quarta-feira, 30 de junho de 2021

O DESATINO DA MATILDE PARTE III

 

Claro que sim, afirma a Mãe, faz parte da família e isto é um problema de família. Vai jantar lá a casa hoje, vamos falar sobre o que se está a passar.

Suspiro, sei que não vale a pena protestar, quando a Mãe decide uma coisa, está decidido.

Mas primeiro, continua a Mãe, vamos acabar de limpar este apartamento. Não quero que a Isabel diga que és uma desleixada...

Foi por isso que discutimos, atalho, era a minha vez de fazer a limpeza e não a fiz.

Ah, agora já sei porque é que a Mãe me perguntou se estavas bem, interrompe a Mãe.

Demoramos duas horas a pôr o apartamento em ordem, a roupa lavada ficou estendida na marquise e enchemos o frigorífico.

Esperamos-te às sete e meia, não te atrases, pede a Mãe, entretanto, nada de bebidas! acrescenta como se adivinhasse os meus pensamentos.

Suspiro quando ela saí, resolvo tomar um outro duche e passo a ferro uma T-Shirt ainda um pouco húmida.

A primeira pessoa que vejo quando entro na casa dos Pais é a Clarinha. 

Dá um grito de gelar o sangue nas veias e abraça-me.

Tenho um jogo novo, conta, vais adorar. Jogo com o Pai e ele perde sempre! e ri-se satisfeita.

O Pai chega pouco depois, então, filha, como estás? cumprimenta-me e não diz mais nada.

Vejo que me observa atentamente, a Mãe já lhe deve ter contado o que se passa e ele esteja a preparar um discurso.

Odeio discursos, fazem-me sentir desconfortável, talvez porque te sintas culpada, a voz do Gustavo soa na minha mente.

Valha-me Deus, será que estamos à espera dele? penso, mas a Mãe diz que o jantar está pronto.

Deixam que seja a Clarinha a estrela da noite e a miúda está feliz pela atenção, conta imensas histórias.

Fica aborrecida quando a Mãe lhe pede para ir para o quarto, porquê? já sou crescida, posso ouvir o que têm que dizer, grita.

O Pai repete o pedido e, embora continue a protestar, a Clarinha obedece.

Ficamos os três sentados à mesa e o Pai pergunta-me, queres explicar-me o que se passa?

CONTINUA



terça-feira, 29 de junho de 2021

O DESATINO DA MATILDE PARTE II


Mãe, o que é que estás aqui a fazer? e a minha Mãe olha espantada para os sacos do lixo.

Não atendes o telemóvel há uns dias, diz calmamente, depois encontrei a Mãe da Isabel que me perguntou se estavas bem. Fiquei curiosa com a pergunta e vim cá ver.

Tenho que ir deitar isto ao lixo, explico, evitando olhar directamente para a Mãe.

Deram uma festa, foi? Porque isso são garrafas, pergunta, e tu estás com um aspecto terrível.

Fico corada, não sei bem o que responder e a Mãe insiste, estou à espera de uma resposta, Matilde, também sei que não estás a frequentar o curso e quero saber porquê.

Um dos meus vizinhos passa por nós, fica surpreendido por nos ver ali paradas no hall e a Mãe acha que é melhor subir.

Quando abro a porta e a Mãe vê o caos que ainda reina no apartamento, fica muito séria, a Mãe da Isabel tem razão, há qualquer coisa que não está bem. Isto está um verdadeiro desastre, pensei que vocês tinham um plano de limpeza.

E, temos, confirmo, mas atrasei-me e é por isso que está esta desordem. Prometi à Isabel que o fazia hoje, mas parece que a Mãe não está a ouvir.

Abre a porta do frigorífico, fica abismada por estar vazio e para meu azar, encontra uma garrafa meia cheia no armário da banca e reprime um pequeno grito.

Bolas, aquela garrafa escapou-me, penso, como é que vou explicar?

Porque é que esconderam esta garrafa? Alguém anda a beber, é isso? Explica-te, Matilde, e a Mãe agarra-me o braço.

És tu, não és? O que é que se passa, Matilde? Nenhum problema se resolve com a bebida, diz a Mãe e empurra-me para o sofá.

Afasta as mantas, os jornais velhos, senta-se, faz-me sinal para fazer o mesmo.

Fica calada, está à espera que eu fale. Não tenho outro remédio, tenho que admitir tudo, a desilusão com o curso, o rompimento com o João.

Quando acabo, a Mãe suspira, beber é a resposta para essa desilusão? Por amor de Deus, Matilde, tu sempre foste uma pessoa responsável, parece que estás a desistir e sinceramente, filha... não posso deixar que isso aconteça. Tenho que falar com o teu Pai!

Não, protesto, tens mesmo que falar com o Pai???

CONTINUA

segunda-feira, 28 de junho de 2021

O DESATINO DA MATILDE

 

Estou a beber demais, estou consciente do facto, mas não faço nada para contrariar.

Está tudo a correr mal, o curso está a ser uma desilusão, tive uma grande discussão com a minha companheira de casa e terminei tudo com o meu novo namorado, João.

Porque é que há homens que não aceitam, não compreendem a razão porque estamos a dizer não?

Cedi ao meu  outro namorado e nem me quero lembrar das complicações que tive...

Foi o que tentei explicar ao João, mas este ficou muito sério, já percebi tudo! atira, és uma púdica e ainda por cima falsa!  A fazeres olhinhos, a dares-me esperança e no fundo, é só show! e afasta-se, descontente.

Recebo bocas trocistas dos amigos dele, mas sigo em frente.

Nessa noite, apanho a primeira bebedeira, falto às aulas e a uma frequência importante, mas penso, quero lá saber.

Repito a dose, a Isabel não gosta de encontrar garrafas espalhadas pela casa, fica furiosa quando não faço as compras da semana e ainda mais quando não faço a limpeza do apartamento.

Tínhamos combinado que nos revezamos a fazer isto, protesta, não temos nada para jantar, o quarto de banho parece uma pocilga...

Ah, não estás a exagerar??? interrompo, não está muito limpo, mas daí a ser uma pocilga.... Quanto ao jantar, vamos ao shopping ou manda vir qualquer coisa...

Não, grita a Isabel, estou farta! Vou jantar a casa dos meus pais, passo lá a noite, espero encontrar tudo limpo amanhã! e saí, batendo a porta com força.

Rio-me, bebo o resto do que há na garrafa, não sei se é gin ou vodca e deito-me no sofá.

Acordo tarde, com a boca seca e cheiro mal.

Levanto-me cambaleante, vou até à casa de banho e suspiro, a Isabel tem a razão, está muito suja.

Limpo-a a fundo, tomo um duche rápido e tento encontrar roupa limpa. Nada! Nem mesmo uma T-Shirt!

Fico abismada, se estivesse em casa, receberia um sermão da Mãe e com toda a razão.

Acabo por vestir o que me parece estar mais limpa, ponho a roupa a lavar e limpo a cozinha.

Depois, vou até à sala, encontro garrafas vazias nos locais mais incríveis e como já tenho dois sacos do lixo cheios, resolvo ir até ao vidrão.

Azar dos azares, encontro a minha Mãe no hall da entrada e não tenho como fugir.

CONTINUA


domingo, 27 de junho de 2021

O GUSTAVO E O BERNARDO - FIM


Estão a gozar comigo? pergunta o filho, a não ser... e olha-os abismados.

Dormiram juntos??? exclama, incrédulo e volta a rir, sim, vocês são uma caixinha de surpresa!

Aconteceu, Bernardo, não somos de ferro!!! justifica-se a Mãe, mas o filho continua a rir.

Está tudo bem, Mãe! Desde que estejas feliz, mas tens que concordar que é engraçado, continua o Bernardo, vou ter um irmão mais novo vinte e cinco anos! AH, AH...

Os Pais suspiram de alivio, estavam um pouco apreensivos, mas o Bernardo está a aceitar bem a ideia.

