quinta-feira, 21 de outubro de 2021

O DOENTE FIM

 

A Leonor parece gostar da voz do irmão, cala-se e este passa-a cuidadosamente para os braços da Mãe. 

A Aída deixa a sala, dou-lhe de comer, adormeço-a e tento dormir também, murmura.

O Bernardo ainda fica a falar com o Pai, mas estão os dois tão exaustos que o Bernardo despede-se uns minutos depois.

Nos dias seguintes, o Bernardo estabelece uma rotina, trabalha umas horas durante a manhã, depois de almoço, descansa e ao fim da tarde, vai dar uma volta ao quarteirão.

Evita centros comerciais, estar no meio de muita gente faz-lhe confusão, procura lojas, restaurantes de bairro.

Quando o Gustavo lhe telefona para combinarem o almoço no domingo seguinte, o Bernardo sente-se mais " humano".

Nem sei bem o que é que isso quer dizer, confessa ao amigo, mas sinto-me mais relaxado, mais alerta, com mais interesse no Mundo!

O Gustavo também se ri, é bom sinal, estás a recuperar, observa, e a Princesa?

A minha Mãe diz que é uma safada, conta o Bernardo, mas estamos todos babados e a pensar como a nossa vida era vazia sem ela!

O amigo volta a vir, o almoço vai ser em casa dos Pais dele, à uma da tarde, frisa e desliga.

O Bernardo telefona aos Pais, a Leonor foi um pequeno diabo esta noite, explica o Pai exausto e não põe qualquer objecção quando o filho lhe diz que vai almoçar em casa do amigo.

Claro, claro, é uma boa ideia, diverte-te, responde, e não te preocupes connosco! Os teus tios vêm cá passar o dia, não vamos estar sozinhos.

Nessa noite, o Bernardo passa em revista a roupa que tem, está um pouco "demodé" e por isso, no dia seguinte, vai fazer umas compras.

Corta o cabelo, sente-se um homem diferente quando toca à campainha naquele domingo.

Está ansioso por os rever, sempre se sentiu um membro da família, será que isso continua presente?

É o que está a pensar quando abrem a porta e o Bernardo fica de boca aberta a olhar para a jovem elegante que lhe sorri trocista.

Não te lembras de mim? e o Bernardo respira fundo, deve ser a Clarinha, a miúda que o seguia para toda a parte e que deve ter agora vinte anos.

Bolas, como está velho!


FIM


quarta-feira, 20 de outubro de 2021

O DOENTE PARTE V

 

O Gustavo despede-se pouco depois, obrigações familiares, diz, mas telefono-te para combinarmos o almoço, ou em minha casa ou na dos meus Pais.

O Bernardo suspira, volta a sentar-se, liga o computador, vê os emails, mas não há nada da Cristina.

Volta a suspirar, tenta não pensar na última conversa que tiveram e prepara qualquer coisa para o jantar.

O Pai telefona-lhe, a Mãe e a irmã saem no dia seguinte, está a arrumar a casa, quero que esteja tudo perfeito! explica e o filho sorri.

Amanhã, vou à clínica, avisa, passo lá por casa ao fim da tarde, não queres que vá contigo? pergunta o Pai, mas o Bernardo recusa, não, vai ter com a Mãe, ela precisa da tua companhia.

No dia seguinte, o médico mostra optimista, acha que está a recuperar bem, mas vamos esperar os resultados dos exames, aconselha, até lá, descanso e mais descanso, nada de preocupações com o trabalho!

O Bernardo ignora o conselho, tem já uma reunião com o Director do Departamento, este quer discutir os projectos em curso em Cabo Verde.

O Bernardo promete enviar-lhe as conclusões finais, até propõe continuar a trabalhar, não full time, o médico quer que esteja em repouso, explica, mas posso analisar novos projectos a partir de casa!

Discutem os detalhes, o Bernardo promete começar dali a dois dias e segue para casa dos Pais.

A casa está cheia de gente, são os vizinhos que apareceram para conhecer o novo membro da família e trouxeram comida.

A mesa está cheia de coisas deliciosas, o Bernardo sente finalmente fome, é bom sinal, pensa e prova um rissol, até fecha os olhos tão bem lhe sabe.

As pessoas despedem-se, tens que descansar, se precisares de alguma coisa, bate à porta, telefona, dizem e a Aída respira de alívio.

Estou muito cansada, confessa, acho que me vou deitar, não sem antes comeres alguma coisa, interrompe o marido, aliás, vamos todos comer qualquer coisa e agora! sugere, a Princesa Leonor pode acordar e reclamar toda a nossa atenção!

A Aída concorda, não está com cabeça para decidir nada, senta-se à mesa enquanto o marido e o filho organizam o jantar.

Estão a meio do prato principal quando a Princesa Leonor anuncia que está acordada e que tem fome.

Ups! Que pulmões! observa o irmão e levanta-se, desaperta o cinto da cadeirinha.

A Leonor está agitada, parece que está a franzir o sobrolho, mas o que é isso, menina? Calma, que ninguém se esqueceu de si! ralha o irmão.

CONTINUA



terça-feira, 19 de outubro de 2021

O DOENTE PARTE IV

 

O Bernardo suspira, quer esquecer tudo, descansar, pensar no próximo passo.

O telemóvel toca, é o Gustavo, oh, pá, estás cá e não dizes nada? protesta e o Bernardo explica-lhe o que se tem passado.

Combinam encontrar-se no dia seguinte, o Gustavo passa lá por casa antes de jantar, não posso ficar muito tempo, tenho que ajudar a Luísa com o miúdo, desculpa-se, mas fazes-me o resumo.

O Pai bate à porta, está nervoso, ansioso, quer conhecer a herdeira e o Bernardo ri-se.

A Leonor está a dormir, a Aída está feliz e os três conversam baixinho.

Estás bem, filho? pergunta a Aída e o filho acena que sim, mas não convence o Pai.

É melhor irmos embora, estás a ficar cansado, observa, a tua Mãe também tem que descansar, voltamos amanhã.

Na rua, o Bernardo fica parado uns minutos, custa-lhe a respirar, vamos levar qualquer coisa para comer, insiste o Pai, e depois vais dormir. Eu vou buscar uns coisas a casa e fico lá a dormir.

Não preciso de babysitter, brinca o filho, mas o Pai ignora-o, está muito preocupado, não será melhor marcar uma consulta urgente na Unidade de Saúde? Ter outra opinião? continua, mas o Bernardo abana a cabeça.

Tem seguro da empresa, já tem consulta e uma série de exames marcados numa clínica, não te preocupes, responde, isto está controlado.

O Pai fica calado, decide ir com ele à consulta, quer falar com o médico, o Bernardo fica um pouco contrariado, oh, Pai, tenho quase 30 anos! Sou uma pessoa responsável! mas o Pai consegue ser tão teimoso como ele.

O Gustavo ri-se quando lhe conta, está mais gordo, pensa o Bernardo, é o peso das responsabilidades, comenta o amigo, mas agora que tenho tudo mais organizado, vou voltar ao ginásio! Eu e a Luísa! acrescenta, as avós ofereceram-se para ficar com o rapaz! Por isso, vamos aproveitar...até para uma escapadela de vez em quando!

Como está a Matilde? E a Clarinha? e o Bernardo sorri ao lembrar-se da miúda que o seguia como um cachorrinho.

O Gustavo hesita, falar da Matilde é sempre um pouco complicado, mas o Bernardo conhece-se desde miúda, tem o direito de saber que a irmã está em tratamento e está a reagir bem.

A Clarinha continua a ser aquele furacão que conheces, diz, tens que lhe telefonar ou ir lá a casa, por vontade dela, já te tinha telefonado, a Mãe é que a convenceu a esperar! Estás doente, ainda te estás a instalar, tiveste uma irmã, etc...

O Bernardo volta a rir, hoje sente-se com mais forças, está mais relaxado.

CONTINUA



segunda-feira, 18 de outubro de 2021

O DOENTE PARTE III

 

A Leonor chega por volta das duas da tarde, uma verdadeira guerreira, comenta a enfermeira, já está a impor a vontade dela no bercário.

