quinta-feira, 31 de maio de 2018

O " IDIOTA"



Está decidido...

Já que tenho fama de ser " idiota", vou abrir um bar para " idiotas".

O que quero dizer com isso?

Um local onde se possa estar à vontade, conversar, rir e não ser gozado, humilhado e agredido verbalmente.

Haverá um canto onde se poderá ler sossegado; outro para tomar um chá à moda antiga e simplesmente conversar.

Haverá um tabuleiro de xadrez, uma mesa de bilhar e até um pequeno palco para karoeke ou encenar uma peça.

Enfim, ser criativo... vender sensações?

Claro está que o meu irmão riu-se e chamou-me " idiota ", mas ajudou-me a preparar tudo.

E creio que ficou surpreendido pela festa de inauguração ter sido um sucesso.

Só não gostou quando lhe disse que o bar estava " off limits" para os amigos dele...


CONTINUA

quarta-feira, 30 de maio de 2018

1985 - O FIM


" Só pode estar a brincar..." repito mas o Sargento ri-se e explica-me pacientemente o que quer que eu faça.

Liga-se para o tal nº de um telemóvel descartável ( para não localizarem a chamada, penso eu, ou será que vi filmes policiais a mais?) e a dita Clotilde/Carlota atende.

Noto um certo nervosismo na voz que disfarça imediatamente e não pode ser mais acolhedora.

Combinamos um encontro nessa noite num bar cujos clientes, assegura-me o Sargento Condes, serão polícias à paisana.

O João resolve ir também; acha que vai ser uma noite interessante.

Ela ainda não chegou; combinamos para as nove e meia e cheguei cedo demais.

Mas estava tão nervoso que achei melhor ir logo para o local da acção.

O bar só tem meia dúzia de pessoas e calculo que o dono seja cúmplice do Sargento.

Sento-me ao bar, peço uma bebida enquanto o João desafia um dos " clientes " para uma partida de bilhar.

São quase dez horas quando ela entra. O cabelo está solto e o vestido é provocante.

O João assobia (o que é que estás a fazer, pá? parece um filme reles, do antigamente) e ela recompensa-o com um sorriso vaidoso.

Senta-se, beija-me carinhosamente e pede uma bebida.  Diz-me então:

" Fiquei muito surpreendida com o teu telefonema. Pensei que seria a última vez que te via..."

" Oh, não, Carlota ou devo dizer Clotilde? " e vejo um olhar horrorizado, deixa cair o copo e levanta-se de imediato, pronta para fugir.

Mas uma mulher corta-lhe o caminho e o Sargento Condes prende-lhe as mãos.

" Traidor! Porco!" grita e vários outros palavrões que não me atrevo a repetir.

No bar, só ficamos eu e o João.

" Uma bebida por conta da casa?" sugere o dono e o João aceita.

" E, agora? " pergunto.

O João encolhe os ombros e murmura: " O que quiseres, pá. O que quiseres!"

Fico sem saber a que se refere - a mulheres ou à vida em si. Nem interessa no momento!

Apenas sei que vou mudar o tema da minha tese e não vou escrever sobre Ronald Reagan.


FIM



domingo, 27 de maio de 2018

1985 - PARTE V


" Conhece-a, não é verdade? Ela usa vários nomes. Depende da personagem que idealizou. Chama-se Clotilde." explica o sargento.

" Carlota, ela disse que se chamava Carlota. Mas o que se passa aqui? " pergunto.

" A Carlota e o cúmplice, um tipo que se chama António tem um guião. Encenam uma cena de ciúmes, ele abandona-a sem dinheiro, sem telemóvel e esperam que alguém morda o isco. Esse alguém deixa-a telefonar, ela telefona para o António e a partir daí... creio que o Senhor sabe o que acontece." diz o sargento.

Faço um resumo dos acontecimentos, o sargento toma algumas notas, mas avisa-me que é muito pouco provável que eu recupere o que me foi roubado.

" Eles são bons, " limpam " muito bem as cenas, mas temos uma pista. Um pormenor insignificante, pode não resultar, mas queremos tentar." continua o sargento.

" Um pormenor insignificante? " repito.

" Descobrimos que o nº de telemóvel que ela lhe deu está ainda activo. Gostávamos que lhe ligasse e combinasse um encontro." diz.

