OS AMANTES PARTE III

 

“ E achas que o tipo nunca tentou falar com ela?'” estranha o Filipe “ Podes não ter visto! Quem sabe se o ela estar sempre a abotoar o casaco quando passa pelo café não é um sinal?”

“ Para se encontrarem?” questiono “ Hoje, vi-o entrar no autocarro que ela apanha todas as manhãs.” e o Filipe dá uma gargalhada e diz triunfante: “ Ou podem estar a planear um golpe! Não disseste que ele sabe muito de computadores?..  Então, ela pode querer roubar o marido e precisa da ajuda desse Joaquim para aceder aos códigos das contas!”

“ Será?” pergunto-me, mas escrevo, pois tenho que explorar todas as hipóteses. Há ali um mistério e eu vou descobrir.

A porta do vestiário abre-se e mal tenho tempo de esconder o bloco. Mas não é o tio Manuel, mas sim, o meu primo Bernardo. Está mais alto e mais magro; já não lhe posso chamar “bolinhas”. Como teve boas notas, não foi “convocado” como eu para trabalhar no café durante as férias.

“ Olá, o que fazes aqui?” pergunta-me e senta-se ao pé de mim. “ O meu Pai não gosta de mandriões!” acrescenta, trocista.

“ Não estou a ser mandrião!” refilo “ Estou numa pausa!”  O Bernardo ri-se e repete: “Ah, uma pausa! Fizeste várias pausas este período! És mesmo um mandrião!” troça e eu dou-lhe um soco.

O Bernardo grita de fúria e atira-se a mim. Algumas caneladas, pontapés, socos, estou com a camisola rasgada quando o tio Manuel nos separa e exige explicações.

Como nenhum abre a boca, manda o Bernardo para casa e a mim dá-me a tarde de folga. Fico parado na rua, sem saber muito bem o que fazer e eis que vejo o Joaquim na paragem do autocarro.

Nota-se que está impaciente, está a olhar para o relógio e suspira de alívio quando o 303 aparece.


CONTINUA

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