sábado, 31 de julho de 2021

A HISTÓRIA - FIM

 

A Matilde vai à reunião daquele sábado, gosta do ambiente, é bem recebida.

Só tem alguma dificuldade em falar sobre o problema em público, mas recebe bons conselhos.

A primeira coisa a fazer é tentar fazer as pazes com a Carolina e esta ouve-a atentamente, mostra-se solidária.

Acabam por sair naquela noite, nada de bares, diz a Carolina, um bom filme e um gelado depois também resultam, responde o namorado.

Encontram uns amigos no cinema, acabam por ir a uma pizzaria jantar, nada de álcool, recomenda a Carolina, mas ninguém pensa nisso.

Querem apenas gozar a noite e a Matilde até se diverte bastante.

Chega a casa depois da hora combinada com os Pais, estes não estão nada satisfeitos, mas aceitam a explicação que a Matilde dá.

As consultas com a Dra Madalena e as reuniões com o Grupo estão a resultar, a Matilde sente-se mais feliz.

Toda a família repara, respira aliviada e a Rita aconselha a sobrinha a contar tudo aos Pais.

Vais ouvir um sermão, diz, mas é melhor que eles saibam por ti... nunca se sabe quem te vê ou não, as interpretações que fazem...

A Matilde suspira contrariada, tanto a Dra Madalena como o grupo também insistiram nisso, ela tem que concordar que é melhor estar tudo esclarecido.

Felizmente, a Clarinha está em casa de uma amiga, vai ficar lá a dormir, é o momento ideal para por as cartas na mesa.

Os Pais estão surpreendidos, ficam até um pouco ressentidos por não ter confiado neles, só queremos o teu bem, repete a Mãe.

Eu sei, mas era uma coisa que tinha que fazer sozinha, explica a Matilde, muito corada.

O Pai continua calado, preocupa um pouco a Matilde, não consegue ler a expressão dela.

Estou orgulhoso de ti, observa, procuraste respostas, encontraste soluções. Era isso que eu queria que descobrisses e só quero que saibas que estamos cá para te ajudar no que for preciso, e sorri.

A Matilde sorri também e atreve-se a perguntar:

Posso voltar a viver sozinha? Com uma amiga? mas os Pais abanam a cabeça.

Ainda não estamos prontos para discutir isso, riem e a Matilde fica um pouco desapontada.

Mas nem tudo está perdido... porque tudo começa a fazer sentido e ela está entusiasmada.

E há muito tempo que não se sentia assim...

FIM


sexta-feira, 30 de julho de 2021

A HISTÓRIA PARTE V

 

A Dra Madalena tem uma vaga naquele dia, é à hora de almoço, desculpa-se, mas a Matilde aceita.

A colega do Gabriel é muito simpática, não deve ter mais de trinta, trinta e poucos anos e escuta-a atentamente.

A Matilde tem uma ideia muito vaga dos acontecimentos daquele dia, acha que encontrou a Isabel, a ex-colega de casa e o namorado numa esplanada.

E, porque é que isso foi importante para ti a ponto de te embebedares? interrompe a Dra Madalena e a Matilde fica calada uns minutos.

Acho que foi, diz lentamente, porque ele disse que terminou tudo com a Isabel por minha causa e a médica fica surpreendida.

O que é que aconteceu entre vocês? pergunta a médica, tivemos um caso, dormimos juntos uma noite, confessa a Matilde, acho que foi por causa disso que comecei a beber. A beber mais, corrige.

Já bebias, mas não a ponto de ficares em coma? repete a Dra Madalena, não, admite a Matilde, bebia e muito, mas adormecia e acordava com uma grande ressaca.

A médica olha para o relógio, tem que voltar à enfermaria, desculpa-se mas dá-lhe um cartão com um nome e um endereço.

Funcionam num salão paroquial, acho que é perto da tua casa, explica, vai até lá, também te podem ajudar.

A Matilde agradece, guarda o cartão na carteira, entretanto, quero que penses em tudo o que aconteceu com a Isabel, no que te levou a dormir com o namorado dela, pede a Dra Madalena, acho que vamos encontrar aí o motivo.

Despedem-se, a Matilde apressa-se a voltar para casa.

A Mãe fica surpreendida, não vais para o escritório da Rita? questiona, sim, sim, só vim deixar a mochila, está muito pesada, justifica.

A Rita quer saber tudo, até pesquisa na Net o grupo que a médica recomendou. Mas não aparece nada na Net e o Gonçalo goza-a delicadamente.

São anónimos, achas que vão fazer publicidade na Net? e os três riem.

Os telefones começam a tocar, não há tempo para divagar e para a Matilde, até é bom estar ocupada.

CONTINUA

quinta-feira, 29 de julho de 2021

A HISTÓRIA PARTE IV

 

Conversam mais uns minutos, o Gabriel dá-lhe o numero de telemóvel da colega e promete falar com ela, explicar o que aconteceu e ela te poder ajudar melhor, diz.

Despedem-se, entro ao serviço dentro de dois minutos, justifica-se e a Matilde vai lentamente para a paragem de autocarro.

Continua confusa, mas tem que encontrar uma alternativa para bem de todos; por isso, resolve falar com a Rita.

Pede para jantar com eles, o Gonçalo percebe que ela tem qualquer coisa pessoal para discutir com a tia e desaparece com o pretexto de vigiar a Francisca, hoje, ela teve um pouco de febre, diz, está agitada, fico no quarto a fazer-lhe companhia.

A Rita escuta atentamente os argumentos da sobrinha, até concorda com o ponto de vista do Gabriel, mas não tem a certeza de que a irmã e o cunhado aceitem.

Foi muito duro para os teus Pais, explica, nem calculas como! Serem chamados ao Hospital porque a filha estava em coma, falarem-lhe de programas... Até posso não concordar com a forma que escolheram para lidar o problema, mas compreendo o porquê de estarem a ser tão severos! Abusaste da sorte, Matilde!

A sobrinha baixa a cabeça, eu sei, Rita, eu sei, comenta, mas não gosto daquele psiquiatra, não consigo falar com ele. Tens que me ajudar.

A Rita fica pensativa uns minutos, então, vamos fazer assim, sugere, marcas uma sessão ou duas com a colega desse tal Gabriel, vês o que ela te diz, como te sentes e depois falamos com os teus Pais. Tudo vai depender de ti, Matilde, frisa, tens que provar aos teus Pais que vais ultrapassar o problema.

A Matilde sorri, dá-lhe um grande abraço e a Rita aconselha-a a voltar a casa.

Chama-lhe um táxi e vai à procura do Gonçalo, instalado confortavelmente na cadeira de baloiço com a filha ao colo.

Já dorme, murmura, deito-a e vou já ter contigo.

No quarto, enquanto se preparam para se deitar, a Rita conta a conversa que teve com a sobrinha e o Gonçalo fica também pensativo.

Gosto da ideia, a Matilde precisa de desabafar, de entender porque está a agir assim, diz, talvez se abra com alguém mais jovem. Tens que concordar que o teu cunhado foi um pouco bruto ao impor aquele psiquiatra.

A Rita suspira, disse-lhe para marcar uma sessão com essa tal médica, veremos o que acontece, só espera que não haja complicações, caso contrário, terei que ouvir o Bernardes e a Madalena! remata.

O Gonçalo ri-se, não vamos pensar nisso agora, vamos gozar a nossa noite, convida com um sorriso maroto.

No dia seguinte, a Matilde liga para o numero que o Gabriel lhe deu.

CONTINUA

quarta-feira, 28 de julho de 2021

A HISTÓRIA PARTE III

 

Olá, fala Matilde Bernardes, apresenta-se cuidadosamente, não sei se te lembras de mim, a rapariga desmaiada na discoteca e tu telefonaste aos meus Pais?

Ah, sim, responde a Joana, como estás? Recuperaste bem?

Sim, sim, obrigada, diz apressadamente a Matilde, eu gostava de falar com o teu irmão. Sei que foi ele quem me prestou os primeiros socorros.

