domingo, 31 de outubro de 2021

SOFIA COMO A POETISA PARTE II

 

O Pai olha para o relógio, são horas de fechar a luz e dormir, diz, mas ainda não acabei, protesto.

Amanhã, amanhã acabas, repete o Pai, ajuda-me a meter na cama, dá-me um beijo e saí, fechando a porta.

Fico um pouco amuada, mas acabo por adormecer e quando acordo, já não me lembro do desenho.

Estamos atrasados, o Pai tem uma reunião importante, por isso, é a Mãe quem nos leva à escola.

A Inês já lá está, tenho uma coisa para vos mostrar, sussurra, falamos no recreio!

Eu e o Gonçalo olhamos um para o outro, o meu irmão encolhe os ombros, mas eu tenho quase a certeza de que vamos ter sarilhos.

Mas confesso que estou curiosa e sigo a Inês quando nos faz sinal para nos escondermos atrás da árvore.

Continuamos à vista de todos, mas estamos longe o suficiente para não ouvirem o que a Inês vai revelar.

Já sei como podemos escapar e ir até ao Parque, conta a minha prima e mostra dois cartões azuis.

O que é isso? pergunta o Gonçalo, bilhetes de autocarro, explica triunfante a Inês, não sabes o que é???

Raramente andamos de autocarro, responde o meu irmão, ofendido e eu tiro um dos bilhetes da mão da Inês.

Tens a certeza de que isto serve para andarmos de autocarro? observo, claro que sim, replica a Inês, tirei-os da carteira da Filipa.

Mas a Filipa tem um carro, preciso disto para quê? exclamo e a Inês suspira, exasperado, estes meus primos são mesmo burros! deve pensar.

Não sei, acho que não devemos fazer isso! estou hesitante, lembro-me da conversa de ontem ao jantar, os nossos Pais não vão gostar nada! 

Ora, são uns medricas! declara a minha prima, temos que explorar o Mundo! 

O Gonçalo volta a olhar para mim, está curioso, quer ter uma aventura, mas ao mesmo tempo, tem medo do que acontecerá depois.

Não, nós não vamos! E tu não deves ir ou não te lembras do sarilho que foi quando te escondeste na casa de banho? afirmo e a minha prima empurra-me furiosa.

Caio ao chão e a Inês grita, vocês são uns cobardes!!!! UNS COBARDES!!! e atraí a atenção de uma das auxiliares.

Então, Inês? Que modos são esses? repreende, o que estão aqui a fazer sozinhos? Porque é que não estão a brincar com os outros meninos?

A Inês não responde, passa pela auxiliar sem dizer nada e nós baixamos os olhos, murmuramos uma desculpa.

CONTINUA

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

SOFIA COMO A POETISA

 

Não me importo de viver na sombra da minha prima Inês, sempre tão exuberante.

Participo nas brincadeiras que ela inventa para gozar o momento, ouço calada o discurso do Pai sobre boas maneiras e respeito pelos outros, mas esqueço de imediato.

É que descobri as letras e estou fascinada com a maneira como formam as palavras.

A Mãe encontra-me muitas vezes sentada no chão do quarto a tentar decifrar as palavras das histórias que lê à noite à hora de dormir.

Sorri, um sorriso que lhe ilumina os olhos e nos faz confiar nela de imediato e senta-se também no chão.

Juntas, lemos as palavras, construímos as frases e fazemos desenhos.

Nem a Inês nem o Gonçalo têm paciência para isso, conta o meu irmão que a professora está sempre a chamar-lhe a atenção.

Imagino como deve ser difícil para a Inês ficar fechada numa sala e a pedirem-lhe para repetir as letras.

A Carolina disse-me que a chamaram novamente à escola, diz a Mãe nessa noite ao jantar, a Inês escondeu-se na casa de banho, andou toda a gente à procura dela e encontraram-na na paragem de autocarro. Queria ir até ao parque, estava um dia muito bonito!

O Pai ri-se, a tua irmã não deve estar nada feliz, comenta e a Mãe abana a cabeça, a partir de agora, a Inês vai ter uma " sombra", uma das auxiliares e não deve estar nada contente, responde.

Meninos, não se saí da escola sem a Mãe ou o Pai chegarem. Podemos estar atrasados, vocês ficam ao pé da auxiliar ou do segurança, estamos entendidos? frisa o Pai, somos incapazes de fazer isso! e o Gonçalo mostra-se indignado.

Ok, o Pai morde os lábios, mas é sempre bom lembrar! repete solenemente, claro que sim, Pai! Nós compreendemos! declaro.

Os Pais trocam um sorriso, o jantar termina, lavar os dentes, vestir o pijama, a Mãe lê uma história ao Gonçalo, eu prefiro desenhar.

Aprendi uma palavra nova hoje, estou a desenhá-la, como me soa, o que desperta na minha imaginação e vejo que o Pai está curioso, interessado.

Mas não sei bem como lhe explicar o que significa.

CONTINUA

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

CLARINHA FIM

 

A minha vontade é chamar um táxi e ir-me embora, mas o Sérgio não quer ouvir disso, não sejas casmurra! É sexta-feira, vamos divertir-nos!

Chego a casa por volta das três da manhã, abro a porta do quarto da Matilde, a cama está vazia, está em casa do Bernardo, é a conclusão óbvia.

Vou para o meu quarto, tenho que ficar acordada, quero ver a que horas ela chega, mas estou tão cansada que adormeço mal me estendo na cama.

Acordo tarde e maldisposta, ouço vozes na cozinha, será a Mãe? não foi trabalhar? acho que este é o fim de semana dela na loja.

Levanto-me, arrasto-me pelo corredor e entro na cozinha onde a Matilde e o Pai, ainda de pijama, conversam animadamente.

Olá, divertiste-te ontem? pergunta a Matilde alegremente e eu olho-a sem uma palavra, ela está realmente diferente!

Está mais descontraída, mais efusiva, quase parece a Matilde do antigamente. Como é que não me apercebi disso? e por isso, não respondo.

Mas acho que a Matilde não quer saber verdadeiramente, pois diz,  vou vestir-me, e levanta-se, eu e o Bernardo vamos fazer umas compras e  ao cinema logo à tarde, ainda não sei.

O Pai sorri, boa ideia, afirma, Matilde? e a minha irmã pára, fica à espera que o Pai continue, é muito bom ver-te tão feliz!

A Matilde sorri, inclina-se, dá-lhe um beijo na face e desaparece.

Senta-te, Clarinha, convida o Pai, toma o pequeno almoço, conta-me tudo sobre a tua saída.

Mas eu não quero falar das minhas aventuras de ontem à noite, quero saber o que se passa com a Matilde.

Ela anda com o Bernardo? e é a vez do Pai me olhar atentamente.

Sim, ela e o Bernardo estão juntos. Gostam da companhia um do outro, têm muitos interesses em comum, está a ser muito bom para ela!

Não vejo como, ela dá sempre cabo de tudo! protesto cruelmente e o Pai "veste" a pele do Inspector, vejo que fiz asneira.

A voz do Pai é fria, estás a falar da tua irmã, observa, sim, a Matilde cometeu erros, mas tenho a certeza que aprendeu com isso e vai fazer tudo para ultrapassar a situação. Se o Bernardo a ajudar, tanto eu como a tua Mãe vamos ficar muito satisfeitos! Por isso, pensa antes de dizeres uma asneira e apoia a tua irmã!

Não me atrevo a falar novamente, mas tenho as minhas dúvidas.

Será que as coisas vão resultar com o Bernardo?

 E eu? Como é que fico?

Sempre sonhei que ficaria com o Bernardo um dia...

FIM

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

CLARINHA PARTE VI

 

Todos, à excepção da Luísa e da Mãe que preferem o yoga, inscrevem-se numa aula de hidroginástica às sextas-feiras ao fim da tarde.

