segunda-feira, 30 de novembro de 2020

O ESTÁGIO - PARTE IV


O Gustavo chega a casa a meio da manhã; é o fim de semana de folga da Mãe, por isso está em casa.

O filho nota que ela está mais magra, mais pálida e fica preocupado com a tristeza que lê no olhar.

Apenas pergunta, onde está a Clarinha? e entra no quarto.

O quarto está todo desarrumado, com livros e roupas espalhados pelo chão; a Clarinha recusa-se a fazer a cama, a tomar banho e a vestir-se.

Que vergonha! diz o Gustavo e apressa-se a abrir a janela.

A Clarinha fica calada e depois tenta abraça-lo, mas o irmão esquiva-se.

Tomara tantos meninos terem uma casa como esta, roupa limpa no armário e uns Pais tão carinhosos, continua e tu estás a comportar-te como uma selvagem.

Não sou nada uma selvagem, grita a Clarinha, mas eles não são os meus Pais!

Que ingrata! responde o Gustavo, claro que são teus Pais! São os únicos Pais que tens...trouxeram-te bebé para casa, cuidaram de ti como se fosses um de nós e és um de nós!

Mas a Clarinha cerra os lábios e não diz mais nada.

O Gustava fala mais uns minutos, começa a perder a paciência e dá-lhe um açoite.

A Clarinha responde com um pontapé, acerta na canela e o Gustavo tem vontade de a abanar fortemente.

Gustavo, já chega, o Inspector Bernardes intervém, Maria Clara, quero este quarto arrumado de imediato, depois faz o favor de tomares um banho e vestires. Vais almoçar com a família, quer queiras ou não, entendido?

A Clarinha continua de lábios cerrados, mas não se atreve a desobedecer. 

Ainda bem que obedeceu, comenta o Gustavo, mas o Pai não concorda, porque a Clarinha tem que obedecer à Mãe também e não a podemos tratar como se fosse um recruta, acrescenta.

A Mãe parece mais calma e a Matilde está muito séria, o que não é normal nela.

Os quatros sentam-se na sala, a discutir alternativas para corrigir o comportamento da Clarinha e ao fim de uma hora, por muito que lhes custe, decidem procurar ajuda especializada.

O Inspector pode perguntar no Departamento, já trabalharam com alguns psicólogos especialistas em traumas infantis, a Madalena pode conversar com as professoras.

O telemóvel do Gustavo toca entretanto, ele estranha ver o nome da colega de estágio, Catarina no écran e atende.


CONTINUA

domingo, 29 de novembro de 2020

O ESTÁGIO - PARTE III

 

Os rapazes mudam-se no mês seguinte e tanto a Aída como a Madalena tentam ser fortes perante os outros, mas estão muito preocupadas.

Se acontece alguma? e depois repreendem-se, eles são adultos, têm que se defender, que resolver as situações.

E o pior de tudo é que os rapazes pedem para só lhe telefonarem uma vez por semana; por vontade delas, telefonavam todos os dias e a todas as horas.

A Clarinha volta a fugir, são horas de aflição para a Madalena e para a Matilde.

Felizmente, a Clarinha está no parque perto da antiga casa deles, um agente da polícia encontra-a e avisa a central.

O Inspector Bernardes leva-a para casa, é acolhida com reprimendas, abraços, mas a Clarinha não se mostra arrependida e quando lhe dizem que está de castigo, só sai de casa para ir para a escola, responde " Com muito gosto".

A Matilde fica furiosa e só não lhe bate porque os Pais a impedem. Acham que um castigo físico não vai resolver nada; têm que encontrar outra solução.

" Que outra solução? Aquela miúda não escuta nada nem ninguém!" desabafa com o Gustavo naquela noite.

" Não sei o que dizer, Matilde. Teria a mesma reacção se a ouvisse dizer isso! " o Gustavo suspira, decide telefonar à Mãe, consolá-la.

A Madalena está muito abatida, não sei mesmo o que fazer, confessa ao filho, ainda bem que o teu Pai é polícia, porque nem te posso descrever a aflição.

O problema é que ela vai voltar a fugir, diz o Gustavo e não sei como podemos impedir isso. Só se o Pai pedir que coloquem um polícia à porta da escola.

A patrulha da " Escola Segura" vigia a escola, explica a Madalena, ela aproveitou uma aberta.

Quando desliga, o Gustavo anuncia ao Bernardo que vai a casa naquele fim de semana.

O Bernardo diz que não vai, a D. Aída tem que aprender a viver sem mim, esclarece e o Gustava ri-se, o que tu queres é sair com a Catarina.


CONTINUA

sábado, 28 de novembro de 2020

O ESTÁGIO - PARTE II

 

A Madalena também não está a aceitar a notícia da forma airosa como o Gustavo esperava.

Este tinha convocado o Pai para a reunião, talvez a Mãe não tenha um ataque se lá estiveres, explica e o Inspector Bernardes suspira e diz ao filho que este tipo de assunto devia ser discutido em família, não apresentar o caso resolvido.

Oh, pai, já não sou um adolescente irresponsável, protesta o Gustavo, pois não, concorda o Pai, mas seria melhor, demonstrava uma certa consideração para com a tua Mãe, em especial.

Quando vê a Mãe triste e abatida, o Gustavo compreende o que o Pai quer dizer. 

Naqueles meses difíceis após o divórcio, a Mãe precisou de apoio e o Gustavo assumiu o papel de " salvador da Pátria" como diz; claro que todos terão que se adaptar à nova realidade, mas a Mãe vai perder o braço direito dela.

O Gustavo suspira, pede desculpa e abraça a Mãe.

A Clarinha pergunta se não pode ir com ele, oh, catraia, achas que vou ter tempo para te aturar? responde o irmão, vais ficar aqui e ajudar a Mãe.

Se eu souber que estás a ser má para ela, acrescenta, venho cá de propósito para te dar um correctivo.

A Clarinha ri e foge para o quarto. Está a ser difícil lidar com ela, é desobediente, desconfiada, agressiva.

Porque é que as pessoas não se calam? Porque é que lhe foram dizer que era adoptada? o Gustavo desabafa com a Rita, mas esta não lhe sabe responder.

Já levantou essa questão vezes sem conta e não chegou a uma conclusão satisfatória.

A Madalena também quer ver onde é que ele vai trabalhar, a casa onde vai ficar, espero que seja perto de um supermercado, que haja um Hospital perto e todos riem-se.

Por questões de trabalho, o Inspector Bernardes não pode ir, mas a Aída, o Bruno e a Madalena acompanham os filhos numa viagem de " reconhecimento".

O Gustavo e o Bernardo decidem levar já parte das coisas que vão precisar, a empresa já lhes entregou as chaves.


CONTINUA

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

O ESTÁGIO

 

O Bernardo está diferente, queixa-se a Aida ao Bruno, está distante, pouco fala e quando lhe pergunto se aconteceu alguma coisa, encolhe os ombros e não responde.

Está apaixonado, sugere o Bruno, deixa-o resolver o assunto; se precisar de conselhos, sabe que pode contar connosco.

Mas a Aída está inquieta, sente que o filho está perturbado com qualquer coisa e tem quase a certeza de que não está relacionado com qualquer relação.

Tenho que perguntar ao Major, se aconteceu alguma coisa, ele desabafou com o Major.

Mas o Amadeu também não sabe de nada; ok, posso tentar conversar com ele, mas não prometo nada.

O Bernardo conta ao Major o que se passa, mas pede-lhe para não contar à Mãe. 

