terça-feira, 31 de dezembro de 2019

AS FESTAS - PARTE IV


" Eu? Impossível falar comigo? " repete o Jaime, fingindo-se indignado e é a Madalena quem o interrompe.

" Sim, até te esqueces das festas da escola! Vá lá, quem é a tua amiga? "

O Jaime diz-lhe que é a Matilde, os miúdos ficam surpreendidos, mas até acham graça.

A Matilde é muito divertida e quem sabe?, pode organizar saídas engraçadas tanto mais que, com a chegada dos gémeos, a vida lá em casa vai mudar.

" Gémeos? A vossa Mãe vai ter gémeos? " pergunta o Jaime e a Madalena acena que sim.

" Até nos pediu para sugerirmos nomes. Eu escolhi Bernardo e Cristina." conta a filha.

" E eu Mateus e Luisa." responde o Manuel e a Madalena apressa-se a explicar  ao Pai que ele está apaixonado por uma rapariga que se chama Luisa.

" Espero que a Mãe não escolha esse; não quero ter uma irmã com o nome da tua namorada." remata a Madalena e estala uma discussão entre os dois irmãos.

" Vá lá, acabem com isso. " intervém o Jaime " Não acham que devem ir dormir? Falamos mais sobre este assunto amanhã!"

Levantam-se tarde, vão dar uma volta pela aldeia e quando regressam para almoçar, encontram a Matilde.

Os três ficam surpreendidos, a Matilde traz um pequeno presente para os miúdos e faz-se convidada para o almoço.

A Matilde também sugeriu nomes para os sobrinhos e à menção de Caetana, a Madalena faz uma careta.

" Que horror!" exclama e todos riem.

Regressam felizes a casa, o Manuel e a Madalena sobem as escadas a correr, querem ver a Mãe e contar-lhe tudo.

O Jaime e a Matilde vão para casa dela, pois a Matilde tem a certeza de que não há nada de comer na dele.

O jantar é simples e a conversa fluída.

CONTINUA

domingo, 29 de dezembro de 2019

AS FESTAS - PARTE III


O Jaime e a Matilde discutem nessa noite.

A Matilde acha que ele foi precipitado, devia ter falado primeiro com ela, mas o Jaime não vê onde está o problema.

Afinal, quando a Carolina decidiu casar-se com o Rodrigo, comunicou-lhe um mês antes do acontecimento.

Mas os miúdos já sabiam, estavam preparados e neste momento, nem sequer sabem que nos conhecemos, explica a Matilde.

O Jaime diz que os filhos estão a crescer, têm que compreender que o Mundo não gira à volta deles, têm que sair da zona de conforto deles.

Eles nunca conheceram uma amiga tua, repete a Matilde, não tiveste um relacionamento sério depois do divórcio.

Mas estou a ter um agora, responde o Jaime e quero que eles percebam isso. 

Desliga e a Matilde fica sem saber o que dizer. 

Não falam durante uns dias e, como combinado, o Jaime parte com os miúdos para a quinta de turismo rural.

A Carolina e o Rodrigo reúnem alguns amigos em casa para uma pequena festa de fim de ano e a Matilde aceita um convite de uns amigos.

Mas pouco depois de meia noite, o Jaime liga-lhe e a Matilde confessa ter saudades dele.

Combinam um encontro no dia seguinte ao fim da tarde depois dele entregar os miúdos à Mãe.

Têm muito que conversar, porque ele gostaria muito que ela fizesse parte da vida dele.

Quando desliga, a Madalena puxa-lhe a mão e pergunta:

" É a tua nova amiga, Pai? " e a surpresa do Jaime é tal que o Manuel começa a rir:

" Nós sabemos, Pai. Deve ser alguém muito especial para andares tão feliz."

O Jaime continua sem saber o que dizer e o Manuel continua:

" Quando estás a preparar um novo livro, até te esqueces de comer e é impossível falar contigo."


CONTINUA




terça-feira, 24 de dezembro de 2019

AS FESTAS - PARTE II


" A minha irmã? A Matilde? " repete o Rodrigo.  

Só pode ser a Matilde, pois a Ana vive em Coimbra.

A mulher suspira e volta a mudar de posição. 

