quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

O PROFESSOR DE LITERATURA - PARTE II


O Nicolau fica interessado, preenche a ficha para ficar com o cartão da livraria e saí satisfeito.

Há muito que não lê um livro que não esteja relacionado com o trabalho, será uma aventura ler outros autores e sobretudo, saber o que as outras pessoas pensam.

As obras estão bem adiantadas e o Nicolau opta por passar os dias ou na biblioteca da Universidade ou na Casa de Chá perto de casa.

" Sabes o que o Professor me pediu? " conta a D. Florbela ao marido nessa noite " Se não me importava de lhe comprar roupa de cama e casa de banho? Sim, porque eu disse-lhe já que finalmente vai modernizar a casa, também pode fazer o mesmo relativamente à roupa."

" Não vai ter problemas. Afinal, quem gosta daquelas camisas tão garridas, não se deve importar de dormir em lençóis iguais." responde o marido.

" Oh, homem, não vou fazer nada disso! Não disseste que escolheu azul claro para o quarto e cinza para a casa de banho e o estúdio? " pergunta a D. Florbela " Então, vou escolher cores que fiquem bem."

" E tu sabes? " insiste o marido, trocista.

" Há revistas, as meninas da loja podem ajudar-me." diz a mulher, fazendo uma careta.

Entretanto, o Nicolau prepara-se para a primeira sessão.

Afinal, aquela mulher ruiva, elegante que estava atrás dele no balcão de atendimento também é membro do Clube e presume que o senhor de ar triste que acaba de entrar também.

Nicolau aprecia a conversa, fica intrigado com o livro que compra apressadamente antes de sair.

A D. Florbela deixa-lhe um bilhete, já concluíram a cozinha e amanhã dão os últimos retoques no estúdio e no quarto.

" Acabo de limpar a cozinha amanhã, mas já a pode utilizar." escreve.

O Nicolau apressa-se a acender a luz e gosta de ver o pavimento cerâmico, os balcões de madeira e os armários.

A mesa ao centro fica muito bem e a D. Florbela já preparou o individual para o pequeno almoço.


CONTINUA

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

O PROFESSOR DE LITERATURA


Só quando a jornalista se foi embora é que o Nicolau percebeu como a casa era fria e antiquada.

Há anos que a D.Florbela lhe diz que a casa precisa de obras, o meu marido pode fazer isso, é um bom profissional e não o vai explorar.

O Nicolau fala com o empreiteiro, concorda com o plano proposto e as obras começam.

A D.Florbela queixa-se que o Nicolau podia também renovar a sala de jantar e o outro quarto, mas este diz que não vai receber pessoas e o estúdio é o suficiente.

Por isso, moderniza a cozinha e a casa de banho, pinta e compra novas mobílias para o quarto e o estúdio.

Até aceita instalar a Internet, embora não fosse grande fã, mas acredita que será útil para continuar o trabalho sobre o tema favorito - literatura medieval.

" O Sr Professor devia fazer outras coisas." aconselha a D.Florbela " Não é bom passar tanto tempo ao computador."

O Nicolau encolhe os ombros, passou tanto tempo na Universidade que nem tem amigos fora do circulo.

Resolve dar um passeio pela cidade, entra numa livraria para explorar.

É então que o placard sobre o Clube de Leitura lhe chama a atenção.

De que é que se trata? Nicolau está perplexo, vão falar sobre livros? Que livros?

Aproxima-se do balcão e pede mais informações.

CONTINUA

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

A HISTÓRIA DO MAJOR - FIM


Entre os passeios, a procura de Mapas antigos, o desenho e as sessões no Clube, posso dizer que estou feliz...

Feliz, não... contente...

Tenho pena que a relação com os meus filhos continue a ser distante, um pouco hostil, lamento que não tenham em mim a confiança que o Bernardo demonstra.

Tento chegar sempre um quarto de hora mais cedo para conversarmos, o rapaz é inteligente, criativo e adora debates.

Às vezes, só participo para o desafiar e fico surpreendido como defende as opiniões.

Os outros acham piada à nossa relação e mantém-se um pouco afastados.

Gostaria de conversar mais com a Rita, mas ela está num outro Mundo.

Está diferente, ri mais e surpreende-nos a todos com a ideia do jantar.

Até me divirto no jantar, o Bernardo e os sobrinhos da Rita sentam-se ao pé e a conversa gira em torno de livros, novas tecnologias e os meus mapas.

É a Rita quem dá por finda a noite.

