domingo, 31 de maio de 2020

O REFÚGIO - PARTE V


" Espero é que a Teresa não tenha o mesmo médico, não quero cá estar a comparar dietas, cuidados, etc." continua a Laura, mostrando uma réstia dos velhos tempos.

" Espera aí, volta atrás..." pede o Pedro " Vamos ter um filho? E é assim que mo dizes?"

A Laura cora, fica embaraçada e diz muito baixinho:

" Não sabia muito bem como to dizer... Fiz asneira??? " mas o Pedro dá-lhe um abraço.

Permanecem assim algum tempo, estão os dois muito felizes e ao mesmo tempo, assustados.

" O que vais fazer agora? " pergunta o Pedro e a Laura sorri.

" O médico diz para continuar a fazer a vida normal, ter mais cuidado com a alimentação, aconselhou a fazer yoga para grávidas." conta a Laura " Já descobri um sítio, vou lá amanhã, não queres vir comigo? "

" Não me estou a ver a fazer yoga para grávidas." confessa o Pedro e a Laura volta a rir.

" Não, idiota, há aulas normais para adultos. Se houver uma aula no mesmo horário que a minha, podes esperar por mim, podemos ir às compras, jantar fora, fazer qualquer coisa..." sugere a mulher e o Pedro até gosta da ideia.

" Ok, a decoração do meu refúgio está aprovada. Encomenda tudo, organiza a entrega de forma a estar cá alguém para ajudar, pois tu só orientas. Não mexes um dedo que seja..." impõe o Pedro.

" Não sou de vidro! " protesta a Laura de imediato, mas o Pedro não cede.

A velha Laura volta à superfície e discutem apaixonadamente. 

O Pedro continua a não ceder, a Laura fica amuada, mas aceita a só se preocupar com a disposição das almofadas e a arrumação dos livros.

" A tua irmã hoje... foi impossível!" o Pedro sente-se esgotado; há já algum tempo que não a via tão exaltada.

Desafiou o António para uma corrida no parque ao fim da tarde e estão agora sentados num banco a descansar antes de voltarem para casa,

" Impossível? Porquê? Ah, disseste-lhe que a Teresa está grávida?" diz o António " Se calhar, o Gonçalo tem razão e temos que lhe dar  um safanão."

" Não ficou muito preocupada com isso. Só está preocupada com a possibilidade da Teresa ter o mesmo médico que ela e quer comparar notas." explica o Pedro.

" Notas? Comparar notas? De que é que estás a falar?" o António está verdadeiramente confuso e aguarda mais detalhes.

CONTINUA



sábado, 30 de maio de 2020

O REFÚGIO - PARTE IV


Mas tem que o fazer e rapidamente.

Podem encontrar-se com a irmã e o cunhado e a Teresa ter já uma barriga considerável.

Por isso, no dia seguinte enquanto tomam o pequeno almoço, o Pedro resolve abordar o assunto cuidadosamente.

" Almocei ontem com o António..." começa " e ele deu-me uma boa notícia."

" Estranho, a mim não me disse nada!" diz a Laura " Sou irmã dela, trabalho com ele e não me diz nada???... Ah, segredos de homens???" pergunta.

" Não, tu também vais ficar a saber. A Teresa e o António vão ter um filho!" responde o Pedro.

A Laura fica estupefacta, sem querer acreditar.

Entretanto, no outro lado da praça, o António e a Teresa também conversam sobre o assunto.

" Mas não tinha ficado combinado que eu dizia às mulheres da família e tu aos homens?" indaga a Teresa " Porque é que o meu irmão vai dizer à Laura? "

" A Laura está a recuperar bem, mas ainda está muito frágil. O Pedro não quer arriscar e é realmente melhor ser ele." explica o António.

" Espero que tenhas razão; nunca se sabe como a Laura vai reagir. Tens que concordar que a tua irmã é complicada." responde a Teresa e sabe pela expressão do António que foi longe de mais.

Suspira, o António vai ficar um pouco amuado, mas não o pode criticar. Ela também defende o Pedro com unhas e dentes.

Em casa do Pedro, a Laura Laura recupera a compostura.

" Não me faças rir, Pedro!" exclama " A tua irmã deve ter 40 e quê???, está velha demais para ter filhos!"

" Eu tenho 39 anos, a Teresa tem 34. É um pouco tarde para se ter um primeiro filho, mas a Teresa deve ter um bom médico e está de certeza ao corrente dos riscos que está a correr!" explica o Pedro e sente que foi frio demais.

A Laura encolhe os ombros, a velha Laura continuaria a discutir e anuncia:

" Ela que não conte comigo para ser baby sitter! Eu só vou ser baby sitter do meu filho!"

