segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

O DIABINHO - PARTE II


Enquanto Luisa está na casa de banho, D.Clotilde abre as janelas, faz a cama e limpa o pó.

Está a ligar o aspirador quando Luisa abre a porta e a senhora ajuda-a.

Mas Luisa não se quer deitar, prefere ficar no cadeirão e diz que vai trabalhar um bocadinho.

D.Clotilde não discute, continua a trabalhar e assegurando-se que a senhora não precisa de nada, vai tratar do quarto da Joaninha e da sala comum.

Os brinquedos estão espalhados pelo quarto e D.Clotilde acha que está na altura da Joaninha aprender a arrumar.

Fazer da arrumação dos brinquedos um jogo, embora compreenda que, por causa da situação complicada que estão a viver, não tenham pensado nisso.

" Vou tentar hoje!" decide e animada com a ideia, serve o almoço a Luisa que pede depois que a ajude a deitar-se.

A mãe de Luisa aparece e D.Clotilde aproveita para ir buscar a Joaninha à creche.

A menina resolve brincar às escondidas com D.Clotilde e a senhora entra no jogo, " ralhando" com a educadora:

" Ah, não sabe onde está a Joaninha?? E, agora o que digo aos pais?" e a Joaninha lá aparece, toda contente por ter enganado a D.Clotilde.

" Ela está a portar-se bem?" pergunta D.Clotilde à educadora.

" Às vezes, isola-se, não quer brincar, não fala." diz a educadora " Talvez seja porque vai ter um irmão..."

" Ou porque vê a Mãe sempre deitada, sem poder brincar com ela." acrescenta a D.Clotilde.

" Ah, sim, como está a D.Luisa? " e a D.Clotilde abana a cabeça:

" Vai hoje ao médico; espero que a deixe levantar, pelo menos, andar pela casa. Coitadinha, já está cheia de estar deitada, não tem posição.." conta a D.Clotilde e despede-se.

Quando entra em casa, o INEM está lá, a avó da Joaninha está com a mala na mão, pronta para sair.

" O que foi???" questiona a D.Clotilde e a senhora só diz:

" A Luisa sentiu-se mal, telefonamos ao médico e ele está já à nossa espera no hospital. Já telefonei ao meu genro e ele deve estar a caminho. Não se preocupe, nós telefonamos quando soubermos alguma coisa."


CONTINUA



domingo, 30 de dezembro de 2018

O DIABINHO


Às vezes, a Joaninha é um pequeno diabinho.

Hoje, não quer calçar as botas, o Pai já está a ficar desesperado, mas a D.Clotilde não se incomoda com o choro.

Calça-lhe as botas, veste-lhe o kispo, pede-lhe para dizer adeus ao Papá e sai com ela ao colo.

A Joaninha continua a chorar, mas a D.Clotilde não liga, conta-lhe historinhas e a menina acaba por se calar.

Quando a entrega à educadora, a Joaninha já se esqueceu de que não "gota" das botas e só falo no gato da história.

Antes de voltar a casa, a D.Clotilde compra alguns legumes para a sopa da família e cruza-se com o Pai da Joaninha no átrio.

O Dr Lemos está cansado, diz que a mulher não tinha posição, só conseguiu adormecer de madrugada.

" Ainda estava a dormir; a senhora vá ver como ela está daqui a um quarto de hora. Se precisar de alguma coisa, ligue-me para o telemóvel." recomenda.

" Não se preocupe; eu trato de tudo. Vá trabalhar descansado." e o senhor aperta-lhe a mão e apressa-se a sair.

Tem uma reunião importante e já está um pouco atrasado.

A D.Clotilde abre a porta do quarto devagarinho; Luisa ainda dorme, está a respirar calmamente, o que a sossega.

Vai para a cozinha, prepara tudo para o pequeno almoço e volta ao quarto.

Pousa o tabuleiro em cima da comoda e abre os cortinados.

Luisa já está acordada, tem grandes olheiras e agradece quando a D.Clotilde a ajuda a sentar-se.

" Estou cansada de estar deitada; começo a não ter posição." confessa.

" Pois. Mas o médico não vem cá hoje? Pode ser que a deixe levantar-se..." diz a D.Clotilde " Agora, vai tomar o pequeno almoço nas calmas e depois  eu ajudo-a a ir à casa de banho. " e sorri.

Luisa também sorri e observa:

" Da Joaninha, a gravidez foi tranquila. Nunca pensei que isto pudesse acontecer."

