quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

MIGUEL, IRMÃOS E COMPANHIA - PARTE III


Faço uma nova torre que a Inês derruba alegremente e ri.

Finjo que faço uma outra torre, a Inês segue os meus movimentos com toda a atenção, o que é que vais fazer, malandro? é o que pensa certamente e eu sorrio.

Pumba e as T-Shirts caem no chão, a Inês fica surpreendida, mas depois ri com gosto.

Repito a operação e a minha mana está deliciada.

O Matias e o Edgar aparecem à porta do quarto, trazem a bola e a Inês estende-lhes os braços.

Já acabamos os trabalhos e arrumamos os livros, podemos brincar com ela, dizem.

Ok, respondo, mas fiquem na sala e nada de brincarem às escondidas, já sabem que a Mãe não gosta.

E, tu, vais arrumar o quarto? pergunta o Matias, malicioso e eu expulso-o do quarto, impertinente, vê como falas, mas o rapaz não deixa de ter razão.

Sou muito rigoroso com a arrumação do quarto deles e não tenho o mesmo cuidado com o meu.

Por isso, dobro as T-Shirts, arrumo-as no sítio devido, faço o mesmo aos livros.

O telemóvel vibra, é uma mensagem do meu colega Bruno, vai haver uma festa no sábado, estás interessado?

Ligo-lhe, peço mais detalhes, tenho que conversar com os meus Pais e com a Filipa, as saídas implicam uma certa organização por causa da creche.

O Bruno ri-se, tens mesmo uma creche em casa, não sei como aguentas, eu vejo-me aflito e só tenho uma irmã.

Pode ser um pesadelo, confesso, mas também é muito divertido, já nem lembro como era quando só existia a Filipa.

O Bruno volta a rir, desliga e ao jantar, falo da festa no sábado, quais são os planos para o fim de semana? posso ir? tenho que trocar com a Filipa?

A negociação é um pouco difícil, a Filipa também tinha planos para sábado à noite, mas a sugestão que o Pai faz é razoável e temos que a aceitar.

A Filipa saí na sexta à noite, eu no sábado e no próximo fim de semana, trocamos.

No sábado de manhã, levo o Matias e o Edgar ao treino de futebol e à tarde, a Filipa leva-os ao cinema.

Os Pais saem com a Inês, estou sozinho em casa e ligo a música no máximo.

Passo em revista a minha roupa, o que é que eu vou levar? o Bruno diz que é informal.

CONTINUA


terça-feira, 29 de dezembro de 2020

MIGUEL, IRMÃOS E COMPANHIA - PARTE II

 

Mas o que é que ela está fazer aqui? E vocês não têm trabalhos de casa para fazer? disparo e os meus irmãos atropelam-se nas explicações.

Estava sozinha na sala, diz o Matias e nós pensamos que era melhor ficar connosco, acrescenta o Edgar.

Ela é capaz de se divertir sozinha, interrompo, se estava no parque, devia ter lá ficado, a D. Margarida deve ter ido buscar qualquer coisa que lhe fazia falta.

Acabem os trabalhos, exijo, arrumem os livros e podem ver televisão. Esta princesa vem comigo e pego na minha irmã ao colo.

A Inês não larga a bola, deita-me a língua de fora, eu faço o mesmo e a princesa ri-se.

Levo-a para o meu quarto que está realmente uma barafunda, com T-Shirts espalhadas por todo o lado.

Experimento várias T-Shirts antes de me decidir pela que é mais " cool "; por isso, atraso-me e não arrumo o quarto.

A Mãe já me chamou a atenção para isso, a D. Margarida não tem que arrumar nem a tua roupa nem os teus livros, diz e eu prometo que sim, que deixo tudo num brinco, mas depois esqueço-me.

Sento a Inês no chão e ela olha em redor curiosa, depois vê a minha T-Shirt vermelha no chão.

Desafia-me com o olhar e gatinha em direcção à T-Shirt. 

Não sou rápido o suficiente e a minha irmã arrasta a T-Shirt pelo chão.

Vá lá, Inês, dá-me a T-Shirt, peço, mas a Inês continua a gatinhar e esconde-se entre a cama e o armário.

Ajoelho-me no chão, tento convencê-la a sair, mas a marota só se ri.

Isto não vai com falinhas mansas, decido e antes que a Inês perceba, prendo-a nos meus braços, levanto-a e sento-a na minha cama.

Marota, repito, a enganar o mano? e a Inês dá-me um sorriso e eu faço-lhe uma careta.

Começo a dobrar as T-Shirts, mas a Inês não me dá tréguas, acha piada à torre que estou a fazer e derruba.

Marota, volto a dizer, mas a minha mana ri-se feliz e eu resolvo entrar na brincadeira.

CONTINUA

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

MIGUEL, IRMÃOS E COMPANHIA

 

Ufa! Que família de loucos! Tenho que ser o mediador das lutas entre o Matias e o Edgar, a Inês deve ter os sonos trocados, pois não deixa dormir ninguém e, desde que conheceu o novo namorado, a Filipa está impossível de aturar.

Está decidido; vou estudar para fora, aviso os Pais. O Pai só diz tens a certeza disso? e a Mãe encolhe os ombros, qual é o problema de entrar numa Universidade cá, sabes? 

Este ano, as coisas não me estão a correr muito bem e não posso culpar a Inês.

Não estou interessado nos temas que são desenvolvidos nas aulas, por mais que tente, não me sinto desafiado.

Resolvo falar com a Teresa, não quero preocupar a Mãe, ela está esgotada, apesar da nossa ajuda e da D. Margarida.

Mas não é a área de que gostas? a Teresa está a achar tudo muito estranho, é natural ter-se dúvidas, Miguel, não te precipites, vai com calma. Porque não falas com um dos teus Professores?

Fico a matutar no que a Teresa diz, talvez tenha razão, talvez tenha que me empenhar mais.

Acabo por falar com o Professor Moutinho, gosto das aulas dele, são as únicas que me despertam interesse e a conselho dele, transfiro a matrícula para outras cadeiras que me vão permitir um leque mais vasto de alternativas.

Os Pais suspiram, afinal de contas, o que é que queres fazer? pensa bem no que queres fazer, não vais desistir no primeiro ano da Universidade, frisam.

É a minha vez de suspirar, esta vida é muito complicada, penso, mas gritos vindo do quarto dos manos alertam-me para uma nova batalha entre o Matias e o Edgar.

Entro no quarto, os dois muito corados, com os punhos fechados, não, foi para mim que ela olhou, insiste um, nada disso, foi para mim, diz o outro.

Sentada numa manta no chão, está a Inês a brincar com uma bola e totalmente alheia ao drama.

CONTINUA


domingo, 27 de dezembro de 2020

A SEDUTORA - FIM

 

São os homens da casa quem nos deita.

O Miguel ainda faz beicinho, mas o Gonçalo adormece logo que pousa a cabeça na almofada.

Eu e a Sofia olhamos expectantes para o Matias, talvez nos conte uma história, mas o Pai acena que não e depois de um último beijo, fecha a luz.

Deixa a porta entreaberta, ainda os ouço a falar no corredor.

A porta da rua abre-se, é o Miguel que chega e pergunta onde estão os monstrinhos? e o Pai manda-o calar-se, já estão deitados, diz, a ver se temos um jantar sossegado.

Se o Miguel está cá, duvido, diz o meu irmão, mas vamos ter fé e o Edgar ou o Matias, não sei qual, abafa o riso.

O Miguel ainda se mexe na cama e choraminga. 

É para chamar a atenção, sussurro à Sofia, mas como ninguém volta a entrar no quarto, suspira e cala-se.

