terça-feira, 31 de março de 2020

A HISTÓRIA DO GONÇALO - PARTE II


" Ainda bem!" comenta a Laura quando sabe e o Gonçalo pergunta:

" Porquê? Nem fizeste um esforço para a conheceres! "

" Era óbvio que ela queria controlar tudo! E tu deixavas!" acusa a Laura e o Pedro apressa-se a intervir, pois nota que o Gonçalo está a ficar irritado.

" Basta! Vamos terminar este capítulo, porque a única pessoa que podia decidir alguma coisa era o Gonçalo.  Decidiu terminar com a Luísa e não foi só por causa do que aconteceu no fim de semana? "

" Não, eles estavam a ter problemas e isso foi a gota de água!" explica o António " O que não significa que não se tenha que falar no que aconteceu no fim de semana. Porque tu exageraste, Laura e tens que aprender a controlar-te."

" Estava na minha casa e ela aproveitou-se da minha confiança." defende-se a Laura.

" Talvez a Luísa tenha abusado, não digo que não, mas tu não lhe disseste nada. Não disseste onde podia encontrar a toalha, que pratos devia usar, etc." diz o Pedro.

" Ah, agora a culpa é minha?" refila a mulher.

" Em parte, sim." concorda o António " A Luísa pensou que lhe deste carta branca, o que não foi nada diplomático da parte dela, mas tu deste azo a isso."

" Resumindo, o mau da fita sou eu!" explode a Laura.

" Não, estás a fazer-te de vitima e aqui não há vitimas. Há apenas pessoas com atitudes infantis." remata o Gonçalo " Podemos falar de outra coisa? Estou cansado deste assunto."

" Uma boa ideia!" e a Laura senta-se amuada.

O Pedro e o António olham um para o outro e o Pedro abana a cabeça, não adianta, não vai admitir que pode estar errada.

" Sabem, sugeri ao António que me apresentasse à Rita." comenta o Gonçalo.

" À Rita???" tanto o Pedro como a Laura estão surpreendidos " Pelo que diz o António, a Rita deve ter para aí os seus trinta e picos, se não mesmo os quarenta!" observa a irmã.

" O que é que isso importa? " insiste o Gonçalo e olha significativamente para o António.

CONTINUA

segunda-feira, 30 de março de 2020

A HISTÓRIA DO GONÇALO


" Sinceramente, não sei se hei-de bater à Laura ou agradecer-lhe!" suspira o Gonçalo.

O António sorri e diz:

" Anima-te! A nossa irmã exagerou, mas estou a ver que a Luísa é tão infantil como ela! "

" Não estávamos bem..." confessa o Gonçalo " Não foi promovida e ficou muito aborrecida. Disse logo que a colega era uma lambe-botas, que se aproveitava dos outros, etc..."

" A Luísa tem 27, 28 anos? Talvez a considerassem nova demais... quem sabe? daqui a um, dois anos, podia receber essa promoção ou um cargo mais aliciante!" considera o António.

" Foi o que lhe disse, mas a Luísa viu logo uma conspiração contra ela e esse passou a ser um tema tabu. Depois, para piorar as coisas, recebi aquela oferta de trabalho, lembras-te?...e ela não gostou nada." conta o irmão.

" Que estupidez! Porque é que não tentou encontrar outra coisa? Porque é que ficou a remoer um assunto que está resolvido? " pergunta o António.

" Não sei. Só sei que começamos a discutir por causa da cena que se passou em casa da Laura e acabamos com ela a acusar-me de ser um " estorvo " na carreira dela!" e o Gonçalo volta a suspirar.

" Não sei o que te diga! Sempre a achei arrogante e calculista, mas agora..." e o António abana a cabeça incrédulo.

" Acho que gostaria de conhecer essa tal Rita... a tua colega no Clube de Leitura!" sugere o Gonçalo.

" Estás maluco, pá! " reage o António " A Rita é uma mulher sofisticada, está lá interessada em conhecer um fedelho como tu!"

O Gonçalo atira-lhe uma almofada que o António devolve com violência.


CONTINUA

domingo, 29 de março de 2020

A AULA DE CULINÁRIA -FIM


" Vais imitar o António? " a Laura tenta gracejar.

" Não, não vou imitar o António, vou concordar com o António." diz o Pedro muito sério " O que aconteceu hoje... não tenho a palavra correcta para definir. Apenas posso dizer que foste malcriada e infantil."

