sábado, 30 de novembro de 2019

CENAS DO PRÓXIMO CAPÍTULO


Bernardo não está muito satisfeito.

Tratam-no como se fosse um paquete... 

Ele, que tirou um curso de comunicação e, ao aceitar este estágio na editora, pensou...

" Pensaste o quê? " interrompe a irmã " Que ias tomar decisões sobre a forma de gerir a editora? És mesmo um idiota!"

O pior não foi a Célia dizê-lo, mas a Carolina concordar.

" Mas, afinal de contas, és minha namorada; não me devias apoiar? " refila o Bernardo, mas a Carolina responde:

" Não, quando acho que estás errado. Não seria honesto da minha parte!"

Por isso, o Bernardo está de muito mau humor naquele dia e quando lhe pedem para arquivar uns manuscritos, fica ainda mais furioso.

Já que lá está, porque não dar uma volta?

São manuscritos rejeitados, o Bernardo sabe que serão destruídos em breve, mas até lá, pode ler alguns.

O Detective Latitude acha que é importante conhecer bem o local do crime e é isso o que o Bernardo vai fazer.

Alguns manuscritos são tão maus que o Bernardo até se ri, mas há um que ele não percebe porque foi rejeitado.

Precisa de ser " trabalhado", mas não é mau de todo.

Bernardo esconde-o na secretária e ao fim do dia, leva-o para casa.

Volta a lê-lo, começa a escrever umas notas e fica entusiasmado.

Já nem se importa que lhe peçam que faça chamadas telefónicas ou vá ao correio.

O trabalho real espera-o em casa.


CONTINUA

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

SOAP OPERA - FIM


Pois devia, mas Jaime está dividido entre escrever um novo policial do Detective Latitude ou criar uma nova personagem.

Gostou muito da história do filho, estava muito bem estruturada e a personagem bem delineada.

Explica a ideia ao Manuel, que, muito sério, concorda em lhe " emprestar " a personagem.

" No fim do livro, escrevo que me baseei na tua personagem!" explica o Jaime, igualmente sério.

" Não é preciso, Pai. Tenho a certeza de que a vais tratar muito bem!" responde o filho solenemente.

O Jaime sorri, desafia-o para um jogo no computador e só param, porque a Madalena reclama.

Seis meses depois, o Leonardo recebe o manuscrito.

A história é simples, é sobre um estagiário numa editora e que sonha escrever o livro perfeito.

Encontra no arquivo " morto " um manuscrito rejeitado e resolve reescreve-lo ao estilo policial.

Tal como o Manuel imaginou, a personagem principal fala e age como se o Detective Latitude estivesse ao seu lado.

O Leonardo sorri, o enredo está interessante, o Jaime até encontrou uma forma de incluir a história com a Judite.

" Esta história das cartas inspirou-te, não foi? " pergunta ao Jaime quando se encontram para discutir os aspectos técnicos.

" Um pouco, sim. O Detective Latitude entra, mas não é a personagem principal e foi interessante desenvolver a história. Com a ajuda do Manuel, claro!" acrescenta o Jaime.

" Daí esta dedicatória.." e o Leonardo leu:

" Ao meu filho Manuel, pelo apoio na criação da personagem. 
  E, claro à Madalena, por nos ter aturado. "

" Isto vai ser um sucesso, Jaime!" ri-se o Leonardo.

" Mas não para a minha personagem!" nota o Jaime.

O que terá acontecido no livro à nova personagem?

Talvez numa outra história se descubra o que lhe aconteceu.


FIM




quarta-feira, 27 de novembro de 2019

SOAP OPERA - PARTE V


A Judite explica que o objectivo era fazer uma homenagem aos avós, encontrou aquele maço de cartas e, como não é escritora, pediu ajuda a um autor consagrado.

Ele recusou, talvez porque escreve livros policiais, mas não seria interessante o Detective Latitude tentar descobrir quem roubou as cartas?

" Ela é louca!" diz o Jaime, mas o Leonardo faz-lhe sinal para continuar a ler.

Felizmente, continua a Judite, encontrou uma editora independente que vai publicar as cartas tal como estão.

O Jaime ri-se, mas o Leonardo está muito sério.

" As cartas eram assim tão más?" pergunta o editor e quando o Jaime acena que sim, sorri finalmente.

