sexta-feira, 30 de novembro de 2018

O PLANO DE AFONSO - PARTE II


O porteiro não acha nada estranho o Afonso pedir-lhe para abrir a porta.

Aliás, o Senhor Engenheiro foi bem claro: sempre que os meus filhos aparecerem e eu não estiver cá, deixe-os entrar.

O Afonso entra, larga a mochila e o anorak no hall e visita a cozinha.

Vai a passar no corredor que vai para os quartos quando ouve vozes.

O Pai está em casa? Não o ouviu entrar? 

Bate à porta, entra sem esperar resposta e vê o Pai na cama abraçado à Tia Eugénia, mulher do tio Romeu.

Afonso fica estupefacto, a Tia Eugénia solta um grito e tapa-se e o Pai diz, zangado:

" O que fazes aqui a esta hora? Porque é que não telefonaste para saberes se podias ou não vir? "

Afonso não responde, foge do quarto, derruba o tabuleiro que tinha preparado e, arrastando a mochila e o anorak, saí.

Desce as escadas rapidamente, passa pelo porteiro que o tenta, sem sucesso deter e está na rua.

Está tão nervoso que perde o sentido de orientação e quando dá por si, não sabe onde está.

Tenta acalmar-se, dirige a uma paragem para se orientar.

Ora, bolas, está a ir para Sul e a casa da Mãe e o colégio ficam para Norte.

Estuda o percurso de um autocarro e talvez este sirva. Pode sair no Parque, dali já sabe como ir para casa.

O telemóvel toca, mas Afonso ignora-o. 

Ou é o Pai ou a Mãe e ele já sabe que vai ouvir um grande sermão.

CONTINUA

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

O PLANO DE AFONSO


Afonso tem um plano.

Se conseguir despistar o Frederico e o Pedro, apanha o autocarro em frente ao Shopping e vai para casa do Pai.

Ao princípio, achou um absurdo o divórcio, mas depois, até descobriu vantagens.

Quando quer fugir à vigilância da Mãe, que continua a não tolerar faltas de educação ou pedidos inadequados, vai para casa do Pai, certo de que este fará tudo para o manter bem-disposto.

Abrir o porta-moedas da Mãe e retirar de lá cinco euros foi fácil. Quando descobrirem, vai receber um sermão, mas que importa?

Infelizmente, encontra o Frederico que lhe pergunta onde é que ele vai com tanta pressa, mas Afonso despista-o, dizendo que vai estudar para casa de um amigo.

Frederico ainda protesta, quer telefonar à Mãe para confirmar, mas Afonso afasta-se sem lhe prestar atenção.

Cá está ele na paragem, à espera do 345. Já tentou ligar para o telemóvel do Pai, mas este não atende.

Pode estar numa reunião e não estar em casa, mas Afonso já é um grande amigo do porteiro e está convencido de que este o deixará entrar.

O 345 lá aparece, já não era sem tempo e o Afonso entra.

Paga o bilhete, instala-se num lugar perto da porta e está com atenção às paragens.

Volta a ligar para o telemóvel do Pai, este continua sem atender e Afonso continua a achar que não vai haver problema.

Faz sinal de paragem, saí e atravessa a rua.  Mais uns metros e chega a casa do Pai.


CONTINUA

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

A LISTA - O FIM


O Natal e o Ano Novo passam com o João e a Maria mais relaxados do que é habitual e até a trocarem umas piadas.

Em Janeiro, Maria aceita a proposta do cliente do João e apresenta a demissão à empresa.

Recebe umas piadas maldosas e começa a ser tratada como se fosse invisível.

Como está de saída, Maria não se preocupa e concentra as energias em resolver os detalhes do divórcio.

A casa tem que ser vendida rapidamente e o dinheiro dividido para cada um comprar um apartamento.

Fazem o inventário do recheio da casa e escolhem as peças de que gostam mais para irem para os respectivos apartamento. 

O resto será vendido ou oferecido, ainda não sabem. 

Consultam um advogado e está quase tudo definido quando finalmente se reúnem com os filhos e lhe contam o que vai acontecer.

Afonso fica histérico e dá um grande soco a Maria. João intervém de imediato e castiga-o, o que surpreende o filho mais novo, habituado que está a obter tudo o que quer do Pai.

Frederico e Pedro perguntam se não há hipótese de se reconciliarem e quando respondem que não, querem saber o que acontecerá dali para frente.