" Nada é igual. Nem a gravidez, nem os bebés. O corpo reage de maneira diferente; se calhar, estava em baixo de forma quando engravidou e o corpo ressentiu-se. Não se preocupe; vai correr tudo bem." aconselha a senhora que volta à cozinha.

CONTINUA


sábado, 29 de dezembro de 2018

A VIAGEM DE AUTOCARRO - FIM


O mês passa e as senhoras deixam de ver a D.Matilde. 

Um dia, a D.Guida encontra-a numa confeitaria conhecida, a D.Matilde não podia estar mais satisfeita e está ansiosa que o bebé nasça.

" Parece que está mais nova, mais alegre." conta a D.Guida.

" Um trabalho fixo não é tão stressante." opina a D.Clotilde que tem uma grande surpresa em meados do mês.

O casal aceita uma nova proposta de trabalho e vai viver para o Dubai.

A D.Clotilde compreende, arriscar é agora, vão ganhar o triplo e quem sabe? quando regressarem, podem abrir a própria empresa.

Claro que a D.Clotilde compreende, fica muito sensibilizada com o bônus generoso que recebe, mas e agora?

A D.Luz e a D.Guida tentam animá-la, mas a D.Clotilde acha que vai ser difícil encontrar um emprego tão bom.

Um dia recebe um telefonema de uns amigos do casal. 

Eles tanto elogiaram o trabalho da D.Clotilde que gostariam de a conhecer e falar um bocadinho com ela.

É que a senhora está a ter uma gravidez complicada, precisa de alguém que ajude, não só com a casa, mas também com o outro filho.

A D.Clotilde tem filhos, gosta de crianças? Sim, sim, tenho dois rapazes e vou adorar tomar conta da Joaninha, responde a D.Clotilde.

" Olha que bom; a senhora estava tão preocupada e tudo se resolveu." comenta a D.Luz.

" Temos que comemorar." diz a D.Guida " Vamos telefonar à D.Matilde e acertar tudo para um sábado."

" E os maridos e os filhos?" pergunta a D.Clotilde.

" Vão também dar uma volta. Merecemos ter umas horas só para nós." responde a D.Guida muito satisfeita com a ideia.

O almoço é um sucesso e resolvem encontrar-se todos os meses.

Afinal de contas, é importante ter amigas que nos apoiem, mesmo que tudo tenha começado por apanharem o mesmo autocarro à mesma hora.


FIM
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O Minha Página deseja um BOM ANO 2019...




sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

A VIAGEM DE AUTOCARRO - PARTE V


" O palerma esqueceu-se do telemóvel e das chaves de casa." conta a D.Clotilde no dia seguinte " Anda sempre atrasado, já lhe chamamos a atenção, mas ele não tem emenda. O irmão foi fazer uma visita de estudo, o Pai foi para a Amarante, por isso, foi ter comigo."

" Não ficou na rua a fazer disparates!" comenta a D.Luz e a D.Guida acrescenta " Dê graças a Deus por isso."

" Até foi bom ter companhia no regresso." confessa a D.Clotilde " Mas trabalhou: varreu o pátio, regou as plantas e até mudou umas lâmpadas que estavam fundidas."

" Ainda bem que tudo se resolveu! Mas acredito que tenha ficado assustada." concorda a D.Matilde " Esta semana, já vamos mudar. Já entregaram os móveis; agora é só dar o toque pessoal."

" Ah, sim? Já viu a casa, a cozinha?" pergunta a D.Guida.

" Tem uma sala enorme, envernizaram o soalho, não quiseram alcatifa." conta a D.Matilde.

" Há uns produtos muito bons para limpar esse tipo de soalho." observa a D.Luz.

" Sim, eu sei. A cozinha também é grande, tem o que eles chamam o " cantinho das refeições"; dizem que vão comer ali quando estiverem sozinhos." continua a D.Matilde " Ela quis os móveis brancos e os azulejos em azul claro. "

" Azul claro?" admira-se a D.Clotilde " Não sei porque me estou a admirar; a minha patroa escolheu o amarelo. Tem uma ilha?"

" Sim, tenho e um grande frigorifico, uma lavandaria e uma boa despensa. O quarto do bebé é amarelo claro e os deles está decorado em tons de rosa e azul. Está bonita, vou gostar de lá estar. Tem muita luz." diz a D.Matilde " Sou é capaz de deixar de viajar neste autocarro. Há um mais directo... "

" Claro que tem que fazer o que é melhor para si." responde a D.Clotilde e as outras duas senhoras confirmam.