Os dois homens respiram de alívio, o Pai está verdadeiramente emocionado, até tem lágrimas nos olhos.

Espero que tenhas tido a mesma reacção quando eu nasci, brinca o Bernardo e em resposta, o Pai abraça-o fortemente.

Mãe e filha têm que descansar, voltem ao fim da tarde, aconselha a enfermeira e os dois saem para a rua.

O Bernardo está muito cansado, acha melhor voltar para casa, como qualquer coisa e faço uma sesta, diz.

Vou contigo, decide o Pai, também preciso de descansar. Aproveito para telefonar aos nossos amigos e anunciar a chegada da Princesa Leonor, acrescenta.

O Bernardo volta a sorrir, preparam umas tostas mistas, o Pai bebe uma cerveja, o filho prefere um Ice Tea.

O Pai oferece-se para lavar a loiça, tenho que praticar, a tua Mãe não vai ter muito tempo livre, explica e o Bernardo estende-se na cama.

Não adormece de imediato, ouve a voz do Pai na sala, de vez em quando há uma risada.

Ainda bem que a Leonor chegou, vai ocupar o tempo dos Pais, talvez eles não se preocupem tanto com ele.

Já não corre perigo de vida, tem apenas que descansar, ganhar forças e depois retomar a vida normal, talvez até regressar a Cabo Verde.

O Bernardo não sabe se quer regressar, foi um desafio que abraçou por completo, acha que atingiu os objectivos da empresa e adorou a vida em Cabo Verde.

O único senão foi a relação com a Cristina, ela está totalmente empenhada no trabalho, não tem tempo a perder e prorrogou o contrato com a ONG.

Talvez vá para o Congo, para o Haiti, não sei, comenta, vou para onde for preciso.

A vida inteira? reclama o Bernardo, compreendo o teu ponto de vista, mas também podes fazer esse tipo de trabalho no nosso País.

Mas a Cristina abana a cabeça, faço mais falta aqui, porque é que não compreendes isso? Estou a fazer a diferença.

CONTINUA

sábado, 16 de outubro de 2021

O DOENTE PARTE II

 

Talvez não devesse ter visitado a Cristina no acampamento de refugidos, já se sentia febril, mas ela precisava tanto de ajuda...

Não sabe bem como definir como foi a experiência, mudou a perspectiva do problema e prometeu voltar.

Mas não agora... tem que recuperar e o médico não sabe se não ficará algum problema.

Na sala, os Pais continuam a falar, estão preocupados, não sabem como agir, o Bernardo é um homem com poder de decisão.

O que é que eu posso fazer? repete a Aída, estar presente, é tudo o que podemos fazer, aconselha o Pai.

O jantar é um pouco tenso, o Bernardo tem pouco apetite e recusa ficar lá em casa a dormir.

O Pai acompanha-o, a tua Mãe encheu o frigorifico, diz, também tens aqui várias ementas e nºs de take away, mas ela espera que vás lá jantar todos os dias.

Vou ficar bem, Pai, só preciso de descansar, interrompe o filho, amanhã falamos? Melhor não deixar a Mãe sozinha...

Quando o Pai bate a porta, o Bernardo senta-se na cama, está exausto, mas não consegue adormecer.

O sono vence-o por volta das três da manhã e acorda sobressaltado por volta das seis, sem saber bem onde está.

Lembra-se que regressou ao País, está de licença e por isso, deixa-se ficar na cama.

O SMS entra pouco depois, será da Cristina? rejeita de imediato a ideia, a amiga não tem tempo a perder.

É do Pai, a dizer que estão no Hospital, a irmã deve nascer hoje.

O Bernardo sorri, que coisa linda! Será um anjo ou uma peste? Que interessa? Vai enchê-la de mimo!

Talvez seja melhor ir para o Hospital fazer companhia ao Pai...

CONTINUA


quinta-feira, 14 de outubro de 2021

O DOENTE

 

O Bernardo está doente, os médicos aconselham o regresso à Pátria.

A empresa trata de tudo e o Bernardo suspira quando se vê sentado no avião.

A experiência foi positiva, mas as últimas semanas foram confusas por causa da febre alta.

Os Pais estão preocupados, querem que ele fique lá em casa, mas ele não acha que seja uma boa ideia.

A Mãe está na recta final da gravidez, vai ser uma grande confusão, eu doente e um bebé, explica ao Pai, vê se consegues alugar um estúdio aí perto, vigiam-me, mas todos temos o nosso espaço.

O Pai continua a achar que não é uma boa ideia, mas faz o que o filho lhe pede e no aeroporto, entrega-lhe a chave do estúdio.

A tua Mãe ficou em casa, sente-se gorda demais, diz o Pai, mas insiste em que tu lá vás jantar. Fez os teus pratos favoritos, com a ajuda da Madalena e ri-se para disfarçar a preocupação.

O Bernardo está magro demais, parece ter alguma dificuldade em andar, o olhar está baço, triste., oh, meu Deus, a Aída vai ficar doida, pensa.

O filho instala-se no carro, fecha os olhos, desculpa, estou muito cansado e o Pai não insiste.

Pelo caminho, considera várias doenças, o Bernardo foi tão vago, estará a esconder alguma coisa? murmura, talvez a Aída consiga falar com ele.

A Aída fica horrorizada quando vê o filho, mas o que é que se passa? O que tens? e o Bernardo suspira, nada que te preocupe! Tens que pensar em ti e no meu irmão. Ou é uma irmã? pergunta.

É uma menina, vai chamar-se Leonor, gostas? a Aída sorri e o Bernardo abraça-a.

É lindo, Mãe, gosto imenso. Gostava de tomar um duche, mudar de roupa, antes do jantar, pode ser? Claro que sim, filho, que pergunta! Podes já deixar aqui a roupa suja, esclarece.

O Bernardo desaparece na casa de banho, os Pais sentam-se no sofá, falam baixinho.

Está com muito mau aspecto, declara a Aída, disse o que se passou?

Continua a ser muito vago, responde o marido, deve ser um vírus tropical...

Ou apenas uma gripe muito grave, interrompe a Aída, ele foi vacinado contra tudo antes de ir, não pode ser nada tropical.

Não sabemos, insiste o Paulo, vamos esperar, ele tem que nos explicar o que se passa.

Na casa de banho, o Bernardo acaba de tomar duche e tem que se sentar na borda da banheiro, falta-lhe o ar.

CONTINUA

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

O CASAMENTO FIM

 

Falamos efectivamente nisso, mas apenas porque o Rodrigo achava que era o correcto, confessa, agora tudo isso está fora de questão.

Fiquei sem saber o que dizer, diz o Nicolau ao António e ao Amadeu, sei que ela ficou traumatizada com o que aconteceu há anos, mas tenho medo que ela fique sozinha, casada com a carreira. Quando tudo terminar, o que é que ela vai fazer?

Pode sempre escrever um livro, não foi o que o Nicolau fez? comenta o Amadeu muito sério e uma gargalhada geral desanuvia o ambiente.

O Rodrigo parte para a América, a Natália prepara-se para ir para a Universidade Inglesa e a Glória está apreensiva.

Tenho a impressão de que ela está a fugir de tudo e de todos, desabafa, mas não há nada que possas fazer! observa o companheiro, se ela não quer escutar as opiniões dos outros... a decisão é dela.

Eu sei, mas custa-me vê-la assim tão sozinha, repete a Glória, mas organiza uma festa de despedida.

A Teresa e a Madalena encarregam-.se do catering, o Nicolau lê algumas passagens do novo livro e a Sofia, o Gonçalo e a Inês mostram os seus dotes artísticos com uma dança tão complicada que ninguém sabe como a definir.

A festa acaba tarde, a Natália parece feliz e os outros despedem-se, desejam-lhe boa sorte.

Espero que não tenha mais desilusões, exclama a Glória e o Amadeu abana a cabeça, deixa-a em paz, ela tem que viver a vida de acordo com os objectivos que traçou.

O tempo passa, a Natália está contente com o trabalho na Universidade em Inglaterra, os emails são curtos demais, não se lê nada nas entrelinhas, queixa-se a Glória. 

