quinta-feira, 30 de setembro de 2021

O ANIVERSÁRIO PARTE IV

 

A festa é um sucesso, as pessoas estão divertidas e quando o Gustavo apresenta os bilhetes de avião na altura em que cortam o bolo, alguém grita, vejam lá, não vá nascer um outro filho!

A Carolina ri-se, Deus queira que não! Os cinco já me dão dores de cabeça suficientes para uma vida inteira! comenta e agradece efusivamente ao marido.

A Teresa dá uma cotovela ao António, prepara-te que vou querer a mesma coisa quando fizermos 25 anos! e o companheiro sorri, tenho bastante tempo para pensar e prometo que vou ser original!

É a vez da Teresa rir, mas ao reparar no ar sombrio do irmão, diz, estou muito preocupada com o Pedro! Acho que as coisas em casa não estão bem, mas sempre que tento falar disso, ele desvia o assunto!

Acontece-me o mesmo e temos tido várias reuniões por causa do projecto, confessa o António, não quer mesmo falar sobre o assunto e sinto que ele está zangado, magoado!

A Teresa suspira, será um problema com a Beatriz? Com o Miguel? Aquele miúdo é instável, repete, a Sofia e o Gonçalo ficam agitados sempre que estão com ele...

Mas não vamos afastá-los da companhia dele, isso seria um rude golpe para o teu irmão, continua o António, temos que ser mais atentos!Não se fala mais nisso, vamos dançar.

Por volta das duas da manhã, as pessoas começam a despedir-se, a Carolina está cansada, os sapatos novos estão a dar cabo dos meus pés, sussurra e o marido ri-se.

Pega na carteira, dirige-se ao hall de entrada, mas o Gustavo segura-lhe o braço, mostra-lhe uma chave.

Vamos dormir aqui, comenta, a Filipa preparou um saco e o Miguel já o deixou no quarto! E não te preocupes com os miúdos, a Filipa e o Miguel tomam conta deles até regressarmos.

Ups! pensa a Carolina, uma noite interessante! e segue-o, sorridente, feliz.

Em casa, a baby sitter queixa-se à Filipa da energia excessiva da Inês e do isolamento do Miguel, foi um trabalhão convencê-los que era hora de dormir. Já a Sofia e o Gonçalo são uns verdadeiros anjos!

Quando a Inês não os desencaminha! interrompe o Miguel e oferece-se para a levar a casa, chamar um táxi.

A baby sitter agradece, trouxe carro e saí, deixando os dois irmãos no hall de entrada.

O Matias e o Edgar já estão no quarto, o Miguel espreita para dentro do quarto, quero silêncio absoluto! as crianças estão a dormir, a ver se aproveitamos algumas horas de sono! avisa.

Estão todos sossegados, diz, estou exausta, mas feliz... Os Pais estavam tão contentes!

O Miguel acena que sim, quer dormir, tem quase a certeza de que lá para as sete e meia, oito horas, a Inês dará o sinal de alvorada.

CONTINUA


quarta-feira, 29 de setembro de 2021

O ANIVERSÁRIO PARTE III

 

A última vez que falei com ele, continua o Gustavo, o Pedro estava muito cansado emocionalmente e penso que a Beatriz não o está a ajudar!

A mulher volta a suspirar, eu sei, eu e a Teresa conversamos sobre isso noutro dia, diz, mas não sabemos bem como o ajudar. A Beatriz parecia ter uma visão positiva do Mundo, acho que foi isso que atraiu o Pedro, mas a maternidade modificou-a.

Pois, culpa a miúda e temos novamente uma pessoa cheia de problemas, ri-se o Gustavo, mas no fundo, concorda com a mulher.

A única pessoa que não vai ao jantar de aniversário é a Inês, os Pais contratam uma baby sitter e a Sofia, o Gonçalo e o Miguel ficam a fazer-lhe companhia

A Maria Rosa fica em casa dos avós e a Carolina espera que não haja problemas, tens que te portar bem, ok? Inês, estás a ouvir a Mãe? pergunta e a filha dá-lhe um grande sorriso.

Espero que aquela marota não faça das delas, comenta no carro, se calhar, quando chegarmos a casa, a baby sitter vai estar amarrada ou fugiu!

O Gustavo ri-se, com a Inês, nunca sabemos o que vai acontecer, responde, não há dúvida que nos mantém jovens!

Eu esperava ter um pouco de sossego, com a Filipa e o Miguel já são adultos e os rapazes começam a ter os seus próprios interesses, observa a mulher, a Inês foi uma boa surpresa, mas gostava que ela fosse mais sossegada!

Eu estou a adorar o desafio, repete o Gustavo e estaciona o carro no parque de estacionamento do hotel.

Decidiram fazer a festa fora de casa, para não te preocupares com ementas e afins, disse o Gustavo, afinal de contas, são 25 anos e eu quero convidar alguns colegas e dançar!

Por isso, tudo o que a Carolina fez foi escolher a ementa e a decoração do salão; o hotel encarregou-se do resto.

A Carolina passou um dia no spa, escolheu um vestido com um corte moderno e que a favorece, a maquilhagem é discreta.

Está feliz, pensa o Gustavo, observando-a atentamente, há muito tempo que não a via assim! No bolso do casaco, estão os bilhetes de avião, uma viagem até às Caraíbas, dez dias sem miúdos, já combinou tudo com a filha e com a cunhada.

Vai oferece-los quando cortarem o bolo, ele fez questão que houvesse, embora o filho se tivesse rido e dito que era ridículo.

Está calado, Miguel, quando fizeres 25 anos de casado, vais engolir essas palavras! protesta o Pai.