Quer ser ele a dizer, mas não é ainda o momento oportuno; aguarda confirmação de certos detalhes.

Não sei como a Aida vai encarar isto, confessa o Major à Glória nessa noite.

A Aída sabe que um dia ele vai sair, talvez saia mais cedo do que ela está a pensar, como sempre, a Glória é prática e o Major concorda com ele.

Nessa mesma noite, ao jantar, o Bernardo anuncia à Mãe e ao Bruno que recebeu uma proposta para um estágio remunerado, frisa e que vai aceitar.

O único senão é que terá que ir para uma outra cidade e estará fora por seis meses.

Já falou com o Pai, este está pronto para ajudar.

Mas, e o alojamento? Onde vais ficar? Ajudam com a renda e as outras despesas? questiona a Aída.

Sim, a empresa tem uma casa onde os estagiários podem ficar, explica o Bernardo e a Aída desata a chorar e não sabe bem porquê.

Oh, Mãe, sabes que isto ia acontecer um dia, não te preocupes, que o Gustavo também vai. Não vou ficar totalmente sozinho, no meio de estranhos, e o Bernardo abraça-a.

Isto vai ajudá-lo na vida profissional, acrescenta o Bruno e, sabes como o Bernardo é desembaraçado.

Vou com ele, quero a casa, se está perto de um supermercado, de uma farmácia, decide a Aída e os dois homens riem-se.


CONTINUA


quinta-feira, 26 de novembro de 2020

OS AMANTES - FIM

 

O Nicolau anota o numero de telemóvel do estudante de mestrado e o Major pergunta se não será uma boa ideia o Trovador voltar para Portugal.

O Reino está diferente, tem um novo rei, talvez mais ambicioso, mas a mulher dele morre no parto, explica o Major, ele pode deixar o bebé com a família dela.

Ou conhecer um Duque importante, acrescenta a Rita, e a filha ser criada com os filhos do Duque.

O Nicolau ri suavemente, será que nunca explode, pensa a Sofia e responde, obrigada, são sugestões interessantes que vou ter em conta, mas tenho que explorar várias questões antes de me sentar a escrever.

A Mariana já adormeceu, os filhos da Teresa e do António também, dão o jantar como terminado.

A Sofia gostava de continuar a discutir os possíveis enredos do livro, mas o Nicolau, alegando que está muito cansado, deixa-a em casa.

Fica surpreendida, um pouco magoada por não ficar em casa dele, desabafa com a irmã, mas a Benedita aconselha-a a não ser " pateta", deixa o homem respirar.

A Sofia tenta telefonar ao Nicolau nessa tarde, mas vai direito para o VoiceMail, por isso, resolve passar por casa dele ao fim da tarde.

É a governanta que lhe abre a porta, hoje troquei e vim de tarde, esclarece e diz que o Nicolau está no escritório com um senhor.

A Sofia vai perguntar que senhor?, mas a porta do escritório abre-se.

O Nicolau está acompanhado por um senhor alto, elegante, com olhos brilhantes que a fita curioso.

" Ah, minha querida, já chegaste. Este é o Senhor Manuel Marques, vai traduzir os meus livros para inglês, a minha editora concluiu um acordo com uma editora inglesa. Por isso, eu e o Senhor Marques estivemos a discutir detalhes!" esclarece.

O tradutor aperta-lhe a mão, sorri e diz baixinho, muito gosto e sem saber bem porquê, a Sofia cora e balbucia um cumprimento.

Sente o coração acelerado que tenta disfarçar com um sorriso, mas o Nicolau percebe a atrapalhação e dirá mais tarde ao Major que foi aí que teve a certeza de que o affair com a Sofia tinha terminado.

Afinal, o que é que eu esperava? Sou um velho de setenta anos e ela tem quarenta e dois.

FIM

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

OS AMANTES - PARTE IV

 

" Não tiveste filhos, porquê?" pergunta a Sofia e percebe imediatamente que cometeu um " faux-pas".

O Nicolau torna-se mais sério, mais distante e a Sofia procura desesperadamente uma forma de desanuviar a tensão.

Lembra-se então da reunião com a editora: esta quer que o Nicolau escreva um novo livro da série do Trovador e o Nicolau quer tentar uma coisa nova.

" Porque não escreves sobre eles?" sugere e o Nicolau olha-a espantado.

" Sobre quem? " 

" Sobre os filhos do António e do Major.... não, não estou a sugerir um livro de crianças. Podes continuar a escrever sobre o Trovador e as aventuras dele no século XV, mas, em paralelo, podes escrever sobre um dos seus descendentes neste século." explica a Sofia triunfante.

O Nicolau fica calado por uns minutos e depois aperta-lhe a mão.

" É uma ideia interessante. Terei que fazer uma certa pesquisa, mas a Glória pode ajudar-me nisso...Obrigada, minha querida." e dá-lhe um beijo que a Sofia retribui com paixão.

Nas semanas seguintes, estão os dois tão ocupados que quase nem se vêem.

Apenas o ultimato do Major, a Mariana faz um ano e têm que estar presentes, diz, os faz reorganizar a agenda.

A Glória está feliz e a Mariana estende os braços para os embrulhos que as pessoas trazem.

Em breve, o chão está cheio de papeis e brinquedos que a Sofia e o Gonçalo, os filhos da Teresa e do António, começam a disputar com a aniversariante.

Há gritos e choros, mas o Miguel, o sobrinho da Teresa, encarrega-se de impor a ordem e os adultos voltam rapidamente para as conversas.

Contrariamente ao que está habituado, não há grupos, a conversa é geral e flui naturalmente.

A Teresa está a pensar em abrir uma outra loja, mas o António diz que gerir as duas que tem já lhe ocupa muito tempo.

A Rita e o Gonçalo estão a planear uma viagem de negócios a França e dali, seguem para a Tailândia.

E o Nicolau? pergunta a certa altura o Bernardo, vai escrever um outro livro? Deixa muita coisa em aberto no final do último, estou curioso.

Bem, meu caro amigo, vais ter que esperar algum tempo, porque ainda nem comecei a pesquisa, esclarece o Nicolau.

Ah, por falar nisso, interrompe a Glória, sei de alguém que o pode ajudar nisso.


CONTINUA



terça-feira, 24 de novembro de 2020

OS AMANTES - PARTE III

 

A Rita não sabe, o Nicolau sempre evitou esse tipo de perguntas, admite, só falou abertamente sobre a profissão e a Glória diz que era um professor brilhante, muito querido dos alunos.

Bem, se foi casado, responde o Gonçalo, foi com alguém que tinha um péssimo gosto, nenhuma mulher de bom senso deixaria o marido andar com aqueles camisas horrorosas.

A Rita ri, não tenho que me preocupar contigo, pois tu és o mestre da elegância e bom gosto e o Gonçalo convida-a para jantar fora com a promessa de uma surpresa mais tarde, no quarto, acrescenta.

Entretanto, a Sofia aceitou o convite do Nicolau para jantar. 

Como está bom tempo, decidem jantar no jardim. O jantar é muito simples: sopa, uma quiche e uma salada de frutas.

Como muito pouco ao jantar, desculpa-se o Nicolau, mas a Sofia abana a cabeça, está perfeito, declara.

Não sabia que havia aqui um jardim, gosto. Flui com a casa, explica, sempre viveste aqui?

Não, vivi perto da Universidade nos primeiros anos da carreira, depois, mudamos-nos para cá há cerca de quinze, vinte anos, esclarece o Nicolau, a minha mulher morreu pouco depois.