Ainda bem, mas temos que lhe dar uma lição, murmuro, mas a Sofia já não me responde, deve ter adormecido.

Eu estou cansada, mas também excitada, há tanta coisa a descobrir, dormir é perder tempo.

Mas sinto as pálpebras pesadas, abro a boca num bocejo, quero dormir, não quero pensar em mais nada.

Afinal, amanhã é um novo dia.... 

FIM


Boas Festas

sábado, 26 de dezembro de 2020

A SEDUTORA - PARTE IV

 

Mas não posso ser solidária com o Miguel que perturba o nosso jantar.

Está sempre a choramingar, atira com a colher para o lado, suja a Filipa, o chão.

A minha irmã está quase a perder a paciência e a Mãe troca com ela. 

O Miguel fica contrariado, chora ainda mais, mas a Mãe insiste e ele lá começa a comer.

Tenho que falar com a Sofia e com o Gonçalo; temos que lhe dar uma lição, mas não hoje.

O Matias está a contar uma história ao Gonçalo, este está entusiasmado, ri-se com as vozes que o meu irmão faz.

O Edgar tenta fazer o mesmo connosco, mas não tem jeito nenhum e nós fugimos para o corredor.

A porta da rua abre-se, o quê? tenho um comité de boas vindas? pergunta o Pai e tanto eu como a Sofia rimos.

O Pai ajoelha-se, dá-nos um beijo na ponta do nariz e eu resolvo explorar-lhe os bolsos do casaco. Pode ser que tenha escondido qualquer coisa boa como um boneco, um chocolate, mas não. 

Só tem as chaves que eu exibo triunfante. Oh, Inês, dá cá isso, pede, mas eu rio e afasto-me a toda a velocidade pelo corredor com a Sofia atrás.

O Edgar segue-nos, nós entramos na sala e escondemo-nos atrás da porta.

O meu irmão finge que não nos vê, espreita atrás dos cortinados, dos sofás, diz ao Pai que é muito estranho, tem quase a certeza de que nos viu entrar para ali.

Não estarão ainda no corredor? sugere, mas o Pai responde que já procurou e tem a certeza de que não estamos.

Nós tentamos não fazer barulho, mas o Gonçalo, atraído pelo burburinho e já desinteressado da história, entra na sala, olha em volta, deve ter visto a ponta do roupão da irmã e dá o grito de alarme.

Ah, suas marotas, grita o Edgar, estão aqui escondidas! Dá cá as chaves, Inês e tenta tirar-mas.

Fujo novamente, embarro contra as pernas do Pai que se volta a ajoelhar e me abre a mão.

Marota, repete o Pai, não se brinca com isto, ok? Não está na hora de dormir?


CONTINUA

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

A SEDUTORA - PARTE III

 

É hora do banho e do jantar e a Mãe é muito rigorosa nos horários.

Diz ela que isto é uma casa de família e não um alojamento local.

Uma vez, o Miguel irmão foi obrigado a esperar que a família acabasse de comer para aquecer o prato e sentar-se à mesa.

O Miguel protestou, esqueceu-se das horas e o Pai chega muitas vezes atrasado e a Mãe observou que o Pai telefona sempre e essa é a razão porque todos têm um telemóvel, concluí.

Suspiro, sei que não adianta fugir, a Mãe achou piada a primeira vez, mas não foi nada simpática quando o tentei uma segunda vez.

Os primos vão dormir cá em casa, por isso, eu e a Sofia tomamos banho na casa de banho dos Pais e a D. Margarida encarrega-se do Gonçalo e do Miguel na dos manos.

Depois, instalam-nos na cozinha, a D. Margarida despede-se, está na hora de se ir embora, mas a Filipa chega entretanto.

Dou-lhe um grande sorriso, quero que seja ela a dar-me a sopa, mas o Matias não consegue manter o Miguel quieto e ela vai ajudá-lo.

Suspiro novamente e a Mãe sorri, o que foi, marota? O que aconteceu? Estás cansada da viagem de exploração à despensa?

Claro que a D. Margarida lhe contou, fico um pouco aborrecida, traidora, pensava que era nossa amiga.

A Filipa fica surpreendida e ri-se quando o Matias lhe conta a história. Temos que ter tudo fechado, comenta ou construir uma cerca para ela não sair, acrescenta o Edgar.

Que disparate, Edgar! Ela tem que gatinhar, andar; é como a Filipa diz, fechamos tudo e ela só pode andar na sala e no corredor, intervém a Mãe.

Amuo, isso estraga-me os planos, queria saber o que o Miguel irmão esconde no quarto.

Ouvi a D. Margarida queixar-se à Mãe que o quarto está sempre uma barafunda, às vezes, nem sabe por onde começar.

Lembro-me que o Matias e o Edgar também estavam muito interessados na conversa, mas a Mãe só disse, isto não vai acontecer no vosso quarto! e os meus irmãos ficaram muito desapontados.

Vim a saber mais tarde que os Pais encarregaram o Miguel de vigiar os manos, desde o banho aos trabalhos de casa e ele cumpre as funções à risca.

O Matias e o Edgar não acham justo; eles têm que ter o quarto deles num brinco e o Miguel pode brincar à vontade no dele?

Estou solidária com os manos.

CONTINUA

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

A SEDUTORA - PARTE II

 

Onde é que eles estão? é a voz do Matias, ausento-me por cinco minutos e tu deixas-os à solta.

Não deixei nada, protesta o Edgar, a culpa é do Miguel, a bola bateu-lhe no joelho e ele começou logo a chorar.

Pois, temos que dar uma lição àquele medricas, apoia o Matias, mas agora temos que encontrar o Trio Maravilha.

Para a varanda, não foram que a porta está fechada, opina o Edgar, tentamos a lavandaria? mas o Matias abana a cabeça, não vês que a porta também está fechada?

Só resta a despensa e ouço os passos deles a aproximarem-se.

A Sofia denuncia-nos, pois espreita e o Edgar vê-a de imediato.

Ah, marota, o que estão a fazer aí? e entra. Oh, meu Deus, o que é que aconteceu aqui? Oh, Matias, vem cá e vê o que estes andaram a fazer; a D. Margarida vai ter um ataque!

O Gonçalo ri-se, acha imensa piada estar sentado no meio daquele pó branco e eu estou a tentar tirar um outro pacote da prateleira.

O Matias impede-me, pega-me ao colo, esperneio, mas ele não liga.

O Edgar segura a mão da Sofia e pega no Gonçalo ao colo que continua a rir.

A D. Margarida entra nesse momento na cozinha, abre a boca de espanto e pergunta o que aconteceu.

Não temos a certeza se foi isso que aconteceu, mas a verdade é que os três estavam muito divertidos na despesa, remata o Matias.

Anda cá, Gonçalo, vamos lá limpar-te e depois, vejo os estragos, diz a D.Margarida.

Meia hora depois, estamos novamente sentados no chão da sala, o Matias e o Edgar fizeram uma cerca com as almofadas, como se isso nos impedisse de explorar as redondezas.

Também sentaram o Miguel perto de nós, precisas de ser mais sociável, pá, observa o meu irmão, mas o meu primo olha-nos desconfiados.

O Matias proíbe o Edgar de se ausentar sem licença prévia e este refila, tenho que ir à casa de banho de vez em quando, sabes? refila.

Avisa-me e eu fico, responde calmamente o Matias.

Começo a ficar aborrecida, tenho que pensar numa maneira de escapar, mas os meus irmãos estão a vigiar-nos atentamente.

Entretanto, chega a Mãe e os meus planos ficam frustrados.