" Se ela queria publicidade, está a ter. Já recebi vários telefonemas de alguns jornais, a pedirem para comentares o assunto. O que queres fazer? "

O Jaime não quer fazer nada; acha melhor ver o que acontece.

O que acontece é um livro com cerca de cinquenta páginas, com uma capa a imitar as fotografias antigas.

O lançamento é concorrido, o Jaime até leva o Manuel e a Madalena e encontra vários jornalistas e autores amigos.

Tal como a Judite disse, as cartas foram publicadas tal como estão, sem qualquer tipo de ordem e há quem considere que é uma perda de tempo.

As críticas arrasam o livro e há até um jornalista que escreve:

" Não admira que o autor dos livros do Detective Latitude tenha recusado. O Detective Latitude não tem tempo a perder e procurar estas cartas de amor seria ridículo."

Mas o criador do Detective Latitude está agora com dúvidas, mas a Carolina, a quem contou a história toda, diz-lhe que não pense mais no assunto.

Não devia estar a preparar um novo livro?

CONTINUA

terça-feira, 26 de novembro de 2019

SOAP OPERA - PARTE IV


" MANUEL ALEXANDRE, a personagem é minha! Não a podes utilizar sem o meu consentimento!" diz o Jaime muito sério.

" O Manuel não ia fazer uma coisa dessas!" defende a Madalena e o irmão faz-lhe sinal para ficar calada.

" Claro que não; a minha personagem fala muito no Inspector Latitude, porque é o herói favorito dele. Está sempre a perguntar: o que é que o Inspector Latitude faria nesta situação? " explica o Manuel " Sei muito bem o que são os direitos de autor!" acrescenta, ofendido.

O Jaime sorri discretamente e por isso, desafia-os para um jogo.

Quando a Carolina os vem buscar, o Jaime volta a reler as cartas e não está realmente interessado em escrever sobre isso.

Por isso, resolve telefonar à Judite e dizer-lhe delicadamente que não está interessado.

O que não esperava é que a Judite ficasse tão ofendida e o acusasse de ser um charlatão.

" Um charlatão, minha senhora? Peço-lhe o favor de ter cuidado com as palavras. Não fiz qualquer promessa, aliás, a senhora não me deu tempo!" argumenta o Jaime.

Mas a Judite não quer ouvir, repete que ele é um charlatão e pede-lhe a devolução das cartas.

O Jaime prepara tudo e devolve as ditas cartas por correio registado com aviso de recepção.

Entretanto, o Leonardo convence-o a participar num Encontro de Escritores Lusos-Franceses e o Jaime parte para Lyon, ficando lá perto de um mês.

Quando regressa, está cheio de ideias que se apressa a discutir com o Leonardo.

Este está com cara de maus amigos e estende-lhe uma revista. A página está assinalada e o Jaime reconhece a Judite na foto.

" O que é isto? "

" Lê!" pede o editor.



CONTINUA

domingo, 24 de novembro de 2019

SOAP OPERA - PARTE III


O Jaime suspira, recusa o café e paga o jantar.

Ainda bem que não disse nada ao Leonardo; este cairia da cadeira com o riso.

Em casa, abre o pacote das cartas. 

São cartas de amor, muito simples, escritas num português antigo que lhe tornam difícil a leitura.

Não vê o que poderá fazer com aquilo, talvez de manhã tenha alguma ideia.

O telemóvel acorda-o por volta das onze, é a ex-mulher, combinou almoçar e passar a tarde com os miúdos, esqueceu-se?

Claro que não, mente, toma um duche rápido, veste-se. 

Felizmente, a D.Margarida já chegou, vai limpar tudo e a Carolina não o vai acusar de ter os filhos num ambiente " pouco saudável".

O Manuel e a Madalena anunciam que querem almoçar no Mac'Donalds e o Jaime não os quer contrariar.

A Mãe não gosta muito que comam a dita " comida de plástico", mas talvez seja possível um compromisso.

Por isso, entram na Pizza Hut e partilham uma pizza familiar.

Depois, tal como combinado, voltam para casa do Jaime. A D.Margarida já saiu, está tudo limpo e até deixou na cozinha coisas preparadas para o lanche dos meninos.

