quarta-feira, 31 de março de 2021

RECORDAÇÕES - PARTE III

 

Desço até ao arquivo central, revejo os processos e ao fim de uma hora, concluo que tenho mais perguntas do que respostas.

O que me está a preocupar é o facto do Inspector Leandro ter abandonado a posição inicial e ter sido nesse intervalo para se instalar noutro local que foi baleado.

O que é que ele viu? murmuro enquanto subo as escadas.

O Meireles está à minha espera, suspira de alívio quando me vê, onde estava? Não tinha o telemóvel consigo? pergunta.

Não deve haver rede lá em baixo no arquivo central, respondo, o que é que se passa? Algum problema grave?

Telefonaram de casa, a Clarinha fugiu da escola, não sabem onde está, explica o Meireles, já avisei os colegas da zona para irem até à escola, iniciarem as buscas por lá. A esposa espera um telefonema seu.

Ok, obrigada, digo, esqueço de imediato o que planeava fazer, o que é que a marota fez desta vez? A Madalena deve estar louca de preocupação! Pensei que as consultas com a psicóloga estavam a resultar, que ela estava mais calma!

A Madalena atende ao primeiro toque, está tão nervosa que nem percebo o que diz, acalma-te, peço, como é que ela estava quando a viste esta manhã?

Estava aborrecida, não se queria vestir, não quis tomar o pequeno almoço, explica a minha ex-mulher, mas a Matilde lá a convenceu e ela foi para a escola com o André, o filho do nosso vizinho, sabes quem é? e entrou na sala.

A Madalena suspira, a Matilde aproveita para pôr o telemóvel em voz alta, pediu para ir à casa de banho, Pai, continua, e demorou tanto tempo que a professora pediu a uma auxiliar para ir até lá.

Não estava, concluo e a Matilde confirma, procuraram nas outras salas, na cafetaria, no jardim e nada!

Mas não há um segurança? insisto, mas a Madalena esclarece que está na porta principal, que o portão do jardim está geralmente fechado, só o jardineiro é que tem a chave e a chave estava no sítio!

Se calhar, a Clarinha viu onde é que ele guardava a chave, observo, foi lá buscar, abriu o portão e voltou a colocar a chave no sítio!

Oh, Bernardes, interrompe a Madalena, ela só tem sete anos! Achas que ela tem discernimento para isso?

Ou pediu a um colega para guardar a chave! sugiro e a Matilde atalha, ou pode ter simplesmente saltado o muro!

Mordo o lábio, estou a imaginar um cenário sofisticado demais para uma catraia de sete anos, pode ter acontecido como a Matilde descreveu.

Vou até à escola, quero ver o jardim, anuncio, Matilde, dá uma volta pelo bairro, pode ser que alguém a tenha visto.

CONTINUA


terça-feira, 30 de março de 2021

RECORDAÇÕES - PARTE II

 

No dia seguinte, deixo a Madalena em casa e sigo para a Judiciária. Há reunião de Departamento, uma grande seca, confesso.

Já passa do meio dia quando entro na sala da Brigada e o Meireles tem novidades.

Oh, chefe, lembra-se do gangue do Morto? E do Zé do Laço? pergunta.

Claro que sim, às vezes, dava-nos informações e passava a noite nas celas lá bem baixo para "eles não saberem que fui eu quem deu a dica", explico, o Zé do Laço morreu pouco tempo antes do Inspector Leandro, porque é que estás a falar dele agora?

Pode ter morrido, diz o Meireles, mas alguém está a usar o nome dele e inspira um certo receio na noite.

Tens a certeza? O Zé do Laço era inofensivo, às vezes, estava no local errado com as pessoas erradas, observo, o que é que se passa? O que é que soubeste?

Esta pessoa auto-intitula-se Zé "The Big" Laço e comanda as operações a partir da Travessa do Laço, esclarece o meu sargento.

Pensei que a Travessa do Laço fosse agora um sítio elegante, escolhido pela elite para desfrutar os prazeres da noite, ironizo e o Meireles ri-se.

E é, confirma, mas pode ser uma operação de lavagem de dinheiro.

Ok, mas isso não é a nossa área de intervenção, digo, há uma série de relatórios a concluir, o Departamento está a dar-me cabo da cabeça por causa disso, estamos atrasados.

O Meireles apressa-se a sair do meu gabinete, vejo-o a falar com os outros membros da brigada e suspiro.

Estou novamente a pensar no Inspector Leandro e no pobre do Zé do Laço.

Suspeitamos sempre que o mataram como um aviso para o Inspector, estava a aproximar-se demais da Chefia do gangue, mas com a morte dele, quem ficou com o caso achou melhor encerrá-lo.

Achei a decisão precipitada na altura, mas era apenas um sargento, acabei por ser transferido para outra brigada, outro inspector.

Mas posso voltar a consultar o caso, penso, ninguém me impede e lembro-me que a irmã do Inspector Leandro me entregou o diário dele.


CONTINUA


segunda-feira, 29 de março de 2021

RECORDAÇÕES

 

A Madalena dorme cá esta noite.

O que é que os nossos filhos dirão se souberem que estamos novamente a namorar? ri-se a minha ex-mulher.

Nada, o Gustavo e a Matilde são adultos, vão compreender, o problema será com a Clarinha, respondo e a Madalena concorda.

Talvez seja melhor não dizer nada por enquanto, acrescenta, aliás, isto simplesmente aconteceu, amanhã podemos pensar que é uma má ideia e continuarmos a viver separadamente.

Um dia de cada vez, digo, é muito bom falar contigo, Madalena, tinha saudades disto! Porque é que deixamos de falar?

A responsabilidade, responde a minha ex-mulher, foste promovido, dedicaste toda a tua energia aos casos em aberto e esqueceste de conversar comigo.

Fiz isso??? repito e a Madalena sorri, começamos a ficar distantes um do outro e depois, envolveste-te com a tua colega.

Isso foi um erro, esclareço um pouco envergonhado.

Não digo que não, mas talvez nos tenha ajudado a crescer, a evoluir, estávamos um pouco estagnados, não sei se é a palavra correcta, admite a Madalena.

Suspiro e não sei porquê, lembro-me do meu mentor, o Inspector Leandro, o que é que ele diria?

Bernardes, tens que te organizar, ouço a voz dele na minha cabeça, estabelecer as prioridades, a vida é como um caso a investigar.

Volto a sorrir, a Madalena quer saber porquê, dos meus tempos de sargento na brigada do Inspector Leandro.

Ah, um homem calmo, inteligente, pena ter morrido como morreu! observa a minha ex-mulher e apaga a luz.

Sim, morreu numa rusga, tivemos sucesso na operação, mas as circunstâncias da morte de Leandro ainda não estão totalmente esclarecidas.

CONTINUA

domingo, 28 de março de 2021

MATILDE - FIM


O idiota riu-se, continua o Gustavo, falou de ter um Pai Juiz, que me podia tornar a vida difícil. 

O quê? interrompe a Mãe, esse rapaz é doido! O que é que vamos fazer?

Calma, Mãe, não fiquei intimidado, responde o Gustavo, apertei-lhe o braço e falei bem baixinho ao ouvido, talvez o Pai Juiz não gostasse de saber pelo Pai Inspector que lhe está a assediar a filha, porque, decerto, o Pai Juiz já deve ter julgado casos semelhantes.

Terá sido correcto? O Filipe não terá entendido isso como ameaça? pergunto, estou preocupada com a reacção do Filipe, não se vingará em mim?

Se o fizer, diz a Mãe, aí teremos mesmo que envolver o Pai. Ok, vamos ver o que acontece; espero que o Filipe seja sensato e te deixe em paz!

A Clarinha faz mais uma das suas cenas, o Gustavo consegue acalmá-la, vai dar um passeio com ela.