E é a vez do Pedro ficar estupefacto.

CONTINUA

sexta-feira, 29 de maio de 2020

O REFÚGIO - PARTE III


" Tu e a Teresa vão ter um filho??? Mas isso é óptimo!" repete o Pedro incrédulo. Almoçara com a Teresa na véspera e a malandra não lhe disse nada.

" Espero que seja um rapaz!" diz o Gonçalo " Vou ensinar-lhe todos os truques!"

" Nem penses!" reage o António, mas ri-se.

" Eu gostava de ter uma sobrinha! " confessa o Pedro " Para a estragar com mimo como faço com a Filipa!"

O Gonçalo não concorda, é preciso que seja um rapaz para defender o nome da família, mas no fundo, todos sabem que isso não é o mais importante.

" Não perdoo à Teresa! Estive com ela ontem e a marota não me disse nada!" lamenta-se o Pedro.

" Não, ficou combinado que eu diria aos rapazes da família e ela às raparigas." esclarece o António " Agora que já sabes, podes falar à vontade e ela vai adorar!"

O Gonçalo continua a dizer disparates, mas o Pedro fica muito sério de repente.

E, a Laura? Como é que a Laura vai reagir? 

" Queres que seja eu a dizer? " pergunta o António ao compreender o dilema do cunhado " Sei que pode ser complicado... mas ao mesmo tempo, acho que devemos tratar o assunto com normalidade."

" Deixa estar, é melhor que seja eu." responde o Pedro " Preocupava-me mais se fosse há uns meses atrás, mas agora, acho que a Laura está preparada para a vida normal."

" E, se não comporta direito, terei todo o gosto de lhe dar um safanão!" atalha o Gonçalo, mas o António diz-lhe para deixar de ser parvo.

Mas o Pedro não tem oportunidade para discutir o assunto nessa noite, porque a Laura tem uma série de coisas para lhe mostrar.

" Acho que esta secretária com pés de madeira e tampo de vidro é perfeita. As prateleiras também podem ser da mesma madeira bem como a mesa onde vai ficar a impressora. " explica a mulher " Vou escolher esta cadeira e em frente da secretária, estas poltronas para que, se receberes clientes, estejam confortáveis."

A Laura arrasta-o para o escritório, escolheu cinza claro para as paredes, branco para os frisos.

" Aqui, vai ficar um biombo e deste lado, uma pequena sala com a TV que queres..." continua a Laura " O que achas? "

" Parece-me perfeito!" diz o Pedro sinceramente e o sorriso da Laura é tão bonito que ele adia dar-lhe a notícia da gravidez da Teresa.

CONTINUA

quinta-feira, 28 de maio de 2020

O REFÚGIO - PARTE II


Na semana seguinte, o António convida o Pedro para  almoçar, " sem mulheres" e quando o Pedro pergunta porquê, o cunhado responde trocista:

" Tu é que começaste com a ideia do " refúgio masculino"! " e os dois riem-se.

O Gonçalo aparece também e o irmão avisa-o logo que cada um paga o seu. 

O Gonçalo finge-se ofendido, era lá capaz de uma coisa dessas???

" Então, Pedro, que tal vai o teu refúgio? Estou curioso... espero que a Laura compre uma TV panorâmica; podes ter a certeza que estarei lá para assistir a todos os jogos." comenta o Gonçalo.

" O médico diz que me devo interessar mais pela decoração da casa; dar opiniões, ajudar a Laura a decidir. Como a empresa me propôs trabalhar a maior parte do tempo em casa, tenho que ter um escritório e saiu-me essa... de refúgio." conta o Pedro.

" A Laura ficou intrigada com o pedido, até falou comigo sobre isso. O certo é que já a vi com catálogos de mobiliário de escritório... " esclarece o António.

" Mas ela parece estar melhor... O que diz o médico? " quer saber o Gonçalo.

" Está a melhorar, o médico está a pensar em reduzir a medicação. O que ela precisava era de uma rotina, de projectos. Mudar para um bairro diferente, uma casa diferente está também a ajudar." explica o Pedro.

" E reconciliar-se contigo...." acrescenta o António e o Pedro concorda.

" Mas temos um longo caminho a percorrer. Ainda tenho alguma dificuldade em lidar com certos aspectos da obsessão da Laura, mas o médico diz para ter calma." diz o Pedro.

" Também estás a ter consultas com o médico da Laura? " e o Gonçalo fica admirado.

" Para a ajudar, tenho que perceber o porquê de certas atitudes dela!" repete o Pedro.

Para o António faz todo o sentido. Até questiona a hipótese dele próprio consultar o médico para ajudar a irmã.

Veremos o que a Teresa diz, pensa e acha que está na altura de dar a boa notícia.