Ás vezes, jantamos juntos num restaurante perto e os mais novos vão até a um bar, dançar numa discoteca da moda.

Naquela sexta-feira, a Luísa e o Gustavo têm outros planos e por isso, só eu, a Matilde e o Bernardo é que vamos até ao bar.

Estou um pouco cansado, diz o Bernardo, não vamos ficar até tarde, ok? e a Matilde concorda.

Eu fico um pouco amuada, estou cheia de energia, sair daqui à meia noite, uma hora, vai ser um grande sacrífico.

Felizmente, alguns dos meus colegas escolheram aquele bar para tomarem umas bebidas e em breve, estou envolvida numa nuvem de conversa alta, " bocas maldosas" e risos histéricos.

A minha irmã e o Bernardo ficam num canto do bar, a conversar baixinho, mas eu vigio-os pelo canto do olho.

Convido-os a juntarem-se ao grupo, mas eles apenas sorriem, não, são teus colegas, diverte-te, responde a Matilde.

Não digo mais nada, gosto de movimento, de alegria, às vezes, eles os dois conseguem ser muito aborrecidos.

É a vez do Sérgio pagar as cervejas, perdeu uma aposta qualquer, não prestei atenção e é quando recebo o meu copo que volto a olhar para o canto onde deixei o Bernardo e a Matilde.

Quase deixo cair o copo, há uma gargalhada geral e uma " boca maldosa", mas eu fico gelada.

O Bernardo e a Matilde estão a beijar-se, um beijo calmo, adivinho o prazer sentido pelo ar sonhador da minha irmã.

Mas o que é isto? murmuro, tenho vontade de esbofetear a Matilde, o Bernardo é meu! Estás a perceber? quero gritar, mas os dois levantam-se calmamente, beijam-se novamente e aproximam-se do grupo.

Clarinha, nós vamos embora, explica o Bernardo, será que um dos teus amigos te leva a casa?

Claro que sim, não se preocupe, nós prometemos entregá-la sã e salva, atalha o Sérgio de imediato e o Bernardo sorri, não exagerem na bebida, queremos realmente que ela chega a casa sã e salva.

A Matilde aperta-me a mão, tem cuidado, não chegues muito tarde! pede e os dois despedem-se.

Tenho quase a certeza de que vão para casa dele e sinto uma pontada de ciúmes.

CONTINUA

terça-feira, 26 de outubro de 2021

CLARINHA PARTE V

 

Então, Clarinha, o que estás a fazer? pergunta-me e fica espantado quando lhe digo que estou a estudar Ciências de Educação.

O meu objectivo é ser Ministra da Educação e revolucionar o ensino, concluo e o Gustavo ri, vou ter uma irmã activa na política, brinca, mas o Bernardo está muito sério.

É uma ideia interessante, Clarinha, quais são os teus planos exactamente? insiste e escuta atentamente os meus planos.

Podem não resultar, às vezes, no papel, as coisas parecem ter cabeça, tronco e membros, mas depois...e a Matilde abana a cabeça.

Todos a olhamos surpreendidos, há muito tempo que ela não dizia uma frase completa, os comentários limitavam-se às palavras "sim", " não", " talvez".

O que eu quero dizer, continua a Matilde, um pouco corada, pois é o centro das atenções, na prática, muitas ideias não resultam.

Teremos que as adaptar às situações, concorda o Bernardo, como aproveitar um ribeiro que passa pelo terreno onde queremos construir... 

Ou investigar a fundo uma pista que nos parece pouco viável e afinal é a solução para o caso, interrompe o Pai e a Mãe suspira.

É domingo, não vamos falar de trabalho, observa, quero saber tudo sobre a tua irmã, pede e durante a meia hora seguinte, o Bernardo é um irmão babado, mostra várias fotos da Leonor, confessa que a vai estragar com mimos.

A Mãe já está preocupada, confessa, está a preparar-se para ser a má da fita, mas esse é o papel dela. Eu quero ser o irmão " cool"...

Até ela começar a namorar, comenta a Luísa, o meu irmão foi uma autêntica peste, fazia um interrogatório cerrado a todos os meus namorados. Tu tiveste sorte, e sorri ao Gustavo, ele gosta de ti!

Isso é porque deixava a equipa dele vencer, afirma o meu irmão, por falar nisso, tenho que voltar a jogar voleibol, ver se perco algum peso. E tu, não queres tentar?

Eu ainda não posso praticar desportos violentos, explica o Bernardo, mas estou a pensar em inscrever em aulas de natação, melhorar o " crawl".

Podíamos ir todos, sugiro, não seria engraçado, termos aulas juntos?

Até mesmo eu e a Mãe? pergunta o Pai e eu fico sem saber se está a falar a sério ou a brincar.

CONTINUA

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

CLARINHA PARTE IV

 

Volto para a sala, decidida a monopolizar a atenção do Bernardo, mas este está a falar sobre Cabo Verde e todos escutam atentamente.

Até mesmo a Matilde, conheces o Bernardo desde pequena, vais estar presente, sim, senhora, olha o disparate, disse a Mãe ontem à noite e a minha irmã não se atreveu a protestar.

Há pequeno sorriso nos lábios dela, o quê? pôs Gloss? e deixou o cabelo solto, escolheu também uma T-Shirt branca em vez das pretas que usa normalmente.

O Bernardo sorri-lhe, pergunta-lhe qualquer coisa que não entendo, estou tão surpreendida que nem sei bem como agir.

A Matilde sorri, responde calmamente às perguntas, o Pai e o Gustavo olham um para o outro, suspiram de alívio.

Mas que segredos são esses? interrompo bruscamente a conversa entre os dois, diz-me, Bernardo, vais voltar para lá?

Maria Clara, deixa o nosso convidado em paz, protesta o Gustavo e o Pai faz-me sinal para o seguir.

Estás a ser inconveniente, Maria Clara, observa quando chegamos ao corredor, deixa o Bernardo falar com a Matilde, há muito tempo que não está assim tão relaxada...

Eu também quero conversar com o Bernardo, é meu amigo, afirmo e o Pai abana a cabeça, assumiu a postura séria do Inspector Bernardes e repetes, deixa o Bernardo em paz, ele fala contigo quando achar conveniente.

Passo o almoço amuada, todos estão interessados no que o Bernardo tem a dizer sobre a vida em Cabo Verde, os projectos que desenvolveu lá e as novas propostas de trabalho.

Para já, vou ficar por cá, explica, quero desfrutar da companhia dos meus Pais, estragar a minha mana com mimos... sorri, vou continuar a dar apoios à equipa de Cabo Verde, foi o que combinei com a empresa, mas já me falaram em novos projectos...

Mas lá em Cabo Verde também? quer saber a Mãe, mas o Bernardo abana a cabeça, talvez não, treinei uma boa equipa e estou pronto para outros voos.

Ah, és uma águia, brinco, mas ninguém acha piada e o Gustavo pisa-me o pé.

Dou um grito de dor, mas antes que pense em responder, o Pai intervém, Maria Clara, estou mais interessado em ouvir o que o Bernardo tem a dizer do que as tuas brincadeiras, por isso, cala-te. Continua, Bernardo, pede.

Sim, não ligues a esta melga, corrobora o Gustavo, lembras-te como ela nos seguia?

O Bernardo ri, pisca-me o olho.

CONTINUA

domingo, 24 de outubro de 2021

CLARINHA PARTE III

 

Alguém nos chama para jantar, o Gustavo não responde à minha pergunta, a Matilde está sentada à mesa, mas não fala com ninguém.

Tenho quase a certeza de que não está a prestar atenção à conversa, logo ela que sempre se mostrou activa, criativa.

O que é que se passa com ela? Abano a cabeça, nunca a vou entender...

O Gustavo e a Luísa despedem-se, a Matilde ajuda a Mãe a arrumar a cozinha e eu fecho-me no quarto.

Quero impressionar o Bernardo, a roupa tem que ser ousada, mas não demasiado, se o for, corro o risco da Mãe me dizer para mudar.

