domingo, 28 de fevereiro de 2021

A REUNIÃO - O FIM


O André tenta perceber o que aconteceu, mas a Catarina está tão perturbada que mal fala.

O Frederico está à espera na entrada, olha rapidamente para o André, mas a Catarina não dá explicação, quer saber o que aconteceu.

O Tomás tropeçou, raspou o joelho e bateu com o queixo na esquina do móvel.

Fez um golpe, tem que levar dois, três pontos, ah, Frederico, diz a Catarina, pedi-te para protegeres aquela esquina.

Esqueci-me, protesta o ex-marido, não me posso lembrar de tudo!

Claro que tens que te lembrar, repreende a Catarina, não é o Tomás, ele tem dois anos, está a explorar o mundo!

Pois, já sei, eu faço tudo mal, responde o Frederico e a Catarina suspira, lá estás tu a armar-te em vitima! É uma simples observação!

O ex-marido encolhe os ombros, e quem é este? aponta para o André que se mantém afastado, a observar a cena, o teu amante?

A Catarina olha-o muito séria, se não estivessem na entrada do Hospital, o André tem quase a certeza de que ela esbofetearia o ex-marido que foi realmente muito inconveniente.

Felizmente, a enfermeira chega nesse momento e pede-lhes para a seguirem.

O Tomás estende os braços para a Mãe, tem um pequeno penso no queixo e mostra-lhe um pequeno urso que a enfermeira lhe deu.

Podem ir ao Centro de Saúde para tirarem os pontos, diz a enfermeira, basta assinarem estes papéis. Espero não te voltar a encontrar aqui e faz uma festa na cabeça do Tomás.

A Catarina não larga o filho, não, ele não vai contigo, fica comigo e quando o Frederico volta a protestar, ela faz de conta que não o ouve.

O André sorri ao Frederico, estas coisas acontecem, pensa, mas não lhe vai dizer nada; o filho é dela, pena que lhes tenha arruinado a noite!

O Frederico fica parado no parque de estacionamento, confuso, indignado com a atitude da ex-mulher.

Mas agora tem a certeza de que não há qualquer hipótese para reconciliação.

FIM


sábado, 27 de fevereiro de 2021

A REUNIÃO - PARTE V


A Catarina ri-se também, está bem disposta, convidou o André para jantar.

O Tomás está com o Frederico, só regressa no dia seguinte à hora de almoço e por isso, está livre esta noite.

Por isso, recusa-se o convite para jantar da Glória, diz que combinou um encontro com umas amigas e sente-se um pouco culpado por estar a mentir.

Mas ainda é cedo para falar sobre o André; hoje é a primeira vez que se encontram num lugar relaxado e íntimo.

A Catarina teve algumas dúvidas, talvez seja ainda cedo, mas está sozinha há tanto tempo que precisa de se sentir apreciada, de namorar um bocadinho.

O André chega à hora marcada, com uma garrafa de vinho e um ramo de flores que faz com que a Catarina core.

O jantar é muito simples, uma sopa de alho francês, lasanha de marisco e uma tarte de amêndoas, mas o André elogia tudo e a Catarina volta a corar.

A conversa é fluída, divertida e a certa altura, o André beija-a. 

A Catarina abandona-se ao beijo, desfruta-o, mas quando o André lhe desaperta o botão da camisa, o telemóvel toca.

Ao princípio, a Catarina quer ignorar, mas a pessoa insiste e destrói o momento.

O André afasta-se, a Catarina atende contrariada com um " o que foi? o que aconteceu?" e empalidece.

É o Frederico, houve um acidente com o Tomás e vai a caminho do Hospital.

O André vê-a tão transtornada que se oferece para a levar, chamar um táxi, ela não pode conduzir.

CONTINUA


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

A REUNIÃO - PARTE IV

 

A Catarina também está a pensar na conversa que teve com o Frederico, mas não, não quer sequer pensar na hipótese de reconciliação.

Talvez esteja a ser injusta, mas o pouco tempo que estiveram casados, foi muito complicado e é como disse ao sogro, quer um companheiro, alguém que a proteja e a incentive, não a anule.

Não, não lhe vou dar uma outra oportunidade, diz à Mãe quando discute o assunto com ela, sei que é Pai do meu filho, está a esforçar-se, mas é egoísta. Acho que nunca se vai modificar, apesar de tudo o que aconteceu.

A Mãe não diz nada, concorda com ela, o Frederico sempre foi egoísta. 

Quando se reuniam para um almoço em família, estava sempre aborrecido, mal falava e era sempre o primeiro a ir-se embora.

Nunca percebi o que a Catarina viu nele, desabafou com o marido e não foi uma surpresa quando a Catarina se divorciou pouco tempo depois do Tomás ter nascido.

Espero que a Catarina continue a ter o bom senso que está a demonstrar, confessa ao marido, não seria nada bom voltar a viver com o Frederico. Aliás, ela está muito feliz com a promoção.

Realmente, a Catarina está a desenvolver um bom trabalho.

Tem uma equipa interessada, criativa, estão agora a desenvolver uma nova campanha e não podia estar mais feliz.

O Tomás também parece feliz, principalmente agora que o tempo aqueceu e passa a maior parte do tempo no jardim.

E, depois há o André, o director de marketing da empresa.

Almoçaram uma ou duas vezes juntos, achou inteligente, divertido e há muito tempo que não se sentia assim tão solta, tão leve.

Num sábado, deixa o Tomás em casa do avô e resolve fazer umas compras.

Há um dress code na empresa, cores neutras, discretas, mas pode juntar  écharpes estampadas e ao fim de semana, pode vestir o que quiser.

Quando a vê, a Glória ri, oh, Catarina, esvaziaste as lojas?

CONTINUA


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

A REUNIÃO - PARTE III

 

A Catarina fica surpreendida pelo convite, falar o quê sobre o Tomás? 

Já está tudo combinado, passa quinze dias contigo, depois ficamos em casa dos meus Pais alguns dias. E em Setembro, ele vai para o mesmo colégio que os filhos do amigo do teu Pai, diz, não me digas que mudaste de ideias?

Não, responde o Frederico um pouco relutante, queria falar de nós.

De nós??? repete a Catarina, não há nada a falar sobre nós. Já te disse uma vez e volto a repetir, não há qualquer hipótese de reconciliação.

Mas eu mudei, tenho outras prioridades, protesta o ex-marido, gostava de tentar uma outra vez.

A Catarina suspira, esta vai ser uma conversa dolorosa.

Eu sei, fico muito contente por isso, observa gentilmente, mas eu também mudei, Frederico. Tenho uma outra vida, outros interesses de que não quero abdicar.

Não estou a pedir para abdicares de nada! exclama o Frederico, acho que nunca o fiz!

Sim, pediste mais do que uma vez, não te lembras das discussões que tínhamos? as decisões unilaterais? insiste a Catarina, desculpa, não quero mais isso na minha vida. Ou somos uma equipa ou não! É tão simples como isto!

O Frederico desliga amuado, o que é que ela quis dizer com o " ser-se uma equipa"? 

A Catarina contou-me que o Frederico quer reatar, comenta a Glória nessa noite ao jantar e o Major fica a olhar para ela incrédulo.

Não me parece! A Catarina tem as prioridades dela bem definidas, quer um companheiro, não um miúdo amuado sempre a contrariá-la! explica o Amadeu, como nós somos! acrescenta.

A Glória sorri, temos muitos interesses em comum, concorda, mas também me dás espaço para procurar o meu lugar no Mundo.

Pois, o Frederico ainda não compreendeu isso, não sei se alguma vez o compreenderá, continua o Major, esta reviravolta está a mudar-lhe as prioridades, mas não sei se não voltará aos hábitos antigos quando se restabelecer.

