sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

RITA - PARTE IV


A Aida dá por terminada a sessão e na próxima, propõe que se fale de Nat Starbuck.

" Afinal de contas, é a personagem chave do enredo. É através dele que estamos a conhecer todos os personagens."

" Claro que sim, temos que falar do Nortista que vai combater ao lado dos Sulistas." concorda a Rita.

" Será um espião?" lança para o ar o Bernardo, mas todos o ignoram.

O Major vai jantar com a irmã (o quê? A família não é o exército? pensa a Rita, trocista) e o António vai voltar ao escritório, surgiu um problema (ai, meu Deus, murmura, as minhas instruções foram tão claras!).

O Nicolau convida a Rita para jantar, (coitado, deve sentir-se muito sozinho; sabe se ele tem família? cochicha a Aída), mas esta desculpa-se com os sobrinhos (habituei-os mal! queixa-se e por isso, lá os tenho a jantar comigo).

" Mentirosa!" ralha a Madalena quando lhe telefona nessa noite " O velhote não te ia fazer mal! Ainda aprendias umas coisas sobre Literatura Medieval."

" Deus me livre! Por acaso, nunca sugeriu isso enquanto que o Major tentou sempre impor a opinião dele." responde a irmã " Mas nunca pensei que gostasse de desenhar...O Bernardo delirou quando ele falou em construir um modelo 3D da batalha."

A Madalena ri-se e desligam. 

A Rita janta qualquer coisa, lê um capítulo do livro e fica curiosa com o SMS da Aida.

Por isso, ao fim da tarde, antes de ir para casa, passa pela livraria e a Aida leva-a muito excitada ao armazém.

" Tive luz verde para comprar novos móveis, uma vez que estamos a ter sucesso com o meu Clube de Leitura e os workshops de Escrita Criativa do meu colega Bruno." conta " O que acha destas poltronas e mesas? " 

São mais cadeiras, constata a Rita, mas estão forradas num tecido macio, cinzento e perto há almofadas multicoloridas.

A Rita pega numa e senta-se.

" Hum, adoro!" 


CONTINUA



quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

RITA - PARTE III


" Claro que o exército cuida dos seus!" protesta o Major.

" Então, não deve ter visto filmes antigos em que mostram soldados Confederados a assaltar bancos, comboios, etc.." diz o António.

" E estamos no século XXI e há soldados a viver na Rua. Focam muito isso nas séries americanas." acrescenta a Rita.

O Major encolhe os ombros e afirma com desprezo:

" As séries exageram sempre!" e prepara-se para um novo discurso, mas o Bernardo está impaciente e interrompe-o:

" Não quero saber disso! Quero falar do que aconteceu no livro... É uma vitória para o Norte?"

" Lá chegaremos, Bernardo. Mas o que é importante aqui..." explica o Nicolau " é falar na mentalidade sulista. Estão todos convencidos que tudo se resolve com uma batalha e que serão os vencedores."

" O Adam descreve bem esse sentimento e está assustado com o facto de irem para a guerra pelo prazer de demonstrar aos Nortistas que são donos do espírito dos Fundadores." acrescenta o António.

" Mas o Adam acaba por se alistar na Legião do Pai. Talvez para não ser considerado um cobarde? " explica o Bernardo.

" Exactamente. Ainda recebia um saiote!" comenta a Rita rindo.

Os outros riem também e a Aida vê que o Major está quase a explodir de fúria.

" Explica-nos, então para que é o Mapa!" pede e o Major relaxa.

O Mapa mostra o local onde o Washingtion Faulconer quis rebentar as pontes.

Há um segundo Mapa, é a cidade de Richmond e o terceiro é:

" ...o percurso feito pelo Coronel... Fiz pesquisas no Google, fui consultar livros à Biblioteca e desenhei-os. Gosto de mapas antigos e de desenhar." confidencia.

Os outros olham uns para os outros; afinal o Major tem um talento escondido.

" Estou até a pensar em construir um modelo 3D desta batalha." continua.

O Bernardo pede mais detalhes e os outros deixam que discutam o assunto por cinco minutos, enquanto bebem um café.


CONTINUA







quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

RITA - PARTE II


Quando chega à livraria na quarta-feira, a Aida segreda-lhe que o Major já chegou.

Trouxe o que pensa serem mapas, pediu um cavalete emprestado e está agora a preparar a sala.

" O que será? " pergunta a Rita " Espero que não seja para nos dar um lição sobre a batalha. Ainda não chegamos lá!"

