica satisfeito por me ver de bom humor e mais ainda quando lhe conto os meus planos.

Ups! O que aconteceu? pergunta, mas eu apenas sorrio, a vida será mais interessante se me desafiar.

O Gustavo sorri, às vezes, é bom arriscar, estou a adorar esta nova faceta da minha vida, diz, estamos já a considerar contratar mais gente.

Posso ajudar? mas acabamos por nos rir, tenho meses de fisioterapia pela frente mas já decidi, vou fazer uns cursos online, comento.

Posso fazer essa pesquisa e dou-te os detalhes, oferece-se o Gustavo e passamos o resto do tempo a falar sobre isso.

A Mãe não ficará contente, digo mais tarde durante a consulta com a Dra Lúcia, mas esta abana a cabeça, não, a Luísa é uma mulher adulta, tem que tomar as suas próprias decisões. Tem que bater o pé, mesmo à sua Mãe!

Como eu previa, a Mãe acha uma péssima ideia eu fazer cursos online enquanto estou a fazer fisioterapia.

Tens que descansar, tiveste um acidente muito grave, protesta, e vais mudar de profissão agora? Tens que pensar no teu filho.

É tudo uma questão de organização, repito as palavras da Dra Lúcia, o Gustavo diz que ajuda com o Tobias.

A Mãe suspira, abana a cabeça, é uma má ideia! mas o meu Pai intervém, por amor de Deus, Carmo, ela é uma mulher adulta, pode tomar as suas próprias decisões!

Mas tem que pensar no filho, tem responsabilidades, não pode andar a fazer o que bem lhe apetece, tem que aguentar as responsabilidades das decisões que toma, esclarece a Mãe.

É melhor para o Tobias ter uma Mãe feliz e contente do que uma frustrada, o Pai está muito sério e sei que vão continuar a discutir o assunto longe de mim.

CONTINUA

sábado, 28 de agosto de 2021

O DILEMA DE LUÍSA PARTE III

 

Acho que sou uma pessoa má, digo lentamente e vejo que a médica me olha surpreendida.

Não creio que seja má, tem defeitos como todas as outras pessoas, responde, teremos que nos concentrar nesses defeitos e encontrar uma solução. Fala-me da sua infância, da sua adolescência.

Mas eu não quero falar do passado, quero falar apenas do presente, no que aconteceu e como posso viver daqui para a frente.

A Dra Lúcia não fica muito convencida, o problema está geralmente no passado, explica, mas eu não concordo.

Ouve-me atentamente, por vezes, interrompe-me para esclarecer um pormenor e quando dá a consulta por terminada, eu sinto-me mais aliviada.

Penso no meu casamento, na paciência do Gustavo, talvez possam reatar se admitir que está errada, sugere a Dra Lúcia, mas eu abano a cabeça.

O Gustavo seguiu em frente, eu não, observo, não lhe perdoo ter avançado com o projecto apesar das minhas reticências.

Talvez seja inveja, porque teve coragem de fazer o que a Luísa quer, no fundo, ter o seu próprio projecto, declara a Dra Lúcia e eu fico calada.

Tenho razão, não tenho? insiste a médica, e porque é que não tentou?

A minha Mãe sempre disse que eu não era batalhadora, comento, convenci-me que era verdade e ignorei-me.

Então, tem um projecto? repete a médica, já falou com alguém sobre isso? Procurou um parceiro?

Não, confesso, tive medo que fosse rejeitado, que fizessem pouco de mim e detesto que façam pouco de mim!

Isso faz parte da vida, continua a Dra Lúcia, temos que saber filtrar, procurar a verdade no meio desses comentários e é isso que a Luísa não está a fazer! 

O que quer dizer com isso? indago, começo a ficar agitada, mas a Dra Lúcia, se notou alguma coisa, prefere ignorar.

Por exemplo, já alguma vez explicou à sua Mãe que não se sente realizada e porquê? e eu olho-a desconfiada.

Não, nunca expliquei, admito, sei que ela nunca entenderia.

CONTINUA

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

O DILEMA DE LUISA PARTE II

 

Fico chocada, sou uma pessoa problemática, em conflito comigo e com os outros? penso, mas não me atrevo a dizer isso alto.

Tenho muito que pensar, tento rever os acontecimentos presentes e passados, onde é que falhei e como posso corrigir? e estou tão abalada que não vejo o sinal.

Passo com vermelho, o outro carro bate-me com toda a força e embato contra o separador.

Desmaio e os meus Pais contam-me depois que estive uns dias em coma, que pensaram o pior, que foi um alívio quando disseram que ia sobreviver.

Vais ter meses de recuperação, avisam, não vai ser fácil, mas não te preocupes, tu e o Tobias ficam lá em casa o tempo que for necessário.

O Gustavo também me visita, tu és tão cuidadosa, como é que não viste o sinal? censura carinhosamente e vejo que está aliviado por o Tobias não estar no carro.

Gostava de ver o miúdo, mas um hospital não é o local adequado para um bebé, explica a minha Mãe e tenho que concordar com ela.

Naquela tarde, sentam-me num cadeirão, amanhã vai começar a fisioterapia, esclarece a enfermeira, pensamos que poderá ir para casa no início da próxima semana.

Estou abalada pelos acontecimentos, sinto os olhos cheios de lágrimas, estou a armar-me em vítima, já sei, mas não consigo evitar.

Boa Tarde, é má altura? perguntam-me, mas eu não me dou ao trabalho de responder, olá, boa tarde, insistem, podemos conversar um pouco?

Suspiro, levanto os olhos, encontro uma rapariga de cabelo castanho preso num rabo de cavalo, cara lavada e uns olhos castanhos trocistas.

Bolas, é uma criança que se vai encarregar da minha fisioterapia, murmuro e como se tivesse adivinhado os meus pensamentos, a rapariga responde, sou interna de psiquiatria e gostaria de conversar um pouco consigo sobre o acidente.

Não preciso de uma psiquiatra, digo agressivamente, mas a médica ignora e continua, segundo o relatório, não viu o sinal e gostaríamos de perceber porquê? Todos dizem que é muito cuidadosa, o que falhou naquele momento?

Já disse que não preciso de uma psiquiatra, repito, talvez, mas eu acho que precisa, insiste a Dra Lúcia, as enfermeiras dizem que passa os dias calada, às vezes, finge que está a dormir para não falar com as visitas.

Lembro-me do olhar magoado da minha Mãe, do ar perplexo do meu Pai, ajo como se tivessem culpa de tudo o que me aconteceu.

A Dra Lúcia espera que eu falo, mas para já não consigo.

Como é que vou explicar que a verdadeira culpada sou eu e não sei como explicar isso?

Mas não estamos a falar de culpa, estamos a falar de si, dos seus sentimentos, esclarece a Dra Lúcia quando lho confesso.

CONTINUA

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

O DILEMA DE LUÍSA


Todos dizem que estou sempre de mau humor.

Desde o divórcio, acrescentam e começo a achar que têm razão.

Até o Gustavo evita falar comigo, pois tratei-o tão mal e ele precisava de todo o meu apoio.

Ok, ninguém está a dizer que tens que concordar com tudo o que ele faz, observa o meu Pai, eu próprio tenho as minhas dúvidas, mas respeito o ponto de vista do Gustavo e sei que, se não resultar, ele será o primeiro a admitir que errou e tomará as providências necessárias para controlar a situação.

Mas tu foste radical, continua a Mãe, fizeste-lhe um ultimato, em vez de o apoiares!