Pode ser que não, que tenha aprendido a controlar-se, é uma situação complicada, contraria a Glória, mas no fundo, ela também tem as suas dúvidas, não as quer discutir alto, pelo menos com o companheiro que precisa de paz na vida.

CONTINUA

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

A REUNIÃO - PARTE II


O Frederico vai ficar hoje com o Tomás.

Vai buscá-lo à creche, é a muito custo que o convence a tomar banho e a comer.

Quando finalmente adormece. o Frederico está exausto e toma nota mentalmente para falar com a Catarina sobre o assunto.

O rapaz está muito mimado, muito agarrado às saias da Mãe, precisa de uma mão firme.

Mas, depois lembra-se de que a culpa talvez seja dele; afinal, pouco tempo passava com ele, deixava-o entregue aos cuidados da baby sitter enquanto se divertia com a Dalila.

Alguém lhe disse que ela se ia casar, com um fulano cheio de nota, esclarecem uns, o que ela sempre quis, acrescentam outros, coitado, nem sabe o que lhe vai calhar na rifa!

O Frederico encolhe os ombros, a Dalila foi um grande erro; por causa dela, é que está a viver neste apartamento modesto (não sei porque dizes que é modesto, protesta a Glória, é amplo, cheio de luz) e a ter que contar os cêntimos.

O Francisco já o visitou, veio sozinho com o filho, a Maria está muito cansada, nunca pensou que a maternidade fosse tão cansativa, comenta o irmão e o Frederico não sabe porquê, mas tem vontade de bater aos dois.

Não pode negar que as primeiras semanas de vida do Tomás foram duras, mas a Catarina assumiu a responsabilidade com a energia de sempre.

Houve divisão de tarefas, a Catarina insistiu nisso e ajudando-se mutuamente, conseguiram gerir a vida.

Tenta explicar isso o Francisco, mas o irmão está mais interessado em discutir os resultados do jogo do que falar sobre os problemas familiares.

Aliás, parece ser característica dos dois irmãos, adiam a resolução dos problemas até à última e vê o que me aconteceu, pensa o Frederico, mas não o diz alto.

Por isso, está deitado na cama, a rever novamente o que aconteceu e como se deixou enganar por uma idiota como a Dalila.

Faz parte da aprendizagem da vida, filho, observa o Pai, não te precipites, cuida de ti e do teu filho e diverte-te. Sem exageros!

O que dirá a Catarina se a convidar para jantar com o pretexto de falarem sobre o futuro do Tomás?

CONTINUA


terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

A REUNIÃO


A Catarina não quer acreditar no que o sogro lhe está a contar sobre o Frederico.

É domingo, veio almoçar com o Tomás que está a dormir agora a sesta com a tia (uma catraia que nem dois anos tem e já é a tia, ri-se) e os três adultos estão sentados à mesa da cozinha a beber café.

Tive sempre que controlar os gastos, por vontade do Frederico, gastava-se tudo, diz, mas nunca pensei que chegasse a esse ponto.

Eu ainda acho que é por causa daquela Dalila, interrompe a Glória, segundo sei, raramente estavam em casa e claro que nós também gostamos de passar um fim de semana fora, jantar com uns amigos e organizar uma festa aqui em casa, mas não é todas as semanas!

O Frederico vive muito em função do que as pessoas pensam, isso raramente dá bons resultados, admite a Catarina, era um dos temas em que não concordávamos e...

Uma das razões porque acabaste por pedir o divórcio, concluí o Major e a Catarina abana a cabeça.

Não era bom para o Tomás ter os Pais sempre a discutir e eu também me sentia insegura, admite a ex-nora, gosto de pagar tudo na data ou até antes, e estar a protelar... é muito confuso para mim!

O Major suspira, também não percebe, a Ana fazia uma boa gestão do orçamento familiar, porque é que não ensinou isso aos filhos?

Nunca saberemos, observa a Glória, houve várias falhas na educação que deu aos rapazes e não, desculpa, Amadeu, mas o facto de não estares em casa, não é desculpa para se comportarem assim!

Conheço pessoas que cresceram sem um dos Pais presente e são organizadas, confiáveis, corrobora a Catarina, não me interprete mal! Sei que o Frederico é um excelente profissional, competitivo, criativo, mas, às vezes, se as coisas não lhe corriam bem, parecia um catraio amuado!

Umas vezes falhamos, outras vencemos e o talento está no que aprendemos entre os dois extremos, concorda o Major.

Vamos continuar a falar do Frederico? comenta a Glória, quero saber tudo sobre o teu novo emprego, Catarina, estás satisfeita?

A Catarina sorri, foi promovida a chefe de equipa, o horário é livre, pode organizá-lo em função das necessidades do Tomás.

O problema maior será quando tiver que ir a uma Feira ou a um congresso, explica, mas pode ficar com a minha Mãe, com o Frederico...

Ou connosco, apressa-se a convidar o Major.

CONTINUA



segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

A SESSÃO DO CLUBE - FIM

 

O Nicolau ri-se, calma, estou apenas a fazer pesquisa, não sei se vou avançar com a ideia, afirma.

Ora, dizes sempre isso e depois escreves um livro que é sucesso! diz a Rita, mas o Nicolau abana a cabeça, não, não, estamos aqui para discutir o livro do Bernard Cornwall e não o meu! acrescenta.

A discussão é acesa, principalmente porque a personagem ouve vozes e pedem ao Major para descobrir mais detalhes sobre o arco longo.

Naquela quarta feira, nem o Major está disponível para jantar com o Nicolau que acaba por ir para casa e comer os restos do almoço.

O Major vai jantar com o Frederico, vão rever o plano que tem resultado até agora.

O Frederico encontrou um apartamento em conta na zona onde o Pai vive, aproveita alguma da mobília da outra casa e pensa mudar-se naquele fim de semana.

Há um parque perto com uma pista de atletismo onde pode praticar a corrida e evita assim ter a mensalidade de um ginásio.

Conseguiu renegociar o empréstimo do carro, precisa dele para as deslocações do trabalho e os prémios de seguro.

Sei que vai ser complicado nos primeiros tempos, vais ter que ponderar bem antes de gastares dinheiro, observa o Major, mas lembra-te que isto é uma fase, aproveita para reflectir e rever as prioridades na vida.

O Frederico fica calado, sabe que o Pai tem razão, mas não o diz alto.

Tenho a certeza de que ele está agradecido, confessa o Major quando chega a casa e a Glória lhe pergunta como correu o jantar, mas não vai dizer nada!

Pois não, os teus filhos são muito egoístas, desculpa a franqueza, mas tenho que o dizer, sei como sofres e não o suporto, responde a companheira.

No apartamento que vai deixar naquela semana, no meio das caixas, o Frederico tenta novamente ligar à Dalila.

Ninguém atende, no escritório já o avisaram que têm instruções para não passarem a chamada e o Frederico tem que ser honesto com ele próprio.

A Dalila só estava interessada no dinheiro, na vida luxuosa que ele lhe podia proporcionar e de repente, o Frederico tem saudades da ex-mulher.

Teria que ouvir umas verdades, é certo, mas não o deixaria sozinho a enfrentar a situação.

Será que a pode reconquistar?


FIM

domingo, 21 de fevereiro de 2021

A SESSÃO DO CLUBE - PARTE V


Fiquei seriamente preocupada quando ele me contou, desabafa a Glória quando se encontra com a Aída e a Rita num dia daquela semana na livraria, pensei mesmo que íamos ficar endividados por causa do Frederico, mas a única coisa que ele fez foi pagar a pensão ao Tomás. Está a ajudar o Frederico a negociar o empréstimo do carro e os prémios dos seguros e mais nada!

E já é muito, comenta a Aída, foi tão maltratado pelos filhos, o Amadeu é tão boa pessoa, não merecia isto!

