domingo, 29 de abril de 2018

O VIDRO DA PORTA - PARTE II


Eu e a Sofia varremos os vidros enquanto o Amadeu desce à arrecadação para ver se encontra alguma coisa para tapar o buraco.

Acha que a empresa que os rapazes contactaram não vai resolver o problema.

Também tenho a mesma opinião, mas não quero desapontar os rapazes. Foram muito correctos: assumiram a culpa e tentaram ajudar.

O António está sentado nas escadas a fumar um cigarro. Sofia olha-o de vez em quando; parece nervosa, distraída.

Proponho fazer um chá enquanto esperamos. Os homens recusam; o Amadeu encontrou uma placa de madeira e os dois querem ver se a conseguem pregar.

Sentamo-nos na cozinha. Vamos passar o resto da noite acordados... 

Revejo mentalmente a minha agenda; talvez possa adiar a reunião para a tarde.

" A Luisa trabalha em quê? " pergunta-me a Sofia.

" Tenho uma pequena empresa de serviços. E, a Sofia? " questiono-a. 

" Sou recepcionista num gabinete médico. Em part-time, mas fizeram-me uma proposta para trabalhar a tempo inteiro." explica a minha vizinha.

" Isso é bom. Vai ganhar mais, ter mais regalias." comento, mas noto que a Sofia está quase a chorar.

" O que se passa? Tem alguma dúvida sobre a proposta? Sobre o ordenado? Se quiser que leia... " mas a Sofia interrompe-me.

" Não, não, é uma boa proposta. O António não quer que aceite. Foi muito difícil convence-lo a deixar-me trabalhar part-time e agora, nem quer discutir o assunto!" lastima-se a Sofia.

Fico chocada. O António não parece ser um homem antiquado.


CONTINUA 


sábado, 28 de abril de 2018

O VIDRO DA PORTA



" Estou aborrecida... " suspiro e viro-me.  

Não encontro uma posição confortável na cama e acabo por me levantar.

Uma da manhã! Levanto-me dentro de cinco horas e estou com insónias!

" Mas aborrecida porquê? " pergunta-me aquela vozinha que ninguém mais escuta.

Só eu... Em noites como esta em que acho que sou a pior pessoa do Mundo.

" Quase toda a gente tem dias assim! Porque é que tu hás-de ser diferente?" insiste a vozinha.

Mas varro essas considerações da mente quando ouço uma porta a bater com tanta força que alguma coisa parte.

" O que se passa? " e saio para o patamar.  Viver no rês-do-chão tem os seus inconvenientes.

Ah, são os estudantes do quinto andar que partiram o vidro da porta da rua.

Vêem-me e apressam-se a pedir-me desculpa.

" Desculpe... A porta fugiu-me da mão... " diz um.

" Pois e agora? Já viram as horas que são? " pergunto " O que vamos fazer? Isto é um perigo; podemos ser assaltados! "

" Uma dessas empresas que está aberta 24 horas por dia." sugere o outro e começa a pesquisar na Net.

O António e a Sofia, que moram no primeiro andar, aparecem e ficam também preocupados com a situação.

" Mas vocês não têm cuidado? Esta gente jovem é tão tonta! " comenta a Sofia.

" O que se passa? " grita o Amadeu lá de cima do terceiro andar.

" Partiram o vidro da porta!" responde o António.


CONTINUA







quarta-feira, 25 de abril de 2018

BERNARDES - FIM


" Conclusão: acham que sou novo demais para ser promovido a Inspector!" comunico ao Tavares e ao Torcato quando nos encontramos no café ao fim da tarde.

" Será que posso pedir transferência para os Crimes Informáticos?" pergunta o Tavares.

" E a minha para a Brigada Anti-Fraude? " suspira o Torcato.

" Temos que esperar. O Mateus diz que o chefe ainda não tomou uma decisão... O mais certo é sermos incorporados noutra unidade. Ai, Leandro, Leandro, porque é que tinhas que morrer? " resmungo.

" Porque é que te chateaste com este? " questiona o Tavares.

É muito frustrante trabalhar assim... sem saber exactamente o que vai acontecer com o fim da investigação.

Que prova que o Inspector Leandro nos treinou muito bem... 

Mas não pesa na decisão do Chefe.

Aceitam o pedido de transferência do Tavares para os Crimes Informáticos e o Torcato vai para os Crimes Violentos.

Eu ??? 

O Inspector Mateus pede para eu integrar a Unidade dele, uma vez que o sargento vai ser promovido.