Quase me falta o ar e grito:

" Mas eu expulsei-a da minha casa! Não posso marcar um encontro!" 

" Claro que pode! Convida-a para jantar e pede-lhe desculpa!" sugere o sargento.

Simples, não é? Como é que posso falar normalmente com uma pessoa que me enganou?

CONTINUA 

sexta-feira, 25 de maio de 2018

1985 - PARTE IV


" É melhor veres o que falta enquanto eu telefono à polícia." aconselha o João.

O plasma desapareceu bem como PC e a impressora.

" Bolas! Perdi os planos das aulas e as notas para os testes! " penso e vou até à cozinha.

A máquina do café, presente da minha Mãe e o micro-ondas fazem agora parte do passado.

O pouco dinheiro que estava na gaveta da cozinha também desapareceu bem como um dos meus cartões de crédito.

Felizmente, o pin estava guardado noutro local, mas o João diz para contactar o Banco mesmo assim.

" Arranjam sempre maneira de contornar os obstáculos." explica.

" Como é que entraram? " faço a pergunta óbvia e sei que tanto a D.Alice como o João pensam o mesmo.

A porta parece não ter sido forçada... alguém copiou a chave... 

Mas como? Só se roubaram a da D.Alice. 

Depois da polícia tomar conta da ocorrência, ajudamos a D.Alice a pôr a casa em ordem.

Nos dias seguintes, trato da participação ao seguro, compro um novo PC e tento organizar os meus assuntos profissionais.

Consigo recuperar alguns dos ficheiros, mas perco tempo a reescrever outros.

Resolvo também instalar uma porta blindada e peço à D.Alice para ter cuidado.

" Não se preocupe! Nunca mais deixo a porta aberta; e ninguém passa por mim sem me dizer o nome e quem vai visitar!" afirma a senhora, decidida.

Rio-me e o telemóvel toca.

É a polícia, quer saber se posso ir à esquadra.  Querem que eu veja umas fotografias.

Acho estranho, mas vou até lá.

Mandam-me entrar para um gabinete e em cima da mesa, vejo duas fotos da Carlota.

Olho espantado para o Sargento que me convida a sentar.

CONTINUA




quarta-feira, 23 de maio de 2018

1985 - PARTE III


Quem será a minha convidada inesperada?

Abro a porta e lá está ela, a rapariga da praia (chama-se Carlota).

Sentada num dos meus sofás, a beber uma cerveja... Perfeitamente à vontade.... 

Como se a casa lhe pertencesse...  Fico um pouco ressentido, até porque não a conheço bem.

" Olá, espero que não leves a mal." cumprimenta " Estava aqui perto e resolvi visitar-te. Sei que foi um atrevimento da minha parte, mas estou aqui." e sorri.

Eu não sorrio. Não a deixo beijar-me e creio que fica surpreendida.

" Olá, não me lembro de te ter convidado. Foi realmente um atrevimento!" replico.

" Mas somos amigos, não somos? Qual é o mal? " diz " Pensei que seria uma boa ideia aparecer e desafiar-te para um jantar agradável."

" Nenhum, só que estou muito cansado e esta noite, não posso sair. Tenho muito trabalho pela frente. " e calo-me.

Ela percebe que esta visita foi um erro e apressa-se a sair. Vejo que está zangada, mas pouco me importa.

No dia seguinte, conta a história toda ao João depois da aula de Pilates.

O João ri e diz:

" Goza a vida, pá. Foi trágico o que aconteceu à Ana, mas tens que começar a viver." e dá-me a palmada nas costas. " Porque não vens jantar comigo e com a Sofia? " convida.

Enquanto discutimos os pormenores, recebo um telefonema da D.Alice. 

A pobre senhora está tão nervosa que não a entendo e tenho que lhe pedir para repetir.

" Assaltaram-lhe a casa!" 

Nem tomo banho... Saio a correr do ginásio, com o João, visivelmente abalado no meu encalço.

A minha casa está completamente revirada e eu não sei se hei-de chamar a polícia ou consolar a D. Alice que só diz:

" Só deixei a porta do prédio aberta uns minutos enquanto fui à arrecadação..."



CONTINUA



terça-feira, 22 de maio de 2018

1985 - PARTE II


Ela é o centro das atenções do bar.

O vestido é vermelho, muito justo e o cabelo está apanhado na nuca.