" Vocês vão ser tios!" e a surpresa é tal que o Gonçalo engasga-se.

CONTINUA

quarta-feira, 27 de maio de 2020

O REFÚGIO


Laura gosta da nova casa.

Planeou com todo o cuidado cada detalhe da decoração a ponto de exasperar o Pedro que não entende bem a diferença entre ter um sofá preto e uma parede amarela.

O médico aconselha-o a ter calma, está a ser bom para a Laura ter um projecto e concretizá-lo e seria uma boa ideia se ele, Pedro, a ajudasse também.

Por isso, o Pedro " exige-lhe" que decore um " refúgio masculino". 

Isto intriga bastante a Laura que pergunta:

" Um refúgio masculino? Mas o que é isso? Uma sala de jogos e TV? " mas o Pedro abana a cabeça.

" Não exactamente. Podes colocar lá uma TV, não te incomodo quando houver jogos, mas o que quero é um escritório. Secretária, cadeira, arquivos, etc e um ou dois sofás confortáveis, uma mesa..." explica.

" Posso fazer isso naquela sala perto do hall de entrada; ainda não tinha decidido nada." comenta a Laura " Mas queres um escritório para quê? Não tinhas arrendado aquele espaço na Baixa? "

" Poupo na renda, não perco tempo nas deslocações e reuniões com os clientes podem ser por video conferência ou nas instalações deles." diz o Pedro.

" Achas que vai resultar? Não te vais desleixar? " observa a mulher.

" Não posso, não é Laura? Tenho que manter uma rotina..." responde o Pedro.

A Laura não diz mais nada, conversa com o irmão. Explica a ideia do Pedro, pede-lhe a opinião.

O António não acha a ideia estranha; afinal, em casa ele organizou não só o chamado "canto de leitura" mas também um pequeno escritório.

" Escolhe uma secretária funcional e uma cadeira confortável.  Arquivo? onde comprares a secretária, encontras armários para isso. Também podes comprar uma divisória ou um biombo e criares um local com sofás e a TV. "

" Gosto da ideia do biombo!" reflecte a Laura.

CONTINUA

terça-feira, 26 de maio de 2020

O JANTAR - FIM


A Joana fica surpreendida pelo telefonema e aceita encontrar-se comigo num bar ali próximo da minha casa.

Porque insisti naquele bar, não sei, mas decidi seguir o conselho da minha nora e arriscar.

A Joana é Chefe de Vendas de uma marca de cosmética, não admira que a maquilhagem dela seja perfeita, penso.

É uma promoção recente, explica, só estou no escritório de manhã para coordenar o serviço e à tarde, ou tenho reuniões com os fornecedores e distribuidores ou com clientes.

" Mas quero saber de si. Sei que é reformado, mas, pelo que vejo, mantém-se activo." diz.

Falo do meu interesse por Mapas Antigos, das minhas visitas aos antiquários e bibliotecas, do Clube de Leitura, até da morte da Ana.

Ela pouco conta sobre ela, só fala da irmã, a Camila com quem divide o apartamento.

Nada diz sobre o que se passou naquela noite, na relutância em envolver a polícia, mas estou tão fascinado por ela que não averiguo isso a fundo.

Um beijo de boa noite parece-me adequado, mas tenho vontade de o repetir e ela não diz não.

É um beijo mais intenso, mais profundo.  Respiro fundo, as minhas mãos têm vida própria e percorrem o corpo dela.

Não dizemos mais nada, não precisamos, sabemos que temos que estar juntos esta noite.

Não acendo as luzes, pego-lhe na mão, levo-a até ao quarto e o Mundo desaparece.

É uma noite de paixão louca, mas ao mesmo tempo, doce, terna.

Se a D. Fátima fica admirada ao encontrar a Joana no dia seguinte na cozinha com o meu roupão, não diz nada.

Não há nada a dizer...porque eu estou a apaixonar-me.

Como se tivesse a idade do Bernardo!


FIM

segunda-feira, 25 de maio de 2020

O JANTAR - PARTE V


Mas o que se passa comigo, porque é que não aceitei o convite para jantar? recrimino-me já a caminho de casa, afinal, tanto a Natália como a Glória têm sido uma simpatia, a facilitar-me o acesso a informação que, provavelmente demoraria anos a conseguir.

Não sabes o que se passa contigo, pergunta aquela voz irritante, estás obcecado pela tal Joana Meireles e não sabes nada sobre ela!

Posso descobrir, respondo e sorrio.

Talvez lhe telefone ainda hoje e a convide para tomar um copo, mas decido não o fazer.

Encomendo uma pizza, há um jogo na TV, não é que seja grande fã, mas apetece-me desanuviar.