As roupas ficam espalhadas em cima da cama, sou incapaz de decidir, suspiro, tenho que comprar nova, mas será que vou convencer a Mãe?

Por isso, quando abro a porta ao Bernardo, estou com jeans e uma T-Shirt branca, nada ousado, apenas confortável.

O Bernardo está magro, parece cansado, mas continua a ter o mesmo sorriso calmo, discreto de que me lembro.

Fica surpreendido por me ver tão crescida, percebo isso no olhar dele, mas puxo-o para dentro, cumprimento-o com um beijo e um abraço.

Olá, olá, cumprimento excitada, como estás? Já sei que tens uma mana, conta tudo e o Bernardo ri-se.

Vejo que continuas a falar depressa, tem calma, responde, isso, Clarinha, tem calma, não o ataques já! interrompe o meu irmão, saindo da sala onde estava a conversar com o Pai.

Olá, Bernardo, entra, deixa essa melga aí e vem conversar com os adultos, convida o Gustavo, a olhar-me de soslaio.

Morde os lábios, tenho vontade de lhe dar um pontapé, mas isso não seria digno da pessoa que quero ser para o Bernardo.

Que disparate, Clarinha, observa a Mãe quando lhe conto o que se passou, nunca foste uma pessoa discreta, não vais começar agora!

CONTINUA

sábado, 23 de outubro de 2021

CLARINHA PARTE II

 

A sala fica desarrumada num segundo, sei que a Mãe não vai gostar nada, mas o que eu gosto mesmo é de ver o Júnior com os olhos a brilharem e a sorrir.

Até o Gustavo parece mais confortável, a Luísa deve ser uma pessoa muito fria, nunca gostei dela.

A porta abre-se, mas não é a Luísa, é o Pai que se finge escandalizado, mas o que se passa aqui? Tenho que vos levar para a esquadra para serem interrogados? e todos começamos a rir.

A Mãe e a Luísa são atraídas pelas gargalhadas, também queremos ser parte da festa? diz a Mãe, mas a mulher do Gustavo solta um " oh" escandalizado, está tudo desarrumado!

A Clarinha arruma isto num instante, não é verdade? decide a Mãe e eu sorrio contrariada, detesto tarefas domésticas, mas não adianta protestar, todos temos que colaborar para que esta casa esteja um brinco, é a regra da família.

Eu ajudo-te, oferece-se o Gustavo e quinze minutos mais tarde, a sala está novamente apresentável.

Conta-me, peço, como é que está o Bernardo? Regressou de vez?

Ele vem almoçar cá amanhã, porque é que não lhe perguntas? responde o meu irmão, mas não sejas chata!

Eu nunca sou chata! protesto e o meu irmão ri-se, não, isso é verdade! És original e nunca vamos esquecer as tuas fugas criativas, observa, as dores de cabeça que nos provocaste... como é que podes ser chata? repete.

Era uma catraia na altura, não sabia nada da vida! comento e o o Gustavo dá-me uma palmada amigável nas costas.

Sabes que és a minha irmã favorita? diz baixinho e suspira.

Está a pensar na Matilde; ainda não apareceu, está fechada no quarto.

Achas que é saudável ela passar tanto tempo fechada no quarto? pergunto e o Gustavo volta a suspirar.

CONTINUA

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

CLARINHA

 

Creio que toda a gente está espantada, faço vinte anos este ano.

Acho ridículo os comentários tipo " ah, já vais fazer 20 anos??? Meu Deus, como o tempo passa, conheci-te bebé de colo".

Claro que tenho que crescer, ser livre, conhecer o Mundo.

Está a ser um pouco complicado convencer os Pais a deixarem-me viajar para Ibiza com os meus colegas; mas eu não sou a Matilde, não vou cometer uma estupidez como aquela!

Embebedar-me até cair, acordar num sítio estranho ao lado de pessoas desconhecidas... quem é que faz isso???

A Matilde é praticamente uma reclusa, só saí para trabalhar e entra em pânico se há alguma alteração na rotina.

Parva! chamo-lhe muitas vezes e a minha irmã desata a chorar, o que me enfurece.

A Matilde da minha infância era aventureira, alegre; e não, não compreendo esta mudança.

Cuidado com a língua! aconselha o Gustavo, deixa-a em paz se não a sabes ajudar!

Ajudar? repito, mas ajudar como? e o Gustavo suspira, abana a cabeça, às vezes, consegues ser muito irritante! diz

Atiro-lhe uma almofada, ele finge-se ofendido e devolve-ma com violência.

Mas o que é que vocês estão a fazer? interrompe a Luísa, parecem duas crianças! O teu filho comporta-se melhor do que tu! observa e saí da sala como se a tivéssemos ofendido.

Nunca a vou compreender, não entendo porque é que o Gustavo casou com ela.

É fria, rígida, pouco simpática, até penso que o Júnior tem medo dela!

Reparo que o miúdo está sentado atrás do sofá, anda cá, Júnior, vem brincar connosco, convido e o meu sobrinho levanta-se, avança um pouco a medo.

Porque é que lhe chamaste Gustavo? Com tantos nomes que há por aí? insisto e o meu irmão encolhe os ombros.

O meu sogro também se chama Gustavo, como se isso justificasse tudo.

CONTINUA





quinta-feira, 21 de outubro de 2021

O DOENTE FIM

 

A Leonor parece gostar da voz do irmão, cala-se e este passa-a cuidadosamente para os braços da Mãe. 

A Aída deixa a sala, dou-lhe de comer, adormeço-a e tento dormir também, murmura.

O Bernardo ainda fica a falar com o Pai, mas estão os dois tão exaustos que o Bernardo despede-se uns minutos depois.

Nos dias seguintes, o Bernardo estabelece uma rotina, trabalha umas horas durante a manhã, depois de almoço, descansa e ao fim da tarde, vai dar uma volta ao quarteirão.

Evita centros comerciais, estar no meio de muita gente faz-lhe confusão, procura lojas, restaurantes de bairro.

Quando o Gustavo lhe telefona para combinarem o almoço no domingo seguinte, o Bernardo sente-se mais " humano".

Nem sei bem o que é que isso quer dizer, confessa ao amigo, mas sinto-me mais relaxado, mais alerta, com mais interesse no Mundo!

O Gustavo também se ri, é bom sinal, estás a recuperar, observa, e a Princesa?

A minha Mãe diz que é uma safada, conta o Bernardo, mas estamos todos babados e a pensar como a nossa vida era vazia sem ela!

O amigo volta a vir, o almoço vai ser em casa dos Pais dele, à uma da tarde, frisa e desliga.

O Bernardo telefona aos Pais, a Leonor foi um pequeno diabo esta noite, explica o Pai exausto e não põe qualquer objecção quando o filho lhe diz que vai almoçar em casa do amigo.

Claro, claro, é uma boa ideia, diverte-te, responde, e não te preocupes connosco! Os teus tios vêm cá passar o dia, não vamos estar sozinhos.

Nessa noite, o Bernardo passa em revista a roupa que tem, está um pouco "demodé" e por isso, no dia seguinte, vai fazer umas compras.

Corta o cabelo, sente-se um homem diferente quando toca à campainha naquele domingo.

Está ansioso por os rever, sempre se sentiu um membro da família, será que isso continua presente?

É o que está a pensar quando abrem a porta e o Bernardo fica de boca aberta a olhar para a jovem elegante que lhe sorri trocista.

Não te lembras de mim? e o Bernardo respira fundo, deve ser a Clarinha, a miúda que o seguia para toda a parte e que deve ter agora vinte anos.

Bolas, como está velho!


FIM


quarta-feira, 20 de outubro de 2021

O DOENTE PARTE V

 

O Gustavo despede-se pouco depois, obrigações familiares, diz, mas telefono-te para combinarmos o almoço, ou em minha casa ou na dos meus Pais.