O António oferece-lhe boleia, mas ela recusa educadamente, já combinei tudo com um amigo.

Está escuro, não conseguimos ver quem é, mas os miúdos conhecem-no, ouvimos risos.

E, ficamos os três tristes, eu, o António e o Nicolau, parados no passeio, sem saber o que pensar ou dizer.

O António respira fundo, convida o Nicolau para uma última bebida, mas eu não estou com paciência.

Vou para casa e nem acendo as luzes.

Fico no escuro a pensar que perdi novamente a mulher da minha vida.

Mas a verdade é que a Rita foi apenas um sonho....

FIM

domingo, 23 de fevereiro de 2020

A HISTÓRIA DO MAJOR - PARTE IV


Decido não o levar para a sessão, embora faça scanner e envie para o Bernardo.

Hoje é a discussão final. Chegamos ao fim do livro e temos que decidir qual é o próximo.

A Rita propõe fazer uma lista, eu pergunto quais são os critérios, uma pergunta com toda a lógica, mas eles não apreciam.

Tenho que me convencer que nem toda a gente observa as mesmas regras que eu.

Lembro-me que eu e a Ana discutíamos muitas vezes sobre as regras que eu queria impor aos rapazes.

" O Sr Major tem que se lembrar que a negociação é também vital para a conclusão da guerra!" dizia e os rapazes acediam mais facilmente aos argumentos dela do que aos meus.

É isso que está a acontecer nesta sessão e tenho que confessar que não estou nada satisfeito.

Mas esforço-me para fazer a lista que me pedem.

A Catarina telefona-me, está bem? precisa de alguma coisa? quer vir almoçar no domingo?, mas eu recuso educadamente.

Sinto que ela fica triste e sugiro um café ao fim da tarde. 

Ela concorda e quando chego ao café da esquina, ela já lá está.

" Não sabe o quanto lamento a atitude do Frederico. Mas ele nem me deixa falar no assunto." comenta.

" É natural! Passaram muito mais tempo com a Mãe; talvez as coisas fossem diferente se a Ana estivesse viva." respondo.

" Mas eu quero que faça parte da família." diz " Quero que o meu filho conheça e bem o avô!"

Fico surpreendido, um neto?

" Estou no fim do primeiro trimestre. Vamos agora anunciar à família e por isso, não vou aceitar um não da sua parte." continua " Por isso, vai, não vai? E isto é o nosso pequeno segredo." sorri.

Dou-lhe um grande abraço, não consigo dizer uma palavra.

Felizmente, há muita gente no almoço de domingo, muita conversa e risos e pouco falo com os meus filhos.

O Pai da Catarina é simpático, partilha algumas das minhas ideias e passamos parte do almoço a conversar.


CONTINUA

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

A HISTÓRIA DO MAJOR - PARTE III


Não creio que a Rita, é como se chama, note.

Escuta o Nicolau com uma certa deferência, talvez porque o ex- Professor tem uma certa idade, mas quando defendo a minha opinião, há uma certa troça no olhar dela.

Fico um pouco melindrado, mas hesito, não sei se a devo confrontar ou não.

O que me admira mais é a relação rápida de amizade que estabeleço com o Bernardo, o filho da Aída.

O rapaz gosta de desafios, eu também e estamos a dar-nos muito bem.

Porque a relação com os meus filhos continua complicada, apesar dos esforços da Catarina, a mulher do Frederico que insiste em me convidar para o almoço de Domingo.

O Francisco e a namorada, Maria também lá estão, mas o ambiente é pesado.

Não temos grande coisa a dizer, embora a Catarina me faça imensas perguntas sobre os meus hobbies.

Os meus filhos ficam calados, não contribuem para a conversa e vejo que a Maria está pouco à vontade.

Despeço-me logo que possível e ainda escuto a voz irada da Catarina quando entro no elevador.

" Vocês são uns imbecis!" diz a Catarina " Por amor de Deus, não fizeram um esforço para serem, no mínimo civilizados! "

" Oh, Catarina, tens que compreender..." interrompe o Frederico " Ele não esteve presente..."

" Mas está AGORA!" grita a mulher " E, Maria... esperava mais de ti! Esse palerma ficou calado e tu seguiste-lhe o exemplo." acusa.

" Eu??? " repete a Maria " Pouco ou nada sei sobre ele; o que é querias que eu fizesse?"

A Catarina ergue as mãos em desespero e fecha-se na cozinha.