Foram protegidos demais, mimados demais, suspira a Rita, a mãe quis compensar a ausência do Pai.

Não faço comentários sobre a mãe dos rapazes! diz a Glória, o Amadeu pouco fala nela e tenho que respeitar isso. Ele também pouco fala sobre os problemas com os rapazes, mas eu sei que ele sofre e muito!

Por falar em filhos, já conheceram o filho do Francisco? pergunta a Aída e a Glória suspira novamente.

Foram lá almoçar um dia destes, é um bebé muito engraçado, confessa a Glória, mas a Maria parece que tem medo dele e só fala na dieta que está a fazer para recuperar a forma. O Francisco é que trata de tudo, acho que a Maria nem a fralda lhe muda!

As outras riem, coitado do bebé, vai ter uma mãe negligente! e a Rita lembra-se da namorada do Frederico, a tal Dalila, já deu sinais de vida?

Mas a única coisa que a Glória sabe é que ela tem bloqueado as chamadas do Frederico e recusa-se a falar com ele, tendo inclusive atravessado para o outro passeio quando o viu na rua.

Só estava com ele por dinheiro, observa a Glória, pensei que não havia mais mulheres assim!

Oh, isso existe desde a Antiguidade como o Nicolau diria, responde a Rita, vamos perguntar-lhe na próxima sessão do Clube.

Mas não tem oportunidade, porque o Nicolau anuncia que está a preparar um novo livro e todos lhe pedem detalhes.

CONTINUA

sábado, 20 de fevereiro de 2021

A SESSÃO DO CLUBE - PARTE IV


A Rita ri-se, mas no fundo, até concorda com o Gonçalo.

O filho do Major deve ter conhecido uma mulher e esta não deve ser boa pessoa. 

O Major tem que vencer a relutância e dizer umas verdades aos rapazes.

Os acontecimentos precipitam-se, porque o Frederico apercebe-se que está atrasado no pagamento das prestações da casa, do carro, da pensão de alimentos e está quase falido.

Não admira, diz o Francisco quando sabe, viagens caras, jantares em restaurantes de luxo, festas quase todos os dias, o dinheiro não estica.

Mas não me podes ajudar? pede o Frederico, mas o irmão abana a cabeça, tive um filho há pouco, tenho as minhas próprias despesas, não te posso ajudar!

O Frederico não sabe o que fazer, tenta explicar a situação à Dalila, esta olha-o como se ele fosse um estranho e saí sem dizer uma palavra.

O Frederico sente-se abandonado, perdido e é a muito custo que telefona ao Pai.

O Major fica surpreendido, claro, vem até cá, a Glória está no parque com a menina, podemos conversar à vontade.

O Frederico conta tudo o que se passa, o Major ouve sem o interromper e no final, diz que também não lhe vai emprestar dinheiro.

O Frederico fica furioso, és um egoísta, um calhau, tens medo que eu não te pague? grita, mas o Major abana a cabeça e num tom de comando, pede-lhe para se sentar e o ouvir, porque tem um plano.

Tens que fazer uma lista de todas as tuas dívidas, mas podes começar por entregar a casa ao banco e alugas uma numa zona mais barata, sugere e levanta a mão quando o Frederico protesta, não interessa o que os outros pensem, se fores competente no teu trabalho e se te respeitarem por isso, querem lá saber se a casa é tua ou alugada.

Quando ao carro e aos seguros, negoceia o empréstimo e os prémios, subscreve o mínimo, acrescenta, eu pago a pensão do Tomás este mês, não quero que nada falte ao meu neto.

O Frederico fica calado, é um bom plano, terá que viver com um orçamento limitado e controlado até ao último cêntimo, mas é melhor isso do que declarar falência total.

O Major diz-lhe que há apartamentos para alugar ali perto, dá uma volta pelo quarteirão, podes já ver um ou dois hoje e o Frederico agradece.

Tenta ligar para a Dalila, mas esta tem o telemóvel desligado. Onde é que ela estará?

A Glória chega entretanto, está bem disposta, comprou umas margaridas para alegrar a mesa da cozinha, diz.

O que se passa? pergunta quando vê o companheiro pensativo e o Amadeu conta-lhe tudo.

CONTINUA


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

A SESSÃO DO CLUBE - PARTE III

 

O Frederico almoçou algumas vezes comigo, pensei que o Francisco também apareceria, confessa o Major, fiquei convencido de que era possível termos uma relação cordial, civilizada. Mas o Francisco nunca apareceu e o Frederico conheceu a Dalila.

A Dalila? Quem é essa? repete o Nicolau e o Major suspira profundamente.

Segundo a Catarina, a ex-mulher do Frederico, é a nova namorada. Conheceu-a  através da namorada do Francisco, a Maria e ao que parece, é tão parvinha ou mais que a Maria, esclarece o Major, o meu neto, o Tomás não gosta nada dela, a Catarina disse que o rapaz fica nervoso, assustadiço sempre que está com ela.

Isso não é nada bom, comenta o Nicolau, o que é que o Tomás conta? O que é que fazem quando estão juntos?

O Major encolhe os ombros, acho que o rapaz passa a maior parte do tempo no quarto a brincar com a baby sitter, explica, a Catarina diz que o Frederico o enche de brinquedos sofisticados.

E o que é que eles fazem? insiste o Nicolau, não me digas que deixam o miúdo sozinho!

A Catarina falou discretamente com a baby sitter, conta o amigo, ou estão fechados no quarto ou numa festa. A Catarina já tentou discutir o assunto com o Frederico, mas este acha que é má vontade dela. Está a tornar-se um problema, porque o Frederico está  atrasar-se no pagamento da pensão e ele sempre cumpriu!

O dinheiro não é elástico, se calhar, está a viver acima das posses, concorda o Nicolau, lamento imenso, Amadeu! Não sei verdadeiramente o que dizer! E a Glória, o que pensa de tudo isto?

A Glória está furiosa com eles, espera bem não os encontrar, pois vai dizer coisas bem desagradáveis, responde o Amadeu, eu tento amenizar a situação, não me queixar muito, mas ela percebe que tudo isto me está a afectar e não gosta!

Ninguém gosta de ver a pessoa de quem gosta a sofrer, observa o Nicolau, e o que vais fazer?

O Major volta a suspirar, talvez deva falar com eles, mas sinceramente acho que não vai adiantar nada. Se o Francisco nem se dignou a dizer-me que sou avô novamente... a porta está encerrada!

Acho que deves insistir, porque isto não se faz, fizeste o melhor que podias, tomaste as decisões possíveis no momento, não podem passar a vida armados em coitadinhos, reage o Nicolau.

O Major sabe que ele tem razão, mas como é que o vai fazer?

No outro lado da cidade, a Rita e o Gonçalo acabam de jantar, a Rita conta-lhe por alto o que se passa com o Major.

Tem que tentar falar com eles novamente, declara, mas na minha opinião, há uma mulher no meio e deve ser.... hesita, procura uma palavra adequada, digamos chata!

CONTINUA

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

A SESSÃO DO CLUBE - PARTE III

 

Tudo isso é muito interessante, mas eu quero falar sobre o papel da Igreja, interrompe a Rita, sobre os valores do Sir Martin. Fica fascinado pela herege, viola-a, mas grita " crime" quando o arqueiro lhe bate.

A Igreja era muito poderosa naquele tempo, diz o Nicolau, e todos sabemos que se cometem abusos. Aliás, uma aldeia, uma cidade nascia à volta de uma Igreja, o povo pensava que estava protegido.

A verdade é que, para salvar a pele, o Nicholas Hook teve que fugir e estar em Soissons quando esta é atacada, intervém o Major.

Sempre houve duas interpretações da verdade, declara a Aída, ora, aí está um tema que podes desenvolver no teu próximo livro, Nicolau.