Pronto, já sei, digo, a culpa é toda minha! e os meus Pais suspiram, oh, Luísa, lá estás tu a armar-te em vítima!

Fico calada, furiosa com o comentário, mas, mais tarde a conversar com a minha amiga, Susana, esta, diplomaticamente, confirma a opinião.

Achas mesmo que me estou a armar em vítima? pergunto, admirada e magoada e a Susana hesita antes de continuar.

Acho que estás a ser egoísta, só pensas em ti, explica, não aceitas o ponto de vista dos outros! Não admira que as pessoas se afastem de ti!

Fico abismada, nunca tal me passou pela cabeça e tento explicar as minhas opiniões à Susana que me ouve atentamente.

Não te posso ajudar, responde, tu é que tens que descobrir o que está errado e encontrar uma solução! 

Continuo calada, espantada e bastante magoada, mas quando mais penso no assunto, mais me convenço que a Susana pode ter razão.

Sou assim tão má pessoa? questiono a minha Mãe, a única pessoa que me poderá dar uma resposta honesta.

Não, não és má, responde a Mãe, nem sempre és franca e às vezes, és radical. Temos que encontrar o meio termo, ser equilibradas!


CONTINUA

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

MATIAS FIM

 

Os Pais acabam por saber da luta, pois a Inês relata tudo ao jantar, está deliciada com a palavra " verme ".

Por isso, paira no ar a ameaça do colégio militar, talvez percebas o que é a disciplina e a organização, explica o Pai.

O Matias está aborrecido, culpa o Edgar de tudo, mas o irmão defende-se, tu é que começas as coisas, eu apenas reajo!

Mas isso é tão mau como provocar! responde a Filipa que ouve a discussão, é como o Miguel disse, organizem-se. Eu e o Miguel tínhamos um esquema, por exemplo, quem saísse à sexta-feira à noite com os amigos, ficava convosco sábado à noite. Nos jantares de família, a mesma coisa e resultou. Têm que conversar, aconselha.

Então, hoje eu vou com a Mãe buscar a Inês e fico com ela até à hora do banho, declara o Edgar, tu ficas com ela depois, lês-lhe a história até ela adormecer e não se fala mais nisso! 

Mas isto é uma ditadura? reclama o Matias, mas a Filipa acha uma boa ideia e o irmão não se atreve a dizer mais nada.

Em casa, o Edgar prepara um calendário, distribui as tarefas e submete à aprovação do irmão.

No dia 15, temos que mudar, avisa o Matias, não muito convencido, tenho jogo! e o Edgar encolhe os ombros, não há problema, ficas no dia seguinte!

Vou estar muito cansado, sabes como a Inês pode ser uma peste, protesta, mas o Edgar nem ouve.

Apaga o nome do Matias no dia 15, coloca o dele e continua a preparar o horário.

O Matias fica ofendido, até o Edgar, aquele fedelho impossível, não lhe obedece! pensa, mas a família aprova o horário feito pelo irmão.

Estás a ver, pá, diz o Miguel, têm que puxar pela cabeça, é a coisa mais simples do Mundo! e ri-se.

Mas o Matias continua sem perceber; só anos mais tarde é que compreende como teve uma infância e adolescência feliz numa casa cheia de amor, barulho e alegria.

O único problema é que a mulher acha que cinco filhos são demais.

FIM


terça-feira, 24 de agosto de 2021

MATIAS PARTE IV

 

És um palerma, pá! diz o Miguel mais tarde quando os convidados se vão embora, os miúdos estavam entretidos, os dois podiam ter almoçado na sala sem problemas, mas tu resolveste armar-te em esperto!

Está calado! protesta o Matias, até parece que nunca te queixaste por ter que ficar no quarto de brinquedos a aturar estes " idiotas"! Lembro-me muito bem disso!

Até posso ter dito, concede o irmão mais velho, mas eu e a Filipa tínhamos um esquema que resultava, é o que tens que fazer! Falar com o Edgar e trabalhar em conjunto para que ambos gozem o momento!

Qual era o vosso esquema? pergunta o Matias, curioso, mas o irmão abana a cabeça, tens uma cabeça para pensar, faz uso dela, palerma! e saí do quarto.

Palerma! ecoa a Inês, deliciada, palerma, palerma, palerma! e o Matias grita, está calada, Inês! Isso não se diz!

Mas claro está que a Inês continua a cantarolar, palerma, palerma e o Edgar junta-se ao coro.

O Matias fica muito vermelho, cala-te, verme! ordena e a Inês ri-se, repete, verme, verme!

Repete isso, se és capaz! pede o Edgar, indignado, o Matias repete e o irmão atira-lhe um soco que o faz desequilibrar.

O Matias esquece as recomendações da Mãe e do Pai, responde com um outro soco que faz com que o Edgar caia.

A Inês bate em retirada, instala-se no corredor, a observar a luta entre os irmãos.

O Matias está todo despenteado, a camisa fora das calças e há um rasgão na T-Shirt do Edgar.

Verme, verme! canta a Inês e os dois irmãos gritam-lhe, cala-te, Inês.

Mas quem é que a cala? A Inês está deliciada, ninguém tem uma vida familiar tão divertida como a dela, tem a certeza absoluta.

Ainda por cima, aprende palavras tão interessantes que fazem êxito no infantário, mas que as educadoras não gostam nada.

A luta continua, os dois irmãos continuam a insultar-se, atraem a atenção da Filipa que trata de os separar.

Por amor de Deus! O que se passa? questiona, ainda é por causa do que se passou ao almoço? Que criancice! Cresçam!

Os dois irmãos ficam calados, a Filipa suspira, ela seria assim tão parva quando teve treze anos?

Lavem-se, não apareçam assim aos Pais, aconselha, vejam se conversam, se arranjam uma forma de comunicar, não podemos ter lutas todos os dias! E, tu, periquita, e a Inês sorri, és a pior de todos! Aqui, a rir-se que nem uma tolinha! Anda lá, vamos preparar-nos para a cama!

A Inês fica um pouco contrariada, agora que a luta ia entrar numa fase interessante é que a irmã teve que interromper! Isso não se faz, por isso, declara, verme!

A Filipa morde os lábios para não se rir, pois é, menina, eu sou um verme e tu és uma marota!

CONTINUA

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

MATIAS PARTE III

 

O que é que vamos fazer agora? pergunta o Edgar, é que estou cheio de fome e não quero comer as sobras! 

Fazemos como das outras vezes, diz o Matias, seguro de si, eu vou comer agora e depois, vais tu!

Mas porque é que tens que ir tu primeiro? protesta o Edgar, é sempre a mesma coisa! Estou farto de ficar em segundo!

O Matias nem responde, saí do quarto, entra na sala de jantar onde a conversa rola ruidosamente.

Então, Matias, o que contas? pergunta o Gonçalo, dá-lhe uma palmada nas costas, mas nem espera pela resposta, em breve, está embrenhado numa grande conversa com o Pai.

O Matias fica um pouco aborrecido, o Gonçalo podia conversar um pouco com ele, afinal, ele não é um miúdo! Já tem treze anos, é um homem!

Suspira, avança até à mesa, cheia de coisas tão boas, está indeciso.

Resultado, demora tanto tempo que o Edgar aparece com o Miguel ao colo, muito aborrecido à porta.

O Miguel solta um grito ao ver o Pai, o Pedro fica logo preocupado, o que é que se passa? pergunta, está doente, Edgar?

Não, não, ele está óptimo, responde o sobrinho, todos estão óptimos! Eu é que estou com fome e o Matias nunca mais se despacha!