O Inspector parece ser um homem justo, creio que não vou ter problemas com ele, mas não posso negar que tenho saudades do Leandro.

Só espero tornar-me um Inspector tão bom como ele.

FIM

segunda-feira, 23 de abril de 2018

BERNARDES - PARTE V


Quando regresso, dizem-me que o Inspector vai ser transferido e o Inspector Mateus tomará conta da investigação.

Provisoriamente, acrescentam, sem mais explicações.

O Torcato encolhe os ombros e o Tavares limita-se a passar-me as notas.

Porque eu tenho razão: o local onde foi encontrado o corpo era uma casa "segura" do Gangue da Paixão, mas tem estado abandonada, porque a Brigada Anti-Droga fez lá uma rusga e apreendeu vários quilos de heroína e alguns milhares de euros.

Onde opera agora o Gangue da Paixão, a Brigada ainda não descobriu, mas, atendendo à forma violenta como o homem morreu, tudo leva a crer que foi um ajuste de contas.

" Dizem que são brutais." comenta o Tavares. " Já foi identificado? "

" Ainda não! Mas pode estar relacionado com o Gangue, porque um dos meus contactos disse - me que houve uma luta entre os da Paixão e da Boa Vida." comenta o Torcato.

" Luta pela rota ou pela zona? " pergunta o Inspector Mateus.

" Talvez as duas coisas! Temos algum contacto com a Gangue da Boa Vida? " sugiro e o Inspector Mateus concorda.

O Tavares e o Torcato voltam a sair e o Inspector pede para me sentar.

" Esta situação com o novo Inspector não é bom para ninguém, Bernardes. É provável que haja alguma sanção disciplinar, o Chefe ainda não decidiu. Como também ainda não decidiu o que vai fazer com a Unidade!" declara.

" Acha que a vai desmantelar? Ou incorporar noutra unidade? " questiono.

" Não sei, Bernardes. Mas é possível que sim! A outra hipótese é destacar-vos para outras unidades. " responde Mateus " Há quantos anos é Sargento, Bernardes? "


CONTINUA

sábado, 21 de abril de 2018

BERNARDES - PARTE IV


Os dias são enfadonhos na unidade a rever pormenores já confirmados e é com alívio que tomamos conta de um novo caso.

O local do crime não é me estranho e confesso ao Torcato que poderá ser uma boa ideia contactar a Brigada Anti-Drogas.

" Houve qualquer coisa relacionado com aquela casa no ano passado. Tenta saber se pertence a algum gangue, se há alguma guerra... enfim, tudo o que puderes saber." digo.

" Ainda não sabemos quem é!" interrompe o inspector " Temos que esperar pela autopsia. Eu já disse que sou eu quem decide como a investigação vai ser feita!"

" Mas aquele é um local conhecido por guerras de gangues e droga! É uma linha a seguir!" explico.

"NÃO! JÁ DISSE QUE NÃO! VAMOS ESPERAR PELA AUTOPSIA!" grita o inspector.

" Mas o que é que quer fazer então? Não diz o que pensa, veta toda e qualquer ideia, obriga-nos a rever detalhes que já foram verificados... temos uma pessoa morta num local que sabemos que pode estar na fronteira de guerra de gangues e temos que esperar pela autopsia??? " expludo.

" O que é que se passa aqui? " pergunta o Chefe que entrou sem nos apercebermos.

O Inspector cora e dá uma breve explicação. O Chefe fica calado por uns segundos e diz:

" O Bernardes quer falar com a Brigada Anti-Drogas? Acha que o crime está relacionado com drogas?... Sim, também concordo consigo, Bernardes. E pessoas desaparecidas? O Tavares pode tratar disso e o Torcato volta ao local do crime para interrogar vizinhos, etc." decide.

O Tavares e o Torcato desaparecem e ficamos os três em silêncio no meio da sala.

O Chefe olha severamente para o Inspector, este abre a boca para falar, mas acaba por não dizer nada.

" Bernardes, vá falar com a Brigada e depois com o médico legista. Eu e o senhor inspector vamos ter uma pequena reunião."


CONTINUA


quinta-feira, 19 de abril de 2018

BERNARDES - PARTE III


" Nem o Inspector Leandro permitia! " contraponho " Mas consentia que seguíssemos a nossa ideia. Até certo ponto, porque a última palavra era dele, mas permitia que explorássemos outras linhas de investigação."

O novo Inspector fica muito sério e repete:

" Eu comando esta unidade e determino o que se faz. Estamos entendidos? " e faz-me sinal para sair.