Não se volta a falar de casamento, os dois estão muito ocupados com os respectivos trabalhos, com as miúdas e a Glória até já se esqueceu de que abordaram o assunto.

Até ao dia em que o Amadeu lhe telefona, tem uma surpresa para ela, vai buscá-la à Universidade à hora de saída.

Mas onde é que vamos? insiste a Glória, mas o Amadeu é misterioso, aconselha-a a ir ao cabeleireiro à hora de almoço.

A Glória não está a perceber nada, está nervosa quando entra no carro, queres explicar-me o que se passa? mas o companheiro continua calado.

Param à frente de um Hotel, a Glória olha-o espantada, com quem é que vamos jantar? Nem sequer estou vestida adequadamente! protesta, mas o Amadeu limita-se a conduzi-la, não para a sala de jantar, mas para um salão onde todos os amigos os esperam.

SURPRESA! gritam e a Glória não sabe se há-de rir ou chorar, mas o que se passa? pergunta e o companheiro responde tranquilamente.

Podemos não casar, mas podemos festejar a data em que nos conhecemos, explica o Amadeu, e depois, já que comprei o fato, tinha que o usar, não é verdade? acrescenta.

A Glória ri alto, os amigos riem também e a festa começa.

FIM


terça-feira, 12 de outubro de 2021

O CASAMENTO PARTE IV

 

Naquela semana, a Glória sabe que o Rodrigo recebeu um convite de uma universidade americana, fica surpreendida porque a Natália nada disse sobre o assunto.

Então, o Rodrigo vai para os States e tu não dizes nada? reclama e a Natália encolhe os ombros, vais com ele?

Não, responde apressadamente a Natália, o convite foi só para ele, mas tu também conheces pessoas lá, podes perfeitamente organizar um workshop, palestras, coordenar trabalhoS de investigação, interrompe a Glória.

Não, não quero voltar para lá, é doloroso demais, repete a Natália e a Glória suspira.

O passado é passado, Natália e ao que eu sei, o Rodrigo vai lá estar um ano, diz, muita coisa pode acontecer num ano, vais arriscar?

A verdade é que a relação já não está a funcionar, confessa a amiga, decidimos dar um tempo, pensar no que queremos efectivamente fazer e por isso, ele aceitou o convite da Universidade americana.

A Glória está tão espantada que não diz mais nada, a Natália desculpa-se e entra numa sala de aulas.

Fiquei absolutamente espantada, conta ao Amadeu nessa noite ao jantar, ela já lá esteve, é responsável pelo programa de intercâmbio com as Universidades Americanas, tem todas as razões para voltar para lá!

Ainda está traumatizada com o que aconteceu por lá! interrompe o Amadeu, ou a relação com o Rodrigo não está mesmo a resultar e achem que podem descobrir o que há de errado se estiverem separados.

Ele vai lá estar um ano, responde a Glória, muita coisa pode acontecer em doze meses!

Eu sei que muita coisa pode acontecer em doze meses, explica a Natália ao Nicolau nesse momento, telefonou-lhe, vamos jantar? e o amigo acedeu.

Ouve-a atentamente, fica pensativo por uns minutos, tens a certeza de que é isso que queres? pergunta e a Natália volta a suspirar.

Não tenho a certeza, o Rodrigo é uma pessoa excelente, mas..., pois, há um mas, observa o Nicolau, mas Natália, pensei que já tivesses ultrapassado isso.

Não, foi muito doloroso, nunca o vou esquecer, admite, viver outra vez nos States está fora de questão, não vou conseguir! Ir lá de visita, para um seminário, ok, mas não mais do que isso!

Isso não vai interferir com a progressão de carreira? o Nicolau está apreensivo, mas a Natália abana a cabeça.

Não, posso sempre ir para uma Universidade conceituada na Europa, já estou em contacto com uma inglesa, há um programa que me interessa, e o Nicolau abre a boca de espanto.

Preocupas-me, Natália, tenho medo que acabes sozinha, comenta o Nicolau, parecias tão entusiasmada com a tua relação com o Rodrigo, alguém me disse que estavam a considerar o casamento.

A Natália ri-se.

CONTINUA


segunda-feira, 11 de outubro de 2021

O CASAMENTO PARTE III

 

Que disparate! repete o Nicolau e a Glória também ri quando o companheiro lhe conta a conversa.

Podemos pensar nisso, mas não temos que o fazer, diz a companheira, as nossas filhas têm um Pai e uma Mãe e o que é importante é o relacionamento entre nós e com elas. Porque o Nicolau tem razão, continua, os problemas podem surgir, estando casados ou não!

Não falam mais no assunto, a Glória tenta discutir o assunto com a Natália, mas a amiga é muito vaga.

Não a entendo, admite a Glória à Teresa, não a vejo entusiasmada, a falar de vestidos, de penteados, de catering...a maior parte das pessoas começa a pensar nisso um ano antes!

Se calhar, só pensaram em casar, interrompe a Teresa, agora estão a considerar os prós e os contra.

Talvez, concorda a Glória, mas é tudo muito estranho! Há uma semana, ela estava toda entusiasmada e hoje, estava impossível de aturar. 

Ainda estão a pensar nos detalhes, frisa a Teresa e a Glória suspira.

Sabes que falei em casamento ao Amadeu? Ele ficou um pouco confuso, nunca falamos disso, explica a Glória, mas com esta história da Natália, fiquei a pensar se não seria uma boa ideia. Por causa das miúdas!

Também não sou casada com o António, mas não sinto vontade de o fazer! Nem mesmo pelos miúdos! exclama a Teresa, a vida familiar está estruturada, estamos concentrados no bem-estar de todos, não é um papel que define isso!

É o carácter, o interesse das pessoas, eu sei, concorda a Glória, mas há uma vozinha que me pergunta se isso será suficiente!

O que é que o Amadeu pensa sobre o assunto? pergunta a amiga e a Glória suspira novamente, está surpreendido, confuso, principalmente porque a relação com os filhos do casamento anterior continua a ser tensa e ele tem medo que isso aconteça com as miúdas.

Mas o casamento não significa que isso não vá acontecer, basta uma das miúdas conhecer alguém, o Amadeu não gostar e ela decide sair de casa para viver com ele, exclama a Teresa, isto pode não ser um bom exemplo, mas é a realidade.

Ás vezes, interferir tem o efeito contrário e conheço um caso, declara a Glória, o Pai soube que o namorado não era boa rês, teve uma discussão brutal com a filha e durante uns tempos, ela viveu em casa dos avós. Depois, descobriu que o Pai tinha razão, mas demoraram imenso tempo a confiar novamente um no outro.

É isso que estou a dizer, não é um papel que define as relações, volta a Teresa a repetir.

CONTINUA


domingo, 10 de outubro de 2021

O CASAMENTO PARTE II

 

Não sei, confessa o Major, talvez porque a Natália e o Rodrigo vão casar.

A Natália vai casar? repete o Nicolau, curioso, não me disse nada! 

Sempre pensei que o Nicolau e a Natália ficariam juntos, diz o Amadeu, têm tanta coisa em comum, a pesquisa para os livros, as feiras de autores...

Meu caro amigo, a Natália tem trinta e poucos anos e eu vou a caminho dos oitenta anos, interrompe o amigo, é perfeitamente natural que ela tenha procurado a companhia de um homem mais novo.

E a vossa relação não irá mudar? insiste o Major e o Nicolau não lhe responde de imediato.

Saboreia o arroz de frango, bebe um pouco de vinho, somos adultos, somos profissionais com reputação no meio académico, não creio que a Natália vá deixar o amigo interferir nisso, continua o Nicolau, mas não falemos disso agora, o que é que vai fazer sobre o casamento?

Não vejo como o casamento vá alterar a nossa vida familiar, explica o Major, porque temos uma vida familiar óptima, as nossas filhas são felizes, têm o meu nome e os problemas com os filhos do meu primeiro casamento estão mais ou menos resolvidos.

Tem notícias do Frederico? E do Francisco? questiona o Nicolau cautelosamente, não é um assunto que o Major goste muito de abordar.