A maquilhagem é discreta e tem um enorme sorriso nos lábios pintados.

Mas reparo que os olhos são frios e calculistas e tenho pena de não poder voltar atrás.

Não confio nela... Posso sempre pagar-lhe um copo e depois desculpar-me com uma chamada imprevista.

Ela cumprimenta-me com um beijinho e os outros homens olham-me com inveja.

A conversa torna-se interessante, mas sinto-me desconfortável.

Aproveita todos os momentos para me tocar, beija-me suavemente nos lábios, mas continua a ter uma certa frieza no olhar.

Creio que fica desapontada quando a levo a casa e declino o convite para uma última bebida.

Volta a telefonar-me no dia seguinte, mas eu dou uma desculpa e vou para a biblioteca fazer pesquisa.

Quando chego a casa, a D.Alice, a porteira do prédio, vem ter comigo e diz-me:

"  Tem uma visita. É uma rapariga muito bonita. Perguntou por si e quando lhe disse que tinha saído, pediu para esperar lá em cima. Não fiz mal, pois não? " pergunta.

" Reconheceu-a? Não há problema em deixar a minha Mãe e a minha irmã subirem, mas não gosto muito de convidadas inesperadas." respondo.

" Não, não a reconheci. Mas ela parece que o conhece tão bem... que achei que não havia mal!" justifica a pobre da senhora, a pensar que cometeu um " faux pas".


CONTINUA

domingo, 20 de maio de 2018

1985


Devo estar maluco....

Escrever sobre os anos 80 do século passado e escolher 1985 porquê?

Foi o ano do meu nascimento... podia começar por aí...

Falar sobre as minhas memórias como um bebé que a minha Mãe diz ter sido " muito ruim para comer"...

Não entendo bem porquê, porque adoro comer...

E, não, não estou obeso.  

Tenho uma alimentação saudável, frequento o ginásio e faço longas caminhadas pela praia.

Aliás, foi durante uma dessas caminhadas que assisti a uma cena inacreditável...

Ele deixou-a sozinha na praia e levou o carro.

A pobre da rapariga estava desesperada, porque tinha deixado no carro a carteira e o telemóvel.

A única coisa que pude fazer foi oferecer uma boleia para casa. 

E deixar que utilizasse o meu telemóvel...

Imaginem a minha surpresa quando a rapariga da praia me telefona e convida-me para um copo num bar conhecido.


CONTINUA



sexta-feira, 18 de maio de 2018

O BILHETE - O FIM


Respiramos de alívio quando nos dizem que eles vão mudar nessa semana.

Houve imenso barulho, mas foram os homens das mudanças a trazerem a mobília para baixo.

Ouço um deles a dizer que podiam ter embalado as coisas um pouco melhor e alguém resmunga porque não pode utilizar o elevador.

Por volta das seis da tarde, resolvo sair.  Quero caminhar um pouco, beber um café.

Calço as sapatilhas e nem espero pelo elevador. 

Desço as escadas, feliz da vida e quando chego ao hall, nem acredito no que vejo.

Está cheio de papeis, bocados de corda e de cartão, de plástico e parece que alguém espalhou areia.

A D.Margarida e o marido chegam nesse momento e não sabem o que dizer.

" Mas está tudo doido ou quê? " comenta o marido " Não, ninguém vai limpar. Vou telefonar ao condomínio, alguém tem que vir cá ver e limpar."

Telefona e meia hora depois, aparece o Dr Andrade com a mulher e a D.Mercedes, a senhora que faz a manutenção do prédio.

O Dr Andrade tira fotografias, sobe para ver como está o patamar e a D.Mercedes, aborrecida, abre a arrecadação.

" Limpei isto ontem; deixei tudo um brinco! " queixa-se.

Eu, a D.Margarida e a D.Clara, a mulher do Dr Andrade ajudamos e devolvemos a ordem e a limpeza ao hall.

Já não me apetece caminhar; subo para casa e tomo um longo banho.

Na reunião seguinte do condomínio, conta-me a D.Esmeralda depois, o Dr Andrade diz que foi notificado de que o casal barulhento os processou.

O marido da D.Margarida protesta e exige que se avance igualmente com um processo contra eles.

Todos votam a favor e o Dr Andrade consulta um advogado.