Foi um choque! confessa o Bernardo mais tarde ao Gustavo, não queremos pensar que os nossos Pais têm sexo, tanto mais que estão divorciados há anos!!!

Pois, também foi uma surpresa descobrir que os meus Pais estavam novamente juntos, concorda o Gustavo, eles comportaram-se como adolescentes, escondidos em casa do Pai.

Mas a tua Mãe não ficou grávida! atalha o Bernardo, já imaginaste teres cinquenta anos e o teu irmão ter vinte e cinco???? Ups!!!

E, a tua Mãe? Como está? diz o Gustavo e o Bernardo suspira, parece estar feliz, mais sorridente, não está tão triste, e ri-se, falas com ela de vez em quando? Ela pode esconder-me coisas para não me preocupar.

Não te preocupes, a minha Mãe e a Teresa já devem saber, aliás, todas as mulheres daquele Clube já sabem, afirma o Gustavo, não a vão deixar ficar sozinha!

A festa de despedida é divertida, a gravidez da Aída o ponto principal da discussão e o Bernardo a ser gozado carinhosamente por ser " irmão-tio", como diz o Matias.

Todos os amigos comparecem no aeroporto para se despedir dele, menos o Gustavo que manda um SMS apressado a explicar que as águas da Luísa rebentaram.

A gargalhada é geral, até assusta os outros passageiros e o Bernardo fica envergonhado.

Despede-se com promessas de videochamadas, telefonemas à " moda antiga " frisa o Major e emails, queremos saber tudo, porque vamos lá visitar-te, acrescenta o Nicolau.

É com um suspiro de alívio que o Bernardo se senta no avião, foi um pouco demais, pensa, mas rejeita de imediato o pensamento.

Ainda bem que há tanta gente que gosta dele, sabe que vão apoiar a Mãe enquanto estiver fora.

Vai ser engraçado conhecer o irmão ou a irmã, vai mimá-lo em demasia, tem a certeza absoluta.

FIM

sábado, 26 de junho de 2021

GUSTAVO E BERNARDO PARTE V

 

Olá, és o Bernardo, não é? e o Bernardo olha a rapariga ruiva que lhe sorri abertamente com surpresa.

Conheço-te? pergunta e a rapariga ri-se, espero bem que sim, fomos colegas de turma até ao décimo ano, depois tu seguiste gestão e eu optei pela medicina.

Desculpa, mas não te estou a reconhecer, desculpa-se o Bernardo e volta a soar um riso cristalino, que o faz sorrir.

Chamo-me Cristina, morava naquela casa rosa perto do Parque, o ponto de encontro era a Confeitaria Barcelos, diz a rapariga.

Ah, tinhas um irmão chamado Pedro, já me lembro e o Bernardo afasta-se um pouco dos colegas.

Sentam-se ao balcão, há pouca gente ali e pedem uma cerveja.

Conversam o resto da noite, os colegas do Bernardo querem continuar a noite noutro bar, mas ele declina o convite e eles partem sem ele.

As despedidas são ruidosas, boa sorte para Cabo Verde, desejam uns, não te apaixones e não fiques por lá, dizem outros maliciosos.

Vais para Cabo Verde? quer saber a Cristina, para onde vais? É que também vou para lá, vou trabalhar como médica voluntária ao serviço de uma organização solidária.

O Bernardo fica admirado, é bom para o meu currículo, continua a Cristina, os meus Pais estão preocupados, mas eu estou ansiosa por partir e começar.

A empresa onde trabalho tem lá uma delegação, explica o Bernardo, vou passar lá seis meses e depois, ou regresso ou prolongo o contrato.

A Cristina pede mais detalhes, o Bernardo também e combinam encontrar-se lá quando tudo estiver " controlado e organizado".

O Bernardo sente-se mais animado, já não estará tão sozinho, tem que contar à Aída, talvez ela fique mais sossegada.

A Mãe parece um pouco distante quando lhe telefona, convida-o para jantar e o Bernardo fica surpreendido por encontrar também o Pai.

A Mãe está muito pálida, parece que esteve a chorar, o filho fica apreensivo, são só seis meses, Mãe, e não vou estar sozinho, a empresa tem tudo organizado, repete.

Não, não é sobre isso que te queremos falar, interrompe o Pai, também muito sério.

Mas o que se passa? Estou a ficar aflito, estão doentes? o pobre do Bernardo não sabe o que pensar.

Não, a tua Mãe está grávida, anuncia o Pai e durante uns minutos, o filho não fala.

Depois desata a rir.


CONTINUA

sexta-feira, 25 de junho de 2021

GUSTAVO E BERNARDO PARTE IV


Não é isso, diz a Aída, é que descobri que estou grávida.

GRÁVIDA??? repetem a Madalena e a Teresa e a Aída fica muito corada.

Pois, um descuido, eu e o pai do Bernardo jantamos juntos, ele tinha algumas reservas acerca da ida do Bernardo para Cabo Verde, continua a Aída, uma coisa levou a outra e aqui estou grávida de seis semanas, sem saber o que fazer!

A primeira coisa a saber é, atalha a Madalena, queres esse filho?

Claro que sim! e a Aída soa horrorizada, então, tens que falar com o teu ex e saber o que ele pensa sobre o assunto, aconselha a Madalena.

Tens que fazer isso, sabendo isso, podes avançar e decidir outras coisas, concorda a Teresa, não estás sozinha, estamos todos aqui para te ajudar no que for preciso.

A Aída sorri, é um sorriso triste, mas teme a reacção do ex-marido e do Bernardo.

Não vai ser fácil, diz a Madalena, o Gustavo e a Matilde não gostaram muito da ideia de terem uma outra irmã, mas agora são os melhores amigos da Clarinha. Não lhe facilitam a vida, aliás, a Clarinha não facilita a vida a ninguém, mas faz parte do processo de aprendizagem.

Nessa noite, a Aída telefona ao ex-marido, este fique preocupado com a voz triste dela e resolve aparecer lá em casa sem avisar.

A Aída mostra-se relutante em partilhar a notícia, mas acaba por lhe contar.

Durante uns minutos, ninguém fala, a Aída repara então que não acendeu a luz e quando o faz, assusta o ex-marido.

Não sei o que dizer, confessa, mas o que é que tu queres fazer? O que decidires, eu estou de acordo.

Quero ter este bebé, explica a Aída, sei que vai ser complicado na minha idade, mas a médica diz que sou uma pessoa saudável e não prevê qualquer problema. Tenho um bom emprego, uma casa, terei que fazer alguns ajustes, mas o que me preocupa mesmo é a reacção do Bernardo.

O Pai abana a cabeça, suspira, murmura, pois, ele pode não ser muito receptivo e sentam-se para discutirem alguns detalhes.

O Bernardo está num bar com uns colegas, convidou também o Gustavo, mas este declinou, a Luísa passou o dia agitada, esclarece, recomendaram-lhe descanso e eu não a quero deixar sozinha.

CONTINUA

quarta-feira, 23 de junho de 2021

GUSTAVO E BERNARDO PARTE III

 

Assino o contrato e passo as semanas seguintes em reuniões, consultas médicas, vacinas.

A Mãe ajuda-me a embalar coisas que ela acha indispensável eu levar, compra-me roupa e sorri-me corajosamente.

Sei que vai ser um pouco duro para ela, mas, como o Gustavo diz e com razão, tenho que fazer o que é melhor para mim no momento.

Estuda bem o mercado, está alerta a outras oportunidades, aconselha o Gustavo, convive, mas não te precipites.

Estamos os dois numa esplanada ao fim da tarde, a Luísa foi fazer compras com a Mãe, não gostou muito, conta, também é teu filho, mas elas demoram tanto tempo a decidir-se...

Sorrio, nesse aspecto, a minha Mãe é muito prática, gosta, gosta, não gosta, avança, respondo.

O Gustavo ri-se, a minha Mãe também era assim, mas desde que começou a trabalhar na loja, está diferente. Influência da Rita, que é um modelo e continua gira, mesmo após o nascimento da Francisca.