Ah, sim, o Gabriel, esclarece a Joana, o meu irmão tem turnos doidos, mas acho que se fores às urgências e perguntares por ele, as enfermeiras chamam-no. Espera aí.... sim, ele vai estar de serviço amanhã às duas da tarde. Se puderes estar lá a essa hora....

Ok, obrigada, podes enviar-lhe um SMS a avisá-lo? pede a Matilde e as duas raparigas combinam os detalhes.

Ás duas da tarde, com a desculpa de que tem uma aula suplementar, a Matilde está na cafetaria do Hospital.

A Joana enviou-lhe um SMS, o irmão diz que é o melhor local para falarem, as urgências têm estado caóticas e ali ninguém os interrompe.

Há várias mesas ocupadas, a Matilde olha para os crachás para identificar quem é o Dr Gabriel Loures.

O Gabriel está sentado na última, perto da janela e quando ela se aproxima, levanta-se.

Olá, és a Matilde? pergunta, a Joana disse que querias falar comigo. Estás bem? Estás a seguir algum tratamento?

A Matilde sorri, o Gabriel é alto, tem cabelo preto e olhos verdes e a voz é baixa, amigável.

Não me lembro muito bem do que aconteceu naquela noite, confessa a Matilde, a amiga que estava comigo não quer falar sobre o assunto e os meus Pais também não.

E tu precisas de falar, remata o Gabriel, não sei se sou a pessoa indicada, fiz a rotação de psicologia, claro, mas não me vou especializar nisso. Mas posso apresentar-te uma colega.

Achas que isso é uma boa solução? Os meus Pais sugeriram ir a um psiquiatra, até lhe recomendaram um, mas fui incapaz de falar com ele, explica a rapariga e o Gabriel nota que ela está muito nervosa.

Acho que é uma boa solução, repete o irmão da Joana, talvez te sintas mais à vontade para falar com alguém mais próximo da tua idade, que terá uma perspectiva das coisas mais aberta.

CONTINUA

terça-feira, 27 de julho de 2021

A HISTÓRIA PARTE II

 

Acho que não foi a Carolina, desabafo, deve ter sido alguém da escola que estava lá.

O irmão olha-a atentamente e diz, não sei qual é o espanto, desmaiaste numa discoteca cheia, alguém achou piada e filmou.

Estou a receber piadas e algumas não são muito agradáveis, confesso e o Gustavo ri-se.

Gostava de dizer que tenho pena de ti, continua, mas não tenho! Francamente, Matilde, beberes até desmaiar... o que é que se passa contigo? O que é feito do teu plano? Está tudo confuso, tudo sem nexo...

A Matilde baixa a cabeça, também ela não sabe o que está a acontecer, sinto-me muito perdida, responde e o irmão dá-lhe um abraço.

Estamos aqui para te ajudar, afirma, eu, a Luísa, os Pais e vai conversar com a Carolina. Foi uma boa amiga, pediu ajuda e tiveste sorte em lá estar aquele estudante de medicina!

Pois, concorda, gostava de saber quem é! Sei o nome de quem me tratou, mas quem organizou tudo foi esse tal estudante e como foram os Pais quem assinaram a alta... não tive a oportunidade de perguntar.

Acho que quem telefonou foi a irmã dele, vê o telemóvel do Pai, sugere o Gustavo, pode ser que ainda tenha lá o nº.

O Pai vai ficar furioso se eu mexer no telemóvel dele, protesta a Matilde, mas o Gustavo volta a rir-se, não, se fizeres isso cuidadosamente.

Naquela noite, por sorte, o Pai deixa o telemóvel na mesa de entrada e a Matilde pede à Clarinha para a avisar se o Pai aparecer no hall.

Mas o que é que vais fazer? a Clarinha está curiosa, mas a Matilde dá-lhe um safanão, nada que precises saber e bico calado! exige.

Vai até ao histórico das chamadas, procura as de sábado e escreve apressadamente dois números por causa das horas, 23h30, 23h45.

Coloca novamente o telemóvel na mesa, faz sinal à Clarinha para ir ter com os Pais à sala e ela fecha-se no quarto.

Marca um dos números, ninguém atende, vai directo para o VoiceMail e a Matilde descarta-o de imediato, pois a voz é de homem.

Marca o segundo, é uma rapariga que atende e a Matilde suspende a respiração.

Olá, hesita, com quem estou a falar?

Joana, Joana Loures e estou a falar com? a voz da Joana é agradável.

CONTINUA

segunda-feira, 26 de julho de 2021

A HISTÓRIA

 

Já te disse que não fui eu quem avisou os teus Pais! e a Carolina, geralmente tão calma, eleva a voz furiosa.

Só podes ter sido tu! insiste a Matilde, por tua causa, estou a ser vigiada, só posso sair para ir às aulas e o resto do tempo, tenho que estar no escritório da Rita.

Vê se cresces, Matilde! responde a Carolina, foi a irmã do médico que te assistiu na discoteca que contou tudo aos teus Pais. Perguntaram-me se sabia o nº de telemóvel dos teus Pais, a rapariga achou que eu estava nervosa demais e tratou ela do assunto! Também não foi fácil para mim, sabes? Os meus Pais também tiveram que me ir buscar ao hospital!

A Matilde não diz mais nada, tem apenas vagas recordações daquela noite, mas lembra-se muito bem do discurso que recebeu.

Isto não é desculpa, Matilde, foi o Pai quem abriu as hostilidades.

Acordou com a boca a saber mal, a Mãe levou-lhe o pequeno almoço à casa e aconselhou-a a tomar um duche.

Não saias daqui! disse e saiu, regressando meia hora mais tarde com o Pai, os dois muito sérios.

Vais encontrar muitos obstáculos na vida e tens duas opções, continuou o Pai, enfrentas, tentas perceber o que correu mal e avanças ou desistes e refugias-te na bebida, por exemplo. 

Não é isso que queremos para a nossa filha, interrompeu a Mãe, sempre te ensinamos a lutar pelos teus projectos, pelos teus ideais e estás a desistir... Ainda não entendi bem porquê, mas Matilde, não podes ser, tens que fazer um esforço, reorganizar-te... a vida não acaba aqui!

Por isso, vais ficar aqui em casa, observa, e se provares que estás empenhada em transformar a tua vida, voltas a viver sozinha com uma amiga.

Mas não é justo! protestou a Matilde, mas o Pais abanou a cabeça, o que não é justo é recebermos uma chamada de alguém a dizer que te vão levar para o Hospital porque não acordas!

A Matilde volta a suspirar, abre a boca para pedir desculpa à Carolina, está a ser injusta, mas a amiga já desapareceu.

Bolas, pensa a Matilde, tenho que ter cuidado! Caso contrário, fico sem amigas!

Apressa-se a pegar na mochila, já está atrasada para a aula, passa por um grupo que lhe pergunta trocista, então. Matilde, já estás melhor da ressaca? e ela tem que morder os lábios para não responder.

Quem é que espalhou a história?

CONTINUA

sábado, 24 de julho de 2021

O JANTAR DANÇANTE FIM

 

O Luís saí, eu sento-me um bocado e acabo por adormecer.

É o Luís quem me acorda, já falei com os Pais, conta, expliquei os vários programas que há disponíveis, aconselhei uma consulta de psiquiatria, mas não me pareceram muito receptivos.

É sempre um choque, a primeira reacção é negar, respondo, mas o Luís abana a cabeça, acho que sabem e estão a tentar lidar com a situação.

Ok, vou para casa, ver se consigo dormir mais um bocado, comento, estou curioso por saber como correu o jantar dançante.

O meu colega ri-se e eu saio para o ar frio da madrugada. Olho para o relógio, quase seis da manhã, o pessoal deve já estar a dormir.

Não há barulho quando entro em casa, as portas dos quartos estão fechados, a que horas terão voltado? mas não quero saber.

Entro no meu antigo quarto, a cama está feita, encontro um pijama e fecho-me na casa de banho.

Tomo um duche rápido, volto para o quarto e deito-me.