Abençoada D.Margarida, pensa o Jaime e em voz alta, sugere um jogo.

Mas a Madalena encontra as cartas e pede para as ler.

" Oh, filha, isso não te interessa!" diz o Jaime, mas a filha abana a cabeça e quer saber se está a pesquisar para um novo livro.

" Sim, Pai, estás a pensar num novo livro? " insiste o Manuel " E, porque é que não podemos ler as cartas?"

Jaime explica-lhe que foi alguém que lhe pediu para as ler, pois quer escrever a história dos avós.

Os dois miúdos escutam atentamente e quando o Pai termina, perguntam:

" E vais escrever? É que teria muita mais piada se escrevesses sobre um super herói." e o Manuel confessa:

" Eu gosto do Inspector Latitude! Alguém o pode contratar para encontrar as cartas."

" Ainda não podes ler esses livros, Manuel!" avisa o Jaime.

" Não, foi na aula de Português. A professora pediu-nos para escrever sobre o nosso personagem favorito e tu falas tanto sobre o Inspector que eu inventei uma história." comenta o Manuel.


CONTINUA

sábado, 23 de novembro de 2019

SOAP OPERA - PARTE II


O cartão é para ele. É um numero de telemóvel e o Jaime sorri satisfeito.

Quem não está satisfeito é o Leonardo; conhece bem o Jaime e se aquela mulher lhe despertou o interesse, vai ser complicado saber quais são os planos futuros.

O casamento do Jaime com a Carolina terminou, porque ele envolveu-se com uma stripper ao fazer pesquisa para um livro.

Desapareceu durante seis meses quando ela casou com o Ricardo, não disse onde esteve, mas regressou com um livro interessante de contos.

Por isso, o editor suspira e espera que este devaneio não o faça viajar para o Kuweit, Brasil ou Gronelândia durante seis meses.

A Carolina pediria a custódia total dos miúdos e, por muitos defeitos que o Jaime tenha, adora o Manuel e a Madalena.

Nessa tarde, o Jaime telefona para a mulher desconhecida. 

Ela atende ao primeiro toque e a conversa é tão sensual que o Jaime convida-a para jantar.

Escolhem um restaurante da moda e a Júlia, como se apresenta, é faladora.

Tão faladora que o Jaime não consegue dizer uma palavra. 

Apenas a observa, não deve ter mais que 45 anos, cuida de si e veste-se com elegância, mas torna-se cansativa.

Tudo roda à volta dela, é a melhor em tudo e tanto quanto o Jaime consegue perceber, é que encontrou umas cartas antigas no sótão da casa dos avós.

" Acho que um escritor como o Jaime lhes pode dar o brilho que elas necessitam. Era uma homenagem aos meus avós, amor como o deles nunca vi." explica a Judite.

" Terei que as ler primeiro e só depois...."

" Compreendo, tem que se inspirar." interrompe a Judite e abre a carteira.

Tira um maço de cartas, atadas com uma fita vermelha e o Jaime sorri polidamente.

" Leve-as, leia-as e depois diga-me qualquer coisa." pede a Judite e, desculpando-se com um outro compromisso, levanta-se.

Aperta-lhe a mão formalmente, sorri para o empregado e saí da sala.

O Jaime fica sozinho, com as cartas e a sobremesa intacta.


CONTINUA


sexta-feira, 22 de novembro de 2019

SOAP OPERA



O novo romance do Jaime, " Onde está o Manuel?" é um sucesso e o Leonardo está muito satisfeito.

" Vais passar umas férias no Dubai à minha custa!" ri-se o Jaime, mas o Leonardo não está preocupado com isso.

Quer saber quais são os planos do Jaime. 

Vai continuar com a série sobre o Detective Latitude ou criar um novo personagem?

O Jaime leva o seu tempo a responder; está indeciso.  

Está um pouco farto da personagem e da sua atitude descontraída; talvez escreva uma " soap opera".

" O que queres dizer com isso? " pergunta o Leonardo.

" Muitas personagens, traições, ciúmes, mortes." diz o Jaime vagamente.

Está mais interessado em observar as pessoas que estão no restaurante.

Há uma mulher alta e loira que lhe chama a atenção. 

Não é bonita, mas o entusiasmo com que fala ilumina-lhe o rosto. Sente que a observam e olha na direcção do Jaime.