CONTINUA

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

A SEDUTORA

 

Sou uma sedutora; basta fazer beicinho para o Matias, o Edgar ou ambos acorrerem, preocupados e desejosos de me fazerem as vontades.

Não tenho tanta sorte com os Pais nem com a Filipa e o Miguel... para o Miguel, sou apenas um bebé, não faço parte do seu Mundo.

Tolero a Sofia e adoro o Gonçalo que é um refilão como eu. Juntos, controlamos a situação e a Sofia também apanha descompostura, pois segue-nos obedientemente.

O único que destoa do grupo é o filho do Tio Pedro, o Miguel.

Valha-me Deus, mas que miúdo tão aborrecido! 

Fica sentado a um canto a observar as brincadeiras, mas nunca tenta participar e se a bola lhe bate, é um berreiro que fere os ouvidos.

Claro que a Mãe ou a Tia Teresa tentam convencer-nos que, no fundo, ele é um bom menino e temos que lhe emprestar os brinquedos, mas eu acho que estão errados.

Ele é mas é um medricas e nós não temos tempo para medricas, temos muita coisa a explorar.

Nem a Sofia nem o Gonçalo precisam de ouvir essa afirmação duas vezes e cá estamos nós a explorar a cozinha.

Mais uns passos e estamos na despesa; hum, cheira bem! e os meus primos concordam.

O Gonçalo segura-se à prateleira, há um pacote que lhe chama a atenção, é transparente e está cheio de um pó branco.

Tento impedi-lo, mas o Gonçalo começa a puxar pelo pacote que caí ao chão, rompe-se e o pó branco espalha-se.

A Sofia ri-se, o irmão parece um boneco de neve e eu tenho quase a certeza de que a Mãe não vai achar piada nenhuma.

Aliás, já estão à nossa procura.

CONTINUA


O Minha Página deseja umas Boas Festas.


Continuarei a publicar, mas não diariamente.


segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

APÓS O DIVÓRCIO - FIM

 

O avô traz um Miguel confuso e irritadiço, que a Ângela, chamada à pressa, distraí com a construção de um forte.

A Laura vai ficar connosco uns tempos, explica o meu sogro, vai recomeçar com a terapia e espero que fique mais calma e enfrente as situações. Tu continua com os teus planos, casa-te, sê feliz, acrescenta.

Dá-me um abraço e vai-se embora. Tenho pena dele, devia estar relaxado, a gozar a vida e tem que se preocupar com os delírios da Laura.

A Guiomar chega entretanto, ajuda-me a dar banho e o jantar ao Miguel e quando este adormece e voltamos para a cozinha para jantarmos, diz que precisamos de falar.

Se é sobre a Laura, os Pais estão a tomar as medidas necessárias para a ajudarem, explico.

Mas a Guiomar acha que não é suficiente, a Laura vai sempre desestabilizar a nossa vida, comenta e não sei se tenho força para assistir a este tipo de cenas.

A Laura não vai interferir com a nossa vida, insisto, ela precisa de ajuda, mas tem os Pais e os irmãos.

Não, vai ser muito duro para mim, toda esta preocupação em torno do Miguel, tens que o proteger da Mãe, mas ao mesmo tempo, não o queres afastar dela. E, qual será a reacção dela um dia quando tivermos filhos? pergunta.

Não achas que estás a fazer uma tempestade num copo de água? observo, sou eu quem tem que resolver esse assunto, a única coisa que te peço é apoio, mais nada.

Estou a ficar irritado, a Guiomar está nervosa, mas vejo que não está disposta a ceder.

O que queres fazer? digo muito sério, sei qual vai ser a resposta.

Vamos dar um tempo, tenho que pensar em tudo isto, quando me disseste que o Miguel não estava no colégio, achei que ela o tinha raptado e é muito duro, repete.

Dá um beijo na cara, pega no casaco e na carteira e ouço a porta a bater.

Fico ali na cozinha, a comida está fria, mas não tenho qualquer vontade de a aquecer.

Nem dou conta das horas passaram e é o choramingar do Miguel que me desperta.

Está em pé na cama, deve ter sede, pego nele ao colo e o meu filho aninha-se contra o meu peito.

Bem, filhote, parece que vamos ser só nós os dois, murmuro e sento-me com ele ao colo.

Ele volta a adormecer, eu não.

Estou novamente no ponto de partida e pergunto-me se devia ter continuado casado com a Laura.

Mas a resposta é não.

FIM

domingo, 20 de dezembro de 2020

APÓS O DIVÓRCIO - PARTE V

 

A Laura não fica muito satisfeita por ver o irmão, tu aqui? mas isto é entre mim e o Pedro, diz.

Só estou cá para que tudo seja resolvido calmamente, responde o António e a Laura solta um ah, então já conheces a sujeita.

Não é a sujeita, chama-se Guiomar, é uma pessoa bem educada, muito simpática e gosta muito do teu filho, observa o Pedro, e não, não está a tentar roubar o teu lugar.

Não sei, insiste a Laura e tanto o Pedro como o António suspiram. Quando a Laura reage desta maneira, vai ser difícil convencê-la de que a situação mudou e ela já não tem a última palavra.

A discussão é longa, absurda confessa o António mais tarde à Teresa, mas no final, a Laura aceita conhecer a Guiomar num local neutro.

O Pedro sente-se muito cansado, está tudo a correr bem, profissional e pessoalmente, porque é que a Laura tem que agitar as águas desta maneira?

O local escolhido é o café do bairro, o Pedro escolhe uma mesa ao canto e a Guiomar senta-se.

Tens a certeza de que isto é boa ideia? repete e o Pedro explica que é a única maneira de apaziguar a Laura e os medos.

A Laura chega na hora combinada, aperta a mão da Guiomar sem dizer nada e senta-se também.

A Guiomar sorri, faz as perguntas habituais sobre a saúde, tenta saber mais sobre a empresa, mas depara-se com um muro de silêncio.

Laura, intervém o Pedro, a Guiomar está a falar contigo, fazes o favor de responder?

Ah, desculpe, não ouvi, e a Laura sorri e é tão seca nas respostas que a Guiomar desiste. Pouco depois, despede-se, alegando ter uma reunião urgente.

Que desagradável! comenta a Guiomar, desculpa, sei que é a mãe do teu filho, mas alguém tem que lhe ensinar as regras da boa educação.

O Pedro suspira-se, a Guiomar está magoada, está a esforçar-se para que haja uma certa relação com a mãe do enteado e está a ser em vão.

Quando a Laura diz que vai passar o fim de semana em casa dos Pais e pode levar o Miguel?, o Pedro não faz qualquer objecção.

Talvez conversando com a Mãe, a Laura ganhe juízo e a Guiomar recupere o bom humor.

Contudo, nada o prepara para o telefonema que recebe do colégio na segunda-feira de manhã.

O Miguel ainda não apareceu, está doente? e pela cabeça do Pedro, há mil hipóteses.

Telefona de imediato para casa dos sogros e a Mãe da Laura só diz que eles ainda lá estão, não te preocupes, falamos já contigo e desliga.

CONTINUA

sábado, 19 de dezembro de 2020

APÓS O DIVÓRCIO - PARTE IV

 

Mas porque é que estão todos preocupados com a Laura? Tem que aceitar que a vida continua e que posso casar-me novamente, pergunto.

Se vocês discutem por causa do colégio, diz a Teresa, imagina o que não dirá quando souber da tua nova amiga, acrescenta a Carolina, ainda por cima, ela é tão ciumenta em relação do Miguel.