A Sofia fica em silêncio, não o quer interromper, mas o Nicolau desvia a conversa e pergunta-lhe se não quer dar uma volta pelo jardim.

O jardim está muito bem cuidado, o Nicolau diz que é o marido da governanta que trata dele, ele gosta de ler aqui ao fim da tarde no Verão.

Voltam para casa, sentam-se no escritório/biblioteca, a Sofia aprecia os sofás em couro, as estantes.

" Então, é aqui que as obras nascem'?" pergunta e o Nicolau ri.

" Este é realmente o meu refúgio, embora o Major e o António já tenham estado aqui a tomar uma bebida."

" São muito teus amigos, preocupam-se imenso contigo!" replica a Sofia.

" Os filhos deles tratam-me como se fosse avô deles!" confidencia o Nicolau.


CONTINUA


segunda-feira, 23 de novembro de 2020

OS AMANTES - PARTE II

 

" Tenho uma senhora que vem todos os dias limpar-me a casa, faz-me as compras e o almoço se estiver em casa. Também me deixa sopa, fruta para o jantar." explica o Nicolau " E, depois aprendi a trabalhar com isto." aponta para a máquina de lavar a loiça.

A Sofia sorri, bebem o chá sossegados, a conversar sobre banalidades e não sobre o que aconteceu entre eles.

A Sofia decide ir para casa, tenho um dia ocupado amanhã, desculpa-se, mas o Nicolau compreende perfeitamente.

Tenho uma reunião com a editora, ah, um novo livro? pergunta a Sofia e o Nicolau volta a sorrir, ai, como estou apaixonada por este sorriso, pensa a Sofia.

Talvez, minha querida, ainda não decidi nada, responde o Nicolau.

Despedem-se no jardim, telefono-te à hora de almoço, prometem e a Sofia volta para casa.

O dia seguinte é muito atribulado, só consegue cinco minutos para falar com o Nicolau.

A reunião com a editora não está a correr bem, confessa-lhe, mas depois falamos sobre isso.

Ao fim da tarde, o Nicolau regressa a casa, está exausto, nem quer pensar no que foi discutido na reunião, talvez amanhã.

O Major telefona-lhe nessa altura, quer saber como correu o encontro.

Com a editora? o Nicolau faz-se desentendido, não, com a Sofia, insiste o Major.

Meu caro Major, diz o Nicolau diplomaticamente, nunca me intrometi na sua relação com a Glória e o Major fica um pouco atrapalhado.

A Glória dá-lhe um safanão quando sabe, deixa o homem viver a vida dele, fico muito contente em saber que ele e a Sofia se estão a dar bem.

A verdade é que todos os membros do Clube querem saber mais sobre a relação deles, mas o Nicolau repete diplomaticamente que é muito cedo para falar sobre o assunto.

" Espero que resulte!" confessa a Rita ao Gonçalo " O Nicolau parece estar feliz... quando o conheci, estava tão sozinho."

" Afinal, ele é viúvo, divorciado ou quê? " questiona o Gonçalo.

CONTINUA

domingo, 22 de novembro de 2020

OS AMANTES


" Meu caro Nicolau, ou convida a Sofia para almoçar connosco..." e o Major faz uma pausa tão longa que faz com que a Glória, o Nicolau e até a Mariana que não percebe nada o olhem desconfiados " ou eu assalto a sua casa e roubo as suas boinas."

A gargalhada é geral e o Nicolau sorri.

" Ok, eu convido a Sofia. Tenho que admitir que é uma boa companheira, amiga..."

" Ah. não vai dizer que é velho demais para ela. Já conversou com ela sobre o assunto? Não?... Então, não tem a certeza de nada." interrompe a Glória.

Em casa da Sofia, a Benedita tenta explicar à irmã porque não concorda com a relação com o Nicolau.

" É mais velho do que tu! Ok, têm os livros em comum, mas é só isso!"

" Temos muita coisa em comum, não são só os livros!" comenta a Sofia " E, não estamos apaixonados nem a pensar em nos envolver... Somos amigos e está a ser muito bom para mim. Apresentou-me aos amigos do Clube, adoro a loja da Teresa... Estás a pôr o carro à frente dos bois... a pensar numa coisa que nunca vai acontecer."

Umas horas mais tarde, está a pensar no que dirá a Benedita quando souber.

Que o Nicolau é um amante perfeito, que foi delicado, carinhoso e que a fez gritar de prazer como nunca aconteceu com o André?

A Sofia cora no escuridão do quarto, um quarto que a surpreendeu pela decoração elegante.

Aliás, toda a casa é elegante, a Sofia veste um roupão do Nicolau e resolve explorá-la enquanto o professor dorme.

A cozinha em tons de branco e azul surpreende, a sala de estar em dois tons de cinzento também.

Hesita em frente do escritório, talvez o Nicolau não goste que se entre, mas este acordou entretanto, desceu as escadas e abre-lhe a porta.

" Quer beber alguma coisa, minha querida? " e dá-lhe um beijo na nuca.

" É uma boa ideia, mas não quero nada com álcool." responde a Sofia e o Nicolau oferece chá, leite, café.

A Sofia aceita o chá, podemos ficar na cozinha, sugere e segue-o.

O Nicolau acende a luz, a cozinha está impecável, parece que ninguém a use.

" Pensava que eu era um solteirão desorganizado?" pergunta amavelmente o Nicolau.

CONTINUA

sábado, 21 de novembro de 2020

O DILEMA DA SOFIA - FIM

 

É durante a viagem que o Nicolau me fala da casa que comprou perto de uns amigos numa pequena aldeia, pensei que ia passar lá mais tempo e dedicar-me à agricultura biológica, mas decidi-me pela escrita, ri-se.

Eu rio também; o Nicolau tem sentido de humor e não sei explicar porquê, faz com que me sinta segura.

Na casa, há só o letreiro de vendida, do André nem sinal. Telefono à imobiliária, também não têm notícias dele e ainda bem que telefonou, dizem, tiramos as mobílias da casa, os novos donos não as querem e não sabemos o que fazer.

Fico com os dados do armazém onde estão, prometo tratar do assunto e o Nicolau pergunta-me se há um restaurante ali perto.

Corremos o risco de encontrar os amigos do André, comento, mas o Nicolau encolhe os ombros, o que podem eles dizer? E tanta preocupação para quê? Eles não tomaram partido?

No restaurante, estão dois desses casais, mas tal como o Nicolau previu, cumprimentam-me um pouco forçadamente e voltam rapidamente à comida que está em cima da mesa.

Escolhemos uma mesa perto da janela, não foi assim tão difícil, pois não? observa o Nicolau e desfrutamos de uma boa refeição.

Antes de regressarmos, vamos até ao armazém ver o que lá está e eu escolho algumas coisas para o meu novo apartamento, o resto é para vender, acrescento.

Estou descontraída, posso mesmo dizer feliz quando deixo o Nicolau em casa.

Vou jantar a casa da minha irmã, explico quando declino o convite para entrar e tomar uma bebida.

Nada me prepara para o que o meu cunhado tem para me dizer, o sorriso feliz desaparece de imediato.

O André desviou dinheiro da empresa, foi descoberto, mas antes que tomassem alguma providência contra ele, fugiu.

Para onde, não sabemos, esclarece o Manuel, mas estamos a fazer tudo para o descobrir.

Lamento, Sofia, ficaste com o dinheiro da outra casa, não perdeste tudo, a Benedita tenta consolar-me, mas eu sinto-me traída.

Como é que foi possível ter estado casada tantos anos com alguém e afinal não saber nada sobre ele?