Sim, o que é que a Igreja pensava dos jograis, dos trovadores, acrescenta o António, decerto que há livros que falam nisso, podes perfeitamente estruturar uma história.

Oh, não sei, contraria o Nicolau, tenho a agenda um pouco cheia, a editora quer que participe numa Feira do Livro na Alemanha, fui convidado para as "Correntes de Escrita" e claro está que estou a considerar ser júri naquele concurso.

Podes aproveitar os tempos livres para fazer pesquisa, quem sabe o teu trovador não viaja até à Alemanha e tem problemas com a Igreja por considerarem que as suas trovas são hereges, sugere a Rita.

Todos riem-se, o Nicolau promete que vai pensar no assunto e o Major garante que não vai desistir enquanto ele não disser sim.

Ups, diz a Aída, temos que ficar por aqui! Já passa das oito e tenho ainda uns assuntos para resolver antes de me ir embora.

O António recusa o convite para jantar do Nicolau, prometeu à Sofia ler-lhe uma história antes de dormir e por isso, é só o Major que se senta à mesa.

A Glória e a pequenina não estão? indaga o Nicolau e o Major explica que só voltam no fim de semana.

Estão em casa da Mãe da Glória, responde o Major, a pressão no serviço tem sido muita, estão a reorganizar as coisas, mas a Glória queixa-se da falta de organização da pessoa responsável, está constantemente a pedir esclarecimentos...

Pois, isso cansa qualquer pessoa, concorda o Nicolau, se calhar, nem ela própria sabe o que é necessário e isso atrasa qualquer processo. E vocês, como estão?

O Major fica surpreendido pela pergunta, temos altos e baixos como qualquer casal, mas a Glória é uma boa companheira, boa mãe, alegre, divertida, dedicada, afirma.

E os seus outros filhos? e o Nicolau nota que o Major fica tenso.


CONTINUA

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

A SESSÃO DO CLUBE - PARTE II


O Major chega entretanto com dois grandes canudos. 

A Rita e a Aída depreendem que são Mapas da França Medieval, já que escolheram o livro Agincourt de Bernard Cornwell para discussão.

Mais um livro sobre guerra, pensaram, mas sabiam que era uma maneira de despertar o interesse do Major e por isso, acederam quando foi sugerido.

Que falta me faz o Bernardo para montar isto, lamenta-se o Major, e as duas mulheres prontificam-se de imediato a ajudá-lo.

Enquanto estão ocupadas com a montagem dos Mapas, o António e o Nicolau entram na sala, estão a falar animadamente.

Não é sobre o livro, mas sobre a nova proposta que a editora fez ao Nicolau e que o António acha um absurdo recusar.

Que proposta é essa? quer saber a Rita e o António explica que o Nicolau foi convidado para integrar um júri de um concurso de escrita.

Tipo " Textos de Amor de Manuel António Pina"? questiona a Aída e o Nicolau abana a cabeça, mais ficção histórica, diz.

Mas estás como um peixe na água! Afinal, os teus livros são ficção histórica!!! exclama a Rita, exactamente o que eu lhe disse, concorda o António.

Não sei se me sentirei bem a julgar o trabalho dos outros, observa o Nicolau, o concurso é direccionada a jovens talentos! podem sentir-se humilhados, desistir se tiverem uma crítica má!

Têm que aprender a lidar com a rejeição, comenta o Major, também tiveste críticas negativas e continuaste a escrever.

É uma forma de ficares mais conhecido, insiste o António e a Aída pede mais detalhes sobre o concurso.

Ainda não tenho acesso ao regulamento, diz o Nicolau, tenho uma reunião na editora na próxima semana, vou conhecer os outros membros do júri.

Óptimo! Vais e depois contas-nos tudo, incentiva a Rita e o Nicolau ri-se, se não tiver que assinar um acordo de confidencialidade! atalha.

Então, vamos discutir o livro? interrompe o Major, quero explicar o que é o arco longo inglês e porque foi fundamental para a vitória inglesa.

Instalam-se confortavelmente, decidem dar-lhe dez minutos para descrever o arco e depois interrompem.

O que está em causa é a personagem e o papel dele no enredo.

CONTINUA

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

A SESSÃO DO CLUBE


Com a saída do Bernardo, a casa parece vazia e a Aída acorda muitas vezes com vontade de chorar.

O Bruno tenta consolá-la, ele tem que viver a vida dela, a Aída sabe isso, mas há sempre aquele vazio que não a deixa concentrar-se nas tarefas diárias.

Agora que ele não está cá, podemos fazer algumas obras, decide o Bruno, não vou pedir dias de férias, protesta a Aída.

Claro que não, não vou contratar qualquer um, vai ser o meu irmão, responde o companheiro, estivemos a falar nisso noutro dia e ele tem ideias brilhantes para a cozinha e a casa de banho.

A cozinha e a casa de banho? repete a Aída e vamos ter dinheiro para tudo?

Somos família, diz o Bruno, ele faz-nos um preço especial e a Aída pede para ver o projecto, mas o Bruno recusa, vai ser uma surpresa!

Espero é que não pintem a cozinha de preto ou o quarto de banho se transforme num arco-íris, confessa a Aída à Rita.

A amiga ri-se, se o fizerem, convida-me para ver, comenta, mas agora a sério, o teu cunhado é bom nesse tipo de trabalhos?

Sim, tirou um curso de design qualquer, especializou-se em cozinhas e casas de banho, conta a Aída, já vi alguns dos projectos dele em 3D e são muito bons! O que me preocupa é que o Bruno insiste que é uma surpresa e não me deixa ver os projectos!

A Rita volta a rir, estão as duas sozinhas, os homens ainda não apareceram para a sessão do Clube.

Também eles sentem a falta do Bernardo, das piadas secas, dos comentários irreverentes.

Acho que quem mais sente a falta dele é o Major, observa a Rita, ele adora a Glória e a filha, mas a relação com o Bernardo é aquilo que ele nunca teve com os filhos!

Estive a conversar com a Glória noutro dia, conta a Aída, e ela disse-me que o outro filho, o Francisco foi pai e só souberam porque a ex-nora os foi visitar! O rapaz foi incapaz de telefonar ao pai e avisar que tinha sido novamente avô.

Nem imagino como o Amadeu ficou! responde a Rita, aqueles dois filhos são estranhos, não fazem qualquer esforço para se aproximarem do Pai!

Tenho que dar graças a Deus porque o meu ex apoiou-me imenso quando o Bernardo esteve doente! afirma a Aída.


CONTINUA


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

A VISITA - FIM


Fica, então combinado que a Clarinha dorme lá uma vez por mês.

O Bernardo convence-a que é " cool", a Clarinha fica lisonjeada e durante uns meses, a situação resulta.

De vez em quando, a Clarinha ainda tem acessos de fúria, como lhe chama o Gustavo, mas reconhece que está errada, pede desculpa e aceita o castigo.

No emprego, o Gustavo brilha e é promovido. 

O Bernardo nem acaba o estágio, é tão criativo, tão interessado que a Administração lhe propõe o lugar de assistente numa sucursal.

Os dois começam a ter horários diferentes, às vezes, só se cruzam de manhã cedo antes de irem para as respectivas empresas.

Entretanto, o Gonçalo conhece uma rapariga numa festa da empresa, fica encantado com ela, mas o Bernardo não confia nela.

Há qualquer coisa de falso nela, confidencia à Mãe, não posso dizer o que é, mas não é a rapariga certa para o Gustavo.

Não lhe digas nada, aconselha a Aída, o Gustavo vai descobrir.

Mas o Gustavo está cada vez mais apaixonado pela rapariga, o Bernardo sente-se a mais e fecha-se no quarto quando ela lá está.