O Bernardo suspira, volta a sentar-se, liga o computador, vê os emails, mas não há nada da Cristina.

Volta a suspirar, tenta não pensar na última conversa que tiveram e prepara qualquer coisa para o jantar.

O Pai telefona-lhe, a Mãe e a irmã saem no dia seguinte, está a arrumar a casa, quero que esteja tudo perfeito! explica e o filho sorri.

Amanhã, vou à clínica, avisa, passo lá por casa ao fim da tarde, não queres que vá contigo? pergunta o Pai, mas o Bernardo recusa, não, vai ter com a Mãe, ela precisa da tua companhia.

No dia seguinte, o médico mostra optimista, acha que está a recuperar bem, mas vamos esperar os resultados dos exames, aconselha, até lá, descanso e mais descanso, nada de preocupações com o trabalho!

O Bernardo ignora o conselho, tem já uma reunião com o Director do Departamento, este quer discutir os projectos em curso em Cabo Verde.

O Bernardo promete enviar-lhe as conclusões finais, até propõe continuar a trabalhar, não full time, o médico quer que esteja em repouso, explica, mas posso analisar novos projectos a partir de casa!

Discutem os detalhes, o Bernardo promete começar dali a dois dias e segue para casa dos Pais.

A casa está cheia de gente, são os vizinhos que apareceram para conhecer o novo membro da família e trouxeram comida.

A mesa está cheia de coisas deliciosas, o Bernardo sente finalmente fome, é bom sinal, pensa e prova um rissol, até fecha os olhos tão bem lhe sabe.

As pessoas despedem-se, tens que descansar, se precisares de alguma coisa, bate à porta, telefona, dizem e a Aída respira de alívio.

Estou muito cansada, confessa, acho que me vou deitar, não sem antes comeres alguma coisa, interrompe o marido, aliás, vamos todos comer qualquer coisa e agora! sugere, a Princesa Leonor pode acordar e reclamar toda a nossa atenção!

A Aída concorda, não está com cabeça para decidir nada, senta-se à mesa enquanto o marido e o filho organizam o jantar.

Estão a meio do prato principal quando a Princesa Leonor anuncia que está acordada e que tem fome.

Ups! Que pulmões! observa o irmão e levanta-se, desaperta o cinto da cadeirinha.

A Leonor está agitada, parece que está a franzir o sobrolho, mas o que é isso, menina? Calma, que ninguém se esqueceu de si! ralha o irmão.

CONTINUA



terça-feira, 19 de outubro de 2021

O DOENTE PARTE IV

 

O Bernardo suspira, quer esquecer tudo, descansar, pensar no próximo passo.

O telemóvel toca, é o Gustavo, oh, pá, estás cá e não dizes nada? protesta e o Bernardo explica-lhe o que se tem passado.

Combinam encontrar-se no dia seguinte, o Gustavo passa lá por casa antes de jantar, não posso ficar muito tempo, tenho que ajudar a Luísa com o miúdo, desculpa-se, mas fazes-me o resumo.

O Pai bate à porta, está nervoso, ansioso, quer conhecer a herdeira e o Bernardo ri-se.

A Leonor está a dormir, a Aída está feliz e os três conversam baixinho.

Estás bem, filho? pergunta a Aída e o filho acena que sim, mas não convence o Pai.

É melhor irmos embora, estás a ficar cansado, observa, a tua Mãe também tem que descansar, voltamos amanhã.

Na rua, o Bernardo fica parado uns minutos, custa-lhe a respirar, vamos levar qualquer coisa para comer, insiste o Pai, e depois vais dormir. Eu vou buscar uns coisas a casa e fico lá a dormir.

Não preciso de babysitter, brinca o filho, mas o Pai ignora-o, está muito preocupado, não será melhor marcar uma consulta urgente na Unidade de Saúde? Ter outra opinião? continua, mas o Bernardo abana a cabeça.

Tem seguro da empresa, já tem consulta e uma série de exames marcados numa clínica, não te preocupes, responde, isto está controlado.

O Pai fica calado, decide ir com ele à consulta, quer falar com o médico, o Bernardo fica um pouco contrariado, oh, Pai, tenho quase 30 anos! Sou uma pessoa responsável! mas o Pai consegue ser tão teimoso como ele.

O Gustavo ri-se quando lhe conta, está mais gordo, pensa o Bernardo, é o peso das responsabilidades, comenta o amigo, mas agora que tenho tudo mais organizado, vou voltar ao ginásio! Eu e a Luísa! acrescenta, as avós ofereceram-se para ficar com o rapaz! Por isso, vamos aproveitar...até para uma escapadela de vez em quando!

Como está a Matilde? E a Clarinha? e o Bernardo sorri ao lembrar-se da miúda que o seguia como um cachorrinho.

O Gustavo hesita, falar da Matilde é sempre um pouco complicado, mas o Bernardo conhece-se desde miúda, tem o direito de saber que a irmã está em tratamento e está a reagir bem.

A Clarinha continua a ser aquele furacão que conheces, diz, tens que lhe telefonar ou ir lá a casa, por vontade dela, já te tinha telefonado, a Mãe é que a convenceu a esperar! Estás doente, ainda te estás a instalar, tiveste uma irmã, etc...

O Bernardo volta a rir, hoje sente-se com mais forças, está mais relaxado.

CONTINUA



segunda-feira, 18 de outubro de 2021

O DOENTE PARTE III

 

A Leonor chega por volta das duas da tarde, uma verdadeira guerreira, comenta a enfermeira, já está a impor a vontade dela no bercário.

Os dois homens respiram de alívio, o Pai está verdadeiramente emocionado, até tem lágrimas nos olhos.

Espero que tenhas tido a mesma reacção quando eu nasci, brinca o Bernardo e em resposta, o Pai abraça-o fortemente.

Mãe e filha têm que descansar, voltem ao fim da tarde, aconselha a enfermeira e os dois saem para a rua.

O Bernardo está muito cansado, acha melhor voltar para casa, como qualquer coisa e faço uma sesta, diz.

Vou contigo, decide o Pai, também preciso de descansar. Aproveito para telefonar aos nossos amigos e anunciar a chegada da Princesa Leonor, acrescenta.

O Bernardo volta a sorrir, preparam umas tostas mistas, o Pai bebe uma cerveja, o filho prefere um Ice Tea.

O Pai oferece-se para lavar a loiça, tenho que praticar, a tua Mãe não vai ter muito tempo livre, explica e o Bernardo estende-se na cama.

Não adormece de imediato, ouve a voz do Pai na sala, de vez em quando há uma risada.

Ainda bem que a Leonor chegou, vai ocupar o tempo dos Pais, talvez eles não se preocupem tanto com ele.

Já não corre perigo de vida, tem apenas que descansar, ganhar forças e depois retomar a vida normal, talvez até regressar a Cabo Verde.

O Bernardo não sabe se quer regressar, foi um desafio que abraçou por completo, acha que atingiu os objectivos da empresa e adorou a vida em Cabo Verde.

O único senão foi a relação com a Cristina, ela está totalmente empenhada no trabalho, não tem tempo a perder e prorrogou o contrato com a ONG.

Talvez vá para o Congo, para o Haiti, não sei, comenta, vou para onde for preciso.

A vida inteira? reclama o Bernardo, compreendo o teu ponto de vista, mas também podes fazer esse tipo de trabalho no nosso País.

Mas a Cristina abana a cabeça, faço mais falta aqui, porque é que não compreendes isso? Estou a fazer a diferença.

CONTINUA

sábado, 16 de outubro de 2021

O DOENTE PARTE II

 

Talvez não devesse ter visitado a Cristina no acampamento de refugidos, já se sentia febril, mas ela precisava tanto de ajuda...

Não sabe bem como definir como foi a experiência, mudou a perspectiva do problema e prometeu voltar.

Mas não agora... tem que recuperar e o médico não sabe se não ficará algum problema.