Resolvo dar uma volta a pé antes de ir para casa e dou por mim a pensar se devo ou não comprar um cão.

Já em casa, instalo-me com o livro no escritório e esqueço-me do Mundo.

O livro prende-me a atenção e tal como Bernardo, consulto o Google à procura de Mapas.

A manhã seguinte encontra-se com um Mapa imaginário desenhado no cavalete.


CONTINUA

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

A HISTÓRIA DO MAJOR - PARTE II


A D.Fátima diz que continuará a trabalhar cá em casa, deve ter pensado que a casa tornar-se-á numa pocilga, mas terá uma surpresa ao ver a cama feita, a cozinha arrumada e a casa de banho limpa.

Não vou limpar pó ou aspirar e espero que ela saiba engomar as minhas camisas com rigor.

O que vou fazer com o meu tempo está ainda um pouco confuso... mas gostava de saber mais sobre a cidade.

Vou até à Biblioteca, encontro mapas e procuro outros nos Antiquários.

Sempre gostei de Mapas e de desenhar e é isso mesmo que vou fazer.

A D.Fátima fica admirada quando me vê a instalar cavaletes no antigo escritório da Ana.

Não sei se o computador é adequado aos programas que quero instalar e dou uma vista de olhos.

A caixa de correio da Ana está cheia de mails. Alguns são publicidade, outros de amigas (algumas até encontrei no funeral) e vários são de alguém que assina José.

São íntimos e fico a pensar se não terá sido por causa dele que a Ana falou em divórcio.

Nunca saberei, não vou perguntar a ninguém e apago tudo. 

Decido não trabalhar com este computador, vou comprar outro, pedir para me instalarem os programas que pretendo.

Em breve, tenho uma rotina estabelecida que termina ao fim do dia com um grande passeio pelo quarteirrão.

É num desses passeios que descubro o Clube de Leitura.

Ainda pode entrar, dizem-me, ainda não começou e eu entro num sala com as cadeiras dispostas em circulo.

Uma mulher agradável, não deve ter mais que trinta e cinco, quarenta anos, apresenta-se como sendo a gerente, a responsável pelo Clube.

Há um rapaz muito calado que folheia um livro sem interesse. Sorrio-lhe, mas ele faz de conta.

É então que entra uma mulher esbelta, com uns olhos verdes grandes e cabelo ruivo!

Retenho a respiração, a mulher dos meus sonhos acaba de chegar à minha vida.

Sinto-me como se fosse um adolescente,  mas torna-se claro que os outros dois homens, o António e o Nicolau, também estão apaixonados por ela.


CONTINUA


terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

A HISTÓRIA DO MAJOR


Gosto de mulheres esbeltas e ruivas.

Foi uma surpresa quando decidi casar com a Ana, que não era esbelta mas sim roliça e tinha cabelo preto.

Mas tinha uma alegria de viver contagiante que me atraiu deveras.

Seguiu-me sem um queixume para onde fui destacado, fazia amizades facilmente e estava sempre ocupada.

Contudo, tudo mudou com o nascimento dos gémeos, o Francisco e o Frederico e a Ana começou a dizer que era melhor mudarmos para uma cidade grande.

Seria mais fácil encontrar boas creches, escolas, etc e nem de propósito, fui destacado para um vila a uns cem quilómetros da capital do distrito.

Tornou-se incomodo viajar todos os dias e por isso, optei por alugar lá um apartamento.

A Ana e os miúdos instalaram-se na cidade e em breve, tinham uma rotina da qual eu não fazia parte.

Viam-me ao fim de semana, a Ana tentava ser o ponto de equilíbrio, mas a verdade é que eu e os meus filhos tínhamos um relacionamento hesitante, distante.

Quando me reformei e voltei definitivamente para a capital, mesmo eu e a Ana começamos a ter dificuldades.

Um dia, falamos sobre o divórcio, a Ana dizia que talvez fosse melhor, eu achava que não, que tínhamos que tentar tudo, mas ela sentiu-se mal e levei-a à pressa para o hospital.

Foi uma noite muito longa e a Ana não sobreviveu. 

Não entendi muito bem o que o médico disse, foi o Frederico quem organizou tudo e a família compareceu em peso.

Gostavam muito da Ana, todos me diziam para ter calma, mas os meus filhos permaneciam calados.

Depois do funeral, voltaram para a vida que escolheram e eu fiquei sozinho no apartamento cheio de recordações da Ana.

CONTINUA

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

BERNARDO - FIM


Estou a gostar imenso do livro e falo largamente sobre ele na Página do Face do Pedro e dos amigos.