O processo está a decorrer normalmente quando sabemos que o condomínio do prédio para onde se mudaram também está em litígio com eles.

" Cá se fazem, cá se pagam! " repete a D.Mercedes e eu dou-lhe toda a razão.


FIM

quinta-feira, 17 de maio de 2018

O BILHETE - PARTE IV


" Mas o que é isto? " exclamo e o marido da D.Esmeralda ouve-me e desce.

" O que aconteceu? " pergunta e também ele fica espantado." Quem fez uma coisa destas?" 

" Terão sido os de lá de cima? " observa a D.Esmeralda e prontifica-se a ajudar-me.

Quando terminamos, estamos as duas irritadas e apreensivas.

" Eu só me queixei do barulho e achei que não tinha nada de mal enviar aquele bilhete." comento.

" Não se preocupe! Temos direito a noites sossegadas e isso demonstra que eles realmente não são pessoas confiáveis. Ainda bem que se vão embora!" diz a D.Esmeralda.

Mas o que é fariam enquanto não se fossem embora? é o que me preocupa e tenho razões para isso.

O meu tapete aparece cortado e a senhora da limpeza queixa-se de que alguém deita detergente pouco depois dela estender a roupa.

Alguém deixa a torneira da arrecadação aberta, mas, felizmente a D.Esmeralda ia a passar no hall e fechou-a.

Depois dão cabo das caixas do correio.

" É tudo muito estranho! Mas não temos a certeza de que foram eles!" confessa a D.Margarida.

" Pois não e se dissermos alguma coisa, ainda nos processam! " admite a D.Esmeralda.

" Já escrevi ao condomínio e é exactamente isso o que eles dizem. Não têm provas! " digo.

" Então, é aguentar e cara alegre! O pior é para si, ficou sem tapete, teve que lavar a roupa novamente... " declara a D.Margarida.


CONTINUA

terça-feira, 15 de maio de 2018

O BILHETE - PARTE III


Conto-lhe tudo e a Teresa aconselha-me a escrever ao condomínio.

" Mas sou apenas uma inquilina!" protesto, mas a Teresa abana a cabeça e diz: 

" Os direitos e obrigações são iguais!" e acabo por escrever o mail para o condomínio.

Nessa noite, recebo um mail deles a dizerem-me que se vão reunir com os ditos inquilinos no dia seguinte.

Contam-me depois o que se passou. 

Foi uma reunião de tal maneira violenta que um dos Administradores pensou que tinha que chamar a polícia para acalmar os ânimos.

O casal disse estar a ser vítima de assédio, que não percebia qual era o problema dos outros inquilinos, porque, de certeza, também ouviam música e falavam alto se estivessem entusiasmados.

" Não há problema.... Saímos logo que encontrarmos uma casa! Não queremos viver com estes puritanos! " afirmaram.

Dormi como não dormia há muito tempo. No andar de cima, silêncio em absoluto e entro no escritório, alegre, sorridente como os meus colegas não me viam há muito.

Pobre de mim! Que ilusão, porque, quando cheguei a casa, estava a D.Esmeralda do terceiro andar a lavar o chão do elevador.

" O que é que aconteceu? " pergunto e a D. Margarida do primeiro andar aparece com um balde cheio de água.

" Não sabemos!" explica " Alguém despejou qualquer coisa pegajosa e estamos a ter muita dificuldade em a tirar."

Dispo o casaco e entre as três, lá conseguimos limpar. 

Subimos as três, cansadas e suadas. 

" Vou tomar um banho bem quente! " penso, mas paro, abismada.

A minha porta está toda suja e está lixo espalhado no tapete.


CONTINUA

domingo, 13 de maio de 2018

O BILHETE - PARTE II


Não há barulho no andar de cima quando chego nessa noite.

" Boa! " murmuro " Leu o bilhete e vai comportar-se como uma pessoa decente."

Mas engano-me, pois alguém liga a música no máximo e batem com a porta com toda a força.

Olho para o relógio, mas ainda não são dez da noite e não me posso queixar.

Mas às dez e meia, o barulho continua e fico indecisa. Vou lá bater à porta ou ligo ao condomínio?

Estou nesta indecisão quando se instala o silêncio e eu respiro finalmente.

Nem tinha dado conta que tinha retido a respiração! Curioso!