Vocês esquecem-se que tenho a custódia total do Miguel? Que é graças à minha boa vontade que ele passa mais tempo em casa dela do que foi estipulado? repito, por isso, deixem que eu lido com a Laura.

O jantar é um sucesso, a Guiomar está mais descontraída, até conta anedotas que fazem com que todos riam.

Vejo que as minhas irmãs estão encantadas e imagino as conversas quando saímos para a rua.

Passamos o domingo em casa, na segunda, deixamos o Miguel no colégio e aviso que é a Laura quem o vai buscar.

À noite, recebo um telefonema histérico da Laura, a perguntar-me quem era a galdéria que estava comigo quando fui levar o Miguel ao colégio naquela manhã.

Ups! Alguém foi indiscreto! penso, a Guiomar é uma amiga minha, não é nenhuma galdéria, esclareço, e já que estamos a falar nisso, estou a pensar em casar com ela.

Não consinto! Não quero que ela se aproxime do Miguel! grita a Laura tão alto que tenho que afastar o telemóvel do ouvido.

A Guiomar apercebe-se que algo está errado e aproxima-se, é a Laura? pergunta baixinho.

Laura, este não é um assunto que se discuta por telefone! Amanhã, tenho a manhã livre e vamos conversar calmamente, insisto.

A Laura concorda com má vontade e eu telefono à Ângela, é melhor que seja ela a levar o Miguel ao colégio.

Ela não gostou da ideia? Devias ter dito mais cedo! suspira a Guiomar, visivelmente perturbada, mas eu não respondo.

Telefono ao António, conto-lhe resumidamente a conversa que acabo de ter com a Laura e peço-lhe para ir comigo.

Claro que sim, suspira, passo a vida a apagar os incêndios que a minha irmã causa.

Realmente não era desta forma que eu queria abordar o assunto com ela, explico, mas alguém foi indiscreto, deve ter sido uma auxiliar do colégio, não sei, neste momento, não é importante.

Com a Laura, tudo é importante, observa o António, e talvez seja melhor falarmos depois com o médico dela.

CONTINUA



sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

APÓS O DIVÓRCIO - PARTE III

 

A minha sobrinha Filipa liga-me no sábado, se quiseres que o Miguel fique cá em casa enquanto estás no jantar da Teresa, não há problema, a tribo está reunida.

Ah, é um jantar de adultos então, brinco e a Filipa ri-se, é o núcleo duro da família, nós esperamos que nos leve ao bowling para uma noite divertida com a tua namorada, acrescenta.

Negócio fechado, digo e combinamos os detalhes. 

A Guiomar diz que tem que tratar de uns assuntos pessoais e só regressa por volta das cinco da tarde.

Foi ao cabeleireiro, comprou um vestido novo e sapatos. Parece nervosa, quero causar uma boa impressão, observa e eu sorrio.

Estás linda, não te preocupes! sossego-a, mas a Guiomar continua nervosa quando tocamos à campainha e a Teresa abre a porta.

Como é habitual nela, a minha irmã tem um vestido étnico e desta vez, o cabelo não tem madeixas de cor.

Dá-me um grande abraço, temos que ter uma conversa a sério, segreda e depois aperta a mão à Guiomar.

É um prazer conhecê-la, entre, fique à vontade, este é o meu marido o António, a minha irmã Carolina e o meu cunhado Gustavo, apresenta.

Todos sorriem, apertam a mão à Guiomar que sinto que continua nervosa e o António oferece-lhe uma bebida.

Creio que aceita para ter as mãos ocupadas, não sabe bem o que dizer, mas o Gustavo pergunta-lhe se é de cá e quando a Guiomar responde que não, que sempre viveu no interior, só se mudou para estudar e trabalhar, os dois descobrem que são da mesma região e há sítios que conhecem bem.

Em breve, a Guiomar está à vontade, até se ri de alguma piada do Gustavo e a Carolina puxa-me o braço.

Vem cá, queremos falar contigo e arrasta-me até à cozinha.

Ah, a ter segredos de nós! comenta, não é justo e a Teresa concorda, somos tuas irmãs!

Ok, tudo bem! admito, isto é ainda muito recente, ainda há muito a descobrir e a Carolina interrompe, posso já dizer que é diferente da Laura.

Nota-se que está nervosa, mas tem um brilho no olhar que nunca vi na Laura! explica a Teresa, isso é bom.

Rio-me, a Teresa é realmente uma pessoa muito prática.

A Laura já sabe? perguntam-me.

CONTINUA

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

APÓS O DIVÓRCIO - PARTE II

 

Já disseste à Laura, pergunta-me o António durante o nosso almoço habitual às quintas-feiras.

Fico tão surpreendido que me engasgo e tenho que beber um pouco de água antes de responder.

Dizer o quê à Laura? repito e o António ri-se.

Aos anos que sou teu amigo, sei quando estás interessado numa mulher e é sério. Quem é ela? e o meu cunhado olha-me trocista.

Chama-se Guiomar, trabalha nos Recursos Humanos da empresa e é o oposto da tua irmã, explico, é simpática, afável, divertida.

Sei muito bem que a minha irmã pode ser muito sombria, concede o António, mas também sei que é melhor que fique tudo bem esclarecido para não teres problemas mais tarde, insiste.

Neste momento, eu e a Laura não somos bons amigos, suspiro, insisti que inscrevesse o Miguel no colégio dos teus filhos, ela queria outro, porque a bata era mais bonita e implicou com a nova baby sitter.

Mas qual é o problema da baby sitter? questiona o António e volta a rir-se quando lhe conto que é porque a Ângela tem madeixas de cor (pode deixar o Miguel confuso, friso) e usa jeans rasgados.

A minha irmã não tem noção da realidade, só mesmo a Laura para se preocupar com esses detalhes, comenta e rimos os dois.

No fim do almoço, o António convida-me para jantar em casa dele no fim-de-semana.

Não tens escapatória, diz, tens que apresentar a Guiomar às tuas irmãs e elas já suspeitam de qualquer coisa.

Quando falo à Guiomar do convite, esta fica indecisa, sei que isto aconteceria um dia, mas estou um pouco apreensiva e se as tuas irmãs não gostam de mim? confessa.

Vão adorar-te, a Teresa é muito terra a terra, a Carolina é mais sofisticada, explico.

Nessa mesma noite, o António põe a Teresa ao corrente da situação e esta dá um pequeno grito, eu sabia que ele tinha encontrado alguém! Malvado, vai ouvir-me! afirma.

Telefona à Carolina, já nem janta e presta atenção aos filhos, porque a novidade tem que ser discutida pormenorizadamente.

O António acaba de dar de jantar aos filhos, prepara-os para a cama, conta-lhes uma história e depois, apaga as luzes.

A Teresa já desligou, está sentada na sala, a cozinha ainda está por arrumar, o que espanta o António, porque a mulher é muito organizada.

A Carolina nem queria acreditar! O nosso irmão está apaixonado! comenta quando o vê.

CONTINUA

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

APÓS O DIVÓRCIO

 

O que fazer após o divórcio da Laura? 

Concentrar-me nos meus objectivos, nas minhas metas e claro no meu filho.

Posso gerir o meu tempo, ninguém exige que interrompa a minha vida porque a deles está a correr mal.

Claro que vou ter problemas com a Laura, quase nunca estamos de acordo com a forma como o Miguel é educado, mas vou encontrar a maneira certa de contornar a situação.

Aceito convites para jantar de casais amigos, apresentam-me a amigas solteiras ou divorciadas, mas raramente as convido para um jantar a sós.

A Carolina e a Teresa estão preocupadas, ouvi-as a discutir o assunto, mas brinco com a situação.