" Nada, apenas vão ter duas casas. Vão para o mesmo colégio, têm as mesmas actividades, as mesmas rotinas. E, se quiseram dormir hoje em minha casa e se eu estiver livre, podem ficar; amanhã, regressam a casa da Mãe. O que queremos é que vocês estejam felizes." explica o João.

Isso sossega os dois rapazes e Maria suspira de alívio. Podia ter sido pior!

O verdadeiro problema é com as respectivas famílias, mas lá os conseguem convencer que o divórcio é a melhor solução para ambos.

A vida recomeça com novos desafios e novas listas para a Maria que se confessa realizada, se bem que não totalmente feliz (ainda).

Até mesmo para o João a vida fica diferente quando aceita um novo cargo e passa a viajar mais.

E ninguém sabe se não vão encontrar um dia alguém que os compreenda verdadeiramente.


FIM



terça-feira, 27 de novembro de 2018

A LISTA - PARTE V


A Berta escuta-a atentamente e acha que ela deve ir para fora com o João.

" Para conversarem verdadeiramente. Não te preocupes com os miúdos; eu e o Jaime ficamos com eles. Vamos à Serra da Estrela; em vez de 4, vamos 7. Não faz qualquer diferença; o Hotel tem baby sitter, actividades para crianças e por isso,  eu e o Jaime também vamos relaxar." e sorri para a irmã, embora esteja preocupada, pois, confessa ao marido, aquele casamento está nas últimas.

O João aceita a ideia, um pouco relutante é certo, mas a Maria atribui isso ao excesso de trabalho.

Conseguem falar, não estão distraídos com os miúdos, a família ou os telefonemas de trabalho, mas a única coisa em que ambos estão de acordo é que a Maria deve mudar de emprego.

O João acha que pode ajudar, um dos seus clientes está à procura de alguém com formação em Marketing e pode ser uma boa oportunidade para ela crescer mais na área.

A ideia do divórcio fica em cima da mesa... 

Não para já, há muita coisa a discutir, a decidir, principalmente a Maria.

Ainda por cima, o Natal é dentro de umas semanas e não é realmente a altura ideal para se falar em divórcio.

Não era bem isto que Maria esperava do fim do semana, mas tem que admitir que é a única solução.

Talvez sejam mais felizes assim... 

Até mesmo os miúdos que adoraram a ida à Serra da Estrela com os tios e os primos.

" Talvez seja melhor!" diz Berta ao marido nessa noite " Há muita tensão entre eles e o João aproveita tudo para a provocar e ela está com os nervos à flor da pele."

" O João sempre foi brincalhão, mas, às vezes exagera. Em parte, compreendo as queixas dela." concorda o Jaime.

" Não sei como os miúdos vão reagir. Principalmente o Afonso. A Maria acha que o João o mima demais." responde a Berta.

" Sim, aquele miúdo está a ficar pedante e quando o João perceber isso, pode ser tarde demais. Porque o Frederico e o Pedro são garotos simpáticos, interessados, educados, mas o Afonso... se fosse nosso filho, não lhe permitia que se comportasse assim. A Maria vai ter grandes problemas com ele." observa o marido.


CONTINUA




segunda-feira, 26 de novembro de 2018

A LISTA - PARTE IV


" Bolas!" exclama o João quando fecham a porta " Quase que os expulsavas com essa cara de enterro! O que se passa contigo?"

" O que se passa comigo??? Também te posso perguntar a mesma coisa! Que ideia foi essa de falares na minha lista e os deixares gozarem-me?" repete a Maria.

" Lá estás tu a fazer uma tempestade num copo de água. Foi uma brincadeira; parece que não sabes o que é uma brincadeira.!" reclama o marido.

" Claro que sei o que é uma brincadeira, mas podemos brincar com outras coisas, não achas?" responde a Maria.

" O QUE SE PASSA CONTIGO? Estás sempre a reclamar. Por causa do teu emprego, o Frederico quer isto, o Pedro aquilo!" refila o João.

" Talvez se me escutasses, não teria que reclamar. Mas a única pessoa a quem escutas verdadeiramente é o Afonso. Se ele te pedisse a Lua, desconfio bem que lha davas!" diz a Maria, indignada.

" Não, não estamos a discutir o que se passa com as crianças. Estamos a falar sobre o que tu queres! " interrompe o João. " Começo a estar farto das tuas atitudes; estás sempre aborrecida, tudo te incomoda e fazes figura de parva em simples jantares como este."

