quinta-feira, 30 de agosto de 2018

CRISTINA - PARTE IV


" Sim, gananciosa e egoísta. Não, não digas nada; sabes que tenho razão. Mantiveste um casamento de fachada, negaste a realidade e a liberdade a alguém que poderia ter sido mais feliz." diz o meu filho.

" Mais feliz? Ora, Guilherme, o teu pai deixou-me e foi viver com a querida Helena. Muito boa fui eu por lho permitir." comento.

" Não sejas injusta. Ele estava pronto a concordar com todas as tuas condições, mas tu nem consideraste a proposta. Por isso, não fales mais do meu Pai. Vamos falar do que aconteceu agora e do que vais fazer daqui para a frente. Não queres voltar para aquela casa? " pergunta o meu filho, muito sério.

" Não, quero mudar de ares, conhecer outras pessoas. Viajar... "

" Como se aquelas senhoras o impedissem..." observa o Guilherme " Mas, ok, aceito. Podemos vender a casa e procurar outra noutra zona. Era muito mais simples se tivesses discutido o assunto comigo em vez de armares toda esta confusão."

" Ias dizer que tinha enlouquecido!" confesso " E a tua irmã nem sequer me escutaria."

" Talvez porque tu nunca a escutaste. " interrompe o Guilherme " Sabes que foi promovida? Está muito feliz. Tem horário livre; pode organizar-se de outra maneira."

" Não, não me disse nada. Ainda bem; talvez dê mais atenção aos filhos." digo.

" Lá estás tu a ser injusta! O Rui e a Catarina são educados, disciplinados e é normal dar um pouco de liberdade para se exprimirem. Queremos que eles pensem, compreendam o certo e o errado, etc. É o que eu faço com os gémeos e tu achas piada." contrapõe o Guilherme.

Não respondo... Ainda me acusa de fazer distinção entre os netos. 


CONTINUA

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

CRISTINA - PARTE III


" Como é que me descobriste? " pergunto.

" Sou advogado e conheço pessoas. Depois, deixaste pistas com as transferências. O que querias fazer exactamente? " responde o meu filho.

" Fazer exactamente? O que queres dizer?"

" Não sejas ingênua. Conheço-te muito bem; sou teu filho. Se querias desaparecer realmente, fazias as coisas de outra maneira. Por isso, o que queres verdadeiramente? " repete.

" Nada de especial. Queria sair daquele prédio, ficar longe daquelas velhas." explico.

" Ter um affair com o porteiro, encenar aqueles roubos e escrever aquele bilhete maldoso foi a atitude correcta? " observa o Guilherme e dispara " Elas sabem alguma coisa sobre o caso do Pai com a Helena ou sobre os teus? "

" Os meus quê? " e desvio os olhos. O meu coração está acelerado e a mente só grita: " Ele sabe."

" Oh, Mãe, tiveste um caso com o motorista da empresa, com o contabilista. Discretamente, claro, mas quando se tornaram arrogantes, tivemos que os despedir para a honra da família ficar limpa." ironiza o meu filho, seguro de si.

" Ora, Guilherme, o teu pai era um idiota e expôs-me ao ridículo. E dava-se muito bem com os maridos da Maria Rosa e da Maria Luisa." 

" Foi, então vingança? Porque é que não aceitaste o divórcio quando o Pai falou no assunto? Por muitos defeitos que tivesse, era um homem justo e não te deixaria mal." argumenta o Guilherme.

Tem uma certa razão. Mas quis que ele sofresse... 

" Não sei qual dos dois foi o mais infeliz." continua o meu filho " Se ele por assumir o caso com a Helena e sair de casa definitivamente ou se tu por seres gananciosa."

Quase me falta o ar.

" GANANCIOSA?" grito.



CONTINUA

terça-feira, 28 de agosto de 2018

CRISTINA - PARTE II


Talvez isto resultasse, se eu não tivesse feito as transferências e o meu filho não fosse tão desconfiado.

Aquele rapaz sempre leu demais... disse-lhe que gozasse mais a vida, mas ele tinha um plano e segue-o.

Deve ter achado estranho o meu " desaparecimento ", deve ter ido até a minha casa e verificado tudo.

Pode ter encontrado os cartões do outro banco, os extratos e feito as contas.

Ele conhece-me, sabe que gosto de um certo conforto.