" Vou ter saudades das nossas conversas." e estende a mão que as outras senhoras apertam.


CONTINUA

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

A VIAGEM DE AUTOCARRO - PARTE IV


No dia seguinte, quando chegam à paragem, a D.Luz já lá está e está toda contente.

A D.Maria Augusta gostou dela e contratou-a. Começa no próximo mês e para a D.Luz, é um alívio, tanto mais que que o marido tem um trabalho em vista.

" Vai correr tudo bem; a senhora merece." diz a D.Clotilde " E, a senhora D.Matilde? Já acertou tudo? "

" Sim, sim. Também começo no próximo mês; as obras na casa nova já terminaram e eles contrataram uma dessas empresas de limpeza, mas eu tenciono dar uma volta, limpar à minha maneira. " conta a D.Matilde " O senhor doutor é muito engraçado; noutro dia, disse-me " Oh, D.Matilde, nós os dois vamos fazer o trabalho mais duro; ela só vai arrumar as almofadas." e todas as senhoras se riram.

" De quantos meses está? " pergunta a D.Guida.

" Acho que de cinco; já se nota a barriga. Estão os dois muito felizes; e eu também. Já tenho saudades de um bebé." acrescenta a D.Matilde.

" Quem não tem?" comenta a D.Luz " Eles crescem depressa demais. Pelo menos, os meus. Ontem, obedeciam; hoje, tenho que negociar. O Pai nem sempre tem paciência, mas eu tento sempre ouvi-los."

" Sempre disse aos meus: trabalhar primeiro e depois o divertimento. E, eles têm sido uns bons filhos." observa a D.Guida.

" Ainda bem que a vida se está a compor. Para todas. " comenta a D.Clotilde " Estou muito contente por si, D.Luz."

Despedem-se, apressadas, prontas para um novo dia de trabalho. 

O marido da D.Luz telefona-lhe a meio da manhã para lhe dizer que conseguiu o trabalho.

Um dos filhos da D.Clotilde aparece em casa dos patrões, perto da hora de almoço, tão sério que a pobre senhora fica logo assustada.

" Oh, rapaz, o que aconteceu? Foi alguma coisa ao teu pai, ao teu irmão? " grita.

CONTINUA

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

A VIAGEM DE AUTOCARRO - PARTE III


Nessa noite, a D.Matilde telefona à D.Luz. 

A D.Maria Augusta quer falar com ela, a D.Luz pode lá estar por volta das duas e meia?

Claro que sim, diz de imediato a D.Luz e combinam os detalhes.

No dia seguinte, a D.Matilde conta o que se passa às outras duas senhoras.

" Para a D.Luz vai ser muito bom. Com o marido desempregado e os filhos ainda a estudarem..." suspira a D.Guida.

" Ainda continua desempregado?" admira-se a D.Clotilde " Ela falou nisso na altura, mas nunca mais comentou e pensei que ele tinha encontrado qualquer coisa."

" Só trabalhos temporários." conta a D.Matilde " Como ela diz, entra algum dinheiro, mas não é suficiente. Os filhos têm aqueles trabalhinhos em part-time, mas ela prefere que eles se dediquem aos estudos."

" Concordo com ela . Eu deixo os meus filhos trabalharem nas férias, mas não durante o ano lectivo." observa a D.Clotilde.

" Já não tenho que me preocupar com isso. Os meus filhos tiveram que ir trabalhar quando acabaram o secundário, mas estudaram à noite e um deles trabalha como engenheiro na câmara." diz a D.Guida.

" E a minha filha mais velha é enfermeira e foi para Inglaterra." comenta a D.Matilde.

" Vamos ter fé. A D.Luz vai ficar com o trabalho. " e, com esta certeza da D.Guida, as senhoras despedem-se.~


CONTINUA

sábado, 22 de dezembro de 2018

A VIAGEM DE AUTOCARRO - PARTE II


Na paragem seguinte, o autocarro esvazia e as senhoras tem finalmente lugar. Sentam-se e é então que a D. Matilde conta a grande novidade.

" Falei-vos daquele casal para quem trabalho há cerca de dois anos? Gosto muito deles, são simpáticos e bem educados. Pois bem, vão ter um bebé e sabem o que me propuseram? "

" O quê? " perguntam as outras senhoras curiosas.

" Trabalhar para eles a tempo inteiro. Vão precisar de ajuda com o bebé, ela diz que não o quer enviar para o creche, pelo menos no primeiro ano." diz a D.Matilde.