" Fiz figura de parva por tua causa! Porque é que não me deixas em paz? " reage a Maria e sabe que disse um grande disparate.

O João olha-a por um minuto e observa:

" Sim, eu deixo-te em paz. Estou cansado; vou dormir. Tu fazes o que quiseres; chora a noite inteira se te apetecer. Não quero saber!" e deixa-a sozinha na cozinha.

Maria suspira, deixa a Máquina a lavar e espreita os filhos.

Antes de se deitar, manda um SMS à irmã:

" Pequeno almoço amanhã? Tenho muito que falar."

CONTINUA


domingo, 25 de novembro de 2018

A LISTA - PARTE III


" Algum problema com o João, com os miúdos? " insiste a Berta " Ou com o teu emprego?"

" Sabes como é, já me habituei a trabalhar com pessoas malucas. Ainda vão arruinar a empresa, mas o que posso eu fazer? " diz Maria.

" Procurar uma alternativa, principalmente se está a interferir na tua vida pessoal." observa Berta " E a relação com o João? "

" Os problemas habituais. O Frederico quer praticar voleibol, mas o João acha que ele deve ir para o ténis. O Pedro quer aprender a tocar guitarra e o João diz que é um absurdo. Em contrapartida, não nega nada ao Afonso e os outros dois ficam furiosos." conta a Maria. " Temos discutido exactamente por isso."

" E tens toda a razão! "  concorda a irmã " Vou falar com o Jaime, ele pratica voleibol num clube perto de casa e o Frederico pode ir com ele. Quanto ao Pedro, sou madrinha dele e pagar-lhe as lições de guitarra é uma óptima ideia.Isto está resolvido, mas agora vamos falar do que se passa contigo, do porquê dessa tristeza toda."

Nesse momento, o João abre a porta da cozinha e pergunta:

" Então, não voltam para a mesa? O que é que se passa? Andem lá, ainda temos que falar sobre o 2º desejo da Maria!" acrescenta, trocista.

" Oh, João, esquece isso! " aconselha Berta ao passar por ele.

João segura o braço da mulher e murmura:

" Vê lá se pões uma cara mais alegre. Parece que estás num enterro! "

Maria sacode-lhe a mão delicadamente e volta para a sala.

A conversa está animada, Gonçalo conta anedotas e Margarida já bebeu um pouco mais do que devia.

Maria sorri apenas; não tem vontade nenhuma de conversar e suspira de alivio quando se vão embora.

CONTINUA

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

A LISTA - PARTE II


Devo ter falado durante o sono e o João ouviu, pois durante um jantar de amigos, o Gonçalo pergunta-me, em tom de confidência, mas suficientemente alto para todos ouvirem:

" Então, queres ir para Gstaad? Para gastares o que não tens?" e a mesa explode em gargalhadas.

Fulmino o João com o olhar, mas o meu marido encolhe os ombros e também se ri.

" Não me queres levar contigo? Mas tu pagas!" comenta a Beatriz.

" Também quero ir! Só para ver o desfile de estrelas de Hollywood por lá!" diz a Margarida.

" Mas tu não gostas de neve; o que vais fazer para lá? " questiona a minha irmã sensatamente.

Respiro fundo e explico:

" O objectivo é exactamente esse: perguntarem-me porquê. Quero fazer qualquer coisa diferente, desafiar-me!"

" E fazeres uma coisa que detestas é um desafio ?" observa o meu marido.

" Ou estás simplesmente aborrecida e queres atenção!"  brinca o Gonçalo.

A minha irmã abana a cabeça e a Beatriz ri novamente.

Não digo mais nada e continuamos a comer. 

O Gonçalo e o João discutem um novo projecto e a Beatriz e a Margarida falam sobre um desfile de moda.

Eu e a minha irmã não participamos em qualquer das conversas e quando me levanto para ir à cozinha, ela segue-me.

" O que se passa contigo, Maria? "

Eu desato a chorar e confesso:

" Não sei!"


CONTINUA

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

A LISTA



Sabes, adoro fazer listas.

Por isso, este ano, juntamente com o cartão de Natal, vou enviar a lista dos presentes que quero receber.

Pelo gozo... os comentários divertidos e a surpresa se algum dos meus amigos a seguir à risca.

Vou começar por pedir uma viagem à Gstaad ou a Aspen... 

Um contrasenso, pois não gosto de esquiar... 