FIM

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

O DILEMA DA SOFIA - PARTE IV

 

A Benedita e o Manuel estão à minha espero no aeroporto, o Manuel diz que o André concordou com a tua proposta e a reunião com o notário é dali a dois dias.

Eu estarei presente, acrescenta e eu aceno que sim.

Estou muito cansada, tenho uma série de relatórios para apresentar à Administração, mas estou a horas no notário.

O André chega um pouco tarde, nota-se que está agitado, há um certo desleixo na apresentação, o que me surpreende, pois foi sempre vaidoso.

Assinamos os documentos em silêncio, o dinheiro deverá ser transferido para a conta até ao final da semana.

Depois, eu faço a transferência para a tua, diz o André e despede-se rapidamente.

Suspiro de alívio, esta etapa está resolvida, ele que viva a vida dele como quer, confesso ao Nicolau quando me encontro com ele para jantar.

" Não vai ter saudades dele?" e eu olho-o um pouco confusa.

" Nestes últimos anos, estávamos tão distantes, tanto física como emocionalmente que acho que não lhe vou sentir a falta. Principalmente, agora que tenho novos amigos." e rimos.

Tenho tanto trabalho para concluir, a Benedita faz anos no fim de semana e vai dar uma festa que nem me lembro da transferência.

Só na semana seguinte é que faço consulta de movimentos e não vejo qualquer transferência.

Contacto o Manuel, este diz que o notário assegurou que a transferência foi feita na data prevista e eu tento localizar o André.

O telemóvel está desligado, por isso, ligo para a empresa.

Fico bastante surpreendida quando me dizem que o Sr André Barros já não faz parte do quadro da empresa.

Tento ligar para a minha sogra, mas esta também não sabe nada do filho. Se está a mentir ou não, não consigo perceber.

Resolvo ir até à casa da serra, pode lá estar por alguma razão e o Nicolau oferece-se para ir comigo.

CONTINUA 

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

O DILEMA DA SOFIA - PARTE III

 

" E esqueceu?" pergunta-me o Nicolau nessa noite.

É o último dia que passamos em Frankfurt, por isso, decidimos explorar a cidade durante a tarde e jantar no hotel.

À chegada, descobrimos que nos reservaram quartos no mesmo hotel e foi fácil manter o contacto.

" Não posso!" respondo " Estamos a discutir a venda da casa da serra, se quiser ficar com ela, tem que me dar a minha parte, mas ainda não chegamos a acordo. O meu cunhado está a tratar disso, diz que o André tem sido irracional."

" Compreendo." diz o Nicolau " A mulher com quem ele está agora, sabe quem é?"

" Sim, sim. Uma amiga de um casal amigo. Não a conhecia bem, mas ao que parece, trabalham na mesma área e foi fácil avançarem para uma relação." explico e o Nicolau aperta-me a mão amigavelmente.

" Não deve ter sido nada fácil!" concorda.

" Não era minha amiga; por isso, nem raiva sinto. Quanto ao André, está a ser mais complicado; foi muito frio, muito arrogante...  De repente, fiquei sem casa, sem amigos, pois muitos ficaram do lado dele e tive que refazer muita coisa. Principalmente, os fins de semana, porque passava-os sempre fora de casa." suspiro.

" Daí o Clube?... Foi um pouco como eu... Reformei, fiquei com muito tempo livre e inscrever-me naquele Clube foi a melhor coisa que me podia acontecer.!" confirma o Nicolau.

" Até escrever os livros?" e o meu amigo volta a sorrir. Tem um sorriso agradável, faz-me sentir confortável, segura.

" Até escrever livros. Somos uma família. Janto muitas vezes com o António e o Major depois das sessões no Clube e quando há uma festa, nunca se esquecem de me convidar. E, como é  no seu Clube?" quer saber o Nicolau.

" Não somos assim tão íntimos. Talvez por causa do Eduardo, que contestava tudo. O Bruno tentava gerir a situação com uma certa diplomacia, mas nem sempre conseguia. Sem o Eduardo, as coisas estão diferentes, as três senhoras já falam mais, discutimos mais o livro e o autor, não perdemos tanto tempo com a política." esclareço.

Acabamos a noite no bar, a trocar impressões sobre os livros do Nicolau que rejeita para já escrever um novo.

No entanto, fico com a impressão de que está a pensar nisso.


CONTINUA

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

O DILEMA DE SOFIA - PARTE II

 

Não sei responder, há muito que não falamos e tenho muita coisa em que pensar quando chego a casa.

O André já lá está e pergunta-me de chofre de quanto tempo preciso para sair de casa.

O quê? Sair de casa porquê? e o André continua a falar, já não gosta de mim, conheceu outra pessoa, quer ir viver com ela e aqui nesta casa.

Não consigo respirar, quem, como, quando é o que quero saber, mas o meu cérebro só regista o facto dele querer ficar com a casa.

A casa? Mas eu também a estou a pagar, não saio daqui, tenho tanto direito como tu, grito, mas o André insiste, são pormenores que se podem discutir depois e repete quando é que podes sair?

Não saio, só saio quando a casa for vendida e o dinheiro dividido, afirmo.

O André fica exasperado, diz que não estou a compreender a situação, estou a ser irracional e eu volto a repetir que não saio de casa.

O André fecha-se no quarto de hospedes, eu fico na sala e telefono ao meu cunhado que é advogado.

Aconselha-me a ter calma, a manter-me firme na decisão que tomei e oferece-se para ser o mediador no caso.

Aparece lá em casa a meio da manhã seguinte, a Benedita queria vir, mas achei melhor que isto é um assunto para ser discutido apenas pelas partes, acrescenta.

O André não fica muito satisfeito quando o vê, mas aceita sentar-se à mesa e escutar a proposta que o Manuel tem para fazer.

Primeiro que tudo é preciso avaliar a casa, podem pedir isso a duas empresas diferentes, explica, depois, estipulam o valor e entregam a uma imobiliária.

Não seria mais simples tratarmos nós disso? pergunta o André, mas o Manuel abana a cabeça, é melhor assim, tu pediste-lhe para sair e isso não vai acontecer. Eu levo o caso a tribunal se for necessário.

O André parece ficar envergonhado, já deve ter percebido como foi injusto ou não, penso.

Se há uma coisa que o André continua a ser é arrogante; vai aceitar a ideia para não se ver arrastado pelos tribunais.

O André resolve sair, não sei se vai para o apartamento de querida amiga, quem será?

Alguém que passava os fins de semana connosco ou que conhecemos num dos hotéis? mas tanto a Mãe como a Benedita acham que o melhor a fazer é esquecer.


CONTINUA

terça-feira, 17 de novembro de 2020

O DILEMA DA SOFIA

 

A minha irmã Benedita disse que eu era uma tonta se casasse com o André, não confio nele e recusou-se a esclarecer a afirmação.

Mas eu estava apaixonada; o André era arrogante, ambicioso e eu adaptei-me, porque também eu queria sucesso na vida profissional.

" Olha que não é tudo na vida, Sofia!" avisou a Mãe, mas eu ignorei-a.

Passamos os dois primeiros anos a cimentar a nossa posição nas empresas que nos contrataram e um belo dia, achamos que tínhamos que descansar, longe de casa, da família, de tudo.

Foi o começo dos nossos fins de semana fora de casa, íamos sexta ao fim da tarde e regressávamos domingo à noite.

A família protestou, só estamos juntos nas datas festivas, dizem, mas isso pouco importa ao André.

Há sempre um grupo de amigos que nos acompanha, um casal resolve comprar uma casa na serra e o André acha isso uma óptima ideia.