CONTINUA


terça-feira, 28 de setembro de 2021

O ANIVERSÁRIO PARTE II

 

A Inês rasgou o trabalho de casa do Edgar, explica o Matias, ele ficou furioso, tem que o entregar amanhã. Queria bater-lhe, eu não deixei e ele deu-me um soco.

Escondo um sorriso, o Matias está ansioso, preocupado, mas a Carolina está muito séria.

É a maneira correcta de resolver as coisas? pergunta, talvez não, atalho, mas vamos tentar resolver o assunto da melhor maneira. Trata do nariz do Matias, eu vou conversar com o inimigo.

O Edgar está sentado numa cadeira no quarto, está de braços cruzados, muito sério. No meio do chão, estão umas folhas rasgadas, olho em volta, mas a principal suspeita deve estar escondida no quarto.

Então, Edgar, o que é que se passa? e o meu filho olha para mim, desesperado, oh, Pai, tenho que entregar o trabalho amanhã, foi tão difícil fazê-lo, vou ter má nota! diz.

Claro que não! Eu ajudo-te, qual é o tema? observo e o Edgar faz-me um resumo, ok, vamos ver o que podemos aproveitar... Ouve lá, porque é que não gravaste, não fizeste uma cópia?

O Edgar fica muito vermelho, esqueci-me, fiz à mão, depois passei para o computador e só dei conta quando imprimi! replica e eu suspiro.

Que isto te sirva de lição, faz sempre uma cópia, já te expliquei como podes fazer isso! e a cópia em papel, rasgaste-te? questiono enquanto aliso as folhas e o Edgar acena que sim.

O estrago não é muito, conseguimos refazer o trabalho e no fim, volto a frisar a importância das cópias.

Já sabes que a Inês está sempre a fazer isto! Guarda os trabalhos num local fora do alcance dela e faz sempre uma cópia! e o Matias, que entra nesse momento concorda.

Estou farto de lhe dizer isso, comenta, mas ele nunca escuta, e claro que está que o Edgar lhe atira uma almofada.

Calma! Não quero ouvir mais nada, nem uma gargalhada! e os dois rapazes calam-se, cama que já é tarde!

Quando chego ao quarto, a Carolina está deitada em cima da cama, de olhos fechados.

Estou tão cansada, não sei como vou conseguir manter os olhos abertos amanhã! exclama, como é que aquela miúda é capaz de desestabilizar tudo em segundos? 

Não sei, mas para ser franco, ainda bem que não é uma choramingas como o Miguel! Temos filhos originais e isso torna tudo mais interessante!

A minha mulher ri-se, ainda bem que o Pedro não está a ouvir, mas tens toda a razão, aquele miúdo é complicado!

CONTINUA

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

O ANIVERSÁRIO

 

Quem diria que amanhã faço vinte e cinco anos de casado? E que tenho cinco filhos? 

As pessoas fazem comentários engraçados, mas há quem diga que nos tempos que correm é uma irresponsabilidade.

Não vejo porquê, os meus filhos são felizes e eu e a Carolina não queríamos que as coisas fossem diferentes.

Claro que o nascimento da Inês foi uma surpresa, mas tivemos que nos adaptar como sempre fizemos.

Não foi uma viagem pacífica, nos dois primeiros anos tivemos que viver num apartamento dos meus Pais e pouco tempo depois de nascer o Miguel, a Carolina foi despedida.

Eu estava há pouco tempo numa nova empresa, tinha um contrato de seis meses e o ordenado da Carolina fazia falta.

A minha mulher não desistiu, começou a fazer trabalhos de decoração como freelancer, sempre posso gerir o meu horário, dizia e dois anos mais tarde, abriu a empresa.

Entretanto, eu fui promovido e conseguimos juntar dinheiro suficiente para comprar esta casa.

Nesse ano, nasceu o Matias e no ano seguinte, o Edgar. A Filipa e o Miguel já eram suficientemente crescidos para ajudarem com os irmãos e ambos desempenham esse papel muito a sério.

Ás vezes, penso que eles os controlam melhor que nós, confesso à Carolina na véspera do jantar de aniversário, tem dias, comenta a minha mulher, a Filipa fica um pouco ressentida porque tem que reorganizar a agenda, como diz e tenho que ter cuidado com os jogos do Miguel.... Podem ser um pouco violentos e os miúdos ficam muito agitados.

Ah, sim, concordo, noutro dia, tive que intervir, a D. Margarida estava a ficar louca com os gritos de guerra que vinham do quarto dos rapazes. Confrontei o Miguel e ele explicou que queria sair com os amigos e só o podia fazer se os irmãos ficassem suficientemente cansados para adormecerem logo!

A Carolina ri-se, tem uma certa lógica, admite, porque é que eu não me lembrei disso? diz e eu abano a cabeça.

Temos que organizar outro tipo de jogos, como respeito, consideração, humildade, enumero, creio que o Matias ainda não compreendeu isso e quando o Matias souber, o Edgar também aprende!

Somos interrompidos por novos gritos, não sabemos se são os rapazes ou a Inês que consegue ser uma verdadeira peste e assume sempre um ar de inocente.

Abro a porta da sala, grito, o que é que se passa aqui? Matias, apresente-se ao Comandante Supremo.

Ouço-os cochichar, estão a combinar a história, murmuro e cinco minutos depois, aparece o Matias.

A T-Shirt está rasgada, o cabelo todo despenteado, escorre um fio de sangue do nariz.

A Carolina solta um grito, o que é que aconteceu?

CONTINUA

domingo, 26 de setembro de 2021

A PROPOSTA FIM

 

Queres comer alguma coisa, Miguel? pergunta o Pai, o Miguel abana a cabeça, ok, lavar os dentes, fazer xixi e cama, diz o Pedro.