Talvez a pergunta que façam seja: porque não ir a Madrid ou a Londres, já que adoro Museus, Teatros?

É o que quero que descubram: porque é que estou a pedir uma viagem a um local que não me diz nada?

Por ser diferente? Para me desafiar? Para contrariar a minha rotina?

E, passamos ao nº 2.

Um workshop de cozinha básica... outra coisa que os vai fazer pensar.

Detesto tudo o que tenha a ver com a cozinha. 

Cortar vegetais, fazer a sopa, preparar a carne ou o peixe ou mesmo um bolo...

Não sou o que vulgarmente se chama " um garfo", um "gourmet"...

A comida agora é aborrecida e até gostava de comer...

Mas depois... tudo mudou...


CONTINUA

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

AS DIFICULDADES DE BERNARDES - O FIM


Brites está satisfeito quando relata a conversa com o porteiro.

Os escritórios funcionaram ali, mas o armazém ficava na zona baixa da cidade.

Conhecia relativamente bem os funcionários, pessoas discretas e bem-educadas e foi realmente uma pena terem fechado de um dia para o outro.

Numa semana, esvaziaram os escritórios e entregaram as chaves.

" Não sei porquê... " explica Brites " Alguma coisa me dizia que devia ver o espaço e cheirou-me a lixívia. Pode ser um tiro no escuro, mas chamei a equipa forense. Ela pode ter morrido ali."

Lucas não teve tanta sorte. O advogado mudou de cidade e não deixou endereço.

" E o armazém? Onde é? " pergunta Bernardes.

O armazém fica numa zona um pouco isolada, o portão está fechado com um cadeado que forçam.

Cheira a pó, a velho. Acendem lanternas e há caixotes empilhados, mobília, computadores encostados a um canto.

Bernardes faz sinal a Lucas e avança para a parte de trás.

Há uma porta fechada que Lucas força.  

Tapam a boca, o cheiro é nauseabundo e os dois têm a certeza de que encontraram o local dos crimes e quem sabe, o corpo de uma outra vítima.

Chamam a equipa forense para analisar a cena e Soeiro diz que os caixotes estão cheios de material de contrafação.

Brites acha que limparam os discos dos computadores, mas está convencido de é possível recuperar alguma coisa.

Quanto ao Loureiro, está a analisar novamente os relatórios do médico legista relativos aos outros dois casos e a interrogar as testemunhas.

O caso está longe de estar resolvido, mas Bernardes está bastante satisfeito.

Todos estão a colaborar, estão a confiar nele e vão ser uma bela equipa.

Como ele, o Torcato e o Tavares fizerem com o Inspector Leandro.

Mentalmente, agradece a este tudo o que aprendeu.

FIM

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

AS DIFICULDADES DE BERNARDES - PARTE V


" O facto de ter pago à irmã e a outra pessoa uma determinada quantia para retirarem a queixa, não quer dizer que ele não tenha assassinado a mulher." observa Brites.

" Certo, mas pode ter pago a alguém. Uma das hipóteses é lavagem de dinheiro; as empresas dele são perfeitas demais." insiste Loureiro.

Bernardes fica pensativo e Soeiro interrompe-o:

" As outras vítimas trabalhavam numa empresa chamada " Corcel". "Desapareceram" depois de um turno extra. Sei que vi isso nestes processos." e abre-os.

Lucas começa a folhear o outro processo e encontra o nome da empresa.

" Então, vamos investigar essa empresa e saber se esta nova vítima também trabalhava lá. Quero saber tudo: quem são os sócios, contas bancárias, impostos, etc." ordena Bernardes, satisfeito com o rumo da investigação.

Contudo, o relatório do médico legista arrasa uma das hipóteses: o ADN recolhido dos ferimentos da vítima não é do marido.

Mas Bernardes está convencido de que a solução está na empresa "Corcel" que cessou a actividade há uns meses.

" Isto está a ficar muito estranho!" confessa Soeiro.

" Mais uma razão para investigarmos a fundo a empresa." diz o Bernardes.

Brites diz que vai falar com o porteiro do edifício onde funcionou a Corcel.

Lucas descobre o nome do advogado que prestava serviços de consultadoria na empresa e apressa-se a seguir a pista.

Bernardes acaba por ficar sozinho na divisão e suspira, satisfeito.

Conseguiu comunicar com a equipa e o resultado está a ser óptimo.

Será que vão resolver o caso?