Quando acordo, já passa das duas da tarde, lá em baixo, alguém fala excitadamente.

Desço, estão todos na cozinha e a Joana está a contar a aventura na discoteca.

Ah, então, foste um herói? diz o Pai, pobre menina! Bebeu demais, foi? lamenta a Mãe, vocês querem viver a vida depressa demais!

Ficou em observação, explico, o meu colega já falou com os Pais, propôs uns programas de desintoxicação, mas os Pais não quiseram ouvir!

Apanhou uma bebedeira, foi isso, afirma a Mãe, porque pensas que é alcoolismo?

As análises não mentem, Mãe, aquele miúda bebe e muito, digo e a Mãe olha-me estupefacta.

A Joana diz que não terá mais que vinte, vinte e pouco anos, pobres Pais! suspira.

Pobres Pais! O problema será maior se não tomarem providências, penso e resolvo telefonar ao Luís.

Mas o Luís já não está ao serviço e não consigo falar com o colega que o substituí.

Não faz mal, amanhã quando entrar ao serviço, leio o processo.

Fico surpreendido por saber que os Pais, contra a recomendação feita pelo Luís da miúda ficar mais uns dias, levaram-na para casa.

Espero que não se arrependam, murmuro, caso contrário, esta não será a última vez que ela passará a noite num hospital.

É então que me lembro que não perguntei mais nada sobre o jantar dançante.

FIM



sexta-feira, 23 de julho de 2021

O JANTAR DANÇANTE PARTE VI

 

Matilde, Matilde Bernardes, responde uma rapariga tão pálida que decido levá-la também na ambulância.

Tens o numero de telemóvel dos Pais? insiste a Joana e quando a rapariga acena que sim, a minha irmã pede, dá-me o numero, eu telefono-lhes, tu estás muito nervosa!

A ambulância chega, explico rapidamente o que se passa, peço para as levar para o Hospital Universitário, já contactei o meu colega que está de serviço nas urgências, está à espera delas, é o Dr Luís Belmonte.

A Joana já está a falar com os Pais, eu faço-lhe sinal que vou até ao Hospital, levo o meu carro, os Pais terão que organizar a boleia da Avó.

Quando chego às urgências, a Matilde está em observação e a colega, o Luís diz-me que se chama Clara, está apenas em estado de choque e deram-lhe um sedativo.

Falas tu com os Pais? pede-me, isto tem estado caótico, fazias-me um grande favor! e desaparece num dos gabinetes onde alguém grita com dores.

Fico na recepção, à espera dos Pais da Matilde e da Clara.

Aparecem primeiro os da Clara, um casal bastante assustado, mas que me apresso a sossegar.

A Clara teve um choque ao ver a amiga desmaiar, explico, o meu colega achou melhor dar-lhe um sedativo; deve estar um pouco ensonada, mas pode ir para casa. A Senhora Enfermeira leva-os ao gabinete e ajuda-os com a papelada.

Agradecem-me com um sorriso e seguem a Enfermeira.

Entretanto, chegam os Pais da Matilde, ouço uma voz de homem forte a pedir informações à recepcionista.

Sr Bernardes? pergunto e olho para um homem alto, de feições clássicas que responde calma e friamente, Inspector Bernardes e esta é a minha mulher, Madalena.

A senhora cumprimenta-me com um aceno de cabeça, observa-me atentamente, ouve as explicações sem me interromper.

Quando termino, agradecem, mas gostariam de falar com o médico que a tratou, claro que sim, apresso-me a dizer.

Podemos vê-la? a Mãe tem uma voz suave, carinhosa e eu conduzo-os até ao gabinete.

Procuro o Luís, encontro-o na sala dos médicos, estou exausto, pá, se vejo este turno chegar ao fim... confessa.

Os Pais da miúda querem falar contigo, esclareço, contei tudo, mas é contigo que querem falar.

Bolas! suspira o Luís, onde é que eles estão?

CONTINUA

quinta-feira, 22 de julho de 2021

O JANTAR DANÇANTE PARTE V

 

A senhora da mesa ao lado ri-se, vejo que o meu marido conquistou a sua Mãe, comenta, porque é que não lhe dizemos que também sabemos dançar? e estende a mão ao meu Pai.

O Pai fica surpreendido, mas sorri e conduz a senhora até à pista.

Tanto a Mãe como a Avó parecem estar muito divertidas, a música termina e todos batem palmas.

A banda muda de ritmo, penso que as senhoras vão regressar à mesa, mas há troca de pares e vejo que o bailarino convida a Avó e o senhor a Mãe.

Não vejo onde está o Pai, a Joana está algures a tirar fotos e eu percorro a sala com o olhar à procura de um par.

Acabo por me sentar no bar instalado ao fundo da sala, preciso de uma bebida mais forte.

Quem diria que a Avó é tão boa dançarina? E a Mãe? Pena que a Joana não esteja aqui, podíamos trocar impressões sobre os talentos escondidos dos nossos Pais.

Decido voltar à mesa, os meus Pais já lá estão a conversar intensamente com o outro casal e a Avó beberrica um pouco de champagne.

Ah, Gabriel, diz quando me vê, ainda não dançaste comigo! E eu faço questão de dançar com o meu neto ou achas que és importante demais para isso? acrescenta, trocista.

Rio-me e damos uma volta à pista, A banda está a tocar um slow, a Avó acompanha bem o ritmo e ri-se quando a elogio.

Anos de prática, meu caro! e voltamos a rodopiar.

A banda dá os acordes finais, anuncia um pequeno intervalo e estou a conduzir a Avó à mesa quando a Joana aparece muito pálida.

Gabriel, Gabriel, diz, tens que vir depressa à discoteca! Alguém sentiu-se mal e precisa de um médico! e faz-me sinal para a seguir.

A Avó fica curiosa e também nos acompanha à discoteca no andar de baixo.

É uma rapariga que está deitada no chão, há um pequeno grupo de pessoas que me olha com uma certa expectativa.

Não deve ter mais de vinte, vinte e pouco anos, tem cabelo castanho claro e uma pele muito branca.

Está a suar e cheira fortemente a álcool; presumo que seja coma alcoólico, mas não tenho a certeza.

Há quanto tempo está assim? pergunta, mas ninguém sabe. Apenas a Joana dá um palpite, dez minutos, quinze no máximo, explica.

Melhor chamar o 112, e tiro o meu telemóvel do bolso, alguém sabe como ela se chama? O nome dos Pais?

CONTINUA




quarta-feira, 21 de julho de 2021

O JANTAR DANÇANTE PARTE IV

 

Até o Pai! comento e a Avó ri, o meu filho não é nada como o Pai! O teu avô abria sempre o baile e era um excelente dançarino! suspira.

Espero que me conceda uma dança, antes de ser arrebatada por todos aqueles galãs, digo e a Avó volta a rir.

O ponto de encontro combinado foi o hall de entrada do Hotel, os Pais e a Joana já lá estão.

Tenho que concordar com o Pai, o vestido da Joana é muito curto e a louca fez uma madeixa cor de rosa, mas a Mãe está deslumbrante.

Anabela, estás linda! observa a Avó e a Mãe recompensa-a com um largo sorriso, também a Mãe!

Vamos à procura do Salão Dourado, da mesa 37, confirma a Joana e seguimos um cortejo de homens e mulheres elegantes.

Reparo que não há muita gente da minha idade ou da Joana, mas não me importo, vim por curiosidade.

São mesas de quatro ou seis pessoas, a nossa fica perto da pista de dança.

Há música ambiente, mas a banda ainda não subiu ao palco.

Ah, há uma exibição de dança! lê a Joana, deve ser para abrir o baile, declara a Avó.

Servem o jantar, uma sopa aveludada, de alho francês, anuncia a Mãe, segue-se o prato de peixe, mas eu recuso o de carne.

A Avó faz o mesmo, não estou habituada a comer muito à noite, explica, enquanto observa o ambiente, as toilettes das senhoras.