Recebo SMS da Glória a perguntar se estou bem e estou livre para almoçar na próxima semana? e da Natália a agradecer a disponibilidade.

Será que podemos organizar este tipo de palestras semanal, mensalmente? sugere e diz que me telefona em breve.

Respondo só ao da Natália, não sei o que dizer à Glória, só me lembro do olhar triste dela quando declinei o convite para jantar.

Convido a Catarina para tomar café comigo no dia seguinte, a minha nora parece cansada, já estou de seis meses, diz.

" Pois o tempo passa...." comento e a Catarina sorri.

" Em contrapartida, o Pai está com um óptimo aspecto. O que é que tem feito? Conte-me tudo!" e parece genuinamente interessada.

Falo-lhe na palestra que dei na Universidade e do convite para continuar, da pré-inauguração da exibição de Mapas e dos contactos estabelecidos para fazer mais pesquisa.

" Uau! Que vida ocupada! E essas senhoras que conheceu estão livres? " observa com um sorriso trocista.

" Oh, Catarina, devem ter 30 e picos anos, não estão interessadas num velhote como eu!" repreendo.

Mas a Catarina ri-se abertamente, abana a cabeça e continua:

" Se o senhor fosse um velhote... eu concordava, mas o Pai está em bom forma física, tem vários interesses... hum....eu diria que elas estão bastantes interessadas!"

Mas tenho que ser franco, não estou interessado nem na Natália nem na Glória.

Quero saber mais sobre a Joana e telefono-lhe nessa noite.

CONTINUA

domingo, 24 de maio de 2020

O JANTAR - PARTE IV


" Por aqui? " pergunta-me. Tem uma voz baixa, clara.

Sorrio e atrapalho-me um pouco na resposta. 

" Sim, sim, interesso-me por Mapas antigos e uma amiga convidou-me para a pré-inauguração."

" Ah, o meu tio Luís também se interessa e como não conduz, tive que ser eu a motorista." diz a Joana.

" Não teve mais problemas com o carro, então? " e vejo os olhos dela ficarem muito sérios.

" Não, não, tenho sido mais cuidadosa com o local onde o estaciono." diz e desvia a conversa " Vou ter que voltar, o tio é um pouco impaciente, mas gostei de o ver, Amadeu, não é? "

" Sim, Amadeu Almada, Major. " confirmo e a Joana volta a sorrir. 

Estende-me a mão e eu aperto-a um pouco mais do que é correcto.

Pede-lhe o numero de telemóvel, segreda-me uma voz irritante, António ou Nicolau? não sei, mas tenho a certeza de que me vão gozar impiedosamente se não o fizer.

" Oh, Joana... " e ela para à espera que eu fale " será que me pode dar o numero do telemóvel? Gostava muito de jantar consigo um dia destes..." e sinto-me a corar.

Estou mesmo desactualizado, tenho que conversar com a Catarina sobre isto, penso, mas a Joana encara a questão com toda a naturalidade.

Escreve o numero num cartão, entrega-mo, dá um último sorriso e desaparece na multidão à procura do tio.

A Glória regressa entretanto, está acompanhada por um senhor com um ar muito distraído.

" Amadeu, este é o Dr Gonçalves, responsável pelo Arquivo de Mapas e pode ajudá-lo com a sua pesquisa."

O Dr Gonçalves quase me esmaga a mão e faz-me tantas perguntas que fico zonzo.

Felizmente, a Natália aparece, interrompe o fluxo de explicações do Dr Gonçalves sem qualquer cerimónia e convida-nos para jantarmos com " alguns membros do Departamento, um grupo bem simpático, vai gostar deles, Amadeu."

A Glória fica desapontada quando declino o convite.

CONTINUA

sábado, 23 de maio de 2020

O JANTAR - PARTE III


" Meu caro António, que feliz fico por si! Os meus parabéns e claro está, dê um grande beijinho à futura mamã!" felicita o Nicolau, encantado.

" Que boa notícia! Parabéns!" exclamo e o futuro Papá agradece-nos efusivamente.

Como isto vai mudar a dinâmica do Clube, penso, mas é normal, é natural, repreendo-me, a vida e as pessoas mudam.

Como eu.  Quem diria que me iam convidar para participar num seminário, numa palestra, num workshop, não entendi bem o que a Natália lhe chamou?

Mas a verdade é que estou a preparar os apontamentos e até pedi ajuda à Catarina para organizar os Mapas em Power Point.

Estou satisfeito com o resultado final, espero que os estudantes da Natália gostem.

Depois da palestra, vou encontrar-me com a Glória na cafetaria, vamos tomar chá antes de irmos à pré-inauguração da exibição.

Nunca pensei que a minha vida de reformado seria tão activa... 