Foi essa a razão porque fingi que não vi o longo affair que o Pai teve com a secretária e não assinei o divórcio.

Após o funeral, insinuei que talvez fosse melhor afastá-la e não sei se foi por isso que o meu filho lhe fez uma proposta que ela aceitou.

Livrei-me de uma situação desagradável... A outra foi mais complicada e demorou mais.

Não quero pensar nas viúvas patéticas... Vou ver um apartamento hoje numa zona mais sossegada e chique.

Abro a porta e deparo-me com o meu filho.

Sorri, mas vejo frieza no olhar.

" Olá, Mãe. Vamos conversar? Lá dentro talvez?" e entra.

Fico sem saber o que dizer.


CONTINUA









segunda-feira, 27 de agosto de 2018

CRISTINA


Claro que a relação com o Zé Manel não ia durar.

Estava ciente disso... mas isto foi um jogo que me fez sentir viva...

Portanto, não fiquei surpreendida quando cheguei a casa e não o encontrei. 

E os 10.000 EUR que tinha guardado numa gaveta.

Abri uma garrafa de vinho e ri-me. 

Se pensa que me deixou na penúria e estou agora desesperada, engana-se.

Pensei no assunto e tomei todas as precauções. 

Ao abandonar o prédio das viúvas, abandonei toda uma outra vida - filhos e netos que já devem saber o que aconteceu.

Tenho a certeza absoluta de que eles vão "congelar" as contas; por isso, abri uma outra conta num outro banco e todos os meses, transferi algum dinheiro.

Por isso, instalar-me numa outra cidade foi fácil.

Encontrar uma outra vida é o próximo passo. 

Mas o que quero é que seja diferente da vida que tinha naquela prédio.

Regras para tudo: como arrumar a casa, como vestir, como receber... ufa, quero gozar a vida enquanto posso e não quero que ninguém me diga como...


CONTINUA

sábado, 25 de agosto de 2018

AS VIÚVAS - O FIM


A D.Maria Rosa abre com cuidado.

Lá dentro, estão os objectos que " desapareceram" e as senhoras ficam estupefactas.

" O que significa isto? " diz D.Maria Luisa, dando voz ao que as outras pensam.

" Há aqui uma carta!" exclama o Pedro e entrega-a à avó.

D.Liliana procura os óculos, não os encontra e com um gesto irritado, dá-a à D.Madalena.

Esta abre o envelope, lê as primeiras linhas e dá um pequeno grito. 

" O que foi?" pergunta a D.Maria Rosa, preocupada.

" Ouçam o que aquela bandida diz." e começa a ler.

" Suas velhas patetas

Foi tão fácil, tão fácil enganar-vos. A todas com as suas regras de conduta e moralidade...
Tão cheias de certezas, tão prontas a criticar.  Estava farta de vos ouvir e foi uma benção termos contratado o Zé Manel. 
Ele entende-me e quando a Madalena o repreendeu por ter deixado subir o técnico da TV, achei que vos devia castigar.
Por isso, concebi todo este esquema de fazer desaparecer as vossas preciosidades que, devo dizer, não quero para nada. Só queria ver até onde a estupidez vos levava.
Por isso, aqui estou a devolver o que tiramos das vossas casas. Se não fosse a ideia do Gonçalo, levaríamos isto um pouco mais longe, mas é melhor parar agora.
Fiquem bem, suas velhas patéticas.
Cristina
"

" Velha patética! Ah, sua malcriada que não sei o que te faço!" grita a D.Liliana.

" O que vais fazer?" questiona a D.Madalena, assustada com a reacção.

Nem a D.Maria Rosa nem a D.Maria Luisa falam e isso preocupa mais a D.Madalena.

" O que é que vocês acham?" e a D.Maria Luisa suspira.

" Talvez ela tenha razão e sejamos realmente umas velhas patéticas!" responde e a discussão acende-se.

O Gonçalo e o Pedro vão para um dos quartos jogar com os telemóveis e a D.Alice percebe que está a mais.

Retira-se discretamente e bate suavemente com a porta de serviço.

Ainda não terminou o trabalho e perdeu uns minutos preciosos.

Coisa estranha o que se passou, não sabe bem porquê, mas a D.Cristina não lhe inspirava confiança.

Bem, não é nada com ela. E, pensando bem, não quer saber se são ou não velhas patéticas.