Estes também estão a gostar do Encontro de Leitores, dizem que o Bruno é muito criativo e até lhes pediu para escrevem uma breve crónica policial.

Nós descobrimos que o Major gosta de Mapas e de desenhar.

Até fala em construir um modelo 3D da batalha, o que me interessa imenso.

Faço imensas perguntas, mas ele ainda não tem nada em concreto.

Está a fazer pesquisa, diz e o António só se ri.

Se calhar, pensa que o Major não sabe trabalhar com computadores...

É a Rita quem sugere o jantar de comemoração e eu fico muito contente quando escolhem uma pizzaria.

Os sobrinhos da Rita são " fixes" e ficam interessados quando o Major começa a explicar como está a construir a Batalha.

Em breve, esquecemos os outros que também se devem estar a divertir a avaliar pelas gargalhadas.

Ás onze horas, a Rita levanta-se, tem que ir para casa, já passa da hora de dormir da Clarinha.

Saímos todos, ouço o António a oferecer-lhe boleia, mas ao que parece, a Rita pediu a alguém para a vir buscar.

Eu e a Mãe despedimos-nos também, mas o António, o Nicolau e o Major nem respondem.

Estão parados no passeio a ver o carro onde a Rita e os sobrinhos vão com um ar triste.

Porque será?


FIM

sábado, 15 de fevereiro de 2020

BERNARDO - PARTE IV


O Pedro aparece com mais dois rapazes que conheço de vista.

Os meus amigos, Dinis e Henrique, diz, espero que não haja qualquer problema, mas estamos interessados em saber mais sobre esse Clube de Leitura.

O Bruno está cheio de ideias para o Clube, não é um Clube, é mais um encontro de leitores e vamos começar pela literatura policial, explica.

" O objectivo é o membro escolher o livro e no encontro, fala-se sobre o crime em si, a forma como está descrito, a veracidade das testemunhas, etc. Até podemos discutir o que modificaríamos, etc." explica.

Até eu fico interessado, mas não, não vou abandonar o meu Clube.

Deixo-os com o Bruno, há já uma outra pessoa inscrita e com ele, são cinco.

O " Encontro " pode arrancar, vai reunir-se quinzenalmente às quintas-feiras.

" O Bruno está todo empolgado." comento e a minha Mãe diz que a sede está satisfeita com os resultados obtidos.

" Claro que o do Bruno tinha que ser diferente para chamar a atenção."

No dia seguinte, o Pedro mostra-me o livro que escolheu para ler e conta que ele e os amigos estão a pensar em abrir uma página no Face sobre o " Encontro de Leitores".

" Não queres participar? Até era bom, porque nós vamos falar sobre policiais e tu falas sobre outras temas..."

Admito que a ideia é interessante, falamos mais tarde sobre isso? estou atrasado para uma explicação.

A verdade é que tenho que fazer a lista para apresentar ao Clube e estou hesitante entre um policial de um autor português, um livro sobre a Guerra Americana e um romance histórico.

A Mãe tenta ver a lista, mas escondo-a e só a revelo no dia da sessão.

Como eu, o António e a Rita escolhemos o mesmo autor, fica decidido que se vai ler o " Rebelde " de Bernard Cornwell.

São 3 volumes, mas não faz mail, dizem, se não acharmos interessante, não lemos os outros.

O Major está entusiasmado com a ideia de ler um livro sobre guerra.



CONTINUA


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

BERNARDO - PARTE III


O Major diz que qualquer plano depende da concentração, dedicação e disciplina.

O Nicolau aconselha a ponderar várias hipóteses para ter um plano B caso o principal não funcione.

O António concorda, é como se fosses dar uma palestra, defender um trabalho teu, tens que estar preparado para responderes a todo o tipo de perguntas.

Por isso, levanto-me mais cedo para ler e levo o livro comigo para a escola.

Aproveito para ler durante o intervalo para almoço e deparo com a incompreensão de alguns dos meus colegas.

Acham ridículo perder tempo com leituras quando há um novo jogo que vai ser lançado brevemente e estão já a fazer pré-reservas.

Nem lhes respondo, guardo o livro e volto para a sala de aula.

O Pedro Gomes segue-me, senta-se ao meu lado e pergunta:

" Que tal é o livro? "

" Estou a gostar... Foi o Clube de Leitura que o escolheu, pensei que era uma seca, mas é bom." confesso surpreendido, porque não falo muito com o Pedro.