Até a Ana, se estivesse aqui, estaria surpreendida. Ou nem se aperceberia, pois não estaríamos juntos e ela estaria mais interessada na nova vida com o tal José.

A Glória faz-me uma festa quando me vê, quer saber o que foi discutido na palestra e confidencia-me que os Mapas exibidos são uma verdadeira raridade.

Não vou dizer mais nada, o Amadeu tem que os apreciar e se quiser estudar um em pormenor, diga-me que eu apresento-o à pessoa responsável.

Aliás, pensando melhor, observa quando já estamos na sala e os discursos acabaram, vou já apresentá-lo à minha colega e afasta-se.

É então que a vejo, a Joana Meireles, ali a meia dúzia de metros na companhia de um senhor com idade para ser pai dela.

Alta, delgada, perfeita... e eu sinto-me como se tivesse a idade do Bernardo e estivesse a sentir o delírio da primeira paixão.

Ela sente que está a ser observada, vira a cabeça e vejo um sorriso a desenhar-se-lhe na boca carnuda.

Reconheceu-me? duvido... é apenas uma mulher bonita que sabe que o é e está habituada a ser admirada.

Mas ela reconheceu-me, porque murmura qualquer coisa ao ouvido do senhor e vem ao meu encontro.

CONTINUA



sexta-feira, 22 de maio de 2020

O JANTAR - PARTE II


Nem o Nicolau nem o António respondem; continuam a comer em silêncio.

Vejo que o ambiente está a ficar tenso, penso em qualquer coisa para o dissipar, mas o António antecipa-se e pergunta:

" E quem é a dama nº 3? Vá lá, Major, tem que contar a história toda!"

" Ouvimos um grito e o Major lançou-se numa corrida que faria a inveja a alguns maratonistas!" brinca o Nicolau.

" Ora, Nicolau, sempre pratiquei desporto e continuo a praticar. Não foi nada demais e cheguei a tempo de impedir que aquele malandro lhe roubasse o carro!" explico.

" Ela estava a jantar no mesmo restaurante e passou por nós enquanto nos despedíamos da Glória e da Natália!" esclarece o Nicolau e o António olha-me com um misto de curiosidade e de inveja?, será?.

Não, despeço de imediato o pensamento, com uma mulher como a Teresa não pode ter inveja!

" Não sei se teria coragem para o fazer; era capaz de chamar a polícia!" diz o António.

" Mas a polícia podia chegar tarde demais!" observa o Nicolau e eu concordo.

" O que não percebi foi a razão porque ela não quis participar o caso à polícia e o sujeito estava a ser violento!" acrescento.

" Uma separação conflituosa? " sugere o António " Podem não ter chegado a acordo e ele achar que tem direito ao carro??"

" É uma hipótese, porque fiquei com a impressão de que ela o conhecia...mas insistiu nisso!" concedo pensativo.

" A idiotice aqui..." comenta o Nicolau, olhando-me de soslaio " é que o nosso querido Major só sabe o nome dela, não lhe pediu o nº de telemóvel!"

" O quê? Mas, oh, Major era a primeira coisa que devia ter feito! Agora como é que a vai encontrar?" goza o António e ri-se.

Acabo por me rir também, embora esteja furioso comigo mesmo exactamente por não me ter lembrado disso.

Decidimos não tomar café e é quando estamos a pagar a conta que o António anuncia:

" Eu e a Teresa vamos ter um filho!"

CONTINUA


quinta-feira, 21 de maio de 2020

O JANTAR


" Pois é, António, o Major conquistou três mulheres naquela noite!" conta o Nicolau durante o jantar daquela quarta feira.

Estão a jantar no restaurante perto da livraria, a sessão do Clube foi muito divertida, principalmente porque a Rita provocou o Bernardo acerca do próximo livro a ler e este defendeu-o apaixonadamente.

" Oh, rapaz, ainda vais para político!" riu-se a Rita e o Bernardo ficou muito corado, também ele não está imune ao feitiço dela.

" Três, Major? Uau!" admira-se o António " Mas conte mais, Nicolau!"

" O Nicolau estava encantado com a Natália, não pode negar isso!" intervenho.

O Nicolau sorri e depois suspira:

" Se fosse uns anos mais novo.... mas não sei se seria correcto! A Natália foi minha aluna!" concluí.

" Quantos professores não tiveram casos com alunas!" diz o António " Talvez na sua época tivesse sido um escândalo, mas agora..."

" Ah, está a chamar-me velho??? " o Nicolau finge-se indignado e eu rio-me.

" Tanto a Glória como a Natália têm, no máximo 30, 35 anos e eu vou fazer 62 anos!" respondo " A minha nora Catarina ainda não tem 30 anos e se me interessasse por uma delas, os meus filhos nunca mais me falavam!"