" E a senhora já trabalhou com crianças e gosta." acrescenta a D.Guida " Se as condições forem boas, acho que deve aceitar."

" Também acho." concorda a D.Luz e a D.Clotilde acena com a cabeça.

" É o que diz o meu marido. Vou ganhar mais, fazem-me os descontos para a Caixa, vou ter seguro. O que quero mais? " comenta a D.Matilde " Vai ser tão bom tratar de um bebé."

" Já sabem se é rapaz ou rapariga? " mas os futuros papás querem que seja uma surpresa e por isso, só vão saber no dia do nascimento.

" Só vou ter pena de deixar a D.Maria Augusta que é muito minha amiga."  suspira a D.Matilde.

" Eu tenho duas tardes livres, se a D.Maria Augusta estiver interessada... a D.Matilde sabe que sou de confiança.." e a D.Luz sorri.

" É uma boa ideia, vou falar com a D.Maria Augusta... Era o que me estava a preocupar..." confessa a D.Matilde e escreve na agenda o nº de telemóvel da D.Luz.

Chegam finalmente ao terminal, despedem-se rapidamente e correm para apanhar os outros autocarros.

A D.Matilde conversa com o casal e acerta os detalhes do contrato.

A D.Clotilde passa a manhã a resmungar, pois os patrões devem ter dado uma festa e há uma verdadeira montanha de copos e loiça suja para lavar.

Do mesmo se queixa a D.Guida no stand e diz bem alto que não sabe o que " as mães modernas ensinam agora aos filhos ".

A D.Luz suspira e espera verdadeiramente que a D.Maria Augusta concorde com o plano, pois o dinheiro faz-lhe falta.

CONTINUA

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

A VIAGEM DE AUTOCARRO


" Que chatice! Já vou perder o das 07h23!" lamenta-se a D.Matilde no abrigo do paragem do 305.

Este devia ter chegado às 06h56, mas o relógio da D.Matilde marca 07h01.

" Pois! É por causa destes atrasos que venho mais cedo! O meu homem está sempre a dizer-me " Só entras às 08h30; se saísses às 07h45, chegavas muito a tempo."  diz a D.Clotilde " Mas eu prefiro esperar no café ao pé do trabalho do que entrar esbaforida."

" Ouvi dizer que vão fazer greve novamente. Não sei se a 2 ou a 4!" a D.Guida mete igualmente a colherada na conversa " Já avisei o meu patrão de que não vou a pé!"

" Ainda não há certezas!" diz a D.Matilde " Mas eu já combinei com os meus vizinhos do lado: eles dão-me boleia até à estação e só tenho que subir a rua a pé."

" Sorte a sua!" comenta a D.Guida " Os meus resolveram mudar para uma casa toda moderna, XPTO, mas fica um pouco longe da paragem mais próxima. Tenho que andar para aí uns 20 minutos a pé!"

" Se for verdade, não sei o que vou fazer.  Concordo consigo, D.Guida, a pé não vou!"  contesta a D.Clotilde.

A D.Luz chega nesse momento e faz um " Oh" de espanto.

" E eu a pensar que estava atrasada. As senhoras ainda estão todas aqui."

" Aquele malvado está atrasado e deve vir cheio!" volta a lamentar-se a D.Matilde.

Nem de propósito, o autocarro aparece e tal como previsto, está cheio.

Com custo, lá conseguem entrar e juntam-se aos protestos dos outros utentes.

O motorista nem se atreve a responder. Não tem culpa do trânsito e da chuva, se bem que, lá no íntimo, não entende porque há pessoas que vão buscar o carro nestes dias.

Pumba! Trava abruptamente, as pessoas quase se desequilibram e quem vê, diz:

" Olha aquele idiota, entra-se assim, sem dar prioridade??? "

" Não há respeito!" alguém grita do fundo do autocarro e todos concordam.

CONTINUA


quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

MENSAGEM DE NATAL


Pediram-me para escrever um texto sobre o Natal…
Mas o que sei eu sobre o Natal, se tudo o que tenho são memórias vazias?
Vazias, sobretudo de calor humano, mas cheias de... uma solidão atroz
Que nada nem ninguém consegue preencher…
Apenas o Fantasma do frio…
Um frio intenso… cortante que ninguém sente… ninguém entende....
Mas que existe, pois eu sinto-o…
A vida não é perfeita nem é romântica… Tem apenas momentos…
Uns melhores, outros nem tanto
Obrigada pela vossa companhia, pelos momentos em que me fizeram sentir VIVA…

Um feliz Natal para todos...