É muito reservado, mantém-se um pouco à margem do que se passa na turma e como tem boas notas, não é a personagem favorita.

" Que Clube? " insiste e eu explico-lhe quando e como funciona.

" E eu também posso ir? " mas, infelizmente a minha Mãe já decidiu que o Clube só pode ter seis membros.

Porque, diz ela, com seis membros, as pessoas estão mais à vontade para se conhecerem, falarem abertamente sobre o livro, o autor, sobre o próprio Clube.

O Pedro fica desapontado quando ouve isto, mas apresso-me a esclarecer que a livraria está a organizar outro, quem sabe? pode ir a tempo de entrar.

Combinamos encontrar-nos à saída, eu levo-a à livraria e apresento-o ao Bruno.



CONTINUA


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

BERNARDO - PARTE II


Afinal, o livro não é a " seca " que eu pensava.

Dou por mim a pesquisar o Google, quero ver Mapas do País, tentar encontrar o local certo da cidade onde tudo se passa, estudar o clima.

" Sabes que a cidade é fictícia? " pergunta-me a minha Mãe, mas eu acho que isso não é relevante.

Por isso, naquela quarta-feira, estou ansioso à espera do Major e como ele chega uns minutos antes dos outros, comparamos notas.

Quando os outros chegam, estamos a discutir exactamente onde pensamos ser a cidade.

O Nicolau pede-nos para partilharmos as nossas opiniões com os outros membros, o que penso não ser boa ideia, porque o Major fica furioso quando o António lhe diz abertamente que " não está a perceber bem a mensagem".

" Mas que mensagem? " repete o Major e o Nicolau intervém muito calmo, impondo ordem.

Teria sido assim nas aulas dele? murmuro, mas o certo é que todos obedeceram.

Há uns minutos de silêncio, parecem estar desconfortáveis, sem saberem muito bem como prosseguir e de repente, ouço-me falar.

Dou a minha opinião sobre o título, sobre a cidade, sobre as personagens e vejo que até a minha Mãe está surpreendida.

O Major bate palmas e grita:

" Muito bem, Bernardo." e a Rita começa a rir. 

Eu rio também e sinto-me um pouco embaraçado, mas até gosto da atenção.

Como vou fazer quando regressar à escola? é o que me está a preocupar, confesso ao meu Pai.

" Organiza a tua vida!" é o conselho lacónico que recebo.

Como? 

CONTINUA



segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

BERNARDO


Fiz asneira e da grossa!

O meu Pai fica muito sério quando lhe explico o porquê de ficar suspenso um mês.

Só me pergunta se a cabeça serve só para passear com os ombros e não diz mais nada.

Preparo-me para ouvir música, jogar até às quinhentas e dormir até tarde.

Depois encontro-me com os colegas no Shopping para darmos uma volta.

Contudo, a minha Mãe tem outras ideias e embora proteste veementemente, é-me dito que a " sentença"  está dada e é irrevogável.

" Mas o que é que eu vou fazer todo o dia na livraria? "

" É fácil..." explica a Mãe pacientemente " De manhã, ficas sentado no meu gabinete a rever a matéria, a fazer os exercícios que vais pedir a um dos teus colegas que te envie e à tarde, ajudas-me a repor as prateleiras... Ah, e vais ao Clube de Leitura que começou hoje."

" O quê? Clube de Leitura?" repito e os meus Pais confirmam.

Por isso, cá estou eu à espera que esta porcaria do Clube comece.

A Mãe entregou-me o livro, " Cem Anos de Solidão ", que título idiota que folheio sem grande atenção.

Os outros membros, suspiro quando os vejo.

A tal Rita deve ser da idade da minha Mãe; o Nicolau é velho demais e o António tem um ar tão profissional que nem me atrevo a dirigir-lhe a palavra.

Alto, mas quem é este? Alto, com o cabelo cortado à escovinha e pelo porte, deve ser militar.

Efectivamente é, Major Amadeu Almeida que me aperta a mão como se eu fosse importante.

Fico curioso e vejo que ele também me observa atentamente.

Quando a Mãe sugere que se fale no autor, porque nem eu nem o Major lemos os dois primeiros capítulos, este lança-me um desafio:

" Oh, Bernardo, vamos ver quem chega à página 150 até à próxima semana? "

Fico tão surpreendido que nem respondo.