O que ela quer é receber o dinheiro pelo trabalho bem feito.


FIM



sexta-feira, 24 de agosto de 2018

AS VIÚVAS - PARTE VII


" O que queres dizer?" insiste a D.Madalena.

" É uma ideia louca, mas não será a Cristina a cúmplice do Zé Manel?" sugere a D.Maria Luisa.

" A Cristina tem acesso às nossas casas; entra e saí quando lhe apetece." concorda a D.Liliana.

" Sim, noutro dia esteve lá em casa a ajudar-me com uma nova receita." diz a D.Maria Rosa.

" Se assim for, ela ficou a saber dos nossos planos e avisou o Zé Manel. Que falsa!" conclui a D.Madalena.

" É fácil! Como tem livre acesso às nossas casas, pode ter assinalado o que era valioso e dito ao Zé Manel. Quando nos entrega o correio ou outra coisa, este aproveita o estarmos ao telefone ou a cortar vegetais ou preparar carne para levar os objectos." remata a D.Liliana.

Nesse momento, tocam à campainha e todos se sobressaltam.

O Gonçalo apressa a abrir a porta e após uma breve troca de palavras, aparece na sala com a D.Alice, a senhora que limpa o prédio.

Esta traz um embrulho nos braços que pousa cuidadosamente na mesa.

" Isto estava no patamar. Não quis abrir e trouxe-o para as senhoras verem." anuncia.

CONTINUA



quinta-feira, 23 de agosto de 2018

AS VIÚVAS - PARTE VI


Em casa da D.Maria Rosa, as senhoras mostram o video à D.Liliana.

Esta também não sabe o que dizer e concorda com a vizinha.

Pode ter sido outra pessoa, mas, como a D.Madalena sugere, não terá o Zé Manel um cúmplice?

Um cúmplice? repete a D.Maria Luisa, nada convencida e acha que estão todas a exagerar.

Se calhar, arrumou as taças noutro sítio, o dinheiro ficou esquecido numa carteira e a nota de 5 Eur " voou"  quando se abriu a porta.

" Não, temos que descobrir o que se passa." diz a D.Maria Rosa " Por falar nisso, onde está a Cristina? Ela também devia estar aqui."

" Aos beijos com o Zé Manuel!" responde maliciosamente o Gonçalo e o Pedro confirma com um aceno.

" Oh, rapaz, que estás tu a dizer?" pergunta a D.Liliana.

O Gonçalo procura o video e estende-lhe o telemóvel.

A senhora dá um grito e as outras aproximam-se para ver também.

" Quando foi isto, Gonçalo? Onde? " e os dois rapazes apressam-se a contar a história toda.

" Vou já lá cima e pedir-lhe para se explicar.!" anuncia a D.Madalena.

" Não." contraria a D.Maria Luisa " Vamos rever a situação antes de falarmos com ela."

CONTINUA

terça-feira, 21 de agosto de 2018

AS VIÚVAS - PARTE V


As senhoras ficam confusas quando vêem os videos.

O Zé Manel não tocou em nada.  E o dinheiro estava bem visível..

" Mas onde está a nota de 5 Eur? " questiona a D.Madalena " Não estou maluca; ainda sei o que faço."

" Eu deixei a carteira no balcão aberta e fiz questão de acompanhar o rapaz que me entregou as compras à porta. O Zé Manel ficou atrás de mim, teria tempo para tirar uns trocos e não fez nada!" comentou a Maria Luisa.

" Se calhar, é outra pessoa!" diz a Maria Rosa.

Entretanto, o Gonçalo e o Pedro resolvem ir ver como a operação está a decorrer.

Param quando vêem a D.Cristina e o Zé Manel num café modesto numa rua lateral.

O Gonçalo interroga o Pedro com o olhar e, sem dizerem uma palavra, atravessam para o outro lado para que não os vejam.

O Gonçalo começa a filmar. Não sabe porquê, mas isto é importante.

Abrem a boca de espanto quando o Zé Manel se inclina e beija a D.Cristina nos lábios.

" Que diabo é isto?" diz baixinho o Pedro " São amantes ou quê?"

Gonçalo empurra-o para dentro de uma tabacaria e pelo vidro, assistem às despedidas calorosas do porteiro e da avó dos gémeos.