" Ou podiam achar que o " velhote " se está a tratar muito bem!" goza o António, mas o Nicolau olha-me muito sério.

" Depreendo que a relação com os seus filhos não melhorou!" observa e o António pede desculpa de imediato.

" Não, António, não peça desculpas! A Catarina esforça-se para que haja comunicação com o Frederico e o Francisco, mas eles estão relutantes. Deixei-os sozinhos com a Mãe e eles praticamente não me conhecem!" desabafo.

" Lamento... Acho que todos têm, em determinado momento uma relação complicada com o Pai, mas depois acaba por se ultrapassar." opina o António.

Fico calado por uns momentos, o frango está delicioso e depois digo:

" Quem ultrapassa! Não acho que o vá conseguir com os meus filhos!"

CONTINUA

quarta-feira, 20 de maio de 2020

O CONCURSO - FIM


" Dá-me essa chave!" exige uma voz dura " Já te disse! Entrega-me essa chave!" mas eu aperto ainda mais a chave.

" Estúpida! Porque é que não quiseste vender o carro???" e reconheço a voz do Jaime.

O capuz deixa-lhe o rosto na sombra, mas os olhos estão brilhantes.

Suspiro aliviada e digo:


" Que brincadeira é esta? E ainda estás a pensar nessa história do carro? Já te disse que não vendo e não se fala mais nisso!"

" DÁ-ME A CHAVE! TENHO QUE ENTREGAR O CARRO HOJE!" grita o Jaime e volta a segurar-me a mão.

Tenta abrir os dedos, eu bato-lhe com a mão livre, mas ele volta a empurrar-me contra o carro.

" LARGA-ME! DEIXA-ME EM PAZ!" estou desesperada, não vejo ninguém na rua.

Mas alguém aparece a correr, apercebe-se rapidamente do que se está a passar e atira-se literalmente para cima do Jaime.

O Jaime larga-me a mão, caí aturdido e fica uns segundos no chão.

" A senhora está bem? Quer que chame a polícia? " pergunta uma voz forte, exigente.

Ao ouvir a palavra " polícia ", o Jaime levanta-se de imediato e desata a correr pela rua acima.

O senhor hesita, não sabe se o há-de seguir ou assegurar-se que estou bem.

" Obrigada, não é preciso." e reconheço então o homem com porte militar que estava na loja e no restaurante.

" Tem a certeza?" repete o senhor.

" Sim, não se preocupe. Chamo-me Joana Meireles." e estendo a mão.

" Amadeu Almada, ao seu dispor!" e faz-me sorrir com a frase antiquada.

Espera que eu entre no carro, fecha-me a porta e afasta-se.

Arranco, ainda o vejo pelo espelho retrovisor e viro para a avenida.

Que homem interessante! penso, gostaria de saber mais sobre ele.

Mas como? diz-me uma vozinha irritante, se te esqueceste de lhe pedir o numero de telemóvel.

FIM


terça-feira, 19 de maio de 2020

O CONCURSO - PARTE V


Fico ali a beberricar o vinho, continuam a chegar pessoas, a loja está cheia de risos e boa disposição, mas eu sinto-me deslocada e não faço qualquer esforço para integrar qualquer dos grupos.

Há alguém que me observa atentamente, é um homem com porte militar e com o cabelo cortado à escovinha.

Sorri-me, retribuo o sorriso, mas antes que ele se aproxime, uma mulher corta-lhe o caminho e pergunta-lhe qualquer coisa.

Ficam os dois a conversar e não sei porquê, sinto-me tão desapontada que decido ir-me embora, jantar em qualquer lugar. 

A Camila só regressa no dia seguinte, não me apetece telefonar a nenhum dos nossos amigos. 

Estou em dia não, naqueles dias em que penso que o Mundo está contra mim.

Estaciono numa rua paralela ao restaurante francês de que todos falam. 

Sei que a Camila está ansiosa por o experimentar, vai ficar aborrecida por me ter adiantado, mas não quero ir já para casa.

Estou a acabar de comer o fois-grois quando vejo o homem com porte militar que estava na loja a entrar.

Com ele, está um senhor mais velho (que horror! Quem é que lhe escolhe as camisas? penso) e duas senhoras, uma delas é a que estava a falar com ele.

Sentam-se a poucos metros de mim, conversam fácil, animadamente e eu fico com inveja.

Como pausadamente, escuto pequenos pedaços da conversa, falam sobre Mapas, livros, depreendo que o senhor mais velho e uma das senhoras são professores universitários.

Levo uma vida muito aborrecida, penso e peço um café e a conta.

Eles saem mais cedo, mas ainda os encontro na rua.