" Talvez seja para nos explicar onde fica Richmond, etc." sugere a gerente e Rita confessa que, às vezes, o Major exagera.

"  Mas o Bernardo está todo entusiasmado; os professores estão admirados, porque era tão preguiçoso e agora, está interessado, faz pesquisa, perguntas..." diz a Aida.

" Se isso é influência do Major...fico contente!" responde a Rita e as duas entram na sala.

O Major colocou o cavalete no centro e está lá um Mapa.

A Rita aproxima-se para ver melhor, mas o Major impede-a.

" Tenha paciência, Rita! Explico tudo quando chegarem os outros!" e, com um encolher de ombros, a Rita senta-se.

O Nicolau é o primeiro a chegar, tem a mesma curiosidade da Rita, mas o Major pede-lhe para não se aproximar.

Entretanto, o António chega, para ao ver o cavalete, mas o Nicolau apressa-se a dizer trocista:

" Tenha calma, que o nosso Major já vai explicar tudo!".

Ao Bernardo, o Major não diz nada, mas o rapaz fica indiferente ao Mapa.

Está mais interessado em discutir a " explosão falhada da ponte" do que perceber onde é Richmond e o local onde vai decorrer a primeira batalha.

" Afinal, aquilo foi um roubo bem concebido e lucrativo!" comenta o Bernardo.

" Um golpe no orgulho de Washington Faulconer que não passa de um vaidoso." concorda o António.

" O Truslow não deixa de ter razão quando afirma que ele não vai aguentar uma batalha, de que a única maneira de sobreviver é roubando." comenta o Nicolau.

" Porque o exército só quer a vitória, não importa como!" acrescenta a Rita com um olhar malicioso.

" Não sei se concordo com isso! " atalha o Major, mas a Aida interrompe-o:

" O exército vai cuidar dos soldados depois? "


CONTINUA

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

RITA


" Então, Tia, o que estão a ler no Clube de Leitura? " pergunta o Gustavo quando já estão a comer a sobremesa.

A Rita está diferente, pensa a Madalena, este novo corte de cabelo fica-lhe mesmo bem e se está maquilhada, é muito discreta.

O vestido (da Natura, confessa a Rita mais tarde) é muito simples, mas elegante e nota-se que a Rita está confortável, descontraída.

" É o livro 1 de uma trilogia " O Rebelde" do Bernard Cornwell. Fizemos a vontade ao Bernardo." ri-se a Rita.

" Porquê?" quer saber o sobrinho.

" O Bernardo é muito amigo do Major, o livro é passado na Guerra Civil Americana e claro, vai dar azo a grandes discussões." conta a Rita " Ainda pensamos em ler os livros do Sharpe, as aventuras de um soldado do exercito britânico durante a Guerra Peninsular, mas são 11 e por isso, desistimos."

" Então, o autor escreve romances históricos? " interrompe a sobrinha, a Matilde.

" As personagens e os eventos são fictícios, mas os factos são reais. O autor é muito cuidadoso nisso, há sempre uma nota explicativa no fim do livro." diz a tia.

" E, que tal está a ser este? " questiona a Madalena e fica surpreendida ao ouvir a irmã utilizar a palavra " seca ".

Os sobrinhos riem-se e a Rita continua:

" Agora que começo a conhecer as personagens, até acho piada. Principalmente, o Washington Faulconer, um excêntrico."

" Um excêntrico? " repetem os sobrinhos, intrigados.

" Ah, meninos, leiam o livro e façam como Bernardo. Tirem imensos apontamentos e discutam o assunto entre vocês." aconselha a Rita.

" Seria mais divertido discuti-lo contigo." propõe o Gustavo.

A Rita volta a rir e a Madalena sorri também.

Não a ouvia rir assim desde que o Rafael morreu.


CONTINUA

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

APRESENTAÇÃO - FIM


" E, porque não arriscar e escolher um autor novo? A livraria tem um secção de Novidades. Há também o Top de Vendas." contrapõe a Rita " A função do Clube também é essa... apresentar novos autores, novos livros."

" A Rita teve uma óptima ideia." atalha o Nicolau " Cada um pode fazer uma lista com um livro que gostava de reler, outro do Top de Vendas ou das Novidades e o terceiro de um autor que nunca teve coragem de ler."

" Coragem de ler? " repete o Bernardo espantado, mas o António apressa-se a esclarecer:

" Às vezes, a pessoa lê o resumo ou as primeiras páginas e se não lhe prendeu de imediato a atenção, não vale a pena perder tempo com isso."