CONTINUA


sábado, 8 de fevereiro de 2020

ANTÓNIO - O FIM


O Nicolau não põe qualquer objecção em irmos a uma pizzaria e a Rita leva os sobrinhos, pois, segundo percebi, os Pais foram passar o fim de semana fora.

O rapaz deve ser da idade do Bernardo e a rapariga não tem mais do que treze anos. Há ainda a Clarinha, a benjamim da família que prova ser tão divertida como a Tia.

A Rita está muito animada e embora tenha vestido jeans e T-Shirt como a Aída e a sobrinha Madalena. continua a estar elegante e sexy.

O Nicolau e o Major também a observam, devem estar a pensar o mesmo que eu, mas a Rita nem dá conta.

Estamos todos divertidos, os adolescentes monopolizam a atenção do Major, creio que por causa do modelo 3D e a Clarinha quer saber se tenho irmãos.

" Ah, como eu!" diz muito sério quando lhe digo que tenho uma irmã gémea e um irmão mais novo " É bom ter irmãos, não é? Ás vezes, o Gustavo ouve a música muito alto e não me deixa dormir, mas... acontece? "

Concordo solenemente, a Rita intervém, deixa o António falar com as outras pessoas, Clarinha e do canto onde estão sentados os adolescentes e o Major, vem uma grande gargalhada.

Em breve, estamos todos a rir com as sugestões do Bernardo para encenarmos no Clube a cena da Batalha e já passa das onze da noite quando saímos da pizzaria.

Ofereço-me para a levar a casa, mas a Rita agradece, pediu a um amigo para a vir buscar.

Há um sinal de luzes, a Rita acena e despede-se.

A Aída e o Bernardo também se despedem e ficamos os três parados no passeio a ver a Rita abrir a porta do carro aos sobrinhos, certificar-se que a pequenita está com o cinto e depois, sentar-se no lugar do passageiro.

Acena-nos quando passa por nós, mas nós não conseguimos responder.

Estamos todos a pensar quem será o individuo que a veio buscar, mas nenhum o diz alto.

FIM

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

ANTÓNIO - PARTE IV


A muito custo, reduzo a lista a apresentar no Clube.

As senhoras do escritório falam muito no Moita Flores e na Laura Esquivel e eu fiquei curioso com os temas.

Quanto ao Bernard Cornwell, o caso é diferente, porque há colecções inteiras sobre uma personagem e não estou a ver o Clube dedicar-se à leitura de onze volumes sobre o soldado Sharpe.

Por coincidência, a Rita e o Bernardo também falam do Bernard Cornwell, tem o meu nome, justifica o adolescente e a única questão que se coloca é efectivamente qual.

É a Aída quem sugere a leitura da trilogia " Rebelde ", são só três e se não gostarmos do primeiro, não temos que ler os outros, diz.

Até o Major concorda, pois, fala de guerras, estratégias, sussurra a Rita e o Nicolau sorri.

A Rita está linda hoje. Não sei se é das madeixas, se do vestido estampado em tons de preto e vermelho e vejo como o Nicolau a admira.

No fim da sessão, o Nicolau convida-a para jantar, depreendo isso pelo olhar admirado da Rita e ouço a resposta polida e rápida com que declina o convite.

Pobre Nicolau! Acho que a Rita o vê apenas como um amigo, como um Pai talvez.

Eu próprio gostaria de a convidar para sair, mas ainda estou muito magoado com o que aconteceu com a Maria.

" Nunca saberás! Ela pode recusar, dizer-te que és apenas um amigo, não mais do que isso." esclarece a Laura quando falo no assunto e a Luísa concorda.

" Nem todas as mulheres se comportam com a Maria. Essa Rita deve ser uma pessoa divertida." observa a namorada do Gonçalo " Já têm um interesse em comum, os livros... quem sabe se não têm mais? "

" Vá lá, António, vive!" dizem o Pedro e o Gonçalo " Tenta... Não disseste que ela é Directora de Marketing? Finge que queres angariar mais clientes, precisas de fazer mais publicidade e marca uma reunião com ela. No final, convida-a para um café."

Rio-me, parece simples, mas tenho observado a Rita e ela tem planos próprios.

Fico, portanto surpreendido quando a Rita sugere um jantar quando acabarmos este livro.

CONTINUA

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

ANTÓNIO - PARTE III


Com o fim da tarde, chegam a Luísa, a namorada do Gonçalo e o Pedro, o marido da Laura e duas grandes pizzas.

É uma pena desarrumar a cozinha, penso, mas a Laura dá-me um empurrão, não te preocupes, ajudamos todos e o jantar é uma sessão de risos e conversa leve, divertida.