O Pai está já a conversar com o senhor da mesa ao lado, pelos vistos, conhece-o do banco, nada de falar de trabalho hoje, protesta a Avó, mas o Pai nem lhe responde, tão entretido está!

A Joana quase não come, tira imensas fotos, grava anotações, vão ser a base para o artigo, esclarece e só sossega quando as luzes apagam e a banda sobe ao palco.

Há umas palmas tímidas e acende-se um foco de luz no meio da pista.

O casal de dançarinos abre o baile com um tango, brilhante, sussurra a Avó e quando terminam a exibição, a banda começa a tocar uma valsa.

A bailarina convida um senhor para dançar e o bailarino escolhe a minha Mãe, que fica muito surpreendida e cora.

Vai lá, incentiva a Avó, diverte-te! e a Mãe segue o bailarino. Em breve, a pista fica cheia de pares a dançar e o conhecido do Pai estende a mão à Avó.

Será que posso dançar com a senhora ou estarei a abusar? convida-a com um sorriso e a Avó responde, claro que não! Será um prazer! 

Oh, Mãe! protesta o Pai, mas a Avó Berta já está na pista, a rodopiar nos braços do cavalheiro.

CONTINUA


terça-feira, 20 de julho de 2021

O JANTAR DANÇANTE PARTE III

 

A semana seguinte é excitante, as mulheres só falam de vestidos e de maquilhagem, queixa-se o Pai.

Acha o vestido da Joana curto demais, e o da tua Mãe, confessa, é esquisito!

Não é nada! protesta a Joana quando lhe falo no assunto, é de seda, cinzento e tem o ombro direito a descoberto. A Mãe parece uma modelo com ela! A Avó Berta vai emprestar-lhe um broche e uma pulseira de safiras e vai ser um sucesso.

As duas desaparecem no sábado de manhã, têm hora marcada no cabeleireiro e por isso, o Pai convida-me para almoçar.

Consegui " negociar" com dois dos meus colegas, terei que trabalhar dois fins de semana sem folga, mas só a perspectiva de estar com a Avó no jantar dançante e ouvir os comentários dela vai valer a pena!

Vais buscar a tua Avó? pergunta-me o Pai, não sei qual a ideia dela! E, sabes, a tua Mãe parece uma mulher diferente, rejuvenesceu!

Pareces surpreendido! respondo, se calhar, é isso que estava a faltar! Uma oportunidade de mudar de visual, de encontrar pessoas novas... é saudável! Façam outros programas, inscrevam-se num ginásio...

Conselho de médico? ri-se o Pai, até é capaz de ser boa ideia! Hidroginástica, pilates, o médico falou nisso numa consulta de rotina.

Aí está, um programa para fazerem a dois! confirmo, agora a Mãe não trabalha de noite e aos fins de semana; combinem um dia para irem ao ginásio, tenham fins de semana românticos. Eu e a Joana somos adultos; pensem em vocês!

O Pai sorri, está quase convencido, tenho que falar com a Joana para ela insistir no assunto.

Quando chegamos a casa, as senhoras já regressaram e assobio quando vejo a Mãe.

O corte de cabelo favorece-a imenso, a maquilhagem é muito discreta, mas o melhor de tudo é o brilho nos olhos dela.

Ups! brinca o Pai, tenho que te vigiar esta noite! caso contrário, ainda foges com alguém!

A Mãe ri-se, está bem disposta, sobe as escadas, vou descansar um pouco antes de me vestir, anuncia, não te esqueças de ir buscar a tua Avó às sete e meia.

Claro que não me esqueço, a Avó já está à porta quando lá chego.

Está linda, com um vestido preto e um colar de pérolas; abro-lhe a porta do carro, ela entra como se fosse uma rainha.

Então? e olho-a rapidamente, então, o quê, avó? repito.

Como estão as coisas lá por casa? Excitados?

CONTINUA

segunda-feira, 19 de julho de 2021

O JANTAR DANÇANTE - PARTE II

 

Que caras! Qual é o problema? repete a Avó, vá lá, Anabela, conta-nos mais.

Eu vou buscar o PC e pesquisamos tudo, oferece-se a Joana, porque, se a Avó vai, eu também vou. Pode ser um bom artigo de opinião.

E eu também quero ir, acrescento, terei que negociar com os meus colegas, mas vai valer a pena!

A Avó ri-se, tens medo que eu tenha um ataque cardíaco, é? e eu rio também.

A Joana volta com o PC, escreve o nome do Hotel e em breve, estamos todos a discutir os detalhes.

Mas vocês estão doidos??? interrompe o Pai, que palhaçada é esta? E, a Mãe está a incentivá-los!

Oh, Amadeu, cala-te! Estás a ficar muito antiquado! diz a Avó e a Joana ri-se.

O Pai suspira novamente, levanta-se da mesa, eu não vou! observa e a Avó Berta, se quiseres passar por um velho casmurro... e o Pai fica indignado.

Não se preocupe, intervém a Mãe, eu convenço-o! enquanto a Joana preenche o formulário de reserva.

Terei que comprar um vestido, continua a Mãe, há tanto tempo que não vou ao evento tão chique que nem sei o que se usa!

Um vestido preto é sempre chique, comenta a Avó, vai ao cabeleireiro, muda o corte, pede que te ajudem com a maquilhagem e estás pronta!

Eu vi um vestido interessante na Zara, interrompe a Joana, amanhã, vou lá ver como me fica. Tenho umas sandálias pretas que ainda não calcei e não preciso de mais nada!

Tenho que ver os fatos do vosso Pai, já sei que ele não vai fazer nada, exclama a Mãe, e tu, Gabriel?

Não se preocupe comigo, eu arranjo-me, explico e deixo as três a falar de trapos, vou à procura do meu Pai.

Está na sala, tem a TV ligada, mas não está a ver nada.

Quando me sento ao lado dele, olha-me rapidamente e volta novamente o olhar para o écran.

Não achas um disparate? pergunta-me e eu encolho os ombros.

Não, não acho, estão todas muito divertidas! Há muito tempo que não via a Mãe assim tão excitada e é como ela diz, precisam de sair mais, conversar com outras pessoas, estão muito fechados. Não admira que estejas cansado de falar com o grupo habitual, as conversas são sempre as mesmas! esclareço.

Achas que devo ir? e o Pai fica calado uns minutos. Depois, sorri, com a minha Mãe no meio, vai ser uma noite bem divertida, declara.

CONTINUA

domingo, 18 de julho de 2021

O JANTAR DANÇANTE


Está decidido: ou fico a dormir no Hospital ou alugo uma casa.

Não posso ficar aqui em casa, o Pai parece não entender que tanto eu como a Joana, a futura estrela do jornalismo, escolhemos profissões sem horários.

Principalmente agora que vou começar a especialização e o pouco tempo que tenho livre é para dormir, divertir-me.

Acho que a Joana está a pensar o mesmo, mas para ela é mais complicado sair, pois vive da mesada dos Pais.

Se ficam surpreendidos por eu aparecer para jantar naquele domingo, não dizem.

A Avó Berta está presente, tem sempre histórias divertidas para contar e quer saber tudo o que acontece com o futuro médico.

Pena que não te possa consultar, diz, o meu neto doutor!

Posso sempre aconselhar um colega, sugiro, ah, e um rapaz jeitoso, por favor, responde a Avó.

Oh, Mãe, que disparate! interrompe o Pai, mas a Avó ri-se.

Estou velha, mas não tão velha assim! Ainda sei apreciar um homem, protesta a Avó, precisas de sair mais, estás a ficar antiquado!

A Mãe esconde um sorriso e a Joana ri abertamente.

Está difícil convencê-lo a sair, observa a Mãe, desde que frequentou aquele workshop de carpintaria, passa a maior parte do tempo fechado na garagem a fazer trabalhos de madeira!

Não tenho paciência para aturar o grupo, explica o Pai, o Mário está sempre a queixar-se da Francisca, o Paulo está mais interessado na garrafa e o Amadeu só fala de futebol!