Sorri, os olhos verdes brincam com o escritor e este retribuí-lhe o sorriso.

" Jaime, Jaime!" e o Leonardo bate na mesa " Não estejas a namoriscar; explica a tua ideia. Não achas que é uma idiotice escrever uma " soap opera " depois de um livro tão interessante? "

" É só uma ideia! Na verdade, estou um pouco farto de escrever sobre crimes passionais. Gostava de tentar outra coisa; sobre a vida das crianças de pais separados..." o Jaime continua a observar a mulher loira.

Esta entrega um cartão ao empregado e saí.

CONTINUA

P.S.: Estes personagens aparecem no meu conto " A Novela" de Março 2019

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

VERA - FIM



Como trabalho de casa, a médica pede à Vera para encontrar formas de fortalecer a confiança.

Como, a Vera fica pensativa, mas o sobrinho pede-lhe ajuda.

Está a acabar a tese e pensa fazer um video. 

A tia é tão criativa, tem uma voz agradável, é ideal para o que quer fazer.

Os fins de semana são passados a discutir os vários ângulos do video e a Vera adora ver como a ideia está a evoluir.

O resultado é óptimo e a Vera anuncia que vai voltar a estudar.

Marketing digital, acrescenta, é o que a interessa verdadeiramente.

Estás maluca? perguntam-lhe, mas a Vera tem a certeza absoluta e entre o emprego e o curso, a frustração,o desânimo que lhe enchiam o dia quase desaparecem.

O sobrinho recebe uma proposta de emprego, o video é um ponto forte, mas ele confessa que teve também a ajuda da tia.

A empresa pede para conhecer a Vera, que fica surpreendida, mas vai à entrevista.

O curso de marketing digital é interessante, dizem-lhe, tem que terminar, mas ela será uma mais valia para a empresa.

Coordenará os workshops, apresentam-lhe as pessoas com quem vai trabalhar e a Vera fica entusiasmada.

Quando recebe a proposta formal, pede a demissão da outra empresa e é um alívio, diz mais tarde à médica.

A médica está satisfeita, acha que está apta a enfrentar o Mundo sem ela.

Perante o olhar espantada da Vera, diz que a pode consultar sempre que quiser.

Mas tem a certeza absoluta de que a Vera está agora mais confiante em si e voará sem medo de cair.

Porque a Vida é feita de altos e baixos e o segredo está em como sobreviver aos baixos.


FIM

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

VERA - PARTE IV


" Se calhar, foste tu a autora do crime, Vera!" diz a Helena maliciosa.

" EU??? " repete a Vera, estupefacta.

" Sim, vocês as duas estavam sempre a discutir e, às vezes, a Luísa tinha razão. A Vera é muito leviana!" acrescenta a Cristiana.

" E ia matá-la? Vocês estão tolinhas?" responde a Vera, indignada.

" Nunca se sabe!" continua a Cristiana " A Vera está armada em menina bem, trabalha só para si... nunca em equipa!"

A Vera fica boquiaberta com a injustiça dos comentários e as outras duas riem-se.

Esperam que desate a chorar, mas a Vera recompõe-se e comenta:

" Lamento que pensem isso, porque, ao que eu saiba, nunca prejudiquei ninguém." e senta-se.

É a vez das outras duas ficarem caladas. A atada, a idiota a fazer-lhes um discurso? E, tinham que admitir, ela não tinha prejudicado ninguém.


Pensando bem, para atingir os seus objectivos, a Luísa não se importava de " calcar" fosse quem fosse.

Roubou o caixa e se a Helena fosse acusada do roubo, melhor.

Por isso, não fizeram mais comentários e concentraram-se nos projectos em mão.

A Vera presta pouca atenção ao trabalho e o Chefe tem que lhe chamar a atenção.

Não pode definir o que sente - se humilhada, se frustrada ou simplesmente irritada.

Não pode realmente continuar a trabalhar na empresa, explica à médica, uma coisa é não gostarem de mim, outra é insinuarem que fui culpada da morte da Luísa.

As pessoas dizem coisas estúpidas no calor do momento, insiste a médica.

Não, não foi, afirma a Vera com a confiança que a médica queria que ela ganhasse.