" Eu? Malcriada e infantil? " repete a Laura " Então, e a Luísa? "

" Não estou a defender a Luísa, ela também teve culpa, mas tu és a minha mulher e é sobre a tua atitude que devemos falar. Supostamente, esta aula de culinária é para nos divertirmos e agora é um campo de batalha. Tu e a Luísa declararam guerra uma à outra, hoje foi prova disso!" afirma o Pedro.

" Quero lá saber da Luísa. É uma arrogante, uma idiota!" responde a mulher.

" Então, ignora-a. Mantém a distância, sê simpática o suficiente para não afastares o Gonçalo. Eu também não gosto dela, há qualquer coisa nela que não me agrada, mas o Gonçalo é meu amigo há anos e não quero que nada interfira nessa amizade." explica o Pedro.

" Tenho medo que ela afaste o Gonçalo de nós. Foi por isso que reagi daquela maneira." confessa a Laura " Tenho que lhe pedir desculpas, não é? "

" Com um grande almoço." e com um beijo, volta para o quarto de hóspedes. Têm muito em que pensar, os dois.

O único que passa a noite em paz é o António.

A cena foi deplorável, tem que conversar novamente com a irmã, ela tem que pensar um pouco mais antes de falar.

Se bem que a Luísa abusou um pouco... é fria, calculista, o António não percebe o que é que o Gonçalo viu nela.

Também tem que falar com o Gonçalo, aquelas duas têm que se entender.

Mas o Gonçalo telefona-lhe na manhã seguinte, a Luísa fez as malas e voltou para casa dos Pais, podem almoçar juntos?

Em casa da Laura e do Pedro, a situação não é melhor.

Pouco falam, ambos sabem que é ridículo estarem zangados por causa da Luísa, mas ainda têm que esclarecer algumas questões e não se sentem preparados para isso.

Ficam sobressaltados quando o António telefona e lhes comunica que haverá uma reunião familiar ao fim da tarde na casa dele.

" O que aconteceu? " quis saber a Laura, ah, meu Deus, vou ouvir novo sermão por causa da Luísa.

Mas o António não diz mais nada e resta esperar pelas seis da tarde (nem um minuto antes, nem um minuto depois, diz o Pedro) para saber o que o irmão mais velho tem a dizer.

Sobre a Luísa, sobre a Laura, sobre o que é mais importante na vida: a família.


FIM

sábado, 28 de março de 2020

A AULA DE CULINÁRIA - PARTE V


" Ups, julguei que a Laura me batia!" digo quando chegamos a casa nessa noite.

O frango estava óptimo, mas creio que só eu e o Gonçalo é que comemos com satisfação.

O Pedro estava preocupado e o António continuava zangado. 

A Laura fechou-se no quarto, recusou-se a jantar.

Por isso, saímos os três depois de ajudarmos o Pedro a limpar.

" Mas tu também exageraste!" admite o Gonçalo " Não quiseste participar na aula, só porque te magoaste na anterior e depois, fazes uma coisa destas!"

" Mas o que é que eu fiz? Ir ao armário buscar uma toalha e o serviço de jantar? Decorar uma mesa decentemente? Por amor de Deus, poupa-me! " pergunto.

" Mesmo assim... a casa não é tua!" insiste o Gonçalo.

" A tua irmã é uma mimada!" grito e a discussão torna-se azeda.

Entretanto, o Pedro tenta convencer a Laura a abrir a porta.

" Laura, isto é um disparate! Queres fazer o favor de abrir a porta e falar comigo como uma pessoa adulta? "

Silêncio e o Pedro começa a ficar desesperado.

" Amuar não resolve nada. Ok, a Luísa até pode ter agido mal, mas a tua atitude deixa muito a desejar. E fechares-te no quarto e recusares-te a falar com os outros não vai resolver nada."

A Laura não responde, estará a dormir? mas o Pedro acha que não.

" Laura, por favor abre a porta e fala comigo!" repete, mas não há qualquer reacção por parte da mulher.

Suspira, lá terei que dormir no quarto de hóspedes. Mas não consegue adormecer.

Uma hora depois, sente a porta do quarto deles a abrir-se.

Pois, pensa, está com fome, vai comer qualquer coisa e segue-a devagarinho.

A Laura está na cozinha a preparar uma sanduíche com o frango que sobrou e fica sobressaltada quando o vê entrar.

" Agora, vamos conversar e não, não admito desculpas!" anuncia.