O Matias fica muito vermelho perante o olhar furioso do Pai e a Carolina suspira, Miguel, tu ou a Filipa vão até ao quarto de brinquedos, vejam como estão os outros e fiquem lá um bocadinho enquanto o Edgar come qualquer coisa.

O irmão pega no filho ao colo, acompanha a sobrinha até ao quarto enquanto a Carolina prepara um prato para o Edgar.

O Pai faz sinal ao Matias para o seguir até à cozinha, o que é que conversamos esta manhã, Matias? Penso que fui muito claro; foste muito egoísta, deixaste o Edgar sozinho, à tua espera, com fome!

Tenho treze anos, Pai! Porque é que tenho que tomar conta dos miúdos? Porque é que não posso almoçar com vocês na sala?

Ninguém está a dizer que não o podes fazer! repete o Pai, mas tens que te organizar! Estabelecer prioridades e agir de acordo com isso!

Prioridades? murmura o Matias sem entender muito bem o que o Pai está a dizer.


CONTINUA



domingo, 22 de agosto de 2021

MATIAS PARTE II

 

A Mãe está muito zangada, os dois irmãos ficam muito atrapalhados e o Edgar tenta justificar-se.

Não quero saber, corta a Mãe, já falamos sobre lutas, isto é uma casa de família, podemos ter opiniões diferentes, mas LUTAS não são permitidas! Façam o favor de ir lavar essa cara, pentear o cabelo. Quanto a nós, periquita, e a Inês ri-se, vamos até à cozinha e almoçar.

Meia hora depois, os irmãos apresentam-se na cozinha, lavados, penteados, prontos para receberem ordens, como murmura o Matias.

A campainha toca nesse momento, a Carolina faz um gesto vago e os dois irmãos apressam-se a abrir.

É a Teresa e o António, o Gonçalo e a Sofia que, ao verem os primos, fazem um estardalhaço tal que a Inês foge à Mãe.

A Filipa e o Miguel também aparecem e ficam ali todos no hall a conversar até que a Carolina os interrompe, há uma sala com sofás confortáveis à vossa espera e atenção que o Gustavo está a preparar receitas novas de cocktails!

Todos riem, o Matias e o Edgar levam o trio para o quarto de brinquedos e começam a organizar um jogo.

A campainha volta a tocar, a Rita e o Gonçalo, pensam os irmãos e cinco minutos depois, aparece a Rita, deslumbrante como sempre, com uma Francisca muito aborrecida ao colo.

Pronto, Francisca, fica aqui com os meninos, e a Rita senta a filha no tapete, dá-lhe um brinquedo que a Francisca atira de imediato contra a parede mais perto.

Ok, está de mau humor, segreda a Inês e a Sofia ri-se, o que irrita ainda mais a prima que desata a chorar.

O Matias tenta distraí-la, mas a Francisca afasta-se dele, encosta-se à parede.

O Edgar tem pena dela, senta-se ao pé dela, fala com ela baixinho, mas a Francisca continua desconfiada.

Com licença, com licença, e o Pedro entra, quase arrastando o Miguel e o Matias suspira, este idiota nunca está de bom humor! pensa e tenta sentá-lo no tapete ao pé dos outros.

Não vais conseguir, diz o Edgar, esse miúdo é muito teimoso! e Francisca, curiosa, gatinha até ao tapete.

O Miguel não olha para ninguém, está de cara fechada, braços cruzados e a Inês e a Sofia voltam a rir-se.

Parolo, sussurra a Inês, idiota, concorda a Sofia e o Gonçalo diz alto, és um nabo, pá!

O Miguel fica muito vermelho e estende o braço para bater no Gonçalo, mas infelizmente, apanha a cara da Francisca que fica muito surpreendida.

Contudo, não fica nada atrapalhada e dá-lhe uma cotovelada o que faz com que o Miguel se desequilibre.

Basta, ralha o Matias, estamos numa casa de família, repete numa voz que tenta imitar a da Mãe, não há lutas!

O Edgar começa a rir-se, mas o Matias olha-o tão furioso que o irmão levanta as mãos a pedir paz.

Voltam ao jogo, mas a Francisca e o Gonçalo adormecem, a Inês e a Sofia estão entretidas com as bonecas, resta o Miguel, mas este continua sem olhar para ninguém.


CONTINUA


sábado, 21 de agosto de 2021

MATIAS

 

O Matias sente-se importante agora que fez treze anos. É um homem, não tem que tomar conta dos mais pequenos, o Edgar pode fazer isso, porque o Edgar é um miúdo, protesta.

Também tu és um miúdo, diz o irmão mais velho, por isso, organiza a creche; não olhes para mim assim, gira, andor!

O Matias fica aborrecido, o Miguel não pode falar assim, explica ao Pai, mas o Pai concorda com o irmão, só que é mais diplomático.

Conto com a tua ajuda, diz, vamos ter a casa cheia e precisamos de ter os mais novos ocupados. Precisamos de relaxar, de conversar, compreendes?

O Matias acena que sim. começa a dar ordens ao Edgar, arruma a mesa ali ao canto, põe os puffs aqui, o tapete no meio, ordena.

E tu não ajudas? protesta o Edgar, não, Inês, dá cá isso, mas a irmã ri e esconde-se no meio dos cortinados.

O Edgar persegue-a, mas a Inês já aperfeiçoou o método de fuga e é a muito custo que o irmão recupera a almofada.

Anda lá, Edgar, estás a ficar atrasado, diz o Matias, mas o Edgar está a ficar farto e exige saber quem é o verdadeiro responsável pelo assunto.

Sou eu! grita o irmão, eu sou o único responsável, tens que me obedecer!

Recuso-me, estou farto, estou cansado, grita também o Edgar, porque é que tenho que fazer tudo e tu estás aí, descansado da vida?

O Matias não está com meias medidas, dá um soco ao irmão, mas o Edgar é rápido a responder.

Em breve, os dois irmãos estão no meio do chão a lutar com a irmã deliciada e a bater palmas.

MAS O QUE É ISTO? a voz é forte, atravessa o quarto e até a Inês fica em sentido.

CONTINUA

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

A NOVA LOUCURA DA LAURA FIM

 

O que é que vai acontecer agora? pergunta a Teresa quando sabe da história, preocupada com o António que está há imenso tempo ao telefone com os Pais.

A Carolina suspira, nunca tive problemas com os vizinhos, desabafa, e agora tenho que pedir desculpa a todos e tudo por causa da loucura da Laura!

Todos estão magoados, a brincadeira do Matias não foi bem recebida e o Pai deu-lhe um sermão tão forte que o rapaz fez um esforço enorme para não ceder à vontade de chorar.

Quanto à Laura, recusa a falar com os Pais, mesmo com o médico sobre o assunto e o advogado que consultou recusa-se a avançar com o caso.

A Laura acusa o Pai de ter interferido no assunto, há uma violenta discussão que termina com a Laura a sair de casa sem dizer para onde vai.

Não atende o telemóvel, os Pais telefonam aos filhos, preocupados e o Pedro volta a avisar o infantário para não deixarem o filho sozinho, não vá a louca da ex-mulher tentar raptá-lo.

Que disparate! protesta a Beatriz, estás a fazer uma tempestade num copo de água! Não creio que ela seja capaz disso!

Já o tentou antes, diz o Pedro muito sério, tenho que ter cuidado!

Mas a Laura não aparece no infantário, está vários dias sem dar notícias e os Pais estão desesperados.

Torço o pescoço àquela nossa irmã! comenta o Gonçalo indignado e o António suspira, não sabe o que fazer.