A Mãe vai tomar café com a Rita e o Gonçalo, eu fico a terminar o meu projecto.

Acabo por ligar à Maria, estás livre? vamos tomar um café ao shopping? tenho novidades e quinze minutos mais tarde, estamos as duas sentadas na praça da restauração com um café e um donut à nossa frente.

Então, o teu irmão falou com o Filipe? Achas que vai adiantar alguma coisa? observa a Maria, ele é tão idiota, desculpa, mas não sei como é que caíste na lábia dele!

Também eu não! repito, mas aprendi a lição, resta saber se o Filipe aprendeu alguma coisa.

Mas a Maria abana a cabeça, não está convencida, o Filipe é tão arrogante, tão vaidoso que vai atravessar a vida, consciente apenas dos seus próprios interesses.

A conversa do Gustavo deve ter tido algum efeito, porque o Filipe começa a evitar-me e eu respiro de alívio.

Estou mais calma, começo a desenvolver um certo tacto para lidar com as birras da Clarinha e tenho a nota mais alta nos meus projectos.

A vida não podia estar a correr melhor, o Filipe pertence ao passado.

Umas semanas mais tarde, a notícia de que o Filipe é chamado à esquadra para prestar declarações, porque alguém o acusa de violência caí como uma bomba no campus.

Todos comentam o assunto, eu abstenho-me de dar opiniões, lamento-o.

O Filipe não aprendeu nada.


FIM

sábado, 27 de março de 2021

MATILDE - PARTE V

 

A chegada do Gustavo distraí-nos das birras da Clarinha e das discussões com o Filipe.

Só conseguimos conversar quando a Clarinha se deita; a Mãe fica preocupada quando sabe do que aconteceu à porta da biblioteca.

Isto tem que parar, esse rapaz está louco, diz, não será melhor o teu Pai falar com ele?

Acho que piorará as coisas, comenta o Gustavo, é melhor que seja eu. Sabes onde o posso encontrar?

É sexta-feira, deve estar no Bar do Luar, explico, mas não vás sozinho! O Filipe é doido e não queres que tenhas uma briga com ele no bar.

O Gustavo ri-se, não te preocupes, já telefonei ao Zé Maria e ao Tomás, não vou estar sozinho, responde.

Ele saí, eu e a Mãe arrumamos a cozinha, mas tentamos não falar sobre o assunto. 

Mas é impossível, o caso é grave e a Mãe está tão preocupada que resolve telefonar ao Pai.

Acho que o Filipe entendeu a mensagem, esclarece, é parvo se insistir! Vamos ver o que diz o Gustavo... Se não resultar, e só se não resultar, frisa, é que eu falarei com ele.

Já estamos deitadas quando o Gustavo regressa, tenho quase a certeza de que a Mãe não vai conseguir dormir.

Não me admira nada quando a encontro na cozinha às oito da manhã, a Clarinha também está a pé, vai a um passeio com os vizinhos do lado e por isso, quando o Gustavo acorda por volta das duas da tarde, continuamos sentadas na cozinha, ansiosas, nervosas, sem saber o que pensar.

Calma, pede o Gustavo, preciso de comer qualquer coisa antes e só depois de beber um copo de leite, é que nos diz que sim, encontrou o Filipe no bar.

Tinhas razão, o tipo é arrogante, orgulhoso e ficou nitidamente de pé atrás quando me apresentei como sendo teu irmão, conta.

E? interrompe a Mãe, está pálida, com olheiras e eu fico preocupada.

Fui diplomata, expliquei que a atitude dele poderia ser considerada como " assédio, agressão, senão mesmo violência doméstica", continua o meu irmão, decerto que não queria que tu apresentasses queixa na Polícia, isso fica mal no CV...

Oh, pá, desembucha, grito, estou a ficar nervosa e o meu irmão mastiga lentamente mais um pedaço de omelete.

Estou com vontade de lhe bater, o Gustavo está a fazer de propósito.

CONTINUA



sexta-feira, 26 de março de 2021

MATILDE - PARTE IV

 

Tenho que admitir, confessa o Gonçalo à Rita nessa noite, a tua sobrinha agiu calmamente, sem medos. Contudo, não sei se será melhor alguém falar com aquele rapaz. Não gostei nada da atitude dele!

Embora o Bernardes evitasse falar nos casos em que estava a trabalhar, havia um diálogo aberto sobre esse tipo de assuntos, violência doméstica, raptos, etc, responde a Rita, não me admira que a Matilde estivesse calma e soubesse como agir. Se ainda não pediu ajuda, é porque acha que consegue resolver o assunto sozinha.

Mas o Gonçalo não está convencido, vai pedir ao segurança da portaria do escritório para o avisar se o Filipe aparecer nas redondezas.

O Gustavo liga-me, desculpa, não te pude ligar mais cedo, tive uma série de reuniões, explica, o que se passa?

Conto-lhe resumidamente o que se passou naquela tarde, o meu irmão fica pensativo durante uns minutos.

Tomaste a atitude correcta, espero que ele perceba a mensagem, observa, mas de qualquer forma, eu gostava de falar com ele.

Achas que deves? O Filipe não entenderá isso como uma afronta e não tentará humilhar-me? questiono, o comportamento dele é um pouco imprevisível, parece que todos lhe devem obediência e é isso que me cansa. Não há equilíbrio, percebes? 

Sim, compreendo, têm que encontrar uma maneira de gerir a vida, os interesses de cada um, concorda o Gustavo, eu vou passar aí o fim de semana, combinamos um encontro com ele.

Ok, não quero que o Pai ou o Gonçalo, que assistiu à cena, falem com ele! Teríamos um problema muito grave! comento.

No dia seguinte, o Filipe evita-me, mas eu tenho quase a certeza de que está a estudar uma maneira de me abordar.

Estou a sair da biblioteca quando alguém me agarra o braço e me obriga a segui-lo.

É o Filipe e está furioso.

Nem uma palavra! exige, tu não voltas a fazer o que fizeste ontem? Estamos entendidos? Tu obedeces-me!

Tu não me mandas calar! interrompo, depois, não tenho que entender nada, porque não sou tua namorada, não sou tua amiga, não te sou nada!

O Filipe volta a erguer a mão, mas eu prendo-a na minha.

Não te atrevas! digo calmamente, vou-me embora e tu não me vais seguir.

Porquê? troça o Filipe, vais fazer queixa ao Pai Inspector?

Só se for mesmo necessário e tenho a certeza absoluta de que não vais gostar nada de passar uma noite na prisão! e afasto-me, sem olhar para trás.

Estou nervosa, sinto as pernas a tremer, mas o Filipe não me segue.

CONTINUA


quinta-feira, 25 de março de 2021

MATILDE - PARTE III

 

Tocam à campainha; é o vizinho, o filho estuda na mesma escola da Clarinha e hoje, é o dia de lhe dar boleia.

Apresso-me a tomar duche, vestir roupa limpa, já estou atrasada.

Despeço-me rapidamente da Mãe, parece estar mais calma e apanho o autocarro por um triz.

Mesmo assim, chego cinco minutos atrasada, o professor não gosta muito da interrupção, balbucio uma desculpa e a Maria pergunta-me baixinho, onde é que andaste? O Filipe está doido à tua procura.

Encolho os ombros, o Filipe não me preocupa agora, concentro-me nas aulas; tenho que me preparar para os exames.

Não vejo o Filipe quando saio; tenho que entregar uns livros na biblioteca e depois sigo para o escritório.

Hoje, só vou estar lá uma hora, hora e meia, quero acabar um trabalho e toda a informação está no meu computador.

O Filipe está à minha espera, encostado à porta do escritório, com um ar furioso.

Espera que me aproxime dele e agarra violentamente o meu braço, exigindo saber porque é que não lhe respondo aos SMS.