O Miguel obedece sem uma palavra, queres que te leia uma história? sugere o Pai, mas o miúdo vira-lhe as costas.

Valha-me Deus, repete o Pedro, está a ficar como a Laura. Tenho que falar com o médico e amanhã!

Mas a manhã corre mal, a Maria Rosa faz uma birra, o Miguel não quer tomar o pequeno almoço e o Pedro desespera.

Chegam atrasados ao infantário, o António telefona-lhe, há certos detalhes a esclarecer, pode passar pelo escritório dentro de quinze minutos? pede e o Pedro não hesita.

Passa parte da manhã com o António, declina o convite para almoço, tenho uma reunião com a Administração do Grupo, explica, depois falo contigo.

Vê que tem uma chamada do infantário, não tem tempo, se não conseguiram falar com ele, telefonam para a Beatriz ou para a Carolina.

Não pensa mais no assunto, tem muita coisa a resolver, é um dia muito longo, está exausto quando entra finalmente no carro para regressar a casa.

Vê o telemóvel, há uma série de chamadas da Beatriz, da Carolina, até da Teresa.

O que é se passa? e liga de imediato para a Beatriz, uma Beatriz muito nervosa que lhe grita, onde é que estiveste? Porque é que não atendeste o telemóvel? Não sabemos onde é que ele está...

Ele quem? interrompe o Pedro, sente um calafrio, é o Miguel, meu Deus! É o Miguel!

Vou já para aí, declara e arranca a toda a velocidade. O trânsito está caótico, o Pedro está desesperado.

Em casa, a Beatriz nem consegue falar e ao vê-lo, foge para o quarto.

É a Carolina quem resume a situação, foi à hora do lanche que deram conta que ele não estava, a educadora pensou que estava com a auxiliar no jardim e a auxiliar que estava com a professora na sala.

Deram logo o alarme, continua o Gustavo, mas como não o encontraram, avisaram as autoridades.

A Polícia? o Pedro tem que se sentar, o cunhado dá-lhe uma palmada amigável no ombro, aconteceu alguma coisa durante o fim de semana? Ele ficou com os avós, não ficou? Ele gosta de lá estar, não gosta? comenta o Gustavo.

A avó disse que ele estava estranho, que se isolou e nem brincou com os outros meninos, conta o Pedro, praticamente não falou comigo, até pensei em falar novamente com a psicóloga.

A Carolina e o Gustavo trocam um olhar, pensam exactamente o mesmo, será que o Miguel herdou as mesmas inseguranças e obsessões da Mãe?

Não dizem nada alto, mas têm a certeza que o Pedro também o pensa.

Ficam ali os três à espera de notícias e já passa das dez da noite quando tocam à campainha e entregam um Miguel muito sujo e muito zangado.

FIM


sábado, 25 de setembro de 2021

A PROPOSTA PARTE V

 

Pedro acaba por seguir o conselho do cunhado e marca um quarto num hotel perto do parque nacional que as irmãs recomendam.

A Beatriz fica um pouco contrariada, mas gosta do spa, da caminhada e do passeio de barco.

Estão os dois sozinhos, livres para conversarem, para rirem e simplesmente relaxar sem estarem preocupados com os miúdos.

O Miguel está estranho, diz a avó quando o vão buscar, isolou-se, não brincou com ninguém. Passa-se alguma coisa?

O Miguel tem medo do novo, não gosta de ver as rotinas abaladas, mas tens que aprender a lidar com isso, não é verdade, pá? responde o Pedro e a sogra suspira, será que o meu neto vai ser como a Mãe?

A Beatriz não diz nada, também já pensou nisso, mas nunca discutiu o assunto com o Pedro, ele fica um pouco perturbado.

A Maria Rosa faz uma festa quando vê os Pais, a Beatriz fica com ciúmes quando a Mãe lhe conta que a neta esteve sempre bem disposta, comeu e dormiu muito bem.

Isto prova que podemos ir para fora mais vezes, afirma o Pedro, nos próximos meses vou estar um pouco ocupado com a nova empresa, mas depois, vamos para fora uns dias, prometo.

Sempre vais avante com esse projecto? interrompe a companheira, tinhas tantas dúvidas, o que é que mudou?

O António está a analisar a proposta, há detalhes que ainda têm que ser discutidos, esclarece o Pedro, mas vou arriscar...Tem que ser agora ou será demasiado tarde...

Já pensaste nos miúdos? pergunta a Beatriz e o Pedro abana a cabeça, decerto que não querem um Pai medroso!\

A Beatriz cala-se, o Miguel escolhe esse momento para tirar a girafa à Maria Rosa que desata a chorar.

Felizmente, já estão a entrar na garagem do prédio e a Beatriz apressa-se a sair do carro, abre a porta.

Miguel, dá-me o brinquedo, pede, mas o miúdo olha-a com um ar tão furioso que a Beatriz desiste.

Trata do teu filho, murmura, pega na filha e sem olhar para trás, dirige-se para o elevador.

Porque é que fizeste isso, Miguel? Já te disse para não assustares a Maria Rosa! ralha o Pedro, o filho não responde, olha-o muito sério como se o estivesse a censurar.

Valha-me Deus, é mesmo parecido com a Laura! pensa o Pedro e entrega-lhe a mochila sem uma palavra.

O Miguel arrasta-a pelo chão, o Pedro não se atreve a dizer-lhe para não o fazer e os dois sobem silenciosos até casa.

A Maria Rosa já parou de chorar, as luzes estão todas acesas e o Pedro leva as malas para o quarto.