CONTINUA


sexta-feira, 27 de março de 2020

A AULA DE CULINÁRIA - PARTE IV


" Laura, Laura... o que é que aconteceu? " pergunta o Pedro e ao ver a mesa, exclama " Ups! Esta mesa está fantástica! Foste tu, Luísa?"

" Sem sombra de dúvida! A Laura é um pouco trapalhona nesse aspecto!" acrescenta o Gonçalo e a Laura dá-lhe uma palmada no braço.

" Até pode estar fantástica, mas a Luísa não tinha nada que dispor das minhas coisas sem falar comigo primeiro!" queixa-se a Laura.

" Não achas que estás a exagerar, Laura? Foi ela que se ofereceu para o fazer, já está à vontade na casa... Qual é o problema? Acho que devias pedir desculpa à Luísa!" aconselha o António.

" Eu vou filmar isto..." diz o Pedro, saindo apressado.

" Sim, isto é digno de colocar no YouTube!" confirma o meu namorado.

" NINGUÉM VAI COLOCAR ISTO NO YOUTUBE!" volta a gritar a Laura.

Retenho a respiração, abro a boca para protestar, mas o António faz-me sinal para me calar.

Está com os olhos muito brilhantes e quando fala, a voz soa muito fria.

" Isto é um exagero! É o fim perfeito para a aula de culinária, o descanso do guerreiro. Por isso, não quero saber se a Luísa ultrapassou os limites, discutimos isso numa outra ocasião, mas agora, neste momento, vamos usufruir de uma refeição que nós preparamos numa cenário elegante."

Ninguém se atreve a falar e vejo que a Laura está corada, muito agitada.

Percebo agora porque é que o Gonçalo diz que tinha medo do António em miúdo.

Até eu fiquei perturbada e o António estava a defender-me.

A Laura ergue o queixo e anuncia:

" Não contem comigo para jantar!" e o Pedro segura-lhe o braço.

" Que importância tem, Laura? Estás a ser infantil!" murmura, mas a mulher ignora-o.

" Acho que o frango está pronto e o arroz também." observa o Gonçalo " Deve haver aí uma travessa, qualquer coisa."

" Sim, sim..." respondo e abro novamente o armário.

CONTINUA


quinta-feira, 26 de março de 2020

A AULA DE CULINÁRIA - PARTE III


Trago o pão que entrego ao Pedro e descubro no corredor uma jarra no corredor que utilizo para fazer o centro.

Talvez a Laura fique aborrecida por estar a alterar a ordem das coisas, mas não me preocupo muito.

Como dois irmãos gémeos podem ser tão diferentes, a Laura toda activa e expansiva e o António tão calmo, organizado.

" Aparentemente!" diz o Gonçalo uma vez que falamos sobre isso " Cuidado quando está furioso! Não eleva a voz, continua a falar pausadamente, mas é tão frio que as palavras magoam-te. Mesmo a Laura cala-se quando o vê ficar muito sério e os olhos muito brilhantes. Metia-me medo quando éramos pequenos!"

" Não me digas! O António? " comento " Quando estou furiosa, digo o que devo e o que não devo."

" Pois dizes e já te avisei para teres cuidado, principalmente com a Laura." responde o Gonçalo, que não aprecia essa minha faceta.

Já tivemos várias discussões sobre isso, tento ao máximo ser mais moderada, mas nem sempre consigo.

Suspiro, afasto-me para ver se o meu centro resulta e não podia estar melhor.

" Então, Luísa, que tal vai isso? " pergunta a Laura ao entrar na sala.

Fica parada a observar a mesa posta com toda a elegância e depois fixa o olhar em mim.

Ups, não gostou! penso.

" Parabéns, Luísa, está muito bonita! Mas podias perguntar se podias utilizar o serviço, a toalha." observa a Laura " Não é um jantar de gala, é um jantar de família."

" O que é que isso interessa? Um jantar de gala ou de família? Porque não utilizar as coisas se as tens? " 

" Não é a TUA CASA!" grita a irmã do Gonçalo " Podes fazer o que quiseres na tua casa quando a tiveres!"

A voz alterada da Laura alerta os três homens que aparecem de imediato na sala.

CONTINUA

quarta-feira, 25 de março de 2020

A AULA DE CULINÁRIA - PARTE II


O golpe é fundo, não conseguem estancar o sangue, acham melhor levar-me a uma Clínica.

Durante uns dias, não posso mexer o dedo e quando o Gonçalo me diz que a Laura está a contar comigo para a próxima aula, digo-lhe que está doido.