CONTINUA


sábado, 18 de agosto de 2018

AS VIÚVAS - PARTE IV


Para grande desespero dos gémeos, só a D.Cristina é que tem dificuldades em perceber o funcionamento do telemóvel.

As outras senhoras acham divertido e no domingo à noite, a D.Madalena já domina a técnica.

Por isso, quando o Zé Manel lhe diz pelo intercomunicador que tem correio, ela monta a " armadilha".

Como os netos a aconselharem, esconde o telemóvel num sítio estratégico, coloca uma nota de 5 Eur e algumas moedas de 1 Eur na "tacinha dos trocos" como o Pedro diz e finge estar ocupada na despensa.

" Olá, bom dia. Pode entrar, Sr Zé Manel! A porta está aberta." convida e sente o porteiro entrar.

" Bom dia, D.Madalena. Trouxe-lhe o correio. Vou deixar em cima da bancada, ok? " responde o porteiro. " Precisa de mais alguma coisa? " pergunta e D.Madalena acha que deve voltar para a cozinha.

O Zé Manel está encostado à bancada, o correio organizado pelo tamanho dos envelopes e a " tacinha dos trocos" no sítio onde a deixou.

" Não, obrigada, Sr Zé Manel. Bom dia." o porteiro sorri, dá meia volta e saí, fechando a porta de serviço cuidadosamente.

D.Madalena espera um minuto ou dois antes de olhar para a " tacinha".

As moedas de 1 Eur estão lá, mas a nota desapareceu.

Tira o telemóvel do esconderijo, desliga-o e respirando fundo, desce até casa da D.Maria Rosa.

A Maria Luisa deve estar lá. Quanto à Liliana, sabe que foi ao médico, mas falam com ela depois.


CONTINUA

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

AS VIÚVAS - PARTE III


" Olá, Gonçalo, entra, entra. Estás enorme, rapaz." cumprimenta a D.Liliana " Levo-te já um copo de leite. Serve-te do que quiseres. Tens bolo de chocolate, arrufadas, pão."

E o Gonçalo, depois de cumprimentar as senhoras, aceita uma grande fatia de bolo.

As senhoras continuam a discutir o assunto. O Gonçalo estará mais interessado em saborear uma segunda fatia de bolo do que no possível envolvimento do porteiro nos roubos.

Mas o Gonçalo está a prestar atenção e surpreende-as quando sugere:

" E se instalassem uma webcam? "

" Não sei o que isso é." confessa a D.Cristina.

A D.Madalena fica interessada, mas a D.Maria Luisa está céptica.

" Oh, Gonçalo, não sabemos muito bem como isso funciona." diz.

" É fácil..." explica o rapaz " Tem que estar ligada a um computador, mas eu posso deixar cá o meu antigo. Ou então... " faz uma pequena pausa, pega no telemóvel e mostra às senhoras a câmara " Isto também faz videos. É uma questão de a colocar num ponto estratégico, onde ele não a veja."

" Oh, meu filho." interrompe a avó " Não temos esses telemóveis XPTO, não sabemos como funcionam."

A resposta não tarda:

" Eu falo com o Pedro, a Beatriz, os gémeos, a Catarina e a Madalena. Eles ajudam." as senhoras sorriem ao ouvir os nomes dos netos.

Afinal de contas, brincaram todos juntos.

O filho da D.Maria Luisa censura-a levemente quando sabe do caso.

" Devia ter-me ligado. Se é realmente esse homem o culpado, não é a pessoa certa para estar aí."

" Mas não temos a certeza, meu filho. Não vamos acusar um homem inocente!" contrapõe a D.Maria Luisa.

No sábado seguinte, a operação " Avós" entra em movimento.

Se o Zé Manel ficou surpreendido com a chegada de toda aquele gente, não disse nada.


CONTINUA 

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

AS VIÚVAS - PARTE II


As senhoras reúnem-se para o chá em casa da Liliana.

Estão espantadas pelos acontecimentos e passam em revista todas as pessoas que entram no prédio.

As senhoras que fazem a limpeza? 

" Que horror! A minha está comigo há mais de 10 anos... Tenho plena confiança nela!" diz a D. Madalena do 4º Andar.

A senhora que faz a limpeza do prédio?

" Nunca entra nas casas. Tem tudo o que precisa na cave e se precisar de água, há uma torneira em cada patamar." explica a D.Cristina do 5º.