" Ou ouviu tanta gente a comentar o livro que acha que está ao corrente da trama." acrescenta a Rita " O que não é verdade, porque há pormenores que as pessoas se esquecem e são essenciais para o desenvolvimento da história."

" Podemos adorar o livro ou detestá-lo, mas temos que o ler para formar uma opinião." diz a Aida.

O Nicolau sorri e pergunta:

" Estamos de acordo? Uma lista com três livros... "

" E como se decide? " interrompe novamente o Major " Se todos escolhermos  livros diferentes, qual o critério da decisão? "

Este Major é idiota, estou a perder a paciência, pensa a Rita e alto, diz:

" Escolhe-se o do Top de Vendas, por exemplo."

" Ou se duas pessoas escolherem o mesmo autor, mas livros diferentes, lemos os dois." observa o Nicolau " É bastante simples, Major."

" Livros de terror estão incluídos? " opina o Bernardo e a gargalhada é geral.

Mas até o Major está de acordo quando rejeitam a ideia.

Despedem-se bem- humorados, este Clube está a ser interessante e mal podem esperar para saberem que autor será escolhido.


FIM


domingo, 26 de janeiro de 2020

APRESENTAÇÃO - PARTE V


O Pai tem razão: o Bernardo aceita o desafio do Major e na quarta-feira seguinte, já terminou o livro.

Tomou imensos apontamentos, explica claramente as ideias e surpreende o grupo com a sua análise coerente.

O Major sorri e expõe igualmente a sua opinião sobre o livro. 

O António tenta interromper, há um pormenor com que não concorda, gostava de explicar o ponto de vista. 

O Major ignora-o, continua a falar até que o Nicolau se ergue e diz pausadamente:


" O Major desculpe, mas isto é um clube e os membros podem falar à vontade. Entendemos, respeitamos a sua opinião, mas agora gostaríamos de ouvir a dos outros." e volta a sentar-se.


O Major fica muito vermelho, ainda abre a boca para protestar, mas pensa melhor e cala-se.

" Deve estar a pensar " quem é este idiota para me mandar calar". " sussurra a Rita e a Aida tosse para disfarçar o riso.

O António considera que o livro fala do esquecimento a que o País do autor foi votado.

" A cidade é o palco de todos os problemas com que o País em si se depara; há revoluções, mas ninguém ganha. Aliás, é o que acontece em muitos dos Países colonizados..." acrescenta o António.

" Então, o título tem a ver com a solidão do País? " repete o Bernardo.

" E com a impotência dos homens." acrescenta o Nicolau e as duas mulheres concordam.

" Não sei se estou de acordo." intervém o Major " É porque não têm uma estrutura militar..."

" Desculpe, mas uma resposta militar não é a solução para tudo." observa o Nicolau " E, depois, estamos a discutir um livro e não a situação política."

" O livro pode ter uma mensagem política, não se pode negar, mas não é só isso." diz a Rita.

O Major prepara-se para interromper mais uma vez e a Aida decide dar por terminada a sessão.

Talvez na próxima sessão possam falar de outro autor, de um outro autor.

" E, porque não um autor português? " propõe o Major.

CONTINUA

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

APRESENTAÇÃO - PARTE IV


" Se não me engano, o autor é sul-americano e esses Países foram colonizados..." começa a explicar o Major quando a Aida o interrompe.

" Vai-me desculpar, mas hoje vamos discutir os dois primeiros capítulos. Poderemos falar nisso quando terminarmos o livro."

" Mas é uma explicação simples..." protesta o Major, mas felizmente, o Nicolau e o António entram nesse momento.

Pelos vistos, os dois  já estão a meio do livro e discutem alegremente as características das personagens.

Uma vez que há dois novos membros, um dos quais ainda não leu o livro, optam por falar do escritor, da escrita fluída, a forma como as personagens " nascem".

" Esta conversa é interessante, mas acho que devemos ficar por aqui." diz a Aida " Para a semana, o Major já nos poderá acompanhar e apresentar as suas próprias ideias."

" Dizer se estou ou não de acordo com o que ouvi aqui. Que foi muito interessante!" interrompeu o Major Almeida " Aliás, Bernardo, vou fazer uma aposta contigo."

" Uma aposta? " repete o rapaz.

" Sim, para a semana, temos que estar a meio do livro, como estes dois senhores. Para podermos dar a nossa opinião!" responde o Major.

O Bernardo fica desconfiado, a Aida sorri e os outros membros do clube acham uma boa ideia.