Onde estiveste ontem? pergunta, apertando-me o braço, enviei-te imensos SMS.

Queres fazer o favor de me largar o braço? peço, sem elevar a voz, o meu Pai sempre me aconselhou a não mostrar medo, estive em casa do meu Pai e dormi lá.

Mas não te disse já para me responderes? Quero saber onde estás e o que fazes, continua o Filipe, sem me largar o braço.

Já te disse para me largares o braço, repito, e, depois, só tenho que me justificar aos meus Pais, a mais ninguém.

O Filipe ergue a mão, como se me fosse esbofetear, mas eu lembro-me das demonstrações de judo que o Gustavo fazia na sala para divertir a Clarinha e afasto o corpo.

A mão do Filipe bate no ar, não atinge a pessoa que vai a passar por milímetros.

Parva! Tu obedeces-me! grita, mas felizmente para mim, o Gonçalo aparece nesse momento.

Posso saber o que se passa aqui? a voz do Gonçalo é calma, mas há ali um leve tom de ameaça.

Eu sorrio, não é nada, Gonçalo, o Filipe já se vai embora, respondo e o Filipe não tem outro remédio senão ir-se embora.

CONTINUA


quarta-feira, 24 de março de 2021

MATILDE - PARTE II

 

Matilde, Matilde, a voz do Pai soa muito distante, mas quando abro os olhos, ali está ele na beira do sofá, com uma mão na minha perna.

Olá, adormeci, estou muito cansada, explico, já jantaste? a resposta é negativa e por isso, preparamos qualquer coisa simples para comer.

Aviso a Mãe de que não vou jantar, talvez fique a dormir aqui e o jantar decorre sossegado, até ao momento em que o Pai me pergunta pelo Filipe.

O Filipe é o meu namorado, é dois anos mais velho que eu, está já a preparar o mestrado e o Pai não confia muito dele.

O Filipe é um pouco arrogante, orgulhoso e às vezes, temos grandes discussões, estamos dias sem nos falarmos.

Até que eu cedo, procuro-o para discutirmos novamente o assunto e reconciliamos-nos.

Mas a verdade é que estou a ficar um pouco aborrecida, de ser sempre eu a fazer cedências, a Rita diz que devo conversar com o Filipe sobre isso, mas ele é perito em esquivar-se a conversas de que não gosta.

O Filipe? respondo, está bem, está ocupado com o mestrado, não o tenho visto muito e o Pai observa-me atentamente.

A resposta é muito vaga, já percebeu que há qualquer problema, mas não insiste.

Arrumamos a cozinha, vemos um pouco de televisão e depois eu vou para o quarto.

Está decorado como a Clarinha pediu, aliás, é ela quem passa mais tempo aqui e eu suspiro com toda esta colecção de peluches, grandes almofadas e puffs.

Vejo o telemóvel, há um SMS do Filipe a perguntar-me porque é que não o atendo.

Não respondo, tenho que pensar bem no que quero fazer, talvez telefone ao Gustavo, preciso de conselhos que não quero pedir ao Pai.

Adormeço, acordo antes do Pai e vejo que há vários SMS do Filipe a exigir que eu lhe responda.

Tento ligar ao Gustavo, mas ele não me atende, está a conduzir ou numa reunião talvez, é o que lamento mais, que ele não esteja tão disponível como dantes.

Passo por casa para mudar de roupa, a Clarinha está a fazer uma cena, não quer tomar o pequeno almoço e a Mãe está prestes a desistir.

Ok, vai para a escola sem pequeno almoço se é o que queres! e saí da cozinha, deixando uma Clarinha de boca aberta, surpreendida com a reacção.

Vai lá, despacha-te, já estás atrasada, observo.

CONTINUA



terça-feira, 23 de março de 2021

MATILDE

 

Estou tão cansada que nem ligo o computador e até tenho trabalhos para terminar.

Levanto-me mais cedo, pode ser que a Clarinha esteja mais sossegada e me deixe em paz.

Não sei realmente o que se passa com esta miúda; está inquieta, rebelde, torna-se violenta de um minuto para o outro e não sabemos porquê.

Não é bem assim; alguém comentou que ela era adoptada e quando reparou que a Clarinha tinha ouvido, ficou destroçada, pediu desculpas que não adiantaram nada.

O mal estava feito e a partir daí, a Clarinha, uma menina doce, alegre, transformou-se num verdadeiro Diabo.

O divórcio dos Pais, a mudança para um apartamento mais pequeno e a saída do Gustavo para fazer o estágio numa outra cidade também contribuíram para que os problemas de comportamento da Clarinha piorassem.

Tens que ter paciência, Matilde, diz a tia Rita, ajudar a Mãe no que for possível.

Não posso fazer mais nada, respondo, a Clarinha não ouve ninguém e tenho que me conter para não lhe dar uma bofetada quando ela começa a cantar para não ouvir a Mãe.

Às vezes, vou estudar para a biblioteca ou venho para aqui mais cedo para terminar os meus trabalhos, continuo, para ter paz e sossego.

O Gonçalo não está este fim de semana, comenta a Rita, vou buscar a Clarinha, vamos ao parque, ao cinema, a qualquer sítio para ela se distrair e a tua Mãe ter um pouco de paz. E, o teu Pai? O que diz?

Acho que o Pai se sente tão impotente como nós, a Clarinha ignora-o e suspiro ao lembrar-me do caos que ela deixou na última vez que esteve em casa dele.

Tenho que fazer umas compras para o meu Pai, digo, posso sair mais cedo?

Claro, tens horário flexível, entras e sais quando quiseres, observa a Rita, não quero que interfira nos teus estudos.

Mas trabalhar na empresa da Rita não está a interferir nos meus estudos; pelo contrário, estou em contacto com projectos reais, os problemas que surgem, como são resolvidos e ajuda na compreensão da teoria discutida nas aulas.

A casa do Pai está sossegada, arrumo as compras e estou tão cansada, o sofá é tão convidativo que me deito e adormeço.

CONTINUA


Nota:

A Matilde é filha do Inspector Bernardes e da Madalena.

Irmã do Gustavo e da Clarinha e sobrinha da Rita.

segunda-feira, 22 de março de 2021

O MARIDO - FIM

 

Estamos a meio do último capítulo do segundo livro quando as águas da Carolina rebentam.

Fico desnorteado, até parece que não passei por isto quatro vezes, procuro frenético as chaves, que estão já no bolso do casaco.

O Miguel chega nesse momento, foi jantar com uns amigos, quer vir connosco, mas não, filho, tens que ficar com os teus irmãos, peço.

Conduz com calma, aconselha a Carolina, isto ainda demora um bocado e chegamos ao Hospital sem problemas.

A médica de serviço examina-a, ainda não fez a dilatação toda, diz e eu fico na sala de espera, estás muito nervoso, não te quero ao pé de mim, observa a Carolina.

Meia hora mais tarde, aparecem a Teresa e o Pedro, o Miguel telefonou-nos, está muito preocupado, comenta a minha cunhada.

Amanhã é dia de trabalho, isto ainda vai demorar, dou notícias logo que souber, insisto, mas os meus cunhados abanam a cabeça, a Carolina é nossa irmã, esperamos aqui contigo.

Agradeço-lhes com o olhar, a Carolina tem toda a razão, estou muito nervoso, sei como isto se desenrola, mas, mesmo assim, tanta coisa pode acontecer.

Não penses nisso, interrompe a Teresa como se adivinhasse os meus pensamentos, calma, a Carolina é forte!

Pouco passa das três e meia da manhã quando a médica aparece toda sorridente na sala.

Parabéns, é uma menina, três quilos e oitocentas gramas e ri-se quando todos suspiramos de alívio.