CONTINUA

domingo, 18 de novembro de 2018

AS DIFICULDADES DE BERNARDES - PARTE IV


No dia seguinte, reúnem-se para discutir o assunto pendente.

Segundo Brites, o marido tratou as queixas de violência doméstica como um assunto secundário (afinal, até foram retiradas) e afirmou-se como um homem "mudado, responsável".

Bernardes e Lucas também não tiveram muita sorte com a irmã. Esta mostrou-se distante, repetiu várias vezes que tinha interpretado mal a situação. Decidiram não insistir mais no assunto e retiraram-se.

Soeiro encontrou dois outros casos com pormenores semelhantes e vai falar ainda de manhã com os detectives responsáveis.

" A questão é: será que mudou mesmo? " diz Bernardes.

" Os extractos bancários são perfeitos demais!" comenta Lucas e Soeiro concorda.

" Droga, lavagem de dinheiro? " sugere Brites e Bernardes acredita que é uma hipótese a considerar.

" Mas porquê matá-la? " questiona Lucas " Há ferimentos defensivos, por isso, ela tentou defender-se. E ela estava em boa forma física."

" Ele pode ter começado a bater-lhe, ela defendeu-se e ele matou-a!" observa Soeiro.

" Ou pode ter sido uma outra pessoa, alguém que ela conhecia bem." interrompe Loureiro, o agente de ligação, calado até aí.

Surpreendidos, todos se voltaram para ele.

" O processo relativo à outra queixa está selado, mas encontrei um detective que se lembra do caso. Não há certezas, mas consta que a mulher recebeu uma determinada maquia para retirar a queixa. Por isso, ele também pode ter oferecido dinheiro à irmã." explica o agente.

" Por isso, a irmã não quer falar." concluí Lucas.

" Sim, mas porque acha que foi uma outra pessoa a matá-la?" insiste Bernardes.


CONTINUA

sábado, 17 de novembro de 2018

AS DIFICULDADES DE BERNARDES - PARTE III


Os três homens olham uns para os outros...

O Inspector não deixa de ter razão.... 

Não lhe deram o benefício da dúvida, pois convenceram-se de que Lucas assumiria o comando e ressentiram a nomeação daquele homem que não teria mais do que 40 e tal anos.

Soeiro interrompe o silêncio, cumprimentando-os com um:

" Olá, mas o que se passa? Morreu alguém? "

" A partir de hoje, quem chegar atrasado, paga uma multa." decide Bernardes " Hoje, é a vez do Soeiro que vai pesquisar todos os casos em que a vítima apareceu asfixiada num local deserto.  Mulher, entre 25, 30 anos e com sinais de violação. A ver se encontramos uma ligação entre esses casos e o presente."

Brites respira fundo e pergunta:

" Gostava de interrogar novamente o marido. Estive a pesquisar e encontrei arquivadas algumas queixas contra ele por violência doméstica."

" Dela? " observa Bernardes.

" Não, ao que parece, uma das queixas foi feita pela irmã dele.  A outra, não consegui saber o nome. Pedi mais dados; aguardo resposta!" explica o Detective Brites.

" Também pedi os extractos bancários deles. Pode ser um motivo!" acrescenta o Sargento Lucas.

" Ok, então, o Brites vai falar outra vez com o marido para saber o que ele diz sobre essas queixas e eu e o Lucas vamos falar com a irmã dele." diz Bernardes.

" E eu? " a voz do Agente de Ligação parece a de uma criança birrenta.

" O Senhor tenta descobrir quem foi a outra pessoa que apresentou queixa contra o marido." e, com um sorriso, Bernardes volta a entrar no gabinete.


CONTINUA


quinta-feira, 15 de novembro de 2018

AS DIFICULDADES DE BERNARDES - PARTE II



Leandro deixava-o expor as ideias e, concordasse ou não, explicava-lhe as razões.

Bernardes tentou fazer a mesma coisa com o Sargento Lucas, mas este ficou calado, à espera de instruções.

"Fui promovido cedo demais!" murmura baixinho, mas cala de imediato esse pensamento.

Se foi promovido, foi porque o mereceu, porque mostrou iniciativa, interesse, capacidade.

Por isso, esta brigada tem que entrar nos " eixos" e vai ser hoje, resolve. 

Levanta-se e abre a porta do gabinete.

Os outros sobressaltam-se e o Sargento Lucas apressa-se a dizer:

" Bom dia, Inspector, não sabíamos que já cá estava !"