Segunda e terça-feira são dias complicados a nível de trabalho, mas na quarta, saio às seis em ponto.

A sessão é interessante, se bem que não goste que o Major esteja sempre a interromper as pessoas.

Começo a perder a paciência, não concordo com o que está a dizer, quero explicar o meu ponto de vista, mas ele não deixa.

É o Nicolau, com toda a sua calma que o interrompe. 

O Major não está satisfeito, mas estamos aqui para conversar, não é verdade? refiro  e os outros concordam.

No meio disto tudo, quem me está a surpreender é o Bernardo.

Para quem estava sempre com cara de quem está a fazer um favor, o rapaz está a mostrar como é inteligente e criativo na análise que faz sobre o livro.

" Fiquei apreensivo quando o vi lá a primeira vez, mas... o rapaz tem uma boa mente!" confesso ao Gonçalo enquanto jantávamos no Centro Comercial.

Houve um momento constrangedor quando encontramos os meus ex-cunhados, mas limitamos-nos ao essencial e eles despediram-se quase de imediato.

" Não sabes nada da Carolina? " pergunta-me o Gonçalo e eu abano a cabeça.

" Nem quero! " respondo rapidamente e voltamos a falar sobre o Clube.

" Já acabamos o " Cem Anos de Solidão" e para escolhermos o próximo, temos que fazer uma lista com três livros. Entusiasmei-me de tal maneira que a minha lista tem quase vinte." queixo-me.

O Gonçalo ri-se e quer saber como vou reduzir a lista.

" Não vou! Estou interessado em ler todos, independentemente da escolha do Clube. Vou seleccionar os três que me chamaram mais a atenção. Pelo tema." explico.

" Algum autor que eu conheço?" observa o meu irmão.

" Desde quando é que tu sabes ler? " e desatamos os dois a rir.


CONTINUA

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

ANTÓNIO - PARTE II


Não sei verdadeiramente o que se passa comigo, se estou a despertar novamente para a vida.

O que é certo é que é quarta-feira, e estou a conversar com o Nicolau à porta da livraria. 

Este confessa que está quase a terminar o livro.

" Sei que eram apenas os primeiros dois capítulos que devíamos ter lido, mas está escrito de uma maneira tão fluída, tão cativante e a história é tão intensa que não consegui largar."

" Também me aconteceu isso." digo " E a mensagem é poderosa, não acha?" .

Mas o Nicolau não me responde, já estamos dentro da sala do Clube e há duas pessoas novas que nos olham desconfiadas.

A Rita (Ups! Mudou de penteado e o vestido.... não sei se a palavra correcta será sexy!) sorri-nos travessa e a Aida (maldita a hora em que as mulheres optarem por este "uniforme" de calças jeans e T-Shirt) faz as apresentações.

" O meu filho Bernardo e o Major Amadeu Almeida. Como é a primeira vez que os dois estão presente, pensei que talvez fosse melhor falarmos um pouco mais sobre o autor."

Todos concordamos e depressa percebemos que o Major, que não deve ter mais que cinquenta e cinco, sessenta no máximo gosta muito do som da sua voz.

" Coitado! Pensa que está na recruta, a disciplinar os soldados!" comenta a Rita e a Aida dá-lhe uma cotovelada.

" Não me faça rir, ele ainda ouve e temos que suportar um discurso veemente sobre as virtudes do exército!"

" Creio que o Bernardo está interessado no que o Major tem para dizer!" observo.

O Bernardo e o Major estão a conversar animadamente, provavelmente sobre o desafio que foi lançado.

" Até para a semana!" despeço-me e saio para a rua. 

O Nicolau também vem e pergunto-lhe se não quer jantar comigo ali no restaurante da esquina.

O Nicolau aceita, está tão sozinho como eu (dediquei grande parte da minha vida a pesquisar sobre Literatura Medieval, diz) e considera Gabriel Garcia Márquez um autor " light".

A palavra confundiu-me, mas depois percebi o porquê.

Ler português ou francês arcaico deve ser extremamente difícil.

" Como eu ler o POC!" afirma a Laura e o nosso irmão Gonçalo concorda.

Pedem-me mais detalhes sobre o Clube, mas já que vierem para me ajudar a arrumar a cozinha, é isso mesmo que quero que façam.

CONTINUA





terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

ANTÓNIO


Quando me perguntam pela minha mulher, hesito e as pessoas concluem que sou divorciado ou então viúvo.