Ri-me baixinho das caras delas quando apareci num dos jantares de família com uma das Directoras da empresa.

Ou quando encontrei a Rita e o Gonçalo num jantar mistério para o qual tinha sido convidado por uma cliente que não queria ir sozinha.

Se houve sexo nessas noites, não o discuti com ninguém, nem mesmo com o António.

Estou finalmente em paz e não quero que nada a quebre.

Por isso, fiquei surpreendido quando me deixei seduzir pela Guiomar.

Talvez por ela ser completamente diferente da Laura - afável, descontraída, risonha.


CONTINUA

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

A PROPOSTA - FIM

 

No bar, encontra alguns conhecidos, bebe demais e deita-se muito tarde.

No dia seguinte, está de mau humor, adia as reuniões, actualiza as notas dos projectos.

A Rita está em reuniões com o contabilista e com o advogado, pouco lhe diz, só o estritamente necessário.

O Gonçalo tenta falar com ela, redimir-se, mas a Rita não o escuta, foste muito claro e não há mais nada a dizer, comenta.

Estás a ser tão parvo como a Laura, observa o António, onde é que tens a cabeça? Já analisaste bem a posição da Rita? e o Gonçalo baixa a cabeça envergonhado.

Ás vezes, penso que o Gonçalo é que devia ser o gémeo da Laura, queixa-se o António à Teresa, a Laura teve todos aqueles problemas e não é de admirar que tenha atitudes irracionais, mas o Gonçalo??? Teve uma atitude tão egoísta...

O António tenta falar com a Rita sobre o assunto, mas esta recusa qualquer conversa sobre o que se passou.

António, o problema não é teu, é do teu irmão, comenta e desvia a conversa para o livro que estão a ler no Clube.

Ela não deixa de ter razão, opina a Teresa quando ele lhe conta, o teu irmão é que tem resolver e sinceramente, se queres saber, acho que vão ser só colegas de trabalho. O relacionamento amoroso terminou.

A Teresa tem razão e o Gonçalo apercebe-se disso quando a Rita lhe pede para ir buscar o resto das coisas.

Contrariado, começa a procurar um apartamento, sente-se um pouco a mais no do Pedro, principalmente quando a Guiomar, a namorada fica lá.

Encontra um T1 no prédio da Carolina, esta convida-o para jantar de vez em quando, mas há muita gente a falar ao mesmo tempo à mesa e ele sente falta dos jantares cúmplices com a Rita.

Por isso, quando o Grupo o convida para um estágio na sede, após discutir o assunto com a Rita (custou alguma coisa? recrimina o António), ele aceita e acaba por ficar lá um ano.

Se as coisas estão diferentes quando regressa? 

Talvez... O Mundo dá muitas voltas.


FIM

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

A PROPOSTA - PARTE V

 

Entretanto, a Rita vai jantar com a irmã. A Matilde saiu com uns amigos e a Clarinha está com o Pai; podem relaxar e conversar à vontade.

A Rita está cansada, parece que aquela energia que emanava desapareceu. Deve ser por causa do Gonçalo, pensa a Madalena, mas a irmã evita falar dele.

Explica todos os detalhes do contrato, mas quando a Madalena pergunta qual a reacção do Gonçalo, a Rita fica calada.

A Madalena suspira, não insiste, tem que ser a Rita a dar o primeiro passo.

O Gonçalo preocupa-me, diz finalmente, ficou atraído pelo dinheiro, nem parecia aquele homem que arriscou tudo para abrir a empresa comigo.

Não sei o que mudou, continua a Rita, ficou deslumbrado com o dinheiro que ofereceram, não percebeu que ficaria à mercê deles, bem sei que se quiser sair e vender as acções, eles têm prioridade, mas posso negociar para que a Matilde ou o Gustavo fiquem com isso.

Foi por isso que terminaram? indaga a Madalena, em parte, responde a irmã e o que me preocupa é que, dentro de dois anos, ele proponha a venda das acções dele.

Veremos, mas é fim de semana, temos que nos divertir, aconselha a Madalena, vamos ao cinema amanhã?

O Gonçalo acaba por telefonar à irmã, Laura e conta-lhe tudo o que aconteceu.

A Laura ouve, mas não faz qualquer comentário e o Gonçalo fica um pouco confuso.

Não dizes nada? Tens sempre uma opinião! exclama, mas não sei o que queres que te diga, questiona a Laura.

Se estou contente por não estares mais com a Rita, estou... sempre achei uma idiotice essa relação, ainda bem que agora podes conhecer outras mulheres e quem sabe até ter um filho, remata a irmã.

Não te admito que fales assim da Rita, ela é uma mulher maravilhosa e nem sequer sabes se quero ter filhos ou não, esclarece o Gonçalo.

A Laura não comenta, não vai discutir o assunto e o Gonçalo desliga.

Sente-se muito sozinho, o Pedro ainda não veio.

Resolve telefonar a um velho amigo, mas este não atende. 

Sozinho não vou ficar, pensa, vou dar uma volta e vai até a um bar que não frequenta há muito tempo.

CONTINUA

domingo, 13 de dezembro de 2020

A PROPOSTA - PARTE IV


Não sei se tenho capacidade para digerir todas estas mudanças, suspira o Gonçalo que tenta não estar muito tempo no escritório.

O ambiente descontraído desapareceu, a Rita só fala de trabalho e o Gonçalo sente que a desiludiu imenso.

Talvez seja mesmo idiota como o António diz, mas o irmão é tão certinho que até irrita, murmura o Gonçalo que faz um esforço para se concentrar na reunião.

O Grupo responde favoravelmente à proposta da Rita, querem conhecê-la e discutir certos detalhes e por isso, marcam uma videoconferência.

Além da Rita e do Gonçalo, está também presente o advogado e o contabilista, decerto que há pormenores legais e financeiros a discutirem.

Do outro lado, estão dois Directores e um advogado. A conferência é produtiva e no final, a Rita consegue o que quer.

A empresa não vai mudar de nome e ela continuará a ser responsável pela gestão da carteira de clientes e do processo criativo de todos os projectos.

Será igualmente consultora em outros projectos do Grupo no País e o Gonçalo terá as mesmas funções, ou seja, acompanhar o desenvolvimento dos mesmos no local, angariar novos clientes.

O Grupo pede relatórios mensais, reuniões presenciais ou por videoconferência de dois em dois meses.

Quanto à parte financeira, o Grupo exige ter acesso às contas, aos balancetes, etc e insiste na cláusula de rescisão, ou seja, o Grupo terá prioridade na compra das acções deles que serão pagas ao valor do mercado na altura.

A Rita fica indecisa, o Gonçalo aceita e o advogado considera que é um bom negócio.

Mas se os meus sobrinhos estiverem interessados nas acções? pergunta e o advogado diz que podem sempre negociar.

O contrato é assinado, o Gonçalo fica satisfeito com o resultado e convida o Pedro para uma noite de "farra".

Mas o Pedro vai jantar a casa dos futuros sogros e o António e a Teresa têm planos para o fim de semana, já que a sobrinha Filipa se prontifica a ficar com os primos.

CONTINUA

sábado, 12 de dezembro de 2020

A PROPOSTA - PARTE III

 

A discussão é longa e violenta, o Gonçalo acaba por assinar a proposta, para que ela deixasse de falar, desabafa com o irmão.

És mesmo idiota! exclama o António, queres mesmo largar tudo e dar a volta ao Mundo num iate? Nem parece que estou a falar com uma pessoa que arriscou tudo e trabalhou ao lado da Rita para que a empresa se tornasse numa referência. Sim, porque foi por isso que vos contactaram...