Como se eu quisesse ficar no gabinete mais um minuto!

Ao fim da tarde, antes de irmos para casa resolvemos ir até ao café perto da esquadra.

" Vamos ter sérios problemas com este idiota!" diz o Tavares.

" Tem cuidado com a língua!" aconselha o Torcato " Mas não posso negar que tens razão! Vamos perder tanto tempo a confirmar aqueles depoimentos! Não sei o que ele quer fazer!"

" Eu também não!" confesso " Ele é que comanda a unidade e ai de quem o desafiar... foi muito claro nisso!"

" Que é que vais fazer? " questiona o Torcato.

" Se me chatear muito, peço transferência para outra unidade!" decide o Tavares.

Dou por mim a pensar no mesmo.


CONTINUA
 

terça-feira, 17 de abril de 2018

BERNARDES - PARTE II


O novo inspector interrompe o silêncio desconfortável. 

Tem uma voz baixa, educada, mas um pouco ríspida.

" A morte do Inspector Leandro foi um choque para todos. Contudo, temos que superar esta situação e não deixar que a equipa fique à deriva. Tenho a certeza de que, juntos vamos fazer um bom trabalho. Reunião no meu gabinete dentro de uma hora para actualização."  e entra no antigo gabinete do Leandro.

" Deriva... uma ova! " comenta o Tavares " Somos profissionais!"

" Juntos vamos fazer um bom trabalho!" imita o Torcato, acrescentando " Dandy!"

" Calem-se! Como diz o Tavares, vamos ser profissionais! Quem sabe? Pode ser tão bom como o Inspector Leandro." observo, mas tenho as minhas dúvidas.

O novo Inspector cansa-nos com detalhes e constantes pedidos de explicação.

Leandro era exigente, mas estava aberto a sugestões e ouvia-nos sem interromper como este.

" Não estou a entender! Foi uma perda de tempo seguir esta linha de interrogatório! Digo já que não vou admitir isto! Quero que revejam estes relatórios e voltem a contactar as testemunhas!" diz.

O Torcato e o Tavares pegam nos processos e saem da sala. Preparo-me para fazer o mesmo, mas o Inspector impede-me:

" Sargento Bernardes, como elemento mais graduado, espero da sua parte total colaboração. Não quero atalhos nem explicações sem pés nem cabeça! "

CONTINUA      


domingo, 15 de abril de 2018

BERNARDES


" Matei o Inspector Leandro!" e acordo todo suado.

Tenho todas as noites o mesmo pesadelo... 

A morte do Inspector foi um acontecimento traumático; abriram fogo, ripostei e procurei um abrigo, convencido de que o Inspector me seguia.

Mas não; tinha sido atingido mortalmente e, embora ainda respirasse quando o tiroteio terminou, não sobreviveu.

Houve um inquérito, uma reconstituição do tiroteio e concluiu-se que o Inspector foi morto pelos membros do gangue, que estão a monte.

Não sei porque me sinto tão culpado quando a culpa não foi minha.

É o que a minha mulher e o psiquiatra dizem... o inspector não reagiu a tempo, estava ferido demais...

Tenho que ir trabalhar... Temporariamente, até nomearem outro inspector, sou responsável pela equipa.

Para já, estamos só a fazer trabalho de secretária... O Tavares não se importa, mas o Torcato odeia.

Quando chego, o Chefe já lá está.  Está acompanhado por um homem alto, magro, de cabelo ruivo cortado à escovinha e dom olhos verdes.

Veste um fato cinzento, uma camisa branca e uma gravata azul escura. Um modelo, penso, olhando para o Torcato de calças de ganga e T-Shirt e o Tavares, de blusão de cabedal preto tipo motard.

" Oh, Bernardes, este é o Inspector Carlos Neiva. Vai assumir o comando da equipa. Ponha-o a par dos casos em aberto, está bem? pede-me o Chefe e, sem esperar resposta, saí da sala.

Ficamos os quatro a olhar uns para os outros num silêncio embaraçado.

CONTINUA




sexta-feira, 13 de abril de 2018

O FIM DO LIVRO - O FIM




A autopsia revela que a senhora morreu de causas naturais. 

Um ataque de coração fulminante e tanto o médico de família como o filho confirmaram que ela não se sentia bem há alguns dias.

A única coisa de que o investigador tinha culpa era ter saído de casa sem se ter apercebido de que a mulher estava a morrer.