" Sim, ao que parece, encontraram-se num " Encontro com Escritores " e foram jantar fora para continuar a conversa, que o Jaime descreveu " muito interessante". " conta Carolina " Dai, as coisas evoluíram a ponto de a querer levar a passar uns dias com os filhos."

Rodrigo tem que concordar que é complicado. O Manuel e a Madalena conhecem a Matilde, gostam dela, mas será que vão achar graça a ideia dela ser a namorada do Pai?

" Foi o que mais lhe pedi: só apresentar uma namorada aos filhos quando tivesse a certeza de que seria um relacionamento sólido." continua a Carolina " Nada de casos de uma noite ou parecido."

" Não me parece que a minha irmã alinhasse numa coisa dessas!" defende o Rodrigo " A Matilde teve um casamento complicado, um divórcio ainda mais... não creio que a relação com o Jaime seja passageira."

" Mas ir para fora com os meus filhos!" grita a Carolina e é a vez do Rodrigo suspirar.

Sai da sala, deixa a mulher a descansar e telefona à irmã.

A Matilde está feliz, mas é ainda cedo para falar numa situação permanente..

Não, não sabia que ele queria levar os miúdos com eles e sim, até compreende o ponto de vista da Carolina.

Contudo, não acha que é positivo o Jaime estar a considerar a ideia de estarem juntos com os miúdos?

" Para ser franco, talvez seja ainda cedo... O Jaime tem que falar com os miúdos, eles conhecem-te.... tens que concordar que isto vai ser complicado." admite o irmão.

" Talvez, não digo que não. Vou conversar com o Jaime sobre isto, mas não acho que, só porque foi casado com a tua mulher, isto seja um obstáculo para a nossa relação." diz a Matilde.

O Rodrigo tem que concordar, mas não seria melhor esperarem para depois das Festas?


CONTINUA

O Minha Página deseja umas Boas Festas

domingo, 22 de dezembro de 2019

AS FESTAS


Jaime quer passar o fim do ano com os miúdos numa quinta de turismo rural, mas a Carolina não concorda.

A discussão torna-se violenta e o Rodrigo acha melhor levar o Manuel e a Madalena a visitar a Feira do Natal do Bairro.

O Rodrigo acha que a mulher está a fazer uma tempestade num copo de água, porque o Jaime adora os filhos e é muito cuidadoso com eles.

Claro que há falhas, mas isso acontece a todos. Até à Carolina, por muito atenta que esteja.

Com esta nova gravidez, a Carolina tornou-se ainda protectora e o Rodrigo suspira.

Quando chegam a casa, o Jaime já se foi embora e os miúdos ficam desapontados.

" Não achas que estás a exagerar? O que poderá acontecer numa quinta de turismo rural? Não vão estar sozinhos e decerto que há coisas planeadas." questiona o Rodrigo.

" Não, o Jaime quer levar com eles a nova amiga." responde a mulher.

" E, o que tem isso a ver? É normal que isso aconteça; tu refizeste a tua vida, era uma questão de tempo que isso acontecesse na vida do Jaime." diz o Rodrigo sensatamente.

" Mas tu não sabes quem é a nova amiga dela!" grita a Carolina, mudando de posição.  Hoje, o bebé está agitado.

" Quem é? " pergunta o marido. Sente-se muito cansado de repente e acha que casou com uma família muito problemática.

" É a tua irmã!" anuncia a Carolina e o Rodrigo fica sem palavras.


CONTINUA

O Minha Página deseja umas Festas Felizes

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

CANSAÇO - FIM


A Madalena até não gosta muito de " roupa velha ", mas está tão saborosa e o que dizer da rabanada?

Divino! Passa a tarde a dormitar, a ler.

Os Pais ficam agitados ao principio da noite, a Madalena dá-lhes a medicação e espera que descansem.

Mas não, passam a noite a gemer e quando lhes pergunta o que se passa, não sabem.

Está exausta quando a cuidadora chega, mas saí.

Precisa de arejar e apanha um autocarro, nem vê bem para onde vai.

Felizmente, vai até ao mar, não está a chover e a Madalena senta-se numa esplanada.

Por volta das quatro horas, regressa a casa, mas antes, vai comprar pão para o jantar.

A cuidadora está pronta para sair, diz que eles estão sossegados e a Madalena não compreende porque é que ficam nervosos com ela.

Sabem que é filha deles, mas são incapazes de se lembrar do nome dela.