O filho fica parado no corredor, a segurar a mochila e muito calado.

CONTINUA 


sexta-feira, 24 de setembro de 2021

A PROPOSTA PARTE IV

 

A Beatriz não diz mais nada, o Pedro sente-se sufocado e resolve dar uma volta.

Acaba por bater à porta da irmã, o cunhado convida-o a entrar no escritório, aqui estamos sossegados, ninguém nos incomoda, confidencia.

Oh, pá, a minha sina parece ser conhecer mulheres neuróticas, desabafa o Pedro, primeiro foi a Laura com as inseguranças, depois foi a Guiomar que não queria ser " mãe" do meu filho e agora a Beatriz, uma psicóloga, alguém que teria uma mente mais aberta e atenta às necessidades dos outros, tem medo de deixar a filha com os avós.

O Gustavo sorri, não vou dizer que o meu casamento com a tua irmã é perfeito, diz, mas tanto eu como a Carolina aprendemos a encontrar um equilíbrio para proporcionarmos aos nossos filhos um lar tranquilo... se bem que rapazes e a Inês sejam uns revolucionários e ponham tudo em pantanas... mas o que quero dizer é que se não estivermos bem como casal, os miúdos percebem e o ambiente fica tenso...

Foi isso que lhe tentei dizer, observa o Pedro, mas desde que nasceu a Maria Rosa, a Beatriz modificou-se totalmente e isso confundiu-me...

O cunhado ri-se, tens mesmo que ir para fora uns dias, tens que a convencer a ir contigo, eu e a Carolina tentamos passar um fim de semana sozinhos de dois em dois meses... Também aprendemos a delegar... a Carolina também teve uma reacção parecida quando nasceu a Filipa, mas depressa concluiu que precisava de ajuda.

Lembro-me que eu e a Teresa fazíamos turnos quando a Filipa ficava em casa dos Pais, conta o Pedro, a Mãe tratava da alimentação, do banho, mas à noite, ficava connosco. Uma noite, a Teresa resolveu fazer a dança de ventre, a Filipa adorou e foi muito complicado convence-la que era hora de dormir... A propósito, como é que ela está?

Está a fazer o estágio, a gostar imenso, responde o cunhado, diz que gostam do trabalho dela, mas não sabe se a convidam a ficar quando terminar.

Ela pode vir trabalhar comigo, e o Pedro explica resumidamente os novos planos, não vai ser fácil, vou ser um patrão exigente, acrescenta, mas é capaz de a ajudar a perceber a dinâmica de uma empresa.

É um desafio e ela gosta de desafios, admite o Pai, tens que falar com ela, explicar-lhe tudo...

Claro que sim, e o Pedro suspira, sente-se mais relaxado. Vê as horas, oh, pá, já é tão tarde, é melhor ir-me embora, a Beatriz deve estar furiosa.

Pensa no que eu disse, marca o fim de semana, se for preciso à rebeldia da Beatriz, aconselha o cunhado, os teus Pais ou os da Laura ficam com o Miguel e com a Maria Rosa se for preciso.

CONTINUA


quinta-feira, 23 de setembro de 2021

A PROPOSTA PARTE III

 

António vai precisar de certos documentos, o Pedro entrega-lhe os que tem, já previa que os pedisse, explica com um sorriso.

Ok, vou fazer a minha análise, diz o cunhado, se precisar de mais alguma coisa, contacto-te e o Pedro volta a sorrir.

Levanta-se, tenho que ir para casa, a Beatriz está sozinha com os miúdos, desculpa-se e quer despedir-se da irmã.

A Teresa ainda está com dores de cabeça, mas a febre baixou e ela sente-se humana outra vez, comenta com um sorriso.

O irmão dá-lhe um beijo, telefono-te amanhã, promete e saí do quarto.

O António acompanha-o até à porta, porque não vais passar uns dias fora, recarregar baterias? sugere, estás a precisar disso e se vais assumir este cargo, tens que estar em forma. Fala com a Beatriz, os meus Pais ficam com o Miguel e os teus sogros vão gostar de estar com a Maria Rosa.

Tenho pensado nisso, mas a Beatriz rejeita a ideia, não quer estar muito tempo longe da Maria Rosa, afirma o Pedro, mas estamos muito cansados e a baby sitter despediu-se... Ainda não contratamos outra...

Mas isso é essencial, interrompe o António, pergunta à Carolina, até mesmo à Rita, elas devem conhecer alguém...

O Pedro acena que sim, aperta-lhe a mão e desaparece no corredor.

O António fica um pouco preocupado, suspira, vai ver o que a D. Conceição deixou para jantar.

A Teresa aceita a sopa e a salada de frutos, tenho sobretudo sede, exclama, mas tens que tomar o antibiótico, tens que comer qualquer coisa, responde o companheiro.

O que é queria o Pedro? pergunta a Teresa, está cansado, parece doente.

O companheiro faz-lhe um resumo do que se passa e a Teresa suspira, já podia ter falado comigo, eu posso indicar alguns nomes e mesmo a Beatriz! É médica, conhece imensa gente...Enfim, sem comentários...

Vamos esquecer os problemas do Pedro? Vamos concentrar-nos em ti? observa o António, pareces estar melhor...

Amanhã, já me levanto, diz, mas não vais trabalhar, interrompe o António de imediato, já falei com a Madalena, ela tem tudo controlado.

Odeio estar doente, repete a Teresa e o companheiro ri-se, vê se consegues dormir, não te preocupes com o teu irmão, ele vai ficar bem!

Em casa do Pedro, discute-se, a Beatriz não concorda com a ideia de irem para fora e deixarem os miúdos com os avós.