Até que, uma noite tocam-lhe à porta, é bastante tarde, a Teresa e os miúdos estão a dormir, mas ele não consegue e está na sala a tentar ler.

Quem será? Miúdos que acham engraçado tocarem às portas de madrugada! murmura, mas resolve descer para investigar.

Fica surpreendido por ver a Laura, visivelmente intoxicada, a rir que nem uma tolinha, acompanhada por um rapaz que o António conhece vagamente.

Abre a porta rapidamente, Laura, Laura, o que te aconteceu? pergunta, mas a irmã continua a rir-se.

Encontrei um cartão com o seu nome na carteira dela, explica o rapaz que não deve ter mais do que vinte e poucos anos, estava num bar e antes que as coisas piorassem, procurei a sua direcção e vim trazê-la.

Muito obrigada, responde o António, mas, desculpe, acho que o conheço, não me lembro de onde, mas a sua cara não me é estranha.

É natural, vê-me todos os dias no infantário, sou segurança lá, explica o rapaz, esta senhora deve ser sua irmã, é muito parecida com o Dr. Não se preocupe, Dr, continua ao ver a atrapalhação do António, isto fica entre nós! e afasta-se.

O António leva a irmã para cima, a Teresa, que acordou entretanto, ajuda-o a deitar a Laura no sofá.

Amanhã, avisamos todos, declara a companheira, precisamos de descansar! O que é que ela fez, por onde andou? repete.

Sinceramente, não quero saber, declara o António, mas claro que terá que descobrir o que aconteceu.

Para bem da Laura, do Miguel, dos Pais.

Mas será que a Laura se lembra?

FIM


quinta-feira, 19 de agosto de 2021

A NOVA LOUCURA DA LAURA PARTE V

 

O fim de semana não é fácil, o Miguel desconfia daquela senhora que está sempre a dizer, sou a tua mamã.

Esconde-se por trás dos avôs, conhece-os bem e adora andar com o Tomás, o jardineiro, a regar as plantas.

Fica todo molhado, a avó ralha, mas ele fica feliz e a senhora também ri, mas o Miguel não gosta dela.

Há qualquer coisa que não lhe agrada, ri-se, fala muito e por isso, é um alívio quando o levam de volta para a cidade.

O Pai disse-lhe que tem uma irmã, o Miguel fica um pouco aborrecido, uma intrusa, confessa à Inês e à Sofia, mas estas riem-se.

É bom termos irmãos, dizem, o Matias e o Edgar pensam que mandam em mim, mas sou eu quem dá as ordens, conta a Inês e a Sofia ri-se, o Gonçalo nem se atreve a desobedecer-me!

Nessa noite, a Maria Rosa começa a chorar e o Miguel ordena que se cale, mas a irmã grita ainda mais alto.

Que estranho, pensa o Miguel, as primas disseram que ela obedecia! e abana a cabeça, vá lá uma pessoa entender os outros!

Entretanto, o médico da Laura regressa e telefona ao Pedro, concorda com visitas controladas, ainda é muito cedo para estarem os dois sozinhos. Primeiro têm que se conhecer!

Embora contrariada, a Carolina convida a Laura para almoçar naquele domingo.

A Beatriz decide ficar em casa com a filha, estão só o Pedro e o Miguel.

A Filipa e o Miguel vão almoçar com os colegas, o Matias, o Edgar e a Inês recebem ordens para se comportarem " decentemente" e tudo parece correr bem até servirem a sobremesa.

Acho que vou levar o Miguel até ao parque e volto daqui a duas horas, anuncia a Laura, não, não vais! protesta o Pedro, o Miguel não saí daqui.

Que disparate! Vais recomeçar com essa estupidez? reclama a Laura, o meu advogado diz que tenho direitos....

Contaste-lhe que estiveste internada, que ainda estás em tratamento? interrompe o Pedro, que o teu próprio médico diz que só deves estar com o Miguel na presença de terceiros? Contaste?

Matias, leva os teus irmãos e o teu primo para o quarto de brinquedos, ordena a Carolina ao filho mais velho e quando os miúdos saem, vamos a ter calma!

Já disse, vou passear com o meu filho e volto daqui a duas horas, repete a Laura, ou telefono à polícia!

Não sejas dramática, Laura, grita o Pedro, o que é que vais dizer à polícia? 

Que não me deixam ver o meu filho, grita a Laura e os cunhados tentam impor a ordem, mas é impossível, porque a Laura parecia possuída pelo Diabo, desabafa a Carolina mais tarde.

Diz os maiores disparates, recusa-se a ouvir os outros, diz a Carolina, mas o pior foi a polícia ter aparecido por causa do barulho!

É um choque para todos, os polícias ouvem atentamente as partes, aconselham a consultar os advogados e resolver o assunto no tribunal, mas o que pedem agora, é cada um ir para seu lado.

A Laura é a primeira a sair, o Pedro está tão nervoso que a irmã o aconselha a ficar mais algum tempo.

No quarto dos brinquedos, o Matias propõe novo jogo, ele vai ser o Chefe dos Polícias.

CONTINUA



quarta-feira, 18 de agosto de 2021

A NOVA LOUCURA DA LAURA PARTE IV

 

E foi isto o que se passou, conta o Pedro sentado no sofá da irmã com uma cerveja na mão.

As irmãs e os cunhados bem como o Beatriz não sabem o que dizer, a situação é complicada, não vai ser fácil lidar com a Laura e as idiotices.

E, o médico? interrompe a Teresa, o que é que o médico diz? mas o Pedro não conseguiu falar com o médico, está de férias, explica, deixei mensagem, pedi para me ligar logo que possível.

Amanhã tens que falar com o teu advogado, aconselha o Gustavo e a Carolina concorda, ele tem que estar a par de tudo, para agir caso seja necessário.

Não vamos pensar no pior, diz o António muito sério e tanto a Carolina e o marido suspiram, um pouco embaraçados.

Desculpa, a Laura é tua irmã, e a Carolina pousa uma mão no braço do cunhado.

O António sorri, um pouco triste, eu sei que ela é complicada, mas é minha irmã! Vou falar com os meus Pais, devem estar abalados com tudo isto! observa e saí da sala.

A Teresa levanta-se, dá um abraço ao irmão e segue-o.

Fui um pouco inconveniente, continua a Carolina, estamos num fogo cruzado! Nem sempre sei o que fazer...

Apoiar, tentar compreender os dois lados, responde a Beatriz, sei que não é fácil, mas é a melhor opção.

Despedem-se, a Teresa e o António já se foram embora, o Miguel fica cá a dormir, eu levo-o ao infantário amanhã, oferece-se a Carolina.

O Pedro pouco fala, a Beatriz respeita o silêncio, também ela não sabe o que fazer.

Acorda a meio da noite com uma dor muito forte na barriga, sente a cama molhada.

Ups! será agora? pensa e abana o Pedro que está profundamente adormecido, exausto com os acontecimentos do dia.

Hum, o que é que foi? pergunta, acho que a tua filha está ansiosa por chegar a este Mundo, segreda a Beatriz.

Mais tarde, o Pedro confessa aos cunhados que não se lembra da viagem até ao Hospital, tenho a impressão de que passei vários vermelhos, confessa, mas felizmente, chegamos ilesos.

A Beatriz estava certa, é uma menina, parece uma rosinha, comenta a Carolina quando a vê e o Pedro sorri, então, vai-se chamar Rosa, Maria Rosa.