Os que entregam as compras? Os da electricidade? Da água?

A Maria Rosa tosse discretamente e todas olham para ela.

" Só se for o Zé Manel..."

" O Zé Manel, porteiro? " exclama a D. Liliana.

" Sim, é o único que tem livre acesso às casas. Entrega-nos o correio, acompanha os senhores da água e da luz e os das compras. Às vezes, leva-nos o lixo." explica a Maria Rosa.

" Pois... Ele entra livremente nas nossas casas. Ainda noutro dia lhe pedi para... Ah, meu Deus... " lembra a Maria Luisa " Pedi-lhe para arranjar o fecho de um dos armários na despesa... O saleiro e as taças estavam na despensa..." explica.

Faz-se silêncio, interrompido pelo toque estridente da campainha.

Era o Gonçalo, o neto da Maria Rosa que, ao passar pela porta, pensou que a avó não se importaria de lhe preparar um delicioso lanche.

Como ela não estava, não esteve com meias medidas e tocou em todos os andares.

CONTINUA

terça-feira, 14 de agosto de 2018

AS VIÚVAS


O silêncio era absoluto.

Tanto que, se não fosse a entrada limpa duas vezes por semana e o porteiro aparecer para receber o correio, pensar-se-ia que ninguém morava lá.

" Diz o Zé Manel... " confidencia o porteiro do prédio ao lado à senhora do quiosque " que são todas viúvas. Não há lá homens!"

" Coitadas! " lamenta a D. Beatriz " Deve ser uma vida bem solitária."

" O Zé Manel diz que os filhos e os netos aparecem por lá e elas estão sempre em casa umas das outras a tomar chá." declara o Sr Esteves.

" Ainda bem que fazem alguma coisa!" concluí a D. Beatriz.

Nesse momento, a D. Maria Luisa do 1º Andar bate à porta da D.Maria Rosa no 2º.

" Oh, Maria Rosa, tu vais desculpar-me, mas já me devolveste as taças de aperitivos de prata que te emprestei noutro dia?"

" Sim, sim, Maria Luisa. Até fiquei para tomar chá contigo; deixei-as em cima da bancada da cozinha." confirma a Maria Rosa. " Porquê?"

" Falta-me uma. Guardo-as sempre no mesmo lugar e hoje, resolvi limpar o pó na despensa. Abri a caixa e só lá estão 5!" desabafa a vizinha " E também me falta um saleiro!"

" Ah! " exclama a Maria Rosa " É melhor entrares; é que estão a desaparecer coisas e até pensei que fosse exagero da Liliana, mas a Sofia queixou-se de que lhe desapareceu dinheiro e agora és tu."

" Alguém entrou nas nossas casas? " Maria Luisa fica assustada " Por onde? "

" Alguém com acesso às nossas cozinhas. É que a Sofia disse que deu uma gorjeta ao rapaz do talho e deixou a carteira na bancada."

" Terá sido o rapaz do talho?" admira-se a Maria Luisa.

CONTINUA

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

MATEUS - O FINAL


Ao despedir-se, Laura entrega-lhe um papel com um número de telefone.

" Eles ajudam-te." e vai-se embora.

Mateus olha para o número e sente uma vontade louca de beber.

Até deita o gin no copo, mas as palavras da irmã não lhe saem da cabeça.

Liga, a voz do outro lado é paciente, ouve-o e no dia seguinte, Mateus vai até à reunião.

Tem um longo trabalho à frente, mas Laura está lá para o ajudar e o Carlos e a Raquel convidam-no a passar o fim de semana com eles na casa da praia.

Mateus leva os filhos com o consentimento da Margarida. 

Ela continua a dizer que não está preparada para falar com ele.

Apesar dos progressos... 

Carlos dá-lhe o nome de uma empresa que poderá estar interessada nos serviços dele como director de marketing.

A empresa quer mudar de imagem, de estratégia comercial e é uma boa oportunidade do Mateus ingressar novamente no mercado de trabalho.

Mesmo assim, a Margarida continua sem falar com ele.

E, um dia recebe uma carta de um advogado. Quer o divórcio.

Os amigos ficam em pânico.... Vai voltar a beber de certeza, mas Mateus resigna-se.

Apenas se opõe à ideia de ela se mudar para outra cidade com os filhos.