" Hoje, vai mostrar como se prepara e tempera um frango. Não tens que fazer nada! " protesta o Gonçalo.

Ele tanto insiste que acabo por ir.  A Laura tenta que eu faça coisas simples como misturar os temperos, mas eu recuso.

" Mas, afinal, o que é que tu queres? " pergunta a Laura exasperada.

" Posso pôr a mesa!" sugiro e, embora não muito convencida, a Laura diz-me onde estão as coisas.

Ouço as gargalhadas do Gonçalo e do Pedro na cozinha, a Laura a ralhar e o António a acalmar os ânimos.

Escolho uma toalha florida, opto por guardanapos lisos.

Ah, nem de propósito, estes pratos lisos só com o rebordo numa das cores da toalha são perfeitos.

Quem diria que a Laura tinha coisas tão bonitas! 

Geralmente, comemos na cozinha e ela usa o serviço normal e naquela reunião falhada, ela não quis correr riscos.

Não admira, porque este serviço é lindo. Deve ser da Casa Alegre, penso.

Flores, faltam flores para o centro. Há uma florista nas arcadas, ainda deve estar aberta.

Abro a porta da cozinha e digo:

" Vou lá baixo, venho já." e o Pedro pede:

" Já agora, traz pão." e eu aceno que sim.


CONTINUA


terça-feira, 24 de março de 2020

A AULA DE CULINÁRIA


Bem dizia a minha Mãe que eu devia aprender a cozinhar.

Que era uma vergonha, uma desgraça eu só saber o básico e mal! 

Mas a Eugénia, a minha irmã mais velha dizia que a vergonha era minha, nunca dela.

A Mãe não ficou muito convencida e tentava que eu fizesse um arroz, uma carne assada, mas era um verdadeiro desastre e ela desistiu.

" O que farás quando eu não estiver cá? " dizia, mas eu sorria.

Há os take-away, as refeições pré-cozinhadas, a questão fica resolvida.

Por isso, o Gonçalo surpreendeu-me com a proposta do workshop da Laura.

Pensei em recusar, mas o Gonçalo insistiu, vá lá, não seja desmancha-prazeres, vai ser engraçado, o António também vai.

Naquela tarde de sábado, em que podia estar a fazer um treino extra no ginásio, instalamos-nos os cinco na cozinha da Laura.

O Pedro vai ser o responsável pelo video e a Laura resolve explicar a finalidade cada faca.

Ups! Há uma faca para desossar? Não sabia, mas não me atrevo a confessar a minha ignorância, pois o Gonçalo e o António estão muito interessados.

A Laura pergunta se alguém quer tentar e os dois dizem logo que sim.

O António mostra-se calmo e organizado; o Gonçalo é um pouco trapalhão, mas a Laura elogia-os.

" Agora, tu, Luísa!" pede e eu ocupo o lugar dela em frente à bancada.

A Laura dá-me instruções simples, claras, mas eu faço logo um golpe fundo no dedo.

" Ai, que azelha!" grita o Gonçalo, enquanto o Pedro me arrasta até à casa de banho.

A Laura segue-nos, abre a farmácia enquanto o António fica na cozinha a limpar o caos.


CONTINUA 

segunda-feira, 23 de março de 2020

OS IRMÃOS - FIM


No dia seguinte, o António explica-me rapidamente que a recepcionista se despediu, sem dar satisfações e eles não percebem os apontamentos dela.

Também não entendem o sistema de arquivo, preciso mesmo da tua ajuda, Laura, sei que consegues e saí, está já atrasado para uma reunião no exterior.

Gosto de desafios, encaro isto como um desafio, mas até eu fico desorientada com a desorganização encontrada.

Quando o António regressa, já consegui identificar os clientes e organizar as respectivas fichas.

Já abri uma agenda electrónica para cada colaborador e sugiro ao António aderir à plataforma Asana.

Assim, todos têm acessos aos dados e podem preparar as reuniões mais facilmente.

" Tenho ainda muita coisa a organizar, mas vamos no bom caminho!" comento com o Pedro quando chego a casa.

O António veio comigo, não é dia de ir para o Clube e o Gonçalo também aparece.

" Tu tens um faro! Apareces sempre à hora de jantar! Tenho que organizar um workshop de cozinha para a Luisa." e rio-me.

O António e o Pedro olham-me muito a sério.