Mãe e filha estão bem, estão a descansar, melhor irem descansar também, aconselha a médica, deixando-nos sós.

Olhamos uns para os outros e desatamos a rir.

O Pedro dá-me uma palmada nas costas e a Teresa um abraço.

Já decidiram como se vai chamar? perguntam, eu volto a suspirar de alívio.

Inês e, Teresa... achas que o António vai gostar de ser padrinho dela?

FIM

domingo, 21 de março de 2021

O MARIDO - PARTE V


A tensão da Carolina está um pouco elevada, o médico aconselha repouso, evitar situações de stress e já em casa, enquanto a ajudo a ficar confortável, sugiro que não se envolva tanto nos projectos, supervisione apenas.

Não sei se consigo, admite a minha mulher, são projectos importantes, ok, mas não disseste que a tua assistente é muito competente? pergunto, por isso, tens uma reunião diária com ela para estares ao corrente e corrigires o que for necessário, mas nada de visitas a clientes, almoços tardios.

A Carolina fica um pouco relutante, mas sinto que está aliviada, confessa mais tarde à irmã que vai pôr a leitura em dia.

O Miguel fica preocupado, tens a certeza de que não vai acontecer nada? insiste e eu suspiro, tento acalmá-lo, o que não é fácil, pois eu tenho as minhas próprias dúvidas.

A situação está controlada, filho, vamos ajudar a Mãe a ultrapassar isto, respondo, conto contigo para manteres o Matias e o Edgar na linha. Nada de correrias, gritos selvagens.

A Filipa e a D.Margarida mantém a casa a funcionar, a Teresa aparece quase todos os dias e o António quase que me obriga a jantar com ele e com os amigos do Clube de Leitura numa quarta-feira.

Oh, pá, precisas de desanuviar, falar de política, futebol, seja o que for para esqueceres gravidezes, filhos, observa.

O Nicolau e o Major concordam, acabamos por falar do novo livro que o professor está a escrever, tenho que admitir que não li nenhum dos outros.

Com uma vida tão exigente, é natural, concorda o Nicolau, de qualquer maneira, gostava que ficasse com um exemplar para ler quando precisar de tempo para si.

O jantar é agradável, as pessoas são simpáticas, conto todos os pormenores à Carolina, confesso que estou mais relaxado.

Então, porque é que não jantas com eles de vez em quando? diz a minha mulher e eu sorrio, porque não? Pensando bem, nenhum dos nossos amigos fez o que o António fez.

É a vez da Carolina sorri, o António é uma óptima pessoa, concorda.

O Nicolau é fiel à palavra dada e o António aparece lá em casa com uns cinco livros e estás já convidado para a sessão de lançamento do próximo, acrescenta, e o Nicolau não admite um não. Nem que tenhas que levar o bebé no carrinho!

Ler um capítulo de um dos livros do Nicolau em voz alta todas as noites antes de dormir torna-se um ritual que nem eu nem a Carolina dispensamos.

CONTINUA

sábado, 20 de março de 2021

O MARIDO - PARTE IV


A Carolina está um pouco apreensiva, estou preocupada e convido a minha cunhada Teresa para tomar um café e conversar um pouco.

A Teresa assegura-me que a Carolina está feliz, não estava realmente nos planos dela ser Mãe novamente, diz, mas é tudo uma questão de organização, é o que está a fazer.

Acho que os miúdos, tenho mesmo que deixar de lhes chamar miúdos, confesso, estão a fazer o mesmo. O Matias e o Edgar ainda têm algumas dúvidas, querem que seja um rapaz, não têm tempo para ensinar uma rapariga.

A Teresa ri-se, sossega, vai correr tudo bem e eu estou aqui para ajudar no que for preciso.

Fico um pouco mais sossegado, mas vigio discretamente a Carolina, tento poupá-la ao máximo, sei que estou a pedir demais à Filipa, mas quero que corra tudo bem.

O Miguel encarrega-se dos irmãos, demonstra uma grande capacidade de liderança e há sempre discussões, porque o Matias e o Edgar protestam com algumas das regras impostas.

Mas se tivermos o quarto arrumado e os trabalhos feitos, podemos jogar, a Mãe diz, explica o Matias, indignado.

O Edgar vê-me no corredor, chego naquele momento, estou a tirar o sobretudo, oh, Pai, precisamos de ajuda, pede.

Fala baixo, exijo, o que é que se passa? e começam os três a falar ao mesmo tempo.

Vamos a ter calma, interrompo, o quarto está arrumado? os trabalhos feitos? Ok, meia hora para jogarem e depois, vão tomar banho, decido.

Os rapazes ficam todos contentes, desaparecem no quarto e o Miguel fica um pouco aborrecido.

Tem que haver regras, concordo com isso em absoluto, explico, mas reserva sempre tempo para brincadeiras, filho.

Eu sei, concorda o Miguel, mas quis poupar a Mãe, ela hoje veio mais cedo, diz que não se sente muito bem, está a descansar e queria que eles estivessem calados.

Fico alarmado, entro apressadamente no nosso quarto, a Carolina parece que está a dormir, mas está suada, está a gemer.

Não hesito, telefono à médica dela, à Teresa também.

                                            CONTINUA

sexta-feira, 19 de março de 2021

O MARIDO - PARTE III

 

Não, isto não está correcto, digo após ler cuidadosamente a lista, vocês não sabem que pode ser uma irmã? Só escreveram nomes de rapazes.

Oh, responde o Matias, tem que ser um rapaz. As raparigas são inúteis.

A Filipa dá-lhe uma sapatada na cabeça, ai, sim? espera lá, nem sabes o que te vai acontecer a próxima vez que quiseres ir ao parque! observa.

O Matias encolhe os ombros, nada aborrecido, há sempre o Miguel! comenta.

Queres fazer o favor de estar calado e de pedires desculpa à Filipa? Nesta casa, não se admitem faltas de respeito, preciso de repetir tudo novamente? interrompo.

O Matias fica envergonhado, desculpa, Filipa e tenta arrumar as folhas de papel.

O Miguel tira-lhas, começa a recitar os nomes com um ar trocista, Amadeu? Julião? Nenhum irmão meu se vai chamar assim, declara.

A Filipa ri-se, onde é que vocês foram arranjar estes nomes? Escolham qualquer coisa simples, como Diogo, sugere.

Ou Pedro, proponho e a Carolina sorri, Bernardo também é bonito, intervém.

O melhor é refazer estas listas, anuncia o Miguel, cada um contribuí com quatro nomes, dois para menino e dois para menina. Por isso, rapazes, pede aos irmãos, assinalem com uma cruz os nomes que gostam e eu faço isto no computador.

O Edgar é o primeiro a fazer uma cruz nos nomes que gosto, espreito por cima do ombro do Miguel, vá lá, as escolhas não são más, Alberto e Luís.

O Matias está amuado, vai pensar e não fala mais durante o jantar.

A Carolina observa-o atentamente, o rapaz nem quer comer a sobremesa, o rapaz ficou aborrecido, diz mais tarde quando nos preparamos para deitar.

Deixa lá, ele tem que aprender a lidar com este tipo de situações, nem sempre vai ter respostas positivas na vida, afirmo.

Eu sei, suspira a Carolina, mas, às vezes, penso se esta gravidez não será um fardo para eles.

Não, não vamos pensar nisso, protesto, esta gravidez aconteceu, sei o que vai implicar, mas todos têm que ajudar, gerir as suas próprias emoções e ninguém vai ignorar o bebé, porque acha que somos velhos demais para ter um novo filho.

O Matias e o Edgar têm que aprender a controlar as emoções, continuo, a Filipa e o Miguel já são adultos e estão a comportar-se como tal.

CONTINUA


quinta-feira, 18 de março de 2021

O MARIDO - PARTE II


A Carolina olha-a seriamente, os irmãos baixaram os olhos para o prato, já perceberam que a Mãe não gostou do comentário.