CONTINUA

terça-feira, 19 de novembro de 2019

VERA - PARTE III


O roubo é o tema das conversas naquele dia e a Vera apercebe-se que as pessoas, com quem a Luísa trocava piadas e afins são quem mais a criticam.

" São horas do Diabo!" resume a D.Clotilde, a faz tudo da empresa e não acrescenta mais nada.

Vera está curiosa em saber como é que o serviço será organizado a partir de agora, mas, quando chega à empresa no dia seguinte, é impedida de entrar pela polícia.

Pedem-lhe a identificação e só depois de verificarem os dados, é que abrem a fita que limita o perímetro.

A Vera passa, olha para a entrada e vê um corpo.  Um sem-abrigo que morreu ali?

A polícia faz-lhe sinal para seguir em frente, para contornar o edifício e na entrada lateral, raramente usado, está o Chefe à espera dela.

" Entre, Vera! Explica-lhe já tudo:" e no átrio, que a D.Clotilde está já a arrumar, estão a Helena e a Cristiana, visivelmente chocadas.

" Vera, alguém matou a Luísa e largou o corpo na entrada principal!" explica o Chefe " Vai haver uma investigação, a polícia vai interrogar-nos, mas vamos manter a calma."

" O Chefe acha que podemos manter a calma com um assassino à solta? " interrompe a Cristiana de imediato.

" Oh, menina, tenha calma, não sabemos os detalhes todos!" observa a D. Clotilde " Lá por terem assassinado a menina Luísa, não quer dizer que nos matem também."

" A D.Clotilde tem toda a razão." concorda o Chefe " Pelas razões óbvias, não podemos utilizar a entrada principal, por isso, avisem todos os fornecedores e clientes que se devem entrar por aqui Quanto à central telefónica, já estamos a colocar um biombo para a separar da entrada."

" Por quanto tempo? " pergunta a Vera.

" Não sei, Vera. Para já, vamos trabalhar calmamente e quando a polícia quiser falar convosco, sejam sinceros." aconselha o Chefe.

Sobem para os gabinetes, mas não dizem nada, se bem que a pergunta seja:

Quem matou a Luísa? E, porquê deixá-la na entrada do escritório?


CONTINUA





segunda-feira, 18 de novembro de 2019

VERA - PARTE II


Continua a achar que o problema está nela, a Vera confessa, mas a médica volta a insistir que não há culpas.

As pessoas têm feitios, valores diferentes, mas se não há respeito, não há nada.

A Vera quer acreditar no que a médica, mas depois daquela discussão, não vê como ultrapassar a questão.

Nota que a colega está a troçar dela, mas a Vera mantém o mesmo tom de voz, baixo, calma quando lhe responde que é só uma colega de trabalho, não tem que lhe dar ordens.

A colega fica muito séria, diz-lhe que é tão criança, nem parece ter a idade que tem e a Vera não compreende muito bem se foi insultada, se devia ter dito mais alguma coisa.

Decidiu que era melhor esquecer, ignorar os comentários idiotas e concentrar-se no que gosta de fazer.

Mas, um dia a discussão com a colega é tão grave que o Chefe a aconselha a tirar uns dias de férias.

Porquê ela e não a outra, mas não se atreve a perguntar, o Chefe diz que falam quando ela regressar.

Assim, a Vera vai passar um fim de semana prolongado a Santiago de Compostela, tira imensas fotografias e fica mais relaxada.

Contudo, encontra o escritório em pé de guerra e há tantos rumores que é difícil compreender o que se passa.

Finalmente, alguém conta-lhe em pormenor e a Vera fica espantada.

A Lúcia, a colega com quem teve a discussão, foi apanhada a roubar.

Ainda tentou negar, atirar a culpa para a Helena, mas havia testemunhas e ela acabou por aceitar a demissão, sem indemnização e em troca, a empresa não apresenta queixa à polícia.

" E. tão formidável que ela era!" comenta a Helena " Nem sequer pensou nos outros... Só me afastei cinco minutos, mas foi o suficiente para ela pegar no dinheiro."


CONTINUA


domingo, 17 de novembro de 2019

VERA


" Respira fundo, Vera, não mostres medo!" pensar é fácil, agir é mais complicado e a Vera sente-se muito sozinha.