A Madalena suspira, recebe um SMS da Sara com o nome de uma pessoa que poderá ficar lá durante a noite.

" Porque tens que ter uma boa noite de sono!" acrescenta a Sara.

A D. Clara é uma pessoa muito afável, está habituada a lidar com pessoas acamadas e combinam o horário.

Poderá entrar às oito da noite, ajudá-la com o jantar e a higiene e sair quando a cuidadora de dia chegar.

Esta é que não fica muito satisfeita quando sabe, mas a Madalena encolhe os ombros.

Pela primeira vez em meses, dormiu uma noite inteira, está mais bem disposta e a Sónia felicita-a, porque já não está tão tensa e pálida.

Claro que há sobressaltos, mas a Madalena não está sozinha para os enfrentar.

E, quando a Mãe morre naquele domingo de manhã, a Madalena fica de cabeça perdida, mas a D. Clara age com calma.

O Pai morre uns meses depois e a Madalena fica sozinha numa casa grande demais.

Há decisões a tomar, mas para já, a Madalena não quer pensar em nada.

Está a adiar o inevitável, ela sabe, quer gozar apenas este momento.

De que fez tudo o que lhe foi possível para os ajudar, que morreram com dignidade e não estiveram sozinhos.

Ela? Encontrará uma forma de continuar a viver.



FIM


Em memória dos meus Pais


quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

CANSAÇO - PARTE III


A Mãe regressa a casa no dia 24 e com tudo o que tem que fazer, a Madalena até se esquece que é noite de Consoada.

Lembra-a a irmã que telefona para lhe desejar uma Noite Feliz e a tia, que lamenta que " não possam vir cá. Ai, que saudades dos Natais que passamos juntos!"

Casa cheia de gente, risos, brincadeiras e toneladas de comida... sim, a Madalena lembra-se disso.

Mas não hoje.... hoje, está sozinha, nem lhe apetece comer nada.

Os Pais estão sossegados, a Madalena escolhe um livro, um dos três que um amigo lhe enviou para " viajares", diz o cartão.

Deita-se tarde, mas acorda à hora habitual. Não pode ser preguiçosa, tem que tomar o pequeno almoço, um duche e vestir-se antes que os Pais acordem.

Quando terminam, passa das onze horas. O que poderá comer? Tem sopa fresca, comprou um pouco de leitão, é só fazer um arroz e preparar o ananás.

Assusta-se com o toque do telemóvel; é a Sónia que diz que chegará dali a uns cinco minutos.

A Madalena fica surpreendida e um pouco confusa. É o Dia de Natal, não deveria estar com a família?

A Sónia vai almoçar a casa da sogra, mas antes, resolve passar por ali e traz-lhe " roupa velha" e uma lembrança.

A Sara, a recepcionista também veio, com uma lembrança e um prato de rabanadas.

A Madalena não sabe o que dizer, mas as outras apenas sorriem e aconselham a que aproveite ao máximo os dias de férias.

Já que tem uma cuidadora durante o dia, vá ao cabeleireiro, aos saldos, ao cinema e ficará mais relaxada.

Não estará na altura de contratar uma outra cuidadora para ficar de noite? sugerem e a Sara diz que a prima a poderá ajudar.

Despedem-se, as famílias estão à espera e a Madalena está comovida.

CONTINUA

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

CANSAÇO - PARTE II


Como é possível pensar que exagero? pensa a Madalena após uma noite muito dolorosa.

Entra numa livraria, lê algumas páginas de um livro em destaque e deixa-se envolver pela trama.

Esquece tudo, os Pais acamados, a pouca ajuda da irmã e os comentários idiotas dos colegas.

" Anime-se!" diz uma das colegas " Não pode ser tão complicado como diz!"

A Madalena sorri, encolhe os ombros e responde simplesmente:

" Um dia me dirá!" mas a colega ri-se bem disposta e comenta mais tarde com as outras na pausa para o café:

" Está a armar-se em vitima! Mas é o habitual nela! Lembram-se quando não se podia dizer nada, ela desfazia-se em lágrimas? "

" Mas agora não, pois não? Acho que está a ser muito corajosa!" observa a Sónia " As pessoas mudam, crescem.... Talvez seja o que lhe está a faltar!" e saí da cafetaria antes da colega responder.