Na sala, os Pais continuam a falar, estão preocupados, não sabem como agir, o Bernardo é um homem com poder de decisão.

O que é que eu posso fazer? repete a Aída, estar presente, é tudo o que podemos fazer, aconselha o Pai.

O jantar é um pouco tenso, o Bernardo tem pouco apetite e recusa ficar lá em casa a dormir.

O Pai acompanha-o, a tua Mãe encheu o frigorifico, diz, também tens aqui várias ementas e nºs de take away, mas ela espera que vás lá jantar todos os dias.

Vou ficar bem, Pai, só preciso de descansar, interrompe o filho, amanhã falamos? Melhor não deixar a Mãe sozinha...

Quando o Pai bate a porta, o Bernardo senta-se na cama, está exausto, mas não consegue adormecer.

O sono vence-o por volta das três da manhã e acorda sobressaltado por volta das seis, sem saber bem onde está.

Lembra-se que regressou ao País, está de licença e por isso, deixa-se ficar na cama.

O SMS entra pouco depois, será da Cristina? rejeita de imediato a ideia, a amiga não tem tempo a perder.

É do Pai, a dizer que estão no Hospital, a irmã deve nascer hoje.

O Bernardo sorri, que coisa linda! Será um anjo ou uma peste? Que interessa? Vai enchê-la de mimo!

Talvez seja melhor ir para o Hospital fazer companhia ao Pai...

CONTINUA


quinta-feira, 14 de outubro de 2021

O DOENTE

 

O Bernardo está doente, os médicos aconselham o regresso à Pátria.

A empresa trata de tudo e o Bernardo suspira quando se vê sentado no avião.

A experiência foi positiva, mas as últimas semanas foram confusas por causa da febre alta.

Os Pais estão preocupados, querem que ele fique lá em casa, mas ele não acha que seja uma boa ideia.

A Mãe está na recta final da gravidez, vai ser uma grande confusão, eu doente e um bebé, explica ao Pai, vê se consegues alugar um estúdio aí perto, vigiam-me, mas todos temos o nosso espaço.

O Pai continua a achar que não é uma boa ideia, mas faz o que o filho lhe pede e no aeroporto, entrega-lhe a chave do estúdio.

A tua Mãe ficou em casa, sente-se gorda demais, diz o Pai, mas insiste em que tu lá vás jantar. Fez os teus pratos favoritos, com a ajuda da Madalena e ri-se para disfarçar a preocupação.

O Bernardo está magro demais, parece ter alguma dificuldade em andar, o olhar está baço, triste., oh, meu Deus, a Aída vai ficar doida, pensa.

O filho instala-se no carro, fecha os olhos, desculpa, estou muito cansado e o Pai não insiste.

Pelo caminho, considera várias doenças, o Bernardo foi tão vago, estará a esconder alguma coisa? murmura, talvez a Aída consiga falar com ele.

A Aída fica horrorizada quando vê o filho, mas o que é que se passa? O que tens? e o Bernardo suspira, nada que te preocupe! Tens que pensar em ti e no meu irmão. Ou é uma irmã? pergunta.

É uma menina, vai chamar-se Leonor, gostas? a Aída sorri e o Bernardo abraça-a.

É lindo, Mãe, gosto imenso. Gostava de tomar um duche, mudar de roupa, antes do jantar, pode ser? Claro que sim, filho, que pergunta! Podes já deixar aqui a roupa suja, esclarece.

O Bernardo desaparece na casa de banho, os Pais sentam-se no sofá, falam baixinho.

Está com muito mau aspecto, declara a Aída, disse o que se passou?

Continua a ser muito vago, responde o marido, deve ser um vírus tropical...

Ou apenas uma gripe muito grave, interrompe a Aída, ele foi vacinado contra tudo antes de ir, não pode ser nada tropical.

Não sabemos, insiste o Paulo, vamos esperar, ele tem que nos explicar o que se passa.

Na casa de banho, o Bernardo acaba de tomar duche e tem que se sentar na borda da banheiro, falta-lhe o ar.

CONTINUA

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

O CASAMENTO FIM

 

Falamos efectivamente nisso, mas apenas porque o Rodrigo achava que era o correcto, confessa, agora tudo isso está fora de questão.

Fiquei sem saber o que dizer, diz o Nicolau ao António e ao Amadeu, sei que ela ficou traumatizada com o que aconteceu há anos, mas tenho medo que ela fique sozinha, casada com a carreira. Quando tudo terminar, o que é que ela vai fazer?

Pode sempre escrever um livro, não foi o que o Nicolau fez? comenta o Amadeu muito sério e uma gargalhada geral desanuvia o ambiente.

O Rodrigo parte para a América, a Natália prepara-se para ir para a Universidade Inglesa e a Glória está apreensiva.

Tenho a impressão de que ela está a fugir de tudo e de todos, desabafa, mas não há nada que possas fazer! observa o companheiro, se ela não quer escutar as opiniões dos outros... a decisão é dela.

Eu sei, mas custa-me vê-la assim tão sozinha, repete a Glória, mas organiza uma festa de despedida.

A Teresa e a Madalena encarregam-.se do catering, o Nicolau lê algumas passagens do novo livro e a Sofia, o Gonçalo e a Inês mostram os seus dotes artísticos com uma dança tão complicada que ninguém sabe como a definir.

A festa acaba tarde, a Natália parece feliz e os outros despedem-se, desejam-lhe boa sorte.

Espero que não tenha mais desilusões, exclama a Glória e o Amadeu abana a cabeça, deixa-a em paz, ela tem que viver a vida de acordo com os objectivos que traçou.

O tempo passa, a Natália está contente com o trabalho na Universidade em Inglaterra, os emails são curtos demais, não se lê nada nas entrelinhas, queixa-se a Glória. 

Não se volta a falar de casamento, os dois estão muito ocupados com os respectivos trabalhos, com as miúdas e a Glória até já se esqueceu de que abordaram o assunto.

Até ao dia em que o Amadeu lhe telefona, tem uma surpresa para ela, vai buscá-la à Universidade à hora de saída.

Mas onde é que vamos? insiste a Glória, mas o Amadeu é misterioso, aconselha-a a ir ao cabeleireiro à hora de almoço.

A Glória não está a perceber nada, está nervosa quando entra no carro, queres explicar-me o que se passa? mas o companheiro continua calado.

Param à frente de um Hotel, a Glória olha-o espantada, com quem é que vamos jantar? Nem sequer estou vestida adequadamente! protesta, mas o Amadeu limita-se a conduzi-la, não para a sala de jantar, mas para um salão onde todos os amigos os esperam.

SURPRESA! gritam e a Glória não sabe se há-de rir ou chorar, mas o que se passa? pergunta e o companheiro responde tranquilamente.

Podemos não casar, mas podemos festejar a data em que nos conhecemos, explica o Amadeu, e depois, já que comprei o fato, tinha que o usar, não é verdade? acrescenta.

A Glória ri alto, os amigos riem também e a festa começa.

FIM


terça-feira, 12 de outubro de 2021

O CASAMENTO PARTE IV

 

Naquela semana, a Glória sabe que o Rodrigo recebeu um convite de uma universidade americana, fica surpreendida porque a Natália nada disse sobre o assunto.

Então, o Rodrigo vai para os States e tu não dizes nada? reclama e a Natália encolhe os ombros, vais com ele?

Não, responde apressadamente a Natália, o convite foi só para ele, mas tu também conheces pessoas lá, podes perfeitamente organizar um workshop, palestras, coordenar trabalhoS de investigação, interrompe a Glória.

Não, não quero voltar para lá, é doloroso demais, repete a Natália e a Glória suspira.

O passado é passado, Natália e ao que eu sei, o Rodrigo vai lá estar um ano, diz, muita coisa pode acontecer num ano, vais arriscar?

A verdade é que a relação já não está a funcionar, confessa a amiga, decidimos dar um tempo, pensar no que queremos efectivamente fazer e por isso, ele aceitou o convite da Universidade americana.