Penso que o Frederico está bem, o pouco que sei é o que o Francisco me conta, tenho a impressão de que não me diz tudo e eu tenho que respeitar isso, esclarece o Major, pelo menos, a relação é mais civilizada do que há uns anos e é o que me leva a considerar seriamente a questão do casamento.

Evitar que haja distância na família? Mas, meu caro Amadeu, isso pode acontecer mesmo estando casado com a Glória! exclama o Nicolau.

Mas, pelo menos, saberei que não contribuí para isso...

CONTINUA

sábado, 9 de outubro de 2021

O CASAMENTO

 

A Natália e o Rodrigo vão casar, anuncia a Glória ao Major naquela noite, ainda não marcaram a data, mas acho que vai ser antes das férias de Verão.

Ah, isso é que não me agrada, vou ter que comprar um fato novo, brinca o Major, podes sempre levar a farda, sugere a Glória.

Não, não, responde o Amadeu muito sério, só uso a farda em actos oficiais! e a companheira desata a rir.

Não leves as coisas tão a sério! Não sei nada dos planos deles, comenta a Glória, até podem decidir fugir e casar no estrangeiro.

Agora é a vez do Amadeu rir, como nos romances? É uma ideia engraçada!

É o que eu gostaria de fazer! diz a Glória baixinho e o Major fica calado por uns minutos.

Queres casar, Glória? É isso que queres? pergunta e a Glória suspira, senta-se no sofá.

Sinceramente, não sei! Quando a Natália me contou, estava tão feliz, há muito tempo que não a via assim...acho que tive inveja! confessa, não temos que falar sobre isto agora!

Mas o assunto está na mesa, quero saber o que pensas verdadeiramente, se achas que há alguma coisa que está a falhar, insiste o Major.

Nada está a falhar, interrompe a Glória, somos uma família, temos duas filhas maravilhosas, uma casa agradável, trabalhos interessantes... não podemos querer mais, pois não?

O Amadeu não sabe o que responder, a Glória arrepende-se de ter falado no assunto, aperta-lhe o braço e desaparece no quarto.

Mas a que propósito veio essa conversa? quer saber o Nicolau durante o habitual jantar das quartas-feiras.

CONTINUA


sexta-feira, 8 de outubro de 2021

MIGUEL E O FUTURO FIM

 

O que é me aconteceu? Parti o braço durante a caminhada e tenho que confessar uma coisa.

O Gonçalo não é um banana, estávamos os dois sozinhos quando caí, ele instalou-me o mais confortável possível, assinalou o local e depois, foi à procura dos nossos Pais.

Não se perdeu, foi capaz de trazer os Pais até ao local; pouco depois, chegou a equipa de resgate, o Pai já os tinha contactado.

Pois, eu sei o que disse sobre o meu primo e ok, admito que estava errado... É um bom companheiro, tenho que o conhecer melhor...

Ah, não, não me peça para fazer o mesmo com a Sofia e com a Inês. Elas são raparigas estouvadas, sem interesse...

Está bem, vou fazer um esforço para conversar mais, participar nas brincadeiras, ser franco. Tenho quase a certeza de que a Inês vai fazer pouco de mim, mas está bem, vou tentar, ok?

Se falamos sobre a minha Mãe? Fiz algumas perguntas aos Avós, acho que ficaram surpreendidos, também me contaram histórias divertidas.

A minha Mãe devia ser uma pessoa engraçada, o que é que aconteceu para se isolar do Mundo?

Os Avós também não sabem, têm muitas teorias, mas o Avô frisou que não tem a certeza de nada, nem o próprio médico e todas as vezes que a visitam, ficam com o coração ainda mais partido.

Ás vezes, a Mãe fala sem parar, outras, fica calada e olha-os como se fossem estranhos. Compreendo agora porque é que a Avó passa dias a chorar.

Mas eu decidi que a vou visitar. Acho que surpreendi a família quando o disse e o Pai está sempre a perguntar-me se tenho a certeza.

Não, não tenho a certeza, não sei se não me vou magoar, porque a Mãe pode recusar-se a ver-me.

Mas tenho que descobrir... Pensa que é resposta para todos os problemas que acha que eu tenho?


FIM

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

MIGUEL E O FUTURO PARTE IV

 

O tio António contou histórias bem divertidas sobre a minha Mãe, o Pai acabou por se sentar connosco, também partilhou momentos felizes que passou com ela.

O que aconteceu para ela ir parar a uma Clínica de Repouso? O tio António acha que foi por não ter aguentado o stress de falhar, por muitos defeitos que a minha irmã tenha, sempre foi briosa, competente e focada no trabalho, frisou, mas o Pai não concordou.

Não, não concordo contigo, a Laura dispersava-se um pouco, respondeu o meu Pai e teriam começado a discutir se o tio Gonçalo não entrasse naquele momento e resumisse a situação num comentário seco, a minha irmã é parva, sempre o foi!

O que eu acho? Não sei, as opiniões são contraditórias e para os meus Avós, o assunto é tabu...

Este fim de semana, vamos todos para casa dos Avós... Vamos fazer uma caminhada, só de homens, sugeriu o Pai e os tios concordaram.

A tia Teresa e a tribo também vão, espero que o Gonçalo fique em casa, a explorar a quinta...

É um banana, está sempre tudo bem, permite que a irmã lhe dê ordens... na escola, todos gostam dele, acham-no divertido.

Pois... eu não sou nada divertido, é por isso que dizem que estou armado em doutor, que sou estranho, mas não gosto de futebol ou de basquetebol, prefiro a natação e a bicicleta... 

Se não há mal nisso, porque é que me fazem sentir à margem? Porque é que temos que falar novamente no que se passa na escola?

Quero lá saber o que pensam, o que dizem de mim...ah, a professora é uma chata, não preciso de repetir a matéria, já a compreendi...fiz os trabalhos de casa, porque é que tenho que passar uma manhã a ouvi-la explicar tudo novamente???

Ok, mas eu não tenho culpa se os meus colegas não entendem... eu ajudá-los???? Mas que história é essa?

Devo sentir-me grato por aprender tudo rapidamente e devo partilhar isso com quem não pode?

Não estou a perceber nada... é uma forma de conviver, ganhar o respeito dos meus colegas?

Porque é que eu preciso disso?

CONTINUA

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

MIGUEL E O FUTURO PARTE III

 

Não tenho grandes recordações da minha Mãe... lembro-me dos comentários.

Coitado do Miguel! Com uma Mãe como a Laura, não admira que seja uma pessoa confusa, imito o meu tio Gonçalo na perfeição.

O tio António raramente fala dela, é irmão gémeo dela, toda esta história o deve afectar...e não, nunca me disse nada.

Sobre a minha Mãe, quero eu dizer, porque o tio António não é para brincadeiras, se diz não, é não mesmo!

Acha mesmo que devo falar com ele sobre a minha Mãe? Porquê? Porque é irmão dela, deve-a conhecer melhor e talvez compreenda porque é que ela é assim?

Nunca pensei nisso, não tenho muita curiosidade em conhecer a minha Mãe, é apenas um nome.

Ok, eu falo com o tio António, ele não achará estranho eu aparecer e começar a fazer perguntas sobre a minha Mãe?

Não gosto muito dessa ideia, já disse, sou uma pessoa normal e não há mal nenhum em ser solitário!

Mas acabo por seguir o conselho do psicólogo e naquele domingo, pergunto ao tio António se podemos falar em privado.

Sobre? e o meu tio olha-me como se eu fosse um extraterrestre, engole em seco.

Sobre a minha Mãe, tio António? E o que é que queres saber sobre a Laura? o António mantém o sangue-frio, vejo que o assunto não lhe agrada.

O que me quiser dizer, explico que o psicólogo acha importante que eu descubra mais detalhes sobre a minha Mãe e o António acena que sim.

Era uma pessoa rebelde, ela e o Gonçalo nunca paravam quietos, arranjavam sempre sarilhos e depois, esperavam que eu os resolvesse, conta o António, eu ficava muito irritado, porque os Pais castigavam sempre os três e eu achava que não era justo!

E não é! atalho, se é a Inês que faz asneiras porque é que eu tenho que sofrer o mesmo castigo???