Culpa sua, talvez, mas rejeita de imediato o pensamento. 

A médica não quer que pense nisso, tem apenas que compreender que não faz parte da vida daquelas pessoas, que nunca foram suas amigas.

Toleram-na apenas, é alguém que trabalha com eles e não existe fora do escritório.

Mas o pior, acha a Vera, é a divisão entre as pessoas, trabalham na mesma empresa, mas a médica diz que está a ter uma visão muito romântica da vida.

Será?  Encontre os seus próprios amigos, invista nas coisas de que gosta, seja quem é e não uma sombra, aconselha a médica.

Mesmo que os outros não gostem? E a médica apenas sorri, porque a realidade é essa.

Encontramos pessoas com quem estabelecemos laços para toda a vida e outras que não suportamos.

E, com isto em mente, a Vera abre a porta e entra.

Há sorrisos, oh, pá, estás melhor, mas esquecem-na pouco depois e a Vera fica a olhar para a secretária vazia.

Aquele primeiro dia é complicado, a secretária permanece vazia e ninguém lhe fala.

Vera sente-se frustrada. Ok, esteve ausente dois meses, mas esteve bastante doente e ninguém pensou que recuperasse.

Assim é que não recupero, murmura quando sai e nem responde quando, em casa lhe perguntam como correu o dia.


CONTINUA



sexta-feira, 15 de novembro de 2019

O REGRESSO - O FIM


O almoço até corre bem, a Sandra não está propriamente à vontade, mas a Cristina está bem disposta e só conta anedotas.

Combinam que, pelo menos um vez por mês almoçam juntas. 

Naquela restaurante ou noutro e cada uma paga o seu.

A Sandra agradece a companhia e desaparece na sala do arquivo. 

Diz que tem muita coisa a catalogar, mas talvez se encontrem na cafetaria mais tarde para um café?

Porque não? pensam a Carla e a Cristina, uma troca de palavras amáveis é essencial para a vida.

" Pena a Beatriz!" comenta a Carla nessa noite " A Sandra mostrou-se um pouco hesitante, um pouco indecisa, mas suspeito que está a reaprender a viver..."

" Vai demorar a confiar nas pessoas." confirma o Brites " Não te preocupes com a Beatriz, parece-me ser aquele tipo de pessoa que é um herói quando tudo corre bem, mas esquiva-se quando as coisas dão para o torto."

" Sim, porque ela também alimentava a troca de comentários impróprios... Claro que a Sandra também me disse que tinha a vida garantida porque estou casada com um detective, mas eu fiz de conta."

" Vida garantida?" ri-se o Brites, atraindo-a a si, mas a Sofia resolve interromper o romance dos pais.

Os meses passam, a Sandra começa a sorrir mais, mais descontraída, mais confiante e a Carla recebe uma proposta de emprego irrecusável.

O Brites incentiva-a a aceitar e os colegas oferecem-lhe um jantar de despedida.

A Cristina e a Sandra obrigam-na a prometer que continuam a almoçar juntas uma vez por mês e a Carla ocupa satisfeita o novo lugar.

É num desses almoços, quase um ano depois, que a Sandra conta tudo o que lhe aconteceu às duas amigas.

Porque confia nelas....


FIM


quinta-feira, 14 de novembro de 2019

O REGRESSO - PARTE V



Naquela tarde, a Carla encontra a Sandra a chorar na casa de banho.

A outra tenta recompor-se, mas a Carla apenas lhe aperta o ombro em sinal de solidariedade.

" Se precisar de ajuda, posso indicar-lhe um grupo de apoio." e a Sandra olha-a com curiosidade.

A Carla sorri-lhe e continua a falar:

" Parece que o tempo vai melhor! Amanhã, vamos almoçar no restaurante da esquina, porque não vem connosco? "

Surpreendida, a Sandra aceita e a Cristina, que entra nesse momento, acrescenta:

" Espero que goste de bacalhau no forno. É o prato do dia e é muito bom!"

" Sim, gosto muito. Com batatas a murro? " diz a Sandra.

" Com tudo a que temos direito!" e as três riem.

A Carla pede desculpa, tem que se ir embora, já está atrasada para ir buscar a Sofia e separam-se no átrio.