Torna-se um problema quando o Bernardo os ouve a discutir uma noite, ela quer que o Gustavo o convide a sair, para termos a casa só para nós, diz.

A discussão é forte, ela saí a meio da noite e o Gustavo está pálido, aborrecido na manhã seguinte.

O Bernardo acha por bem começar a procurar casa, já está na altura, explica, tenho um emprego estável, preciso de encontrar o meu caminho e o alívio no olhar do Gustavo é tal que o amigo não tem coragem de dizer mais nada.

Nada é como dantes, a nova namorada do Gustavo impõe um outro ritmo, e até a Clarinha deixa de ser bem recebida.

É um duro golpe para a menina, a Madalena tem medo que volte a ter um comportamento agressivo, mas a Clarinha está a crescer, está a ter novos interesses na vida.

Parece que estamos todos no bom caminho, diz a Rita num almoço de domingo, mas a Madalena não tem tanta certeza.

Como o Bernardo diz, há qualquer coisa que soa a falso na nova namorada, não consegue confiar nela, embora a rapariga seja educada e prestável.

Deus queira que o Gustavo não sofra! Mas isso faz parte da vida....


FIM

domingo, 14 de fevereiro de 2021

A VISITA - PARTE VI


O torneio fica adiado, porque o Gustavo encontrou o apartamento perfeito para os dois e têm que organizar rapidamente a mudança.

A Rita oferece um sofá e o Gonçalo dá-lhes a chave do depósito onde estão os móveis do antigo apartamento dele.

Pensei que os tinhas vendido, diz a Rita admirada, e o Gonçalo encolhe os ombros, sorridente.

Há uma cama, um sofá, mesas, cadeiras, puffs, cadeiras e até uma estante que é perfeita para a sala de estar.

Abrem uma caixa que está cheia de utensílios para a cozinha; tudo muito simples, mas em muito bom estado e os rapazes levam tudo.

A Madalena compra cortinas para a sala e para o quarto do filho; a Aída faz o mesmo para o quarto do Bernardo e para a casa de banho.

Entregam um grande pacote, é da avó do Bernardo, é roupa de cama e de mesa que a Matilde se encarrega de arrumar.

A Clarinha está muito bem disposta, pedem-lhe para arrumar as caixas vazias no hall de entrada, eu depois vou lá fora e deixo-as no contentor, explica o Gustavo.

Encomendam uma pizza, a casa já tem alma, como comenta a Matilde, o que faz com que os outros riam.

Onde é que eu vou dormir? pergunta a Clarinha, não vais dormir cá hoje, nem nós vamos dormir cá, responde o irmão, amanhã vêm cá alguém limpar isto e só na próxima semana é que nos mudamos definitivamente.

Ah, a Clarinha suspira e continua a comer a pizza. Acaba por adormecer sentada à mesa, o Gustavo pega-lhe ao colo com todo o cuidado e leva-a para o carro.

Estão todos exaustos, o Bernardo queixa-se de dores na perna, não devia ter estado tanto tempo em pé, observa, desculpa, amanhã não te posso ajudar.

Mas não há mais nada a fazer e o Gustavo acorda tarde no dia seguinte. Tem que voltar ainda hoje, mas vai ficar num pequeno hotel.

O Bernardo muda-se naquele fim de semana, a Aída confessa que já está cheia de saudades dele, mas ele está tão feliz que nem me atrevo a dizer isto alto, acrescenta.

A Madalena sabe o que é, também sente muitas saudades do Gustavo, foi o grande apoio dela durante o divórcio, mas ele tem que seguir com a vida dele.

Os dois rapazes estão a ver o jogo, encomendaram comida chinesa, estão tranquilos.

Um dia destes, temos que deixar a Clarinha passar cá a noite, pode dormir no meu quarto, sugere o Bernardo.

Que ideia! Se for caso disso, improvisamos uma cama no meu quarto; mas ela vai esquecer o assunto! e o Gustavo está seguro do que diz, este é o nosso refúgio, é para gozarmos a vida, trazermos os nossos amigos, as namoradas.

Ok, mas podemos deixá-la ficar aqui uma noite, ela pode não gostar e não quer voltar, o Bernardo está a ser sensato e tem uma certa razão, ela pode sentir-se novamente posta de parte e voltar a ter aquele comportamento agressivo. Não queres evitar isso?

O Gustavo fica calado, estas últimas semanas, o comportamento da Clarinha tem sido exemplar, a vida lá em casa está mais calma, a Mãe parece que respira melhor.

És capaz de ter razão, admite, mas fica cá só uma noite, avisa.

O Bernardo sorri.

CONTINUA



sábado, 13 de fevereiro de 2021

A VISITA - PARTE V


A Clarinha está bem disposta, descreve ao pormenor o novo jogo ao almoço e o Gustavo decide comprá-lo.

Será boa ideia? protesta a Madalena, queremos que ela entenda que faz parte de uma família, que há regras a seguir e isso é a mensagem errada!

Talvez não, diz o filho, vamos fazer com que ela se sinta desafiada! O jogo é uma recompensa se ela cumprir os objectivos como arrumar o quarto, fazer os trabalhos de casa, etc...

Isso é passar a mensagem errada! insiste a Mãe, mas o Gustavo não concorda e compra o jogo.

A Clarinha quase desmaia quando o vê instalar o jogo, está pronta para o desafiar, mas o irmão afasta-a, não, isto tem um preço!

A irmã abre a boca de espanto, um preço? do que é que ele está a falar? endoideceu? pensa.

Não vou fazer um discurso, dizer a sorte que tens por teres uma família, porque isso tens que ser tu a descobrir, continua o Gustavo, mas para jogares, tens que o merecer.

A Clarinha tem agora a certeza de que o Gustavo está doido, as palavras não fazem sentido, porque é que não a deixa jogar?

Mas o Gustavo não cede quando ela tenta pegar no comando, só jogas quando compreenderes as regras da casa e saí da sala.

A Clarinha continua sem compreender o que o Gustavo quer dizer ou talvez não queira, como lhe explica a psicóloga mais tarde.

A menina está confusa, talvez seja isso o que o Gustavo quer, confidencia a Madalena ao Bernardes, não sei se estou de acordo.

Mas ela está mais calma, não está? pergunta o Bernardes e a Madalena não pode negar, a Clarinha está mais obediente, mais calma, a professora está satisfeita com os resultados.

O nosso filho errou na profissão, ri-se o Bernardes, talvez agora as possas deixar jogar, impõe regras, claro, mas acho que está na altura de ela jogar.

Por isso, naquele sábado, a Madalena dá-lhe o comando, podes jogar durante uma hora e depois vamos lanchar com a Tia Rita.

A Clarinha fica tão excitada que até liga depois ao Bernardo para trocar impressões.

O Bernardo está satisfeito, a empresa aceitou recebê-lo novamente como estagiário, vai trabalhar com o Gustavo e por isso, acede ao pedido da menina.

Sim, quando o Gustavo estiver cá, organizamos um torneio e quem perder, paga os gelados! diz e a Clarinha ri-se com vontade.

CONTINUA

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

A VISITA - PARTE IV


A Clarinha fica calada, não sabe o que dizer, mas o Bernardo tem razão: ela era divertida, alegre.

O que se passa com ela? Abre a boca para perguntar isso, mas o Bernardo teve uma ideia que está a discutir com o irmão.

Já ando só com uma muleta, o meu fisioterapeuta diz que mais um mês e largo-a, poderei ter que andar com uma bengala, confessa, mas isso é o menor dos meus problemas. Achas que, se falares com eles, deixam-me continuar com o estágio?

O Gustavo fica surpreendido, é realmente uma boa ideia, terá que falar com a coordenadora do estágio, diz.