A separação foi tão dolorosa que acabo por não as corrigir e é isso que pensam aqui no Clube de Leitura.

Hesitei em entrar, até porque já estava a começar, mas o empregado disse que não havia problema e aqui estou eu na sessão de apresentação do Clube de Leitura.

O que a organizadora está a dizer é interessante e estou a ver que a mulher exótica que diz chamar-se Rita concorda.

Quanto ao velhote com a camisa xadrez e a boina basca, Nicolau Vaz, as observações que faz são pertinentes e tenho a certeza de que este Clube será uma boa maneira de esquecer o lado escuro da minha vida.

No dia seguinte, compro o livro e leio umas páginas enquanto tomo um café.

O título, Cem Anos de Solidão, intriga-me e dou por mim a fazer pesquisas no Google sobre o escritor e o País.

Quando chego a casa, e não posso dizer porquê, noto pela primeira vez como é fria, impessoal.

Os móveis estão dispostos de qualquer maneira, há ainda caixotes por abrir e a cozinha está uma grande confusão.

Penduro o casaco, deixo o livro na mesa da entrada e quando dou por mim, a sala tem um canto para leitura, outro para relaxar e ver TV e meio escondido por um biombo, está a secretária e o computador.

Encontrei uns quadros, penduro no sábado e faço uma lista de coisas a fazer no quarto.

Chego à empresa uns minutos atrasado, olham-me com surpresa, o quê, o Dr António atrasado? Não é habitual e ainda por cima, está a sorrir?

Há muito que não sorrio e quando me encontro com a Laura, a minha irmã para tomarmos um café no sábado, ela não quer acreditar:

" O quê? Tu num Clube de Leitura? Pensavas que só lias o POC!" e ri-se.

Quer saber pormenores, mas digo que o Clube ainda está no início, estamos a conhecer-nos.

A Laura fica entusiasmada, mais ainda quando lhe falo nas mudanças que planeio fazer no apartamento.

" Mas o que é que te aconteceu? " pergunta.

Sinceramente, não sei.  Terei deixado de sentir pena de mim próprio?



CONTINUA

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

RITA -FIM


" Não sei como pode estar perdido... além do mais, conheceu aquela Sally..." repete o Bernardo, mas a um sinal da Mãe, cala-se.

A Rita ri-se baixinho, pois tem quase a certeza de que o rapaz ia dizer " boazona" e é a palavra correcta.

Será também interessante falar da Sally, que é ambiciosa e provavelmente, tornar-se-ia numa perita, e utilizando um termo moderno, em " tráfico de influências".

Ou teria sorte e casaria com alguém que lhe daria segurança, uma casa e criados.

Mesmo que os outros a olhassem com desdém.

A Rita volta ao presente, o Major acha que o Nat será um bom soldado e o Nicolau não concorda, porque a história dele com os Pais não está terminada.

" Se ficar no Sul, lutar pelo Sul... os Pais podem não lhe perdoar, a ruptura pode ser completa!"

" Como o Adam diz, a guerra será a perda da inocência... As pessoas terão que enfrentar finalmente o Mundo, evoluir, desenvolver....enfim, viver a época." acrescenta o António.

" O Sul estava parado no tempo... fechado em si." diz o Bernardo e olha para o Major, como que à procura de confirmação.

" Por vezes, as guerras são inevitáveis..." afirma o Major e a Rita tem que concordar com ele.

" Por vezes, são fanáticas..." repete a Aida e todos ficam em silêncio a pensar na guerra moderna.

" Acho que podemos ficar por aqui hoje!" reage a Rita " Que acham de jantarmos todos juntos quando terminarmos o livro? "

Todos acham uma óptima ideia e o Nicolau aproveita para repetir o convite para jantarem juntos.

A Rita volta a recusar, tem um dia complicado amanhã, ainda tem alguns relatórios para ler.

O António diz que está livre, há um restaurante ali perto muito bom e depois deixa-o em casa.

" Não tens relatórios para ler, pois não? " pergunta-lhe a irmã e a Rita ri-se, não, não, já deixei tudo preparado antes de ir para o Clube.

" Então, porque é que não aceitaste? " insiste a Madalena, mas na verdade, a Rita não sabe explicar porquê.

Ou até sabe, mas acha que a irmã poderá não compreender.

Neste momento, a Rita está a gostar de estar sozinha.


FIM

Nota:
A voz do próximo conto do " Clube de Leitura" será a do António,
o contabilista no activo.