Não percebo qual é o teu problema! exclama o Pedro, o Miguel vai para a escola no próximo ano e a Maria Rosa fez cinco meses, até é bom que se habitue a estar com outras pessoas!

Mas vai chorar, a minha Mãe não vai saber como lidar com isso, grita a Beatriz e o Pedro levanta a mão.

Fala baixo, os miúdos ainda acordam e então, vamos ter problemas a sério, esclarece, estou cansado, preciso de descansar.

CONTINUA


quarta-feira, 22 de setembro de 2021

A PROPOSTA PARTE II

 

A tarde é mais produtiva, a Carolina avisa que a febre baixou e a Teresa comeu um pouco de canja e uma torrada.

Vou ter que me ir embora, diz a cunhada quando lhe telefona por volta das três, tenho uma reunião às quatro, mas a D. Conceição fica com ela até às seis. Podes estar em casa por volta dessa hora? Não te preocupes com os miúdos; já pedi ao Matias para os levar lá para casa.

O António suspira aliviado, prepara tudo para sair às seis. adia umas reuniões para o dia seguinte.

Já está a fechar o computador quando o Pedro lhe liga.

O Pedro parece cansado, é natural com um bebé pequeno e o Miguel continua a ter pesadelos, não está fácil, confessa quando o António lhe pergunta se está bem.

Eu lembro-me, não é que a Sofia e o Gonçalo não dormissem, mas estamos sempre sobressaltados, têm frio? têm calor? estão a respirar? responde o cunhado, mas o que é que se passa? A Teresa está doente e prometi estar em casa o mais tardar às seis e meia.

A Teresa doente? repete o Pedro, deve estar mesmo mal para ficar em casa. Mas se vais para casa, talvez eu posso passar por lá por volta das sete? Conversamos, bebemos uma cerveja....sugere.

O António concorda, o Pedro é pontual e os dois homens instalam-se na sala.

A febre da Teresa está estável, a D. Conceição deixa uma refeição leve preparada e o António está mais sossegado.

O que é a Teresa tem? pergunta, gripe que não se cura com medicamentos caseiros decerto, afirma e o António sorri, sabes como é a tua irmã! Cuida de todos, menos dela!

O Pedro ri baixinho, o António acha-o mais magro, está a precisar de um corte de cabelo e de uma saída com os amigos.

Então o que é se passa? Não deve estar relacionado com a Laura; falei com os meus Pais, ela continua na clínica, comenta o António.

O Pedro suspira, senta-se numa poltrona e diz, a minha empresa está a remodelar os departamentos, a proposta que me fizeram foi eu continuar a trabalhar com eles, mas numa empresa independente. Eles financiam-me, mas eu serei responsável desde a organização até à equipa de trabalho. Não deixo de trabalhar para eles, mas também posso fazer trabalhos para outras empresas.

Uma consultadoria? Faz parte do mesmo grupo, que continuará a ser o cliente principal, mas terá um estatuto diferente, repete o cunhado, parece-me uma excelente proposta, qual é a tua dúvida?

É uma oportunidade única, a Beatriz tem umas certas dúvidas, mas tenho que arriscar, explica o Pedro, precisa é da tua ajuda nas questões financeiras. Vou precisar de um contabilista...

CONTINUA

terça-feira, 21 de setembro de 2021

A PROPOSTA

 

A Teresa está com uma dor de cabeça horrível, sente frio e calor ao mesmo tempo e não consegue levantar-se da cama.

O António fica preocupado, a Teresa raramente está doente e para querer ficar hoje na cama, é grave.

Queres que chame um médico? Levo-te ao centro de saúde? Telefono à tua irmã? o António parece uma barata tonta, sem saber exactamente o que fazer.

A Teresa não consegue responder, doí-lhe tudo e por isso, o António telefona desesperado à Carolina.

A irmã diz que estará lá dentro de meia hora, não te preocupes, eu trato de tudo, leva os miúdos ao infantário, diz, se for necessário, ficam lá em casa esta noite.

O António respira fundo, prepara os filhos e precisa de toda a paciência do Mundo para convencer a Sofia a tomar o pequeno almoço.

Mas que é isso, Sofia? Que é que te deu hoje? pergunta o António, o Gonçalo acha piada e ri-se.

A Sofia atira-lhe com a colher, esta bate no copo e este tomba, espalhando o leite pela toalha e salpicando os jeans do Gonçalo.

Bonito, vês o que fizeste, Sofia? ralha o António, agora vou ter que limpar isto e mudar as calças ao mano.

A Sofia morde os lábios, onde é que está a Mãe? a Mãe é mais divertida que o Pai! pensa e desce da cadeira, pronta para ir à procura da Teresa.

Não, não, Sofia, o António adivinha o que a filha vai fazer, a Mãe está doente, não vás ao quarto dela! Além disso, estamos atrasados!

Felizmente a D. Conceição chega nesse momento e ajuda-o com os miúdos.

O António espreita a Teresa que voltou a adormecer. O companheiro tem a impressão de que está a respirar melhor, mas não tem a certeza.

Passa a manhã apreensivo, sempre a verificar o telemóvel, não vá a Carolina telefonar ou enviar um SMS.

À hora de almoço, o António já está desesperado, a Carolina telefona, não é nada de grave, explica, é uma gripe forte, consegui que o Tomás, aquele nosso amigo médico, lembras-te? passasse por cá.

A D. Conceição já foi comprar os medicamentos, fizemos-lhe uma canja, a ver se ela consegue comer, continua, quando estiver melhor. o Tomás quer que ela faça uma série de análises.