A Glória está tão espantada que não diz mais nada, a Natália desculpa-se e entra numa sala de aulas.

Fiquei absolutamente espantada, conta ao Amadeu nessa noite ao jantar, ela já lá esteve, é responsável pelo programa de intercâmbio com as Universidades Americanas, tem todas as razões para voltar para lá!

Ainda está traumatizada com o que aconteceu por lá! interrompe o Amadeu, ou a relação com o Rodrigo não está mesmo a resultar e achem que podem descobrir o que há de errado se estiverem separados.

Ele vai lá estar um ano, responde a Glória, muita coisa pode acontecer em doze meses!

Eu sei que muita coisa pode acontecer em doze meses, explica a Natália ao Nicolau nesse momento, telefonou-lhe, vamos jantar? e o amigo acedeu.

Ouve-a atentamente, fica pensativo por uns minutos, tens a certeza de que é isso que queres? pergunta e a Natália volta a suspirar.

Não tenho a certeza, o Rodrigo é uma pessoa excelente, mas..., pois, há um mas, observa o Nicolau, mas Natália, pensei que já tivesses ultrapassado isso.

Não, foi muito doloroso, nunca o vou esquecer, admite, viver outra vez nos States está fora de questão, não vou conseguir! Ir lá de visita, para um seminário, ok, mas não mais do que isso!

Isso não vai interferir com a progressão de carreira? o Nicolau está apreensivo, mas a Natália abana a cabeça.

Não, posso sempre ir para uma Universidade conceituada na Europa, já estou em contacto com uma inglesa, há um programa que me interessa, e o Nicolau abre a boca de espanto.

Preocupas-me, Natália, tenho medo que acabes sozinha, comenta o Nicolau, parecias tão entusiasmada com a tua relação com o Rodrigo, alguém me disse que estavam a considerar o casamento.

A Natália ri-se.

CONTINUA


segunda-feira, 11 de outubro de 2021

O CASAMENTO PARTE III

 

Que disparate! repete o Nicolau e a Glória também ri quando o companheiro lhe conta a conversa.

Podemos pensar nisso, mas não temos que o fazer, diz a companheira, as nossas filhas têm um Pai e uma Mãe e o que é importante é o relacionamento entre nós e com elas. Porque o Nicolau tem razão, continua, os problemas podem surgir, estando casados ou não!

Não falam mais no assunto, a Glória tenta discutir o assunto com a Natália, mas a amiga é muito vaga.

Não a entendo, admite a Glória à Teresa, não a vejo entusiasmada, a falar de vestidos, de penteados, de catering...a maior parte das pessoas começa a pensar nisso um ano antes!

Se calhar, só pensaram em casar, interrompe a Teresa, agora estão a considerar os prós e os contra.

Talvez, concorda a Glória, mas é tudo muito estranho! Há uma semana, ela estava toda entusiasmada e hoje, estava impossível de aturar. 

Ainda estão a pensar nos detalhes, frisa a Teresa e a Glória suspira.

Sabes que falei em casamento ao Amadeu? Ele ficou um pouco confuso, nunca falamos disso, explica a Glória, mas com esta história da Natália, fiquei a pensar se não seria uma boa ideia. Por causa das miúdas!

Também não sou casada com o António, mas não sinto vontade de o fazer! Nem mesmo pelos miúdos! exclama a Teresa, a vida familiar está estruturada, estamos concentrados no bem-estar de todos, não é um papel que define isso!

É o carácter, o interesse das pessoas, eu sei, concorda a Glória, mas há uma vozinha que me pergunta se isso será suficiente!

O que é que o Amadeu pensa sobre o assunto? pergunta a amiga e a Glória suspira novamente, está surpreendido, confuso, principalmente porque a relação com os filhos do casamento anterior continua a ser tensa e ele tem medo que isso aconteça com as miúdas.

Mas o casamento não significa que isso não vá acontecer, basta uma das miúdas conhecer alguém, o Amadeu não gostar e ela decide sair de casa para viver com ele, exclama a Teresa, isto pode não ser um bom exemplo, mas é a realidade.

Ás vezes, interferir tem o efeito contrário e conheço um caso, declara a Glória, o Pai soube que o namorado não era boa rês, teve uma discussão brutal com a filha e durante uns tempos, ela viveu em casa dos avós. Depois, descobriu que o Pai tinha razão, mas demoraram imenso tempo a confiar novamente um no outro.

É isso que estou a dizer, não é um papel que define as relações, volta a Teresa a repetir.

CONTINUA


domingo, 10 de outubro de 2021

O CASAMENTO PARTE II

 

Não sei, confessa o Major, talvez porque a Natália e o Rodrigo vão casar.

A Natália vai casar? repete o Nicolau, curioso, não me disse nada! 

Sempre pensei que o Nicolau e a Natália ficariam juntos, diz o Amadeu, têm tanta coisa em comum, a pesquisa para os livros, as feiras de autores...

Meu caro amigo, a Natália tem trinta e poucos anos e eu vou a caminho dos oitenta anos, interrompe o amigo, é perfeitamente natural que ela tenha procurado a companhia de um homem mais novo.

E a vossa relação não irá mudar? insiste o Major e o Nicolau não lhe responde de imediato.

Saboreia o arroz de frango, bebe um pouco de vinho, somos adultos, somos profissionais com reputação no meio académico, não creio que a Natália vá deixar o amigo interferir nisso, continua o Nicolau, mas não falemos disso agora, o que é que vai fazer sobre o casamento?

Não vejo como o casamento vá alterar a nossa vida familiar, explica o Major, porque temos uma vida familiar óptima, as nossas filhas são felizes, têm o meu nome e os problemas com os filhos do meu primeiro casamento estão mais ou menos resolvidos.

Tem notícias do Frederico? E do Francisco? questiona o Nicolau cautelosamente, não é um assunto que o Major goste muito de abordar.

Penso que o Frederico está bem, o pouco que sei é o que o Francisco me conta, tenho a impressão de que não me diz tudo e eu tenho que respeitar isso, esclarece o Major, pelo menos, a relação é mais civilizada do que há uns anos e é o que me leva a considerar seriamente a questão do casamento.

Evitar que haja distância na família? Mas, meu caro Amadeu, isso pode acontecer mesmo estando casado com a Glória! exclama o Nicolau.

Mas, pelo menos, saberei que não contribuí para isso...

CONTINUA

sábado, 9 de outubro de 2021

O CASAMENTO

 

A Natália e o Rodrigo vão casar, anuncia a Glória ao Major naquela noite, ainda não marcaram a data, mas acho que vai ser antes das férias de Verão.

Ah, isso é que não me agrada, vou ter que comprar um fato novo, brinca o Major, podes sempre levar a farda, sugere a Glória.

Não, não, responde o Amadeu muito sério, só uso a farda em actos oficiais! e a companheira desata a rir.

Não leves as coisas tão a sério! Não sei nada dos planos deles, comenta a Glória, até podem decidir fugir e casar no estrangeiro.

Agora é a vez do Amadeu rir, como nos romances? É uma ideia engraçada!

É o que eu gostaria de fazer! diz a Glória baixinho e o Major fica calado por uns minutos.

Queres casar, Glória? É isso que queres? pergunta e a Glória suspira, senta-se no sofá.

Sinceramente, não sei! Quando a Natália me contou, estava tão feliz, há muito tempo que não a via assim...acho que tive inveja! confessa, não temos que falar sobre isto agora!

Mas o assunto está na mesa, quero saber o que pensas verdadeiramente, se achas que há alguma coisa que está a falhar, insiste o Major.

Nada está a falhar, interrompe a Glória, somos uma família, temos duas filhas maravilhosas, uma casa agradável, trabalhos interessantes... não podemos querer mais, pois não?