Vê-se que a Beatriz não fica satisfeita, queria um nome talvez mais moderno, mais sonoro, mas o companheiro está tão contente que ela não se atreve a contestar a escolha.

Nessa sexta-feira, os sogros vêm buscar o Miguel, trazem uma pequena lembrança para a Maria Rosa, mostram-se afáveis, discretos e a Beatriz fica sensibilizada com o gesto.


CONTINUA

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

A NOVA LOUCURA DA LAURA PARTE III


A sogra fez-lhe os pratos favoritos, o Pai escolheu um vinho óptimo e a Laura parece estar bem comportada.

O almoço é agradável até a Laura falar do Miguel, está na altura de estabelecer uma relação comigo, mal me conhece, diz.

A culpa é tua, intervém a Mãe, escondias-te no quarto quando ele estava cá, mostravas-te tão distante, tão seca que ele ficava nervoso e começava a chorar!

Mas tem que aprender a gostar de mim, insiste a Laura, é por isso que tem que ficar comigo uns tempos!  Acabar com este absurdo de só o visitar em dias marcados e na presença de alguém escolhido pelo Pedro!

Mas, para isso, tens que me provar que estás capaz, explica o Pedro, capaz de lidar com ele, de não teres uma crise na frente dele... Longe de mim afastar o meu filho da Mãe, mas tenho que ter a certeza de que ele está em boas mãos.

Claro que está! e a Laura exalta-se, eu sou a Mãe dele!

Mas onde é que estiveste estes dois últimos  dois anos? pergunta o Pedro friamente, não foi nada fácil gerir a minha vida, a vida do Miguel...

Lá estás tu a ser dramático, interrompe a Laura, não deve ter sido assim tão difícil se vais ter um outro filho!

O Pedro levanta-se, está furioso, prepara-se para dizer umas verdades, mas o sogro faz-lhe sinal para se calar.

Não estás a compreender a situação, Laura, diz, não podes esperar que a vida recomece no ponto onde a deixaste! Tens que considerar os sentimentos, as vidas dos outros; vamos começar devagar. O Miguel vem passar o próximo fim de semana connosco, aqui nesta casa, contigo, comigo, com a tua Mãe. Vamos ver o que acontece, depois decidimos o próximo passo!

Não! grita a filha, eu tenho direitos! Vou falar com um advogado! Quero o meu filho comigo!

Não vais fazer nada disso! responde a Mãe, vais seguir o plano tal como o Dr Maciel aconselhou. Todos vamos seguir o plano! repete.

Esse Dr Maciel é um idiota! Calma, Laura, se pensar bem, vai ver onde falhou, a Laura imita na perfeição a voz calma do médico.

Deita o guardanapo para cima da mesa, afasta a cadeira e saí a correr da sala. As outras três pessoas ficam caladas, já não têm vontade de comer a sobremesa.

CONTINUA 


sábado, 14 de agosto de 2021

A NOVA LOUCURA DA LAURA PARTE II

 

O António suspira, não sei o que te dizer, confessa, para todos os efeitos, ela está bem. Voltou a interessar-se pelo trabalho, o Pai diz que tem umas óptimas ideias, tem que a refrear um pouco, mas fora isso...

O Miguel não é mais um projecto que tem que resultar, é disso que tenho medo, responde o Pedro, tenho que pensar no bem-estar do miúdo, ele fica retraído na presença dela, não confia nela!

Só tens que fazer o que lhe disseste, diz o irmão da Laura, conversa com o médico, com os meus Pais e depois... tomas uma decisão. Entretanto, quer ela queira ou não, vê o Miguel na tua presença ou na dos meus Pais.

É a vez do Pedro suspirar, não devia ter pensado que a vida estava em ordem, mas a Beatriz acha que é um perfeito disparate.

Tens que pensar que é um acidente de percurso e encontrar uma forma viável de o resolver, comenta, não podes deixar que as loucuras, chamemos-lhe assim, da tua ex-mulher comandem a tua vida! Nem a do teu filho!

E se ele me odiar porque o afastei da Mãe? pergunta o Pedro e a Beatriz abana a cabeça, e que papel tem tido ela na vida do filho até agora? repete.

As tias é que tem um papel preponderante na vida do Miguel, continua, ele tem uma vida quase normal porque as tuas irmãs são pessoas incríveis e o acolheram na família delas. É disso que o Miguel se vai lembrar!

O que é que eu faria sem ti? diz o Pedro e a Beatriz sorri, podias dizer à tua filha para não me dar tantos pontapés!

Como é que sabes que é uma rapariga? e a companheira sorri, não sei, é um palpite!

No dia seguinte, o Pedro telefona aos sogros, estes ficam inquietos quando sabem o teor da conversa que ele teve com a Laura.

Meu Deus! Pensei que íamos ter paz! observa a Mãe, e a Laura já está a fazer um rebuliço!

Tem calma, protesta o marido, vem cá almoçar no domingo, Pedro, temos que conversar. Talvez seja melhor o Miguel ficar com a tua companheira... Gostaria de a conhecer melhor, mas esta é uma conversa muito delicada e não convém estar no mesmo sítio que a Laura!

A Beatriz compreende perfeitamente, apressa-se o Pedro a dizer e telefona à Teresa, não quer deixar a companheira sozinha, afinal, faltam três semanas para o parto.

CONTINUA

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

A NOVA LOUCURA DA LAURA

 

A Laura está diferente. Está mais magra, o corte de cabelo é moderno e resolveu adoptar o estilo da cunhada Teresa, boémio mas chique.

O Pedro ficou surpreendido quando ela ligou e pediu para se encontrarem.

Podes vir cá a casa, diz, vês o Miguel, conheces a Beatriz, mas a Laura recusa.

Então, o que se passa? pergunta o Pedro quando o empregado se afasta e a Laura sorri.

Quero falar sobre o Miguel, responde, quero passar mais tempo com ele, se possível, até partilhar a custódia.

Calma! aconselha o Pedro, temos que discutir o assunto com calma, há muitos pormenores a esclarecer.

Não há nada a esclarecer! comenta a Laura, estou melhor e quero estar com o meu filho! Ou vais negar-me isso?

Não, não vou negar nada! observa o Pedro, mas não basta chegar aqui, quero ver o meu filho e quero vê-lo já, não funciona! Quero saber o que o teu médico pensa acerca do assunto.

O meu médico é um idiota, interrompe a Laura, e os meus Pais também! Acham que sou incapaz de tomar conta de um miúdo!

Um miúdo sobre o qual não sabes absolutamente nada, que não te conhece, que não confia em ti, esclarece o Pedro.

Ora, aprende a conhecer-me, insiste a Laura, ele é um miúdo, não tem voto na matéria!

Vejo que ainda não aprendeste a refrear a tua agressividade! e o Pedro fica muito sério, não vês o Miguel até eu falar com o teu médico e com os teus Pais.

Mas, Pedro, isso é um ABSURDO! grita a Laura e toda a gente no restaurante olha-a fixamente, quem é esta malcriada? o Pedro quase que adivinha o pensamento.

O empregado aproxima-se com os pratos, o Pedro perdeu o apetite, pede desculpa e levanta-se.

A Laura está furiosa, mas continua sentada e faz sinal ao empregado, ela vai almoçar!

O Pedro saí do restaurante, telefona à Beatriz, mas ela deve estar numa consulta e não o atende.

Por isso, vai até ao escritório do António, precisa de desabafar.

CONTINUA

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

A CONVERSA FIM

 

Mais tarde, todos comentam que o motivo para o divórcio é pouco convincente, pois sempre pareceram se felizes juntos.

