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A EMPRESA PARTE II

  A reunião é longa e estou exausta quando saio finalmente da sala de reuniões, sem perceber bem o que pretendem. Algumas das minhas ideias são rejeitadas sumariamente, nem as querem discutir e pergunto-me qual o objectivo da minha contratação. Ser a má da fita, presumo e suspiro enquanto procuro o meu novo gabinete, que tal como a sala de reuniões, está decorado em tons escuros e tristes. Estou cheia de fome e as meninas do refeitório não ficam muito satisfeitas quando me vêem. Como lentamente, tento conversar com as meninas, mas embora sejam simpáticas, dão claramente a entender que não querem responder às minhas questões. Estou frustrada quando me sento à secretária, vejo que alguém me deixou uns dossiers para rever. Abro o bloco de notas, introduzo a password e exploro o computador.  Tenho ligação directa aos ficheiros dos empregados, não entendo o porquê dos dossiers físicos. Levanto-me, quem é que posso contactar se precisar de ajuda? murmuro enquanto revejo as notas e m...

A EMPRESA

  Estou atrasado, engulo a asneira e não sei porquê, penso na minha Mãe, no que ela diria se me visse assim nervosa. Faria um discurso sobre o "não tens razões para estar nervosa" e eu sentir-me-ia humilhada. Afasto a ideia da mente, concentro-me no momento presente e revejo as notas para a reunião de hoje. Apanho trânsito, chego atrasada, já estão todos reunidos na ampla sala com uma decoração pavorosa e que acho que contribui para o mau humor das pessoas presentes. Mau humor, repito baixinho e apresento como a nova Directora de Recursos Humanos, explico os objectivos que pretendo atingir, convido os presentes a apresentarem sugestões. Mas ninguém fala, instala-se um silêncio pesado e decifro alguns sorrisos hostis. Dou a reunião por terminada, as pessoas apressam-se a sair e apenas eu fico na sala, a rever os acontecimentos. Não se preocupe, diz uma voz por trás de mim e volto-me surpreendida, encontro o olhar simpático do Director Geral, as pessoas resistem a mudanças, mas...

CASO ANTIGO FIM

  Acho que não, observa o Sargento Bernardes, o Zé do Laço tornou-se informador do Inspector, mas foi um caso pontual e pouco depois, foi morto. Averiguamos o caso e foi essa a conclusão que chegamos. Provavelmente é o caso da nova vitima, uma coincidência serem da mesma família, repete. O Sargento Meireles suspira, o Director já telefonou a pedir uma actualização e ele teme que o caso seja arquivado. Mas se não tem provas físicas que confirmem que o Tó do Laço foi efectivamente assassinado, terá que dar o caso como inconclusivo e volta a suspirar. Esses casos são frustrantes, eu sei, continua o Sargento Bernardes, mas acontecem, e levanta-se, tem um compromisso a que não pode falta. O Meireles volta lentamente para a sede, o sargento de serviço avisa-o que o Director quer falar com ele. Relê o dossier, refaz a cronologia, volta a ver as fotos, mas não encontra nenhum elemento novo que lhe permita prosseguir a investigação. Tal como previsto, o Director pede-lhe para considerar o c...

CASO ANTIGO IV

  A Brigada de Gangues não tem qualquer alerta assinalado para a Travessa do Laço, está "limpa", dizem e quanto ao Tó do Laço, ele não tem qualquer papel relevante na organização, confirmam, estava no sítio errado à hora errada, declaram. O Sargento Meireles não está convencido, suspira desanimado, talvez os casos não estejam relacionados. Não, abana a cabeça, é coincidência a mais, talvez o Sargento que trabalhou com o Inspector Leandro no caso do Zé do Laço o possa ajudar. Tenta novamente contactar a Cristina, mas esta tem o telemóvel desligado, mas o que é que eu fiz? murmura enquanto procura o número do Sargento Bernardes. Se fica surpreendido com a chamada, o Sargento Bernardes nada diz, mas aceita relutante encontrar-se com o Meireles, o café perto da esquadra ainda existe? pergunta. Mas não vive no Norte? estranha o Meireles, mas o Sargento Bernardes explica que é o aniversário da neta e veio para a festa, podem encontrar-se no café. O Meireles chega cedo demais, está ...