O que origina uma grande discussão e graves acusações.

Mas Mateus é firme e Margarida acaba por aceitar.

A vida é sossegada agora, sossegada demais, riem-se os amigos, mas Mateus até gosta.

E muito...


FIM

sábado, 11 de agosto de 2018

MATEUS - PARTE IV



E o emprego? O que aconteceu ao emprego? lembra-se de repente.

O Carlos trabalhava com ele, não trabalhava? 

Volta a ligar-lhe e o amigo explica-lhe que foi " convidado " a sair. 

Ofereceram-lhe uma generosa indemnização e não se falou mais dele.

" Mas o que é que eu fiz? " diz Mateus desesperado, mas Carlos não quer discutir mais o assunto e desliga.

Oh, meu Deus, magoei assim tantas pessoas? Não foi só a Margarida, os meus amigos também.

Resolve dar um passeio... 

Precisa de organizar as ideias, se é que se lembra de como isso se faz.

Senta-se num banco de jardim... Fecha os olhos por uns momentos, a mente num turbilhão.

Sente uma mão no ombro, abre os olhos. É a irmã que lhe sorri.

" Magoei-te? " é a primeira coisa que lhe pergunta.

" Não estavas em ti." responde Laura calmamente e pega-lhe na mão.

E ficam os dois em silêncio... como se fosse a coisa mais natural do Mundo...

Os dois ali no jardim, em silêncio a gozar o Sol.


CONTINUA



quinta-feira, 9 de agosto de 2018

MATEUS - PARTE III


A Laura faz-lhe um breve resumo do que se tem passado e Mateus não quer acreditar.

Carlos mostra-se relutante, mas acaba por confirmar que sim, que ele bebe e muito e pode ser muito desagradável.

Por isso, Mateus não fica surpreendido quando o sogro lhe diz secamente que não é boa altura para falar com a Margarida.

Ah, sim, têm que falar, mas não hoje. Está demasiado magoada para discutir o assunto.

Tem que esperar que ela esteja pronta para isso... Talvez ele, Mateus, deva pensar no que quer fazer.

Porque a Margarida quer encontrar uma solução... ele deve-lhe isso... E aos miúdos também.

" Posso vê-los? " pergunta Mateus, a medo.

" Se estiveres sóbrio... podes ficar aqui no jardim com eles." decide o sogro e desliga.

E, agora, Mateus?

O que queres fazer? Não é a Laura ou o Carlos quem perguntam.

É ele, Mateus quem o faz.   Quem tem que reflectir na vida, saber o que quer fazer.

Mas, na verdade, o Mateus não sabe.

Está desiludido com a vida, com ele próprio e quer simplesmente esquecer.

Esquecer ou perder-se... De quê ou quem?


CONTINUA

terça-feira, 7 de agosto de 2018

MATEUS - PARTE II


Em casa, a Margarida está desesperada e desabafa com o Carlos.

Este sente-se pouco à vontade, não sabe o que há-de dizer e toma nota mentalmente de pedir à Raquel para telefonar à Margarida.

A Raquel assim faz, mas o telemóvel da amiga está desligado.

Também Mateus, quando acorda com os olhos pesados e a boca pastosa, não a encontra.

Terá saído com os miúdos?  

Talvez tenha deixado um bilhete, pensa, mas sente-se tão tonto que volta a cair na cama e adormece novamente.

Quando acorda, já está a escurecer. Estranha não ouvir qualquer ruído e tenta ligar para o telemóvel da Margarida, mas tal como aconteceu com a Raquel, dá sinal de que está desligado.

Mateus telefona então para a Raquel, mas esta apenas confirma o que ele já sabe. O telemóvel está ligado.

O Carlos pergunta-lhe:

" Como te sentes? " e Mateus fica surpreendido.

" Porquê? O que aconteceu? " e Carlos conta-lhe tudo o que se passou na noite anterior.

Mateus fica sem palavras e despede-se do amigo com um " Até breve".

Será? Será que a Margarida fez o que ameaçou uma vez?

Procura na lista de contactos o número da sogra e está tão nervoso que liga para a irmã.

Esta atende de imediato e percebe-se pelo timbre da voz que se passa alguma coisa.

" O que aconteceu, Mateus? Bebeste novamente? "

E Mateus não pode negar.

