segunda-feira, 28 de novembro de 2022

O ESTÁGIO PARTE VI

 

O jantar é simples, o filho mais velho também está a estudar design e temos uma conversa interessante sobre o assunto.

A Maria Rosa e a filha mais nova trocam impressões sobre moda e joelharia, percebo que as duas estão divertidas, pois a minha prima ri-se alto e está com os olhos a brilhar.

Na manhã seguinte, acordo cedo, preparo o pequeno almoço, a família abasteceu o frigorífico com o essencial e visto-me.

A Maria Rosa ainda dorme, é preciso acordá-la, ela resmunga, mas temos que nos apresentar a horas, digo, não convém chegarmos atrasadas!

Cruzamos-nos com o casal no corredor, eles oferecem-nos uma boleia até à empresa, explicam o trajecto do autocarro.

Não percebi nada, suspira a Maria Rosa, vais ter que me explicar ou melhor, encontramos-nos aqui à hora de saída e vamos juntas.

O átrio é enorme, decorado em cores discretas, apresentamos-nos à recepcionista que toca num botão e nem cinco minutos depois, aparecem dois homens.

O Karl deve ter cerca de cinquenta anos, vai ser o responsável pelo meu estágio e a Maria Rosa faz-me uma careta.

Já o Harold não deve ter mais do que vinte e cinco e a minha prima fica encantada, segue-o pelo corredor, os dois já entretidos numa longa conversa.

O Karl leva-me para uma grande oficina, apresenta-me aos outros estagiários, vou ter alguma dificuldade em decorar tantos nomes e aponta-me uma bancada.

Explica-me o que quer que eu faça, deixa-me sozinha, fico um pouco surpreendida, pois pensava que teria que o seguir ao longo do dia.

Não te preocupes, comenta o estagiário na bancada ao lado, ele está a fazer-te um teste, a descobrir o que sabes ou não para te orientar depois. Chamo-me Brian, sou australiano.

Sorrio, apresento-me também, ele mostra-me o que está a fazer, aconselha-me a começar por um desenho simples e eu concentro-me no trabalho.

Á hora de almoço, o Karl verifica o meu trabalho e passamos o resto da tarde a estudar a melhor forma de dar vida ao desenho.

Estou muito cansada quando me encontro com a Maria Rosa no átrio, ela já está a conversar animadamente com outros dois estagiários.

Oh, Francisca, estes são a Maria e o Gustav, estão a fazer o estágio comigo, anuncia, convidaram-me para tomar uma bebida. Queres vir?

Já? Acabamos de nos conhecer, protesto, é o primeiro dia de trabalho, estou exausta! Quero ir para casa, comer qualquer coisa e dormir.

A minha prima encolhe os ombros, eu vou e saí com os colegas, sem olhar para trás.

Apanho o autocarro, vejo que há pequeno supermercado perto da casa da família, entro para comprar mais leite e pão.

Onde é que está a Maria Rosa? Devia ter ido com ela, espero que não venha muito tarde.

CONTINUA




domingo, 27 de novembro de 2022

O ESTÁGIO PARTE V

 

Os Pais regressam, sentam-se, a conversa fluí, até a Mãe da Maria Rosa parece mais descontraída.

O Pai olha para o relógio, é melhor irmos, diz e lá vamos nós em direcção das escadas rolantes, tens a certeza de que queres ir? ouço a Mãe da minha prima perguntar-lhe.

Olho para a minha Mãe, ela suspira e abana a cabeça, ela vai ficar bem, responde o tio Pedro, é uma boa oportunidade e ela vai aproveitá-la, não sei, não tenho a certeza disso, insiste a Mãe e a Maria Rosa explode, eu vou e não há nada a fazer!

Fazemos o check-in, despedimo-nos dos Pais e a Maria Rosa respira fundo quando nos sentamos no avião.

Pensei que ela ia ficar calada, explica, mas não, tinha que fazer uma última cena, não sabe como é ridícula?

Não faço comentários, penso nos meus Pais, na sorte que tenho em os ter como Pais, extravagantes, é certo, mas acessíveis, o que é que eu quero mais?

Adormeço e quando acordo, a Maria Rosa está a conversar animadamente com os nossos vizinhos, já trocaram números de telemóvel e até combinaram um encontro numa discoteca.

Não achas que é um pouco prematura? pergunto quando nos preparamos para descer do avião, a minha prima faz um esgar, pareces a minha Mãe! declara e desce as escadas à minha frente.

A família está à nossa espera, segura um cartaz com os nossos nomes, parecem ser simpáticos, ajudam-nos a levar as malas até ao carro.