Preparo-me para me deitar e adormeço logo. 

Por volta das três da manhã, acordo sobressaltada. Que é isto? 

Parecem que estão a arrastar um móvel, alguém grita: " Cuidado com o vaso!"  e ouço este a estilhaçar-se.

Risos e uma voz de mulher diz claramente: " Cuidado para não acordar a vizinha!"

Mais risos e depois sossegam.

Na manhã estou irritadiça e respondo agressivamente a todos que se cruzam comigo.

" Oh, Maria Teresa, o que se passa contigo? " pergunta-me a Isabel à hora de almoço.

CONTINUA

sexta-feira, 11 de maio de 2018

O BILHETE


"
Caro vizinho,

Longe de mim dizer-lhe como se deve comportar na sua casa, mas...

O Senhor fala TÃO ALTO, que, mesmo sem querer, estou a par de todos os problemas da sua vida!

Não estou interessada em saber se alguém perdeu a carteira ou deixou o portátil na escola... Tenho os meus próprios problemas para resolver!

Mas o pior até não é isso... É que o Senhor fala ao telefone às horas mais incríveis....

Meia noite, uma da manhã, noutro dia acordou-me às quatro da madrugada!!!

Não pode ser; entro muito cedo, trabalho muito e tenho que descansar. 

O Senhor não me deixa!

Peço-lhe encarecidamente que utilize o telefone até horas decentes e no resto do tempo, mande SMS!!!

Obrigada

A vizinha de baixo "

Satisfeita, meto o bilhete na caixa do correio e espero que ele leia.

Vou ter um dia complicado e aquele idiota telefonou a alguém depois da meia noite e esteve uma hora a falar.

Ainda por cima, abriu a janela e o som propagou-se pela noite.

Estive para me levantar e bater-lhe à porta, perguntar se não trabalhava no dia seguinte, mas desisti da ideia.


CONTINUA







quarta-feira, 9 de maio de 2018

O VIDRO DA PORTA - O FIM



" Mas não tem que responder já." apressa-se a dizer o Amadeu e o momento passa.

Acabamos por jantar uma ou duas vezes por semana e gosto cada vez mais dele.

A Sofia também aparece de vez em quando para conversar. 

Aceitou o trabalho em full-time apesar das reservas do António.

Estou a conhecer melhor os meus vizinhos e a gostar da companhia deles.

A empresa está a ter sucesso e estou a considerar mudar para um escritório maior.

Mas resolvo pensar nisso depois das férias, pois aceito a proposta do Amadeu e vou passar uma semana com ele a Londres.

É uma semana mágica e quando regressamos, somos mais que amigos.

Torna-se numa relação confortável, sem pressões, em que cada um respeita o espaço do outro.

" Mas não pensam viver juntos? " pergunta-me a Sofia.

Abano a cabeça e digo:

" Está a resultar... Para quê mudar? "

Quem diria que a vida mudaria e tudo por causa do vidro da porta?

Talvez o único que esteja verdadeiramente aborrecido com esta história seja o senhorio dos rapazes, pois teve que pagar uma quota extra quando se substituiu a porta.

Como só o vejo nas reuniões do condomínio, nunca o saberei...


FIM



segunda-feira, 7 de maio de 2018

O VIDRO DA PORTA - PARTE V


Por causa do vidro, trabalho até tarde e chego muito cansada a casa.

Vejo que já colocaram o vidro e encontro o Amadeu no átrio, pronto para sair.

" Olá, vizinha, dia complicado? Sabe, abriu uma hamburgeria aqui perto e vou experimentar... Não quer vir? " convida " Prometo que está de volta antes da meia noite como a Cinderela." ri-se.

Eu sorrio também e dou por mim a pensar que é uma boa ideia sair um pouco. 

Relaxar, conviver....

Abro a porta de casa, pouso a pasta e o portátil na mesa do hall e, depois de lavar as mãos e retocar a maquilhagem, estou pronta para a " night".

O Amadeu é um companheiro bem disposto e tem histórias engraçadas para contar.

Fico a saber que é consultor freelancer, trabalha em casa e tem horário livre ("estou velho demais para trabalhar das nove às seis!" confessa).

É divorciado e tem duas filhas, de quem me lembro vagamente. Não devem ter mais de 16, 20 anos.