Não, diz calmamente, realmente não pensei nisso. Pensei na minha saúde, na saúde do bebé e como temos que gerir esta família a partir de agora. Isso é mais importante do que o facto de teres trinta e seis anos e te sentires envergonhada por teres um irmão ou uma irmã com dezoito! concluí.

A Filipa cora, abre a boca para responder, mas faço-lhe sinal para ficar calada.

Foi realmente um comentário infeliz, explico-lhe quando ficamos sozinhos na cozinha.

Hoje é a nossa vez de arrumarmos a cozinha, temos uma governanta, mas ela saí às oito da noite e a Carolina organizou um quadro de tarefas.

Vais ficar envergonhada por teres um irmão ou uma irmã dezoito anos mais novo? pergunto e a Filipa abana a cabeça.

Não foi bem isso o que quis dizer, responde, mas tens que concordar que é um bocado estranho, voltarem a ser Pais nesta altura.

Talvez seja, não estávamos realmente à espera e estamos conscientes de que esta é uma gravidez de risco, confirmo, mas a tua Mãe vai precisar da tua ajuda. Por isso, amanhã, fala com ela, esclarece o assunto, ela também está assustada.

No dia seguinte, a Carolina conta-me que a Filipa lhe pediu desculpa, até se ofereceu para ir com ela à consulta.

Rio-me, é uma boa ideia, deixa-a envolver-se na gravidez, pede-lhe opiniões sobre a decoração do quarto, da roupa, sugiro.

Já o Miguel está preocupado por a gravidez ser de alto risco, a Mãe de uma colega também ficou grávida depois dos quarenta, teve uma série de problemas e acabou por abortar.

Não vamos pensar o pior, esclareço, sabemos que isso é um risco e a prioridade será sempre a saúde da tua Mãe, por muito que nos custe perder o bebé.

Ajudo no que for possível, mantenho o Matias e o Edgar na linha, afirma o Miguel muito sério e eu aperto-lhe o ombro, eu sei, filho, eu sei.

Nessa noite, o Matias e o Edgar anunciam que estão a fazer uma lista de nomes, querem ter a certeza de que o irmão tem um nome forte.

CONTINUA


quarta-feira, 17 de março de 2021

O MARIDO

 

Ter cinco filhos nunca fez parte dos meus planos.

Tanto eu como a Carolina temos irmãos, tivemos uma infância feliz e ter só um filho nunca foi considerado.

A verdadeira surpresa foi o Matias ter nascido quase onze anos após a Filipa e o Edgar quinze meses mais tarde.

Aprendemos a gerir o caos, apelamos ao bom senso dos mais velhos para tomarem conta dos irmãos e a vida entrou numa rotina normal.

Não estávamos preparados para a nova gravidez da Carolina dezoito anos depois da Filipa e fomos gozados carinhosamente pela família e pelos amigos mais próximos.

Afinal, não perderam o jeito, ou apanham-se sozinhos e cá está o resultado, foram alguns dos comentários bem humorados.

Porque aconteceu durante um dos raros fins de semana em que eu e a Carolina estivemos verdadeiramente sozinhos na casa da praia, sem obrigações e sem filhos.

Quando descobriu, a Carolina ficou um pouco alarmada, lá vamos nós voltar aos biberões e às noites mal dormidas, diz, e qual será a reacção dos miúdos?

A Filipa e o Miguel são adultos e para o Matias e o Edgar, vai ser um companheiro de brincadeiras, respondo.

Mas como é que nos vamos organizar? insiste a Carolina e eu dou-lhe um beijo na ponta do nariz.

Como sempre o fizemos, com calma, já não somos novatos no assunto, repito e a minha mulher parece ficar mais calma.

Dizemos aos miúdos ao jantar, tenho que parar de lhes chamar miúdos, tomo nota mentalmente e todos ficam calados.

Ok, mais um miúdo para eu pôr na linha, comenta o Miguel.

Tem que ser um rapaz, não temos tempo para ensinar uma rapariga, avisam os irmãos mais novos.

Só a Filipa está calada e a Mãe olha-a preocupada, então, filha, não dizes nada?

A Filipa parece despertar de um sonho e suspira, francamente, Mãe, já pensaste que terei trinta e seis anos quando ela fizer dezoito? exclama.

CONTINUA


terça-feira, 16 de março de 2021

FRANCISCO - FIM

 

Estás bêbedo ou quê? o Francisco está zangado, está cansado, não precisa de ouvir este tipo de comentários do irmão.

Não, só estou a dar uma opinião, diz o Frederico, se não gostas de ouvir as verdades...

Mas qual verdade??? Não vives aqui, não sabes o que se passa verdadeiramente, protesta o Francisco, ok, a Maria tem os seus defeitos, mas tu também e devem ser grandes para a Catarina, que tem cabeça, tronco e membros, te deixar.

O Frederico abre a boca de espanto, nunca o irmão lhe falou assim, foram sempre grandes companheiros.

Vou-me embora, tu não estás bem, anuncia, amanhã vais ver que tenho razão e saí, convencido que é dono da verdade.

O Francisco suspira, tem tido tempo para pensar e realmente, tomou decisões muito erradas, principalmente no que diz respeito à Maria, como é que lhe escapou o facto dela ser tão superficial?

Como é que não percebeu que ela teve o David, apenas porque ele insistiu nisso?

Estou perdido, confessa, apaga as luzes, vai ver o filho que dorme e acaba por se deitar no sofá do quarto.

Não quer ir para o quarto que partilhou com a Maria, está vazio demais.

Na noite seguinte, o Leonardo aparece lá em casa, tem notícias surpreendentes, mas ao mesmo tempo alarmantes.

Pelos vistos, a empresa foi comprada por uma multinacional e negociaram a saída de alguns funcionários, explica o irmão da Maria, dizem que ela não estava na lista, mas contactou a Administração, mostrou-se interessada em sair e aceitou a proposta feita, Não trabalha lá há dois meses!

O quê? repete o Francisco, mas para onde é que ia todos os dias? Onde está o dinheiro da indemnização?

Não sei, continua o Leonardo, a Mara esteve no bar, que a Maria é uma cliente frequente e conversa muito com um tal Ricardo Paixão. A opinião que têm desse Ricardo não é muito boa e não, não o viram naquela noite. A Maria esteve sempre com os amigos e saiu com eles. 

Pode ter saído com eles, mas ter-se encontrado com esse Ricardo em qualquer sítio, concluí o Francisco, oh, pá, não sei o que fazer!

O Leonardo também não sabe, o Major sugere que falem com a Polícia, mas tudo leva a crer que a Maria saiu de casa de livre vontade.

Não é fácil retomar a rotina, a Mãe da Maria continua a culpar-se de tudo e os outros filhos não sabem como a consolar.

Uns meses mais tarde, o Francisco recebe uma carta registada de um advogado.

A Maria envia-lhe os papeis de divórcio e o advogado insiste que lhe sejam devolvidos o mais rápido possível, a pedido da cliente.

Sobre o filho, nada diz e por isso, o Francisco pede custódia total.

FIM

segunda-feira, 15 de março de 2021

FRANCISCO - PARTE IV


No dia seguinte, há uma reunião: a Mãe e dois dos irmãos da Maria estão presentes, o Major e a Glória também vieram e a Catarina oferece-se para tomar conta dos miúdos.

Também quero a tua opinião, observa o Francisco, mas a cunhada aperta-lhe o braço em solidariedade e desaparece no quarto do bebé.

O Frederico é o último a aparecer, estou aqui para te apoiar, pá, diz, mas não percebo porque é que isto é tão grave, ela aparece dentro de uma ou duas semanas.