Não temos obrigatoriamente de sair com o grupo, comenta a Mãe, as minhas colegas falaram-me num jantar dançante num Hotel da cidade, acho que é na próxima semana; podíamos ir, estávamos com pessoas diferentes, conhecíamos outras!

Um jantar dançante? repete a Avó, que ideia interessante! Achas que também posso ir?

Ficamos todos a olhar para ela.

CONTINUA


sexta-feira, 16 de julho de 2021

O COMEÇO FIM

 

No email, há uma mensagem furiosa do Professor Luís, a tua sorte, Joana, é dizeres que qualquer semelhança com acontecimentos reais é pura coincidência!!! Tens que pensar muito bem no que queres ser, uma jornalista sensacionalista ou alguém respeitado no meio!

Isto quer dizer que ele leu o blog e agora estou numa encruzilhada.

Não posso parar a história a meio, seria desleal; por isso, continuo a escrever, falo nas várias hipóteses como se fossem pensamentos vagos.

Deixo uma pergunta no ar para os meus leitores, faço " save " e deito-me,  a pensar que tenho que descobrir quem é o auxiliar.

No dia seguinte, há uma verdadeira revolução na escola, há discussões acaloradas, o Professor Luís acha que é o momento ideal para desenvolvermos as nossas capacidades de análise.

Ando no meio da turba, a gravar conversas, a fazer perguntas, umas vezes, sou maltratada, ameaçam mesmo destruir-me o telemóvel se não apago os comentários.

Há outros estudantes que fazem questão que eu grave os comentários, querem que todos oiçam o que têm a dizer, os exames só são um absurdo para quem anda a passear os livros, dizem.

Finalmente, a meio da manhã, o Director faz um comunicado, restabelece a ordem e seguimos para as aulas.

No gabinete do jornal, temos muito que fazer, ouvir todas as entrevistas, seleccionar as mais relevantes e escrever os artigos.

O Professor Luís supervisiona tudo e saímos todos tão tarde que encontro o Pai no parque de estacionamento da escola, muito preocupado.

Não tens um telemóvel para avisar? repreende, enviamos SMS, deixamos mensagens na mailbox e tu não respondes!

Abro a boca para me desculpar, mas é o Professor Luís quem responde, pede imensa desculpa, tivemos um dia cheio, é boa aprendizagem para o futuro, diz.

Pela cara do Pai, percebo que não acha a explicação satisfatória, tu e o Gabriel vão dar cabo de mim, observa, dois filhos que não vão ter horários normais! Não sei se vou aguentar!

Não digo nada, é o mais acertado, o que aconteceu esta noite, foi uma pequena amostra do futuro.

Eu numa redacção a preparar um artigo de última hora, a discutir com o editor o melhor título, a certificar-me que ocupa um lugar de destaque.

Ah, e vou continuar a ser muito curiosa...


FIM

quinta-feira, 15 de julho de 2021

O COMEÇO PARTE V

 

Reescrevo o artigo seguindo as instruções dadas, o Professor Luís dá luz verde com um ar sombrio e envio-o para os colegas da paginação.

Abro o blog, leio atentamente os comentários e suspiro.

Há duas opções: ou o auxiliar tentou a sorte com a médica e esta deu-lhe com os pés ou fez chantagem, ameaçando revelar o que se passou naquele quarto.

Como eles recusaram, ele apresentou queixa à direcção e quanto mais penso, mais me convenço que as duas opções são viáveis.

Se eu conseguisse falar com o auxiliar ou mesmo com o Dr Novais.

Não, é melhor não, ainda trabalha na clínica e poria a carreira da minha Mãe em perigo!

Escrevo um novo post, falo sobre as duas opções e faço " save ".

Vejo as horas, já passa das seis e meia, prometi à Mãe ir ao supermercado e saio a correr.

Vou a descer a escadas e vejo no átrio o Professor Luís a discutir com a Dra Telma, a Professora de Técnicas Narrativas.

Mentiste-me! acusa o Professor e a Dra Telma suspira, já te disse que fui visitar a minha Mãe! Se quiseres falar com ela, até te marco o número! diz, pacientemente.

Ciumento o Professor Luís, nunca pensei que o fosse! Desço as escadas devagarinho, não quero que eles me vejam, mas os dois estão tão concentrados na discussão que só um terramoto é que os separaria.

Não podes ter ido! O teu carro estava aqui no parque, continua o Professor e a Dra Telma volta a suspirar.

Nota-se que está cansada, quer ir para casa e tem que aturar este chato! Bolas, o Dr Luís está a surpreender-me e pela negativa.

Um homem tão criativo, tão interessado e comporta-se como se fosse um homem das cavernas!

Pouco me importa! Não tenho que te dar justificações! A conversa fica por aqui! remata a Dra Telma e saí, deixando o Luís especado no hall.

Consigo esgueirar-me sem que ele me veja e ups, mas que grande furo!

A Mãe nota a minha excitação, quer saber o que se passa, acabo por lhe contar por alto.

Não sei o que pretendes fazer, diz, mas atenção! Podes ter interpretado mal a situação, podes dar azo a rumores e podes provocar dissabores ainda mais graves aos dois!

Fico muito quieta, muito calada, como é que a Mãe percebeu?

CONTINUA


quarta-feira, 14 de julho de 2021

O COMEÇO PARTE IV

 

Mas a Mãe está muito cansada, tudo o quer é tomar um duche e dormir.

Por isso, o Pai ajuda-me a arrumar a cozinha, vou para o escritório, diz e eu subo as escadas até ao meu quarto.

Ligo o computador, abro o blog e começo a escrever.

Título: O que é que aconteceu com a Dra? e acrescento um mistério sem solução.

Isso vai atrair a atenção dos meus leitores, mas as palavras do Professor Luís vêm-me à mente.

Fico indecisa, não sei se hei-de continuar a escrever, tenho apenas boatos, opiniões de outras pessoas.

Podia tentar descobrir o tal auxiliar, mas se perguntar à Lena ou à Conceição, elas vão ficar surpreendidas por eu insistir no assunto.

Pior, podem alertar a Mãe e não quero isso!

Por isso, faço como nas séries policiais da Foxcrime, escrevo uma nota a frisar que o tema e as personagens são ficcionais.

Estou tão embrenhada no conto que só dou conta que o Pai subiu porque ele abre a porta do quarto e pergunta-me o que faço ainda acordada.

Nada, nada, respondo, faço " save " e desligo o PC.

Meia-noite e amanhã as aulas começam às oito! Onde é que eu estava com a cabeça?

A tentar descobrir o que aconteceu naquele quarto, segreda-me uma voz e eu sorrio.

Quem não está muito satisfeito naquela manhã é o Professor Luís, fui muito claro, protesta, queria entrevistas sobre a polémica dos exames e tu o que tens é uma série de repetições!

É um rascunho! afirmo, tenho que filtrar, sei muito bem que não posso escrever na coluna " é uma chatice"! Tenha calma!

Não te atrevas a dizer-me para ter calma! repete o Professor, não tolero esse tipo de atitude! Escreve um artigo, com todas as regras!

Encolho os ombros, quem é que o aborreceu? talvez a Professora de Técnicas Narrativas, dizem que estão apaixonados!

Será?

CONTINUA


terça-feira, 13 de julho de 2021

O COMEÇO - PARTE III

 

A cafetaria está quase deserta e tanto a Lena como a Conceição fazem-me uma grande festa.

Queixam-se da nova enfermeira chefe, é muito miudinha, diz a Conceição, da nova auxiliar que dá ares de importante, mas a tua Mãe já a pôs no lugar, acrescenta a Lena e suspiram pelo Dr Novais, um espectáculo de homem.

Se eu fosse uns anos mais nova, confessa a Lena, ias ficar com o coração partido como as outras, interrompe a Conceição.

Ups! Isto é bom, mesmo bom, penso e pergunto, porquê, ele anda envolvido com alguém daqui?

A Lena encolhe os ombros, são rumores, apenas rumores, comenta, podem nem ser verdade!