Tenho saudades da Rita, confesso, ela gozava tanto com o Major durante as sessões do Clube. Ao princípio, ele ficava ofendido, mas depois, percebeu que ela fazia de propósito e entrou na brincadeira.

É a minha tia Rita, concorda o Gustavo, acho que elas formaram um novo Clube de Leitura. Só para mulheres, segundo diz a minha Mãe. A primeira sessão foi muito divertida.

Agora sou eu quem ri, temos Mães originais, comento, pois, a vida lá em casa nunca é aborrecida, repete o Gustavo.

Ah, e a Clarinha? pergunto, há muito tempo que não a vejo.

O Gustavo encolhe os ombros, tem dias, suspira e explica-me as dificuldades que estão a ter com a miúda.

Entretanto, a Madalena convida a Aída a passar lá para casa, temos uma coisa para te dizer, avisa e a Mãe do Bernardo fica intrigada.

O que terá acontecido? murmura, mas a Madalena apressa-se a sossegá-la quando estão frente a frente.

Vamos organizar uma festa de despedida para o Bernardo, esclarece, queremos saber se há alguns amigos que queiras convidar.

A Teresa sorri-me, já sei que ele gosta de mousse de manga, afirma, mas salgados, não tenho a certeza!

Ficam as duas surpreendidas quando vêem lágrimas nos olhos da Mãe do Bernardo.

Oh, Aída, o que é que se passa? O rapaz vai estar fora seis meses, queremos que ele saiba que pode contar connosco, e a Teresa, uma mulher sempre tão prática, parece estar perdida.

CONTINUA

terça-feira, 22 de junho de 2021

GUSTAVO E BERNARDO PARTE II

 

Ok, então fala com os teus Pais e diz que sim, continua o Gustavo, vê isto como uma espécie de promoção e quando regressares, decides se queres continuar na empresa ou avançar para outra coisa. Mas para já, fica sossegado no teu canto.

Tem lógica, penso e olho para o relógio, fico espantado com as horas, valha-me Deus, já é tão tarde! desculpo-me, mas o Gustavo abana a cabeça, estamos cá para isto!

Telefona-me se precisares de alguma coisa, diz, foi bom falar contigo novamente!

Também eu! Tens sido um bom amigo, eu é que tenho sido um pouco...interrompo-me, um bocado estúpido, acrescento.

Deixa lá! É passado, tiveste um acidente, a recuperação foi complicada, não admira que estivesses um pouco confuso! observa o Gustavo.

Acordo tarde no dia seguinte, telefono à minha Mãe e combino almoçar com ela.

Deixo mensagem ao meu Pai, peço-lhe para passar lá por casa ao fim da tarde.

A Mãe fica surpreendida com a proposta, mais ainda quando lhe digo que vou aceitar.

Oferecem-te casa? Quem vai cozinhar, lavar-te a roupa? questiona, não é perigoso? Tens a certeza de que é a decisão correcta? repete.

Asseguro-lhe que a empresa vai tratar de tudo, depois, não sou um miúdo, protesto, já vivo sozinho há algum tempo!

Vejo que ela não fica convencida, suspiro, não esperava que ela reagisse doutra maneira.

Despedimos-nos à porta da livraria, resolvo dar uma volta antes de ir para casa.

Abro o email, a empresa já enviou a proposta, imprimo e leio atentamente.

O meu Pai chega pontualmente às sete da tarde, ofereço-lhe uma cerveja, ele declina.

O que se passa? e escuta-me atentamente, até lhe mostro a proposta de trabalho.

Não explico a verdadeira razão porque me propuseram trabalhar seis meses em Cabo Verde, mas creio que o meu Pai adivinha.

Opta por não dizer nada, pede apenas que converse com um advogado, podemos não estar a entender correctamente, afirma.

Aceno com a cabeça, o Pai espera que eu diga mais alguma coisa, mas fico calado e ele despede-se.

CONTINUA


segunda-feira, 21 de junho de 2021

GUSTAVO E BERNARDO

 

Se o Gustavo ficou surpreendido por lhe ter tocado à porta àquela hora, não o disse.

Convidou-me a entrar, ofereceu-me uma bebida que recusei e optamos por beber antes um café.

A mulher, a Luísa sorriu-me e desapareceu na cozinha.

Nós ficamos na sala, calados, o Gustavo a olhar-me curioso, mas a respeitar o silêncio.

A Luísa regressa com um tabuleiro e duas chávenas fumegantes, volta a sorrir-me, desculpa-me, estou um pouco cansada, vou-me deitar, diz.

Aceno com a cabeça, forço um sorriso e após um beijo ao Gustavo, a Luísa saí, fecha a porta da sala.

Então, o que se passa? pergunta o Gustavo e eu conto-lhe tudo.

A discussão violenta que tive com o meu superior hierárquico,  que só terminou porque o Director Geral interveio, da reprimenda severa que recebi e a suspensão por três dias, sem vencimento.

Hoje, tive nova reunião com o Director Geral, concluo, fizeram-me uma proposta, deram-me a entender que era melhor aceitar se quero continuar a trabalhar na empresa.

Que tipo de proposta? interrompe o Gustavo, seis meses em Cabo Verde, como Director Adjunto, respondo.

E as condições? insiste o Gustavo, vou receber um contrato formal, mas pagam-me as viagens, tenho direito a um apartamento, a um carro, gasolina, além do ordenado, recebo também um subsídio de " risco", enumero.

É uma proposta generosa, observa o Gustavo, estão satisfeitos com o trabalho que desenvolveste até agora.

Soa-me a chantagem, protesto, o problema aqui é que discutiste com o teu superior hierárquico, exclama o Gustavo muito sério, podias ter sido despedido naquele momento. Não fizeram isto e estão a oferecer-te uma saída.

Suspiro, o Gustavo tem razão, acalma-te, Bernardo, pede o meu amigo, pensa cuidadosamente na proposta, pensa no que queres fazer mesmo.

Volto a suspirar, não é bom pensar com a cabeça quente, concordo, é realmente uma boa proposta; tenho que a discutir com os meus Pais.

Quando é que tens que dar uma resposta? a voz do Gustavo soa calma, eficiente, até ao final da semana, digo.

CONTINUA

domingo, 20 de junho de 2021

AÍDA- FIM

 

É uma longa noite de insónia e tenho dificuldade em me concentrar no trabalho.

Continuo a ver o Bruno à minha frente bêbado e a dizer disparates e não sei verdadeiramente o que fazer.

Talvez conversar com o Bernardo, ouvir o que ele tem a dizer, mas não quero envolver o meu filho nesta história.

É possível que o Bruno ganhe juízo e o que aconteceu a noite passada não se repita.

Mas não sabes, diz sensatamente o Pai do Bernardo, telefonou-me, está um pouco preocupado com a proposta feita pela empresa ao Bernardo.

Ir seis meses para Cabo Verde? Será boa ideia? repete, não sei, o Bernardo diz que é uma promoção, quando regressar, pode ocupar outro lugar, ter outras funções mais importantes, explico.

Não sei, não estou convencido, responde o meu ex-marido, disse-lhe para analisar cuidadosamente a proposta, até a levar a um advogado.

Temos que o deixar decidir, é a vida dele, observo, ele está todo entusiasmado e suspiro.

O que é que se passa? pergunta e acabo por lhe contar o que se passou na noite anterior.

Terá ficado com ciúmes por causa da tua promoção? comenta, é a explicação mais lógica, mas não a posso aceitar.

Se estava a concorrer para o mesmo lugar, eu não sabia, friso, mas o meu ex-marido interrompe-me de imediato, nada de arrependimentos! Tinhas a experiência, as capacidades para preencher o lugar, trabalhaste duramente para o merecer, foi reconhecido. Se o Bruno não aceita isso e não consegue avançar para a próxima etapa, o problema é dele!

Reconheço que ele tem razão, nos últimos tempos, o Bruno estava descontente, desleixado, irritadiço até com os colegas de trabalho.

Acabamos por passar a noite juntos, na manhã seguinte, não sabemos bem como agir, mas eu convenço-me que não se volta a repetir.