As histórias do Minha Página continuam durante as Festas.
Por isso, apareçam...
Podem sugerir nomes de personagens, tema (história policial, viagem de autocarro, de metro, uma visita a um Museu)....


terça-feira, 18 de dezembro de 2018

ELVIRA - O FIM


Matos empurrou-me com tanta força que, se não me segurasse ao corrimão caía.

" Isso pergunto-te eu!" observei " O que andas a fazer? Negócios ilícitos e tudo para ganhar mais uns euros? Olha se o Chefe te apanha!"

"  Não apanha nada! Tenho tudo organizado!" respondeu o Matos " E aquele gajo é um banana! Só saberá se tu disseres e tu não vais abrir o bico, senão..."

" Senão o quê? Bates-me? Matas-me? " gozei " Deixa-te de histórias! Conta-me o esquema!"

" Não tenho nada a dizer! Vai-te embora; esquece o que viste ou..." ameaçou o meu companheiro.

" Não vou nada! Se queres o meu silêncio, divides a tua parte do lucro!" exigi.

" Está calada, Elvira, não sabes do que falas!" ripostou o Matos, a olhar para o relógio " Estou atrasado por tua culpa."

" E eu ralada que estejas atrasado!" disse, convencida de que estava a ganhar a partida " Ou digo ao Chefe o que andas a fazer e és preso num minuto!"

A bofetada apanhou-me desprevenida, tentei bater-lhe também, mas o Matos esquivou-se.

Ergueu novamente a mão, bateu-me novamente, desequilibrei-me e caí pelas escadas abaixo.

Dei com a cabeça com toda a força na esquina da escada, rebolei e fiquei inerte no patamar.

Penso que ainda ouvi o Matos gritar, mas não tenho a certeza de nada.

Porque agora não sei onde estou...

FIM


segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

ELVIRA - PARTE IV


Devia ter havido uma entrega na noite anterior, pois a sala tinha novamente uns dez cartões encostados à parede mais distante da porta.

Fechei a porta, acendi a luz e comecei a abrir o cartão mais próximo.

A primeira camada era papel, mas afastando-o cuidadosamente para não rasgar, vi pequenos sacos transparentes cheios de pedras coloridas.

O que é isto? Não eram diamantes, de certeza absoluta, mas eram pedras preciosas.

Alisei novamente o papel, fechei as abas e coloquei novamente fita.

Então, estás metido no contrabando de pedras preciosas? Com quem? E quanto recebes por fazeres isto?

Estas perguntas ocupavam-me a mente, mas sabia que não o podia interrogar abertamente.

O que também me espantava era o facto do Chefe não achar nada estranho no Matos aceder tão prontamente em fazer tantos turnos nocturnos e haver tantos incidentes em salas que estavam vazias.

Calculei que a recolha das caixas fosse na sexta-feira e esqueci-me deliberadamente de entregar um relatório.

O Chefe deu-me uma descompostura e eu prontifiquei-me a ficar até o acabar.

O Matos e o Cordeiro entraram ao serviço, disseram " Ainda por aqui?" e desapareceram na outra sala.

Pouco tempo depois, ouvi o elevador e resolvi segui-los no outro.  

Para não me verem, subi até ao telhado, descalcei os sapatos, desci e entreabri a porta de emergência.

Vi o Cordeiro bloquear o elevador e o Matos a carregar a primeira caixa.

Estavam a carregar a sexta caixa quando me desequilibrei e caí, abrindo totalmente a porta.

Sobressaltados, os dois homens olharam para o local e viram-me.

O Matos ficou muito vermelho, entregou a caixa ao Cordeiro e em duas passadas, levantava-me.

" O QUE ESTÁS AQUI A FAZER???"


CONTINUA



domingo, 16 de dezembro de 2018

ELVIRA - PARTE III


Aproveitei uma ida ao nono andar para entregar uns documentos para subir a escada e ver o que estava nas salas fechadas para " manutenção".

Ali estavam cerca de dez, doze caixas encostadas a uma das paredes. 

Estavam completamente seladas e se abrisse uma, o Matos daria conta.

Mas lá em baixo no Departamento havia fita igual e se tivesse cuidado e não rasgasse o cartão, podia ver o conteúdo.

Voltei para a sala, aproveitei a hora de almoço para esconder na secretária o que precisava e esperei.