A Madalena não está, diz a recepcionista que lhe telefonaram, a Mãe foi levada para o Hospital.

Coitada, murmura a Sónia, e sabe para onde? mas a recepcionista não sabe.

A Madalena estava tão perturbada, que achou por bem chamar-lhe um táxi.

" Chega mais depressa e mais sossegada... Bem, o termo não é esse...."

" Sim, compreendo o que quer dizer!" interrompe a Sónia " Se souber alguma coisa, diga-me."

Mas a Madalena não telefona, passa horas na sala de espera do Hospital no meio de pessoas tão ansiosas por notícias como ela.

Por volta das sete da tarde, chamam-na.

A Mãe terá que ficar internada, está com uma pneumonia.

CONTINUA

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

CANSAÇO


"  Oh, pá, só falta uma semana para o Natal!" diz a Joana admirada " Ainda não fiz nada e este ano, o Natal é em minha casa.  Terei que pedir ajuda à minha Mãe!"

A Madalena fica calada, não quer pensar no Natal com os Pais acamados.

Não vale a pena fazer a árvore, comprar bacalhau e fazer a aletria. 

Quando acabar de lhes dar de comer, prepará-los para a noite, estará tão exausta que só quer dormir.

Se a deixarem...  

Há noites em que a Mãe geme e não diz porquê e o Pai quer sair, porque " eu vivo no Porto e esta não é a minha casa".

A Madalena suspira; toda esta conversa de Natal aborrece-a.

Ainda por cima, as pessoas acham que está a fazer um drama, as coisas não podem ser assim tão más como ela pinta.

" Pelo menos, tens que fazer a árvore e qualquer coisa para a ceia!" insistem.

A Madalena abre a boca para lhes contar as vezes que não acabou de comer, porque um dos Pais gritou de dor e não soube dizer onde é que doía.

Fácil falar, tenho que organizar as coisas ao pormenor, certificar-me que a minha irmã pode lá ficar enquanto vou ao médico ou simplesmente beber um café com uma amiga.

Preciso de um intervalo e aqui sabem o que está a acontecer, mas ninguém me pergunta se não quero almoçar com eles.

Ignoram as olheiras, o cansaço que se lê nos olhos....

Porque estou a exagerar.


CONTINUA

domingo, 15 de dezembro de 2019

TEMPO - FIM


A Carla tenta convence-lo a ficar mais um pouco, " ainda não esclarecemos tudo ", mas o Brites afirma que agora é ele quem tem que pensar.

Saí para a noite gelada, com a fúria até esqueceu a parka, mas não volta atrás.

Guia pelas ruas desertas, sem saber o que fazer ou pensar e entra finalmente na garagem do prédio.

O Rogério ainda está acordado, escuta-o atentamente e na sua opinião, a Carla está realmente confusa.

Compreende as dúvidas dela em relação à Sofia, mas concorda com o irmão que a miúda precisa de saber o que está a acontecer no Mundo.

O Yoga é uma filosofia de vida, acrescenta, mas eles não se escondem. Preocupam-se com o Mundo, apresentam e defendem uma solução.

" Esta é a minha perspectiva e pode não estar correcta." termina o Rogério e aconselha o irmão a dormir.

Nas semanas seguintes, o Brites está irritado e descarrega nos colegas, até o Torcato, sempre calma se queixa.

O Bernardes fala com ele discretamente e pede-lhe para conversar novamente com a Carla, tentar resolver a situação definitivamente.

O Brites convida-a para almoçar e a Carla pede-lhe o divórcio.

Ela e o Dr Cristovão têm as mesmas ideias, os mesmos objectivos e querem ficar juntos.

Estão a pensar em passar uns meses na Índia e claro que gostaria de levar a Sofia.

Brites é claro, a Sofia não saí do País, nunca o permitirá.

A Carla protesta, é minha filha, mas o Brites é irredutível e a primeira coisa que faz quando regressa ao gabinete, é contactar um advogado.

O divórcio torna-se um processo pesado, complicado, mas no fim daquele ano, a Carla e o Dr Cristovão partem para a Índia.

A Sofia fica com o Pai e com o Tio Rogério e com os mimos das avós que se prontificam a ajudar.

A Carla regressa seis meses depois, as coisas entre ela e o Dr Cristovão não resultaram, mas o Brites não abdica da custódia.