Houve alguém que os encontrou numa posição comprometedora num quarto vazio, interrompe a Conceição, ao que parece, não era a primeira vez!

Mas escusava de ir fazer logo queixa ao Director Clínico! protesta a Lena, contaram-me que essa pessoa quis depois voltar atrás e já era tarde!

Quem foi a mulher? Foi a Dra Belmira? sugiro inocentemente e a Lena olha-me curiosa, como é que sabes? A tua Mãe disse-te alguma coisa?

Não, só disse que ela se foi embora de um dia para o outro e eu somei dois mais dois, respondo com um grande sorriso.

A Conceição mexe-se na cadeira, está desconfortável, tenho a impressão de que não vai dizer mais nada, são só especulações, Joana, não temos a certeza de que foi, por isso que ela se foi embora! Muito menos se era ela a mulher presente no quarto.

É coincidência a mais, insiste a Lena, pouco depois da reunião com o Director Clínico, ela apresenta a demissão? Continuo a dizer que a história está mal contada!

E o que aconteceu à pessoa que os denunciou? talvez consiga falar com ela, penso, mas a Conceição abana a cabeça, também desapareceu do mapa! Nem veio buscar as coisas dela!

Isto está a ficar excitante, mas elas desviam a conversa para os meus estudos, pedem um exemplar do jornal onde trabalho e eu prometo mandar uma cópia pela minha Mãe.

A Mãe aparece então, vê-se que está exausta, alguém sentiu-se mal durante um exame, teve que ficar em repouso num quarto, conta, vai ter que ficar cá esta noite, por isso, tive que escrever o relatório para a enfermeira do turno da noite.

Ficamos a conversar mais uns cinco minutos, a Lena e a Conceição têm que fechar a cafetaria e fazem-me prometer que volto para lanchar com elas.

São muito simpáticas! comento enquanto aperto o cinto no carro, para meu gosto, falam demais, exclama a Mãe, de que é que falaram?

Ah, da nova enfermeira chefe e da nova auxiliar. Dizem que foste tu quem a pôs na ordem! digo meia verdade, espero que a Mãe não note.

CONTINUA


segunda-feira, 12 de julho de 2021

O COMEÇO PARTE II

 

Enquanto arrumamos a cozinha, a Mãe pergunta-me se estou feliz, se tenho a certeza de que jornalismo é realmente o que eu quero.

Tenho a certeza absoluta, afirmo, neste momento, estou a escrever pequenas crónicas, opiniões sobre o que se passa no Mundo e como também gostaram de uma das minhas histórias, publicaram-na.

Ainda bem, responde a Mãe, estou um pouco preocupada, jornalista pode ser uma profissão muito ingrata.

Qualquer profissão pode ser ingrata, observo, não me estou a ver fechada numa sala de aula ou num escritório. Quero viajar, conhecer outras pessoas, escrever sobre o que vejo...

Ok, já percebi, interrompe a Mãe, só quero que estejas consciente que vai ser difícil...terás que lutar e muito por um lugar ao Sol.

Mas foi isso que os Pais nos ensinaram, estar prontos para aceitar as derrotas e recomeçar, repito, não te preocupes, eu sei o que estou a fazer.... Por falar nisso, o que é que aconteceu à Dra Belmira?

Não sei exactamente, houve um problema qualquer com um exame, conta a Mãe, e no dia seguinte, ela não apareceu para trabalhar. Mesmo que soubesse dos detalhes, não posso discutir o assunto contigo; há a chamada ética profissional que também existe na profissão que escolheste, frisa.

Sorrio, não posso negar o facto, mas posso investigar, mas o Dr Luís, professor de jornalismo, tem algumas dúvidas quando lhe exponho o assunto no dia seguinte.

Isso pode ser considerado como conflito de interesses, diz, a tua Mãe trabalha nessa Clínica, soubeste do assunto através dela, podes causar-lhe sérios problemas.

A única coisa que a Mãe disse foi que ela se foi embora de um dia para o outro por causa de um exame, interrompo, nada mais. Falou de ética profissional, etc.

Aí está, comenta o professor, a tua Mãe já respondeu à tua pergunta. Larga o assunto, há tanta polémica com os exames, porque é que não te concentras nisso?

Suspiro, não quero fazer entrevistas e receber resposta tipo " é uma chatice, pá!" e quando se pede para elaborar um pouco mais,  " mas afinal o que é que queres que diga??? É uma chatice!".

Ainda não desisti da ideia de investigar o caso da Dra Belmira e passo pela Clínica ao fim da tarde, dizem que a Mãe está um pouco atrasada.

É melhor esperares na cafetaria, aconselha a Luísa, uma das recepcionistas e eu concordo de imediato.

Não há melhor local para saber a coscuvilhice.

CONTINUA


domingo, 11 de julho de 2021

O COMEÇO

 

Ao jantar, a conversa gira em torno de casos complicados e tanto eu como o Pai suspiramos.

Com um estudante de medicina e uma enfermeira em casa, não é fácil gerir as conversas  à mesa e  naquela noite, o Pai anuncia que está farto, que ou param as histórias médicas ou nós, e incluí-me, jantamos no turno a seguir.

Ora, nós somos uma família, diz, por vezes, temos horários desencontrados e por isso, temos que aproveitar o tempo que temos para estarmos verdadeiramente juntos!

Os " culpados" apressam-se a pedir desculpa, a Mãe pergunta como correu o dia no Banco, o Pai confessa que as pessoas fazem pedidos estranhos e o Gabriel interrompe-o, talvez estejam dementes!

Já não sei nada, as pessoas estão diferentes, impacientes, arrogantes, conta o Pai, e sobretudo, desconfiadas. Perguntaram-me se tinha a certeza que aquele produto tinha acabado, no ano passado, tinham subscrito um!

As coisas mudam num ano, concorda a Mãe, quem diria que a Dra Belmira ia pedir a demissão de um dia para o outro e ainda não conseguimos contratar um substituo? Por vezes, as consultas são adiadas e noutro dia, tive que falar alto a um doente, porque estava a maltratar a auxiliar!

As minhas histórias estão a ser um sucesso, comento e todos me olham surpreendidos.

Sorrio, esqueceram-se que estou presente? brinco, estou a escrever uma série de histórias policiais para o jornal da escola, explico, e está a ser muito divertido.

Não tens descurado os estudos, pois não? intervém o Pai, já sabes as regras! 

Definir prioridades, estabelecer objectivos e obter resultados, recito, faço isso após acabar os TPC!

O que é que o teu assassino usa? Veneno, arma, estrangulado? ri-se o Gabriel e eu atiro-lhe um pedaço de pão.

O que é isto? Estamos no infantário, temos que os pôr de castigo? ralha o Pai e a Mãe esconde um sorriso.

CONTINUA

sexta-feira, 9 de julho de 2021

A ENTREVISTA - FIM

 

São questões pertinentes, dirá mais tarde o editor, mas o que posso fazer quando recebo um telefonema do Pai da miúda a pedir para respeitar a privacidade da filha? E não deixa de ter razão!!!

O Meireles convida o Inspector para almoçar naquele dia. Se ficou admirado, o Bernardo não diz nada.

Sentaram-se na esplanada do restaurante perto da esquadra e o Meireles conta que a Joana Freitas está " limpa".

É filha de um empregado bancário e de uma enfermeira, explica, tem um irmão mais velho que é médico. É uma família simples, sem problemas... Não há qualquer ligação, mesmo que remota à família da Clarinha!

O Bernardes olha-o desconfiado e o Sargento apressa-se a tranquilizá-lo, desculpe, revi o caso, sei que foi o Inspector e o Sargento Brites que investigaram. Sei também que todos os protocolos foram seguidos, por isso, ninguém pode questionar a adopção da Clarinha, acrescenta, talvez ela só queira escrever sobre a adopção.

Coincidência a mais, interrompe o Bernardes, ela já estava preparada quando entrevistou a Madalena! E até pode ser isso que sugeriu, pode ser um artigo sobre a adopção que ela está a preparar, mas como é que ela identificou a nossa adopção tão depressa?