Chama-se disciplina, respeito pelos outros, interrompe o António, e não fizeste nada para a impedir, pois não?

Fico calado, realmente não fiz nada para impedir a Inês de roubar a T-Shirt do Edgar ou esconder-se na casa de banho do café do Parque e fazer toda a gente andar à nossa procura.

CONTINUA

terça-feira, 5 de outubro de 2021

MIGUEL E O FUTURO PARTE II

 

O que fizemos este fim de semana? 

Fomos almoçar a casa da Tia Carolina, a prima Filipa vai viver para a Dinamarca ou é a Suécia?

Não sei bem, sei que foi fazer o Mestrado num desses Países, conheceu alguém lá e agora casou.

A Tia Carolina estava um pouco abatida, está preocupada, o Pai e a Tia Teresa disseram-lhe para não pensar o pior, afinal de contas, a Filipa é uma mulher e tem demonstrado ser uma pessoa sensata, responsável.

Se calhar, a Filipa está toda contente por sair daquela casa... quatro irmãos e todos malucos!

O Matias e o Edgar até não são más pessoas, mas estão diferentes, têm outros interesses e não gostam nada de nos vigiar.

A irmã, a Inês aproveita-se disso e está sempre a pregar-lhes partidas, os idiotas nem sempre percebem e as discussões são tremendas! Fico com dores de cabeça!

Eu mantenho-me sempre à margem, raramente participo e a Inês acusa-me de ser um idiota, um fraco...

Se sou fraco? Não sei, nunca pensei no assunto, acho que tenho que seguir com a minha vida, enfrentar, vencer os obstáculos à medida que aparecem...

É o que o meu Pai diz que faz, às vezes, vejo que ele está desanimado, preocupado, mas depois levanta a cabeça e continua a avançar.

Nem sempre entendo o que ele diz, mas toda a gente o admira, até na escola...

Acho que o meu Pai é muito paciente...esta semana, foi ver os meus Avós, parece que as notícias não são muito boas.

A minha Mãe não está a melhorar, não sei se têm que mudar o tratamento, não está a reagir bem, foi o que ouvi dizer.

O que penso sobre o assunto? Não sei, não a conheço bem, sei que chorava sempre que estava com ela...

Se tenho pena dela? Já disse que não a conheço bem...

CONTINUA

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

MIGUEL E O FUTURO

 

Tenho que ser honesto comigo mesmo e a verdade é esta: não gosto de ninguém.

Minto: gosto do meu Pai e dos meus avós, suporto as Tias, mas a louca da minha Mãe e destemida prima Inês... fico cansado só de pensar nisso!

Como é que posso dizer isto se não conheço bem a minha Mãe? Ela passou a maior parte da minha infância e adolescência numa Casa de Repouso, um nome pomposo para um Hospital de loucos.

Vi o desgosto no olhar dos meus Avôs, como se esforçaram para que eu tivesse uma vida normal, mas tal não foi possível, porque senti sempre um vazio naquela casa, um vazio que ninguém poderia preencher.

O meu Pai... o meu Pai foi sempre um Pai presente e acho que abusei um pouco da paciência dele.

Isolei-me, mantive-me à margem, escondi-lhe os meus pensamentos... coitado, estava sempre cansado, até porque a minha Madrasta não era uma pessoa fácil...

Não, não quero falar da Beatriz e muito menos da Maria Rosa... Acho que têm medo de mim, fui sempre tão hostil....

A Maria Rosa até se levantava mais cedo e preferia ir para a escola sozinha... não confiava em mim, porque eu humilhava-a! 

Na frente dos colegas, dos professores....continha-me quando estávamos em família, a Inês tem uma língua afiada.

Se tenho medo da Inês??? Aquela rapariga não tem limites...diz o que pensa, sem filtros e nem sempre pensa nas consequências.

Já acabou? Na próxima semana à mesma hora? Tem mesmo que ser... não percebo porque é que tenho que voltar.

Eu sou uma pessoa normal....

CONTINUA



sábado, 2 de outubro de 2021

O ANIVERSÁRIO FIM

 

O Matias e o Edgar organizam um jogo no quarto de brinquedos, o Miguel resolve voltar para o quarto e dormir mais um pouco, a Filipa fica na cozinha, quer falar com uma amiga.

A casa está sossegada, aparentemente, sussurra a Carolina quando abre a porta, se a Inês está acordada, é pouco provável, diz o Gustavo.

Estão felizes, relaxados, nada os vai aborrecer hoje, prometem, mas no fundo, não têm tanta certeza.

Porque a Inês escapa-se do quarto de brinquedos, o Edgar dá um grito, oh, Inês, não podes sair daqui! Volta já para aqui!

A irmã faz de conta que não o ouve, contorna a esquina e vê os Pais.

Solta um grito tão agudo que o Miguel acorda novamente em sobressalto, suspira, vira-se para o outro lado, que peste de rapariga! murmura.

Mas o barulho é tanto que ele desiste e levanta-se.

O corredor está agora cheio de gente, os Pais a rirem e os miúdos aos gritos completamente loucos, o Matias e o Edgar competem para terem um pouco de atenção.

Entretanto, tocam à campainha, é o serviço de entregas do Hotel, a Carolina escolheu o almoço antes de fazer o check-up.

Os miúdos acham imensa piada, ajudam a levar as embalagens para a cozinha, ficam desapontados quando a Carolina lhe diz que têm que esperar, ainda é muito cedo para o almoço.

A vida volta ao normal, comenta a Carolina e o marido ri-se, mas foi bom estarmos umas horas sem miúdos, sem gritos, sem discussões.

E 10 dias num paraíso tropical! Vou adorar... a Filipa e o Miguel vão ficar doidos, se calhar, vamos ter que lhes oferecer um fim de semana fora, continua a mulher.

Nem pensar! Todos temos que partilhar as responsabilidades! Somos uma família! declara o Gustavo, mas não diz mais nada, pois a Inês irrompe pelo quarto, estou esfomeada, quero comer! Exijo comer! protesta.

Nós também! gritam o Gonçalo e a Sofia, e " por favor", não se usa? interrompe a Carolina e a Inês fica muito quieta.

Agarra-se então às pernas da Mãe, já podemos comer, Mãe, se faz favor? e a Carolina morde os lábios, olha para o Gustavo que encolhe os ombros.

Ok, vamos lá ver o que podemos comer, os miúdos soltam um " hurra" e fazem uma corrida, ninguém me apanha! anuncia a Inês.

Apenas o Miguel fica quieto e só aparece na cozinha, porque o Edgar não aceita um não e quase o leva em braços.

O que é se passa com este miúdo?

FIM


sexta-feira, 1 de outubro de 2021

O ANIVERSÁRIO PARTE V

 

O bombo soa por volta das oito da manhã, alguém bate na pandeireta e o Gonçalo grita bem alto, está na hora de levantar, temos fome!

O Miguel acorda sobressaltado, quase caí da cama, mas a Filipa é mais rápida que ele e já está no corredor a ralhar com os miúdos.

E depois, concluí, eu não sirvo o pequeno almoço a pessoas de pijama! e o Miguel esconde um sorriso.

O Matias e o Edgar aparecem nesse momento e oferecem-se para os ajudar. É com alguma dificuldade que os levam para o quarto, onde o Miguel primo continua sentado à espera de ordens.

Já decidi, confessa o Miguel, não quero ter filhos, e fica indignado quando a irmã se ri.

Agora dizes isso, mas vais mudar de ideias, explica a Filipa, também pensei nisso, mas a verdade é que gosto de ter uma casa cheia de gente, cheia de risos e gritos...

Somos uma família original e às vezes, é bem engraçado ver como a Inês consegue confundir o Matias e o Edgar! concorda.

O Matias fica tão zangado e vinga-se no Edgar, diz a irmã, a Mãe diz que está cansada das lutas, tenta dialogar, mas nem sempre a escutam.

Ok, vou ter uma conversa com aqueles dois! interrompe o Miguel e cala-se, porque o quarteto, vestido, penteado, aparece escoltado pelo Duo Magnífico.