O Francisco nem lhe responde, a situação é grave, não pode ser tratada com indiferença.

O Leonardo, um dos irmãos da Maria, acha que a primeira coisa a fazer é conversar com os colegas de trabalho, talvez ela lhes tenha dito alguma coisa, talvez se descubra o porquê deste absurdo, acrescenta.

O Major concorda, mas aconselha também uma visita ao bar onde, supostamente a Maria esteve na noite de sexta-feira, os amigos podem não se ter apercebido, mas os barmen estão sempre atentos e visto qualquer coisa fora do normal, comenta.

Falamos novamente com os amigos dela, insiste a Mãe, e se não conseguirmos nada, continua a irmã da Maria, avisamos a polícia.

A polícia? repete o Frederico e ri-se, a que propósito é que se vai avisar a polícia? Isto é um amuo, uma brincadeira da Maria.

Oh, cala-te, protesta o Francisco, a Maria já não tem idade para este tipo de brincadeiras, não estamos a brincar, há uma criança no meio disto,  intervém a Glória, pedindo de imediato desculpas à Mãe da rapariga pela ousadia.

Mas a Mãe da Maria tem que concordar que a filha é muito leviana, não está a assumir as responsabilidades e culpa-se por não ter sido mais exigente com ela.

O Leonardo oferece-se para ir até à empresa e tentar obter mais detalhes sobre o comportamento da Maria na última semana, a Mara, a irmã, diz que vai com o namorado ao bar.

A avó, o Major e a Glória estabelecem um plano para ajudarem o Francisco a tomar conta do David e convencem-no a contratar uma baby sitter e uma senhora para fazer as limpezas.

A Catarina diz estar disponível para ajudar no que for preciso e apenas o Frederico fica calado.

Os outros despedem-se, é tarde, amanhã é dia de trabalho, mas o irmão fica.

Continuo a achar que é um absurdo contactarem a polícia, afirma o Frederico, a Maria sempre foi desmiolada e tu foste sempre na onda dela.

CONTINUA



domingo, 14 de março de 2021

FRANCISCO - PARTE III

 

A Mãe não sabe nada, também recebeu um SMS, mas a partir daí, o silêncio é total.

Está a telefonar a toda a gente de que se lembra, comparam notas, mas sem resultados.

Parece que a Maria desapareceu da face da Terra, diz a Mãe destroçada e os irmãos também estão perdidos.

Ao fim da tarde, continuam sem terem notícias da Maria, o Francisco é convidado para jantar, a sogra já deu banho e o jantar ao David.

Se quiseres que ele fique cá, não há problema, observa a avó, mas o Francisco acha melhor ir para casa, a Maria pode ter regressado entretanto.

Se estiver, manda-me um SMS, pede a sogra, eu quero ter uma conversa com ela!

Mas a casa está às escuras, o Francisco deita o bebé com todo o cuidado e volta para a sala.

Não sabe o que deve fazer, telefonar à polícia? mas nem sequer sabe onde é que ela passou a noite e com quem.

Em cima da mesa da cozinha, está um bilhete. O Francisco reconhece a letra da Maria e apressa-se a ler.

É muito curto, diz apenas que está " farta da vida medíocre que levamos, quero expandir os meus horizontes. Por isso, resolvi ir-me embora, ainda não sei bem para onde, mas qualquer lugar é melhor que este. Beijos."

O Francisco deixa-se cair na cadeira, não quer acreditar no que acabou de ler.

Que egoísta! Tal e qual como a cunhada o avisou e como sempre, ele fez troça da opinião sensata da Catarina!

Estranho ter pensado agora na Catarina, há que tempos que não fala com ela e num impulso, liga-lhe.

A Catarina fica surpreendida pelo telefonema, que bom teres ligado, o Tomás faz anos para a semana, pensei que tu e a Maria quisessem vir com o David, exclama e estranha o silêncio do cunhado.

Francisco, estás aí? aconteceu alguma coisa? insiste e o Francisco conta-lhe a história toda.

Qualquer lugar é melhor que este? repete o Francisco, mas o que ela quer mais? Não tem que se preocupar com nada!


CONTINUA

sábado, 13 de março de 2021

FRANCISCO - PARTE II


O Major atende o telemóvel de imediato, se está surpreendido, não o diz, fala como se tivessem visto ontem.

O Francisco está um pouco perdido, acha que não está a ser coerente, mas confessa ao Pai que não sabe o que fazer, está cansado demais.

O Major fica calado uns minutos, sabes onde foi a Maria? pergunta e o Francisco suspira, suponho que foi ter com uns amigos dela, ao bar do Cais, mas não me apetece ir até lá. E, depois, o bebé já adormeceu e não o vou deixar sozinho, acrescenta.

O Pai hesita, acha que ele e a Maria deviam conversar melhor, esclarecer o assunto, mas o melhor talvez seja o Francisco ficar em casa, tentar dormir.

Amanhã, vem tomar o pequeno almoço comigo, lá para as dez na confeitaria do parque, sugere o Major, conversamos melhor nessa altura.

O Francisco agradece, desliga e acaba por adormecer no sofá no quarto do filho. 

Entretanto, o Major conta a conversa que teve com o filho à Glória.

A companheira tem vontade de dizer bem feito, mas o Major está visivelmente perturbado com a situação e por isso, não faz qualquer comentário.

Aqueles rapazes são tão mimados e egoístas que não admira que coisas más lhes aconteçam, diz à filha mais velha, não sejas assim! e a bebé limita-se a sorrir, a Mãe até pode estar a falar chinês, ela não percebeu nada.

Às dez horas, o Major está na confeitaria do parque. 

Trouxe a filha mais velha, a Mariana, no carrinho, talvez não tenha sido uma boa ideia, mas a bebé Carolina está um pouco febril, está rabugenta e a Glória precisava de espaço.

O Francisco chega por volta das dez e dez, está com um ar mais relaxado, mas o Major nota que continua nervoso, um pouco desleixado.

O cabelo precisa de um bom corte, não fez a barba, enfiou a primeira T-Shirt que lhe apareceu, devia estar no cesto de roupa para passar, deduz o Pai.

A Maria não apareceu, mandou um SMS a dizer que ficava em casa de uns amigos, responde o Francisco, e não, não sei que amigos são esses! Há muito tempo que não saímos juntos!

Têm que arranjar tempo para saírem juntos, conversarem, aconselha o Major, podes deixar o bebé connosco ou com a tua sogra. Aliás, porque não fazes já isso? e olha para o neto que continua a dormir.

A Carolina está um pouco adoentada, é melhor não ficar lá em casa hoje, continua, mas a tua sogra não se deve importar. Tira umas horas para ti, vai ao ginásio, corta o cabelo, almoça com uns amigos.

E, a Maria? pergunta o Francisco, mas o Pai não sabe responder, mantém o telemóvel carregado, sugere, a Mãe pode saber alguma coisa.

CONTINUA

sexta-feira, 12 de março de 2021

FRANCISCO

 

O Francisco está cansado e mentalmente, faz a lista das preocupações.

A primeira é o facto da Maria não estar minimamente interessada no filho e a responsabilidade ter caído nos ombros do Francisco.

Não o quis amamentar, tenho que recuperar a forma rapidamente, diz e passa a maior parte do tempo no ginásio, no spa, no nutricionista, tudo para voltar ao normal.

Se o bebé chorar de noite, ela não faz qualquer esforço para se levantar e acalmá-lo.

Se não fosse a sogra, o Francisco não sabia o que fazer, até na vida diária da casa, a Maria está desleixada e ele teve que aprender a cozinhar o básico.

Tentou chamá-la à razão, a discussão foi violenta e a Maria acaba por confessar que não queria ter aquele filho, que não se sentia preparada, mas ele ficou tão contente que não teve coragem de lhe dizer não.