" Espero que ele veja isto como um desafio." conta a Aida ao marido depois do jantar " Ele estava muito aborrecido, animou-se um pouco, porque o deixei atender dois adolescentes... Não sei se foi uma boa ideia."

" Relaxa. As ideias, a tua e a do tal Major foram óptimas...e pode ser que ele esqueça um pouco a tecnologia e perceba que esta é um complemento." aconselha o marido.


CONTINUA


quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

APRESENTAÇÃO - PARTE III


Na quarta-feira seguinte, o Bernardo está já sentado na sala com um ar muito infeliz quando a Rita chega.

" Olá, quem és tu? " e a Aida, que entra nesse momento, responde por ele:

" É o meu filho Bernardo, teve uns problemas na escola e está a ajudar-me. Espero que não se importe que ele esteja presente na sessão do Clube."

" Claro que não! " diz a Rita e prepara-se para conversar um pouco com o Bernardo quando um homem alto, musculado, com cabelo cortado à escovinha entra na sala e pergunta:

" É aqui o Clube de Leitura? "

" Seja bem vindo. Eu sou a Aida Nascimento, a gerente da livraria, esta é a Rita Ghent e o meu filho Bernardo. E o Senhor é? "

" Major Amadeu Almeida, reformado. Sei que se reuniram na semana passada, não sei se..."

" Não há problema, estivemos a discutir os objectivos do clube." e a Rita faz-lhe um pequeno resumo que o Major ouve atentamente.

" Então, já escolheram um livro. Gabriel Garcia Marquez, Cem Anos de Solidão? Sinceramente, não me lembro se o li." confessa o Major.

" Mas não há problema!" repete a Aida " Hoje, vamos falar sobre os dois primeiros capítulos, sobre as personagens, etc... "

" Se quer saber a minha opinião..." interrompe o Bernardo " é uma seca!".

" Oh, Bernardo! Mas isso diz-se?" repreende a Aida, mas a Rita apenas se ri.

" Acredito que na tua idade este livro seja uma seca, mas é o retrato de um País esquecido." explica a Rita.

" Um País esquecido?  Porquê? " comenta o Bernardo interessado.


CONTINUA

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

APRESENTAÇÃO - PARTE II


Pelo sorriso da Aida, a Rita percebe que a gerente também acha ridícula a apresentação do contabilista.

O António continua a falar, concorda também com a ideia da Aida:

" Um dos meus autores favoritos é o Gabriel Garcia Márquez. Gostei muito da  Crónica de uma Morte Anunciada."

" Pois, eu prefiro o  Cem Anos de Solidão." diz a Rita e há uma breve discussão, pois a Aida fala no " Amor em Tempos de Cólera".

O Nicolau tem estado calado, a observar simplesmente e a Aída pede-lhe a opinião.

" Para ser franco..." responde polidamente " sempre vivi rodeado por livros, sou professor de Literatura Clássica, especializado na medieval e confesso que não conheço esse autor."

" Prefere falar sobre os autores portugueses? " pergunta a gerente, mas o Nicolau abana a cabeça.

" Não, não. É uma boa ideia, concordo com a escolha do autor, provavelmente terei que ler os três livros."

A Rita e o António estão admirados, quem é que não conhece o Gabriel Garcia Márquez?, mas concordam em começar pelo " Cem Anos de Solidão".

Fica então resolvido que se reúnem na próxima quarta-feira para falarem sobre os primeiros dois capítulos.

O Nicolau acaba por comprar os três livros, a Aída está satisfeita com o resultado da primeira sessão.

Está cansada, mas feliz quando chega a casa. 

Contudo, há más notícias, diz-lhe o marido.

O filho, Bernardo com 16 anos foi suspenso por se recusar a entregar o telemóvel antes de entrar na sala de aula.

Aida fica furiosa, ainda mais quando sabe que são duas semanas, mas apressa-se a decidir o que acontecerá:

" Vais ajudar-me na livraria e no clube de leitura que começou hoje. Por isso, começa a ler o " Cem Anos de Solidão " do Gabriel Garcia Márquez."

" Oh, Mãe!" protesta o Bernardo, mas os Pais dizem de imediato que não há " liberdade condicional ", a " pena " vai ser cumprida na íntegra.


CONTINUA

Nota:
Podem dar a vossa opinião 
sobre o livro e o autor.


segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

APRESENTAÇÃO


" Organizar eventos que promovam a leitura e a venda de livros. " diz a nota da Administração Geral e a Aida Nascimento, uma mulher habitualmente cheia de energia sente-se um pouco intimidada.