Nunca estamos sozinhos, há sempre amigos a entrar e a sair, pois muitos compram casas perto e eu começo a ficar cansada.

Tenho saudades de acordar tarde, sentar-me no sofá enroscada no sofá a ver filmes, lanchar com a minha Mãe e as minhas irmãs, mas sobretudo, de fazer um programa a sós com o André.

Naquela semana, digo-lhe que estou cansada, estive a preparar um seminário, não quero passar o fim de semana fora.

O André encolhe os ombros, se é isso que queres e não fala mais no assunto.

Desaparece sem explicação no sábado de manhã, eu saio com a Benedita e vamos almoçar a casa da Mãe.

Que bom que é brincar com os meus sobrinhos, estar a apanhar Sol no jardim e ser mimada pela Mãe.

" Tinha saudades disto!" confesso e a Mãe olha-me curiosa.

" Vocês estão bem? Andam sempre numa roda-viva, têm tempo para estarem juntos? " pergunta-me.

Tenho que pensar um pouco antes de responder.

" Não sei!" digo lentamente " Estamos sempre rodeados de pessoas, almoços, jantares para dez, quinze pessoas. Para ser franca, há muito que não sei o que o André pensa ou quer."

" Isso não é saudável, Sofia. É bom conviver com outras pessoas, mas vocês têm que conversar, preservar a vossa intimidade." comenta a Mãe.

CONTINUA

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

O ENCONTRO ENTRE CLUBES - FIM

 

A Sofia e o Rodrigo acham um disparate terminar com o Clube, só porque " aquele arrogante deixou de vir" e as três senhoras fazem coro com eles.

" Gostamos do tema que estamos a explorar, mas será possível não falarmos tanto de política? " pergunta a D. Matilde.

" Sim, é importante enquadrarmos o livro na situação política da altura em que foi escrito, mas não é preciso debatermos isso até à exaustão!" corrobora a D. Mercedes.

" Concordo com o que a Matilde e a Mercedes dizem. Devo confessar que o Sr Eduardo era muito desagradável. Não me sentia muito à vontade com ele." diz a D.Cristina.

A ideia de se reunirem de dois em dois meses com o outro Clube é aplaudida e o Bruno suspira de alívio.

"Tenho que ser sincero, conta mais tarde à Aida " o Eduardo era muito arrogante e também eu não me sentia à vontade com ele."

O António comenta na sessão seguinte que a Sofia apareceu na loja, tomou chá com o Nicolau e levou uma série de produtos.

" Até se inscreveu para receber o cabaz mensal!" remata e a Aída sorri.

" Quem diria que o Clube foi o ponto de partida para tudo isso. A loja da Teresa, o livro do Nicolau, os workshops do Major." exclama.

Continuam com a discussão do livro do Nicolau, o Major surpreende-os com um Mapa ilustrando o percurso do trovador e insistem para que o Professor diga se está ou não a pensar numa nova aventura.

O Nicolau ri, quer descansar um pouco, tem várias palestras a preparar, a editora quer que ele participe numa Feira.

" Vá, vá." incentivam os outros " Pode ser que tenha uma ideia luminosa e regresse com uma nova história." insiste o Major.

O Nicolau volta a rir, está mais descontraído, é uma pena que continue a usar aquelas camisas de xadrez horrorosas, pensa a Rita.

A Feira é dali a uma semana, a editora prepara tudo e no dia da partida, o Nicolau chega bastante cedo ao aeroporto.

Como ainda tem que esperar, resolve instalar-se no café e surpresa, surpresa, a Sofia também está lá.

" Nicolau? Por aqui? Não me diga que vai viajar? Para onde?" a Sofia parece nervosa, faz as perguntas apressadamente.

" Para Frankfurt, para a Feira do Livro." e o Nicolau sorri, calmo.

" Eu também!" exclama a Sofia " Para um congresso de gestores bancários. Quantos dias lá fica? Em que hotel está?"

O Nicolau continua a sorrir, responde calmamente a todas as perguntas e tem a certeza de que a viagem a Frankfurt não vai ser nada aborrecida.


FIM

domingo, 15 de novembro de 2020

O ENCONTRO ENTRE CLUBES - PARTE VI

 

A Aída e o Bruno estão satisfeitos com o resultado do encontro e acham a ideia da Sofia muito interessante.

Ainda não sabem muito bem como organizar os Clubes, mas talvez o Nicolau possa ajudar, diz a Aída, afinal, foi graças a ele que eu consegui gerir as primeiras sessões.

Combinam falar com os respectivos Clubes na sessão seguinte e exposta a ideia, o Nicolau acede de imediato.

" Não há grande coisa a fazer, Aída." diz o Major " Basta escolher um dia, um livro..."

" Um encontro mensal ou de dois em dois meses, porque acho importante continuarmos a explorar os objectivos do nosso próprio Clube." interrompe a Rita.

" Absolutamente! É sempre bom trocar ideias com novas pessoas. Estamos a acabar o livro do Nicolau." confirma o António e continua " Porque não propor a leitura do segundo livro dele e reunirmo-nos no primeiro sábado de Janeiro?" 

" Porque é que tem que ser o meu livro?" protesta o Nicolau, mas todos lhe asseguram que será mais fácil.

" A Sofia vai ler os livros, Nicolau. Conhecer-te foi o ponto alto do encontro para ela." comenta o Major " Isto é para quebrar o gelo."

" Espero que aquele idiota do Eduardo não esteja presente!" desabafa a Rita.

" Não, não, o Bruno diz que ele abandonou o Clube. Diz que não sabe se vai ser possível continuar com o Clube, pois agora só estão a Sofia, o Rodrigo e aquelas senhoras que pouco falam." conta a Aída.

" Um Clube precisa de ter várias vozes para expandir." observa o Nicolau " Talvez o Bruno precise de reformular o Clube, encontrar outro membro. "


CONTINUA



sábado, 14 de novembro de 2020

O ENCONTRO ENTRE CLUBES - PARTE V

 

Também as outras três senhoras não participam, escutam atentamente e dão um opinião apenas se lhe fizerem uma pergunta directamente.

Caso contrário, confidencia o Bruno, conversam entre si e nada mais. Não sei muito sobre elas, acho que são as três viúvas e estarem num Clube é uma forma de preencher a solidão, continua.

Fizeram uma pausa, estão a petiscar. Há empadinhas recheadas com queijo fresco, tostas barradas com pasta de azeitona com especiarias, bolo de cenoura, sumo de laranja, a Teresa e a Madalena esmeraram-se, todos concordam.

A Sofia elogia o buffet, o António explica que a loja é da mulher, apareça por lá para tomar chá e scones, convida e o Nicolau diz que é um bom local para relaxar.

O Rodrigo Meireles conversa com o Major e o Bernardo, está surpreendido por encontrar alguém tão jovem e ri-se quando este lhe conta de que foi " apenas cumprir a sentença dada pelos Pais ".

Quando dão por terminado o encontro, todos são unanimes em dizer que gostariam de se encontrar novamente, quem sabe até ler o mesmo livro e discutir os pormenores mais importantes? sugere a Sofia que troca números de telemóvel com o Nicolau. 

Promete também ao António visitar a loja da Teresa; o Rodrigo vai almoçar com o Major na próxima semana e a única sombra é o Eduardo que os observa com um olhar carregado.

" Que ideia, Sofia! Lermos todos o mesmo livro? Que disparate! Mas o que é que se esperava de uma simples gestora bancária?" observa.

Que malcriado, todos pensam, mas apenas a Rita é capaz de dar voz ao que todos acham dele.