Não sabes, e a Rita ri-se quando lhe confesso o que aconteceu naquela noite, ainda reatam.

Não, de forma alguma, protesto, ele está a viver com uma rapariga muito simpática, o Bernardo gosta muito dela.

A Rita não diz nada, mas leio troça no olhar dela e vejo que as outras me observam atentamente.

Vá lá, estamos aqui para falar do livro, ralho, vamos começar? mas elas insistem em falar na minha aventura, na minha possível reconciliação.

Ignoro-as, digo-lhe que estão completamente doidas, mas quando descubro que estou grávida uma semana mais tarde, fico verdadeiramente assustada.

O que é que eu vou fazer agora?


FIM


sábado, 19 de junho de 2021

AÍDA PARTE V

 

Há um pequeno debate, a Natália acha que devemos escolher outro livro já que a Glória leu este, diz, mas esta não concorda, que disparate! lembro-me da história em geral, há pormenores que me esqueci!

Está decidido, interrompe a Rita, lê-se o " Mataram o Sidónio" e o encontro é daqui a um mês na casa da Madalena, decide.

Estás doida? protesta a irmã, não devíamos fazer uma votação? Ou esperar que as pessoas se oferecessem?

A Teresa ri-se, até calha bem, só tenho que descer de elevador e todas nos rimos.

Jantamos, falamos nos respectivos companheiros, fico a saber que a Madalena e o Inspector Bernardes estão a viver juntos novamente.

A Matilde mudou-se para o apartamento dele, conta a irmã da Rita, e se bem que haja ainda pormenores a esclarecer, estamos a entender-nos bem.

Estão mais velhos, mais sensatos, goza a Rita e a irmã atira-lhe uma almofada à cabeça.

Isso pode ter influência, às vezes, certas situações revelam-nos o que não queremos fazer e levam-nos a procurar outro rumo, afirma a Natália e todos compreendemos que ela se refere ao período em que esteve nos Estados Unidos.

Nunca soubemos os detalhes, a Glória acha que só o Nicolau conhece a história toda e todas respeitamos a decisão da Natália.

Estou de bom humor quando regresso a casa e apanho um susto quando alguém me toca no braço.

É o Bruno, cheiro-lhe álcool no hálito e tem um olhar estranho.

Posso falar contigo? pergunta-me e eu suspiro, o que é que queres, Bruno? 

Onde é que andaste até estas horas da noite? e eu volto a suspirar, não estou com paciência de te aturar, volta para casa.

QUERO SABER ONDE É QUE ANDASTE? grita o Bruno e volta a agarrar-me o braço.

Alguém abre a porta, mas o que é que se passa aqui? Sabem que horas são? e ao aperceber-se da situação, a senhora precisa de ajuda? Quer que chame a policia? 

Não, obrigada, este senhor já se vai embora, respondo e vejo que o Bruno está a acalmar, a perceber o que está a fazer.

Balbucia uma desculpa, tropeça e desce as escadas.

Agradeço ao meu vizinho, entro em casa e fecho a porta devagarinho.

Perdi o sono, vou fazer um chá, preciso de pensar, não que haja alguma coisa a pensar.

CONTINUA

sexta-feira, 18 de junho de 2021

AÍDA PARTE IV

 

Rio-me e a Rita propõe uma data para a reunião.

Manda-se um mail às outras, a Natália envia uma lista de livros e o sítio escolhido para a primeira reunião é a casa da Rita.

A Glória leva uma lasanha, eu faço um salada e a Natália prepara uma mousse de chocolate para a sobremesa.

A Teresa e a Madalena levam uma quiche vegetariana e a Rita oferece as bebidas, tem também aperitivos que todas apreciamos.

O Gonçalo levou a Francisca para casa do António, esclarece e a Teresa ri-se, vou encontrar a casa de pantanas, afirma, a Sofia acha que é um ás na decoração e muda tudo de sítio. O António deixa-a fazer tudo.

E o Gonçalo? pergunto e a Teresa abana a cabeça, continua a ser um paz de alma, está tudo bem para ele. Aparentemente, acrescenta, pois quando abusam da paciência dele... não é fácil lidar com ele.

São fases, observa a Madalena, e é melhor passarem por elas. O Gustavo e a Matilde tiveram a sua fase rebelde, tivemos alguns problemas principalmente com o Gustavo, mas agora são dois adultos responsáveis. A Clarinha é ainda um ponto de interrogação.

Continua a ter acessos de fúria? questiona a Glória e a Madalena suspira, de vez em quando, o Gustavo é a pessoa que lida melhor com ela, mas acho que estamos a ultrapassar a situação e a chegar a algum lado.

Ela recebe tanto amor, comenta a Natália, é difícil compreender porque ela age assim. Teve muita sorte com os pais adoptivos, ouvi falar de casos... até fiquei arrepiada!

Ela ouviu o que não devia ouvir, pelo menos, da boca daquela pessoa, interrompe a Rita, é um assunto que se explica em família.

A Natália fica um pouco embaraçada e eu aproveito para falar dos livros.

Viram a lista que a Natália enviou? Eu voto pelo Moita Flores, os livros estão bem escritos, as histórias bem estruturadas, sugiro.

Confesso que nunca li nada dele, diz a Teresa, não gosto muito do género policial.

Há policiais e policiais, intervém a Glória,  li o " Mataram o Sidónio" e achei muito interessante. Viu-se que ele fez pesquisa sobre a época, enquadrou bem a história.

Podemos começar por esse? Não te importas de o ler outra vez ou escolhemos outro? apresso-me a dizer.

CONTINUA

quinta-feira, 17 de junho de 2021

AIDA PARTE III

 

Eu não digo nada, responde a Glória, a relação entre eles melhorou, mas o Francisco não conta tudo.

Acho que ninguém conta tudo, interrompe a Natália, mas isto é um assunto importante e se ele está em contacto com o irmão, deve dizer.

Sei que o Amadeu vai de imediato à procura dele, mas tenho medo que seja um desperdício de tempo.

Nem eu nem a Natália respondemos, desviamos a conversa para assuntos mais leves e é a Natália quem sugere organizar um novo clube de leitura.

Só para mulheres, explica a rir-se, uma vez por mês para nos divertirmos. Jantar, discussão sobre um livro, sem companheiros, sem filhos, o que é que acham?

É capaz de ser uma ideia interessante, concordo, mas como é que vai funcionar?

Primeiro que tudo, temos que falar com a Rita, a Teresa e a Madalena, exclama a Glória, e depois acertamos os pormenores.

Fica decidido que eu falo com a Rita e a Glória com a Teresa e a Madalena, a Natália encarrega-se de fazer uma lista de livros.

Nada de comédias ou fábulas, pede a Glória, isso é o que eu leio às minhas filhas!

A Natália ri-se, queres ler livros técnicos? troça gentilmente e a Glória atira-lhe uma almofada à cabeça.

Despedem-se, eu ainda fico acordada a pensar em tudo o que foi dito e dou graças a Deus por o meu filho ser um homem equilibrado.

Nem quero pensar no que faria se o Bernardo desaparecesse sem rasto; como o Amadeu deve estar a sofrer.

Telefono à Rita no dia seguinte, ela fica surpreendida, convida-me para almoçar em casa dela.

É um almoço muito simples, a baby sitter só vem às duas horas, a Francisca esteve um pouco agitada esta noite, explica.

Sentamos-nos na bancada da cozinha, aprecio a quiche de frango, com os cumprimentos da minha irmã, diz a Rita e eu explico-lhe a ideia da Natália.

É uma boa ideia, afirma a Rita, terei que falar com o Gonçalo, claro está, mas se eles homens, tem uma noite livre, nós também temos que ter!

CONTINUA

quarta-feira, 16 de junho de 2021

AÍDA PARTE II

 

Gosto da disposição da casa e fico encantada com as alterações que a Catarina fez na cozinha e na casa de banho.