" E, no entanto o meu gabinete fica em frente da porta!" comenta Bernardes, sarcástico.

O Sargento fica sem saber o que dizer. Talvez deva desculpar-se, mas explicar o quê?

Nesse momento, entra, ofegante  o Agente de Ligação.

" Bolas, pensei que não chegava cá hoje..." e as palavras morrem-lhe nos lábios ao ver o Inspector no meio da sala.

" Creio que já tínhamos falado nisto. Temos um dever a cumprir e o 1º é, sem dúvida, entrar a horas! Meus Senhores, eu não sei o que se passa; não os posso ajudar se não me disseram o que querem. Por isso, vamos pôr as cartas na mesa? " continua Bernardes.

" Impressão sua, Sr Inspector!" reage o Sargento Lucas " Cumprimos sempre as instruções que dá."

" Mas não é só isso que eu quero. Também quero ouvir as vossas ideias, as vossas opiniões. Caso contrário, como é que eu sei que são os homens indicados para resolver o assunto? Que estão atentos aos pormenores? Que escutam verdadeiramente os que as testemunhas dizem?" protesta o Inspector.

CONTINUA


AS DIFICULDADAS DE BERNARDES


Bernardes, agora Inspector, está desanimado.

Há uma certa hostilidade na brigada e ele não sabe muito bem como contornar a situação.

Talvez seja novo demais e os mais velhos achem que deviam ter sido um deles a ser promovido.

Mas ele esforçou-se bastante para atingir aquele posto e a culpa não é dele se os outros não o fizeram.

Que pena o Tavares e o Torcato terem sido transferidos para outra brigada! 

Eram uma boa equipa, se bem que a verdadeira estrela fosse o Inspector Leandro.

Ai, Leandro, que pena não estares aqui para me aconselhares, pensa Bernardes.

A porta abre-se e o novo Inspector levanta a cabeça para ver quem é.

É o Detective Brites, calmo, inteligente, mas muito pouco comunicativo. 

Atrás dele, vem o Sargento Lucas, eficiente e distante. 

Falta o Detective Soeiro e o agente de ligação Pontes.

Estes chegam quase sempre atrasados e às vezes, Bernardes pensa que eles fazem de propósito.

Já insinuou que há horários a cumprir, mas eles limitaram-se a olhá-lo como se ele fosse uma espécie rara.

Se fosse o Leandro, isto teria sido resolvido num instante, mas Bernardes sabia bem que não era como ele.

Tinha ideias próprias, formas de trabalhar diferentes, mas estava disposto a escutar os outros.

Só que ninguém falava com ele.... cumpriam as ordens à letra, mas não davam qualquer opinião, sugestão.


CONTINUA

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

ALICE - O FIM



Relembrei cada conversa que tivemos, cada email que trocamos.

Tinha que encontrar uma pista, alguma coisa que explicasse a atitude do Carlos.

Dinheiro? e quanto mais pensava no assunto, mais me convencia que isso podia ser a chave.

O Carlos não falava abertamente no assunto, aliás dava a impressão de que estava bem na vida, mas, de vez em quando, dizia que estava um pouco " apertado", pois não tinha recebido a " transferência".

Mostrei-me solidária, mas não me ofereci para lhe emprestar dinheiro.

Talvez tivesse compreendido que não iria ser fácil enganar-me e fugir com o meu dinheiro.

Ou tinha encontrado outra mulher aqui na Polónia... 

Ou tinha uma mulher indiana à espera dele e veio à Europa à procura de fundos.

 Ups!" pensei " Isto parece uma novela, um filme!" mas encaixava no puzzle.

Por isso, quais eram as minhas opções?

Ficar aqui e tentar encontrar um emprego? Ou voltar para casa, desfazer-me em desculpas para o Rafael me aceitar de volta?

Ou dar asas ao meu espírito livre e viajar ao sabor do Vento? 

Viver de empregos temporários? Ir para um País exótico e abrir uma loja, uma empresa?

Ou tentar encontrar o Carlos na Índia?

Não, vou viajar ao sabor do Vento...

1ª Etapa - Bélgica.  Trabalhei com o mercado belga, conhecia pessoas, talvez me ajudassem.

Depois.... o Vento me diria quando devia partir.....


FIM



segunda-feira, 12 de novembro de 2018

ALICE - PARTE V


A viagem decorreu sem problemas e após reclamar as malas, procurei o Carlos no meio daquela multidão.