" O Senhor é mesmo desagradável! Que é que a profissão dela tem a ver?" 

" Eduardo, é melhor pararmos por aqui." aconselha o Bruno, o Eduardo encolhe os ombros e diz:

" Então, demito-me do Clube. Não estou interessado em intercâmbios!" e saí da sala, deixando toda a gente estupefacta.

" Creio que o nosso amigo não entendeu o objectivo do encontro." comenta o Nicolau " Que pena!"


CONTINUA


sexta-feira, 13 de novembro de 2020

O ENCONTRO ENTRE CLUBES - PARTE IV

 

Mas não é isso que a Sofia pergunta; quer saber se o facto de ser membro de um Clube de Leitura o influenciou, inspirou a escrever os livros.

O Nicolau sorri, gosta do olhar franco da Sofia e explica que já tinha escrito dois livros, mas são livros de referência para estudo, explica.

O Clube mostrou-lhe o caminho para uma outra vertente da literatura, novas estruturas de escrita, de enredos e decidiu transpor isso para os livros.

Como Professor de Literatura Medieval Francesa, escolheu esse período para desenvolver a história, diz.

" Claro que tive que pesquisar os acontecimentos históricos a nível político, por exemplo para situar a história, mas o resto é ficção." acrescenta " É um pouco como o Major que adora Mapas antigos e história militar. Ajudou-nos a perceber as manobras da Guerra Civil Americana."

" Ah, e tudo isso por causa de um Clube de Leitura? Está a brincar comigo?" interrompe o Eduardo e a Rita olha-o desconfiada.

Não deve ter mais do que quarenta anos, tem o cabelo castanho e olhos verdes, é um homem interessante, mas a Rita não gosta do ar de desafio dele.

" Não seja tonto, Eduardo! " intervém o senhor de cabelo grisalho que se apresenta como Rodrigo Meireles, reformado da Indústria Têxtil " Nem todos estamos aqui só para passar o tempo!"

" O que quer dizer com isso?" o Eduardo insurge-se.

" Ás vezes, levanta questões que não são relevantes para a discussão, Eduardo e faz-nos perder tempo." comenta a Sofia " Há muito tempo que queria abrir um blog, mas encontrava sempre uma razão para não o fazer. As nossas discussões aqui no Clube incentivaram-me e estou a receber muitos comentários, tenho vários seguidores."

" Estou aqui pelo prazer de ler e discutir o livro. O que é interessante é que, além da literatura, também estamos a falar na história política que explica, muitas vezes, os temas abordados." diz o Rodrigo Meireles " Por isso, gostava muito de ver os seus Mapas, Major."

A discussão generaliza-se, todos falam do que é relevante para eles, o Bruno e a Aída estão satisfeitos com o rumo que o encontro está a tomar.

Apenas o Eduardo permanece calado, está com um ar aborrecido.

Mais valia não ter vindo, sussurra a Rita e a Aída tem que concordar.


CONTINUA



quinta-feira, 12 de novembro de 2020

O ENCONTRO ENTRE CLUBES - PARTE III

 

Combinam o encontro para dali a duas semanas, melhor ser na tua livraria, diz a Aída, a sala é maior e comunicam a data aos membros dos Clubes.

A Teresa oferece-se para preparar um pequeno buffet, as pessoas conversam melhor se estiverem a comer, explica e o Major sugere levar os Mapas dele.

Perante o olhar espantado dos outros, esclarece, então? foi a partir dos livros que desenvolvi este hobby, é relevante.

Naquele sábado, a Teresa e a Madalena aparecem por volta das cinco para organizarem a mesa, a Aída ajuda-as.

O Bruno e os outros colaboradores preparam as cadeiras e por volta das seis menos um quarto, a Aída desaparece no vestiário.

Trouxe um vestido, terá que vestir o colete com o logótipo de livraria, mas é melhor que o uniforme habitual das calças de ganga e T-Shirt.

E, depois, se bem que não possa competir com a Rita, esta parecerá ter saído da capa de uma revista de moda.

Quando volta à sala, o Major e o Bernardo já lá estão a conversar um senhor de cabelo grisalho que a Aída não conhece.

Deve ser um membro do Clube do Bruno, deduz e avança na direcção deles para os cumprimentar.

Chega entretanto o Nicolau, logo a seguir, a Rita e o António e mais três senhoras a conversarem intensamente.

Falta o Eduardo e a Sofia, segreda o Bruno, mas eles chegam quase atrasados, vamos dar mais um minuto.

O Eduardo e a Sofia chegam finalmente, pedem desculpa e sentam-se.

O Bruno apresenta a Aída, agradece terem vindo, faz um pequeno discurso sobre os objectivos da livraria e do Clube.

" O tema que propomos discutir é a importância dos livros na nossa vida, o que nos leva a ler este ou aquele livro. É o autor, é o tema?" continua e a Sofia põe a mão no ar.

" Desculpa interromper, Bruno, mas creio que estou a reconhecer o Nicolau Salgado, o autor das Crónicas Impossíveis. Estou certa, não estou? " pergunta.

Todos olham curiosamente para o Nicolau que suspira, não, não quero dar uma palestra sobre o meu livro.


CONTINUA

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

O ENCONTRO ENTRE CLUBES - PARTE II

 

A Aída conta-lhe resumidamente a conversa, o Bruno sorri, já não era sem tempo, mudo-me no fim de semana e hoje, vou lá jantar.

A  conversa é divertida ao jantar, o Bernardo quer saber mais detalhes sobre o encontro, acha a ideia interessante.

" Temos uma celebridade no nosso; o Nicolau pode dar uma palestra." sugere.

" Não, não é bem isso que queremos. É falar dos livros em geral, o que se procura, o que é relevante - o tema ou o autor." protesta o Bruno.

" Propomos uma tema para discussão. O teu grupo não está a discutir a literatura chilena e a influência da ditadura?" interrompe a Aída " Primeiro temos que abordar o assunto com os respectivos Clubes; podem não concordar, até porque cada Clube tem um estilo próprio."

" Eu acho uma óptima ideia!" diz o Bernardo " É expandir a literatura, os pontos de vista...."

O Bruno ri-se e fica combinado discutirem o assunto com os respectivos Clubes na próxima sessão.

Para já, acrescenta a Aída, saber o que eles pensam em ter um encontro " literário" com um outro grupo e depois, discutimos tema, local, hora, etc.

O Bernardo promete calar-se, o Major percebe que ele está nervoso e quer saber porquê, mas o rapaz responde que tem um exame complicado e está um pouco preocupado.

Posso estudar contigo, se quiseres, oferece-se o Major, mas o Bernardo abana a cabeça, não, não, tenho o meu grupo de estudo, não se preocupe.

O grupo fica surpreendido quando a Aída expõe a ideia naquela sessão.

" O que quer dizer exactamente?" questiona o António curioso.

" É uma troca de impressões entre amantes de livros. Discutir os objectivos dessa leitura, o que é relevante." repete a Aída " Por exemplo, o outro Grupo está neste momento a discutir a literatura chilena..."

" Isso implica que teríamos que fazer alguma pesquisa antes do encontro." observa o Nicolau " Talvez seja melhor um tema geral, como diz, o que é relevante num livro."

" A ideia de um encontro é interessante, mas concordo com o Nicolau, vamos discutir um tema geral. Enfim, o que nos levou a juntar num Clube, por exemplo. A partir daí, podemos abordar várias outras questões." comenta a Rita.

O Major e o António concordam, a Aída dá o assunto como terminado e a sessão prossegue com a discussão do livro escolhido.