Contudo, o Chefe não me deu qualquer hipótese de me escapulir, pois precisava que eu revisse uns dados e isso levou-me a tarde inteira.

Ainda me cruzei com o Matos à saída, falamos um bocadinho, mas estava tão cansada que só queria ir para casa.

No dia seguinte, aproveitei a ausência do Chefe e voltei ao décimo andar.

Para meu espanto, as salas estavam vazias. O que aconteceu aqui?

Quem as veio buscar e como?

Intrigada, voltei para a sala e verifiquei a escala.

O Matos estaria no turno do dia o resto da semana, mas eu estaria atenta.

A semana passou-se sem incidentes e na quarta feira seguinte, registrei mais um incidente no décimo andar.

Declinei o convite para almoço da Matilde e da Amália e subi até ao décimo andar, decidida a descobrir o segredo do Matos.


CONTINUA



sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

ELVIRA - PARTE II


Isso foi a primeira coisa que me chamou a atenção.

Depois, sempre que o Matos ficava no turno da noite, o Cordeiro estava igualmente escalonado.

Quando falei nisso, o Chefe apenas comentou que o Cordeiro queria aprender e o Matos era a pessoa indicada para o fazer.

Quanto ao Matos, foi um " Cala-te. Mete-te na tua vida:" o que originou uma grande discussão, com os vizinhos a baterem à porta furiosos e eu a chamar um táxi para ir para casa da minha Mãe.

A minha Mãe suspirou e só disse:

" Outra vez? Não sei realmente o que vês naquele homem!" e eu fiquei a pensar no que o Matos representava para mim.

Não era um homem bonito; era jeitoso, com uns olhos verdes e um ar de rufia que me agradava imenso.

Talvez porque eu própria era uma rufia... 

No dia seguinte, o Matos pediu desculpa e eu voltei para casa.

Nessa semana, o Matos esteve de serviço todas as noites e, como era eu quem escrevia os relatórios, achei estranho haver sempre problemas no décimo andar.

O Chefe não deu qualquer importância, tinha um problema mais sério a resolver e não quis falar com o Matos, pois a discussão iria ser muito intensa e os vizinhos quase não me falavam.

Por isso, resolvi fazer uma investigação pessoal. 

E dei-me muito mal.


CONTINUA

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

ELVIRA


" Elvira, a parvalhona", " Elvira, a arrogante"....

Parem... Chega.... Sei muito bem o que me chamavam... Não vale a pena repetirem...

Se eu fui arrogante, então vocês?  Com os vossos grupos, as vossas regras... 

Eu chamava-vos os " Pseudo-Imortais"; afinal, não sabem que também vão morrer como eu?

Mas adiante... não quero falar do que se passou... 

Estou mais interessada no que se passa agora e eu agora estou morta...

Culpa minha ou do Matos, sempre à querer ganhar mais dinheiro, da maneira mais fácil.

Será que ninguém lhe disse que há cursos de formação, de desenvolvimento pessoal? 

Que há pessoas com cursos básicos que estudam à noite e se tornam advogados, engenheiros?

Mas o Matos não quer passar por essas etapas; tem que estar no topo de imediato.

Discutimos muito, ele simplesmente não entendia e por isso, numa das noites em que fui dormir a casa da minha Mãe, conheceu o Bernardino da Silva.

A proposta deste foi simples: guardar umas caixas (sem abrir,frisou bem) num local seguro.

E que melhor lugar que a Torres Vasques, nas salas vazias?

Até tinha uma desculpa para lá estar... 

A empresa que funcionava lá mudou-se e antes de alugar, a Administração quer que sejam pintadas novamente, a instalação eléctrica revista, etc.

O Matos é um ás nessas coisas e foi fácil convencer o Chefe.

O que me chamou a atenção foi o facto dele estar sempre a " negociar " os turnos.

Ele que ficava todo aborrecido se estava dois dias seguidos no turno da noite.

CONTINUA

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

BRITES - O FIM


" As salas estão limpas. A equipa forense não encontrou nada; por isso, só temos a palavra deste maluco de que serviam de armazém." comenta o Gonçalves.

" O apartamento só confirma que o Matos e a Elvira viviam juntos. Há várias queixas dos vizinhos: as discussões eram frequentes e muito intensas, mas também dizem que, às vezes ela ficava em casa da Mãe." conta o Brites. 

" Por isso, quem matou a Elvira? " pergunta o Loureiro.