No dia seguinte, a Beatriz pergunta à Carla:

" Vocês convidaram a Sandra para almoçar connosco? "

" Qual é o problema? É uma forma de lhe dizermos que pode contar connosco." mas a Beatriz abana a cabeça e observa:

" Então, eu não vou. Não estou para a aturar! " e a Carla fica surpreendida pela reacção da outra.

" Por amor de Deus! Esquece isso! Ok, ela não foi propriamente um modelo de educação, mas tu também foste culpada. Ela deu-me alguma bocas, mas, como a ignorei, ela calou-se."

" Se calhar, foi porque sabe que o teu marido é Sargento na Polícia!" replica a Beatriz.

" Sem comentários! Se não vens almoçar, tudo bem! Problema teu!" a Carla está furiosa e desabafa com a Cristina:

" Nunca pensei que a Beatriz fosse assim, rancorosa!"


CONTINUA

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

O REGRESSO - PARTE IV


" A Sandra voltou hoje, mas está diferente!" e, em resposta à pergunta muda do marido, a Carla explica " Está mais magra, mas até precisava, mas nota-se que está assustada com qualquer coisa."

" Com quê? " interrompe o Brites, mas a Carla encolhe os ombros.

" Não sei! Acho que ela foi, está a ser vítima de violência doméstica. Ela que gostava de tops e saias curtas, aparece agora com camisas de manga comprida e lenços ao pescoço."

" Pode ser sinal de violência... mas não podes abordar a questão frontalmente!" aconselha o marido " É uma questão muito complicada, tens que estar segura disso para não a afastares!"

" Sargento Filipe Brites, conheces-me. Sou a discrição personificada!" interrompe a Carla.

No dia seguinte, a Carla convida a Sandra para um café, mas esta recusa.

Tem os olhos vermelhos, deve ter chorado e, como o lenço está um pouco torto, a Carla vê que parte do pescoço da Sandra está pisado.

" Ali, naquela zona... não, não foi nenhuma pancada. Alguém a tentou sufocar." comenta com a Cristina mais tarde.

" Mas concordo com o teu marido, não temos a certeza e não lhe podemos falar no assunto." diz a colega.

" Eu sei, aprendi muitas coisas com o Filipe. Não é que ele fale em detalhe dos casos, não o pode fazer, mas há certas coisas que podemos discutir!" admite a Carla.

Continua a estar atenta às atitudes da Sandra. 

Se alguém fala mais alto, ela assusta-se e até pede ao Chefe para deixar de fazer serviço externo.

Trabalha na sala do arquivo, substitui a Beatriz na recepção se necessário e trata do correio.

" Isto confirma as minhas suspeitas!" afirma a Carla, mas a Cristina pede-lhe calma.

A Beatriz acha que tudo aquilo é um absurdo e como a Sandra parece submissa e não reage a quaisquer provocações, faz de conta que a outra não existe.

CONTINUA


terça-feira, 12 de novembro de 2019

O REGRESSO - PARTE III


" Se calhar, meteu baixa!" responde o Brites quando a Carla lhe conta as peripécias do dia.

" A Sandra? Gaba-se de nunca ter estado doente!"

" Nem uma constipação?" ri-se o Brites, mas a Sofia chora nesse momento e a Carla deixa-o sozinho na sala.

Quando regressa, está tão cansada que acaba por adormecer no sofá.

O Brites tem pena dela e não a acorda. 

Se a Sofia chorou de noite, a Carla não deu conta e pela cara do Brites, é fácil adivinhar de que a rapariga passou bem a noite.

Na empresa, todos falam da Sandra.

Alguém da família, não se identificou, entregou o papel da baixa.

" Acreditas nisto? " pergunta a Beatriz " A Sandra de baixa? Dizia sempre que era de aço inoxidável."

"Às vezes, é melhor a pessoa ficar calada. No fundo, a Sandra é muito insegura!" comenta a Cristina.

" O quê? Com aquela língua afiada? " espanta-se a Beatriz.

" Sim, é uma forma de esconder que é frágil, não tem a certeza das coisas. Por isso, ataca." acrescenta a Carla " O Brites diz que é dessa forma que sabe que as pessoas estão a mentir. Constroem uma história e repetem-na até à exaustão."

" Nunca pensei nisso!" admite a Beatriz " Mas ela não deixa as pessoas aproximarem-se."