É ao ver o site de uma livraria rival (se soubessem, despediam-me de imediato) que concluí que um clube de livraria é capaz de ser uma boa resposta à questão.

Faz mais alguma pesquisa e coloca um placard à entrada a anunciar o evento.

Pede aos colegas para colocarem igualmente um flyer em cada livro que venderem e aguarda.

Algumas pessoas pedem mais detalhes, têm que se inscrever, pagar alguma coisa?

Ter o cartão da livraria, acumular pontos que serão descontados na compra de livros, pagar o que consumirem (o clube reunir-se-á no bar uma vez por semana).

Ah, diz o senhor calvo de camisa xadrez, é capaz de ser interessante e a senhora muito faladora e que a Aida sabe que se chama Rita, concorda também.

Decidem que a primeira sessão será na semana seguinte, para já com eles os dois e a Aída que, como representante da livraria, acha que deve estar presente.

Está tudo pronto para a sessão quando um senhor alto e elegante, com uma pasta pergunta se vai ainda a tempo de se inscrever.

Claro que sim e até pode participar nesta sessão. diz a Aida, pensando que quatro é um bom numero para começar.

" Obrigada por terem vindo. Chamo-me Aida Nascimento e sou a gerente desta livraria e estarei presente em todas as sessões." explica " O objectivo deste Clube é divulgar e falar sobre livros. Mas, antes de desenvolver a acção do clube, devemos começar por nos conhecer - saber qual o vosso autor, livro preferido, porque é que esse livro vos marcou..."

" Falar também nos outros livros desse autor, por exemplo..." interrompe a Rita " Desculpe, não queria interromper..."

" De nada. É uma óptima ideia. A Senhora é? " pergunta a Aida.

" Rita Ghent, directora de marketing."

" Nicolau Vaz, professor universitário reformado." apresenta-se o senhor calvo com a camisa xadrez.

" António Gonçalves, contabilista no activo." e a Rita, brincalhona por natureza, tem que fazer um esforço para não se rir.


CONTINUA

sábado, 18 de janeiro de 2020

O CLUBE DE LEITURA - FIM


Felizmente, a Madalena não dá conta e continua a falar.

" Sabes quem tem um fraquinho por ti? O Major...  Quando abraçaste o Fernando, se o olhar matasse... nem tu nem ele resistiam."

" Não estás boa da cabeça! O Chorão?? Só se preocupa com ele mesmo e tem um prazer em cortar as palavras aos outros...." responde a Rita.

" Mas não a ti... Deixou-te falar à vontade... No meu livro, isso é paixão." ri-se a irmã.

" Maria Madalena, faça o favor de respeitar a sua irmã mais velha!" diz a Rita, fingindo-se zangada.

As duas desatam a rir, o Bernandes, que entra nesse momento, insiste em saber do que se trata para se rir também e só quando chega a casa, é que a Rita volta a pensar no comentário da irmã.

O Fernando era amigo do Rafael, era presença habitual nos jantares, nas festas que organizavam lá em casa.

Quando o Rafael morreu, ele foi um dos primeiros a aparecer, apoiou-a e encontrarem-se para tomar um café ou um almoço no restaurante da esquina tornou-se um hábito.

Agora com o clube, estão a passar ainda mais tempo juntos, partilham os mesmos interesses.

Será que a Madalena tem razão e ela e o Fernando estão a apaixonar-se? 

E quanto " Chorão", a Madalena só pode ter enlouquecido.

A verdade é que o " Chorão" parece um cordeirinho quando ela fala.

Ai, Rita, estás a perder faculdades, tu que eras tão namoradeira nos tempos de juventude, pensa.

Sorri... e sonha que está a ser disputada pelos dois homens.

Com o dia, regressa o bom senso e a Rita afasta a questão.

Mas ela fica lá, à espera de uma resposta.

FIM

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

O CLUBE DE LEITURA - PARTE IV


" Mas o que é que te aconteceu? Roupa nova, cabelo cortado e barba aparado? Hum... gosto!" e a Rita abraça o amigo.

" Conhecem-se? " pergunta o Nicolau interessado.

" Há muitos anos! Estamos inclusive a organizar um clube de leitura!" responde a Rita, pensando que o Nicolau enlouqueceu de vez com aquela camisa xadrez de um amarelo berrante.

" O do Jardim? Ah..." diz o Nicolau, enquanto a Madalena, que continua sentada, observa a reacção dos outros à conversa.