O Francisco fica chocado, tinhas apenas que conversar comigo, não sou um monstro, podíamos ter o miúdo mais tarde, comenta.

Não sei se o quereria ter mais tarde, explica a Maria, a verdade é que não quero ter filhos! Nunca! 

O Francisco abre a boca de espanto, devia dizer qualquer coisa, mas não sabe o quê.

Não quero mal nenhum ao David, claro que não! continua a Maria, não não quero ser a Mãe!

O Francisco explode, queres ser o quê, então? e a Maria encolhe os ombros, pega na carteira e saí.

O marido suspira, mas o que é que aconteceu? Estou a sonhar? murmura e pega no telefona, liga para o irmão, mas o Frederico não tem uma resposta sábia.

Anda até cá, vem beber uma cerveja, convida, oh, pá, és parvo??? Achas que estou em condições de sair, vou deixar um bebé sozinho? protesta o Francisco.

O Frederico não diz mais nada, desliga e deixa o irmão desolado, isolado.

O Francisco pensa em telefonar à sogra, talvez ela saiba onde foi a Maria, mas decide não o fazer, pode preocupar ainda mais a senhora, que não compreende a atitude da filha e que ignora os conselhos que lhe tenta dar.

Resta o Pai, mas há tanto tempo que não fala com ele.

Tratou-o tão mal nas últimas vezes que esteve com ele, que tem receio que o Pai não atenda o telefone.


CONTINUA

Nota:

O Frederico e o Francisco são os filhos mais velhos do Major Amadeu Almada.

quinta-feira, 11 de março de 2021

A FESTA - FIM

 

A terapia também é uma boa opção, o Pedro fala de coisas que nunca abordou com as irmãs, elas são excelentes, afirma, somos os Três Mosqueteiros, mas elas têm as suas próprias vidas, não quero interferir.

O Miguel está a modificar-se, a educadora diz que já participa nas brincadeiras dos outros, embora, de vez em quando, ainda se isole e fique amuado se a situação não lhe for favorável.

A conselho do psicólogo, o Pedro pede aos sogros para visitarem o Miguel na cidade, o rapaz está a fazer progressos, explica, é melhor que estejam com ele em locais conhecidos.

Os sogros não dizem nada, aparecem para passar uns dias com eles, a Laura não quis vir e o Pedro percebe que isso os angustia imenso.

O Miguel até aprecia a visita dos avôs, eles acham que está mais simpático, mais falador e conhecem a Beatriz que os encanta.

Não vou dizer nada à Laura, observa a sogra quando se despede, provavelmente não vai ligar ao assunto, mas quero falar primeiro com o médico. Dito isto, acrescenta, estou muito contente por ti, a Beatriz parece ser uma pessoa interessante.

O Pedro também acha, está a pensar em a convidar para viver com ele e todos lhe dizem para não se preocupar com a reacção da Laura.

Já sabes que ela é instável, vai sempre colocar objecções, responde a Carolina, mas é a tua vida, tens que fazer o melhor para ti e para o teu filho.

O filho adora a Beatriz e os três fazem aquilo que a Teresa chama de " boa equipa" e todos se riem.

A vida parece ter sentido, o Pedro é promovido, tem que viajar um pouco mais, mas entre a Beatriz e as irmãs, consegue gerir a vida do filho.

Que a Mãe ainda não quer ver, que fica enervada na presença dele, o que faz com que o Miguel retroceda e volte a ser o menino distante e irritável.

Uns meses mais tarde, a Beatriz anuncia que está grávida, todos ficam satisfeitos com a notícia.

Menos a Laura que decide que é o momento mais adequado para destabilizar a vida do ex-marido.


FIM


quarta-feira, 10 de março de 2021

A FESTA - PARTE V

 

As minhas irmãs tinham razão, confessa ao Pedro à Beatriz na sexta-feira seguinte.

Convidou-a para jantar em casa dele, o Miguel está calmo e adormeceu rapidamente.

A Laura passou a maior parte do tempo na loja, pouco falava quando se sentava à mesa para comer, continua o Pedro, e o Miguel escondia-se quando a via. Não teve o gesto de carinho nem uma palavra, nada! A Mãe do meu filho tornou-se numa desconhecida até para mim!

A Beatriz sorri, é um homem muito ferido, tenho que ser cuidadosa no que digo, penso e em voz alta, não será uma boa ideia tu fazeres também terapia? sugere.

Eu? Porquê? o Pedro está admirado e a Beatriz bebe um golo de vinho antes de explicar, estás magoado com a situação, sentes-.te pressionado, talvez falando sobre isso, fiques mais à vontade, relaxado.

Estou a falar contigo, falo com as minhas irmãs, justifica o Pedro e a Beatriz volta a sorrir antes de continuar, mas talvez não seja suficiente.

Não podes ser tu? e o Pedro sorri.

A amiga ri-se, não, não acho que seja apropriado, o Pedro aproxima-se e beija-a apaixonadamente.

Por esta razão, acrescenta a Beatriz e o Pedro leva-a para o quarto, onde vivem uma noite intensa de amor.

Felizmente, o Miguel não acordou e a Beatriz saí antes dele acordar.

O Pedro está nas nuvens, está descontraído, sorri tanto que as irmãs ficam intrigadas, principalmente porque ele convida a Beatriz para o almoço de domingo em casa da Carolina.

Apanham-no sozinho na cozinha, fecham a porta e exigem saber todos os pormenores.

Vocês estão loucas! Mas o que é isto? protesta o Pedro, ah, já sabes que não sais daqui sem nos contar tudo, diz a Carolina.

Dormiste com ela, não dormiste? pressiona a Teresa e o irmão finge escandalizado, oh, Teresa, atenção ao vocabulário! no mesmo tom que usava quando ela era pequena.

Mas ri-se, está a ser bom, mesmo muito bom, a Beatriz é muito divertida, o Miguel gosta dela e eu também, confirma o Pedro.

As irmãs sorriem também, ainda bem, Pedro, mereces! Há tanto tempo que não te via assim tão feliz! exclama a Teresa.

CONTINUA

terça-feira, 9 de março de 2021

A FESTA - PARTE IV

 

O jantar é agradável, o Pedro sente-se a relaxar, tanto mais que a pessoa que se sentou ao lado é bem divertida.

Não deve ter mais do que trinta e cinco anos, tem uns bonitos olhos verdes e o riso é contagiante.

Só quando trocam os números de telemóvel é que o Pedro sabe que ela é psicóloga.

Talvez o possa ajudar, mas o Pedro decide não o fazer; afinal, acaba de a conhecer.

Contudo, cruzam-se no parque duas semanas depois; o Miguel está muito zangado, está a fazer uma grande birra e o Pedro não sabe o que fazer.

Olá, diz uma voz por trás dele, o que se passa? e o Pedro depara com a Beatriz, a psicóloga que conheceu no jantar dos amigos.

Olá, não sei, hoje, ele está muito irritado e sinceramente, não sei o que fazer, confessa o Pedro, mas a Beatriz ajoelha-se em frente do Miguel, fala-lhe baixo e calmamente.

O Pai vê o Miguel olhar desconfiado para a Beatriz, mas depois, deixa que ela o ajude a levantar-se e o instale no banco de areia.

Em breve, o Miguel está a construir um castelo e não se importe que um outro menino o ajude.

Como é que conseguiu? pergunta o Pedro, mas a Beatriz abana a cabeça, o truque é não mostrar que se está nervoso, diz.

Pois, eu fico muito nervoso, principalmente quando ele começa com estas birras, confessa o Pedro, ele não é uma criança fácil, é muito distante, isola-se muito.

As crianças não são todas iguais, a Beatriz repete a frase da Carolina, e os Pais não têm um manual. Se precisa de ajuda, eu posso recomendar um colega.