" Segundo sabemos, a Elvira era muito controladora, certo? Apercebeu-se do esquema do Matos, confronta-o e no calor da discussão, ele bate-lhe e ela desequilibra-se e pumba." especula o Sargento Lucas.

" É uma hipótese plausível, é certo, mas gostava de ter mais provas." diz o Bernardes " Creio que só o Matos poderá responder a todas as questões."

O Matos é interceptado na fronteira e recambiado para a cidade.

Bernardes e Lucas interrogam-nos e ele confirma que sim, matou a Elvira, ela ameaçou denunciá-lo à Administração do Prédio a não ser que ele a deixasse entrar no esquema.

" Dividir os lucros com o Cordeiro era necessário..." explicou Matos " mas com ela era diferente."

Para a impedir, torceu-lhe o braço, ela desequilibrou-se e bateu com a cabeça na esquina das escadas que levam ao telhado.

Limpou tudo (Lucas fez uma nota mentalmente para pedir à equipa forense para analisar as escadas) e, com a ajuda do Cordeiro, entregou as caixas ao motorista do gangue.

Que gangue? Matos abana a cabeça e recusa-se a dizer nomes.

Bernardes não insiste; afinal, resolveu o homicídio... 

A Brigada Anti-Gangues pode agora tomar conta do caso.

Brites resolve falar com a Amélia; quer saber se há alguma possibilidade de reatarem.

Mas a Amélia acha que é cedo demais; está muito traumatizada com tudo que aconteceu e teme pelo futuro, pois vai haver uma investigação interna.

Brites aceita, mas não fica satisfeito.

É que estava mesmo a gostar dela....


FIM

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

BRITES - PARTE VI


Elvira Fernandes, funcionária no Departamento de Manutenção e companheira do Técnico Matos.

A equipa deduz rapidamente que ou é crime passional ou está relacionado com o que se passa com as salas do décimo andar que a equipa forense está a analisar.

Nem Bernandes nem Lucas esperam grande coisa; devem ter limpo muito bem, mas pode ter escapado qualquer coisa que lhe pode ser útil.

Gonçalves e Loureiro procuram o Técnico Matos, não só por causa da companheira mas também para esclarecer a manutenção das salas.

O porteiro do prédio diz que já não o vê há mais de dois dias, talvez tenha ido visitar a Mãe, pois levou um saco e uma grande mala.

Loureiro pede de imediato uma equipa forense para analisar o apartamento e avisa o Brites que o Cordeiro pode estar igualmente em fuga.

Mas o Cordeiro está em casa, a gozar a folga e fica muito admirado quando Brites lhe explica a razão da visita.

Na esquadra, começa por negar tudo, mas quando lhe mostram as escalas e dizem que estão a analisar as salas do décimo andar, acaba por contar toda a história.

Sim, ajudava o Matos a descarregar umas caixas e não, não sabia o que continham, pois o Matos desviava sempre a conversa.

Ficam uns dois, três dias no décimo andar e alguém as vinha buscar pontualmente à meia noite, hora em que entrava o novo turno de seguranças.

Nessas noites, ele tinha que se assegurar que a equipa de segurança estava ocupada a transmitir as informações relativas ao turno anterior e desligar as câmaras do andar. Só podiam estar desligadas entre oito a dez minutos antes de soar o alarme na sala de segurança.

Quanto à Elvira? Ah, sim, o Matos queixava-se que ela era muito " controladora " e tivera um grande discussão com ela há cerca de uma semana, duas.

Morta? Como? Quem? Ele não foi de certeza absoluta; ele só queria um dinheirinho extra, mais nada!

CONTINUA

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

BRITES - PARTE V


" Não, não tenho a certeza de nada; posso cometer um erro e acusar alguém inocente!" exclama Amélia.

" Ok, compreendo, mas dá só uma dica." explica o detective Brites " Exploramos o assunto e ninguém fica a saber que disseste alguma coisa, mas é bom que o digas."

Amélia olha-o atentamente; está completamente desorientada, não sabe verdadeiramente o que fazer.

" Se te disser para verificares as escalas, é suficiente?" pergunta e Brites acena que sim.

A rapariga levanta-se, um pouco mais aliviada e sorri-lhe. 

Brites percebe que será complicado ganhar-lhe novamente a confiança, mas quando tudo acabar, talvez tente novamente a sorte.

A Amélia é uma mulher interessante e Brites quer conhece-la melhor.

Suspira quando conta as suspeitas da Amélia ao Inspector que requisita de imediato as escalas de trabalho do Departamento de Manutenção.