O Gonçalo fica calado, talvez o irmão tenha razão. Vai ficar num hotel até decidir o que fazer, a Rita deu a entender que era melhor não ficarem juntos.

Acho que o Gonçalo não lhes disse que foi a Rita o cérebro da operação, comenta o António e a Teresa abana a cabeça. 

O mérito é dos dois, mas a Rita foi quem arriscou mais, comenta a Teresa, e, desculpa, mas o teu irmão está a agir como um catraio.

Entretanto, a Rita envia a proposta e aguarda um contacto do grupo.

Ela e o Gonçalo pouco falam, só sobre trabalho e a Matilde queixa-se em casa que está a ser difícil trabalhar naquele ambiente tenso.

A Madalena tenta falar com a irmã, mas a Rita não quer conversar sobre o assunto, é muito doloroso, diz e a irmã percebe que o problema não é a proposta, mas a atitude do Gonçalo.

Porque a relação deles termina, o Gonçalo faz as malas e pede ao cunhado Pedro para ficar lá em casa, só até encontrar um apartamento, diz.

O Pedro encolhe os ombros, dá-lhe uma chave, mas por pouco tempo, vou casar novamente, esclarece e ainda não decidi se a vou vender ou alugar.

Nem a Teresa nem a Laura comentaram nada, afirma o Gonçalo, decidi há pouco, ainda não falei com elas, é a resposta do cunhado.

CONTINUA

Nota:

A Laura é irmã do António e do Gonçalo.

Foi casada com o Pedro que é irmão da Teresa.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

A PROPOSTA - PARTE II

 

A Rita analisa a proposta e compreende porque é que o Gonçalo a acha aliciante.

Directores executivos com voz activa no Conselho de Administração, um salário elevado e ao fim de dois anos, a indemnização será o valor a dobrar das acções deles da empresa.

Ficariam ricos, poderiam fazer uns trabalhos como freelancer se quisessem e até podiam viver parte do ano num lugar exótico.

Mas a Rita quer continuar a trabalhar, desenvolver novos projectos, ser mais que um nome de referência no design publicitário.

Contacta o advogado, estudam as hipóteses de uma nova proposta que consolide o lugar dela na empresa e ao mesmo tempo, lhe dê carta branca para escolher e desenvolver novos projectos.

Não sei se concordo, diz o Gonçalo.

Acho que é uma proposta muito vantajosa, contrapõe a Rita, não estou disposta a deixar que se aproveitem do meu know-how e depois me convidem a sair.

Mas serias uma mulher muito rica, insiste o Gonçalo, podias fazer o que quisesses.

Não me interessa ser tão rica, quero ser produtiva, quero ser independente, não quero ser um pau-mandado, explica a Rita.

O Gonçalo não sabe o que dizer, não quer trabalhar até à hora da reforma, terá dinheiro suficiente para dar azo a projectos pessoais.

Tenta explicar isso à Rita, mas esta não aceita, porque não é o plano de vida dela.

Durante uns dias, não se falam, o António confessa à Teresa que o irmão está a ser teimoso, porque a proposta que a Rita lhe pediu para analisar, faz todo o sentido.

Ela está receptiva a serem parceiros no negócio, mas a empresa continua a ser independente, ela toma todas as decisões administrativas, diz o António.

A Rita está a defender os interesses dela, afinal ela ergueu aquela empresa do nada, concorda a mulher, não vai deixar que uma empresa estrangeira se aproveite pura e simplesmente do trabalho que ela desenvolveu e depois, lhe diga adeus. Eu também não o faria! acrescenta.

Naquela noite, a Rita confronta o Gonçalo, concorda ou não com a proposta que ela elaborou? Quero enviá-la esta semana, saber o que eles pensam.

Não sei, responde o Gonçalo o que exaspera a Rita.

Não sabes o quê? grita.


CONTINUA

 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

A PROPOSTA

 

O Gonçalo sente que está numa encruzilhada.

A proposta é deveras aliciante, mas ele receia o que a Rita poderá dizer.

Afinal, explica ao António, eles construíram a empresa do zero, são um ponto de referência, graças, em parte aos contactos que a Rita tinha.

Mais uma razão para discutires o assunto com ela, aconselha o António, ela até pode estar receptiva, pode até considerar integrar-se nessa empresa, se a deixarem ocupar o lugar de Directora, por exemplo.

Tens que falar com ela, estudarem a proposta juntos e reunirem-se com os responsáveis quando tiverem uma ideia muito clara do que querem fazer, repete o irmão e o Gonçalo suspira.

Se esperares muito tempo, continua o António, ela pode acusar-se de a estares a trair e não deixa de ter uma certa razão.

Nessa noite, depois do jantar, o Gonçalo coloca a proposta em cima da mesa e explica à Rita o que se está a passar.

Acho que é uma proposta aliciante, tens que a ler cuidadosamente e depois decidimos o que fazer, concluí.

A Rita folheia o dossier e pergunta-lhe, há quanto tempo sabes disto? Quem te contactou? Como?

O Gonçalo diz que conheceu um dos responsáveis num seminário, o grupo está interessado em expandir-se e procura um parceiro que conheça o mercado.

E garantias? Sim, porque não desenvolvi todo este trabalho para me "arrumarem" na prateleira, responde a Rita zangada, ou nem falaram nisso?

Calma, eu disse-lhes que tinha que falar com a minha sócia e que os contactaríamos depois, esclarece o companheiro, só que eles precipitaram-se e enviaram a proposta antes de eu falar contigo.

Vá lá, Rita, pede o Gonçalo, lê a proposta, podemos refutar alguns dos pontos, proteger os nossos interesses de alguma maneira.

Podes crer que o farei, observa a Rita, vou analisar esta proposta ponto por ponto, falo com o nosso advogado, mas estou muito desiludida contigo.

Isto diz respeito aos dois e não mo devias ter escondido e a Rita saí da cozinha furiosa com o dossier na mão.

O Gonçalo ouve a porta do estúdio a bater com força e volta a suspirar.

O António tinha razão, diz baixinho, portei-me como um idiota. Devia ter contado tudo quando regressei do seminário, talvez ela reagisse doutra maneira.

CONTINUA

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

A CASA NOVA - FIM

 

O Sr Joaquim está agitado, alguém saiu do trilho e perdeu-se, não consegue contactar o Presidente da Junta e o Chefe dos Bombeiros.

Será que o Inspector o pode ajudar a organizar um grupo de busca? Ainda têm mais uma hora de luz, vão começar pelo local onde foi visto pela última vez.

O Bernardes prontifica-se a ajudar, mas o Inspector Leitão aconselha-o a voltar para o Hotel, estão habituados a organizar este tipo de buscas.

Os três voltam ao Hotel, a Clarinha a querer saber o que aconteceu e a Matilde a resmungar, acontece sempre qualquer coisa sinistra onde estás.

O Pai nem responde, não houve qualquer crime, que tu saibas, diz a Matilde como se adivinhasse os pensamentos.

No fim de jantar, a Matilde ajuda a preparar a Clarinha para a cama, esta fica no quarto do Pai a jogar e depois de mudar de roupa, desce para ir com os amigos à discoteca.

A Clarinha adormece, o Pai leva-a com todo o cuidado para o quarto dela e tenta depois ligar ao Inspector Leitão.

Este atende ao primeiro toque, não, não o encontraram, têm que retomar as buscas no dia seguinte, já avisaram a delegação da cidade, necessitam de cabos, têm que percorrer o rio.

Precisa de ajuda? pergunta novamente o Bernardes, mas o Leitão diz que não, que está tudo controlado.