As outras encolhem os ombros, a Beatriz não deixa de ter razão, a Sandra põe as pessoas à distância, mostra-lhe o lado menos agradável da sua personalidade.

A Sandra regressa passadas duas semanas. Está diferente, está mais magra e, apesar do calor, traz uma camisa de mangas compridas e um lenço ao pescoço.

Nota-se que está nervosa e sobressalta-se com o mais pequeno barulho.

A Carla observa-a atentamente e pensa se não terá sido vitima de violência doméstica.

" Ups, já estou a pensar como o Brites!"


CONTINUA




segunda-feira, 11 de novembro de 2019

O REGRESSO - PARTE II


A Sandra continua a fazer comentários irónicos e a Beatriz tenta controlar-se.

A discussão torna-se-ia agressiva, se a Clara, a calma em pessoa, não decidisse intervir.

" Ou calam-se ou chamo o Chefe, porque há aqui pessoas que querem trabalhar." e como, nem a Sandra nem a Beatriz querem falar com o Chefe, calam-se.

A meio da tarde, telefonam da creche, a Sofia está agitada, tem febre, talvez seja melhor levá-la ao médico e a Carla saí a correr.

Não assiste à discussão que a Sandra provoca com um comentário estúpido relativamente ao vestido que a Beatriz comprou à hora de almoço.

Apesar dos conselhos práticos da Clara, as duas discutem tão alto que o Chefe ouve e pede uma explicação.

Como não está habituado a trabalhar com " miúdos malcriados", diz, pede-lhe para se apresentarem no gabinete dele no dia seguinte às nove horas em ponto.

Naquele dia, a Carla só vai de tarde, teve que deixar a Sofia em casa da Mãe e fica admirada por ver a Beatriz com os olhos vermelhos e muito calada.

Interroga a Clara com o olhar e esta conta-lhe baixinho o que se passou.

" Ela não disse o que se passou no Gabinete do Chefe, apenas que ele estava furioso, ainda mais porque a Sandra não apareceu."

" Não apareceu? " e só agora é que a Carla se apercebe que a secretária da " faz tudo" está vazia.

" Pensei que ela estivesse a fazer serviço externo." confessa a Carla, mas a Clara abana a cabeça.

" Não, já lhe telefonamos, para o fixo e para o telemóvel e ninguém atende!"

" Fugiu!" e as duas desatam a rir.

A tarde passou-se sem grandes sobressaltos; a Beatriz continua calada e não há quaisquer notícias da Sandra.


CONTINUA


domingo, 10 de novembro de 2019

REGRESSO


Carla não sabe o que fazer.

O nascimento da filha mudou as prioridades e o regresso ao trabalho não está a ser fácil.

As pessoas estão diferentes. 

Dantes, havia um ambiente de cumplicidade, de partilha e agora, há uma frieza, uma tal arrogância que o melhor é fingir que não existe.

Mas é impossível ignorar, as pessoas explodem rapidamente e fazem observações maldosas. 

A Carla sente-se encurralada, começa a sentir-se infeliz e mal pode esperar que o dia de trabalho acabe para rever a filha e marido.

O Brites aconselha-a a candidatar-se a outro emprego, mas a Carla está hesitante.

Mas o que se passa naquela manhã torna a decisão mais fácil.

A Beatriz critica a " faz tudo " da empresa por não dizer " bom dia" e esta insurge-se, dizendo:

" Não posso fazer o que eu quiser? " e a Beatriz perde a cabeça e pergunta:

" A Sandra é uma grande malcriada! Nunca lhe disseram que dizer " bom dia" faz parte das regras básicas da boa educação? "

Mas a Sandra ri-se, o que enerva a Beatriz.

" Já olhou bem para si? Está sempre calada, armada em importante! Pensa que é a Chefe? "

A Carla acha melhor intervir e observa calmamente:

" Deixem-se disso! Beatriz, não ouves o telefone? E, a Sandra vá tratar do arquivo? "

" Ah, a Carla também está armada em Chefe? " e o riso da Sandra é desagradável.

A Carla ergue as mãos num sinal de impotência e resolve atender o telefone.

Do outro lado, há um cliente furioso, que observa que está há mais de vinte minutos a tentar contactar a empresa.

CONTINUA