Em casa, o Bruno diz que o Grupo dele também está interessado no encontro.


CONTINUA


terça-feira, 10 de novembro de 2020

O ENCONTRO ENTRE CLUBES

 

" Sabes que isto é um disparate, não sabes?" pergunta o Bernardo naquela manhã.

A Aída faz-se desentendida e responde à pergunta com outra:

" O que queres dizer?"

" Oh, Mãe, tu e o Bruno são um casal, fazem tudo juntos. Ele só não dorme cá, porque, de resto, está aqui. Não achas que devias assumir a relação?" o Bernardo é directo.

" Estamos bem assim." defende a Aída " O divórcio foi complicado, o que aconteceu depois foi complicado para ti e não quero...."

" É um disparate, Mãe. Tu estás com o Bruno há uns dois, três anos? Considero isso uma relação sólida." interrompe o Bruno " Não te estás a comportar como o Pai que tem uma mulher diferente todos os meses!"

" Por falar nisso, quem é a deste mês?" a Aída está curiosa; o ex-marido está sempre acompanhado de mulheres mais novas, algumas vezes, o Bernardo exigiu que saíssem só os dois.

" Não sei. Acho que trabalha no Tribunal; é um pouco diferente das outras, mas não quero estabelecer laços; daqui a um mês, conhece outra e voltamos ao mesmo!" exclama o Bernardo.

Olha para o relógio, murmura um " estou atrasado" e com um beijo rápido, saí.

A Aída fica a pensar no que o filho disse; talvez tenha razão, para quê pagar duas rendas, duas luzes, se o Bruno passa a maior parte do tempo aqui?

Já abordaram o assunto, afinal de contas, o Bernardo já tem vinte anos e é grande amigo do Bruno; é altura dela ser feliz.

O Bruno aparece na livraria naquele dia; quer organizar um encontro entre Clubes de Leitura, quer saber o que a Aída pensa.

" O Clube da minha livraria é temático, mas o elo de ligação é os livros. Podemos discutir os objectivos, formas de abordar os temas, etc." o Bruno está todo entusiasmado.

" Acho que devemos discutir o assunto com cada Clube, saber o que os membros pensam." concorda a Aída e depois, sorri.

" Sabes, o Bernardo teve uma conversa comigo hoje!"


CONTINUA

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

O LIVRO DO NICOLAU - FIM

 

A partida da Natália é um rude golpe para mim; tenho que acabar o livro, insisto com o editor para utilizar um dos sketches do Bernardo na capa, mas, à noite quando estou sozinho, penso no verdadeiro motivo da decisão.

" Acho que não deve pensar nisso...Sei que é complicado, Nicolau, não vou dizer o contrário, mas, pelo menos, ela disse-lho na cara. Isso demonstra respeito e carinho por si." diz o Major.

Não respondo, não estou ainda pronto para discutir o assunto.

A data do lançamento do novo livro é marcada, o Clube de Leitura comparece em peso.

A Aída está feliz por ver o nome do Bernardo como autor do design da capa e o filho cora imenso, pede-lhe para não falar no assunto.

Mas o que os surpreende verdadeiramente é a dedicatória, ficam calados por uns minutos quando a lêem e creio que há uma lágrima teimosa nos olhos da Rita e da Aída.

São a minha família, o meu rochedo, encheram a minha vida de alegria, era justo que os mencionasse pelo nome na dedicatória.

Não me esqueci da Natália nem da aluna que tão gentilmente cedeu parte do seu tempo para me ajudar na pesquisa.

Ela também veio, ficou muito comovida e só diz, oh, Professor, sempre que precisar de ajuda, telefone-me.

Mas eu quero descansar um pouco; ainda não estou pronto para escrever uma nova história.

" Diz isso agora..." observa o António " mas, daqui a uns meses, vai surgir uma outra aventura..."

Volto a sorrir e fico calado.

Será que ele tem razão? Veremos... Só o tempo responderá.


FIM


domingo, 8 de novembro de 2020

O LIVRO DO NICOLAU - PARTE VII


Não sei nada da Natália há semanas, estou num ponto crucial do livro e o meu editor adorou os primeiros capítulos.

Está a pressionar-me, quer já discutir a capa comigo e eu ainda nem sei qual vai ser o desfecho.

No Clube de Leitura, todos estão excitados com o novo livro e pedem detalhes, mas eu finjo que estou ofendido, pergunto não estamos a discutir o primeiro? e voltamos rapidamente à discussão.

O Major fez um Mapa que ilustra as viagens do trovador e o Bernardo uns pequenos sketches que me interessam bastante.

" Isto está muito bom, Bernardo. Como é que te lembraste disto?" pergunto.

" O Major trabalhou no Mapa, eu achei que isto ilustra o que se passa no capítulo!" explica o rapaz, satisfeito com o resultado.

" Tens a certeza de que queres seguir informática?" insisto, o Bernardo ri-se e diz que informática é apenas desenhar doutra forma.

Posso ficar com eles? claro que sim, são seus, responde o filho do Aída e eu fico a pensar se não será uma boa ideia utilizar um dos sketches na capa do próximo livro.

Tenho que perguntar à Natália, mas quando, se não a vejo há tanto tempo!

Mas a Natália está à porta da minha casa quando chego. O António e o Major desculparam-se, os miúdos estão constipados, têm que ajudar.

" Olá, Nicolau. Como está?" e eu convido-a a entrar.

Faço menção de a ajudar a tirar o casaco, mas ela abana a cabeça, não pode ficar, tem um compromisso.

Recebeu uma proposta de trabalho, um intercâmbio com uma outra Universidade, por um ano e vai aceitar.

" Sei que isto é uma surpresa, talvez fique aborrecido e tem toda a razão. Não lhe tenho dado muita atenção ultimamente, o Nicolau tem sido tão meu amigo e gosto imenso de o ajudar na pesquisa para os seus livros." explica.

Não sei o que dizer, a Natália acaba de responder à grande questão, sou só um amigo.

" Se precisar de ajuda na pesquisa para um outro livro, pergunta à Glória..." continua " Como vai o livro?"

" Estou a terminar... Falta fazer a revisão, escolher a capa, a impressão... E, a Natália, quando vai? E para onde?"

" Boston, daqui a duas semanas." e ficamos os dois calados.

Não há mais nada a dizer e ela despede-se rapidamente.

CONTINUA


sábado, 7 de novembro de 2020

O LIVRO DO NICOLAU - PARTE VI

Sinto que a Natália me evita nas semanas seguintes.

Continua a enviar-me material sobre a época em questão, a aluna de mestrado também contribuí, mas raramente aceita os meus convites para jantar lá em casa e discutir o rascunho ou tomar um simples café na cafetaria da Universidade.

Sinto-me magoado, confesso ao António, não ao Major que culpo da situação.

" Se calhar, a Natália nunca pensou no assunto e a conversa com a Glória obrigou-a a encarar a questão, o que é o Nicolau para ela? Um amigo, um companheiro de trabalho ou mais do que isso?" comenta o António, sensatamente.

" Talvez tenha razão; não considerei essa possibilidade!" admito e o António sorri.

Convida-me para jantar, a Teresa e os miúdos estão cheios de saudades suas, esclarece, principalmente a Sofia que está sempre a perguntar pelo Tio Lau.

Tio Lau, repito, gosto... Adoro aqueles miúdos e a Mariana; considero-os meus netos, aliás, é a única coisa que lamento, não ter tido filhos.

Mas, tanto eu como a minha mulher investimos muito na carreira, os filhos podiam distrair-nos do objectivo e agora estou só.