Não te preocupes, eu encarrego-me disso, interrompe o António, nem que seja necessário arrastá-la! A Teresa é muito cuidadosa com todos, mas descuida-se um pouco com ela.

A cunhada ri-se, é verdade! concorda, ah, o Pedro deve telefonar-te! Acho que tem uma proposta para te fazer, ele tentou explicar-me, mas a Inês e o Miguel fizeram tanto barulho que ninguém se entendeu!

CONTINUA

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

O CONFLITO FIM

 

O Gonçalo tem uma reunião fora, a Rita vai à consulta da Dra Lúcia, é uma boa ideia falares sobre tudo o que estás a sentir neste momento, diz o companheiro.

A Rita gosta de imediato da médica, é calma, boa ouvinte, até a leva a falar do ex-marido, o Raul.

Realmente não falas muito dele, comenta o Gonçalo ao jantar, há semanas que a Rita não está tão calma, sabes o essencial, responde a companheira, foi um casamento muito atribulado e felizmente, casei com separação de bens, caso contrário, seria muito complicado.

O Gonçalo não pergunta mais nada, é um assunto que ainda magoa e ele não quer que nada complique a relação entre eles.

O Bernardes regressa no dia seguinte, só a Madalena e o Gustavo estão no aeroporto quando o avião aterra.

A Madalena fica assustada quando vê a Matilde, alguém lhe deve ter batido, pois um dos olhos está inchado, fechado e um dos braços está engessado.

O Gustavo suspira, o olhar da irmã está vazio e parece que não o reconhece.

Mas??? a Madalena olha para o marido e este faz-lhe sinal para não dizer mais nada.

Têm que levar a Matilde para casa, já falou com a Dra Lúcia, esta vai lá ter a casa.

Depois decidem o que fazer, mas provavelmente, a Matilde terá que ser internada numa clínica especializada.

Tens a certeza que é a melhor solução? a Madalena está confusa, mas tanto o marido como o filho asseguram que é a melhor maneira de lidarem com a situação.

Ela pouco ou nada disse sobre o que aconteceu, confessa o Bernardes, não tenho certezas, suponho que bebeu até ao esquecimento, bateram-lhe, roubaram-na e depois abandonaram-na naquele hostel.

Achas que ela vai falar sobre o assunto? interrompe o Gustavo e o Pai encolhe os ombros, espero bem que sim...temos que lhe dar tempo!

O conselho que a Dra Lúcia lhes dá quando termina a consulta, a Matilde está bastante perturbada, vão ter que recomeçar e não há garantias que ela vença o trauma.

Ninguém dorme naquela noite, ninguém fala, todos têm medo.

Até a Clarinha olha a irmã confusa, porque a Matilde não é aquela pessoa apagada, desconfiada, que não suporta que lhe toquem.

FIM

sábado, 18 de setembro de 2021

O CONFLITO PARTE V

 

RITA, OH, RITA, grita a Madalena, encontraram-na!!!

Onde??? Como é que ela está? a Rita volta a sentar-se, não quer acreditar no que a irmã diz.

Escondida num hostel, completamente bêbeda, no meio de desconhecidos, conta a Madalena, o Bernardes diz que regressam assim que ela estiver em condições... oh, Rita, não sei onde é que falhei???

Cala-te, Madalena! a Rita não sabe verdadeiramente o que sente, se aliviada, se furiosa, não te atrevas a pensar nisso! Tem calma, respira fundo... sei que isto não é o fim, mas o principal está resolvido.

Conversam mais uns minutos, a Rita desliga e fica sentada mais uns minutos.

Se a Matilde estivesse à frente dela naquele momento, não sei o que lhe fazia, murmura, estúpida, estúpida! Nem acredito que é minha sobrinha!

O Gonçalo aparece nesse momento, tem uma dúvida acerca de um projecto, estranha vê-la assim tão calada, com o olhar fixo.

O que se passa, Rita? pergunta, aconteceu alguma coisa? Encontraram a Matilde?

Sim, encontram, ao que parece, completamente bêbeda, num hostel, explica a Rita, e a única coisa que a pobre da minha irmã diz, é onde é que falhou!!!! Acreditas nisto??? Sou capaz de lhe bater até que fique inconsciente!

A quem??? À Madalena? o Gonçalo está confuso, mas presume que a companheira fala da sobrinha,  A Matilde num hostel e bêbeda???? Pensei sinceramente que isto ia resultar, enganei-me!!!

Pois, eu também! confessa a Rita, o que é que aquela rapariga anda a fazer? O que é ela quer verdadeiramente da vida?

Não sei, não te posso dizer, responde o Gonçalo, mas ainda bem que está viva! Temos que estar  felizes por isso; o resto resolve-se...

Será que se resolve? interrompe a Rita, ainda não processei tudo...

Tem calma, vamos viver um dia de cada vez, aconselha o Gonçalo, mas agora conta-me tudo.

Mas a Rita tem pouco que contar, a irmã apenas sabe que a encontraram e que regressam logo que a Matilde estiver estável.

Ok, tento ligar ao Bernardes mais tarde, diz o Gonçalo, vamos almoçar? Não sei porquê, tenho uma vontade louca de comer uma francesinha!!!

Uma francesinha? Mas tu nem gostas de francesinhas!!! a Rita está espantada e ri-se, um riso solto, profundo.

O Gonçalo ri-se também, não resiste e beija-a loucamente.

CONTINUA

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

O CONFLITO PARTE IV

 

Talvez o ambiente estivesse um pouco tenso, na verdade, concorda o Gonçalo, mas daí a sermos inimigos... estás a exagerar!