" Porque... " diz-me a D.Guida, deliciada " ele ouviu os senhores baterem à porta, admitiu isso à Polícia. Mas estava a fazer as malas e saiu pela porta da cozinha, indo directo para a garagem. Deixou-a sozinha na sala e tadinha, morreu sozinha!" acrescenta.

" Pois... Sabe o que vão fazer do andar? " desvio a conversa para outros assuntos e D.Guida responde imediatamente.

" Ah, nem o marido nem o filho querem a casa; vão vender... Se bem que é melhor não dizerem que morreu lá uma pessoa... " comenta.

Sorri, pois tenho a certeza absoluta de que arranjará uma maneira de o dizer aos futuros inquilinos.

Termino o meu livro antes do prazo. 

O Jorge pressiona-me, pois quer saber todos os detalhes da história, mas eu convenço-o a ir ao lançamento.

Tenho uma surpresa para ele e ele fica sem palavras quando abre o livro e lê a dedicatória.

" Aos meus amigos, Jorge e D.Guida
Por estarem presentes... 
Por me fazerem rir com ideias mirabolantes."




FIM


quarta-feira, 11 de abril de 2018

O FIM DO LIVRO - PARTE V


Respondo calmamente às perguntas dos dois polícias. 

Eles querem apenas confirmar os acontecimentos da noite passada e quando pergunto porquê, apenas dizem que a senhora está morta e estão a tentar localizar o marido.

" Muito calados, não acha? " comenta a D.Guida

" Ainda é cedo para dizerem qualquer coisa.  Quem sabe? A senhora pode ter tido um ataque de coração fulminante!" digo.

" Não conseguiste saber nada? Mesmo nada?" interroga-me o Jorge ao almoço.

" Não. Estão apenas a inteirar-se dos factos. Mas que é estranho ele ter desaparecido... é!" confesso.

" Tens a certeza de que ele estava lá? Quem te diz que não gravaram a discussão antes? " sugere o meu amigo.

Olho-o surpreendido. É uma possibilidade... Com as novas tecnologias, tudo é possível.

" É uma possibilidade... não digo que não... Mas não a vou partilhar com a polícia! " acrescento.

Jorge ri-se e diz:

" Depois não digas que não te dou boas ideias!"

A verdade é que os acontecimentos da noite anterior fazem com que reescreva o enredo já alinhavado na minha mente.

O meu editor fica admirado quando lhe envio o primeiro rascunho.

" OH, ISTO É UMA MARAVILHA!" grita tanto ao telefone que a D.Guida se assusta.

Mas o que terá verdadeiramente acontecido no andar de cima?


CONTINUA

segunda-feira, 9 de abril de 2018

O FIM DO LIVRO - PARTE IV


Está zangado, pois, explica, tem um exame dali a umas horas e precisa de descansar.

" Não podemos fazer nada? " interroga e o Senhor Sousa, que vive no 1º Andar e que esteve sempre calado, decide.

" Vamos bater à porta e manifestar-lhe o nosso descontentamento. Amanhã manda-se um mail ao Administrador e diz-se que, se houver uma próxima vez, chama-se a polícia." e começa a subir as escadas.

Os homens seguem-nos e as senhoras ficam a comentar o caso no patamar. 

A discussão tinha cessado, entretanto, mas mesmo assim, o Sousa toca à campainha.

Ninguém atende, mas o Sousa não desiste e dá uma pancada na porta, dizendo bem alto para todos ouvirem.

" Não toleramos mais isto, Dr Mesquita! Vamos apresentar uma queixa formal ao Condominio e, se houver uma próxima vez, chamamos de imediato a polícia!" 

Ainda esperamos uns minutos, mas, como nem o Dr Mesquita nem a mulher abriram a porta (que falta de educação, diz a D.Luisa), regressamos às nossas casas, pensando que o pior tinha passado.

Mas o pior ainda estava para acontecerA D.Guida acorda-me no dia seguinte, muito nervosa e segreda-me:

" Estão dois polícias na sala à sua espera! Bem lhe disse que o Dr ainda estava a dormir, mas eles pediram para o acordar."

" Mas o que se passa? " resmungo, enquanto enfio um roupão e calco os chinelos.

" Parece que o investigador matou a mulher!" sussurra a D.Guida.

CONTINUA     

sexta-feira, 6 de abril de 2018

O FIM DO LIVRO - PARTE III




Nessa noite, estala uma discussão no andar de cima.  

Ouço qualquer coisa a cair... Terá sido a senhora?...

" Já sei que ele esteve cá! Não mintas!" diz o investigador.

Não consigo perceber a resposta da senhora, mas não deve ter agradado ao marido, porque uma porta fecha-se com estrondo.