Mas a Luísa tem medo, não quer assistir à derrota, explica, o que enfurece o Gustavo, pois "esperava maior apoio por parte de alguém que aceitou compartilhar a minha vida".

A discussão é acesa por causa da guarda do Tobias, mas o juiz não aceita as alegações da Luísa e a custódia é partilhada.

Abrem, finalmente a empresa, a Rita e o Gonçalo encarregam-se da publicidade, o Bernardo já tem dois clientes interessados e os dois amigos empenham-se ao máximo.

Claro que não é fácil, às vezes, o Gustavo sente-se desanimado, pensa constantemente se terá sido a melhor opção, mas a Rita continua a incentivá-lo, estas coisas demoram tempo, diz.

Até ao dia em que um antigo colega os contacta, a empresa dele precisa de ajuda na reestruturação de um departamento.

Estamos a ter prejuízo, explica, não há coerência, não há diálogo e há pessoas que pedem transferência para outros departamentos, pois simplesmente não encontram ordem.

Os dois amigos aceitam o projecto, o Bernardo passa um mês a estudar o departamento e trabalha como um louco para apresentar as conclusões finais.

Entretanto, há outra empresa que os contacta, a recomendação foi feita pela Rita e como o Bernardo está  ocupado, é o Gustavo quem se encarrega do assunto.

No final do dia, discute o projecto com o Bernardo, estudam a melhor forma de reorganizar e o Gustavo  confessa que agora sim, sente que a firma está a " levantar voo".

O Bernardo ri, mas ainda falta alguns metros de pista, brinca e o Gustavo ri, descontraído como há muito o amigo não via.

É então que o Gustavo decide ir passar o fim de semana fora, mereço um descanso fora daqui, concluí e ele e o Tobias partem para uma aventura.

É com surpresa que encontra a Luísa no Hotel, está com uns amigos, não sabia que vias, e a ex-mulher sorri, queres juntar-te ao nosso grupo?

Mas o Gustavo recusa, quer passar tempo sozinho com o filho, mas nesse noite, depois de deitar o Tobias, alguém bate à porta.

É a Luísa, quer conversar com ele e o Gustavo olha-a surpreendido, neste momento, não está com muita paciência para aturar as loucuras dela.

Espera que ela fale e não quer acreditar quando a ex-mulher pergunta se podem reatar.

Reatar o quê? Depois de tantas discussões, tantas acusações? mas deixa-a falar.

Mas já sabe a resposta.

FIM


quarta-feira, 11 de agosto de 2021

A CONVERSA PARTE V

 

O Gonçalo e o Bernardo ficam calados, embaraçados pela discussão e a Rita decide intervir, vocês acabam de jantar e discutir o que há a discutir, diz, eu e a Luísa vamos conversar para a cozinha.

Na cozinha, a Luísa desabafa, que tem medo que as coisas corram mal, que a situação da empresa dela é delicada, é possível que haja despedimentos colectivos, acrescenta, o que vamos fazer com uma casa a pagar e um bebé?

Viver, não estão sozinhos no Mundo! observa a Rita, começa tu também a procurar um novo emprego. Quanto ao Gustavo, é hora de arriscar; serás mais feliz se o deixares ir atrás do sonho dele do que viver com um homem frustrado! O vosso casamento ainda acaba em divórcio!

Mas, se não resultar? insiste a Luísa, não sou tão optimista como tu, Rita, tenho medo!

Todos temos medo, continua a Rita, não foi fácil para mim e para o Gonçalo, trabalhamos e muito para conseguir chegar até aqui! Há muita coisa a fazer antes de dar o passo final, sei que é assustador, repete, mas tens que o apoiar!

A Luísa não está totalmente convencida, a Rita suspira, aqueles dois não vão durar muito, confessa ao Gonçalo, ela está apavorada!

Mas o Gustavo está todo entusiasmado, há muito tempo que não o vejo assim tão activo, tão interessado, comenta o Gonçalo, a ideia é muito boa, o Bernardo diz que uma ou duas empresas já o contactaram sobre esse tipo de coaching, formação.

O Major também fica entusiasmado com a ideia, tenho algum dinheiro que te posso emprestar, esclarece.

O Bernardo fica admirado, e a Glória? O que é que a Glória pensa disso? oh, a Glória vai entender, o Major é vago sobre o assunto, não te vou emprestar todas as minhas poupanças, terás que pedir o resto ao banco.

Eu e o Gustavo ainda estamos a fazer os estudos preliminares, explica o Bernardo, há ainda muitos detalhes a debater!

Os Pais do Gustavo também têm as suas reservas, mas se ele não está feliz... e a Madalena suspira.

A Aída fica apreensiva, tens a certeza que é isso que queres, filho? e quando o Bernardo afirma uma vez mais que é o que quer fazer, a Aída não diz mais nada.

Como o Bernardo diz, há muita coisa a esclarecer e passam os meses seguintes a tratar de assuntos burocráticos, como pedir a demissão das empresas respectivas, negociar com os bancos, encontrar o escritório, etc.

Naquela tarde, assinam a escritura do escritório, planeiam abrir dentro de dois meses e o Gustavo chega a casa, cansado, mas extremamente feliz.

Encontra a Luísa sentada na sala, muito séria. O Tobias já deve estar a dormir, pensa o Gustavo, olá, sê um anjo e arranja-me uma bebida.

Mas a Luísa permanece sentada e declara, quero o divórcio!

CONTINUA

terça-feira, 10 de agosto de 2021

A CONVERSA PARTE IV

 

A irmã do Bernardo nasce de madrugada, é um alívio para o Pai e para o irmão.

Há agora um grande problema, porque o Pai gosta de Sofia e a Aída prefere Madalena.

És tu quem vai decidir, diz o Pai enquanto tomam o pequeno almoço numa confeitaria perto do Hospital, eu e a tua Mãe não estamos de acordo.

O Bernardo ri-se, só tenho duas opções, comenta, ou fica Sofia Madalena ou escolho um nome completamente diferente. Que tal Mafalda?

A Mafalda e a Mãe regressam a casa uns dias depois e a confusão é tanta que o Bernardo nem tem tempo para falar com o Gustavo sobre a ideia de abrirem uma empresa juntos.

Mas o Gustavo tem pensado, não está nada satisfeito com o trabalho que está a desenvolver na empresa, o que foi discutido na entrevista de admissão está sempre a ser adiado e ele sente-se encurralado.

Por isso, telefona à tia, podem reunir-se um dia destes? Eu e o Bernardo temos um projecto e gostaríamos de falar convosco, explica.

A Rita fica curiosa, venham cá jantar, tu, o Bernardo e a Luísa. Eu arranjo uma baby sitter para as crianças, convida.

Mas não te deu uma dica? pergunta o Gonçalo, o que é que se passa? e a Rita encolhe os ombros, saberemos quando eles chegarem.

Os três chegam ao mesmo tempo, a Rita apercebe-se que a Luísa está zangada.

Leva-a até ao quarto da Francisca, a baby sitter já lá está, deixam os bebés sentados no chão a brincarem.

Passa-se alguma coisa? mas a Luísa nem responde e volta para a sala, onde os três homens já estão a conversar.

Oh, Rita, tens que ouvir isto, diz o Gonçalo, estes dois malucos tiveram uma ideia muito boa!

Eu tenho a dizer que não concordo em absoluto! interrompe a Luísa, é uma ideia muito arriscada, pode dar para torto e ficam com o nome sujo na praça!