" Podes fazer isso online... nas redes sociais." diz o Pedro " Aqui em casa..."

" Tu cozinhas muito bem!" elogia o António " És criativa, adepta de comida saudável."

" Mas o mercado não estará um pouco saturado disso? " questiono.

" Tenho a certeza de que encontrarás uma forma de ser diferente. Comida rápida e saborosa e não trapalhona." responde o Gonçalo.

" Mas os meus part-time? " insisto, mas tanto os meus irmãos como o meu marido garantem que é tudo uma questão de organização.

E eu sou muito boa nisso.

Será que vou conseguir?


FIM

domingo, 22 de março de 2020

OS IRMÃOS - PARTE VI


A minha ideia de um Clube de Leitura caseiro não resulta.

Trazem comida tal como pedi, mas em breve, descubro que estão mais interessados em trocar receitas, discutir o resultado do jogo do dia anterior ou falar sobre os novos projectos de trabalho.

Há grupos distintos na sala, o Gonçalo e a Luisa são o centro de um deles, o Pedro conversa animadamente com o Mateus.

Eu estou com um papel na mão, é uma lista de autores de livros de terror que quero discutir com eles, mas quando tento falar, começam as piadas e eu desisto.

Escondo-me na cozinha, o Pedro segue-me.

" Lamento, Laura. Era uma boa ideia, mas...." e interrompe-se.

" Para mim... Não para eles! Mas porque é que concordaram? " pergunto.

" Sei lá... Uma oportunidade de saírem de casa, de não terem que cozinhar... Tantas razões!" e o Pedro suspira " Volta para a sala, tens que provar a quiche de espinafres. Está óptima!" sugere e arrasta-me para a sala.

Acabo por me divertir, mas estou exausta quando finalmente saem. 

O Gonçalo e a namorada ficam para me ajudarem a limpar a sala e a cozinha, recusam o café e a fatia de bolo que ofereço e despedem-se.

Eu e o Pedro continuamos sentados na cozinha.

" Amanhã à tarde, começo a trabalhar no escritório do António. Ainda não sei muito bem o que é que ele quer que eu faça. " comento.

" Amanhã, ele te dirá." responde o Pedro " Anda lá, vamos para cama. Amanhã, já não te vais lembrar do fiasco do Clube."

" Ah, mas vai haver um Clube de Leitura. Com dois membros, mas vai haver!" anuncio e o Pedro ri-se.



CONTINUA



sábado, 21 de março de 2020

OS IRMÃOS - PARTE V


O António conta-me que está a frequentar um Clube de Leitura ali perto e que está a gostar muito.

Mostra-me o livro que estão a ler, fico surpreendida com a escolha de Gabriel Garcia Márquez, mas estou a gostar e muito do brilho nos olhos do meu irmão ao discutir os pontos mais interessantes do " Cem Anos de Solidão".

Acabo também eu por comprar o livro e o Pedro pergunta-me se " vais agora fazer como o António e ir para um Clube de Leitura?".

" Não, mas estou a pensar em organizar um cá em casa!" e o Pedro fica chocado com a sugestão.

" O quê?" repete e eu sorrio.

" Há quanto tempo não lês um livro? Em papel, não digital... Não seria uma boa ideia organizarmos um Clube aqui em casa? Estávamos juntos e falávamos doutra coisa que não política e futebol!" esclareço.

" Que ideia é essa? " o Pedro está desconfiado e depois percebe " A marca com que ias trabalhar voltou atrás e a loja online está off? Lamento, Laura."

" Ainda tenho o part-time e talvez aceite a proposta do António para trabalhar na empresa dele umas horas. Mas gostava de ter uma coisa mais sólida." confesso.

" Eu sei que sim." o Pedro concorda " Tens que continuar a tentar... Fala-me lá dessa tua ideia..."

Nesse fim de semana, convidamos uns amigos e falamos na possibilidade de organizarmos um Clube de Leitura.

Alguns acham um disparate, outros até consideram uma boa ideia e há quem proponha que seja um Clube Temático, de um autor especifico.

Por votação, decide-se que vai ser um Clube Temático, reúne-se uma vez por mês na minha casa com direito a brunch ou a ceia (e todos trazem qualquer coisa, friso) e vamos abrir um blog.

O Gonçalo e a namorada são membros " compulsivos " e o António vai aparecer de vez em quando, decidiu continuar a participar no Clube onde está.

Quanto ao Pedro, não tem muita escolha; lê comigo o " Cem Anos de Solidão ", mas eu sei que é apenas para que eu fique feliz.