Estamos vestidos, anuncia a Inês, serve-nos o pequeno almoço!

Se fazes o favor, Filipa, podes servir-nos o pequeno almoço, exclama o Miguel, repete, Inês, os Pais já te explicaram que tens que ser bem educada e não te esqueças de agradecer!

A Inês respira fundo, abre a boca para protestar, mas o Miguel está muito sério e ela já sabe que não o deve desafiar, é um irmão simpático, brincalhão, mas tem limites e ela não quer ficar de castigo.

Podes servir-nos o pequeno almoço, Filipa, por favor? repete, obrigada, quando a Filipa lhe estende a chávena.

A Inês volta a olhar para o Miguel, faz-lhe uma careta e o irmão morde os lábios, esta minha irmão não tem emenda, vai ser um amor ou uma peste! pensa.

O pequeno almoço decorre sem problemas de maior, lavar os dentes, pedem os irmãos mais velhos, depois ficam no quarto de brinquedos. Matias, Edgar, vigiem-nos.

Temos sono, queremos voltar para a cama, os manos protestam, mas o Miguel abana a cabeça, fazem uma sesta quando os Pais regressarem, agora tomem conta destes querubins!

Eu não sou um querubim, sou uma princesa! esclarece de imediato a Sofia, não és nada, exclama a Inês, és quem eu disser que és!

Desapareçam da minha frente! Já! e a Filipa aponta a porta que fecha assim que os miúdos saem.

Olha para o Miguel e os dois desatam a rir.

CONTINUA


quinta-feira, 30 de setembro de 2021

O ANIVERSÁRIO PARTE IV

 

A festa é um sucesso, as pessoas estão divertidas e quando o Gustavo apresenta os bilhetes de avião na altura em que cortam o bolo, alguém grita, vejam lá, não vá nascer um outro filho!

A Carolina ri-se, Deus queira que não! Os cinco já me dão dores de cabeça suficientes para uma vida inteira! comenta e agradece efusivamente ao marido.

A Teresa dá uma cotovela ao António, prepara-te que vou querer a mesma coisa quando fizermos 25 anos! e o companheiro sorri, tenho bastante tempo para pensar e prometo que vou ser original!

É a vez da Teresa rir, mas ao reparar no ar sombrio do irmão, diz, estou muito preocupada com o Pedro! Acho que as coisas em casa não estão bem, mas sempre que tento falar disso, ele desvia o assunto!

Acontece-me o mesmo e temos tido várias reuniões por causa do projecto, confessa o António, não quer mesmo falar sobre o assunto e sinto que ele está zangado, magoado!

A Teresa suspira, será um problema com a Beatriz? Com o Miguel? Aquele miúdo é instável, repete, a Sofia e o Gonçalo ficam agitados sempre que estão com ele...

Mas não vamos afastá-los da companhia dele, isso seria um rude golpe para o teu irmão, continua o António, temos que ser mais atentos!Não se fala mais nisso, vamos dançar.

Por volta das duas da manhã, as pessoas começam a despedir-se, a Carolina está cansada, os sapatos novos estão a dar cabo dos meus pés, sussurra e o marido ri-se.

Pega na carteira, dirige-se ao hall de entrada, mas o Gustavo segura-lhe o braço, mostra-lhe uma chave.

Vamos dormir aqui, comenta, a Filipa preparou um saco e o Miguel já o deixou no quarto! E não te preocupes com os miúdos, a Filipa e o Miguel tomam conta deles até regressarmos.

Ups! pensa a Carolina, uma noite interessante! e segue-o, sorridente, feliz.

Em casa, a baby sitter queixa-se à Filipa da energia excessiva da Inês e do isolamento do Miguel, foi um trabalhão convencê-los que era hora de dormir. Já a Sofia e o Gonçalo são uns verdadeiros anjos!

Quando a Inês não os desencaminha! interrompe o Miguel e oferece-se para a levar a casa, chamar um táxi.

A baby sitter agradece, trouxe carro e saí, deixando os dois irmãos no hall de entrada.

O Matias e o Edgar já estão no quarto, o Miguel espreita para dentro do quarto, quero silêncio absoluto! as crianças estão a dormir, a ver se aproveitamos algumas horas de sono! avisa.

Estão todos sossegados, diz, estou exausta, mas feliz... Os Pais estavam tão contentes!

O Miguel acena que sim, quer dormir, tem quase a certeza de que lá para as sete e meia, oito horas, a Inês dará o sinal de alvorada.

CONTINUA


quarta-feira, 29 de setembro de 2021

O ANIVERSÁRIO PARTE III

 

A última vez que falei com ele, continua o Gustavo, o Pedro estava muito cansado emocionalmente e penso que a Beatriz não o está a ajudar!

A mulher volta a suspirar, eu sei, eu e a Teresa conversamos sobre isso noutro dia, diz, mas não sabemos bem como o ajudar. A Beatriz parecia ter uma visão positiva do Mundo, acho que foi isso que atraiu o Pedro, mas a maternidade modificou-a.

Pois, culpa a miúda e temos novamente uma pessoa cheia de problemas, ri-se o Gustavo, mas no fundo, concorda com a mulher.

A única pessoa que não vai ao jantar de aniversário é a Inês, os Pais contratam uma baby sitter e a Sofia, o Gonçalo e o Miguel ficam a fazer-lhe companhia

A Maria Rosa fica em casa dos avós e a Carolina espera que não haja problemas, tens que te portar bem, ok? Inês, estás a ouvir a Mãe? pergunta e a filha dá-lhe um grande sorriso.

Espero que aquela marota não faça das delas, comenta no carro, se calhar, quando chegarmos a casa, a baby sitter vai estar amarrada ou fugiu!

O Gustavo ri-se, com a Inês, nunca sabemos o que vai acontecer, responde, não há dúvida que nos mantém jovens!

Eu esperava ter um pouco de sossego, com a Filipa e o Miguel já são adultos e os rapazes começam a ter os seus próprios interesses, observa a mulher, a Inês foi uma boa surpresa, mas gostava que ela fosse mais sossegada!

Eu estou a adorar o desafio, repete o Gustavo e estaciona o carro no parque de estacionamento do hotel.

Decidiram fazer a festa fora de casa, para não te preocupares com ementas e afins, disse o Gustavo, afinal de contas, são 25 anos e eu quero convidar alguns colegas e dançar!

Por isso, tudo o que a Carolina fez foi escolher a ementa e a decoração do salão; o hotel encarregou-se do resto.

A Carolina passou um dia no spa, escolheu um vestido com um corte moderno e que a favorece, a maquilhagem é discreta.

Está feliz, pensa o Gustavo, observando-a atentamente, há muito tempo que não a via assim! No bolso do casaco, estão os bilhetes de avião, uma viagem até às Caraíbas, dez dias sem miúdos, já combinou tudo com a filha e com a cunhada.

Vai oferece-los quando cortarem o bolo, ele fez questão que houvesse, embora o filho se tivesse rido e dito que era ridículo.

Está calado, Miguel, quando fizeres 25 anos de casado, vais engolir essas palavras! protesta o Pai.

CONTINUA


terça-feira, 28 de setembro de 2021

O ANIVERSÁRIO PARTE II

 

A Inês rasgou o trabalho de casa do Edgar, explica o Matias, ele ficou furioso, tem que o entregar amanhã. Queria bater-lhe, eu não deixei e ele deu-me um soco.

Escondo um sorriso, o Matias está ansioso, preocupado, mas a Carolina está muito séria.

É a maneira correcta de resolver as coisas? pergunta, talvez não, atalho, mas vamos tentar resolver o assunto da melhor maneira. Trata do nariz do Matias, eu vou conversar com o inimigo.

O Edgar está sentado numa cadeira no quarto, está de braços cruzados, muito sério. No meio do chão, estão umas folhas rasgadas, olho em volta, mas a principal suspeita deve estar escondida no quarto.

Então, Edgar, o que é que se passa? e o meu filho olha para mim, desesperado, oh, Pai, tenho que entregar o trabalho amanhã, foi tão difícil fazê-lo, vou ter má nota! diz.