O quarto é espaçoso, decorado em tons de azul e branco, temos a nossa própria casa de banho e uma pequena kitchenette.

Óptimo, não temos sempre que comer com a família, exclama a Maria Rosa, deitando-se numa das camas.

Mas hoje, temos que jantar com eles, interrompo, já nos convidaram e sempre que o fizerem, vamos aceitar.

Ah, suspira novamente a minha prima, mas vais ser assim tão chata?

Não, é uma questão de bom senso e educação, repito, deixam-nos ficar em casa deles, temos que retribuir de alguma maneira!

Vou tomar um banho, anuncia a minha prima e fecha-se na casa de banho.

CONTINUA 


sexta-feira, 25 de novembro de 2022

O ESTÁGIO PARTE IV

 

Acho que não te deves preocupar demasiado com isso, aconselha a Mãe quando lhe falo dos meus receios, aproveita o estágio, aprende, mas diverte-te também. Não te vais preocupar com o que a Maria Rosa vai ou não fazer, se ela tiver uma atitude de que não gostas, fala abertamente com ela!

Pois... tenho a impressão de que ela aceitou fazer o estágio para estar longe da Mãe, explico e a Mãe abana a cabeça, talvez seja, mas esse não é o teu problema. Concentra-te nos teus objectivos, mas está atenta às atitudes dos outros.

Suspiro, a Mãe tem razão, estou muito entusiasmada com o estágio, já enviei um mail à pessoa responsável pelo meu estágio na empresa, estabelecemos um programa que discuti com o meu professor.

Os meus Pais acompanham-me ao aeroporto no dia da partida, a Maria Rosa diz que vai lá ter, espero que não chegue atrasada, resmungo e o Pai ri-se.

Se bem conheço o Pedro, até já lá devem estar, diz, mas eu duvido.

Contudo, quando entro no átrio principal do aeroporto, a primeira pessoa que vejo é a Maria Rosa a acenar-me entusiasmada.

Não te disse? sussurra o Pai e avança para cumprimentar, não só o tio Pedro como a mulher sombria que está ao lado dele.

Depreendo que seja a Mãe da Maria Rosa, acho que nunca a vi, nem mesmo uma foto, noto que a minha Mãe está igualmente surpreendida.

Imagina tu, murmura a minha prima, quis ver, até lhe perguntei se era para me arrancar do avião no último momento. Ela deu-me um sermão, queixou-se ao Pai e ele não foi nada agradável quando falou comigo.

E isso surpreendeu-te? interrompo, se eu dissesse isso aos meus Pais, ficava sem mesada durante um mês! Os Pais são liberais até certo ponto!

Credo! exclama a Maria Rosa, acho que o Pai nunca me fez isso, controla as minhas despesas é certo, mas nunca me cortou a mesada!

Sorrio, não digo mais nada, entretanto, o Pai sugere irmos até à cafetaria, ainda falta meia hora até terem que fazer o check-in e subimos até ao 1º Andar.

Os homens vão para a fila do self-service e nós procuramos uma mesa, as nossas Mães conversam delicadamente.

A família vai estar no aeroporto à nossa espera, comenta a Maria Rosa, sabias disso? Só li ontem o mail deles, fiquei deveras surpreendida.

Também me enviaram esse mail e até respondi... sinal de boa educação, cordialidade, acrescento, mas a minha prima encolhe os ombros.

Bolas, vou ter problemas contigo, tenho a certeza disso!

CONTINUA

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

O ESTÁGIO PARTE III

 

Já passou uma hora e a Maria Rosa ainda não chegou, começo a ficar desesperada...

Já sei mais ou menos o que vou comprar, até pedi para guardar, pois quero que a minha prima veja, explico e volto a sentar-me num banco perto da porta principal.

Estou quase a desistir, ir buscar as coisas, pagar e ir-me embora quando a Maria Rosa irrompe esbaforida, atravessa o átrio, desculpa, desculpa, pede, mas a minha Mãe fez-me uma cena. Tive que pedir ajuda ao Pai, porque ela não me deixava desligar...

Ainda por causa do estágio? interrompo, pensei que estava tudo resolvido, também eu, admite a Maria Rosa, mas a Mãe continua a ver fantasmas.

Nem parece uma psicóloga, respondo, mas há pessoas que só vêem o lado negativo da situação, repito a explicação da minha Mãe.

A minha prima suspira, a minha Mãe sempre foi uma exagerada, acho que o Pai pensa isso, comenta, embora seja muito correcto quando fala dela comigo. Mas eu sinto, sabes?... mas deixa lá isso, vamos comprar coisas?