O Amadeu não sabe o que responder, a Glória arrepende-se de ter falado no assunto, aperta-lhe o braço e desaparece no quarto.

Mas a que propósito veio essa conversa? quer saber o Nicolau durante o habitual jantar das quartas-feiras.

CONTINUA


sexta-feira, 8 de outubro de 2021

MIGUEL E O FUTURO FIM

 

O que é me aconteceu? Parti o braço durante a caminhada e tenho que confessar uma coisa.

O Gonçalo não é um banana, estávamos os dois sozinhos quando caí, ele instalou-me o mais confortável possível, assinalou o local e depois, foi à procura dos nossos Pais.

Não se perdeu, foi capaz de trazer os Pais até ao local; pouco depois, chegou a equipa de resgate, o Pai já os tinha contactado.

Pois, eu sei o que disse sobre o meu primo e ok, admito que estava errado... É um bom companheiro, tenho que o conhecer melhor...

Ah, não, não me peça para fazer o mesmo com a Sofia e com a Inês. Elas são raparigas estouvadas, sem interesse...

Está bem, vou fazer um esforço para conversar mais, participar nas brincadeiras, ser franco. Tenho quase a certeza de que a Inês vai fazer pouco de mim, mas está bem, vou tentar, ok?

Se falamos sobre a minha Mãe? Fiz algumas perguntas aos Avós, acho que ficaram surpreendidos, também me contaram histórias divertidas.

A minha Mãe devia ser uma pessoa engraçada, o que é que aconteceu para se isolar do Mundo?

Os Avós também não sabem, têm muitas teorias, mas o Avô frisou que não tem a certeza de nada, nem o próprio médico e todas as vezes que a visitam, ficam com o coração ainda mais partido.

Ás vezes, a Mãe fala sem parar, outras, fica calada e olha-os como se fossem estranhos. Compreendo agora porque é que a Avó passa dias a chorar.

Mas eu decidi que a vou visitar. Acho que surpreendi a família quando o disse e o Pai está sempre a perguntar-me se tenho a certeza.

Não, não tenho a certeza, não sei se não me vou magoar, porque a Mãe pode recusar-se a ver-me.

Mas tenho que descobrir... Pensa que é resposta para todos os problemas que acha que eu tenho?


FIM

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

MIGUEL E O FUTURO PARTE IV

 

O tio António contou histórias bem divertidas sobre a minha Mãe, o Pai acabou por se sentar connosco, também partilhou momentos felizes que passou com ela.

O que aconteceu para ela ir parar a uma Clínica de Repouso? O tio António acha que foi por não ter aguentado o stress de falhar, por muitos defeitos que a minha irmã tenha, sempre foi briosa, competente e focada no trabalho, frisou, mas o Pai não concordou.

Não, não concordo contigo, a Laura dispersava-se um pouco, respondeu o meu Pai e teriam começado a discutir se o tio Gonçalo não entrasse naquele momento e resumisse a situação num comentário seco, a minha irmã é parva, sempre o foi!

O que eu acho? Não sei, as opiniões são contraditórias e para os meus Avós, o assunto é tabu...

Este fim de semana, vamos todos para casa dos Avós... Vamos fazer uma caminhada, só de homens, sugeriu o Pai e os tios concordaram.

A tia Teresa e a tribo também vão, espero que o Gonçalo fique em casa, a explorar a quinta...

É um banana, está sempre tudo bem, permite que a irmã lhe dê ordens... na escola, todos gostam dele, acham-no divertido.

Pois... eu não sou nada divertido, é por isso que dizem que estou armado em doutor, que sou estranho, mas não gosto de futebol ou de basquetebol, prefiro a natação e a bicicleta... 

Se não há mal nisso, porque é que me fazem sentir à margem? Porque é que temos que falar novamente no que se passa na escola?

Quero lá saber o que pensam, o que dizem de mim...ah, a professora é uma chata, não preciso de repetir a matéria, já a compreendi...fiz os trabalhos de casa, porque é que tenho que passar uma manhã a ouvi-la explicar tudo novamente???

Ok, mas eu não tenho culpa se os meus colegas não entendem... eu ajudá-los???? Mas que história é essa?

Devo sentir-me grato por aprender tudo rapidamente e devo partilhar isso com quem não pode?

Não estou a perceber nada... é uma forma de conviver, ganhar o respeito dos meus colegas?

Porque é que eu preciso disso?

CONTINUA

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

MIGUEL E O FUTURO PARTE III

 

Não tenho grandes recordações da minha Mãe... lembro-me dos comentários.

Coitado do Miguel! Com uma Mãe como a Laura, não admira que seja uma pessoa confusa, imito o meu tio Gonçalo na perfeição.

O tio António raramente fala dela, é irmão gémeo dela, toda esta história o deve afectar...e não, nunca me disse nada.

Sobre a minha Mãe, quero eu dizer, porque o tio António não é para brincadeiras, se diz não, é não mesmo!

Acha mesmo que devo falar com ele sobre a minha Mãe? Porquê? Porque é irmão dela, deve-a conhecer melhor e talvez compreenda porque é que ela é assim?

Nunca pensei nisso, não tenho muita curiosidade em conhecer a minha Mãe, é apenas um nome.

Ok, eu falo com o tio António, ele não achará estranho eu aparecer e começar a fazer perguntas sobre a minha Mãe?

Não gosto muito dessa ideia, já disse, sou uma pessoa normal e não há mal nenhum em ser solitário!

Mas acabo por seguir o conselho do psicólogo e naquele domingo, pergunto ao tio António se podemos falar em privado.

Sobre? e o meu tio olha-me como se eu fosse um extraterrestre, engole em seco.

Sobre a minha Mãe, tio António? E o que é que queres saber sobre a Laura? o António mantém o sangue-frio, vejo que o assunto não lhe agrada.

O que me quiser dizer, explico que o psicólogo acha importante que eu descubra mais detalhes sobre a minha Mãe e o António acena que sim.

Era uma pessoa rebelde, ela e o Gonçalo nunca paravam quietos, arranjavam sempre sarilhos e depois, esperavam que eu os resolvesse, conta o António, eu ficava muito irritado, porque os Pais castigavam sempre os três e eu achava que não era justo!

E não é! atalho, se é a Inês que faz asneiras porque é que eu tenho que sofrer o mesmo castigo???

Chama-se disciplina, respeito pelos outros, interrompe o António, e não fizeste nada para a impedir, pois não?

Fico calado, realmente não fiz nada para impedir a Inês de roubar a T-Shirt do Edgar ou esconder-se na casa de banho do café do Parque e fazer toda a gente andar à nossa procura.

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terça-feira, 5 de outubro de 2021

MIGUEL E O FUTURO PARTE II

 

O que fizemos este fim de semana? 

Fomos almoçar a casa da Tia Carolina, a prima Filipa vai viver para a Dinamarca ou é a Suécia?

Não sei bem, sei que foi fazer o Mestrado num desses Países, conheceu alguém lá e agora casou.

A Tia Carolina estava um pouco abatida, está preocupada, o Pai e a Tia Teresa disseram-lhe para não pensar o pior, afinal de contas, a Filipa é uma mulher e tem demonstrado ser uma pessoa sensata, responsável.

Se calhar, a Filipa está toda contente por sair daquela casa... quatro irmãos e todos malucos!

O Matias e o Edgar até não são más pessoas, mas estão diferentes, têm outros interesses e não gostam nada de nos vigiar.

A irmã, a Inês aproveita-se disso e está sempre a pregar-lhes partidas, os idiotas nem sempre percebem e as discussões são tremendas! Fico com dores de cabeça!

Eu mantenho-me sempre à margem, raramente participo e a Inês acusa-me de ser um idiota, um fraco...

Se sou fraco? Não sei, nunca pensei no assunto, acho que tenho que seguir com a minha vida, enfrentar, vencer os obstáculos à medida que aparecem...

É o que o meu Pai diz que faz, às vezes, vejo que ele está desanimado, preocupado, mas depois levanta a cabeça e continua a avançar.