" Vivem com a Mãe?" pergunto e o Amadeu responde afirmativamente.

" Sim, mas podem entrar lá em casa quando quiserem. Fazemos sempre uma viagem juntos no Verão. O ano passado fomos à Grécia e este ano, elas querem ir até Inglaterra.
Uns amigos também vão, por isso, o plano é fazerem um tour comigo durante 10 dias e depois encontram-se com os amigos em Manchester para acamparem não sei bem onde. " explica.

" Parece ser divertido." concordo e ele olha para mim, pensativo.

" E, porque não vai ter comigo a Londres e passamos lá  uma semana ? Museus, espectáculos? "


Retenho a respiração. O que é isto?



CONTINUA

sexta-feira, 4 de maio de 2018

O VIDRO DA PORTA - PARTE IV


" Acho que faz muito bem..." digo, mas somos interrompidas pela porta a abrir.

Curiosas, saímos para a patamar.

A empresa contactada pelos rapazes chega finalmente.  

Entra também o Sr Adelino que mora no terceiro andar e está muito surpreendido por encontrar tanta gente a pé.

O Amadeu explica-lhe o que se passa enquanto os Técnicos da Empresa acabam o serviço que aquele começou.

Dizem ao António que podem colocar um vidro novo ao fim da manhã (sim, já passa das quatro) e aconselham a instalar um outro tipo de porta.

Os homens concordam e a empresa promete voltar às duas da tarde para colocar o vidro.

O orçamento para a porta será enviado mais tarde por mail, para mim e para o António que fazemos parte da administração do condomínio.

A Sofia despede-se e sobe. Os rapazes seguem-na e o Amadeu fica uns minutos a conversar comigo.

" Que noite interessante, não foi? " comenta.

" Não lhe chamaria isso! Acho que vou mandar uma mensagem à secretária da Empresa e pedir-lhe para desmarcar a reunião que tinha esta manhã." observo.

" Pois... Compreendo." concorda o Amadeu " Luisa, será que a posso convidar para jantar este fim de semana? "

O quê? pasmo-me.

O Amadeu sorri e diz:

" Pense e depois diga-me alguma coisa." e sobe as escadas.

CONTINUA

quarta-feira, 2 de maio de 2018

O VIDRO DA PORTE - PARTE III


Só quando a Sofia murmura " Mas é..." é que depreendo que falei alto.

" Desculpe, desculpe... O que é que a Sofia quer? " desculpo-me.

" Quero aceitar. Agora faz todo o sentido que aceite; os nossos filhos estão na Universidade, têm a sua própria vida. E gosto de estar em contacto com o público, de sair para almoçar com os meus colegas..." explica a minha vizinha.

" Compreendo. Sente-se viva, útil.. Infelizmente, ainda há homens como o António. Foi por isso que me divorciei. A empresa era do meu Pai e o meu ex convenceu-se de que seria ele a gerir quando o Pai se reformasse." confidencio.

" Mas a Luisa não esteve para isso? " pergunta a Sofia enquanto no hall, o Amadeu dá instruções ao António e aos dois estudantes.

" Mais para a esquerda!" grita o Amadeu " Oh, pá, para a tua esquerda!"

Rimo-nos e eu respondo: " Eu tirei um curso de Gestão e já ajudava o meu Pai. Era lógico que eu assumisse a gestão da empresa. Ele aceitava que eu desse uma ajuda, embora estivesse sempre com insinuações que eu ignorava. Só soube verdadeiramente o que ele queria quando o Pai se reformou e ele se despediu do emprego, pronto para assumir um cargo que ninguém pensou em lhe dar." 

" Ups! Reagiu assim tão mal? O António nunca concordou; tivemos discussões terríveis e, enquanto os miúdos foram pequenos, eu cedi. Mas agora não posso ceder." confessa a Sofia.

" Não, tem que pensar. E o que pensam os seus filhos? " questiono.

" Acham uma boa ideia. A minha filha diz que pareço mais nova, mais moderna, embora use um uniforme." conta a Sofia, sorridente.

Olho para ela com mais atenção e vejo que tem o cabelo mais cuidado, com um corte mais moderno.

As unhas estão pintadas de vermelho e o roupão assenta-lhe bem.

" Tenho mais cuidado com a alimentação; pratico yoga à hora de almoço." continua a Sofia.


CONTINUA