Levo-a até à loja onde tenho a roupa guardada, a Maria Rosa gosta, pergunta se tem noutras cores, para não parecermos manas! e ri-se.

Ainda não percebi, diz quando saímos da loja, porque é que temos que levar isto tudo, vamos começar o estágio em Agosto, estamos no Verão!

Mas regressamos em meados de Novembro, observo, e a não ser que haja uma onda de calor inesperada, começa a ficar frio em Setembro! Por isso, já estamos prevenidas, claro se precisarmos de meias mais grossas ou outra coisa parecida, podemos comprar lá, mas levamos o essencial, friso.

Espero que aquela gente saiba como se divertir, desabafa a Maria Rosa, para dramas, já basta a minha Mãe e a Clarinha!

Não vamos falar sobre a Clarinha, atalho, isso não nos diz respeito, mas temos direito a uma opinião, insiste a Maria Rosa.

Não digo que não, mas não me sinto à vontade para falar num assunto tão delicado, tento desviar a conversa para outros temas, a Maria Rosa encolhe os ombros.

O que é que vamos agora fazer? Jantamos qualquer coisa e depois vamos para casa? sugiro, até podes ficar na minha casa, os meus Pais não se importam.

A Maria Rosa concorda, fala pelos cotovelos, mas não lhe presto muita atenção, penso em como somos diferentes.

Também me quero divertir, mas o principal é concentrar-me no estágio, no que vou aprender, o que poderei fazer no futuro.

Acho que a minha prima só aceitou o estágio para ter alguma coisa para fazer.

CONTINUA


quarta-feira, 23 de novembro de 2022

O ESTÁGIO PARTE II

 

A Maria Rosa telefona-me nessa noite, ah, Francisca, estou tão excitada, confessa, mal posso esperar por começar o estágio... Estou a fazer uma lista do que tenho que comprar...

Lá também há lojas, interrompo, escusas de ir muito carregada! Leva mas é um bom anorak, luvas quentinhas e botas forradas. Foi um conselho que a minha Mãe me deu.

Pois, a tia Rita viajou por este Mundo e o outro, diz a Maria Rosa, nem sabes a sorte que tens, a tua Mãe é uma pessoa acessível....Já a minha...

O facto de ser acessível não quer dizer que não se preocupe, aviso, fez questão de saber tudo o que podia sobre a empresa onde vamos estagiar e mesmo sobre a família onde vamos ficar. Tenho uma lista de coisas a cumprir...não penses que não me vai controlar...só que aborda a questão de uma outra maneira!

A minha prima suspira, mas mesmo assim, persiste, a minha Mãe podia ser um pouco mais aberta! Aquele marido não é boa influência... aquela mania de controlar tudo e todos!

Fico calada, não sei bem o que dizer, não conheço bem a Mãe dela, se a vi uma ou duas vezes, foi muito.

Acho que ninguém da família a conhece bem, ela e o Tio Pedro estiveram pouco tempo juntos.

O que dizes de irmos no sábado ao centro comercial? sugiro, vemos as modas, a Mãe acha que devemos levar um presente para a família.

Para cada um? pergunta a Maria Rosa, não, não, um presente para todos, respondo, talvez um produto típico da nossa terra? 

Ok, vemos isso quando estivermos lá, a que horas? e combinamos todos os detalhes.

A minha Mãe dá sugestões interessantes para o presente, empresta-me o cartão, estipula uma quantia para eu gastar, estou a confiar em ti! avisa e eu sorrio.

Nunca ultrapassei os limites que me impuseram, a nossa relação baseia -se na confiança mutua.

No dia marcado, sou a primeira a chegar, a Maria Rosa manda-me um SMS, está atrasada e por isso, entro na H&M para ver os anoraks.

Não me agrada nada, saio e olho para o relógio, vá lá, Maria Rosa, onde é que tu estás?

CONTINUA


terça-feira, 22 de novembro de 2022

O ESTÁGIO

 

Foi um escândalo, bem não diria que foi um escândalo, mas os nossos Pais não aceitaram bem a ideia de eu e a Maria Rosa fazermos um estágio no estrangeiro.

Por sorte, as empresas que nos ofereceram o estágio, eu para design de mobiliário e a Maria Rosa para jóias, são na mesma cidade e podemos partilhar um quarto em casa de uma família.

A Mãe da Maria Rosa foi tão agressiva que se o Tio Pedro interviesse, acho que a Maria Rosa tinha fugido.

Os meus Pais extravagantes quiseram analisar a proposta feita pela empresa, fizeram umas perguntas discretas a clientes que trabalham para aquele mercado e até escreveram à família, apresentando-se.