Nem sempre entendo o que ele diz, mas toda a gente o admira, até na escola...

Acho que o meu Pai é muito paciente...esta semana, foi ver os meus Avós, parece que as notícias não são muito boas.

A minha Mãe não está a melhorar, não sei se têm que mudar o tratamento, não está a reagir bem, foi o que ouvi dizer.

O que penso sobre o assunto? Não sei, não a conheço bem, sei que chorava sempre que estava com ela...

Se tenho pena dela? Já disse que não a conheço bem...

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segunda-feira, 4 de outubro de 2021

MIGUEL E O FUTURO

 

Tenho que ser honesto comigo mesmo e a verdade é esta: não gosto de ninguém.

Minto: gosto do meu Pai e dos meus avós, suporto as Tias, mas a louca da minha Mãe e destemida prima Inês... fico cansado só de pensar nisso!

Como é que posso dizer isto se não conheço bem a minha Mãe? Ela passou a maior parte da minha infância e adolescência numa Casa de Repouso, um nome pomposo para um Hospital de loucos.

Vi o desgosto no olhar dos meus Avôs, como se esforçaram para que eu tivesse uma vida normal, mas tal não foi possível, porque senti sempre um vazio naquela casa, um vazio que ninguém poderia preencher.

O meu Pai... o meu Pai foi sempre um Pai presente e acho que abusei um pouco da paciência dele.

Isolei-me, mantive-me à margem, escondi-lhe os meus pensamentos... coitado, estava sempre cansado, até porque a minha Madrasta não era uma pessoa fácil...

Não, não quero falar da Beatriz e muito menos da Maria Rosa... Acho que têm medo de mim, fui sempre tão hostil....

A Maria Rosa até se levantava mais cedo e preferia ir para a escola sozinha... não confiava em mim, porque eu humilhava-a! 

Na frente dos colegas, dos professores....continha-me quando estávamos em família, a Inês tem uma língua afiada.

Se tenho medo da Inês??? Aquela rapariga não tem limites...diz o que pensa, sem filtros e nem sempre pensa nas consequências.

Já acabou? Na próxima semana à mesma hora? Tem mesmo que ser... não percebo porque é que tenho que voltar.

Eu sou uma pessoa normal....

CONTINUA



sábado, 2 de outubro de 2021

O ANIVERSÁRIO FIM

 

O Matias e o Edgar organizam um jogo no quarto de brinquedos, o Miguel resolve voltar para o quarto e dormir mais um pouco, a Filipa fica na cozinha, quer falar com uma amiga.

A casa está sossegada, aparentemente, sussurra a Carolina quando abre a porta, se a Inês está acordada, é pouco provável, diz o Gustavo.

Estão felizes, relaxados, nada os vai aborrecer hoje, prometem, mas no fundo, não têm tanta certeza.

Porque a Inês escapa-se do quarto de brinquedos, o Edgar dá um grito, oh, Inês, não podes sair daqui! Volta já para aqui!

A irmã faz de conta que não o ouve, contorna a esquina e vê os Pais.

Solta um grito tão agudo que o Miguel acorda novamente em sobressalto, suspira, vira-se para o outro lado, que peste de rapariga! murmura.

Mas o barulho é tanto que ele desiste e levanta-se.

O corredor está agora cheio de gente, os Pais a rirem e os miúdos aos gritos completamente loucos, o Matias e o Edgar competem para terem um pouco de atenção.

Entretanto, tocam à campainha, é o serviço de entregas do Hotel, a Carolina escolheu o almoço antes de fazer o check-up.

Os miúdos acham imensa piada, ajudam a levar as embalagens para a cozinha, ficam desapontados quando a Carolina lhe diz que têm que esperar, ainda é muito cedo para o almoço.

A vida volta ao normal, comenta a Carolina e o marido ri-se, mas foi bom estarmos umas horas sem miúdos, sem gritos, sem discussões.

E 10 dias num paraíso tropical! Vou adorar... a Filipa e o Miguel vão ficar doidos, se calhar, vamos ter que lhes oferecer um fim de semana fora, continua a mulher.

Nem pensar! Todos temos que partilhar as responsabilidades! Somos uma família! declara o Gustavo, mas não diz mais nada, pois a Inês irrompe pelo quarto, estou esfomeada, quero comer! Exijo comer! protesta.

Nós também! gritam o Gonçalo e a Sofia, e " por favor", não se usa? interrompe a Carolina e a Inês fica muito quieta.

Agarra-se então às pernas da Mãe, já podemos comer, Mãe, se faz favor? e a Carolina morde os lábios, olha para o Gustavo que encolhe os ombros.

Ok, vamos lá ver o que podemos comer, os miúdos soltam um " hurra" e fazem uma corrida, ninguém me apanha! anuncia a Inês.

Apenas o Miguel fica quieto e só aparece na cozinha, porque o Edgar não aceita um não e quase o leva em braços.

O que é se passa com este miúdo?

FIM


sexta-feira, 1 de outubro de 2021

O ANIVERSÁRIO PARTE V

 

O bombo soa por volta das oito da manhã, alguém bate na pandeireta e o Gonçalo grita bem alto, está na hora de levantar, temos fome!

O Miguel acorda sobressaltado, quase caí da cama, mas a Filipa é mais rápida que ele e já está no corredor a ralhar com os miúdos.

E depois, concluí, eu não sirvo o pequeno almoço a pessoas de pijama! e o Miguel esconde um sorriso.

O Matias e o Edgar aparecem nesse momento e oferecem-se para os ajudar. É com alguma dificuldade que os levam para o quarto, onde o Miguel primo continua sentado à espera de ordens.

Já decidi, confessa o Miguel, não quero ter filhos, e fica indignado quando a irmã se ri.

Agora dizes isso, mas vais mudar de ideias, explica a Filipa, também pensei nisso, mas a verdade é que gosto de ter uma casa cheia de gente, cheia de risos e gritos...

Somos uma família original e às vezes, é bem engraçado ver como a Inês consegue confundir o Matias e o Edgar! concorda.

O Matias fica tão zangado e vinga-se no Edgar, diz a irmã, a Mãe diz que está cansada das lutas, tenta dialogar, mas nem sempre a escutam.

Ok, vou ter uma conversa com aqueles dois! interrompe o Miguel e cala-se, porque o quarteto, vestido, penteado, aparece escoltado pelo Duo Magnífico.

Estamos vestidos, anuncia a Inês, serve-nos o pequeno almoço!

Se fazes o favor, Filipa, podes servir-nos o pequeno almoço, exclama o Miguel, repete, Inês, os Pais já te explicaram que tens que ser bem educada e não te esqueças de agradecer!

A Inês respira fundo, abre a boca para protestar, mas o Miguel está muito sério e ela já sabe que não o deve desafiar, é um irmão simpático, brincalhão, mas tem limites e ela não quer ficar de castigo.

Podes servir-nos o pequeno almoço, Filipa, por favor? repete, obrigada, quando a Filipa lhe estende a chávena.

A Inês volta a olhar para o Miguel, faz-lhe uma careta e o irmão morde os lábios, esta minha irmão não tem emenda, vai ser um amor ou uma peste! pensa.

O pequeno almoço decorre sem problemas de maior, lavar os dentes, pedem os irmãos mais velhos, depois ficam no quarto de brinquedos. Matias, Edgar, vigiem-nos.

Temos sono, queremos voltar para a cama, os manos protestam, mas o Miguel abana a cabeça, fazem uma sesta quando os Pais regressarem, agora tomem conta destes querubins!

Eu não sou um querubim, sou uma princesa! esclarece de imediato a Sofia, não és nada, exclama a Inês, és quem eu disser que és!

Desapareçam da minha frente! Já! e a Filipa aponta a porta que fecha assim que os miúdos saem.

Olha para o Miguel e os dois desatam a rir.

CONTINUA