Chamaram um táxi, estão a despedir-se das senhoras e eu continuo a ter inveja da forma natural como a conversa se desenrola.

Passo por eles com um sorriso, subo a rua e tiro a chave do carro da carteira.

Estou quase a desbloquear a porta quando alguém me encosta ao carro e tenta tirar-me a chave.

CONTINUA


segunda-feira, 18 de maio de 2020

O CONCURSO - PARTE IV


" Fala baixo!" digo urgentemente e alguém de uma mesa próxima olha-nos indignada.

" Não está nada implícito, a Joana não te deve nada! Ok, foste quem a inscreveu no concurso, mas foi ela quem se esforçou para ganhar. Ganhou e não há mais a dizer." repete a Camila muito séria.

O Jaime não está convencido, tenta argumentar, mas a Camila corta-lhe a palavra.

" Não há mais nada a dizer. Não vais enviar mais SMS com insinuações, ameaças..."

" Ameaças eu???" interrompe o Jaime " Eu só quero o que é justo!"

" Ora, Jaime, vê lá se cresces!" a Camila está zangada e levanta-se.

Eu não consigo falar, tenho a boca seca, este tipo de discussões incomodam-me, fico pouco à vontade.

" Mas tens que falar!" comenta a Camila mais tarde " Não podes hesitar; até porque a razão está do teu lado. Onde já se viu, vender o carro e dar-lhe metade!" e deixa-me só na sala.

Claro que tem razão.... esta minha mania de não querer magoar os outros, deixa-me à mercê de comentários idiotas e desagradáveis.

Ás vezes, sinto-me presa entre dois Mundos - o meu e o dos outros. Mas não atravesso a linha, porque vejo muita coisa com a qual não concordo e por isso, deixo que me consideram " estranha".

A Camila vai passar o fim de semana fora, eu vejo na Net que a loja de produtos biológicos na esquina vai assinalar o primeiro aniversário com uma pequena festa " aberta a amigos, clientes e a quem quiser provar vinho, pão, compotas biológicos."

Nunca lá entrei, esta é uma boa oportunidade para a explorar.

Está um dia bonito, a loja tem uma pequena esplanada cá fora e alguém dá-me um copo de vinho quando entro.

Dou uma volta pela loja, gosto da decoração simples, dos cheiros e descubro um pequeno canto com uma poltrona e uma mesa cheia de livros.

Fico ali uns minutos a folhear os livros, alguns muito manuseados, sinal de que foram lidos e relidos, amados.

" Quem quiser ler sossegado, este é o sítio ideal. Pode trazer o seu próprio livro ou ler um destes." diz uma voz por trás de mim.

Volto-me, é uma rapariga não muito alta, vestida com simplicidade, mas o que me chama verdadeiramente a atenção é o cabelo preto com uma madeixa azul.

" Chamo-me Teresa, esta é a minha loja. Obrigada por ter vindo, esteja à vontade..." e com um sorriso que lhe ilumina também os olhos, deixa-me sozinha.

CONTINUA

domingo, 17 de maio de 2020

O CONCURSO - PARTE III


" Vamos sair daqui!" aconselha a Camila e arrasta-me até ao corredor onde estão as casas de banho.

Lá fora, as pessoas continuam a conversar ruidosamente, será que não podem falar mais baixo, pergunto.

Conto em breves palavras o que se passou, a Camila fica indignada e diz:

" O Jaime está parvo ou faz-se? A que propósito vais vender o carro e dividir o dinheiro com ele? E já tem comprador? Ai, vou dizer-lhes umas verdades!" mas eu impeço-a.

Para quê? Vamos discutir um assunto que não tem discussão, não vou vender o carro e não se fala mais nisso, argumento.

A Camila não concorda, mas acaba por ceder e saímos discretamente. 

Acho que ninguém vai sentir a nossa falta, alguém ligou o microfone, está a cantar uma canção muito antiga e todos acompanham o refrão.

A noite está fria, respiro fundo. Sinto-me melhor e resolvo fazer um chá quando chegamos a casa.

O telemóvel vibra, é um SMS do Jaime, mas a Camila apaga-o.

O dia seguinte é calmo, o Jaime não envia mais SMS e pensamos que o assunto está resolvido.

Mal vejo o Jaime no emprego, tenho uma série de reuniões no exterior e ter o meu próprio carro ajuda-me imenso, porque posso gerir o tempo doutra maneira.

O Jaime continua a enviar SMS, um deles é tão insultuoso que a Camila acha que não o devemos ignorar.

" Não vou dizer mais nada; que ideia a dele!" respondo.

" Se não falas tu, falo eu. Parece um catraio furioso porque não lhe deram o brinquedo que escolheu!" diz a Camila e envia um SMS ao Jaime a marcar um encontro numa confeitaria ali perto.