Nada. Tentei ligar-lhe para o telemóvel, mas não deu qualquer sinal.

Liguei de uma cabine, mas recebi uma mensagem em polaco que me fez desistir de imediato.

Estava a escurecer, estava cansada e com fome e por isso, procurei um Hotel ali perto.

No dia seguinte, escrevi a morada do apartamento do amigo num papel que mostrei ao motorista do táxi.

Cerca de meia hora depois, estava a bater à porta do apartamento num edifício sombrio e mal cuidado.

A porta abriu-se com cuidado e um homem alto e desajeitado encarou-me mal humorado.

Disse qualquer coisa que não entendi e em inglês, perguntei-lhe pelo Carlos.

" Carlo?" repetiu e eu acenei com a cabeça: " Yes, where is he? "

" Not here. Left!" e sorriu. " Not yesterday, last week!"

" Last week?!" gritei. 

Mas como, se no último mail ele dizia que chegaria a Varsóvia no dia 22?

O gigante riu-se com o meu ar de espanto e fechou a porta, deixando-me ali no átrio, completamente vazia.

Desci as escadas devagar, deambulei pelas ruas a tentar perceber o que aconteceu.

" Fácil perceber o que aconteceu!" soou a voz da minha Mãe " Bem te disse que ele era um vagabundo!"

Consegui descobrir um autocarro que me levou até ao Aeroporto e fechei-me no quarto de hotel.

E agora?

CONTINUA


domingo, 11 de novembro de 2018

ALICE - PARTE IV


O parto foi complicado e fiquei muito fraca.

A minha Mãe queria ficar uns dias para me ajudar, mas a Rafael não concordou, que tínhamos que nos organizar e não podíamos depender dos outros.

O primeiro mês foi um desastre, com o bebé sempre a chorar, o Rafael a querer impor regras que ninguém entendia.

No segundo mês, tive uma crise de choro tão grande que o Rafael compreendeu finalmente que o melhor seria eu ir para casa dos meus Pais.

Rodeado de todo o carinho e compreensão, comecei a melhorar e aproveitando o tempo que a minha Mãe passava com o bebé, fiz as minhas pesquisas no Google para estabelecer o plano de "fuga".

Talvez fuga não fosse a palavra mais adequada, mas não encontrei outra melhor.

Carlos mandou-me um mail a dizer que partia no dia 22 para Varsóvia e eu marquei a minha viagem para o dia 01.

O encontro seria no Aeroporto, só tinha que confirmar o nº e a hora de chegada do voo.

Foi uma benção o meu Pai ter insistido no jantar e a minha Mãe ter concordado.

Aproveitei para fazer as malas, escondi-as no armário da entrada e esperei.

A Raquel chegou cheia de novidades, estivemos a conversar um bocadinho e quando o bebé chorou, subimos para o acalmar e eu disse que já não descia.

A minha irmã não insistiu, também estava cansada e queria descansar.

Quando tive a certeza de que tinha adormecido, desci as escadas descalça, tirei as malas do armário e saí.

O táxi estava estacionado em frente ao portão como pedi e deixou-me num hotel perto do Aeroporto.

No dia seguinte, só tive que atravessar a rua e embarcar para a primeira etapa da minha aventura.


CONTINUA

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

ALICE - PARTE III


A ideia era excitante, mas eu tinha muitas questões a resolver antes de me pronunciar.

Estava grávida do Rafael e não podia fugir antes do nascimento...

Durante aqueles meses em que me transformei lentamente num pote de mel, o Carlos respondia a todas as minhas perguntas.

Tinha já um plano elaborado e só esperava que eu dissesse sim.

O que me decidiu mesmo foi o facto do Rafael achar que eu devia considerar a hipótese de não trabalhar durante um ano ou dois após o nascimento do bebé.

Foi uma discussão violenta e durante uns dias não falamos.

Decidi abrir uma conta num outro banco e transferir parte do meu salário para lá.

" Ele não vai achar estranho? " perguntou o Carlos.

" Quero lá saber!" respondi " Diz-me uma coisa, o que é que vamos fazer lá na Índia? "

" Tenho lá amigos, uma pequena loja e tu também podes arranjar qualquer coisa. Não te preocupes, vai correr tudo bem!" assegurou-me e dei por mim a pensar no que a minha Mãe diria se ouvisse.