CONTINUA


segunda-feira, 6 de agosto de 2018

MATEUS


" Eu gostava..." começa a dizer o Mateus, mas depois interrompe-se e fica parado no espaço e no tempo.

O médico olha-o e insiste:

" Gostava de..??? O que é que gostava de ser, Mateus?"

Mas Mateus ri-se e diz, irónico:

" Acha mesmo que lhe vou dizer? " pega no casaco e saí.

O médico suspira, fecha a agenda, convencido de que o Mateus é um caso perdido.

Tentou explicar isso à mulher dele, mas ela não quis saber. O Mateus está doente e tem que ser tratado. À força, se for preciso.

Mateus entra no primeiro bar e pede um gin tónico.

" Não sei porque concordei com isto!" pensa.  E pede um novo gin tónico.

Dali a uma hora, está tão alegre que o barman tira-lhe as chaves e o telemóvel.

Carrega nos contactos e no primeiro número que lhe aparece.

É o do Carlos que fica verdadeiramente surpreendido com a chamada de alguém que se identifica como " Peres do Bar Monção, na Rua da Nação".

Em resposta à pergunta " Mas o que é que se passa?", o Peres pede para ir buscar o amigo, pois " temos que evitar um acidente.".

Carlos está lá dentro de meia hora e com a ajuda do Peres, lá consegue meter o Mateus no carro.

CONTINUA

sábado, 4 de agosto de 2018

JANTAR E REVOLUÇÃO




Quatro jovens, dois pares, uma ideia estavam reunidos os condimentos para um jantar na garagem da casa dos pais do Mateus para comemorar o que não era preciso comemorar era apenas para estar juntos e ouvir os Abba. 

Era Agosto de 1974 e o grupo sueco estava na berra depois de ter ganho o Festival da Eurovisão com a  "Waterloo". 

A Carolina e a Raquel – de minissaias – tinham trazido uns pacotes de batatas fritas Pala-Pala e umas cervejas Super Bock e a mãe do Mateus fizera bifanas e um arroz de ervilhas, enquanto o Ivo viera com dois frangos de churrasco e o piri-piri chegara da cozinha da vivenda. Claro que os rapazes usavam calças à boca-de-sino

Foi uma noite bem passada em que o motivo principal era a liberdade que o 25 de Abril trouxera para Portugal. 

Recordava-se que Portugal fora representado no Festival pelo Paulo de Carvalho com a canção "E depois do adeus" que tinha servido para anunciar o movimento e como tinha sido comemorado o primeiro de Maio e as manifestações e a caça aos PIDES/DGS e os saneamentos e tantas coisas mais sobre a incipiente revolução, além naturalmente do corta na casaca da malta da universidade. 

Enfim os dois casais não casados (mas para quê o papel?) bem cansados, bem comidos e bem bebidos ficaram a dormir lá na casa do Mateus. 


HISTÓRIA ENVIADA POR EMAIL POR ANTUNES FERREIRA " BLOG A NOSSA TRAVESSA"

O meu muito obrigada

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

JANTARES E AFINS - O FIM



A comida chega e sobra (ai, pensa o Carlos, vou comer restos na próxima semana).

O ambiente é descontraído e por sugestão da Carolina, as senhoras votam na T-Shirt mais atrevida dos senhores.

Em contrapartida, o Luís diz que os homens têm direito a escolher qual a saia mais original.

Todos sabem que ele escolheria a mulher, mas ele pretende ser imparcial e depois de longa deliberação, aplaudem a Margarida, a mulher do Mateus, como vencedora.

O Mateus, já muito bebido, atreve-se a dizer: " E o prémio ??? Quero saber qual é o prémio?"

Como ninguém lhe responde, começa um discurso sobre revolução e capitalismo que só termina quando o Carlos, após um aviso discreto da Margarida, o atira para a piscina " acidentalmente".

Os outros imitam-nos e em breve, começam a dispersar.

O Luís e a Carolina são os últimos, com aquele a segredar-lhe " hoje, o nosso quarto vai ser o restaurante Lingerie.", o que provoca à mulher uma grande gargalhada.

Carlos prepara-se para subir, já sabe que a Raquel quer limpar tudo.

No entanto, fica surpreendido quando a mulher lhe sorri e diz:

" Limpo amanhã... Também quero ir até ao restaurante Lingerie." e rindo, fecham a porta do quarto.


FIM