Também posso ficar com o nome sujo se a empresa onde trabalho entrar em insolvência, por exemplo, contesta o Gustavo, cansado de ouvir os mesmos argumentos.

Mas é diferente! repete a Luísa e a Rita decide intervir, expliquem-me o que se passa, sem interrupções, frisa, depois discutimos ponto por ponto.

O Bernardo expõe a ideia, o Gustavo acrescenta outros detalhes que lhe parecem ser relevantes e a Rita e o Gonçalo escutam atentamente.

Não vou negar, responde a Rita, não vai ser fácil e vão ter que se empenhar a fundo, mas é uma boa ideia!

Ás vezes, as campanhas publicitárias não resultam, porque as pessoas ou não recebem formação para as desenvolver ou não lhes é reconhecido o esforço e partem para outra aventura, concorda o Gonçalo, se é isso que oferecem...concordo com a Rita. 

Mas nós tivemos um bebé há pouco, protesta a Luísa, não é a altura ideal para explorar ideias novas!

E eu já te expliquei que me sinto estagnado naquela empresa, observa o Gustavo, não vou ficar preso a um trabalho de que não gosto por causa do meu filho. Acho que ele me respeitará mais se souber que tive coragem de arriscar e fazer qualquer coisa da vida!


CONTINUA


segunda-feira, 9 de agosto de 2021

A CONVERSA PARTE III

 

O que queres dizer? questiona o Gustavo, curioso e o Bernardo suspira, faz sinal que se vai servir de mais café.

Gosto de pegar, digamos assim, num departamento, numa secção, reorganizar, definir prioridades, objectivos, treinar as pessoas para que tudo funcione como uma Máquina bem oleada e depois sair, explica o Bernardo, repetir o processo noutra empresa.

O Gustavo fica pensativo, é uma ideia interessante, gostas de ser consultor? Estudas a empresa, os problemas com que se debate e encontras uma solução?

Sim, tenho pensado em abrir uma empresa de consultadoria e fazer o que descreveste, confirma o Bernardo, só não tenho capital suficiente e preciso de um sócio.

Estás a pensar em mim? interrompe o Gustavo, oh, pá, eu também não tenho dinheiro e fui pai há pouco tempo. Tenho outras coisas a considerar! afirma.

Eu sei, diz o Bernardo, mas podes pensar no assunto? Claro que temos muito que considerar, acho que uma das primeiras coisas a fazer é falar com a Rita e o Gonçalo. Eles arriscaram, abriram a sua própria empresa...

Mas é um grande risco, contradiz o Gustavo, eu não trabalho propriamente na área, mas podes assegurar a parte prática do negócio, clientes, fornecedores, contabilidade, etc, esclarece o amigo.

O Gustavo suspira, é uma proposta aliciante e ele estava a considerar a hipótese de sair daquela empresa, sente que está um pouco estagnado, está na altura de abraçar um novo desafio e porque não este?

Tenho que falar com a Luísa, observa, não é uma decisão que se tome levianamente.

Claro, claro, concorda o Bernardo, não é amanhã que vamos abrir a empresa, temos que estabelecer um plano, fazer uma pesquisa de mercado...

O telemóvel dele toca nesse momento, é o meu Pai, murmura, sim? é agora? tens a certeza que é agora? e o Bernardo fica tão nervoso que derruba a cadeira ao levantar-se.

O Gustavo ri-se, a mulher e a Mãe entram nesse momento na cozinha, a Aída vai ter o bebé, anunciam, é melhor ires com ele, aconselha a Luísa, ele está muito nervoso.

O Gustavo continua a rir-se, o Bernardo parece que não sabe onde é a porta da rua, abre a da despensa.

É melhor eu guiar, diz o Gustavo e o Bernardo entrega-lhe a chave.

No hall do Hospital, o Pai passeia de um lado para o outro, está a enervar as outras pessoas e o filho arrasta-o para a rua.

O que é que disseram? insiste o Bernardo, mas o Pai não consegue falar.

Oh, Pai, até parece que é o teu primeiro filho! protesta o filho, há mais de vinte anos que não penso em fraldas, vacinas, noites mal dormidas, pediatra, estou cheio de medo! comenta o Pai.

O Gustavo volta a rir-se, acho que é como andar de bicicleta, mas o senhor abana a cabeça, há certos truques que não se esquecem, mas cada bebé é diferente!

CONTINUA

domingo, 8 de agosto de 2021

A CONVERSA PARTE II

 

O Pai do Tobias também não fica satisfeito quando a Mãe entra na sala e o chama baixinho.

Já não está a dormir, está apenas confortável com os olhos fechados, a gozar o silêncio.

Às vezes, o Tobias parece ter prazer em os deixar acordados a noite inteira, já tentaram deixá-lo gritar, se ninguém aparecer, ele cala-se, sugeriu o Gustavo, mas o Tobias ainda gritou mais alto e só sossegou quando a Luísa voltou a entrar no quarto.

Mas o que é que o Bernardo quer? protesta quando saí para o corredor, oh, filho, não sei, responde a Mãe, parece estar muito agitado, vai conversar com ele.

No quarto da Clarinha, o Bernardo organizou um jogo, o Tobias está a rir-se feliz e a Clarinha já não tem aquele ar de amuada que irrita os irmãos.

O Bernardo faz sinal de STOP quando vê o Gustavo entrar e levanta-se.

Oh, pá, desculpa incomodar-te num domingo, mas preciso de falar contigo, explica, não há problema, vamos conversar para a cozinha, comenta, a Luísa está a dormir na sala.

Não é justo, declara a Clarinha, mas o irmão manda-a calar, o que provoca uma cena de gritos que acordam a Luísa.

Os dois homens fecham a porta da cozinha, instalam-se à mesa, o Gustavo oferece-lhe um café.

O que se passa? pergunta o Gustavo, olhando o Bernardo atentamente, a Mãe tem razão, o amigo está agitado, irritadiço.

Sabes aquele projecto de que te falei? o Gustavo faz um gesto de concordância e o Bernardo continua, sempre vai avante, mas não comigo. Fizeram a proposta a outro colega, um tipo que só lá está há dois anos! Se calhar, é porque namora com a filha do Dr Meireles.

Tem calma! aconselha o Gustavo, não tens a certeza disso! O que é que eles te disseram exactamente?

Que o trabalho que ele está a desenvolver é importante para empresa, que necessitam dele naquele posto para organizar e coordenar novos projectos que serão distribuídos pelas sucursais, conta o Bernardo, que lhe vão dar um aumento e um carro da empresa.

O Gustavo abre a boca de espanto, não entende qual é a dúvida do amigo, oh, pá, quem me dera que a minha empresa me fizesse uma proposta dessas! observa.

O Bernardo suspira, encosta-se melhor e admite que é uma boa proposta, mas não sei se é isso que quero verdadeiramente! confessa.

CONTINUA


sexta-feira, 6 de agosto de 2021

A CONVERSA


A Luísa e o Gustavo não sabem como a Clarinha consegue acalmar o Tobias.

Os dois adoram-se, é visível, o Tobias fica positivamente louco quando vê a Clarinha e esta, sempre tão inquieta e rebelde, passa horas a brincar com ele.

A Madalena ri-se, a Clarinha sente-se um pouco a mãe dele, ter um bebé a sério para cuidar enche-a de orgulho, diz.

Por isso, naquele domingo, depois do almoço, os dois rendem-se ao cansaço e adormecem.

A Clarinha instala-se com o Tobias no quarto e a Madalena também se senta lá.

Os dois estão sentados no chão, a Clarinha tenta explicar-lhe o jogo, mas o Tobias acha mais graça atirar as peças ao ar e ver onde elas caem.