CASO ANTIGO III

  A Cristina está furiosa, a única noite que tenho livre esta semana, reclama (é enfermeira no Hospital Central) e tu vens tarde??? Não, não quero saber se tens um novo caso. Podemos ir a outra sessão, sugere o Meireles, mas a Cristina abana a cabeça, já não me apetece, vamos para casa e pedimos take-away, responde. Não é preciso ficar assim, observa o Sargento e a Cristina para, temos que estabelecer prioridades, repete, não podemos deixar que o trabalho interfira na nossa vida privada. É a vez do Meireles parar de falar, o que é que estás a sugerir? pergunta calmamente, que deixe a Polícia? Fui muito claro nesse ponto quando nos conhecemos. Aliás, tu também! Por isso, vamos recapitular as nossas prioridades. Não hoje, declara a namorada, hoje só queria estar sossegada, ter uma noite relaxada e divertida. Ainda podemos ter, diz o sargento, vá lá, Cristina, não sejas teimosa, mas a namorada está irritada e abana a cabeça. Vê um táxi, faz sinal, murmura, vou ter com a minha irmã e e...

CASO ANTIGO II

  Chegado à sede, desce até ao arquivo; solicita acesso aos casos antigos do Inspector Leandro. Todos? estranha o sargento de serviço, sim, afirma o Sargento, quero conhecer o homem, tentar perceber a forma de pensar, pode ajudar-me no caso que tenho em mãos, explica. O sargento encolhe os ombros, confirma os links de acesso, era um homem muito calado, diz, sabe que deixou dinheiro para abrirem uma fundação para ajudar delinquentes a encontrarem uma carreira? Não, não sabia, responde Sargento, mas isso é interessante. Agora quero saber mais sobre o homem e sobre essa fundação. O sargento sorri, ah, e não se esqueça do Zé do Laço, acrescenta, ele é uma peça fundamental para o caso. Zé do Laço? repete o Meireles, a minha vítima também tem essa alcunha, penso que são parentes, sabe alguma coisa? questiona, mas o colega abana a cabeça e volta a sentar-se. O Sargento ignora os comentários jocosos sobre a nova indumentária e começa a pesquisa sobre a vitima recente. Está tão concentrado ...

CASO ANTIGO

  Porquê? suspira o  Sargento Meireles quando lhe entregam o dossier e vê que é um caso antigo. O Inspector responsável pelo caso já morreu, e em circunstâncias suspeitas dizem as más línguas e o sargento reformou-se e vive algures no Nordeste Transmontano. Porquê? repete o Sargento, mas nota que o nome da vitima de outrora é parecido com o do caso actual; também foram mortos da mesma maneira e coincidências, não, não fazem parte do quotidiano de Meireles. Por isso, relê os dois dossiers cuidadosamente, toma notas, faz uma lista de testemunhas e decide falar com o médico-legista. Há realmente pontos em comum, diz o Dr Bastos, com um ar sério. Não deve ter mais que cinquenta anos, pensa o Meireles, mas  parece mais velho, talvez por estar já careca e usar uns óculos antiquados e falar pausadamente.  Mas? incentiva o Sargento e o médico continua, este último caso, e aponta para a mesa onde a nova vitima está deitada, é um pouco mais cruel.  Aguardo ainda o resulta...

OS AMANTES FIM

  “ Oh, Manuel, tem visto o Joaquim?” pergunta o Vicente. “ Sim, vem cá todas as manhãs tomar café. Também aparece à tarde, mas é raro. Passa-se alguma coisa?” o Tio Manuel não resiste à curiosidade. “ Não, não. Queria trocar umas impressões com ele sobre um novo programa informático. Se o vir, Manuel, diga-lhe para me telefonar, ok?” e com um sorriso, o Vicente despede-se e sai. “ Programa informático? Que desculpa tão esfarrapada! ” concluo enquanto pego na mochila para me ir embora “ Desconfias de alguma coisa como eu!” remato, triunfante. No dia seguinte, temos sorte e o Filipe apanha o autocarro por um triz.  Uma hora mais tarde, manda-me um SMS a dizer que a Catarina deve estar atrasada e que o Joaquim está a ficar impaciente. “ Tem calma! “ escrevo “ Fica perto deles e tenta escutar o que dizem.” e aguardo pelas novidades, também impaciente. O tio Manuel nota e repreende-me: “Oh, João, onde estás com a cabeça? Leva esse café antes que fique frio! Estes adolescentes são ...