A Aida cora violentamente e ri-se nervosamente quando a Rita a apresenta.

O Major endireita-se na cadeira e o olhar que lança ao Fernando e à Rita é duro. Como se estivesse ressentido pela atenção que a irmã dispensa ao amigo.

Dir-se-ia que tem ciúmes, murmura a Madalena para si. (estás doida, dirá a Rita mais tarde).

O António e o Bernardo são os únicos que estão à vontade quando cumprimentam o Fernando.

O Nicolau pede para se sentarem, explica que o próximo tema a discutir será a poesia portuguesa e é essa a razão porque o Dr Fernando está presente.

" Estive presente numa das sessões organizadas pelo Dr Fernando no outro clube e ele foi muito eloquente a falar do Fernando Pessoa."

" Vamos falar do Fernando Pessoa? " interrompe o Major, mas o Nicolau apressa-se a esclarecer que escolheu Eugénio de Andrade.

" Eugénio de Andrade, porquê? Não gosto da poesia dele!" queixa-se o Major e o Fernando intervém.

" Eugénio de Andrade é um poeta simples, muito terra a terra. Tente novamente, tenho a certeza de que vai gostar."

O Major abre a boca para falar, mas o Fernando continua a falar e a Rita lança-lhe um tal olhar que o " Chorão " desiste.

O Fernando sabe como despertar o interesse pelo tema e quando sugere que cada um escolha um poema para discutirem na próxima sessão, todos concordam.

Batem palmas quando ele termina, agradecem-lhe efusivamente e a Rita dá-lhe um outro abraço o que irrita solenemente o Major.

Já em casa, o Bernardes ainda não veio do ginásio, e enquanto preparam qualquer coisa para comerem, a Madalena pergunta-lhe:

" Ouve lá, estás apaixonada por esse tal Fernando?"

A Rita abre a boca para brincar como habitualmente, mas não consegue.

É que sinceramente não sabe o que sente pelo Fernando.


CONTINUA




terça-feira, 14 de janeiro de 2020

CLUBE DE LEITURA - PARTE III


O Fernando apresenta já o tema da próxima semana " coordenado por mim e pela minha amiga Rita Gante " (como sempre, escreveu o meu apelido mal! refila a Rita) e fala de um convite para participar num outro clube.

O quê, diz a Rita alto, ainda pensa em lhe telefonar, mas vê as horas e é tarde, amanhã tem um dia complicado.

Vai lendo os comentários na página, faz algumas observações e quando o Fernando lhe telefona por causa do flyer do mês seguinte, esquece-se de lhe perguntar sobre o tal convite.

Como combinado, na quarta-feira está à porta do escritório onde trabalha a irmã para irem juntas para a livraria.

" Achas mesmo que isto é uma boa ideia? " arrisca a Madalena.

" Claro que sim, tens que fazer alguma coisa por ti. Os miúdos estão a crescer e a ter os seus próprios interesses e quem sabe, se não convences o Bernardes a vir também? " diz a Rita, como sempre optimista.

Quando chegam à livraria, a gerente, a Aida Nascimento já lá está a conversar com dois senhores que a Madalena identifica rapidamente como sendo o Major AA (pelo porte marcial) e o António (pelo olhar triste).

Já sentado e completamente alheio ao que se passa, está um adolescente, só pernas e braços e com a cara escondida pelo capuz do blusão. A Madalena deduz que é o Bernardo e toma nota mentalmente para perguntar o que se passou para estar suspenso.

Os dois homens beijam a mão da Madalena e a Rita tem que morder os lábios para conter o riso.

Depois de uma breve troca de banalidades, as duas irmãs sentam-se e a Rita segreda:

" Quando te beijaram a mão, tive que morder os lábios para não me rir. O " Chorão" não ia gostar e o " Distante", o António era capaz de ficar ainda mais distante."

" Ok, quem falta? " e a Madalena sorri ao António que se senta em frente dela. O Major prefere sentar-se ao lado do Bernardo.

" Falta o Nicolau!" responde a Aida " Diz que está um pouco atrasado, estava à espera de alguém que convidou para esta sessão."

" Um convidado ou um novo membro? " observa a Rita " E, não nos diz nada? O que é que o Mil Cores está a fazer?"

" Mil Cores? " repete a Madalena, mas o Major interrompe-a:

" Para fazer isso, ele não tem que nos consultar? "

A Aida prepara-se para responder, mas o Nicolau entra nesse momento.