A Matilde ainda dorme quando o Bernardes e a Clarinha descem para tomar o pequeno almoço no dia seguinte, resolvem ir até ao Spa e participam numa aula de ginástica aquática que a Clarinha adora.

Depois, voltam ao quarto, têm que deixar os quartos ao meio dia e a Matilde está ainda ensonada.

Ajuda a fazer as malas, protesta quando o Bernardes avisa que vão almoçar no restaurante da aldeia e mais aborrecida fica quando vê que o Inspector Leitão está à espera deles lá.

Já encontraram a pessoa desaparecida, infelizmente já sem vida, os Pais estão desesperados, explica o Inspector.

Caiu? Exposição aos elementos? questiona o Bernardes, mas o Leitão diz que não tem a certeza, têm que esperar pela autopsia.

Na hora da despedida, o Bernardes reafirma a sua disponibilidade para ajudar, mas o Leitão apenas agradece.

Já a caminho de casa, o Bernardes pergunta às filhas se gostaram do fim de semana, claro que sim, responde a Clarinha entusiasmada.

Mais séria, a Matilde comenta que conheceu " gente interessante", pena o acidente, espera que não tenha sido crime, frisa

O Bernardes sorri, ele assim espera. 

Mas, se foi crime, ele não vai ser chamado para o resolver, está fora da jurisdição dele.

De qualquer forma, já resolveu que voltará à aldeia, gostou do ambiente calmo que ali se vive e o Inspector Leitão é, como a Matide descreve, "gente interessante".


FIM

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

A NOVA CASA - PARTE V

 

O Bernardes apresenta-se, o Inspector fica encantado por encontrar um " colega " e a conversa flui livremente.

A meio do segundo café, o Bernardes olha para o relógio, deixou a filha na escola de equitação, tem que a ir buscar e combinam encontrar-se de tarde, percorrer um dos trilhos favoritos do Inspector Leitão.

Quem não gosta nada da ideia é a Matilde, já tinha combinado uma saída com os novos amigos, mas o Pai diz-lhe que a ideia do fim de semana era estarem todos juntos.

Por isso, um pouco aborrecida, a Matilde lá os segue, a protestar baixinho, já se sabe que vão discutir crimes.

O Inspector Leitão é muito simpático, a Matilde tem que admitir e escolheu o trilho perfeito para explorarem.

A Clarinha está bem disposta, descreve-lhe a aula de equitação e o workshop a que assistiu e o Inspector Leitão responde gravemente a todas as questões que ela lhe coloca sobre o que encontram no trilho.

Quando descem novamente para a aldeia, o Inspector convida-os para lanchar na casa dele e não aceita um " não ".

É um casa pré-fabricada, com um pequeno jardim à frente e uma horta biológica com que me distraio bastante, explica Leitão, embora ainda trabalhe como consultor do Departamento da zona.

A Clarinha quer explorar a horta, a Matilde também está curiosa e as duas saem.

Os dois Inspectores falam de casos antigos, dos novos protocolos e métodos de trabalho e só param quando as filhas do Bernardes voltam a entrar, a queixarem que está frio e não será melhor voltarem para o hotel? pergunta a Matilde, ela e os amigos combinaram ir à discoteca.

O Leitão ri-se e explica-lhe o melhor caminho para voltarem ao Hotel.

É nessa altura que o dono do café/mercearia aparece a correr.

CONTINUA

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

A NOVA CASA - PARTE IV


A Matilde fica entusiasmada com a ideia de passar o fim de semana fora com o Pai.

Pena termos que levar o bebé, comenta trocista, o que faz com que a Clarinha tente bater-lhe.

Para onde vamos? quer saber a Matilde, mas o Pai nada diz, vai ser uma surpresa, acrescenta.

Ouviu uns colegas falarem de uma aldeia perdida no meio de um parque florestal, um sítio ideal para relaxar, fazer caminhadas, há uma escola de equitação e um hotel simpático com um spa.

Vive lá perto um ex-colega nosso, o Inspector Leitão, se puderes, fala com ele, dizem.

Os três partem na sexta-feira à tarde, a Matilde protesta, vamos ficar longe da civilização, mas a Clarinha adora a ideia de aprender a montar a cavalo.

Chegam à hora de jantar ao hotel, as meninas ficam num quarto e o Pai noutro.

Deixam as malas no quarto, lavam as mãos e descem para jantar.

Há algumas famílias com filhos, alguns da idade da Clarinha, outros mais velhos, da idade da Matilde, que fica mais satisfeita.

No fim do jantar, junta-se a um grupo que organiza um jogo de cartas e em breve, a sala de estar enche-se de gritos e risos.

A Clarinha brinca às escondidas com uns meninos e o Bernardes tem grandes dificuldades em a convencer que são horas de dormir.

No dia seguinte, o Bernardes leva a Clarinha à escola de equitação, a Matilde fica no spa do Hotel com o grupo que conheceu no dia anterior.

Na escola, dizem ao Bernardes que, além da aula de equitação, há outras actividades em que a Clarinha pode participar e que a pode ir buscar à hora de almoço.

O Bernardes aproveita para passear pela aldeia, fazer uma caminhada por um dos trilhos assinalados e no regresso, entra no café/mercearia.

Pede um café, prova um quiche miniatura de queijo e senta-se a ler o jornal.

" Bom dia, Inspector Leitão, hoje está atrasado!" ouve e ergue os olhos para observar o homem que entra.

Este deve ter à volta de setenta anos, é alto, com cabelo grisalho e uns olhos azuis sorridentes.

" Pois é, mas com esta manhã fabulosa, fui fazer uma caminhada até ao outro lado do parque!" responde o Inspector e repara, então no Bernardes sentado ali perto do Balcão.

" Veio passar o fim de semana?" pergunta amavelmente " O que acha da nossa aldeia?"

CONTINUA

domingo, 6 de dezembro de 2020

A NOVA CASA - PARTE III


Graças à Matilde e à D. Mercedes, a casa está mais confortável, torna-se um verdadeiro refúgio para o Inspector Bernardes.

Um dia, encontra uma planta à porta de casa e quando abre esta, depara-se com um novo armário no hall de entrada para guardar o casaco e os sapatos.

Há também um espelho, uma pequena mesa de apoio com um candeeiro onde deixa as chaves.

Vai até à cozinha e abre a boca de espanto. Os armários parecem novos (vem a saber mais tarde que são os antigos, o marido da D. Mercedes apenas os lixou, poliu e pintou) e a bancada também é nova.

Matilde, o que é que andas a fazer? exclama e resolve ter uma conversa com a filha sobre o estar a gastar dinheiro sem lhe dar conhecimento.

A Madalena telefona-lhe, quer falar sobre a Clarinha e o Bernardes convida-a para jantar.

Vai buscá-la à loja, leva-a a um restaurante sossegado e enquanto esperam pela refeição, o Bernardes diz:

" Tenho que falar com a Matilde. Cheguei a casa e ela comprou uma série de coisas novas. A casa está a ficar perfeita, mas ela tem que ter cuidado."

" A tua filha quer que estejas confortável, ela disse-me que a tua casa era fria, feia e acrescentou mais alguns objectivos que não vou repetir." interrompe a Madalena " Sempre que pode, trabalha no escritório da Rita e esta paga-lhe... com esse dinheiro e a mesada, a Matilde comprou-te os móveis do hall. A planta fui eu e a Clarinha."

" A Matilde fez isso???" Bernardes não sabe o que dizer, está confuso.