Há lá centros de fisioterapia, o meu terapeuta deve conhecer, continua o Bernardo, podemos partilhar o apartamento e ajudo-te nas despesas.

Certo, concorda o Gustavo, mas primeiro temos que falar com a coordenadora, saber se é possível continuares o estágio no ponto em que deixaste e não começares do principio. O resto vemos depois!

O Bernardo suspira, está entusiasmado, espera que concordem. 

O Gustavo também está entusiasmado, os dois até se dão muito bem, há respeito, empatia entre eles e para ser sincero, não gosta muito de estar sozinho.

Sente-se falta das discussões com a Matilde, até das birras da Clarinha.

Então, e eu? interrompe uma voz muito triste e os dois rapazes olham para a Clarinha aturdidos.

Esqueci-me por completo que ela estava aqui, pensa o Gustavo e em voz alta, diz, vais visitar-me com a Mãe e a Matilde de vez em quando.

Podes ficar no meu quarto e eu durmo no sofá, atalha o Bernardo.

Nada disso, fica no Hotel com a Mãe e com a Matilde, decide o Gustavo e o Bernardo pisca o olho à Clarinha.

A menina sorri, o Bernardo vai arranjar uma maneira de ela passar a noite no apartamento.

Os dois despedem-se, o Gustavo promete ligar-lhe logo que tiver notícias e a Aída encontra um filho bem disposto, até mudou de jeans e T-Shirt quando chega a casa ao fim da tarde.

O Gustavo vai falar com a coordenadora do estágio da empresa, ver se me aceitam novamente, anuncia o Bernardo, começar onde fiquei antes do acidente!

A Aída fica sem palavras, depois sorri, espero bem que sim, filho! espero bem que sim! repete.

CONTINUA

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

A VISITA - PARTE III

 

Não, não ficas em casa da vizinha, decide o Gustavo, vais comigo visitar o Bernardo.

Mas porquê? pergunta a Clarinha, quero lá saber do idiota do Bernardo! Calma aí, não se fala assim de alguém que é muito teu amigo, responde o irmão, vais comigo e não se fala mais nisso!

A Clarinha anda o mais lento que pode até que o Gustavo perde a paciência e a obriga a acompanhar o passo dele.

Não é fácil, o Gustavo anda muito depressa, a Clarinha tem quase que correr e está muito cansada quando chegam a casa do Bernardo.

O Bernardo também está mal humorado, não está muito interessado em falar com o Gustavo, mas a Mãe insistiu.

Temos que conviver um pouco mais, não és eremita, diz a Aída, ok, compreendo a frustração, o acidente arruinou os teus planos, mas não resolves nada se ficares aí a pensar no que poderia ter acontecido. Aproveita a pausa e refaz os teus planos! Só tu é que podes decidir!

No fundo, o Bernardo até sabe que a Mãe tem razão, mas não pode negar que tem ciúmes do Gustavo, podiam estar os dois a trabalhar na empresa e levar uma vida de príncipes.

Nos primeiros minutos, o ambiente está tenso, mas a Clarinha descontraí, vê o novo jogo do Bernardo, pergunta-lhe como se joga.

O Gustavo está a pensar em comprar um, escuta também as explicações do amigo e acabam os três por fazer uma competição.

O Bernardo deixa a Clarinha ganhar, mas o Gustavo quer a desforra e a irmã ri-se satisfeita por o ter vencido.

Fazem um intervalo, deixam a menina jogar sozinha e o Bernardo faz imensas perguntas sobre os projectos em que o Gustavo está envolvido.

Trabalha-se muito, às vezes, ficamos lá até às nove, dez da noite para terminar o projecto, mas pagam bem, conta o Gustavo, tenho é que sair do apartamento.

Porquê? O apartamento era bem jeitoso, central, exclama o Bernardo, não estou a perceber!

Eles compraram o apartamento para os estagiários, eu já não sou um estagiário, explica o Gustavo, dentro de um mês ou dois, vão receber novos estagiários e eu não posso estar lá. Nem quero! acrescenta, nem eu nem eles estaríamos à vontade.

E, já tens alguma coisa em vista? quer saber o Bernardo e o Gustavo encolhe os ombros, tenho dois em vista, um até é relativamente perto da empresa, mas estou indeciso. Não sei se será uma boa ideia estar assim tão perto! comenta.

Pois, compreendo, concorda o Bernardo, tens medo que se aproveitem disso para te pedirem para trabalhar até mais tarde ou entrar mais cedo!

Quero um quarto para mim no teu apartamento, interrompe a Clarinha inesperadamente, posso ir lá passar os fins de semana!

Era o que faltava! protesta o Gustavo, eu quero lá passar os meus fins de semana com uma catraia malcriada.

O quê? Malcriada? repete o Bernardo, não, não pode ser, a menina que eu conheço é muito simpática e divertida.

CONTINUA

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

A VISITA - PARTE II

 

O jantar seria um sucesso se a Clarinha não estivesse de tão mau humor.

O Gustavo conta piadas, tenta que ela participe, mas a Clarinha resmunga um " deixa-me em paz, idiota" e a Madalena diz-lhe para ir comer na cozinha.

Até aprendes a comportar-te como um ser humano, insiste, mas a Clarinha limita-se a obedecer, não faz qualquer comentário.

Ups! Não pensei que as coisas estivessem neste ponto, comenta o Gustavo, teremos sorte se ela não ligar o rádio às duas, três da manhã, conta a Matilde, a Mãe já a proibiu de o fazer, o rádio pode ser confiscado a qualquer momento, mas não sei!

Sobressaltam-se com o barulho, a Clarinha deve ter ido buscar o rádio ao quarto e ligou-o no máximo.

O Gustavo levanta-se, eu trato disto, murmura e entra na cozinha.

A Clarinha está a dançar, de vez em quando mete uma garfada na boca, mas continua a dançar e a cantar.

O Gustavo não está com meias medidas, desliga o rádio, a Clarinha olha espantada.

Estava a ouvir, protesta, liga-o de novo, quero dançar e estende a mão para ligar novamente o rádio.

O irmão dá-lhe uma sapatada, a Clarinha ataca-o de imediato.

Bate-lhe não importa onde, mas o Gustavo segura-a facilmente, que é que pensas que estás a fazer, Maria Clara? Isto não tem piada! Vais de imediato para o quarto, quero lá saber se já acabaste de comer!

Não vou! e a Clarinha bate com o pé, mas o Gustavo empurra-a para a frente, saem os dois para o corredor, a Mãe e a Matilde já lá estão, atraídas pela discussão.

Não, Mãe, não se preocupe, eu trato desta rebelde, diz o Gustavo e abre a porta do quarto.

Lavar os dentes, despir e cama! ordena numa voz que não admite réplica e a Clarinha dá-se como vencida, obedece.

O irmão ajuda-a a deitar-se, quer dar-lhe um beijo de meia noite, mas a menina empurra-o.

Está mesmo impossível de aturar, confessa quando regressa à sala, o Pai que diz?

Ela faz a mesma coisa, suspira a Mãe, nem com a psicóloga fala ou com a professora, os miúdos não são todos iguais, mas a Clarinha ultrapassa os limites.

O Gustavo fica pensativo, não tem uma solução a oferecer, está preocupado, porque este clima de tensão está a deteriorar a relação da família.

No dia seguinte, a Mãe tem uns assuntos a tratar na loja, promete voltar para o almoço, a Matilde vai estudar com umas amigas.

Ficam os dois em casa e o Gustavo resolve visitar o Bernardo.


CONTINUA

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

A VISITA

 

O Gustavo gosta do emprego, são exigentes, mas os benefícios são óptimos.

A cidade também é simpática e já tem um pequeno grupo de amigos. Às vezes, aparecem amigos da Universidade para passarem o fim de semana e por isso, raramente está sozinho.