Por isso, esta noite, vou preparar o prato favorito dele.



CONTINUA

sexta-feira, 20 de março de 2020

OS IRMÃOS - PARTE IV


O Pedro não tem a certeza, o António também lhe " fechou" a porta quando tentou falar do assunto, mas pensa que a Graça se envolveu com alguém durante a lua de mel naquele local exótico.

Agora compreendo porque é que o António pediu para ninguém estar no aeroporto quando chegassem, nós apanhamos um táxi, deixa lá, e só me abriu a porta porque ameacei ir lá com os bombeiros e a polícia para arrombarem a porta.

Compreendo a dor, a raiva que li no olhar dele naquele dia e a recusa em discutir o assunto após me dizer que se ia divorciar.

" Grande besta!" sussurro e o Pedro afaga-me a mão.

" Vamos mas é dormir. Tenho um dia complicado amanhã." diz e adormece facilmente.

Eu dou voltas e mais voltas na cama, a relembrar aquele casamento de sonho naquela quinta mágica.

O meu irmão descontraído, feliz, a Graça sorridente naquele vestido bordado...

" Besta!" volto a murmurar e quando finalmente adormeço, só tenho pesadelos.

Naquele dia, não consigo telefonar ao António, mas no sábado à tarde, os três Mosqueteiros, ou seja, eu, o Gonçalo e o Pedro, tocamos à porta dele.

O António fica surpreendido pela nossa visita e eu fico espantada com a arrumação da sala.

O meu irmão abriu finalmente os caixotes, montou os móveis e a sala está confortável, com recantos definidos.

Há um pequeno escritório, uma pequena biblioteca e ao centro, a televisão em frente da qual o Gonçalo e o Pedro se instalam.

O António sorri-me e eu abraço-o. 

É um abraço demorado, se ficou admirado não disse, apenas correspondeu.

Sentamos-nos ao pé dos outros e em breve, a sala silenciosa transforma-se num bar ruidoso.


CONTINUA

quinta-feira, 19 de março de 2020

OS IRMÃOS - PARTE III


Eles calam-se e aproveito esse momento para entrar na sala e brincar com o Gonçalo.

" Oh, pá, vê lá se a Luisa aprende a cozinhar... Estou farta de te ver por cá!" digo e o Gonçalo ri-se, embaraçado.

O jantar é divertido, embora faça um esforço para participar nas piadas. 

O que é que eles sabem sobre a Graça e porque é que não avisaram o António? é a questão que me queima os lábios.

Ou será que o António os ignorou? Tenho que saber...

Por isso, quando o Gonçalo se vai embora e o Pedro está a colocar a loiça na Máquina, pergunto:

" O que é que tu sabes sobre a Graça? " e o Pedro fica tão surpreendido que deixa cair o copo.

" Escusas de negar! Ouvi o Gonçalo contar-te que encontrou a desgraçada com um tipo alto e musculado. Por isso, fala comigo." digo.

O Pedro fica muito sério e senta-se.

" A Graça tinha muito affairs; aliás, foi por isso que se demitiu da empresa. Abafou-se o caso, claro, mas foi um pouco complicado. Não sei os detalhes todos, mas foram apanhados numa sala de reunião."

" O quê? A fazerem amor? " agora sou eu que me sento e o Pedro acena que sim.

" Quando o António começou a sair com ela, pensamos que ela se cansaria dele como se cansou dos outros. Mas ficamos muito surpreendidos quando anunciaram o casamento." conta o Pedro.

" E, não avisaram o António? " grito e o Pedro ergue as mãos a pedir silêncio.

" Sabes como o António pode ser teimoso! Não nos quis ouvir e casou-se com ela." explica o meu marido.

" O que é que se passou na lua de mel? " pergunto.

CONTINUA

OS IRMÃOS - PARTE II


" Esperem... Vocês sabem qualquer coisa!" mas perante a negação veemente do Gonçalo e a irritação do meu marido, não insisto.

O António convida-me para almoçar nessa semana e após a troca de banalidades, pergunto-lhe:

" Não me queres contar o que aconteceu entre ti e a Graça? " e o António olha-me surpreendido.

" Laura, já te disse que falaria no assunto quando estivesse preparado e não estou. Não quero falar nisso, desculpa. És a pessoa em quem mais confio, mas é muito doloroso."

" Desculpa!" murmuro e desvio a conversa para outros temas.