No que foi o quarto do Tomás, posso fazer um pequeno estúdio, preciso de um local para trabalhar quando estiver em casa e o Bernardo pode dormir lá.

O senhorio aceita a minha proposta e faço a mudança durante as minhas férias.

O Bruno oferece-se para ajudar, fico hesitante, mas acabo por recusar. 

Melhor terminar tudo, manter apenas o contacto profissional, porque, tens que admitir, diz o meu filho, ele não vai gostar nada de trabalhar para ti.

Não é bem assim, Bernardo, tenho uma certa liberdade de movimentos, posso organizar as equipas e os eventos, mas recebo instruções da Chefia.

O meu filho encolhe os ombros, mas eu sei que é capaz de ter razão, o Bruno é um pouco ciumento, o Clube que formou na livraria dele não teve tanto sucesso.

Será que tem ciúmes da minha promoção? mas eu afasto a ideia da mente, seria uma idiotice e depois, trabalhei muito para a conseguir.

Por isso, o Bernardo e o Major apresentam-se ao serviço, como chama o meu filho e conseguimos arrumar tudo naquele fim de semana.

Ainda há uns detalhes a concluir, conto à Glória e a Natália que aparecem de surpresa numa sexta à noite, com uma pizza e um bolo, para uma noite de mulheres, explicam.

E o Nicolau e o Amadeu? pergunto e a Natália ri-se, foram jantar fora. Ainda desafiaram o António, mas a Teresa forneceu a comida para um cocktail e tem que estar presente. Por isso, o António teve que ficar com os miúdos e ofereceu-se para ficar com os da Glória, explica.

Mostro a casa, a Glória gosta das cores que escolhi, a Natália dos móveis e instalamos-nos no sofá para conversar.

Falamos de trabalho, dos projectos editoriais do Nicolau e do novo estudante de Mestrado que está a ajudar o Major com uns Mapas do Século XII.

Então, o Major está nas sete quintas, é o que adora fazer, observo e a Glória sorri.

Está ocupado e não pensa tanto no que aconteceu com o Frederico, conta a companheira, ele continua sem dizer grande coisa sobre o assunto, mas ficou profundamente magoado com a atitude dele.

Não há pistas? Ele não contactou o irmão? interrompo e a Glória abana a cabeça, não, e não tenho a certeza de que o Francisco diria alguma coisa.

Não me digas que ele não avisava o Pai, e a Natália está indignada e a Glória suspira.

CONTINUA


terça-feira, 15 de junho de 2021

AÍDA

 

Foi uma pena o Clube de Leitura ter terminado, mas a livraria quis renovar, apostar noutro tipo de eventos.

Foi um bom trabalho, asseguram-me, um escritor tornou-se visível no nosso Clube de Leitura e a Aída é responsável por isso.

Sorrio, mas tenho pena que os encontros às quartas-feiras tenham terminado, continuamos a encontrar-nos em almoços, jantares, mas aquela hora podia ser muito divertida com a Rita a gozar com o Major e o Nicolau a impor a ordem.

O Bernardo cresceu, foi o primeiro a sair, tinha que explorar novos horizontes, o António e o Major têm famílias jovens que exigem toda a atenção, o Nicolau as suas palestras e as feiras e até a Rita nos surpreendeu ao ter uma filha.

Eu fui promovida, sou responsável pela agenda cultural de toda a rede de livrarias, o Bernardo ficou todo satisfeito, lutaste por isso, Mãe, aproveita, diz.

Contudo, o que ele não previu, ninguém previu foi que a minha relação com o Bruno terminou.

Acho que ele teve ciúmes da minha promoção, começou a ser agressivo, logo ele que foi sempre um amor.

Um dia chegou a casa bêbedo, chamei-lhe a atenção e ele respondeu agressivamente, partindo tudo o que encontrava no caminho.

Mas não te magoou, pois não? pergunta-me a Glória, preocupada quando contei, eu abano a cabeça, não, não chegou a esse ponto, mas soube então que estava na altura de nos separarmos.

E como é que ele reagiu? intervém a Rita, aceitou muito bem, acabou por confessar que tinha encontrado alguém, não sabia bem como me havia de dizer, explico.

Foi preciso ficar bêbado para to dizer? ironiza a Glória e a Rita concorda.

Volto a sorrir, está a arrumar as coisas dele, digo, vai ficar com uns amigos por uns tempos, vamos ter que vender a casa, fazer partilha do dinheiro.

Essa parte é que é aborrecida, observa a Rita, podes contar connosco para o que for preciso.

Mas o que vais fazer? quer saber a Glória, vais comprar uma outra casa?

Sinceramente, ainda não pensei nisso, esclareço, talvez alugue.

Ah, a nora do Amadeu vai viver para uma outra cidade, vai entregar a casa ao senhorio, comenta a Glória, é num bairro simpático, estás perto de tudo, queres que lhe telefone e vais lá ver?

CONTINUA


segunda-feira, 14 de junho de 2021

PEDRO E OS AMIGOS - FIM

 

Não é fácil convencer o Miguel a deitar-se, mas lá adormece e eu tomo um duche rápido antes de me deitar.

A Carolina enviou-me um SMS, quer saber as novidades, mas a única coisa que lhe posso dizer é que me diverti.

A Margarida foi uma companhia agradável, mas ela tem uma vida própria e fiquei com a impressão de que não está à procura de uma relação.

Eu acho que é cedo, a minha relação com a Laura é complicada e terei sempre que a gerir, ela será sempre a Mãe do meu filho.

Temos que estar preparados para eventuais escândalos por parte da Laura e nem todos as mulheres podem viver com isso.

Por isso, não é uma surpresa quando encontro a Margarida uns meses mais tarde num jantar em casa do Rogério e da Marta acompanhada por um " amigo ".

Sorrio quando ela mo apresenta, conversamos os três durante uns minutos e até acabo por gostar do senhor.

Entretanto, o Rogério apresenta-me a uma amiga, é instrutora de yoga, segreda-me, mas embora a rapariga seja simpática e culta, não me desperta qualquer interesse,

Sei que todos estão desapontados, as minhas irmãs suspiram, querem que eu seja feliz, mas para já, estou bem como estou.

Até conhecer a Guiomar... mas isto acabará por não ser uma boa história.

FIM

sábado, 12 de junho de 2021

PEDRO E OS AMIGOS - PARTE V

 

O passeio pela vila é agradável, estamos todos mais descontraídos sem a presença da Clotilde e do Telmo.

Regressamos a casa por volta das cinco da tarde, a Margarida acaba de nos contar uma anedota e ficamos muito surpreendidos por encontramos a Clotilde e o Telmo no hall com as malas feitas.

Acho melhor irmos para a casa, explica a Clotilde, não, não digas nada, apressa-se a dizer quando o Rogério protesta, queremos apenas pedir desculpa pela cena triste que o Telmo fez, especialmente a ti, Pedro.

Sorrio para a tranquilizar, mas a Clotilde nem vê.

Soa uma buzina. a Clotilde chamou um Uber, há despedidas rápidas e quando eles partem, ficamos todos a olhar uns para os outros.

Não vou dizer que tenho pena, diz a Marta, porque não tenho e começamos todos a rir.

O jantar dançante é um sucesso, sinto-me relaxado, mesmo feliz.

O verdadeiro problema é quando vou buscar o Miguel no domingo à noite a casa da Teresa.

Prepara-te, ela vai querer saber tudo, sussurra o António, ela e a Carolina não falaram noutra coisa ao almoço. A certa altura, o Gustavo levantou-se da mesa, estou cansado desta conversa, diz e convida-me para comer a sobremesa no escritório, conta.

Rio-me a imaginar a cena, as minhas irmãs são engraçadas, observo, são mulheres interessante, corrige o meu cunhado.

A Teresa aparece com um Miguel radiante que me estende os braços de imediato.

Então, maroto, portaste-te bem? pergunto e o Miguel ri-se, o que me surpreende, o meu filho não é dado a este tipo de emoções.

Está bem disposto, explica a Teresa, ele e a Inês fizeram umas asneiras, mas nada de mal!