Mas a Sofia cresce feliz.... Apesar das disputas entre os Pais.


FIM

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

TEMPO - PARTE VI


A Carla volta, deitam a Sofia e depois sentam-se à mesa.

O jantar é simples, a Carla comprou o vinho favorito do marido.

Conversam sobre banalidades e só à sobremesa é que o Brites pergunta:

" Então? O que decidiste em relação ao nosso casamento? "

A Carla sorri, deita-lhe mais vinho no copo e hesita antes de falar.

" Acho que devemos continuar assim mais um tempo. Ainda tenho muita coisa em que pensar."

" Tens que me dizer exactamente o que se passa. Não entendo o que se passa, é relacionado com o meu emprego? Mas já sabias...." responde o marido.

" Não é isso; preciso de passar mais tempo comigo, meditar mais." interrompe a Carla e o Brites não quer acreditar no que está a ouvir.

" Este retiro fez-me pensar... quero um ambiente mais saudável para a Sofia."  continua a mulher.

" Eu não sou saudável para a minha filha? Mas que história é essa? " repete o Brites.

A Carla cora, fica embaraçada e tenta explicar:

" Não, não é nada disso. Não quero que ela cresça a ouvir falar sobre crimes, raptos..."

" Mas é o que faço na vida e ela tem que saber que isso acontece. Ou vais esconder-lhe os jornais, desligar a Internet e a TV? " Brites está furioso, mas mantém a voz baixa.

" Continuas a não perceber. Quero que ela tenha uma existência mais pacifica." continua a Carla.

" Mas não é escondendo os factos que a existência vai ser mais pacífica. Ela tem que saber o que está a acontecer no Mundo para tomar uma posição e agir." e o Brites levanta-se da mesa.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

TEMPO - PARTE V


" Nada!" diz o Torcato " A mulher era perfeita! Não há empréstimos, não há atrasos no pagamento dos impostos..."

" Ninguém é assim tão perfeito!" protesta o Brites.

Os comerciantes da zona afirmam que a D. Filomena é uma pessoa simpática, prestável e não compreendem a razão de ter desaparecido assim.

Terá sido rapto? O Torcato sorri, mas não diz nada.

Percorreram a quinta, a aldeia e ninguém a viu.

O ex-marido também fica surpreendido, ela é uma pessoa confiável, não estará em casa da prima?

Uma prima? Onde vive? Tem um nº de telefone? mas o Brites descobre que a prima vive agora na Argentina, a relação tornou-se distante.

De qualquer maneira, pede ajuda à Embaixada na Argentina. Nunca se sabe, pode ter escrito uma carta, um mail e dito qualquer coisa sobre os planos imediatos.

O computador pouco revela. Tudo o que pesquisa e escreve é sobre yoga e agricultura biológica.

Há listas de clientes que participam nos workshops de comida saudável, mas pouco há sobre a vida pessoal.

Brites sente-se frustrado e aceita o convite para jantar da Carla.

Corta o cabelo, apara a barba que deixou, entretanto crescer e até compra uma camisa nova.

" Uau! Vais ao casino?" goza o irmão.

" Não, vamos jantar lá em casa. A minha sogra tem um jantar dançante e não pode ficar com a Sofia. " explica o Brites e após um duche rápido, conduz até ao apartamento.

A Carla abre a porta, a Sofia sorri-lhe e o Brites fica encantado.

" Entra, entra. Fica com ela na sala, tenho umas coisas a terminar na cozinha!" e desaparece.

" Então, pequenina, achas que a Mãe me vai deixar voltar para casa?"



CONTINUA




terça-feira, 10 de dezembro de 2019

TEMPO - PARTE IV


" Casada, solteira? Filhos? " insiste o Brites.

" Divorciada, sem filhos. Tem uma loja/café de produtos biológicos e pertence à Direcção do Ashrama.  É o meu braço direito." responde o Dr Cristovão.

" Quando é que a viu pela última vez? Pode resumir os acontecimentos de ontem? " pede o Sargento.

" Tivemos prática de manhã, almoçamos e demos um passeio pela quinta. Por volta das cinco, tivemos nova prática aqui neste pátio e fomos descansar até ao jantar..." explica o director.