Falo na minha ideia de abrir uma loja online, na reunião que vou ter nessa tarde com uma determinada marca para distribuir os produtos.

" Para já, não vou largar o part-time, gosto de lá estar. Infelizmente, não me podem passar a tempo inteiro." suspiro.

" Podes trabalhar umas horas na minha empresa, se quiseres." sugere o meu irmão " És boa a organizar as coisas..."

Mas não aceito. Não é boa ideia, íamos discutir e temos que seguir rumos diferentes.

A reunião corre muito bem, só falta mesmo preparar o alojamento e o site para a loja online arrancar.

Estou entusiasmada quando chego a casa. 

O Pedro ainda não chegou, mas eu começo a preparar o jantar. Não consigo cozinhar sem ouvir música e ligo o telemóvel no máximo.

Não os ouço chegar (pois claro que o Gonçalo veio para uma refeição grátis!) e quando o Pedro vem buscar gelo à cozinha, assusto-me.

" Ups! Quando é que chegaste? " 

" Agora mesmo! O Gonçalo também veio, estamos a preparar bebidas, queres uma? " diz o meu marido, dando-me um beijo.

Aceno que sim, limpo o balcão e saio da cozinha.

Estou a atravessar o corredor quando ouço o Gonçalo dizer:

" Sabes quem vi hoje?... Não vai acreditar, mas foi a Graça!"

" O quê? A Graça? " repete o Pedro " E bem acompanhada decerto!"

" Sem dúvida! Alto, musculado e com um bruto carro!" conta o Gonçalo.

" A nossa Graça sempre gostou deles com dinheiro! Por isso, é que o António nunca teve chance!" responde o meu marido.

" Pobre António!" e ficam em silêncio.

Eu não me consigo mexer e só penso no António.


CONTINUA


quarta-feira, 18 de março de 2020

OS IRMÃOS


A minha Mãe sempre disse que eu devia ser o rapaz, não o António.

O meu irmão gémeo é reservado, metódico e às vezes, muito irritante.

Mas é capaz de explodir se provocado e não é nada fácil lidar com ele quando está num desses " momentos críticos".

É um bom irmão, bom ouvinte e nunca se queixou quando a Mãe nos castigava, muitas vezes, por minha culpa.

Tenho pena que se tenha apaixonado por aquela maluca da Graça, que só lhe deu desgostos.

Quando tentei falar com ele sobre o assunto, ele apenas disse:

" Agora não, Laura. Talvez um dia, mas não hoje!" e eu tive que respeitar o pedido.

" Sinceramente, não sei o que ele viu na Graça." confessa o meu marido.

" Para ser honesto, eu também não!" replica o Gonçalo, o meu irmão mais novo que se fez convidado para o jantar.

" O que é que tu sabes? Estavas sempre a queixar-te que ela te tratava com um miúdo! E eras um miúdo!" acrescento.

" Oh, pá, és tão irritante como ela! Ela falava como se eu fosse um atrasado mental e só é mais velha do que eu cinco anos!" responde o Gonçalo.

" Esse era um dos defeitos da Graça! Achava-se superior a tudo e a todos! Lá na empresa, detestavam-na." explica o Pedro.

" Ah, ela trabalhou contigo, não foi? "repito " Mas foi por pouco tempo, não foi? "

" Não trabalhou directamente comigo, mas sim, esteve lá, uns seis, sete meses." diz o meu marido.

" Gostava mesmo de saber o que sucedeu na lua de mel. Foram casados e voltaram separados." observo.

Os dois homens ficam calados.


CONTINUA

terça-feira, 17 de março de 2020

A GERENTE DA LIVRARIA - FIM


As coisas mudam quando a Rita sugere o jantar.

Chama-lhe " o jantar do fim do livro " e escolhe-se uma pizzaria que ela conhece.

Pelos vistos, vai lá com os sobrinhos, digo ao meu marido mais tarde, e sinceramente nunca pensei que levasse os sobrinhos.

Não há dúvida de que os adolescentes estão a divertir-se, o Major é o centro das atenções e aquela zona da mesa está interdita ao resto do pessoal.

O Nicolau e o António rivalizam pela atenção da Rita que está diferente.

Cortou o cabelo, a maquilhagem é diferente e o vestuário é mais garrido, embora hoje tenha aderido aos jeans e T-Shirt.

Encontrou alguém, tenho quase a certeza. 

A Rita foi vaga relativamente ao que aconteceu com o ex-marido e não quis insistir.