Então, fala comigo! pede a Rita e o Gonçalo suspira, já disse tudo ontem à noite! Tens que encontrar uma forma de deixar a situação familiar em casa e concentrar nos objectivos da empresa.

Mas é isso que estou a fazer! insiste a Rita e o Gonçalo abana a cabeça, não, não estás e tivemos prova disso hoje! Notou-se que não estavas 100% concentrada no assunto, tiveste que consultar as tuas notas várias vezes e raramente fazes isso! explica.

Ficam os dois calados por uns minutos e depois, o Gonçalo continua numa voz mais suave, mais calma.

Também estou preocupado com a Matilde, repete, temos que dar todo o apoio possível à Madalena, mas não resolvemos nada estarmos constantemente em stress, a sentirmos culpados. Não estamos a ajudar ninguém! Até a Francisca se está a ressentir da forma como estás a agir. Está assustada, irritada, não dorme, não come bem!

Não vou dizer que não tens razão! admite a Rita, realmente não estou a lidar bem com a situação, não consigo descrever o que sinto, choque, culpa, revolta contra a Matilde por não saber aproveitar as oportunidades, não sei...

Também sinto isso tudo, e o Gonçalo senta-se ao pé dela, aperta-lhe as mãos, oh, querida, temos que continuar a viver, apoiar a Madalena a 100%, mas temos responsabilidades, obrigações, ok?

A Rita inclina-se, beijam-se profundamente e ficam mais uns minutos sentados.

A estagiária bate à porta, há uma chamada para o Dr, atende no gabinete ou passo para aqui? pergunta e o Gonçalo levanta-se, é melhor ser no gabinete, tenho lá os dados, diz e saí.

A Rita arruma os papeis, volta para o gabinete e tenta contactar a Dra Lúcia.

A médica não atende, deve estar com um paciente, pensa a Rita, tento mais tarde.

Nota, então como a secretária está desarrumada e nunca na vida o permitiu! Tenho mesmo que pôr a casa em ordem, murmura e começa a ler os processos.

Uma hora depois, já identificou os mais urgentes, que desculpa vou dar aos clientes? está indecisa quando o telemóvel toca.

Sobressalta-se quando vê o nome da irmã no écran, oh, Deus queira que tenham encontrado a Matilde!

CONTINUA

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

O CONFLITO PARTE III

 

O Gonçalo entra no quarto por volta das sete da manhã com a Francisca agarrada à mão.

Ainda não tomou o leite, diz sem um sorriso e fecha-se na casa de banho.

A Rita suspira, leva a filha até à cozinha, prepara-lhe o pequeno almoço.

Faz também café, forte como o Gonçalo gosta, mas o companheiro ignora, pergunta-lhe friamente se leva à filha ao infantário.

Sim, sim, responde e o Gonçalo beija a filha, não te esqueças da reunião às dez, avisa, é importante que estejas presente e saí.

Ontem à noite, discuti com o Gonçalo, confessa a Rita à irmã já no carro a caminho do infantário, até a Francisca está de mau humor!

Mas porquê? questiona a Madalena, não me digas que foi por causa da Matilde??? Oh. Rita, não podes deixar que isto atrapalhe a tua vida! A Dra Lúcia diz que a situação é complicada, mas não podemos perder o rumo...

Eu sei, em parte o Gonçalo tem razão, temos que cuidar da Francisca, explica a Rita, acho que vou seguir o teu conselho e também vou falar com a Dra Lúcia... Pareces estar mais calma...

Até vou trabalhar hoje, interrompe a Madalena, e depois vou buscar a Clarinha à escola e vamos até ao centro comercial, lanchar, ao cinema, fazer qualquer coisa que a anime... Ela está tão perdida como nós, precisa do carinho, da atenção da Mãe.

Pois.. e o Bernardes deu notícias? Têm alguma pista? O que é que aconteceu? repete a Rita, mas a Madalena não sabe mais nada.

Desligam, a Francisca não quer ficar, agarra-se à Mãe a chorar, mas a educadora fala-lhe num novo jogo, os amigos gritam a plenos pulmões, anda Francisca, vem ver, é bué fixe e a miúda entra.

 A Rita parte com um aperto no coração, quando chega o escritório, o Gonçalo está fechado no gabinete, a estagiária diz que pediu para não lhe passar chamadas.

A companheira hesita, não sabe se este é o melhor momento para falarem no que aconteceu ontem à noite.

Olha para o relógio, falta meia hora para a reunião, melhor tomar café e rever as notas.

Às dez em ponto, o Gonçalo bate à porta, Rita, estamos prontos, anuncia e nem espera por ela.

Tentam disfarçar a hostilidade entre eles durante a reunião, a Rita nota que o cliente os olha um pouco confuso.

Isto parecia um glaciar, comenta a Rita, o que é que o cliente terá pensado? A linguagem corporal também é importante e nós comportamos-nos como se fôssemos inimigos!!!

CONTINUA


quarta-feira, 15 de setembro de 2021

O CONFLITO PARTE II

 

A Madalena pouco diz sobre a conversa que teve com a Dra Lúcia, mas nota-se que está mais calma e até consegue dormir algumas horas sem interrupções.

Já a Rita dá tantas voltas na cama que acorda o Gonçalo.

Mas o que se passa? Sei que é complicado, afirma o companheiro, mas tens que dormir. Estás exausta e começa a reflectir-se no trabalho, na forma como lidas com a nossa filha...

Estás a dizer-me para esquecer que a minha sobrinha está desaparecida??? interrompe a Rita e o Gonçalo suspira.

Não, não estou a dizer nada disso, explica, estou a pedir-te para falares com alguém, encontrares uma forma de relaxar, essa ansiedade está a dar cabo de ti, da Francisca, de mim...