Pena o Bernardo ter tido aquele desastre e ter meses de fisioterapia pela frente; podiam ter ficado na mesma empresa ou se tal não fosse possível, um deles ter encontrado emprego numa outra empresa.

Nunca se sabe, pensa o Gustavo, mas o Bernardo está muito revoltado, culpa tudo e todos pelo que aconteceu e o Gustavo sente que se estão a afastar.

É uma pena, o Bernardo era uma pessoa divertida, leal e o Gustavo sente a falta dele.

Talvez o possa visitar no próximo fim de semana, tem que ir a casa, a Clarinha está a dar problemas, se fores tu a conversar com ela, diz a Mãe, quem sabe? ela pode escutar-te.

O Gustavo duvida, a Clarinha consegue ser muito teimosa, nem sempre compreende (ou finge) o que os outros lhe dizem e persiste em fazer o que quer.

Mas tem que tentar, sente que a Mãe está a ficar desesperada, o próprio Pai confessa que se sente impotente.

E o que diz a psicóloga? pergunta o Gustavo, a Clarinha recusa-se a falar com ela, explica a Mãe, não colabora nas aulas, está a ser uma desgraça.

O que é eu lhe vou dizer? insiste o Gustavo, não sei, responde a Mãe, pode ser que ela se abra contigo, te diga o que quer, já não sei o que fazer!

Apanha o comboio das sete, chega a casa por volta das oito, estão à espera dele para jantar e apenas a Mãe e a Matilde parecem estar contentes por ele estar ali.

A Clarinha parece aborrecida, cumprimenta-o como se estivesse a fazer um grande favor e o Gustavo tem que se contentar para não lhe dar um tabefe.

Que modos são esses? protesta o Gustavo, venho passar o fim de semana a casa, cheio de vontade de ver as minhas irmãs e tu pareces um bicho do buraco!

A Clarinha encolhe os ombros e continua a comer a sopa, o Gustavo e a Mãe trocam um olhar de desespero.

Maria Clara, estou a falar contigo, queres fazer o favor de olhar para mim? repete o irmão e como a irmã finge que não o ouve, segura-lhe a mãe.

Larga-me, estúpido, estás a magoar-me, exclama a Clarinha.

CONTINUA

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

MATIAS - FIM

 

Também adormeço; foi um dia cansativo e se tiver que competir com o Edgar, não sei bem se vou aguentar.

Claro que vou aguentar; o Edgar é meu irmão, vou lutar por ele, ao lado dele toda a vida, somos uma equipa como o Pai nos dirá vezes sem conta anos mais tarde.

O Miguel é o líder da equipa, é o mais velho, é mais fácil obedecer-lhe que aos Pais.

Quanto à Filipa, ela é uma rapariga, mas ela não admite abusos, sou a vossa irmã mais velha e exijo respeito.

O Edgar olha para mim, o que é isso de respeito? é a pergunta muda que leio nos olhos, mas eu encolho os ombros, como quem diz, deixa-a falar.

Mas a verdade é que não me atrevo a desafiá-la, se o Miguel sabe, há um grande sermão e a vida é preciosa demais para estar sempre a ouvir discursos que não entendemos.

Ou não querem entender, diz o Miguel um dia após uma grande discussão com a Filipa, porque aqui não há separação do género, somos todos iguais!

A Filipa queixa-se ao jantar, estamos em minoria, Mãe e esta ri, temos apenas que fazer o nosso melhor!

Mal sabia ela que anos mais tarde nasceria a nossa irmã Inês e que a Filipa ficou um pouco abalada.

Oh, Mãe, quando ela tiver 20 anos, se calhar já estou casada e com filhos! protesta quando sabe, mas não há nada a fazer.

Os rapazes querem um rapaz, eu e o Edgar temos grandes discussões sobre o assunto e terminamos quase sempre a lutar.

Alguém tem que nos separar, porque é que estes rapazes não fazem wrestling? sugere um dia o Tio António, mas o Pai rejeita a ideia.

Temos natação, rugby e adoramos andar de bicicleta.

Ao princípio, toda a família praticava, mas depois a Filipa interessou-se pelo yoga, a Mãe continua fiel à natação e por isso, só os rapazes é que exploram o desporto.

O Edgar fala em se tornar profissional, mas os Pais aconselham calma, pensa nos estudos primeiros, depois vemos isto.

Eu não penso em nada, vejo como a Filipa e o Miguel andam preocupados a estudar para entrarem na Universidade, não quero tanto stress na minha vida!

Mas é como os Pais dizem, a vida dá muitas voltas e temos que viver um dia de cada vez!

A única certeza que tenho é que, não importa a idade, eu e o Edgar vamos estar sempre a competir, queremos estar sempre um passo à frente do outro.

O que vai aborrecer imenso toda a família!

FIM

domingo, 7 de fevereiro de 2021

MATIAS - PARTE IV

 

Desta vez, só aparece o Miguel que, ao aperceber-se da situação, fala com a " voz de comando".

Na altura, não sei o que é a voz do comando, mas depressa aprendo que, quando fala assim, é melhor não desobedecer.

Os castigos podem ser mais duros que os dos Pais e até ao primo Miguel não se atreve a desafiá-lo.

Por isso, embora proteste veementemente, o Edgar vai para a cama e eu recebo um lenço molhado em água fria para o " galo".

Depois, o Miguel também me põe na cama e eu fico indignado, não fiz nada de mal, mas o meu irmão abana a cabeça, se não o tivesse provocado, nada disto aconteceria, diz.

Fico pensativo, talvez tenha razão, mas a verdade é que o Edgar parece estar sempre a competir comigo.

Será que vamos ser assim a vida inteira? 

Não sei, acabo por adormecer, acordo com a Mãe ao pé da cama, indecisa sobre o que fazer.

Mas eu cheiro qualquer coisa boa, o que será? estendo-lhe os braços e ela põe-me no chão.

Nem espero por ela, o jantar deve estar na cozinha, é melhor o Edgar apressar-se ou eu como tudo.

A D. Margarida fica espantada por me ver aparecer sozinho, o meu nariz não falha, deve ser sopa de cenoura, e eu adoro sopa de cenoura.

A senhora senta-me na cadeirinha, coloca-me o guardanapo e põe o prato à minha frente. 

Pega na colher, mas eu quero comer sozinho, sou um homem! não preciso de ajuda e tiro-lha.

A Mãe aparece então a arrastar um Edgar muito ensonado, que faz birra quando o sentam na cadeirinha.

Mas a sopa cheira tão bem que ele fica bem mais desperto e tenta acabar primeiro que eu.

Eu quero saborear cada colher, oh, Matias, cuidado que está quente! avisa a D. Margarida.

O Edgar engasga-se, começa a tossir, para quê tanta pressa? ralha a Mãe e dá-lhe água.

O meu irmão olha-me de soslaio, vou vencer este desafio, dizem os seus olhos, mas eu não estou disposto a entrar em mais desafios.

Estou cansado, quero comer sossegado, porque é que o Edgar não faz o mesmo? não percebo!

O Edgar volta a engasgar-se, não acaba de comer a sopa, come apenas um bocadinho de bife e de arroz e nem prova a sobremesa.

Eu como tudo, a D. Margarida ri-se, este é mesmo um guloso! e a Mãe sorri, este não comeu tudo, estará doente? mas o Edgar respira saúde.

Há dias assim, não se preocupe! amanhã, ele come melhor, aconselha a governanta, estou atrasada, se perder este autocarro, só daqui a meia hora.

Despede-se, dá-me um beijo na teste, faz uma festa na cabeça do Edgar e saí.

A Mãe pede ajuda à Filipa, esta parece um pouco aborrecida, teve que desligar a chamada, seria o namorado? como lhe chama trocista o Miguel.