Por isso, não me surpreende nada que à porta do restaurante esteja alguém à espera dela e dos sobrinhos, miúdos bem educados e de quem o Bernardo já tem o número de telemóvel para " futuras aventuras" como diz.

Não contava, contudo com a cara de desilusão do Nicolau, do António e do Major.

Estão parados no passeio, o Major com a boca entreaberta a ver a Rita a entrar no carro.

O Bernardo sussurra:

" O que é que se passa com eles? " pois eles parecem zombies e mal respondem aos nossos votos de boa noite.

" Estão apaixonados, filho!" respondo, eu própria surpreendida.

Notei que eles estavam interessados na Rita, mas esta, se suspeitava de alguma coisa, fingia que não via e eu convenci-me que estava a ver um romance onde não existia.

Pelos vistos, existe e logo os três, confesso ao Rodrigo, será que vai afectar a dinâmica do Clube?

Mas o meu marido aconselha-me a não pensar nisso, porque afinal, só tenho que me preocupar com a organização do Clube.


FIM

segunda-feira, 16 de março de 2020

A GERENTE DA LIVRARIA - PARTE IV


" O Nicolau também deve ter uma história trágica!" sussurro, mas a Rita abana a cabeça.

" Não, o Nicolau é um homem que casou com a profissão... Nenhuma mulher escolheria aquelas camisas horrorosas."

Olho novamente para o Nicolau e tenho que concordar.

" O Rodrigo internava-me se lhe comprasse uma camisa assim!" confesso e rimo-nos.

" Vá lá que veste sempre calças pretas!" acrescenta a Rita e não diz mais nada, porque o Nicolau pergunta se não está na hora de começarmos.

Apresso-me a resumir o que se passou na sessão anterior, convido-os a falarem.

Como é habitual, o Major fala primeiro e tenta dominar a discussão. Mas o António tem qualquer coisa a dizer e interrompe-o, o que não lhe agrada nada.

"  Se não fosse o Nicolau... teria um problema..." confesso mais tarde ao Rodrigo.

" O Major quer explicar a opinião dela. É simples!" protesta o Bernardo, agora um membro muito activo do Clube.

" As opiniões dele são tão importantes como as dos outros. Todos têm o direito de defender as suas próprias ideias; estamos num Clube de Leitura, não no exército!" explico.

" Mas não estamos numa democracia? " insiste o meu filho.

" Exactamente porque estamos numa democracia é que temos que deixar falar os outros." intervém o Pai.

" Por um lado, a amizade com o Major está a ter um efeito positivo no nosso filho!" comento quando nos preparamos para deitar " Não estou tão certa com as ideias que lhe está a transmitir."

" Teremos que o contrariar... mas não há dúvida que ele está mais interessado nos estudos e o comportamento dele na escola modificou-se." concorda o Rodrigo.



CONTINUA

sábado, 14 de março de 2020

A GERENTE DA LIVRARIA - PARTE III


A primeira sessão do Clube é um sucesso e quando nos reunimos na semana seguinte já somos cinco.

" Então, estás satisfeita? " pergunta o Rodrigo " Conta lá, como são os membros? "

" A Rita é a única mulher. O Nicolau e o Major são reformados, creio que se juntarem ao Clube para não estarem sozinhos. E, depois há o António, que ainda trabalha, mas é muito reservado." conto.

" Reservado? " repete o Rodrigo " O que queres dizer?"

" Não espero que as pessoas contem a vida toda desde pequeninos. Mas há certos pormenores que podes partilhar com os outros. Se és casado, se és divorciado... mas o António não diz nada. Só sabemos que é contabilista. "

" Não é nada estranho. O homem está lá para falar sobre livros. Deixa-o em paz." diz o meu marido.

Mas a Rita também acha estranho o facto do António ser tão reservado.

" Há ali uma história trágica, tenho quase a certeza." confidencia um dia enquanto tomamos um café.

" Também acho. Ficamos logo a saber que o Nicolau nunca casou e que o Major é viúvo." comento.

" Profissionalmente está bem cotado no mercado. Convivo com muita gente, como sabe,  por causa da minha profissão e descrevem-no como rigoroso, honesto.  Mas..." e a Rita cala-se, porque o António entra nesse momento.

Como sempre, cumprimenta-nos com um sorriso, aceita um café, mas depois afasta-se.

Senta-se, abre o livro e continua a ler até que o Nicolau chega.

CONTINUA