Com ele, vem alguém que faz com que a Rita salte da cadeira e pergunte:

" Fernando? És tu? Oh, meu palerma, não disseste nada na página do Face, porquê? "

O Fernando sorri timidamente e só diz:

" Surpresa!"


CONTINUA

domingo, 12 de janeiro de 2020

O CLUBE DE LEITURA - PARTE II


" Ok, fala-me desse clube!" pede a Madalena nessa noite após o jantar.

Já arrumaram a cozinha, os miúdos estão nos respectivos quartos e o Bernardes está no escritório a analisar uns relatórios (" vê se tens calma!" e ele indignado " tenho sempre calma").

" É mais um clube de discussão. Escolhemos um livro, lemos um capítulo e discutimos o tema, as personagens, se concordamos com o rumo da história, etc. " explica a Rita " Funciona no bar de uma livraria, vou lá muitas vezes..."

" E os membros? " interrompe a irmã.

" São pessoas agradáveis, se bem que o Major AA possa ser aborrecido." e ri-se com a cara da Madalena. " Não, não tem nada a ver com os Alcoólicos Anónimos; chama-se Amadeu Almada, é um major do exército reformado. Deve gostar muito do som da voz dele, pois não gosta de ser interrompido. Chamo-lhe  o " Chorão".

" Só mesmo tu para dares alcunhas às pessoas." interrompe a Madalena e faz-lhe sinal para continuar.

" Há o António Gonçalves que ficou viúvo há um ano ou dois e acho que se juntou ao clube para não estar sozinho, o Nicolau Vaz que é o coordenador e também está reformado. Há ainda a Aida Nascimento que é a gerente da livraria que cede o espaço e o filho dela, o Bernardo que não deve ter mais que 15, 16 anos." conta a Rita.

" E esses não têm alcunhas? " pergunta a irmã e a Rita volta a rir-se.

" Claro que sim, mas explico-te na altura. Também estou a ajudar um amigo a organizar um outro clube, ainda estamos a definir a forma como funciona, mas já tem página no Facebook." confidencia a Rita " Não te convido, porque este vai funcionar aos sábados de manhã..."

" Ah, sim? E, quem é esse amigo? Conheço? " comenta a Madalena, mas a Maria Clara, a benjamim da família aparece à porta.

" Oh, Mãe, o Gustavo está a ouvir música muito alto e não me deixa dormir."

" Esqueceu-se dos headphones. Outra vez e sabe que a esta hora só pode ouvir música assim." queixa-se a Madalena, levantando-se.

A Rita continua sentada, liga o telemóvel e procura a página do novo Clube no Facebook.

Será que o Fernando já publicou alguma coisa?


CONTINUA

Esta nova personagem, Fernando aparece no conto do Sam Seaborn 
Será uma parceria entre os dois blogues e espero que gostem.
Fica o convite para nos acompanharem.


sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

O CLUBE DE LEITURA



A Madalena está esgotada.
Emagreceu seis quilos (tem que comprar roupa), sente o corpo tenso (voltar às aulas de yoga rapidamente) e tem a certeza de que há mais cabelos brancos (uma ida ao cabeleireiro para se sentir humana).
Será que consegue abstrair-se do pesadelo que foi a doença do Bernardes? 
Os sogros, os cunhados, os Pais e as irmãs foram incansáveis e a Madalena quer organizar um almoço para retribuir.
Contudo, não tem vontade; há muita coisa a organizar e o Bernardes tem que se adaptar às novas funções como Inspector Consultor.
Dizem que não terá tanto stress, mas a Madalena tem as suas dúvidas.
Entretanto, a irmã Rita desafia-a a participar num clube de leitura.
“ Vais gostar, conheces pessoas, lês e discutes livros.”
“ Achas que vou ter tempo com um marido com problemas de saúde e três miúdos? “ protesta a Madalena.
“ Claro que sim. É uma vez por semana, às quartas entre as 18h30 e as 19h30. “ diz a Rita “ Os miúdos jantam e dormem em casa dos Pais ou dos teus sogros e o Brites tem a aula com o PT. Podem ir jantar fora depois.” acrescenta a irmã.
“ Já combinaste tudo, não foi? “ responde a Madalena, rindo-se.
“ Claro que sim. Já sabia que ias recusar, por isso, falei com as partes interessados antes.” e as duas irmãs riem-se.
A Rita sempre foi assim, risonha, espontânea, pronta a contornar os obstáculos.
“ E qual é o livro em discussão? “ pergunta a Madalena.
“ Olha a sorte que tens! É exactamente isso que vamos discutir na próxima sessão.”
A Madalena ri-se novamente.