O Jaime já lá está, pediu um café e uma nata, pergunta-nos quando nos vê se vamos tomar alguma coisa.

Pedimos também café e natas e o Jaime vai directo ao assunto:

" O comprador espera até ao final da próxima semana. Vai querer os documentos para o passar para o nome dele. Se os tiveres, dá-mos e eu entrego. Quanto mais cedo resolvermos isto, melhor!"

" Não sei o que se está a passar pela tua cabeça para decidires pura e simplesmente que a Joana vai vender o carro!" responde a Camila " Ela ganhou o carro e vai ficar com ele!"

" Mas se ela o ganhou, foi porque eu a inscrevi no concurso!" repete o Jaime " É justo que partilhe o prémio comigo, estava implícito!" 

" IMPLÍCITO?" a Camila quase grita.

CONTINUA

sábado, 16 de maio de 2020

O CONCURSO - PARTE II


Como sempre, o Bar do Metro está lotado e é difícil chegar ao bar, mas alguém dá-me uma bebida.

Recebo imensos abraços, palmadas nas costas e o Jaime grita bem alto " A nossa heroína!".

As pessoas riem-se e pedem mais uma bebida. 

Depois, dispersam-se em grupos e acabo por ficar sozinha num canto.

A Camila encontra uns amigos, fica a conversar com eles e o Jaime abre caminho até onde estou.

" Já arranjei comprador para o carro!" segreda e eu peço-lhe para repetir.

Não ouvi bem, comprador para o carro?. O Jaime volta a dizer:

" Sim, encontrei um comprador para o carro. Paga a dinheiro e dividimos em partes iguais!"

" O quê??? " grito para me fazer ouvir " Estás doido? A que propósito vou vender o carro? "

" Mas é justo! Fui eu quem te inscrevi e se ganhaste, foi porque eu te ajudei!" comenta o colega.

" Não vou vender o carro, nunca me passou isso pela cabeça! A que propósito?" exclamo e vejo que já estamos a chamar a atenção de algumas pessoas.

A Camila apressa-se a deixar os amigos, está muito séria, os olhos chispam fúria.

" O que é que se passa aqui? Vocês estão doidos? " pergunta " Calem-se, está toda a gente a ouvir!"

E, na verdade as pessoas que estão perto de nós pararam de conversar e escutam avidamente.

Tenho quase a certeza de que já estão a fazer apostas sobre o que se está a passar e se vai haver violência.

CONTINUA


sexta-feira, 15 de maio de 2020

O CONCURSO


O problema começou quando o meu colega Jaime achou que seria uma boa ideia participarmos naquele concurso ridículo da televisão.

Estávamos sentados a tomar um copo no Bar do Metro, decorado tal e qual como uma carruagem do metro e tão lotado como aquele na hora de ponta.

Acedi, talvez porque estava a ficar com dores de cabeça por causa das conversas ruidosas.

No outro dia, já nem me lembrava da conversa, mas o Jaime já tinha feito a inscrição e lá fomos os dois prestar provas.

O Jaime foi eliminado numa das provas, mas eu passei à final.

" Vê lá se te acalmas... não te precipites nas respostas." aconselha o Jaime " E, se ganhares, tens que repartir o prémio comigo!"

" Estás doido? A que propósito? " protesto e a Camila, a minha irmã que me acompanhava disse:

" Francamente! Que ideia, Jaime!" e baixinho, comenta:

" Eu não te disse? Não se pode confiar nele!" e o Jaime continua a falar, ignorando as observações.

" Então? Estás aqui porque eu te inscrevi!" e repete a afirmação, mesmo quando a Camila lhe chama a atenção para o facto de ter sido eu e mais ninguém quem conseguiu passar à final.

Não sei como, respondo acertadamente a todas as questões e ganho um carro.

A Camila e o Jaime gritam como doidos e eu estou tão espantada que nem reajo.

Regressamos a casa exaustos e roucos de tanto gritar e o Jaime envia um SMS no dia seguinte a informar que organizou uma festa naquela noite no Bar do Metro.

" Já estou cansada de ir ao Bar do Metro! Está sempre tão cheio, mal se pode conversar." queixo-me.

" Falaram-me de um Bar ali perto da Rotunda. A decoração é dos anos 20, os empregados estão vestidos à época e há sempre noites temáticas!" conta a Camila " Queres lá ir um dia destes? "

" Hoje. não pode ser, porque o Jaime organizou a tal festa e seria falta de educação não aparecer. No fim de semana? " sugiro.

" Mas não dizemos nada ao Jaime. Aquele teu colega parece um menino grande!" desabafa a minha irmã.

CONTINUA