AH, maroto! ralho, mas o Miguel continua a rir.

Correu bem o fim-de-semana? Onde foste? O que fizeste? Conta-me tudo, pede a minha irmã, mas eu apenas lhe dou um beijo.

Adeus, Teresa, até amanhã e afasto-me.

CONTINUA


sexta-feira, 11 de junho de 2021

PEDRO E OS AMIGOS PARTE IV

 

Há quanto não fazes uma noitada, não tens sexo? insiste o Telmo e eu abano a cabeça, é uma pergunta muito intima, esclareço, de vez em quando, o Miguel fica em casa dos avós ou na das minhas irmãs. Mas todos têm a sua vida, organizam-se para me ajudar e eu não quero abusar.

Ora, ri-se o Telmo, estás a perder os melhores anos da tua vida, ainda por cima, não tens a maluca da tua mulher por perto. Onde é que está o Pedro que não perdia nada?

Cresci, digo simplesmente, tenho outras prioridades e desculpa-me a franqueza, mas não te refiras à Laura como a " maluca ". A Laura é uma pessoa problemática, está em tratamento, mas continua a ser uma pessoa!

Oh, pá, não precisas de levar as coisas tão a peito! o Telmo está desconfortável, não sabe o que dizer.

É, Telmo, o Pedro tem toda a razão! interrompe a Marta, que desceu entretanto as escadas, seguida pela Clotilde.

Esta puxa o Telmo para o outro lado do deck e vejo que discutem baixinho. 

A Marta fica a meu lado, suspira, este Telmo é um idiota, observa, não sei porque é que o Rogério gosta tanto da companhia dele! Não confio nele, está sempre a gabar-se e a Clotilde diz que ele exagera um pouco. 

Não te preocupes, acrescenta noutro tom de voz, estamos a chegar, vais gostar de explorar a ilha, damos um mergulho e depois regressamos.

Tento manter-me afastado do Telmo, a Marta tem razão, gosto de explorar a ilha e a água é tão transparente que tenho pena de sair.

Regressamos por volta das duas da tarde, estamos cheios de fome e com vontade de beber uma cerveja gelada.

O almoço é divertido, até a Margarida está descontraída e conta algumas anedotas.

O Telmo bebe mais do que eu e o Rogério, a Clotilde tem que lhe chamar a atenção e ele reage mal.

Não estou bêbedo! grita e toda a gente do restaurante olha na direcção da nossa mesa, que ideia a tua! Um tipo não pode gozar a vida sem tu estares sempre a reclamar?

A Clotilde decide voltar para casa, ele tem que descansar e ver se fica em forma e rejeita a ideia de a acompanharmos.

Dêem uma volta pela vila, divirtam-se, pede.

A Marta e a Margarida seguem à frente, eu e o Rogério ficamos para trás a conversar.

Lamento o que aconteceu com o Telmo, às vezes, ele é muito inconveniente, comenta, mas somos amigos desde a adolescência.

Não te preocupes! asseguro, está tudo bem! As decisões são minhas e ele tem apenas que as respeitar!

CONTINUA 

quinta-feira, 10 de junho de 2021

PEDRO E OS AMIGOS - PARTE III

 

Não digo nada disto à Margarida, apenas sorrio, sou vago, claro, depois combinamos, respondo.

Terminamos de jantar, as mulheres reúnem-se na cozinha, nós homens instalamo-nos na piscina com um digestivo.

O Telmo continua a falar de carros, o Rogério troça amigavelmente e eu não sei bem o que fazer.

Estou a ficar cansado, levanto-me quando as mulheres regressam.

O quê? Já vais? repete o Rogério, a noite é ainda uma criança, mas a Marta interrompe, o Pedro tem toda a razão e temos um dia cheio amanhã.

Suspiro de alívio quando chego ao quarto, não sei se isto foi uma boa ideia e espero sinceramente que a conversa não se resuma a carros.

O dia amanhece claro e com Sol, o Rogério grita às oito da manhã do andar de baixo, vamos lá, pessoal, toca a levantar, temos que estar no cais às nove.

Levanto-me relutante, tomo um duche rápido e desço.

O Telmo ainda não apareceu, a Marta parece estar ainda ensonada, mas a Clotilde e a Margarida estão bem dispostas e não param de conversar.

O Rogério dá-me uma palmada nas costas tão forte que me desequilibro e tenho que me agarrar à bancada para não cair.

Bolas, Rogério, protesto, cuidado! e o meu amigo ri-se, vá lá, anima-te, está um dia bonito e temos um dia maravilhoso pela frente, diz.

Primeiro o passeio de barco, explica a Marta, já mais desperta, e depois, vamos almoçar num restaurante que é famoso pelo peixe e o marisco. Temos tudo planeado, repete.

O Telmo desce então, aceita apenas uma chávena de café, apesar da Clotilde insistir que ele coma mais alguma coisa, vamos almoçar tarde, observa, mas o marido ignora.

Chegamos ao cais uns minutos antes das nove e embarcamos. A Margarida parece nervosa, é o Rogério quem vai estar ao leme.

Ele sabe conduzir um barco? sussurra preocupada e eu tenho que sorrir, agora é tudo eletrónico, não vai haver problemas, asseguro.

Vejo pela expressão do rosto que ela continua a ter dúvidas, mas entretanto, a Marta chama-a, vamos ficar aqui no deck superior a apanhar Sol e a Margarida sobe resignada as escadas.

Eu e o Telmo ficamos no deck inferior, o Rogério manobra o barco para sair do cais.

Então, pá, continuas em teletrabalho? pergunta o Telmo, trabalho em regime misto, confirmo, assim dou assistência ao meu filho.

Ah, pois, o Rogério disse-me que ficaste com a custódia total do miúdo por causa da maluca da tua mulher, comenta o meu amigo, tens que te organizar, pá, estás a perder o melhor da vida. Não te invejo, a Clotilde está a falar novamente em termos filhos, mas eu não estou para isso. São uma prisão!

Fico muito sério, o Miguel não é uma prisão! protesto calmamente.

CONTINUA


quarta-feira, 9 de junho de 2021

PEDRO E OS AMIGOS - PARTE II

 

A Marta apresenta-a rapidamente, a Margarida, minha colega de trabalho, também vai connosco enquanto o Rogério sugere ao outro casal que deixe ficar o carro na garagem deles.

Vocês vêm connosco, decide, e o Pedro leva a Margarida.

A Margarida sorri-me, noto que não está muito à vontade, responde cuidadosamente a todas as perguntas que faço, mas não mais do que isso.

Por isso, a viagem é um pouco aborrecida e o Rogério apercebe-se quando chegamos à Barragem.

Não te preocupes, a Marta diz que ela é boa rapariga, mas teve um mau casamento, está a recuperar e a Marta quer ajudar, segreda e eu rio-me.

Não vim à procura de uma aventura, replico e o Rogério finge-se escandalizado, era lá capaz de uma coisa dessas! repete, pelo menos, é diferente da Laura, acrescenta.

Completamente, concordo, a Laura já estava a protestar, a implicar com qualquer coisa.

Tens notícias dela? Sabemos que é um assunto delicado, não queremos aborrecer-te, mas já que estamos a falar dela, e o Rogério cala-se.

Continua em casa dos Pais, passa largas temporadas da Clínica de Recuperação, explico, nem sempre vê o Miguel, acho que ele tem medo dela.

O Rogério não diz nada, aperta-me o ombro e mostra-me o quarto.

Fica no sotão, mas eles fizeram obras, instalaram um pequeno quarto de banho e a vista é deslumbrante.

Desce quando estiveres pronto, o jantar é por volta das nove, mas tomamos um bebida antes, avisa o meu amigo e deixa-me só.

Tomo um duche rápido, mudo de T-Shirt e desço.

Ouço vozes no terraço, as mulheres estão a um canto a conversar tranquilamente e o Rogério acena-me, oferece-me uma cerveja.