Terá sido o Sargento Brites? responde o Meireles, mas o Bernardes abana a cabeça, o Brites é um homem rigoroso, cumpridor, nunca falaria de um assunto privado de um colega.

O Bernardes não se lembra da ex-mulher do Brites, a Carla, a instrutora de yoga, Foi através dela que a Clarinha soube que era adoptada e os problemas surgiram.

O Meireles investigou a família, não se interessou pelos hobbies da Joana, por isso, não sabe que ela pratica yoga e a Carla é a instrutora dela.

Foi uma boa dica, Carla, obrigada, confessa a Joana antes da aula, só que o Inspector recusou a entrevista e a mulher diz que o assunto é privado.

A Carla sorri, querem proteger a miúda, diz, compreende-se! Mas acho muito interessante o tema do artigo, foi por isso que contei. Eu e o Sargento do Inspector Bernardes ainda estávamos casados e acompanhei parte da história.

Talvez o seu ex-marido possa responder às minhas perguntas, sugere a Joana, mas a Carla suspira, eu e o Brites não falamos.Só através dos advogados, por causa da nossa filha, esclarece.

Isso não é um problema, e a Joana vibra, sou jornalista, posso utilizar os meus contactos e localizá-lo.

As outras alunas chegam, a aula começa, mas a Joana não se consegue concentrar, tem que encontrar o Brites.

Infelizmente, quando chega ao jornal, cheia de planos, o editor manda parar com a investigação e a Joana fica decepcionada.

Por uns minutos...mas se encontrar outra forma de abordar o assunto, será que o editor a deixa continuar?

FIM

quinta-feira, 8 de julho de 2021

A ENTREVISTA PARTE IV

 

É também essa a pergunta que não deixa o Inspector Bernardes dormir.

Os bons jornalistas pesquisam a vida dos entrevistados, mas a adopção da Clarinha seguiu o processo normal.

A Polícia encontrou-a no apartamento onde a Mãe foi assassinada, entregou-a à Segurança Social como manda o protocolo e esta tentou localizar os parentes mais próximos.

O Pai, acusado do assassinato da Mãe, foi preso e o Bernardes soube há pouco que morreu na prisão.

Nenhum dos progenitores tinha irmãos, os avós já tinham morrido e a Segurança Social não descobriu mais ninguém.

A não ser que houvesse família no estrangeiro e tenha escapado ao radar da Segurança Social.

Não, diz o Bernardes mentalmente, não é possível! e tenta adormecer.

Está de mau humor quando entra na Brigado no dia seguinte, ainda fica pior quando o Meireles lhe conta o encontro com a jornalista.

Ela não disse que era com o Inspector que queria falar, diz o Sargento, mas eu depreendi que fosse. Desculpe a pergunta, mas porque é que ela está tão interessada em falar com o Inspector?

Entrevistou a minha mulher e a sócia por causa da loja, explica o Bernardes, mas o assunto da adopção da nossa filha veio à baila e nós não estamos interessados em discutir isso com ninguém, justifica.

Claro, claro, é um assunto privado e além disso, se a entrevista é sobre a loja, porquê falar sobre isso? concorda o Meireles e o Bernardes suspira de alívio.

De qualquer forma, descobre o que puderes sobre essa Joana Freitas, pede, discretamente, acrescenta.

O Meireles abana a cabeça, começa a falar do caso em aberto e o Bernardes esquece um pouco a jornalista.

Esta está no gabinete do editor, a pedir-lhe que a deixe investigar a história da adopção.

O que é que isso tem a ver com a loja? O que é que queres demonstrar? insiste o editor e a Joana volta a suspirar, às vezes, o Hugo consegue ser muito teimoso, pensa.

Um caso feliz de adopção, estamos a falar de um inspector da Polícia e de uma gerente de loja, um casal de sucesso, frisa, claro que também posso discutir o lado negro, os protocolos, as dificuldades, etc.

Isso vai dar uma grande dor de cabeça, observa o editor, tenho que pensar no assunto, mas para já, vais deixar esse casal em paz; já te disseram que não, avisa, também tens que considerar os sentimentos da miúda.

A Joana sorri, não foi um não definitivo, talvez possa deixar o casal Bernardes de lado, por enquanto.

Mas que há questões interessantes a considerar, há... O que é que levou um casal já com dois filhos a adoptar uma miúda?

CONTINUA


quarta-feira, 7 de julho de 2021

A ENTREVISTA - PARTE III

 

Claro que sim, responde a ruiva, chamo-me Joana e o Meireles aproxima-se.

A conversa escorre, fluída, provocante até que a Joana diz, tu trabalhas na Polícia, não é verdade? e o Meireles olha-a atentamente.

A Joana aguenta o olhar, sorri e insiste, disseram que este é um bar frequentado por polícias, por isso, deduzi que o fosses também.

Sim, sou sargento de brigada, confirma o Meireles e antes que faça qualquer outra observação, a Joana interrompe, que coincidência! Queria tanto entrevistar um dos vossos Inspectores, mas ele diz que está tão ocupado...Talvez me pudesses ajudar... e deixa a frase no ar, espera que o Meireles reaja.

Mas o Meireles lembra-se do aviso do Bernardes e como é cauteloso por natureza, recusa delicadamente.

Não vejo como; não sei com quem falaste, mas mesmo que o conhecesse o suficiente para lhe pedir que conversasse contigo, ele pode recusar e está no seu direito. Porque é não contactas o Departamento de Imprensa? Temos um Departamento de Imprensa, frisa.

A Joana perde o sorriso, sente que o Meireles já descobriu o esquema e apressa-se a inventar uma desculpa.

Claro, compreendo, eu já estou em contacto com o Departamento, mas queria mais detalhes, esclarece, conhecer o vosso ponto de vista, como abordam os casos.

Com clareza, com profissionalismo, tentamos obter justiça, declara o Meireles muito sério e a Joana fica muito vermelha, consulta o relógio.

Oh, meu Deus! Já é tão tarde??? exclama, tenho que me ir embora, tenho que preparar uma entrevista, e despede-se.

Saí apressadamente do bar, um colega dá uma palmada nas costas do Meireles, ela não gostou de ti? e volta para o grupo de amigos.

O Meireles acaba de beber, está pensativo, afinal, o que é que ela quer? Não, não é sobre como trabalhamos os casos, ela quer qualquer coisa, mas o quê?

Em casa da Teresa, o Gonçalo estava muito agitado, só adormeceu já passava da meia noite e os Pais estão esgotados.

Afinal, como é que correu a entrevista? questiona o António enquanto veste o pijama.

A Teresa suspira, já nem se lembra da entrevista e do que disse, sinceramente, acho que a jornalista estava mais preocupada com a nossa vida privada do que propriamente com a loja e os serviços que oferece, conta.

Porquê? o António para o que está a fazer e olha para a companheira, fez perguntas sobre os nossos filhos e a Madalena não ficou muito satisfeita, porque ela insistiu em saber pormenores sobre a adopção da Clarinha, esclarece.

Como é que ela sabia que a Clarinha é adoptada?

CONTINUA


terça-feira, 6 de julho de 2021

A ENTREVISTA - PARTE II

 

Conheces uma Joana Morais, uma jornalista da revista X? pergunta o Bernardes e a mulher olha-o curiosa.

Sim, entrevistou-nos, a mim e à Teresa a propósito da loja e do serviço de catering, responde a Madalena, como é que sabes?

Essa dita jornalista telefonou para a Polícia, queria marcar uma entrevista comigo, explica o Bernardes, pensei que fosse sobre o caso que estou a investigar, mas surpresa, surpresa, ela quer falar sobre a adopção da Clarinha.

Ah, a Madalena está indignada, ela insistiu nesse assunto, eu disse-lhe que era privado, que o importante era o trabalho da loja, esclarece, e descobriu o teu nome e toca a incomodar-te! Maldita jornalista!

Pensa que a história será mais interessante que a da loja e o serviço de catering, continua o Bernardes, eu declinei o convite, assuntos privados são privados. Até avisei o Meireles para ter cuidado com o que diz se ela telefonar.