" Ela estava muito bem disposta durante o jantar. Ficamos à conversa, entoamos cânticos.." diz a Carla ao Detective Torcato " Ela tinha direito a um quarto individual, nós dormimos numa camarata."

" Quem ficou consigo? " interrompe o Torcato e a Carla dá-lhe o nome de seis outras mulheres.

" Esta manhã, não apareceu para a prática, era a vez dela coordenar a aula e por isso, pedi à Judite para a ir chamar." continua o Dr Cristovão.

" E, a Judite não a encontrou no quarto. O que aconteceu depois? " pergunta o Brites.

" A Judite avisou-nos que ela não estava no quarto, que este estava todo remexido e a Carla achou melhor chamar a polícia. Achei que era prematuro, mas a Carla diz que é o correcto." acrescenta o Director do retiro.

" Não disse nada sobre o que planeava fazer depois do retiro? Ia ter com alguém? Conhecia alguém aqui da quinta? " o Brites quer esclarecer tudo.

Mas o Dr Cristovão não sabe mais nada. Nem as companheiras de quarto da Carla.

Brites suspira e chama o Torcato. Quer ver o quarto.

Porquê desaparecer assim sem deixar rastro?

Rapto? adianta o Torcato, extorsão, burla? Verifico extractos bancários, vou até à loja? sugere.

CONTINUA

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

TEMPO - PARTE III


Depois de deixarem os Pais em casa, os dois irmãos ainda vão a um bar onde se encontram com um grupo de amigos.

Deitam-se tarde e o Brites acorda sobressaltado com o toque do telemóvel.

É o Detective Torcato, há um novo caso, passa lá por casa dentro de meia hora, pode ser?

O Brites resmunga, precisa de café bem forte e lá se levanta.

Quando o Torcato chega, o Brites já está na entrada à espera.

" Onde vamos? " pergunta, mas o Torcato não tem muitos pormenores.

Só sabe que é nos arredores, numa quinta utilizada para eventos. 

Neste momento, está lá um retiro de yoga e ao que parece, um dos instrutores desapareceu.

" Retiro de yoga?" repete o Brites. Terá sido para aqui que a Carla veio?

A primeira pessoa que vê quando chega à quinta é a mulher.

Está com umas calças largas, uma túnica branca, sem maquilhagem e o cabelo preso.

" Ah, ainda bem que és tu!" diz quando o vê e começa a explicar o que se passa, mas o Brites interrompe-a:

" Carla, Carla, não podes falar comigo! Fica aqui com o Detective Torcato e ele toma nota do teu depoimento. Diz-me só: quem é o responsável pelo retiro?" e a mulher aponta para um homem alto que está no átrio da casa.

O Torcato sorri à Carla e convida-a a sentar-se num banco de pedra ali perto.

O Brites apresenta-se ao homem alto, também vestido com umas calças largas e uma túnica branca.

Deve ter os seus cinquenta anos, o cabelo está a ficar grisalho e os olhos azuis são vivos, inteligentes.

" Em que o posso ajudar, Sargento? "

" Pode falar-me um pouco da pessoa que desapareceu!" diz o Brites.

" Ah, sim, a Filomena... É uma das nossas principais instrutoras, foi ela quem organizou tudo." explica o Dr Cristovão Macedo.


CONTINUA



domingo, 8 de dezembro de 2019

TEMPO - PARTE II


Ele e a sogra evitam falar mais sobre o que se passa e despede-se, prometendo voltar no dia seguinte.

Em casa, encontra o irmão a descansar no sofá.

" O quê? Por cá, não estás com uma das tuas amigas?" pergunta o Brites e o irmão solta uma gargalhada.

" Não, hoje vai ser uma noite familiar. Eu, tu e os Pais. Pôr a conversa em dia. Que tal?" diz o Rogério Brites.

O irmão acha uma boa ideia, não tem estado com os Pais tantas vezes como gostaria.

Vai tomar um duche rápido, muda de roupa e quando sai do quarto, os Pais já estão na sala, a tomar uma bebida.

Fazem-lhe uma festa, parece que não se vêem há anos e o Brites sente-se culpado.

O jantar é animado, o Rogério conta momentos caricatos das viagens que faz e o Brites acaba por dizer que as coisas entre ele e a Carla estão complicadas.

A Mãe dá-lhe um abraço, o Pai sugere que a convide para jantar.