Claro que não! Eu ajudo-te, qual é o tema? observo e o Edgar faz-me um resumo, ok, vamos ver o que podemos aproveitar... Ouve lá, porque é que não gravaste, não fizeste uma cópia?

O Edgar fica muito vermelho, esqueci-me, fiz à mão, depois passei para o computador e só dei conta quando imprimi! replica e eu suspiro.

Que isto te sirva de lição, faz sempre uma cópia, já te expliquei como podes fazer isso! e a cópia em papel, rasgaste-te? questiono enquanto aliso as folhas e o Edgar acena que sim.

O estrago não é muito, conseguimos refazer o trabalho e no fim, volto a frisar a importância das cópias.

Já sabes que a Inês está sempre a fazer isto! Guarda os trabalhos num local fora do alcance dela e faz sempre uma cópia! e o Matias, que entra nesse momento concorda.

Estou farto de lhe dizer isso, comenta, mas ele nunca escuta, e claro que está que o Edgar lhe atira uma almofada.

Calma! Não quero ouvir mais nada, nem uma gargalhada! e os dois rapazes calam-se, cama que já é tarde!

Quando chego ao quarto, a Carolina está deitada em cima da cama, de olhos fechados.

Estou tão cansada, não sei como vou conseguir manter os olhos abertos amanhã! exclama, como é que aquela miúda é capaz de desestabilizar tudo em segundos? 

Não sei, mas para ser franco, ainda bem que não é uma choramingas como o Miguel! Temos filhos originais e isso torna tudo mais interessante!

A minha mulher ri-se, ainda bem que o Pedro não está a ouvir, mas tens toda a razão, aquele miúdo é complicado!

CONTINUA

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

O ANIVERSÁRIO

 

Quem diria que amanhã faço vinte e cinco anos de casado? E que tenho cinco filhos? 

As pessoas fazem comentários engraçados, mas há quem diga que nos tempos que correm é uma irresponsabilidade.

Não vejo porquê, os meus filhos são felizes e eu e a Carolina não queríamos que as coisas fossem diferentes.

Claro que o nascimento da Inês foi uma surpresa, mas tivemos que nos adaptar como sempre fizemos.

Não foi uma viagem pacífica, nos dois primeiros anos tivemos que viver num apartamento dos meus Pais e pouco tempo depois de nascer o Miguel, a Carolina foi despedida.

Eu estava há pouco tempo numa nova empresa, tinha um contrato de seis meses e o ordenado da Carolina fazia falta.

A minha mulher não desistiu, começou a fazer trabalhos de decoração como freelancer, sempre posso gerir o meu horário, dizia e dois anos mais tarde, abriu a empresa.

Entretanto, eu fui promovido e conseguimos juntar dinheiro suficiente para comprar esta casa.

Nesse ano, nasceu o Matias e no ano seguinte, o Edgar. A Filipa e o Miguel já eram suficientemente crescidos para ajudarem com os irmãos e ambos desempenham esse papel muito a sério.

Ás vezes, penso que eles os controlam melhor que nós, confesso à Carolina na véspera do jantar de aniversário, tem dias, comenta a minha mulher, a Filipa fica um pouco ressentida porque tem que reorganizar a agenda, como diz e tenho que ter cuidado com os jogos do Miguel.... Podem ser um pouco violentos e os miúdos ficam muito agitados.

Ah, sim, concordo, noutro dia, tive que intervir, a D. Margarida estava a ficar louca com os gritos de guerra que vinham do quarto dos rapazes. Confrontei o Miguel e ele explicou que queria sair com os amigos e só o podia fazer se os irmãos ficassem suficientemente cansados para adormecerem logo!

A Carolina ri-se, tem uma certa lógica, admite, porque é que eu não me lembrei disso? diz e eu abano a cabeça.

Temos que organizar outro tipo de jogos, como respeito, consideração, humildade, enumero, creio que o Matias ainda não compreendeu isso e quando o Matias souber, o Edgar também aprende!

Somos interrompidos por novos gritos, não sabemos se são os rapazes ou a Inês que consegue ser uma verdadeira peste e assume sempre um ar de inocente.

Abro a porta da sala, grito, o que é que se passa aqui? Matias, apresente-se ao Comandante Supremo.

Ouço-os cochichar, estão a combinar a história, murmuro e cinco minutos depois, aparece o Matias.

A T-Shirt está rasgada, o cabelo todo despenteado, escorre um fio de sangue do nariz.

A Carolina solta um grito, o que é que aconteceu?

CONTINUA

domingo, 26 de setembro de 2021

A PROPOSTA FIM

 

Queres comer alguma coisa, Miguel? pergunta o Pai, o Miguel abana a cabeça, ok, lavar os dentes, fazer xixi e cama, diz o Pedro.

O Miguel obedece sem uma palavra, queres que te leia uma história? sugere o Pai, mas o miúdo vira-lhe as costas.

Valha-me Deus, repete o Pedro, está a ficar como a Laura. Tenho que falar com o médico e amanhã!

Mas a manhã corre mal, a Maria Rosa faz uma birra, o Miguel não quer tomar o pequeno almoço e o Pedro desespera.

Chegam atrasados ao infantário, o António telefona-lhe, há certos detalhes a esclarecer, pode passar pelo escritório dentro de quinze minutos? pede e o Pedro não hesita.

Passa parte da manhã com o António, declina o convite para almoço, tenho uma reunião com a Administração do Grupo, explica, depois falo contigo.

Vê que tem uma chamada do infantário, não tem tempo, se não conseguiram falar com ele, telefonam para a Beatriz ou para a Carolina.

Não pensa mais no assunto, tem muita coisa a resolver, é um dia muito longo, está exausto quando entra finalmente no carro para regressar a casa.

Vê o telemóvel, há uma série de chamadas da Beatriz, da Carolina, até da Teresa.

O que é se passa? e liga de imediato para a Beatriz, uma Beatriz muito nervosa que lhe grita, onde é que estiveste? Porque é que não atendeste o telemóvel? Não sabemos onde é que ele está...

Ele quem? interrompe o Pedro, sente um calafrio, é o Miguel, meu Deus! É o Miguel!

Vou já para aí, declara e arranca a toda a velocidade. O trânsito está caótico, o Pedro está desesperado.

Em casa, a Beatriz nem consegue falar e ao vê-lo, foge para o quarto.

É a Carolina quem resume a situação, foi à hora do lanche que deram conta que ele não estava, a educadora pensou que estava com a auxiliar no jardim e a auxiliar que estava com a professora na sala.

Deram logo o alarme, continua o Gustavo, mas como não o encontraram, avisaram as autoridades.

A Polícia? o Pedro tem que se sentar, o cunhado dá-lhe uma palmada amigável no ombro, aconteceu alguma coisa durante o fim de semana? Ele ficou com os avós, não ficou? Ele gosta de lá estar, não gosta? comenta o Gustavo.

A avó disse que ele estava estranho, que se isolou e nem brincou com os outros meninos, conta o Pedro, praticamente não falou comigo, até pensei em falar novamente com a psicóloga.

A Carolina e o Gustavo trocam um olhar, pensam exactamente o mesmo, será que o Miguel herdou as mesmas inseguranças e obsessões da Mãe?

Não dizem nada alto, mas têm a certeza que o Pedro também o pensa.

Ficam ali os três à espera de notícias e já passa das dez da noite quando tocam à campainha e entregam um Miguel muito sujo e muito zangado.

FIM


sábado, 25 de setembro de 2021

A PROPOSTA PARTE V

 

Pedro acaba por seguir o conselho do cunhado e marca um quarto num hotel perto do parque nacional que as irmãs recomendam.

A Beatriz fica um pouco contrariada, mas gosta do spa, da caminhada e do passeio de barco.

Estão os dois sozinhos, livres para conversarem, para rirem e simplesmente relaxar sem estarem preocupados com os miúdos.

O Miguel está estranho, diz a avó quando o vão buscar, isolou-se, não brincou com ninguém. Passa-se alguma coisa?

O Miguel tem medo do novo, não gosta de ver as rotinas abaladas, mas tens que aprender a lidar com isso, não é verdade, pá? responde o Pedro e a sogra suspira, será que o meu neto vai ser como a Mãe?