" Ele é um vagabundo. Não gosta de ter raízes!" mas eu nunca concordei com ela.

Qual é problema em se viver intensamente? Teria mais significado a vida do Rafael com tantas regras?

Deixar de trabalhar só porque ia ter um bebé? 

Absurdo! Seria regressar aos anos cinquenta do século passado.

Talvez o Rafael fosse mais feliz nessa altura, quem sabe?

Na semana anterior ao nascimento, Carlos partiu para Amesterdão.  

Tinha lá um amigo que estava a montar uma oficina, precisava de ajuda e pagava bem, acrescentou com um sorriso.

Eu teria o bebé, esperava uns três ou quatro meses e iria ter com ele à Polónia.

CONTINUA

DESAFIO AOS MEUS COMENTADORES:

As hipóteses são as seguintes:

  1. Carlos está à espera dela na Polónia e partem juntos para a Índia
  2. Carlos desapareceu e a Alice refaz a vida na Polónia
  3. Carlos desapareceu e a Alice segue sozinha para a Índia
  4. Alice decide não ir para a Índia e vai para o Hawai
  5. Regressa a casa e divorcia-se do Rafael


Só podem escolher UMA.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

ALICE - PARTE II


Soltou uma gargalhada e repetiu:

" TU, UM ESPÍRITO LIVRE, CASADA???" e eu fiquei perturbada com o comentário.

Pouca atenção dei ao Rafael que tentou explicar-me o problema que surgiu com o novo projecto, pois lembrei-me da conversa que a minha Mãe teve comigo antes de casar.

Foi exactamente isso que ela perguntou, se tinha a certeza de que estava pronta para assumir as responsabilidades, os sacrifícios.

Ela não gostava do Carlos, mas talvez soubesse que o Rafael não era o homem ideal para mim.

A verdade é que eu não gostava dos amigos deles e ele também não estava interessado nos meus.

Por isso, uma vez por mês, cada um saia com o seu grupo de amigos para desanuviar.

Como o Carlos descobriu isso, nunca perguntei, mas estava no bar onde eu e as minhas amigas resolvemos ir naquela noite.

A partir daí, choveram telefonemas, houve almoços no centro e o encontro escaldante no apartamento dele tinha que acontecer.

Nessa semana, descobri que estava grávida e a primeira pessoa a quem disse foi ao Carlos.

Ele ficou pensativo e perguntou-me:

" O que vais fazer? "

" Ainda não sei, estou confusa. Abortar? " mas rejeitei a ideia de imediato. " Não, não posso negar isso ao Rafael, ele fala muito em ter filhos."

" Então, é melhor tê-lo." aconselhou o Carlos " E, depois, o que vais fazer? " insistiu.

" Não sei, não sei." 

" Estou a considerar a hipótese de voltar à Índia e gostava que viesses comigo. O que achas disso? " e sorriu.

CONTINUA






quarta-feira, 7 de novembro de 2018

ALICE


Fugi... E depois?

Talvez tenha sido precipitada, leviana... 

Talvez tenha maltratado os meus pais, os meus irmãos e o Rafael.

E por ter abandonado o bebé... sou uma desnaturada...

O mal de tudo?

Ter dito sim.... hesitei bastante, mas o Rafael insistia em casar e como o Carlos nunca mais se decidia, acabei por aceitar.

Até podíamos ter sido felizes se o Carlos não tivesse voltado da sua viagem espiritual.

Encontrei-o no centro comercial a tomar café na minha boutique favorita.

" Olha quem é!" disse aquele homem barbudo, de jeans desbotadas e T-Shirt branca. " Não te lembras de mim?"

Fiquei parada no meio da boutique, consciente dos olhares dos outros clientes e respondi:

" Não, desculpe, mas não me lembro."

" Oh, Alice, sou o Carlos. Não te lembras mesmo de mim? " repetiu.

Fez-se luz no espírito e sorri.

" Oh, Carlos, mas não estavas no Nepal ou na Tailândia? "

" Na Índia, regressei há uns meses. E tu, o que fazes aqui? " e convidou a sentar-me na mesa dele.

Conversamos durante horas nesse dia. 

Telefonei para a empresa, dei uma desculpa esfarrapada e só me lembrei do Rafael quando olhei para o relógio.

" Oh, meu Deus! Tenho que ir para casa, o Rafael já deve ter chegado!" exclamei.

" O quê? Casaste?" e Carlos prendeu-me a mão.


CONTINUA