Depressa verificam que sempre que os Técnicos Matos e Cordeiro estão de serviço à noite, há problemas a resolver no décimo andar.

Loureiro questiona o chefe de segurança que confirma ser apenas necessário notificarem a equipa que estão naquele andar.

" Que empresas funcionam lá? " pergunta.

" Neste momento, as salas 1010 e 1035 estão vazias. A empresa mudou-se e ainda não estão alugadas. Sempre que as salas ficam vazias, a Manutenção limpa, pinta, muda as lâmpadas, etc, o que for preciso." explica o chefe de segurança.

" O que significa que podem ter feito daquelas salas um armazém de droga ou artigos de contrafacção... e só têm que estar atentos com o anúncio de que foram alugadas. " observa Loureiro.

" A equipa de segurança não deve achar estranho irem lá à noite. Podem pensar que estão a pintar ou seja lá o que for." concluí Gonçalves.

Entretanto, a vítima é identificada.

CONTINUA

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

BRITES - PARTE IV


Brites decide falar sobre as suas suspeitas ao Inspector Bernardes. Se não o fizer, poderá comprometer a investigação e há muito que Brites aprendeu a separar o pessoal do profissional.

O Inspector escuta-o atentamente e quando o detective termina, diz:

" Compreendo as suas dúvidas. Primeiro temos que saber se essa Amélia Rodrigues é efectivamente a Amélia que conhece. Se isso se confirmar, o Brites terá que conversar com ela discretamente para descobrir a razão dela ficar tão agitada quando soube que trabalha na Polícia Judiciária."

" São coincidências a mais."  confessa Brites.

" Pois são. O Gonçalves que trate disso, o Brites só fala com ela quando se confirmar tudo!" instruí o Bernardes.

Duas horas depois, Brites está sentada num café sossegado, discreto, onde é bem conhecido.

Pede e autorizam de imediato que utilize a sala que está reservada para almoços para conversar à vontade.

Amélia está mais calma, mas Brites sente que ela não está à vontade.

" Sei que isto é confuso, mas estamos a investigar um caso que envolve o Departamento onde trabalhas. Temos que falar com toda a gente, mas como eu te conheço, queria explicar-te a situação e perguntar-te..."

" Eu não sei de nada!" interrompe Amélia.

" Nem eu estou a dizer isso. Só quero conversar contigo e é muito importante que me digas a verdade, Amélia. Tudo se complicará se esconderes alguma coisa." aconselha Brites.

" Não te posso dizer grande coisa. Sei que descobriram um corpo no telhado e que ainda não sabem de quem é. Há coisas estranhas a acontecer naquele Departamento, mas não sei se está relacionado com o caso. " comenta Amélia.

" Como, por exemplo?" insiste o detective.

CONTINUA


quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

BRITES - PARTE III


Brites sorri e diz:

" Estou aqui em serviço." e Amélia repete " Em serviço? Serviço de quê?"

" Eu disse-te que trabalhava na Polícia Judiciária." explica o detective e nota que Amélia fica muito agitada, como se tivesse alguma coisa a esconder.

" Pensei que estavas a brincar. Pensei que estavas a brincar!" e quando as portas do elevador abrem, saí apressada.

Brites fica confuso, mas na sua mente já está a levantar uma questão que faz todo o sentido.

Estará Amélia implicada com o caso? 

Mas Loureiro interrompe-o, dizendo que há duas chaves - uma guardada na sala de segurança e que está agora na posse deles e outra no Departamento de Manutenção.

Ambas as salas estão protegidas por um código de acesso, o que significa que....

" Pode ter sido um serviço interno!" completa o Brites.

" Falei com o Chefe do Departamento e ele mostrou-me onde guarda a chave. Está muito admirado, pois só ele tem acesso ao local e não a dá a ninguém." diz Loureiro.

" Mas pode tê-la deixado naquela reentrância enquanto verificava qualquer coisa e alguém pode ter feito um molde." sugere o detective.

" Pois. Vou verificar a equipa de segurança, a empresa, etc. E já pedi a listagem com os nomes do pessoal da Manutenção; o Gonçalves tem que os investigar." informa o Loureiro.

No percurso até à esquadra, Brites não deixa de pensar na atitude da Amélia.

Ter reagido daquela maneira... é muito suspeito.

Ainda por cima, há uma Amélia Rodrigues na lista dos funcionários que trabalham no Departamento de Manutenção.

Será ela?

CONTINUA