OS AMANTES PARTE V

  “ Bolas!” repito e é então que reparo que há um painel na parede. Talvez indique o que há em cada piso e é assim que descubro que os últimos são apartamentos.  Certamente que eles foram para um desses apartamentos e eufórico, mando um SMS ao Filipe, pedindo-lhe para se encontrar comigo. Apanho o autocarro para casa e só então me lembro do que aconteceu naquela manhã. Espero que o Tio Manuel não tenha telefonado à minha Mãe a contar o sucedido e dito que me deu a tarde de folga. Ela vai querer saber onde passei a tarde e eu não posso discutir o assunto com ela. “ Dizes que foste para minha casa estudar Matemática.” resolve o Filipe, mas eu abano a cabeça. “ Matemática foi uma das poucas disciplinas a que tirei boa nota; ela não vai engolir isso!” contesto, mas o Filipe encolhe os ombros, como se o assunto não fosse importante e pede urgente: “Conta lá o que se passou!” Faço um relatório completo do meu trabalho de detective, mas embora tenha descoberto parte da “conspiração”...

OS AMANTES PARTE IV

Não hesito; entro também no autocarro, tendo cuidado para que o Joaquim não me veja.  O autocarro está cheio e toda a gente protesta contra o atraso. O Joaquim continua impaciente, a olhar para o relógio e para o exterior. Murmura qualquer coisa que não consigo ouvir, mas agora entramos numa rua onde o tráfego não é tão intenso e o autocarro acelera.  Fico surpreendido quando o Joaquim saí no Largo das Universidade, mas depois lembro-me de ter ouvido o tio Manuel comentar que a Catarina tem uma empresa de consultadoria num destes edifícios modernos.  Tenho uma outra ideia brilhante: será a empresa da Catarina uma fachada para a lavagem de dinheiro e o Joaquim é um dos sócios?  Mas agora não posso pensar nisso; tenho que andar depressa ou perco o Joaquim que entra confiante num dos edifícios. Entro juntamente com um grupo ruidoso e poucos metros à minha frente, vejo a Catarina toda sorridente a cumprimentar o Joaquim.  À minha direita, há uma papelaria e eu escon...

OS AMANTES PARTE III

  “ E achas que o tipo nunca tentou falar com ela?'” estranha o Filipe “ Podes não ter visto! Quem sabe se o ela estar sempre a abotoar o casaco quando passa pelo café não é um sinal?” “ Para se encontrarem?” questiono “ Hoje, vi-o entrar no autocarro que ela apanha todas as manhãs.” e o Filipe dá uma gargalhada e diz triunfante: “ Ou podem estar a planear um golpe! Não disseste que ele sabe muito de computadores?..  Então, ela pode querer roubar o marido e precisa da ajuda desse Joaquim para aceder aos códigos das contas!” “ Será?” pergunto-me, mas escrevo, pois tenho que explorar todas as hipóteses. Há ali um mistério e eu vou descobrir. A porta do vestiário abre-se e mal tenho tempo de esconder o bloco. Mas não é o tio Manuel, mas sim, o meu primo Bernardo. Está mais alto e mais magro; já não lhe posso chamar “bolinhas”. Como teve boas notas, não foi “convocado” como eu para trabalhar no café durante as férias. “ Olá, o que fazes aqui?” pergunta-me e senta-se ao pé de mim....