Não é isso, Tobias, tens que as colocar aqui, protesta a Clarinha, mas o Tobias ri-se e atira a peça contra a parede mais próxima.

Oh, Clarinha, ele só tem seis meses, explica a Mãe, ele não entende o que são regras e afins. Organiza um espectáculo de circo com os peluches, mas a filha está já amuada.

Não, Clarinha, não vais ficar amuada, observa a Madalena, há mais jogos, escolhe um.

Tocam à campainha, quem será? murmura a Madalena, a Matilde levou a chave, só se o Bernardes se esqueceu da dele.

É possível, recebeu aquele telefonema urgente às seis da manhã e saiu disparado.

Mas não é o marido, é o Bernardo, um Bernardo muito cansado, muito desanimado.

Está tudo bem com a tua Mãe? pergunta a Madalena, ansiosa e o Bernardo sorri, não, está tudo bem. O médico acha que é esta semana, mas nunca se sabe, conta.

A Madalena sorri também, convida-o a entrar, o Gustavo está cá? pergunta, não atende o telemóvel e como é domingo, pensei que estivesse aqui.

Está, sim, está a dormir na sala, responde a Madalena, a Clarinha está com o Tobias no quarto dela, vai até lá enquanto eu vejo se aquele dorminhoco está a  acordar.

O Bernardo é recebido aos gritos, sempre foi um grande favorito da Clarinha e o Tobias assusta-se, começa a choramingar.

Então, campeão, o que é que aconteceu? e o Bernardo pega nele ao colo.

O Tobias observa-o atentamente, mas quem és tu afinal? e olha-o desconfiado.

CONTINUA

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

O REGRESSO FIM

 

Por isso, relaxa, continua o Major. prova que tens capacidade para desempenhares as funções que te propuseram. E, deixa a vida seguir o rumo... Não quero com isto dizer, acrescenta, que não lutes, que não sejas ambicioso, mas não sejas demasiado!

Nunca tinha analisado a situação desse prisma! confessa o Bernardo, tem toda a razão, é melhor esperar e ver o que acontece.

Ora bem, concorda o Major, agora que já discutimos este assunto, vamos passar ao próximo? Quero organizar um jogo de futebol com os miúdos. Os únicos que ficaram de fora são a Francisca e o filho do Gustavo. Eu sou o árbitro, tu e a Clarinha os fiscais de linha.

O Bernardo começa a rir-se, mas acaba por concordar e discutem todos os pormenores.

O jogo fica marcado para sábado, as famílias comparecem em peso e o Matias e o Edgar apresentam-se como massagista e enfermeiro respectivamente.

É um verdadeiro sucesso, o António fica orgulhoso do filho e a Sofia chora quando a bola lhe bate nas pernas.

Ao fim da tarde, voltam para casa exaustos e o Bernardo até cancela os planos que tinha com uns amigos.

O tempo passa, o Bernardo mostra ser um bom gestor e até concluí uns projectos arriscados.

Na empresa, ninguém fala sobre o novo projecto e o Bernardo confessa-se desapontado.

Para mim, até é bom, diz o Pai, a tua Mãe já tem muito com que se preocupar.

A Aída está na recta final da gravidez, emociona-se por tudo e por nada e o Pai sente-se um pouco perdido.

Se a contrario, desata a chorar, lamenta, comprou roupa para cinco bebés e passa horas ao telefone com a Rita e a Teresa.

Podes passar a noite lá em casa, convida o Bernardo, mas o Pai abana a cabeça, não a vou deixar sozinha! Isto passa!

No fim do mês seguinte, a Aída fica em casa, aproxima-se a data do parto e estão todos muito nervosos.

O Bernardo entra um pouco mais tarde naquela manhã, passaram parte da noite no Hospital, mas foi um falso alarme.

O Dr Meireles pediu para ir ao gabinete dele assim que chegasse, informa a secretária, disse porquê? pergunta o Bernardo.

Não disse, talvez seja por causa do novo projecto, responde e o Bernardo atravessa o corredor e bate à porta do gabinete do Dr Meireles.

Ah, entre, entre, Bernardo, o Dr Meireles respira felicidade, venha dar os parabéns ao Hugo, ele vai chefiar a nova sucursal...

O Bernardo fica estupefacto, sente-se gelado, mas o que é que aconteceu?

Estão a dar o lugar que lhe prometeram ao Hugo, um vaidoso arrogante, porquê? 

Cumprimenta o Hugo com um aperto de mão, este dá-lhe uma palmada nas costas e saí.

O Dr Meireles pede-lhe para sentar, mas o Bernardo está muito confuso e não sabe se quer ouvir.

Como lhe dirá o Major mais tarde, a vida tem estes desvios e temos que aprender a viver com eles.

FIM

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

O REGRESSO PARTE IV

 

Tão tarde, meu filho, queixa-se a Aída, tens que descansar um pouco, tens que te habituar a outros horários, a outro ritmo de vida, deviam ter dado uns dias de férias.

O Bernardo e o Pai riem-se e nesse fim de semana, o Bernardo decide ver uns apartamentos.

Encontra um interessante, num bairro novo. Não é muito longe do escritório e também fica relativamente perto da  casa Mãe.

A renda não é muito alta, a cozinha está toda equipada e por isso, o Bernardo assina o contrato.

A Aída fica um pouco contrariada, pensei que ficavas mais algum tempo connosco, diz e o Pai sussurra, não te preocupes, é das hormonas!

A irmã da Teresa, a Carolina, vai vender a casa da praia e deixa-o ir ver a mobília.

Talvez encontres alguma coisa que te agrade, não a vou vender com a casa, explica e o Bernardo passa lá o fim de semana a escolher móveis.

Fica com o sofá, o tapete e a mesa que estão na sala de estar, a mobília de um dos quartos e tem pena que a estante esteja embutida, porque ficaria muito bem na sala.

O Pai contrata uma empresa de mudanças e trata de tudo enquanto o Bernardo organiza o trabalho.

Está a chefiar o Departamento tal como lhe prometeram, mas sempre que fala no novo projecto, recebe uma resposta vaga.

Não sei quais são os planos dele, conta ao Gustavo, será que desistiram da ideia?

Não sei, ainda estão na fase de análise, sugere o Gustavo, estás a chefiar o Departamento tal como eles prometeram. Acho que te devias concentrar nisso por enquanto. Deixa as coisas rolarem!

O Bernardo não está muito convencido, o Pai acha que está a ser ambicioso demais, deram-te uma óptima oportunidade, aproveita-a! repete.

As mobílias escolhidas ficam muito bem na nova casa, todos aparecem para ver com um pequeno presente e o Major é bastante censurado por aparecer com cerveja e pizza.

Ainda não tivemos hipótese de conversar, justifica-se, por isso, hoje, vais falar comigo. A Glória e as miúdas estão com a Natália e o Nicolau; só tenho que as ir buscar às onze. Por isso, fala, tens qualquer coisa que te preocupa.

O Bernardo fica surpreendido, o Major conhece-o bem e por isso, deixam os outros sair para se instalarem confortavelmente no sofá.

O Major ouve-o atentamente, tanto o teu Pai como o Gustavo têm razão, repete, não acho bem que estejas sempre a abordar o assunto. Estas questões seguem o seu próprio rumo e tu estás a dar-lhe muita importância. Podem até pensar que não estás interessado no lugar que ocupas agora!

O Bernardo olha-o espantado, na verdade, não tinha pensado nisso!

CONTINUA