O Pedro fica surpreendido, mas a Beatriz apenas lhe sorri, confiante e ele aceita o papel onde ela escreveu o nome de um colega.

Conversam mais uns minutos, a Beatriz despede-se, quer continuar o treino e depois vai almoçar a casa dos Pais.

O Pedro fica aborrecido com ele próprio, devia tê-la convidado para jantar, diz mais tarde à Teresa.

Pois devias, concorda a Teresa, tens que sair mais; estás cansado, aborrecido e nem tu relaxas nem o Miguel! Mudando de assunto, tens falado com a Laura?

O Pedro suspira, a conversa não foi fácil, a Laura limitou-se a responder sim e não às questões e quando lhe perguntou, se queria ver o Miguel, houve um silêncio tão grande que o ex-marido pensou que ela tinha desligado.

De qualquer modo, vou lá passar o próximo fim de semana, continua o Pedro, os avôs querem ver o neto e sempre equilibram as coisas.

CONTINUA

segunda-feira, 8 de março de 2021

A FESTA - PARTE III


Oh, Teresa, estás doida! Ele é um bebé! protesta o Pedro, vou lá levá-lo a um psicólogo.

Parece que não queres encarar a realidade, diz a Teresa, olha para ali e aponta para a sala onde o Matias e o Edgar organizaram um jogo para divertirem os mais pequenos.

O Miguel continua sentado sozinho a um canto, amuado e afasta a mão do Edgar quando este tenta levá-lo para o circulo.

Isto não é saudável, e já pensaste no que poderá acontecer quando ele for para a escolha? continua a Teresa e a Carolina está calada, não sabe verdadeiramente o que dizer, há uma certa lógica no que a irmã está a dizer.

O Pedro encolhe os ombros, senta-se com um suspiro numa das cadeiras da cozinha e repete, não sei o que fazer, tem medo de tudo, mesmo no parque, não larga a minha mão!

Não tenho uma resposta concreta, cada miúdo é um miúdo, a Filipa era muito obediente, mas o Miguel era um rufia, explica a Carolina, mas quando nasceram o Matias e o Edgar, tornou-se numa pessoa muito responsável e eles obedecem-lhe mais depressa do que a mim e ao Pai.

E eu não sei se, daqui a um ano ou dois, o Gonçalo e a Sofia não se tornam nuns rebeldes que nos obriguem a mudar de táctica, concluí a Teresa.

Acho que deves seguir o conselho da educadora, estás a precisar de ajuda, diz a Carolina, conta connosco para o que for preciso, mas a nossa ajuda pode não ser suficiente.

E investe algum tempo em ti, intervém a Teresa, saí com amigos, conhece novas pessoas, apaixona-te, acrescenta, maliciosa.

Não quero repetir a experiência do ano passado, ri-se o Pedro, mas a Carolina sossega-o de imediato.

Nem todas as mulheres são como a tua ex-mulher e ex-namorada, um pouco de loucura é bom, mas não a ponto de destruir a vida dos outros, afirma.

O Pedro sorri, está um pouco mais animado, talvez siga os conselhos das irmãs.

Achas que o Miguel pode ficar cá esta noite? pergunta à Carolina, fui convidado para um jantar, acho que vou.

Claro que vais, diverte-te, não te preocupes com o Miguel, responde a irmã.

Nesse momento, ouve-se um grito vindo da sala.

O Miguel resolveu participar na brincadeira, arrancou o balão das mãos de um outro menino que lhe dá um encontrão.

O Miguel caí, fica furioso e se o Edgar não o segurasse, batia de certeza no outro menino.

A Teresa e a Carolina trocam olhares, este tipo de luta é normal, mas para o Miguel, isto é uma ofensa!

CONTINUA

domingo, 7 de março de 2021

A FESTA - PARTE II


A Filipa tem que concordar que a sala está muito bonita.

O Matias e o Edgar fizeram uns painéis muito engraçados, estenderam no chão uma manta de retalhos, decerto foi a Teresa quem a emprestou, é mesmo do género dela, pensa.

Há balões, serpentinas, trouxeram todas as almofadas coloridas que encontraram e os dois estão muito sorridentes.

A Teresa seguiu as sugestões dos sobrinhos e mascarou os filhos como anões.

Como sempre, a Sofia só sorri e o Gonçalo está encostado a uma almofada de olhos fechados, mas a Filipa não tem a certeza de que está a dormir.

A rainha da festa apanhou um balão, aperta-o demais e este rebenta.

A Inês faz beicinho, mas a Sofia ri-se e dá-lhe outro.

A campainha toca, chega o Pedro com um Miguel muito calado.

Valha-me Deus, este nosso sobrinho está sempre de mau humor, murmura a Teresa e a Carolina suspira.

O Miguel resiste, não se quer sentar na manta e brincar com os primos e o Pedro leva algum tempo a convencê-lo.

O rapaz acaba por se sentar a um canto, longe dos primos e com cara de mau.

Não sei o que fazer a este rapaz, desabafa o Pedro, está sempre de mau humor, isola-se, não participa em nada, a educadora até sugeriu que consultasse um psicólogo.

Pode ser uma fase, responde a Carolina, não sei se será boa ideia!

Mas eu começo a perder a paciência, diz o irmão, não sei verdadeiramente o que fazer! Não sei se sente falta da Laura, mas os médicos não aconselham uma visita neste momento. Aliás, acho que o rapaz fica mais nervoso na presença dela!

Tens notícias da Laura? pergunta a Teresa e o irmão suspira.

Voltou para casa, continua com sessões de terapia em grupo, conta o Pedro, os Pais estão satisfeitos com os resultados, mas pode ser fogo de vista. De um momento para o outro, a Laura pode ter um novo acesso de fúria.

Pois, concorda a Teresa, mais uma razão para considerares a sugestão da educadora!

A Carolina e o Pedro olham-na estupefactos.

CONTINUA

sábado, 6 de março de 2021

A FESTA


Á hora de almoço, discutem-se os planos para a festa.

A Inês faz dois anos, a Carolina não quer deixar passar a data em branco e o Miguel protesta, ela quer lá saber! É um bebé!

Está calado! intervém a Filipa, tu não percebes nada! e a discussão teria sido violenta se a Carolina não os interrompesse.

Calma! Preciso de ajuda, de ideias para a festa, diz a Mãe e o Matias responde, bolo e velas.

Isso sabe-se, idiota! repreende o Miguel, a Mãe refere-se a um tema.

Que tal a Branca de Neve e os Sete Anões? propõe o Edgar, é a história que ela gosta mais.

Os outros riem-se, como é que tu sabes? mas a Carolina até acha uma boa ideia, podemos pedir aos meninos que venham fantasiados.

Vou sugerir à Laura que vista o Miguel de Zangado, observa o Miguel, aquele rapaz está sempre zangado!

Que crueldade, Miguel! protesta a irmã, mas o Matias concorda com o irmão, o Gonçalo pode vir vestido de Soneca.

Acabam todos por se rir e a Inês também, embora não compreenda bem o motivo.

A Teresa ri-se quando sabe do tema da festa, não fica nada aborrecida quando a irmã lhe conta que o Matias sugeriu que o Gonçalo fosse vestido de Soneca.

A Sofia pode ir de Feliz, responde a Teresa, aquela rapariga está sempre a sorrir! Não te preocupes com o bolo, eu e a Madalena encarregamo-nos disso!

A Carolina sorri, está cansada, agradece a ajuda.

A Filipa encarrega os irmãos da decoração da sala, muitos balões, serpentinas, confettis, ah, puxem pela cabeça, mas nada de exageros, aconselha.

A rainha da festa observa tudo, acha piada a tudo, menos quando a Mãe lhe tenta vestir o fato da Branca de Neve.

CONTINUA