CONTINUA


quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

A CARREIRA - FIM


O Brites decide regressar a casa, a Sofia ficará mais confortável no quarto dela.

Os avós não insistem, querem conversar a sós com a filha, ela tem que reavaliar a vida dela.

O que é que se passa? Porque é que não volta a trabalhar? 

Era uma boa designer, pode contactar antigos colegas e amigos, actualizar os conhecimentos.

Trabalhar em part-time, lançar-se como freelancer, sugere o Pai.

E, não, ninguém lhe está a pedir que desista do yoga. Pode conciliar as duas coisas, não há qualquer inconveniente nisso, explica a Mãe.

Se tiveres um trabalho, um rendimento estável, e sobretudo não fazeres asneiras como esta, frisa a Tia Madalena, talvez o Brites seja mais flexível e concorde com a custódia partilhada.

" Ou mesmo que não concorde, podes organizar melhor o tempo que passas com ela." acrescenta a Mãe " Estás um pouco perdida e o Brites sente isso."

A Carla tem que fazer um esforço, diz o Pai, para bem de todos.

Não será melhor voltar lá para casa? Pelo menos, até encontrar uma solução de trabalho.

Quando regressam no dia seguinte, a Carla tem já uma lista de pessoas que pode contactar.

Algumas não consegue contactar, o telemóvel está desligado, outras prometem indicar o nome dela se a empresa onde trabalham abrir alguma vaga.

Entretanto, o filho de uma amiga dos Pais necessita de uma designer para conceber o logótipo da empresa que abriu.

A Carla aceita o trabalho, terá que abrir uma empresa na hora.

O cliente fica satisfeito, recomenda-a a outras pessoas e em breve, a Carla tem uma pequena carteira de clientes.

No Verão, a Carla consegue alugar uma pequena casa na praia e convence o Brites a deixá-la levar a Sofia, " sozinha, prometo que me comporto."

O tempo passa, a Sofia cresce e a empresa da Carla também.

O Brites mostra-se mais flexível, a Sofia pode escolher a casa onde passa a noite, almoça ou janta, mas sabe que a palavra final é sempre do Pai.

A Carla já não fala em custódia partilhada, a filha está feliz e ela adora cada momento que passam juntas.

Porque é isso que importa.



FIM










quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

A CARREIRA - PARTE IV


" A Tia não compreende!" esclarece a Carla " O Brites vai ser promovido, vai ter horários ainda mais complicados....e não quero que a Sofia cresça a ouvir falar de crimes, de perseguições."

" Que disparate! Apesar da vida complicada que tem, a tua Mãe diz-me que o Brites está atento às necessidades da Sofia, é extremamente cuidadoso e organizado. E, quanto aos crimes, ele não vai falar no assunto a uma bebé que nem dois anos tem!" 

" Mas, Tia..." interrompe a Carla, mas a tia repete:

" Ainda não acabei de falar. O que é que queres afinal? Vais para a Índia com um idiota qualquer, regressas porque não deu certo e esperas que o Brites aceite tudo, conceda a custódia de menina. Não pode ser, Carla. "

A Carla fica calada, a Sofia reclama a papa, mas a Mãe não a ouve.

" É melhor ir-me embora!" anuncia e dá meia volta para subir novamente as escadas.

A Tia barra-lhe o caminho e tira-lhe uma Sofia zangada dos braços.

" Nem tu nem a Sofia saem daqui até o Brites e a tua Mãe chegarem. Sim, eu telefonei a avisar. Rapto, Carla? Não me admira nada que o Brites pense seriamente em te impedir de ver a Sofia."

A Carla fica tão surpreendida com o comentário da Tia que nem reage quando esta a obriga a sentar-se numa cadeira na cozinha.

A Tia Madalena prepara a papa da Sofia, dá-lhe de comer e instala-a numa manta com os brinquedos.

Não diz mais nada; a sobrinha tem muito em que pensar. A irmã tem razão, o que terá acontecido naquela viagem para ela mudar radicalmente?

O Brites, o irmão e os Pais da Carla chegam ao fim da tarde.

Após muitas festas e beijos à Sofia, o agora Inspector Brites diz claramente à ex-mulher que não confia mais nela.

Claro que não a vai afastar da filha, mas nos tempos mais próximos, só poderá estar com ela na presença de uma pessoa de família. 

A Carla não se atreve a responder; começa a perceber que errou e errou muito.


CONTINUA