Lavamos os dentes, fazemos um último xixi e instalam-nos na cama.

A Filipa dá-me o ursinho, mas o do Edgar não aparece e este recusa-se a dormir sem ele.

Procuram-no no armário, no caixote dos brinquedos, nada; finalmente, encontram-no, caiu para trás da cama.

O Edgar fica sossegado e adormece de imediato.

CONTINUA


sábado, 6 de fevereiro de 2021

MATIAS - PARTE III

 

Não, não quero e lá almoço contrariado.

Mas não estou feliz no jardim, não participo nas brincadeiras dos outros meninos e fico muito contente quando o Miguel aparece para me levar a casa.

Então, hoje foi um bom dia? pergunta o meu irmão, mas não está interessado nas minhas respostas, pois trouxe uma amiga que me faz uma festa na cabeça, ri-se e diz oh, que amor, Miguel!

Não sei quem é mais idiota, se ela ou o nosso irmão, conto ao Edgar mais tarde, mas este não olha para mim, olha para a minha bola vermelha que seguro contra o peito.

Adivinho o que ele está a pensar, mas nem tentes, aviso-o, um de nós vai ficar magoado, mas não vou ser eu!

O Edgar não quer saber disso, persegue-me pelo quarto, não, não, nem penses, repito e tento esconder a bola num sítio alto.

Atiro a bola para a minha cama, o Edgar fica furioso e tenta meter a mão entre as grades.

Fica com a mão presa, grita e eu rio.

O Edgar fica ainda mais furioso, grita mais alto e a Mãe e a D. Margarida aparecem de imediato.

A D. Margarida morde os lábios, não sabe se há-de rir ou chorar, mas a Mãe está zangada.

Mas o que se passa aqui? O que é que fizeste, Matias? e eu escondo-me por trás da cortina.

Anda cá, Matias, diz a D. Margarida, enquanto a Mãe tira a bola da minha cama e a dá ao Edgar.

O meu irmão faz-me uma careta e depois atira a bola. 

Infelizmente, a bola acerta na D. Margarida que abafa um "ai" e olha o Edgar zangada.

Rimo-nos, mas a Mãe dá uma sapatada aos dois e ficamos os dois aborrecidos.

Mas não choramos; isso é para miúdos e nós já somos grandes, segredo e o Edgar concorda.

Castigo! declara a Mãe, ficam aqui até à hora do jantar e nada de lutas! Estamos entendidos? e nem eu nem o Edgar dizemos nada.

Brincamos sossegados uns minutos, mas depois o Edgar volta a atirar a bola que, desta vez acerta-me.

Não choro, levanto-me e empurro-o. 

O Edgar caí, espantado, mas recupera o equilíbrio rapidamente e tenta perseguir-me.

Volto a esconder-me nas cortinas, mas o Edgar não desiste e afasta-as.

Não consigo escapar e o meu irmão empurra-me contra o vidro.

Doí e abro a boca para gritar.

CONTINUA


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

MATIAS - PARTE II

 

Ups! Estou no corredor, consegui; agora, tenho que encontrar a saída para o jardim, sei que é por aqui.

Avanço cuidadosamente, ouço risos nas outras salas, estão todos ocupados, quando derem pela minha falta, já estou no jardim.

Mas uma porta abre-se, alguém saí e vê-me de imediato, mas o que fazes tu aqui? Estás perdido? pergunta.

Olho-a desconfiada, não sei bem quem é, é alta, tem cabelo loiro e uns olhos azuis trocistas e a bata é diferente da da Rita.

Fico encostado à parede, ela sorri-me e bate na porta mais perto.

Este fugitivo é da tua sala? mas a educadora abana a cabeça, penso que é da sala da Rita, diz e a senhora pega-me na mão e encaminha-me para a minha sala.

Oh, Rita, aqui está o seu fugitivo, declara quando entra e a Rita olha-me espantada, oh, Matias, que feio! recrimina.

Sento-me à mesa de trabalho, os outros meninos estão a fazer desenhos, mas eu não estou interessado.

Porque é que não estão no jardim? Estão de castigo? quer saber a vigilante e a Rita explica que fui eu a causa do castigo, mas se se portarem bem até à hora de almoço, deixo-os ir para o jardim após a sesta, acrescenta.

Mas eu quero ir já para o jardim, não depois da sesta, é muito tarde, protesto, mas só o menino que está ao meu lado é que me ouve.

Abana a cabeça, pede-me para estar quieto, mas eu tenho que dizer qualquer coisa.

Levanto-me e a vigilante olha para mim, volta a sorrir, queres dizer alguma coisa, Matias? e a voz é tão desagradável que me volto a sentar.

Noto que a Rita não está à vontade, suspira de alívio quando a vigilante saí e ajoelha-se ao meu lado.

Vamos lá ver se nos entendemos, Matias, nada de excursões a solo, aconselha, nunca se sabe os perigos que se podem encontrar e ri-se da minha cara pasmada.

É que não percebi nada do que ela disse, ok, concede a Rita, um dia mais tarde, vais compreender, mas agora vais comportar-te, ok?

Levanta-se, vê os trabalhos dos outros meninos, elogia uns, critica outros e propõe uma viagem até à sala da fantasia.

Desta vez, falam sobre o arco-íris, os planetas, as estrelas e eu até me esqueço que estou amuado.

Quero apanhar as estrelas, tocar no arco-íris, estendo as mãos, convencido que basta isso para satisfazer o meu desejo.

Não consigo, volto a ficar amuado, recuso-me a almoçar e a Rita não fica nada contente.

Queres ficar na sala enquanto os outros meninos estão no jardim?

CONTINUA


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

MATIAS

 

Não me lembro bem do Edgar em bebé; tinha dezasseis meses e andava, segundo diz o Miguel, a explorar o Mundo e as pessoas.

Um dia, instalaram uma outra cama de grades no meu quarto e o Edgar passou a dormir lá.

De vez em quando, acordava-me aos berros, a Mãe acorria, o Pai perguntava o que é que ele tem, talvez seja uma cólica, respondia a Mãe.

Outras vezes, olhava-me fixamente e fazia-me caretas. 

Eu também fazia caretas, mas não sei porquê, ele ficava assustado e berrava novamente.

Nessa altura, aparecia a D. Margarida ou a Filipa e olhavam para mim, o que é que lhe fizeste, Matias? mas eu apenas sorria inocente.

Eu já corria a casa toda, sei que isso intrigava o Edgar que caia sempre que tentava pôr-se de pé.

Talvez seja por isso que tenha aprendido a andar de um dia para o outro, para me seguir, imitar-me e provocar alguns desastres e berreiros infernais.

A Filipa ficava desesperada, tenho exames, D. Margarida e não posso estudar com estes dois aos berros! explicava, mas como não sabia o que era um exame, prosseguia na minha exploração do Mundo.

Um dia, a Mãe deixou-me numa sala cheia de meninos com uma rapariga muito sorridente chamada Rita.

Ela não se deixava enganar com o meu ar pacifico, tinha regras que eu tinha que cumprir, aliás, todos os meninos da sala.

Não gostei muito ao princípio, mas em breve, conquistei a lealdade dos outros meninos e tornei-me o Rei.

O Matias tem uma personalidade bem vincada, domina a sala, todos lhe obedecem, explica a Rita à minha Mãe.

Também domina o irmão mais novo, ri-se a Mãe, quando os dois estão juntos, nunca sabemos o que vai acontecer. Mas é melhor assim; serem vivos, curiosos.

A Rita ri-se também, mas não fica muito contente quando derrubo um dos caixotes com brinquedos e há uma luta entre os meninos.

Ficamos todos de castigo, não vamos para o jardim e está um dia tão bonito!

A Rita está distraída, a porta está aberta, será que consigo passar e atravessar o corredor?


CONTINUA