Não achas que foi um exagero? Escreverem à família, quero dizer, pergunto à Tia Teresa, não, concordo em absoluto, a família fica a saber que não estás sozinha no Mundo...

Achas que me iam raptar para ser escrava sexual? interrompo e a Tia Teresa fica muito séria, não digas isso a brincar! Infelizmente, isso acontece mais vezes do que pensamos e esta família já passou por momentos complicados.

Está a pensar na Matilde e na Clarinha que se recusa a voltar para casa, encontrei o lugar certo para estar, justifica-se.

E o teu filho? E o teu marido? questionam, mas a Clarinha não quer discutir o assunto, eu organizo isso com o Mateus!

Só que o Mateus não aceita a ideia de ser marido em part-time e trata de imediato do divórcio, pedindo a custódia total do filho.

O Tio Bernardo exige que a Clarinha regresse, sê honesta, senta-te na mesma sala que o Mateus e discutam o assunto frontalmente, diz, pelo menos, isso.

A Clarinha regressa contrariada, aceita todas as exigências do Mateus para grande desespero dos tios que temem perder o contacto com o neto.

Posta a questão dessa maneira, compreendo, admito, mas é só durante o Verão e é bom para o meu CV!

A Tia Teresa sorri, tens a certeza de que é isso que queres? insiste, design de mobiliário? Sempre pensei que seguisses os passos dos teus Pais e fizesses carreira na publicidade.

Sorrio também, não, gosto de trabalhar com as mãos, quero compreender todo o processo desde escolher a madeira até ir para a loja.

CONTINUA


domingo, 20 de novembro de 2022

O DIÁRIO DO BÉBE FIM

 

Tentar saber se a minha Mãe ficou numa dessas cidades revela-se um processo moroso, o Pais não tem representação diplomática, explica o tio Gustavo, temos que pedir ajuda às ONG que estejam a trabalhar no local.

Celebro o meu aniversário, há balões, palhaços e um bolo enorme, mudo de sala no infantário e torno-me num perito em desenhos abstractos.

O meu Pai está irritável, aprendo-me a não cruzar o caminho dele quando está muito calado, muito sério, as Avós estão preocupadas, gostava que esta história se resolvesse o mais rápido possível, desabafa a Avó Dalena com a Avó São.

Também eu, confessa a Avó São, não só por causa do meu filho, mas também por si, a Madalena está a sofrer imenso. 

A Avó Dalena suspira, o que é que aquela maluca da minha filha está? Onde é que eu falhei? repete mentalmente, mas não se atreve a dizer isso alto, lê censura nos olhos da outra Avó, ou será imaginação sua?

Nessa noite, sente-se mal, o Inspector leva-a para as Urgências, tem que ficar em observação, dão um nome muito estranho " burnout".

Mais uma palavra para a lista, penso enquanto escuto a tia Matilde explicar à tia Rita que tem que convencer a Mãe a ir passar uns dias fora, ela precisa de estar longe disto.

Estar fora não a vai impedir de pensar nisto tudo, frisa a tia, mas concordo contigo. Até sei o local ideal, vou falar com o Telmo... E quanto a ti, diz, olha-me muito séria, tu não vais com eles! 

Fico indignado, tal não me passou a cabeça e deito-lhes a língua de fora, elas riem-se.

Os Avôs estão fora uma semana, umas vezes fico em casa da Avó São, outras em casa da tia Matilde, mas adoro quando é a Francisca que me vai buscar para fazer uma " corrida de loucos" como ela lhe chama.

Quem não adora andar a alta velocidade pelo parque, evitar o pessoal que anda por lá, ouvir as exclamações furiosas quando a Francisca não vira o carrinho a tempo?

É num desses dias, estamos os dois vermelhos do esforço, mas extremamente felizes, que encontramos a família novamente reunida na sala.

Estão todos tão sérios que a Francisca tem medo de perguntar o que se passa, a Mãe faz-lhe sinal para ir para o quarto comigo.

Mas o que é que aconteceu? Já sabemos onde está a Clarinha, responde a Mãe, depois conto-te tudo e a Francisca obedece.

Contudo, ainda ouvimos o tio Gustavo dizer, quando a vir à minha frente, é melhor alguém segurar-me, porque não respondo por mim!

O que é que ele quis dizer com aquilo? Onde é que a minha Mãe esteve afinal?

A Francisca lança-me a bola, mas alguém deixou a porta do armário aberta e acho muito mais interessante tirar tudo cá para fora.

Esqueço a minha Mãe, afinal, tenho uma vida sem ela.... 

FIM