" A tua filha adora-te e teres confiado nela, pedido ajuda... foi a cereja no topo do bolo." e a Madalena sorri " Há muito tempo que não a via assim tão feliz, tão interessada... " acrescenta, desde o divórcio, era o que queria dizer, mas acha que o ia magoar.

" Eu também a adoro e diverti-me imenso com ela nas compras...A D. Mercedes acha-lhe graça, contou-me que nunca ninguém tão jovem a entrevistou com tanto rigor..." e os dois riem.

A conversa desvia-se para a Clarinha, as sessões com o psicólogo estão a ajudar e ela parece estar mais calma.

" Estava a pensar em passar o fim de semana fora com ela. A Matilde também pode vir connosco, o que achas?" sugere o Bernardes quando a leva a casa.

" Acho uma ideia brilhante!" a Madalena sorri, despede-se e o Bernardes manda um SMS à filha.

CONTINUA

sábado, 5 de dezembro de 2020

A NOVA CASA - PARTE II

 

Pai e filha divertem-se no IKEA a fazer compras.

Por vontade da Matilde, remodelava tudo, mas o Pai insiste em apenas comprar o essencial e o restante à medida que for necessário.

Decidem comprar os móveis para a sala e para o quarto, optam pela " entrega à porta", embora o Bernardes duvida que os saiba montar.

A filha acalma-o, já combinou com dois colegas que adoram puzzles e os três vão fazer a montagem.

Quando terminar, diz, nem vais reconhecer a tua casa e quando o Bernardes entra em casa naquela noite, a sala está acolhedora, o cinzento e o branco resultam muito bem.

Onde é que ela foi buscar estas almofadas e estas mantas? murmura e vai até à cozinha.

Fica parado à porta, porque a cozinha também está diferente e ele tem a certeza absoluta de que não comprou nada para esta divisão.

Em cima da bancada, há uma taça com fruta, um cesto com pão e uma tábua para o cortar.

A banca está limpa e os pratos arrumados na prateleira e no frigorifico, há leite, manteiga, queijo, fiambre e até aquele paté de que ele gosta tanto.

Há um tupperware com sopa com um bilhete da Matilde preso na tampa.

" Pedi a Mãe para trazer esta sopa; sabemos que não a dispensas. Terás sempre sopa no frigorífico, eu encarrego-me disso e de comprar o resto. No armário, tens o teu café e as bolachas predilectas.

Beijos, Matilde

P.S.: Conhecemos uma senhora que tem duas tardes livres e pode limpar-te a casa. Dei-lhe o teu numero de telemóvel e pedi para te ligar para combinarem. Chama-se D.Mercedes, deve falar contigo até ao final da semana.

"

Bernardo fica com os olhos húmidos, confessa mais tarde ao Brites, a minha filha tão adulta, tão responsável.

Tão amiga do Pai, responde o amigo e o Bernardes sente-se ainda mais culpado por ter insistido no divórcio.

A D. Mercedes não tem qualquer problema em falar com o Bernardes no gabinete da Polícia.

Sim, a Matilde já explicou o que é para fazer. Até me ofereci para lhe fazer sopa, ri-se, mas a menina faz questão de tratar disso. Já sei que gosta de camisas bem engomadas e as calças bem vincadas.

O Bernardes ri também, a filha conhece-o bem e combinam que a D. Mercedes irá tratar da casa às segundas e sextas de tarde.


CONTINUA


sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

A NOVA CASA

 

O Inspector Bernardes começa a pensar que foi um erro divorciar-se da Madalena.

Os primeiros anos da carreira foram duros e a Madalena suportou as mudanças sem um queixume.

Compreendia os humores dele, organizava a casa, os miúdos e estava sempre disposta a escutá-lo.

A Juliana é uma mulher de carreira, competente, mas ambiciosa e o Bernardes suspeita que não tem lugar na vida e nos objectivos que ela definiu.

Sente que ela se está a afastar e ele não está a fazer nada para contrariar isso.

" Foi uma ilusão!" confessa ao colega Brites.

" Sempre achei um disparate divorciares-te da Madalena; não é que a Inspectora Juliana não compreenda as exigências da profissão, até sabe melhor que a Madalena, mas ela proporcionava-te um ambiente familiar, confortável.... Não chegavas a uma casa vazia e fria!" observa o Brites.

" Tu também estás divorciado e vives com o teu irmão!" ri-se o Bernardes, mas o Brites abana a cabeça.

" Mas a casa raramente está vazia ou fria. A minha Mãe passa por lá de vez em quando e a porteira faz-nos as compras, o jantar... Isto sem falar nas namoradas do meu irmão!" diz o amigo.

O Bernardes fica pensativo uns minutos e acaba por concordar com o amigo.

A casa dele está realmente vazia e fria; ainda não a mobilou por completo, só o quarto da Clarinha.

O frigorífico está vazio, toma as refeições fora e deixa a roupa na lavandaria.

Nem contratou ninguém para fazer a limpeza do apartamento.

Por isso, quando chega ao escritório, faz uma lista de tarefas.

Talvez telefone à Matilde e ela queira ir com ele comprar móveis e afins.

A Matilde fica surpreendida com o convite e claro que sim, vai adorar a expedição. Tem alguma ideia do que quer comprar? Moderno, rústico, antigo?

O Pai ri-se e diz que a palavra chave é simplicidade.

CONTINUA




quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

O ESTÁGIO - FIM

 

Com a transferência do Bernardo para a cidade, a Aída respira fundo e reorganiza a vida profissional.

Na ausência dela, o Nicolau assumiu o papel de moderador nas sessões do Clube, mas, embora todos sejam unânimes em afirmar que foi um bom moderador, aplaudem o regresso da Aída.

Até o Bernardo participa nas discussões online e como não passa muito tempo sozinho, o Major e o Nicolau revezam-se nas visitas e mais tarde, nas idas à fisioterapia, o rapaz não tem tempo para pensar no estágio perdido.

Era bom para o meu currículo, desabafa, mas o Major desvaloriza a situação, vais receber outros convites.

Quando regressa às aulas, embora ainda precise de uma bengala para se deslocar, já recuperou o bom humor habitual.

O Gustavo também regressa, adorou o estágio, aquela empresa está no top das inovações, diz e o Bernardo sente uma pontinha de ciúme.

Ainda por cima, a empresa convida geralmente um dos estagiários para trabalharem lá depois de terminarem o curso e o Bernardo estava empenhado em que isso acontecesse.

Como só lá esteve duas semanas, a empresa nem sequer o vai considerar e até tem que se recriminar, porque espera que o Gustavo não seja convidado.

Mas, no fim do ano, o Gustavo recebe um convite formal de trabalho da empresa, o Bernardo amaldiçoa o acidente e durante uns dias, está tão mal humorado que a Aída tem que lhe chamar a atenção.

São revezes da vida, observa, ok, compreendo que fiques aborrecido, mas procura alternativas.

O Pai diz-lhe a mesma coisa e o Major aconselha-o a falar com os professores, devem ter contactos com outras empresas, podem ajudar-te.

O Gustavo nem se apercebe da frieza do Bernardo, está tão satisfeito com a proposta de trabalho, o início de uma carreira que ele espera que seja um sucesso.

Por isso, quando o convida para jantar para celebrar o facto, fica muito surpreendido quando o Bernardo recusa.

Ao principio, pensa que é porque ainda se cansa facilmente, mas depois compreende que é por causa da proposta de trabalho.

Talvez seja melhor conversar sobre o assunto com ele, mas decide não o fazer.

E talvez seja uma má decisão, porque o espírito de camaradagem que havia entre os dois esmorece e quando se encontram, comportam-se como se fossem dois estranhos.


FIM