" Já tentei, mas a Carla diz que ainda precisa de tempo e hoje está num retiro de yoga." responde o filho.

" Isso é perigoso!" comenta o Rogério " A Maria pediu-me um tempo e acabamos por nos divorciar."

" Está calado, Rogério! Tu e a Maria só partilhavam uma casa!" recrimina a Mãe e o Pai concorda.

" Tens que a convencer. A tua profissão é complicado, mas os dois têm que fazer cedências para o casamento resultar!" aconselha o Pai.

O filho suspira, a Carla nem sempre responde às chamadas e aos SMS.


CONTINUA

sábado, 7 de dezembro de 2019

TEMPO


O Brites e a Carla resolvem dar um tempo.

A Carla e a Sofia ficam no apartamento e o Brites muda-se para casa do irmão, que se divorciou recentemente.

Este, ou está a viajar a negócios ou fica em casa da amiga especial do momento e o Brites aprecia a tranquilidade.

A senhora que trata da manutenção do apartamento faz-lhe as compras e até lhe deixa petiscos no frigorifico.

Fica encantada quando conhece a Sofia e o Brites relaxa, porque tem espaço e alguém que o pode ajudar com a menina quando está com ele.

Naquele fim de semana, a Sofia está doente e por isso, o Brites vai só visitá-la.

Espera que a Carla esteja lá e possam falar, mas é a sogra quem lhe abre a porta.

A Carla está num retiro de yoga, explica, já estava marcado.

" Pena!" diz o genro " Gostava de falar com ela! Precisamos de falar!"

" Eu sei, mas tens que lhe dar mais algum tempo. A Carla está muito confusa!" explica a sogra.

" Mas confusa com o quê? " pergunta o Brites " Ela deixou de falar comigo, não a posso ajudar se não me diz o que se passa."

" Tu ficas muito envolvido com os teus casos, ela sente-se sozinha!" responde a sogra, mas o Brites nota que ela está pouco à vontade.

" A Carla sabia que eu era detective, que era uma questão de tempo até ser promovido a sargento e que nem sempre tenho horários." comenta o Brites.

A Mãe da Carla suspira, sabe muito bem que o genro tem toda a razão.

Por isso, não diz nada e deixa-o sozinho com a Sofia.

A menina está rabugenta, o Brites tenta ler-lhe uma história, mas a Sofia só quer ficar enroscada no colo do pai.

Adormece e o pai deita-a cuidadosamente na caminha.


CONTINUA

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

CENAS DOS PRÓXIMOS CAPÍTULOS - FIM


A Carolina aceita a proposta da empresa e vai viver para outra cidade.

O André e a Célia decidem casar e procuram uma nova casa.

E, o Bernardo? Continua a trabalhar num manuscrito e pouco se preocupa com a carreira.

É competente, conta o André à Célia, tem boas ideias, defende-as com argumentos sólidos, mas mostra-se um pouco distante.

Não é propriamente anti-social, confessa o namorado, mas não participa activamente.

A Célia está preocupada, mas não sabe mais o que fazer. 

Tem a sua própria vida, ela e o André planeiam uma lua-de-mel em grande e há muito a fazer.

O Pai tenta ter uma conversa com o Bernardo, mas este mostra-se um pouco renitente em discutir o futuro.

Está quase a terminar o manuscrito e procura editoras.

Talvez seja melhor procurar editores independentes, mais pequenas.

Se o livro tiver sucesso, então, contactará uma maior.

Há uma editora que se mostra interessada, faz-lhe uma proposta, o Bernardo aceita.

" Estás doido!" diz a Célia quando sabe, mas encolhe os ombros.

O lançamento acaba por se tornar uma festa para a família e amigos. 

Compram o livro, lançam piadas e o Bernardo acaba a pagar o jantar aos amigos mais íntimos.

Não é um fiasco, murmura, mas ninguém de uma grande editora o contacta.

Concentra-se mais no trabalho, é até promovido. 

Mas não desiste de ser escritor e inscreve-se em workshops de escrita criativa.

Participa activamente um Clube de Leitura e é lá que conhece a Luciana.

A Célia e o André casam, o irmão deste vai fazer um estágio para o estrangeiro e o Bernardo fica sozinho no apartamento.

Convida a Luciana para morar com ele e, como diria a Célia mais tarde, apesar de tudo, os dois " aluados" até são bastante felizes.