Fica tudo em silêncio e resolvo reler as minhas notas.

Escrevo no Google " violência doméstica?"  e aparecem-me várias artigos que leio atentamente.
  
Deparo-me com o contacto da APAV e envio de imediato um mail, a solicitar uma entrevista.

Satisfeito com a pesquisa, deito-me por volta das duas da manhã.

Acordo duas horas depois em sobressalto.

Os meus vizinhos estão a ter uma nova discussão

Está a ser bastante violenta e não sou só eu quem sai para o patamar. 

Encontro aí os vizinhos de baixo e eles perguntam-me:

" O que acha? Chamamos a Polícia ou batemos à porta? " sugere a D.Luisa do segundo andar.

" Não vale a pena avisar o Administrador. Ele está fora; temos que ser nós a resolver o assunto!" avisa o Dr Gonçalves do primeiro andar.

Alguém desce as escadas. É o estudante que alugou a casa do casal que está a viver temporariamente na Bélgica.

CONTINUA 

  

 






quarta-feira, 4 de abril de 2018

O FIM DO LIVRO - PARTE II


Nesse dia, quando regresso a casa, ouço vozes no patamar do andar de cima.

É a voz de uma mulher, clara, educada:

" É melhor que ele não te encontre aqui. Desce pelas escadas... tem cuidado, não deixes que ele te veja."

Entro apressadamente em casa, mas não fecho totalmente a porta.

É um rapaz com vinte e poucos anos que desce. Tem cabelo ruivo, um pouco comprido e veste umas calças pretas e um anorak preto.

Lá em cima, a porta bate. A vizinha já deve ter entrado e uns segundos depois, o elevador sobe e para naquele andar.

" Hum, quem será o rapaz? " murmuro " Amante dela? " mas a D.Guida trata de me elucidar na manhã seguinte.

" Sabe quem vi sair ontem daqui do prédio? " e continua sem esperar pelo meu acordo " O filho dos vizinhos de cima."

" Ah, eles têm um filho? " pergunto.

" Sim, deve ter 22, 23 anos. Estão zangados, disse a Madalena da mercearia. Ao que parece, o pai queria que fosse advogado ou coisa assim parecida, mas o rapaz é dado às artes. Por isso, saiu de casa e deve visitar a mãe às escondidas do pai." 

A D.Guida sorri-me e confessa:

" Não percebo qual é o problema. Os filhos têm que ser felizes, não acha?" e, sem esperar por resposta, entra na casa de banho.

Isto muda completamente o enredo.

CONTINUA

segunda-feira, 2 de abril de 2018

O FIM DO LIVRO


Devia começar esta história pelo fim...

A discussão violenta do andar de cima distraiu-me e acabei por ficar a olhar para o écran, sem saber o que escrever.

" O que fizeste? " pergunta o Jorge ao almoço no dia seguinte. " Bateste à porta, telefonaste à polícia?"

" Não, enviei um mail à Administração do Condomínio." replico.

O Jorge sorri. É consultor financeiro; deu-me boas dicas para uma das minhas personagens, mas não lê os meus livros. 

Diz que conhece as personagens tão bem como eu, está ciente das dúvidas e medos de cada uma delas de tanto me ouvir falar. 

Se lesse e o enredo fosse diferente do que pensou, teria uma grande desilusão.

" Mas o que sabes sobre esses teus vizinhos? " insiste.

" Pouco. Sei que ele é investigador e ela professora numa universidade. Quem me contou foi a D.Guida, a senhora que me faz a limpeza." comento.

" Violência doméstica? Estará ele envolvido com uma colega? Ou é ela? " sugere o Jorge. " Vais escrever sobre isso? "

Por acaso, já tinha pensado nisso...


CONTINUA 

 

domingo, 1 de abril de 2018

PAZ



Ups,mais um dia!

Mais uma grande confusão! Porque tenho a impressão de que não controlo nada...

E sinto-me estúpida... 

Talvez porque sinto que isto não é um desafio e eu gosto de um desafio...

Por isso, hoje celebro sozinha a Páscoa...

Por ser egoísta e os egoístas morrem sozinhos? 

Por ser misteriosa? Mas há certos aspectos da nossa vida que são só nossos...

Inveja? Mas inveja de quê? Se tenho tudo o que preciso?

Por isso, o que é que está a correr mal?

Mas hoje não é um bom dia para pensar nisso.

Porque é Páscoa e preciso de PAZ....


BOA PÁSCOA PARA TODOS