Está bem disposto, o Tadeu ainda mais, concluiu um bom negócio, vai receber uma comissão choruda, mas a Clotilde já tem planos para isso, lamenta-se, quer comprar um apartamento maior. Eu quero ir às Caraíbas!

Ou comprar um carro desportivo, diz o Rogério e o Tadeu ri-se, impossível, ela não descansava enquanto eu não o devolvesse ao stand!

Falamos de carros até nos chamarem para o jantar, sento-me ao pé da Margarida que parece um pouco mais animada e conversa mais.

Descobrimos que somos os dois pais solteiros, ela tem uma menina uns meses mais velha que o Miguel e frequentamos o mesmo parque.

Se calhar, já nos cruzamos,  observo, é possível, agora que nos conhecemos, podemos conversar e deixar que os miúdos se conheçam, pode ser engraçado, comenta.

Eu tenho as minhas dúvidas, o Miguel não é uma criança muito expansiva e pode desatar num berreiro tal que tenho que o levar de imediato para casa.

CONTINUA

terça-feira, 8 de junho de 2021

PEDRO E OS AMIGOS


Não sei bem quando, mas foi muito antes de conhecer a Beatriz, a Carolina perguntou-me se estava a cuidar de mim.

Ri-me, o que é isso? Entre o emprego, assegurar-me do bem-estar do Miguel e aturar as maluqueiras da Laura, achas que tenho tempo? respondo.

A minha irmã mais velha abana a cabeça, acho que não estás! Precisas de ir para fora com uns amigos, um sítio divertido, sugere.

Pois, e o Miguel? O que é que eu faço ao Miguel? repito e a Carolina dá-me uma palmada no ombro.

Pode ficar comigo ou com a Teresa, estamos aqui para te ajudar, observa a Carolina, combina qualquer coisa com os teus amigos e para este fim-de-semana, eu organizo tudo com a Teresa, declara.

Perante este ultimato, acabo por aceitar o convite do Rogério e da Marta para passar o fim-de-semana na casa deles na Barragem.

Vais gostar, assegura o Rogério, podemos andar de barco no lago, fazer um piquenique numa das ilhas e aos sábados, o Hotel organiza um jantar dançante.

Ainda bem que vens, diz a Marta, precisas de desanuviar, tens muita coisa às costas, principalmente....e interrompe-se, fica muito atrapalhada.

Com a Laura, eu sei, completo a frase, não te preocupes, ela não vai aparecer. Está em casa dos Pais, está calma e a trabalhar na loja. As minha irmãs ficam o Miguel.

Oh, Pedro, desculpa, exclama a Marta, muito corada, não foi isso que eu quis dizer...

Melhor não dizeres mais nada, aconselha o Rogério, o encontro é em minha casa às sete, jantamos pelo caminho.

Aquela sexta torna-se complicada, tenho muita coisa a tratar, deixo o Miguel e a mala dele no infantário de manhã, a Teresa vai buscá-lo às quatro da tarde.

O Miguel faz beicinho, choraminga, mas eu não cedo e o rapaz fica amuado, sentado no meio da sala, sem se mexer ou falar.

Ainda tenho uma videoconferência às duas da tarde, mas termina por volta das cinco, dá-me tempo de fazer a mala e comprar qualquer coisa para levar.

Passo pela loja da Teresa, a Madalena organiza um pequeno cabaz com pão caseiro, compota, conservas e duas garrafas de vinho biológico.

O Rodrigo é capaz de torcer o nariz, produtos biológicos não o convencem, mas eu tenho que promover o que a minha irmã vende.

Ás sete horas em ponto, estaciono em frente à casa dos meus amigos e fico admirado por ver o Tadeu e a Clotilde e uma outra rapariga que não conheço.

CONTINUA



segunda-feira, 7 de junho de 2021

O ENCONTRO - FIM

 

O novo emprego é uma boa aposta, a Luísa está satisfeita, eu também, porque sou promovido e tenho uma certa liberdade nas decisões do Departamento.

A vida corre-nos bem, estamos já a pensar no próximo passo, o casamento, mas a Luísa acha que é cedo demais.

Só agora é que estamos com as carreiras consolidadas, justifica, mais um ano, ano e meio e podemos pensar nisso.

Concordo com ela, ainda há muita coisa a fazer antes de pensarmos no casamento e em filhos.

Mas um dia a Luísa descobre grávida, fica um pouco assustada e eu também.

O que é que vamos fazer? pergunta-me, acho que o importante aqui é saber se o queres ter? replico.

A Luísa olha-me espantada, o que é queres dizer com isso? Claro que sim, não estou a pensar em fazer um aborto... este bebé vai nascer, temos é que reorganizar a nossa vida e preciso de saber se estás disposto a isso.

Isso nem se pergunta, digo, temos que mudar para uma casa maior, vamos ter muitas baby sitter e quanto a infantários, pode ir para o da minha prima Francisca.

A Luísa ri-se, é um bom plano, concorda, mas vamos casar primeiro e não dizemos nada sobre o bebé. Anunciamos depois da lua-de-mel, propõe.

Rio-me, porque não? a família fica entusiasmada com o casamento, a Mãe e a Teresa oferecem os serviços da empresa de catering que abriram recentemente, a Luísa fica um pouco relutante.

Comida vegetariana num casamento? repete, não, claro que não, vamos ter pratos um pouco exóticos e claro que vai haver um vegetariano, mas vais gostar, tranquilizo-a.

A Rita encarrega-se dos convites, a Matilde ajuda-nos a fazer a lista de convidados e a Clarinha faz uma birra monumental porque quer ser a dama de honor.

A muito custo, a Luísa convence-a de que este é um casamento moderno, que o importante é a família estar reunida e divertir-se.

Não é um desfile de moda, é uma reunião familiar, explica, é para celebrar o momento, ninguém tem um papel especial, porque todos são especiais e a minha irmã fica mais ou menos satisfeita.

Decidimos passar a lua-de-mel num sítio exótico e quente, passamos a noite de núpcias num hotel perto do aeroporto, porque o avião é muito cedo.

Escolhemos uma ilha nas Caraíbas e no primeiro dia em que exploramos o local onde nos alojamos, vejo alguém extremamente parecido com o Major.

Será o filho que desapareceu? Não, penso, seria coincidência a mais e dedico-me de corpo e alma a usufruir da companhia da minha mulher.

FIM

domingo, 6 de junho de 2021

O ENCONTRO - PARTE V

 

Exactamente o que penso, confesso, a família faz parte de mim, da minha vida.

Depois teremos que organizar a agenda, diz a Luísa, porque quero que conheças os meus Pais e os meus irmãos. É justo, não é?

Claro, claro, apresso-me a concordar e suspiro de alívio.

Esta relação tem tudo para dar certo, admito à Rita naquele domingo.

A Luísa encantou toda a gente, conversa animadamente com a Matilde e até a Clarinha a escuta com atenção, calma, calada.

Ela parece simpática, até conquistou a Clarinha, observa a minha Tia, estou muito contente por ti. Ela é advogada, não é?

Sim, trabalha nos Recursos Humanos, confirmo, porquê? O que se passa?

Nada, nada, repete a Rita, não te preocupes! É bom saber que há um advogado na família... 

O Gonçalo chama-a, a Francisca acordou e reclama a Mãe e a Rita afasta-se, deixando-me pensativo.

O almoço é um sucesso, a Mãe conhece a quinta dos Pais da Luísa, vai ter uma reunião com eles para discutir uma parceria naquela semana, a minha companheira fica entusiasmada.

Adorei-os, exclama a Luísa quando regressamos a casa, a tua Mãe é muito simpática e a Clarinha é um doce!

Rio-me, não digas isso, ainda não foste testemunha de um dos ataques de fúria e a Luísa sorri.

Não pode ser tão grave assim, observa a minha companheira e é então que me diz que recebeu uma proposta de trabalho.

Da minha tia Rita? pergunto, o que é que andas a fazer Rita? penso, mas a Luísa abana a cabeça.

Não, não, uma colega minha da faculdade vai sair da empresa onde trabalha e deu o meu nome, contactaram-me na semana passada, conta, é uma proposta interessante.