Mesmo que nunca tenham publicado nada em nome próprio.



FIM



terça-feira, 3 de dezembro de 2019

CENAS DOS PRÓXIMOS CAPÍTULOS - PARTE IV


" Mas tu estás louca? " grita o Bernardo " O que é que te deu para andares a vasculhar as minhas coisas?"

" Este manuscrito não é teu! O que é que andas a fazer com isto?" repete a Célia " Estás a reescrever, vi as notas e não é correcto, Bernardo! Nem para a pessoa que o escreveu nem para a editora que te pode processar. E, com toda a razão!" acrescenta.

" Isso era um manuscrito rejeitado, ia ser destruído." justifica o Bernardo.

" Não interessa; oh, pá, o que se passa contigo?" pergunta a irmã " A Carolina tem razão: estás diferente. Estás parado no tempo, à espera que as coisas venham ter contigo."

" Deixa-me viver a minha vida!" pede o Bernardo, mas a Célia não desiste:

" Não posso! Precisas de dar um rumo à tua vida; este estágio não está a resultar, procura outra coisa." 

O André e o irmão chegam nesse momento e apercebem-se do momento tenso.

" Vamos arrumar estas caixas e voltamos já!" diz o André, mas a Célia impede-o.

" Não, tens que me ajudar a meter juízo nesta cabeça dura!" e juntos, tentam convencê-lo a reestruturar a vida.

" Vem trabalhar comigo, a empresa está à procura de um novo colaborador e tu tens as habilitações necessárias!" diz o André.

" Vais viver à custa dos outros? " observa a Célia " Não estou para isso... "

" Nem mesmo se me tornar um escritor famoso? " comenta o irmão, trocista e o André segura o braço da namorada, que está furiosa.

" Ninguém está a dizer que não tentes ser escritor, mas agora, neste momento, tens que trabalhar!" insiste o André.

Contrariado, o Bernardo devolve o manuscrito à editora, a Directora do Departamento faz-lhe um sermão e acrescenta que espera que tenha aprendido a lição sobre ética.

A empresa do André faz-lhe uma proposta que a Célia o obriga a aceitar.

Mas na cabeça do Bernardo continuam a fervilhar ideias e raramente saí à noite.


CONTINUA


segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

CENAS DO PRÓXIMO CAPÍTULO - PARTE III


O Bernardo não diz nada; fecha-se no escritório e adormece em cima do computador.

Chega atrasado à editora, dá uma desculpa em que ninguém acredita e trabalha como um zombie.

A Célia está à espera dele em casa, a Carolina almoçou com ela e foi muito franca.

Está muito desiludida com o Bernardo, acha que a relação não tem qualquer futuro.

Vai sair de casa, voltar para a dos Pais, pensar na proposta que a empresa lhe fez.

" Não sei o que mudou, mas o teu irmão era tão ambicioso, tinha tantas ideias e de um momento para o outro, qualquer coisa nele " apagou". " 

A Célia ficou sem saber o que dizer, ajudou-a a fazer as malas e confessa ao André que tem vontade de bater ao irmão.

" E, além disso, o Bernardo não é pago... como é que vou fazer face às despesas da  casa? " lamenta-se " O que é que ele tem na cabeça? Mas compreendo a Carolina; está a progredir na carreira e o idiota do meu irmão não está a fazer nada pela dele."

O André tem uma proposta, ele e o irmão podiam mudar lá para casa.

Quanto ao Bernardo, a Célia tem que falar com ele e pôr os pontos nos iis.

" Se é que ele me vai ouvir.... consegue ser muito teimoso!" mas está sentada no sofá quando ele entra.

" A Carolina já voltou de casa dos Pais?" pergunta o irmão.

" Não, a Carolina não vai voltar. Vai ficar uns tempos em casa dos Pais; ela telefona-te, quer falar contigo, mas ainda não está preparada para isso." diz a Célia.

O Bernardo encolhe os ombros; às vezes, a Carolina é muito teimosa.

Prepara-se para entrar no escritório, mas não consegue abrir a porta.

A Célia mostra-lhe a chave e faz-lhe sinal para se sentar ao lado dela.

" Temos que conversar e muito. Primeiro que tudo, o que é que tu andas a fazer com um manuscrito da editora aqui em casa? "

CONTINUA