Os miúdos ficam loucos quando veem o Tio Lau, a Sofia exige uma história e eu conto-lhes uma versão light de um dos livros.

No fim do jantar, quando os miúdos estão já deitados e eu e o António saboreamos um conhaque, este pergunta:

" Como vai o livro? "

" O trovador vai a caminho do Norte... Parou numa taberna, pedem-lhe novidades sobre a corte..." respondo.

" E? " insiste o António e nada, meu caro amigo, ainda não sei bem o que vai acontecer, digo.

" Haverá um amor escondido? Um amor que o faça querer ficar? " sugere a Teresa que regressa do quarto dos filhos e se senta ao pé do companheiro.

" Mas o trovador está sempre enamorado... Ou finge que está para receber favores das damas." explico e suspiro.

" Não pense mais no assunto!" aconselha a Teresa, adivinhando os meus pensamentos " Dê-lhe tempo, a Natália dirá qualquer coisa na altura certa."

Mas eu não tenho tempo.


CONTINUA


sexta-feira, 6 de novembro de 2020

O LIVRO DO NICOLAU - PARTE V

 

" Mas a Glória pode falar de si, da amizade que tem pela Natália, talvez ela se abra..." lembra o Major " Ficamos a saber o que ela pensa sobre si..."

Não estou muito convencido, a Natália está tão ocupada que só responde aos meus telefonemas depois das dez da noite e só para dar uma explicação, acrescenta.

Eu revejo os capítulos que já escrevi, há um ou outro pormenor que vou corrigir, mas estou a gostar da forma como o enredo está a evoluir.

No dia seguinte, a sessão no Clube de Leitura é um sucesso, principalmente por causa do Bernardo.

Aprendeu a letra de uma das canções que reproduzi no livro e entoa-a.

Escutamos espantados, ninguém sabia que ele tinha uma voz tão potente e no final, aplaudimos vigorosamente.

" Quando der uma palestra sobre este livro, já sabes, tens que me acompanhar e cantar...." digo, mas o Bernardo faz uma careta.

" Nem pensar; estamos entre amigos!" protesta.

" Ora, Bernardo, não sejas modesto! Podes vir a ser um artista famoso!" ironiza a Rita.

" Não, não. Quero ser um Bill Gates ou um Steve Jobs!" insiste o Bernardo e o António ri-se, não te contentas com pouco!

O Major faz-me sinal para o seguir, a Glória já falou com a Natália que ficou verdadeiramente surpreendida pela questão.

A Glória diz que o respeita muito, que o considera um grande amigo, têm conversas interessantes, mas não mais do que isso, foi a impressão com que a Glória ficou, acrescenta o Major.

" Nem outra coisa seria de esperar! Vê-me como um Pai, um Tio!" desabafo e o Major fica calado, não há realmente mais nada a dizer.

Quando chego a casa e abro o computador, tenho um email da Natália. 

Tem uma série de informações relevantes para o desenvolvimento da trama, desculpa-se com o trabalho, mas que não está descurar o assunto, até pediu ajuda a uma aluna.

A conversa com a Glória fez com que a Natália se apercebesse que eu não a vejo apenas como uma amiga, uma companheira de trabalho.

Quero mais e talvez ela não esteja disposta a mais do que a simples amizade.


CONTINUA

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

O LIVRO DO NICOLAU - PARTE IV

 

Algumas das sugestões que recebo para o enredo do novo livro são bem interessantes; outras, considero-as hilariantes.

" Não faz mal um pouco de humor!" diz a Natália enquanto me ajuda na pesquisa sobre os Caminhos de Santiago.

O trovador vai viajar com um grupo de peregrinos e a meio de caminho, encontra uma casa senhorial.

Ávidos de notícias e entretenimento é convidado e a partir daí, nem eu sei ainda o que vai acontecer.

" Não, isso será um livro completamente diferente. Tenho uma personagem construída, vamos acompanhar a evolução dela." protesto " Não digo que não tente mais tarde, mas agora estou verdadeiramente empolgado em desenvolver esta ideia."

A Natália não diz mais nada e trabalhamos mais umas horas.

Convido-a para jantar, a minha governanta fez uma quiche e uma salada, mas a Natália recusa, educadamente.

Vou jantar com as filhas do meu ex-marido, explica polidamente e eu fico espantado.

Não sabia que foste casada, observo, não falo muito no assunto, foi um pouco complicado, explica, mas dou-me bem com as filhas dele e, de vez em quando, janto com elas para saber das novidades.

Quase não janto, então, foi casada e não me disse nada? murmuro.

Ainda penso em ligar ao Major, mas ele e a Glória devem estar ocupados com a Mariana.

O Major diz-me que ultimamente a bebé não tem dormido bem e às vezes, as noites são complicadas.

Telefono-lhe no dia seguinte, está ocupado hoje? pode passar por cá? mas o Major sugere um encontro na Universidade, tem uma reunião com um aluno de Mestrado, deve estar livre por volta das três.

Fico um pouco contrariado, não quero encontrar ainda a Natália, mas àquela hora, ela decerto está ocupada com as aulas.

Conto resumidamente a conversa da noite anterior e o Major fica tão surpreendido como eu.

" Não é bem assim; a Glória insinuou que há ali um segredo, mas a Natália não se abre muito sobre assuntos particulares  claro que a Glória respeita isso." esclarece.

" Obviamente. Se a pessoa não quer falar, temos que respeitar..." concordo.

CONTINUA

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

O LIVRO DO NICOLAU - PARTE III

 

Já em casa, abro o computador, clico no Word e começo a escrever algumas notas.

Com o ambiente tenso na corte depois da morte do Rei, talvez seja melhor o trovador regressar a França.

No caminho, pode parar numa casa senhorial, ficar lá hospedado uns tempos e pode apaixonar-se pela filha dos senhores.

Alguém ser assassinado e ele ter que fugir porque acham que é ele o culpado? Será que a donzela parte com ele?

Terei que estudar os eventos históricos relacionados com a morte do Rei D. Duarte, mas é um bom ponto de partida.

Também estou curioso, será que alguns dos alunos que assistiram à palestra vão partilhar ideias comigo?

Subo até ao andar de cima, deito-me e penso na Natália.

Tem sido uma verdadeira amiga, creio que gostaria de ser um pouco mais, mas sou velho demais para ela.

Tenho os meus hábitos e rotinas, estou sozinho há muito tempo, teria que fazer muitas cedências e não estou pronto para isso.

" O meu amigo é um grande egoísta!" diz o Major quando abordo o assunto.

Estamos no parque, a Mariana está a dormir no carrinho e nós estamos a relaxar.

" Egoísta? A Natália deve ter uns 35, 40, se tanto! E eu vou fazer 71!" exclamo.

" Alguma vez na vida pensei em estar com a Glória e ter um outro filho?" responde o Major veemente e eu sorrio.

" A propósito de filhos, tem estado em contacto com os mais velhos?" pergunto.

O Major abana a cabeça, sempre que lhes telefona, a resposta é quase sempre a mesma, estão muito ocupados, vão fazer uma formação no estrangeiro.

" Então, ainda não conhecem a Mariana?" comento e o Major suspira.

Está magoado com a atitude infantil dos filhos e sei que se recrimina por isso.

Mas não conheci a Mãe dos rapazes, não posso dizer verdadeiramente de quem é a culpa.

A Mariana acorda, choraminga, deve querer comer, observa o Major e despede-se.

Eu ainda fico mais uns minutos no parque, a matutar no assunto.


CONTINUA