Mas não gostas de trabalhar no Departamento de Recursos Humanos? claro, mas acho que está na altura de voar, explica a Luísa, explorar novos horizontes.

A Luísa continua a sorrir, está entusiasmada, e depois, acrescenta, é melhor trabalharmos em locais separados.

Abro a minha boca de espanto, a Luísa está a pensar num futuro juntos.

CONTINUA


sábado, 5 de junho de 2021

O ENCONTRO - PARTE IV

 

Explico sucintamente como é que a Clarinha acabou por ser adoptada pelos meus Pais, não falo dos problemas que estamos agora a ter com ela, é cedo demais.

A Luísa fica impressionada, é um acto de coragem adoptar uma criança, diz, mas todas as crianças merecem amor, família... Gostava de a conhecer, acrescenta, e aos teus Pais também.

Agora sou eu quem fica impressionado, conhecer os meus Pais foi sempre um problema para as minhas ex e nem me quero lembrar da razão porque eu e a Catarina terminamos.

A Luísa continua a falar, tem dois irmãos mais velhos e uma irmã mais nova, os Pais têm uma pequena quinta, estão a explorar a agricultura biológica, talvez a tua Mãe esteja interessada em os conhecer, sugere.

Fico calado, sorrio, a Luísa também e temos pena quando o jantar termina.

Não estamos interessados em ir para um bar, por isso, damos um passeio pelas ruas desertas.

Acabamos por parar em frente do prédio onde vivo e sem dizermos nada, subimos e passamos a noite juntos.

A partir daí, a vida é diferente, a Luísa é a companheira ideal, sabe gerir o tempo e até acabo por cancelar a inscrição no ginásio, porque ela é adepta da vida ao ar livre.

A minha Mãe fica surpreendida quando sabe que agora corro todas as manhãs e faço também remo.

AH, grita a Matilde, tens uma nova namorada! e eu fico sem saber o que dizer, fico corado e a minha irmã ri-se, é verdade, tens uma nova namorada, quem é ela? repete.

Até a Clarinha fica curiosa e as três insistem que a convide para o almoço de domingo, vem a Rita, o Gonçalo e a Francisca, enumera a minha irmã mais nova.

Ainda bem, penso, a Rita vai equilibrar as coisas e nessa noite, conto à Luísa.

Então, vou conhecer a família toda? observa e eu encolho os ombros, menos o meu Pai que está de serviço, mas depois combinamos qualquer coisa com ele.

Ok, fala-me deles, preciso de ter alguns detalhes, pede a minha namorada, não te preocupes, exclamo, eles vão adorar-te. És diferente... e paro.

Diferente de quem? pergunta a Luísa e eu suspiro, lembrei-me da Catarina e do motivo estúpido porque nos separamos.

Da minha ex-namorada, terminou tudo comigo porque não queria aturar a birrenta da minha irmã, não havia qualquer escolha a fazer, continuo.

A Luísa fica calada por uns minutos, claro que não, concorda, os meus irmãos fazem parte da minha vida, se não os aceitam, eu estou fora.

CONTINUA


sexta-feira, 4 de junho de 2021

O ENCONTRO - PARTE III

 

A ideia da Matilde de se matricular a Clarinha num colégio interno é rejeitada de imediato pelos nossos Pais e eu concordo com eles.

É um bilhete para situações complicadas. observo e ficamos num impasse, não sabemos verdadeiramente o que fazer.

A Mãe sugere falar novamente com a psicóloga, talvez nos ajude a encontrar uma outra solução, diz, mas eu duvido, não acertou até agora, não vai ser diferente. 

A Mãe quer que fique para jantar, mas eu recuso. Estou cansado, amanhã tenho um longo dia e quero deitar-me cedo.

Mas estou ansioso demais, decido ir até à marginal e dar um passeio pelo paredão.

Encontro a Luísa e uma amiga lá, sentadas num café a observar o pôr-do-Sol e após as apresentações, convidam-me a sentar.

Ficamos lá até o Sol desaparecer por completo e despedimos-nos no parque de estacionamento.

A Luísa faz-me prometer que lhe telefono no dia seguinte para combinarmos qualquer coisa, mas a semana é tão caótica que só lhe consigo telefonar na quinta-feira ao fim da tarde.

Combinamos um jantar no fim de semana, conheço um restaurante italiano óptimo, explica, e depois podemos ir até ao Bar da Esquina, continua, é onde geralmente me encontro com os meus amigos.

Fico curioso, não conheço o tal bar, eu e os meus amigos gostamos mais da zona baixa da cidade.

A Luísa está deslumbrante quando a vou buscar a casa, um vestido branco e preto, o cabelo preso com uma fita da mesma cor e sapatos altos.

Conversamos sobre tudo, menos trabalho, pede quando nos sentamos à mesa, tive uma semana cheia.

Eu também, confesso, é um trabalho interessante, mas muito exigente. Temos mesmo que desligar se não ainda temos uma depressão como o Pires.

A Luísa concorda, a baixa foi renovada, deve estar muito mal, comenta, mas vamos pensar noutra coisa. Quero saber tudo sobre ti... Tens irmãos?

Na meia hora seguinte, conto que o meu Pai é Inspector da Judiciária e a minha Mãe é sócia de uma loja gourmet, bem, explico, acho que lhe podemos chamar uma cadeia - já são três lojas.

Onde? e a Luísa ri-se quando lhe digo onde é, pois compra lá muita coisa, provavelmente até conheço a tua Mãe, exclama.

Não digo que não, o nome dela é Madalena, pede para falar com ela quando lá fores, respondo, depois há a Matilde, que está a estudar design, deve faltar mais um ano e a Maria Claria, a Clarinha, a irmã adoptiva.

Tens uma irmã adoptiva? repete a Luísa, interessante, que idade tem?

CONTINUA

quarta-feira, 2 de junho de 2021

O ENCONTRO - PARTE II

 

A ver TV, responde a minha irmã muito descontraída, estou aborrecida com a Mãe e por isso, escapei-me para aqui.

Mas estás doida? protesto, pensei que esta fase de estupidez tinha passado e depois, não podes entrar aqui quanto te apetece. Avisaste a Mãe?

A Clarinha suspira, olha para mim com cara de poucos amigos e diz, não, não disse, mas ela deve saber. Tirei-lhe as tuas chaves da carteira.

MARIA CLARA, grito exasperado, mas o que é que se passa contigo? e apresso-me a telefonar à minha Mãe.

Ainda bem que ela está contigo, confessa, já telefonei a todas as amigas dela, ia avisar o Pai para ele contactar os colegas.

Isto não pode voltar a acontecer, comento, temos que voltar a falar com ela como família, acrescento, eu levo-a.

A Clarinha não fica nada satisfeita quando anuncio que a vou levar a casa, grita alto, quem a ouvir, pensa que a alguém a está a maltratar.

Perco a paciência e dou-lhe uma bofetada, o que nunca tinha feito na vida e nos surpreende. 

A Clarinha cala-se de imediato, veste o casaco sem protesto e a viagem até casa dos Pais decorre em silêncio.

Mal entra em casa, a Clarinha vai de imediato para o quarto, a Mãe interroga-me com o olhar.

Falamos amanhã, é tarde, estamos todos cansados, aviso, estou cá por volta das seis e meia, ok?

Volto para casa, deito-me e acordo muito tarde.

Ainda bem que é sábado, penso enquanto me preparo para ir ao ginásio.

À saída, vejo o cartão da Luísa na mesa de entrada, telefono ou não? é capaz de ser cedo demais e já deve ter planos.

A verdade é que gostei muito de conversar com ela, não é nada fútil, está bem informada sobre as coisas e eu aprecio isso numa mulher.

Mas primeiro tenho que resolver esta questão da Clarinha, continua a ser muito difícil lidar com ela e nem ao Pai, que adora, ela obedece.

Não falamos muito sobre isso, mas temos medo que um dia ela fuja de casa e não volte.

CONTINUA