OS AMANTES PARTE II

  “ Está frio!” diz com um sorriso e para mim “ A ajudar novamente nas férias? ” e o Tio Manuel corta-me a palavra: “ É para não estar tanto tempo na Net e não aprender maluquices!” e o Joaquim ri-se: “ Agora já ninguém faz nada sem os computadores e a Net.  Até estou a instalar no escritório novos computadores, já com o sistema operativo Windows 8.1. “ “ Pois, eu tive que instalar esta maquineta e não quero saber de mais nada! ” contraria o Tio Manuel e eu aproveito para perguntar ao Joaquim: “ Posso ir ao escritório e ver esses computadores.” mas o telemóvel do Joaquim toca nesse momento e pela cara dele, vejo que não fica muito satisfeito com a chamada. Paga, dá as boas noites e sai. “ Viu, Tio Manuel? Quem seria? Ele não ficou nada satisfeito!” digo, excitado e o Tio Manuel dá-me um safanão e diz-me, ameaçador: “ Não tens nada com isso! Não andes a inventar histórias sobre os clientes! Vai para casa! Sem desvios!” acrescenta. Cruzo-me com a Catarina na paragem do 620, mas ...

OS AMANTES

  É certo e sabido que o Joaquim entra às 08h55 no café, pede um café em chávena escaldada e senta-se naquela mesa em frente ao vidro, calado, à espera. E às 08h59, 09h00, com passo apressado e ainda a abotoar o casaco passa a Catarina. Dois minutos depois chega o autocarro, ela entra e o Joaquim levanta-se, paga o café e saí. De segunda a sexta, esta é a rotina do Joaquim e diz-se por aí que está apaixonado pela Catarina, aquela ruiva esbelta e sexy, mulher do Vicente. O que ela viu no Vicente, ninguém sabe, pois este é atarracado, um pouco gordo e calvo. É uma simpatia, verdade seja dita e os empregados, que também frequentam o café, classificam-no como um patrão exigente, mas justo. Mas a pergunta continua a ser: será que a Catarina casou-se com ele por causa do dinheiro? Ou haverá ali uma outra história mais macabra? “ Oh, rapaz, não digas disparates!” Pede-me o Tio Manuel quando me atrevo a contar-lhe as minhas suspeitas à hora de almoço e o café tem pouca gente. “ Ora, tio, e...

DIFERENTE FIM

  A discussão torna-se acesa, a Madalena acaba por pedir silêncio, só me falta o martelo para impor a ordem como nos tribunais, brinca e todos riem. Um jantar num restaurante próximo é uma boa ideia, atalha o Luís e é uma noite animada. Quando se despedem no fim do jantar, a Rute já faz parte do grupo e o assunto em discussão continua a ser sobre a Inês de Castro e a Leonor Teles. Voltam a encontrar-se na quarta-feira seguinte, desta vez tanto o Luís como o Pedro trazem uns amigos que sugerem explorar também os acontecimentos das épocas em que a Inês de Castro e a Leonor Teles viveram. Há todo um contexto político e social a considerar, atalha o Américo, muitas vezes, era a forma da família ter acesso a privilégios, acrescenta o amigo Heitor. A Madalena acha que é uma boa ideia, mas alarga um pouco o objectivo do clube e temos que ter a certeza de que é isso que pretendemos, explica e a Cristina concorda. Impor regras, é isso que estamos a discutir? intervém a Alice, não é bem regr...

DIFERENTE PARTE V

  Falei deste clube a uma amiga, interrompe a Ana, e ela ficou muito interessada. Será que a posso convidar para assistir a uma sessão? Olham-na surpreendidos, a Ana cora levemente, realmente, nunca falamos em alargar o circulo, confessa Madalena, o que é que pensam? É uma ideia, concorda a Cristina, mas temos que impor um limite, interrompe a Alice e o Luís concorda, temos que ter a certeza que compreendem o objectivo do clube. Sim, o clube funciona exactamente porque compreendemos esse objecto, diz o Américo, ninguém vai impor livros, acrescenta. Claro que não, observa o Pedro, estabelecemos regras que têm que ser cumpridas. Somos 6, 7 contando com a Madalena como mediador e todos sorriem. Cada um de nós convida um amigo, continua o Pedro, explicamos que a participação está sujeita à aprovação dos restantes.  Passamos a ser 12, não mais do que isso. Mais do que isso será um caos, repete a Cristina e todos acham que já que foi a Ana a falar no assunto, deve ser ela a primeira...