A Beatriz não diz nada, também já pensou nisso, mas nunca discutiu o assunto com o Pedro, ele fica um pouco perturbado.

A Maria Rosa faz uma festa quando vê os Pais, a Beatriz fica com ciúmes quando a Mãe lhe conta que a neta esteve sempre bem disposta, comeu e dormiu muito bem.

Isto prova que podemos ir para fora mais vezes, afirma o Pedro, nos próximos meses vou estar um pouco ocupado com a nova empresa, mas depois, vamos para fora uns dias, prometo.

Sempre vais avante com esse projecto? interrompe a companheira, tinhas tantas dúvidas, o que é que mudou?

O António está a analisar a proposta, há detalhes que ainda têm que ser discutidos, esclarece o Pedro, mas vou arriscar...Tem que ser agora ou será demasiado tarde...

Já pensaste nos miúdos? pergunta a Beatriz e o Pedro abana a cabeça, decerto que não querem um Pai medroso!\

A Beatriz cala-se, o Miguel escolhe esse momento para tirar a girafa à Maria Rosa que desata a chorar.

Felizmente, já estão a entrar na garagem do prédio e a Beatriz apressa-se a sair do carro, abre a porta.

Miguel, dá-me o brinquedo, pede, mas o miúdo olha-a com um ar tão furioso que a Beatriz desiste.

Trata do teu filho, murmura, pega na filha e sem olhar para trás, dirige-se para o elevador.

Porque é que fizeste isso, Miguel? Já te disse para não assustares a Maria Rosa! ralha o Pedro, o filho não responde, olha-o muito sério como se o estivesse a censurar.

Valha-me Deus, é mesmo parecido com a Laura! pensa o Pedro e entrega-lhe a mochila sem uma palavra.

O Miguel arrasta-a pelo chão, o Pedro não se atreve a dizer-lhe para não o fazer e os dois sobem silenciosos até casa.

A Maria Rosa já parou de chorar, as luzes estão todas acesas e o Pedro leva as malas para o quarto.

O filho fica parado no corredor, a segurar a mochila e muito calado.

CONTINUA 


sexta-feira, 24 de setembro de 2021

A PROPOSTA PARTE IV

 

A Beatriz não diz mais nada, o Pedro sente-se sufocado e resolve dar uma volta.

Acaba por bater à porta da irmã, o cunhado convida-o a entrar no escritório, aqui estamos sossegados, ninguém nos incomoda, confidencia.

Oh, pá, a minha sina parece ser conhecer mulheres neuróticas, desabafa o Pedro, primeiro foi a Laura com as inseguranças, depois foi a Guiomar que não queria ser " mãe" do meu filho e agora a Beatriz, uma psicóloga, alguém que teria uma mente mais aberta e atenta às necessidades dos outros, tem medo de deixar a filha com os avós.

O Gustavo sorri, não vou dizer que o meu casamento com a tua irmã é perfeito, diz, mas tanto eu como a Carolina aprendemos a encontrar um equilíbrio para proporcionarmos aos nossos filhos um lar tranquilo... se bem que rapazes e a Inês sejam uns revolucionários e ponham tudo em pantanas... mas o que quero dizer é que se não estivermos bem como casal, os miúdos percebem e o ambiente fica tenso...

Foi isso que lhe tentei dizer, observa o Pedro, mas desde que nasceu a Maria Rosa, a Beatriz modificou-se totalmente e isso confundiu-me...

O cunhado ri-se, tens mesmo que ir para fora uns dias, tens que a convencer a ir contigo, eu e a Carolina tentamos passar um fim de semana sozinhos de dois em dois meses... Também aprendemos a delegar... a Carolina também teve uma reacção parecida quando nasceu a Filipa, mas depressa concluiu que precisava de ajuda.

Lembro-me que eu e a Teresa fazíamos turnos quando a Filipa ficava em casa dos Pais, conta o Pedro, a Mãe tratava da alimentação, do banho, mas à noite, ficava connosco. Uma noite, a Teresa resolveu fazer a dança de ventre, a Filipa adorou e foi muito complicado convence-la que era hora de dormir... A propósito, como é que ela está?

Está a fazer o estágio, a gostar imenso, responde o cunhado, diz que gostam do trabalho dela, mas não sabe se a convidam a ficar quando terminar.

Ela pode vir trabalhar comigo, e o Pedro explica resumidamente os novos planos, não vai ser fácil, vou ser um patrão exigente, acrescenta, mas é capaz de a ajudar a perceber a dinâmica de uma empresa.

É um desafio e ela gosta de desafios, admite o Pai, tens que falar com ela, explicar-lhe tudo...

Claro que sim, e o Pedro suspira, sente-se mais relaxado. Vê as horas, oh, pá, já é tão tarde, é melhor ir-me embora, a Beatriz deve estar furiosa.

Pensa no que eu disse, marca o fim de semana, se for preciso à rebeldia da Beatriz, aconselha o cunhado, os teus Pais ou os da Laura ficam com o Miguel e com a Maria Rosa se for preciso.

CONTINUA


quinta-feira, 23 de setembro de 2021

A PROPOSTA PARTE III

 

António vai precisar de certos documentos, o Pedro entrega-lhe os que tem, já previa que os pedisse, explica com um sorriso.

Ok, vou fazer a minha análise, diz o cunhado, se precisar de mais alguma coisa, contacto-te e o Pedro volta a sorrir.

Levanta-se, tenho que ir para casa, a Beatriz está sozinha com os miúdos, desculpa-se e quer despedir-se da irmã.

A Teresa ainda está com dores de cabeça, mas a febre baixou e ela sente-se humana outra vez, comenta com um sorriso.

O irmão dá-lhe um beijo, telefono-te amanhã, promete e saí do quarto.

O António acompanha-o até à porta, porque não vais passar uns dias fora, recarregar baterias? sugere, estás a precisar disso e se vais assumir este cargo, tens que estar em forma. Fala com a Beatriz, os meus Pais ficam com o Miguel e os teus sogros vão gostar de estar com a Maria Rosa.

Tenho pensado nisso, mas a Beatriz rejeita a ideia, não quer estar muito tempo longe da Maria Rosa, afirma o Pedro, mas estamos muito cansados e a baby sitter despediu-se... Ainda não contratamos outra...

Mas isso é essencial, interrompe o António, pergunta à Carolina, até mesmo à Rita, elas devem conhecer alguém...

O Pedro acena que sim, aperta-lhe a mão e desaparece no corredor.

O António fica um pouco preocupado, suspira, vai ver o que a D. Conceição deixou para jantar.

A Teresa aceita a sopa e a salada de frutos, tenho sobretudo sede, exclama, mas tens que tomar o antibiótico, tens que comer qualquer coisa, responde o companheiro.

O que é queria o Pedro? pergunta a Teresa, está cansado, parece doente.

O companheiro faz-lhe um resumo do que se passa e a Teresa suspira, já podia ter falado comigo, eu posso indicar alguns nomes e mesmo a Beatriz! É médica, conhece imensa gente...Enfim, sem comentários...

Vamos esquecer os problemas do Pedro? Vamos concentrar-nos em ti? observa o António, pareces estar melhor...

Amanhã, já me levanto, diz, mas não vais trabalhar, interrompe o António de imediato, já falei com a Madalena, ela tem tudo controlado.

Odeio estar doente, repete a Teresa e o companheiro ri-se, vê se consegues dormir, não te preocupes com o teu irmão, ele vai ficar bem!

Em casa do Pedro, discute-se, a Beatriz não concorda com a ideia de irem para fora e deixarem os miúdos com os avós.

Não percebo qual é o teu problema! exclama o Pedro, o Miguel vai para a escola no próximo ano e a Maria Rosa fez cinco meses, até é bom que se habitue a estar com outras pessoas!

Mas vai chorar, a minha Mãe não vai saber como lidar com isso, grita a Beatriz e o Pedro levanta a mão.

Fala baixo, os miúdos ainda acordam e então, vamos ter problemas a sério, esclarece, estou cansado, preciso de descansar.

CONTINUA