Mas o Meireles não sabe da história ou sabe? diz a Madalena, o único que sabe o que aconteceu foi o Brites e não temos nada a esconder. Seguimos os protocolos, esperamos o tempo exigido por lei para a adoptarmos legalmente, mas seja como for, é um assunto de família e não é para ser discutido publicamente!!!

Talvez queira salientar o aspecto humano, sei lá, o Bernardes tenta acalmar a mulher, o Brites foi transferido para o Centro, seria um grande azar se ela descobrisse o paradeiro dele. E tenho a certeza de que o Brites não contaria nada.

A Clarinha entra esbaforida, a acenar um papel, teve uma boa nota e quer discutir o assunto com os Pais.

A Rita telefona, encontrou a Matilde um pouco " tocada" à porta, já a mandei tomar um duche, vai jantar e dormir cá em casa, ver se lhe consigo meter senso naquela cabeça, declara, não te preocupes!

A Madalena suspira, conta ao Bernardes, que confessa não saber mais o que fazer e o jantar é um pouco sombrio.

Entretanto, o Sargento Meireles resolve ir tomar um copo num bar perto de casa.

Sentada ao balcão, está uma ruiva espampanante, considera o Meireles e olha-a com interesse.

A ruiva devolve-lhe o olhar, sorri e o Sargento aproxima-se.

Posso oferecer-lhe um copo? e a ruiva volta a sorrir.

CONTINUA

segunda-feira, 5 de julho de 2021

A ENTREVISTA

 

O que é que mudou na minha vida? repete a Madalena e olha curiosa a jornalista.

Tanto ela como a Teresa ficaram surpreendidas pelo convite daquela revista; já entrevistaram a Teresa, que falou longamente sobre os motivos que a levaram a abrir a loja e o serviço de catering.

Agora, é a vez dela; a jornalista acha a história dela interessante, uma Mãe de família que retoma a vida activa e se torna sócia de uma empresa gourmet.

Ter mais tempo para mim, responde a Madalena, continuo a estar presente na vida dos meus filhos, mas eles já têm vida própria, até mesmo a Clarinha, que vai fazer nove anos.

A Clarinha, e a jornalista consulta as notas, é a filha adoptiva, não é? Quer falar-me um pouco sobre isso?

A Madalena fica pensativa uns minutos e depois abana a cabeça, não, não posso, tenho que proteger a Clarinha, por isso, agradeço que não me faça perguntas sobre isso.

A jornalista sente-se desconfortável, tinha um plano, tem agora que o adaptar, ok, certo, como é que surgiu o convite? Fez alguma formação, fale-me um pouco sobre isso.

A Madalena sorri, durante os próximos trinta minutos, explica como tudo aconteceu, os projectos que está a desenvolver, os planos para o futuro.

Muito obrigada, agradece a jornalista, creio que tenho tudo; esta tarde, vou entrevistar alguns dos vossos clientes... se tiver que esclarecer algum pormenor, entro em contacto.

A Teresa aparece então, oferece aperitivos, café, mas tanto a jornalista como o fotografo recusam.

Que tal foi? pergunta a Teresa e a Madalena suspira, creio que ela não ficou muito satisfeita quando me recusei a falar sobre a adopção da Clarinha.

Não tem mal nenhum, explica, mas é um assunto privado e, como sabes, a Clarinha aceitou muito mal o facto de ser adoptada.

Pois, aliás, a entrevista é sobre a loja e o serviço de catering, concorda a Teresa, não é sobre a nossa vida privada. Ela queria fotografar a Sofia e o Gonçalo, mas eu também não deixei.

As duas amigas não pensam mais no assunto, tem uma reunião importante, há uma empresa que está interessada em as contratar, elas querem levar já alguns menus.

A Madalena chega cansada a casa, tudo o que quer é tomar um banho e deitar-se, mas o marido diz que precisa de conversar com ela.

O que é que aconteceu? Problemas com a Matilde ou com a Clarinha? e o Bernardes abana a cabeça.

CONTINUA

domingo, 4 de julho de 2021

O DESATINO DA MATILDE FIM

 

Apesar da cena com a Clarinha, a noite é divertida, quase esqueço o que aconteceu com o Mateus e regresso bem humorada a casa.

Sou recebida por uma Isabel muito agitada, que me chama hipócrita, traidora e afins e amaldiçoo de imediato o Mateus.

O palerma contou-lhe tudo e nem me avisou! Tento justificar-me, mas a Isabel está muito nervosa, não me quer ouvir, saí pela porta fora, depois, venho buscar as minhas coisas, avisa.

Telefono de imediato ao Mateus, o que é que fizeste, pá? Nem sequer tive a oportunidade de me defender! Mas o que é que te passou pela cabeça? protesto.

Matilde, tem calma. Ela estava a fazer planos para as férias e eu não aguentei, esclarece, tive que lhe dizer que não estava interessado em ir com ela para o Algarve e ela insistiu em saber a razão...

E tu disseste que te envolveste comigo, etc, etc, interrompo, mas eu nem sequer estou interessada em ti!

O Mateus fica abismado, então, porque é que fizeste amor contigo? pergunta e eu suspiro, mas eu disse-te que foi um lapso! És um bom amigo, um bom colega... o que aconteceu naquela noite... nem sei explicar, mas magoamos a Isabel e era isto que eu queria evitar!

O Mateus não diz mais nada, desliga e eu fico sozinha na escuridão.

Que vontade tenho de beber, mas não, não é a resposta! ralho comigo mesmo.

Como é que vou resolver isto? 

Como é que volto a ganhar a confiança da Isabel? Como é que vou continuar a trabalhar com o Mateus?

Mas o que é que se passa comigo? Só faço asneiras! penso e saio de casa para procurar alguma coisa aberta para comprar álcool.

FIM

sábado, 3 de julho de 2021

O DESATINO DE MATILDE - PARTE VI

 

O projecto para o qual a Rita nos convida é aliciante, aguça a curiosidade do Mateus e passamos horas a discutir ideias.

A Isabel cansa-se de nos ouvir, deita-se cedo, deixa-nos sós e conversamos bastante.

O que acontece um dia é inevitável e sinto-me muito culpada no dia seguinte.

Não me consigo concentrar nas aulas, o Mateus confessa sentir o mesmo quando nos encontramos na biblioteca nessa tarde.

Não pode acontecer novamente, estamos a trair a Isabel, repito e o Mateus suspira, não sejas tão dramática!

Por amor de Deus, Mateus, és namorado dela! insisto, e a Isabel adora-te! Além disso, eu vivo com ela, isto não devia ter acontecido!

Matilde, tem calma, eu não estou arrependido! diz o Mateus, às vezes, a Isabel aborrece-me com toda aquela dedicação! Não consigo respirar!

Não quero ouvir mais nada! interrompo, hoje vou jantar com os meus Pais! e deixo-o a falar sozinho.

Não gosto muito da ideia do jantar semanal, mas tu pisaste o risco, observa o Gustavo quando me queixo, e o Pai não disse que estás sob vigilância policial? Por isso, aguenta e cara alegre! aconselha.

Felizmente, ele e a Luísa também são convidados para jantar, os dois estão muito felizes, a barriga dela está enorme, penso, será que o catraio vai nascer hoje?

A Clarinha diverte todos com os possíveis nomes para o sobrinho e fica muito aborrecida quando o Gustavo os rejeita.

Colombo? Que ideia, Clarinha! Ele não vai descobrir novamente a América, ri-se o Gustavo, o que é uma ofensa para a nossa irmã que fica amuada.

Então, Clarinha, vais ter um papel muito importante na vida do bebé, a Luísa tenta animar a miúda, gostarias de ser a baby sitter?

Coitado do bebé, não vai sobreviver! exclamo e a Clarinha ataca-me de imediato.

BURRA!!!! grita, tenta dar-me um pontapé, mas infelizmente, atinge o Pai que a manda de imediato para a cama.

CONTINUA