Encharcar-me de medicamentos? Estás doido, de certeza absoluta, comenta a Rita, elevando a voz.

Fala mais baixo, pede o Gonçalo, a Francisca está a dormir. Demorou imenso tempo para adormecer...

Isso, desculpa-te com a Francisca, não te importas com a nossa sobrinha, grita a Rita, o Gonçalo volta a suspirar, vai ser uma noite muito longa.

Claro que me importo com a Matilde, o Gonçalo fala calmamente, tentando controlar a fúria que sente, estou preocupado, estou ansioso, mas também sei que se não mantiver a cabeça fria, não a ajudo em nada!

A Rita suspende a respiração por um minuto, no fundo até sabe que o Gonçalo tem uma certa razão, mas insiste, não, não te importas com ela, repete.

O Gonçalo atira a almofada contra a parede, chega, Rita, não digas mais nada, exclama, tens que relaxar, assim não dá!

Porquê? Vais sair de casa outra vez??? provoca a Rita e o Gonçalo levanta-se precipitadamente da cama.

Esta conversa acabou, decide, vou dormir no quarto da Francisca, espero que penses em tudo que acabamos de discutir e tomes uma providência para resolver. Se não queres pensar em mim, pensa na nossa filha que não tem CULPA, e o Gonçalo acentua a palavra, do que aconteceu com a Matilde.

Pega numa almofada, olha-a tão friamente que a Rita recua e saí do quarto.

A Rita volta a deitar-se, não consegue conciliar o sono, desiste e afasta os reposteiros.

Fica a olhar a noite, a pensar em tudo o que foi dito e quando a manhã chega, decidiu já falar com a Dra Lúcia.

CONTINUA


terça-feira, 14 de setembro de 2021

O CONFLITO

 

O Gonçalo suspira, estava a planear este fim de semana há imenso tempo, só que com esta história da Matilde, a Rita não quer ir para lado nenhum, explica ao irmão.

A Teresa diz que a Madalena está histérica, incoerente, conta o António, não se sabe mais nada? Detalhes do que sucedeu?

Nada, o Bernardes foi até lá conversar com os colegas, estão a recriar os movimentos da Matilde naquele dia, diz o Gonçalo, mas até agora, não têm qualquer pista!

O que é que terá acontecido? Segundo a Teresa, ela estava muito feliz, concentrada no curso, pensávamos que ela tinha ultrapassado o problema, observa o António.

O problema estava controlado, corrige o Gonçalo, ela ainda era seguida pela psicóloga e frequentava as reuniões. Acho que eles lhe deram um contacto para ela continuar a frequentar as reuniões lá, o Bernardo diz que vai investigar... Sinto-me um pouco culpado, sabes? Insisti para que ela fosse...

Não tens que te sentir culpado! interrompe o António, a Matilde é que não soube aproveitar a oportunidade, não merece a confiança que lhe deram!

O Gonçalo volta a suspirar, sente-se culpado e a Rita também.

Que disparate! comenta a Teresa quando o António fala no assunto ao jantar, não é culpa de ninguém! E mesmo que haja culpas, temos que ultrapassar isso e encontrar uma solução!

Pode não ser fácil como isso, exclama o companheiro, estamos a falar de uma miúda com problemas!

A quem foi dada uma oportunidade, repete a Teresa, a Madalena contou-me que ela estava desesperada por voltar a viver sozinha e que discutiram imenso por causa disso. Não sei se foi uma boa decisão deixarem-na ir!

Para ser franco, não tenho a certeza de nada, interrompe o António, é uma miúda com problemas e acho que não os está a ultrapassar.

A Teresa concorda, lamenta a situação da Madalena, a vida familiar está complicada.

Entretanto, a Madalena resolve ir falar com a psicóloga, ela tem que me explicar, eu não entendo nada, explica à Rita, ela não te vai dizer nada, vai alegar sigilo médico/paciente, avisa.

Mas a Madalena não espera isso, quer falar com alguém que sabe mais sobre a filha do que ela.

CONTINUA


segunda-feira, 13 de setembro de 2021

CONVITE REVISTA RABISCA

 


Foi com imenso prazer que aceitei o convite da Revista Rabisca e participei com um pequeno conto policial.

Vai ser publicado agora em Setembro

Espero que gostem...

A PAIXÃO FIM

 

A família pensa o mesmo, embora a Rita ache que é uma boa oportunidade para a Matilde expandir os conhecimentos.

Eu e o Gonçalo conhecemos muita gente e ela pode ficar em casa de alguém, sugere a Rita, mas a irmã abana a cabeça.

Não sei, ela está a lidar com o problema aqui, num sítio novo, poderá sucumbir à novidade, experimentar outras coisas, responde, sei que é uma oportunidade única, mas não sei se ela está preparada para isso.

Nunca saberemos se não a deixarmos, intervém o Gonçalo, compreendo as tuas dúvidas, mas se recusares, também podes despoletar uma resposta negativa e voltamos à estaca zero.

O Gonçalo tem razão, Madalena, apoia a Rita, é uma decisão complicada, eu sei, mas como disse, perguntamos a um dos nossos clientes se conhece uma família onde ela possa ficar. Organizamos visitas regulares para ela saber que estamos presentes e ao menor sinal de preocupação, ela vem embora.

Matilde fica radiante quando sabe que a vão deixar viajar. 

Isto é uma prova de confiança, frisam os Pais, tens que aproveitar ao máximo a oportunidade que te estamos a dar, concentra-te no objectivo que é aprender, expandir os teus conhecimentos. Conhece pessoas, goza o momento.

Mas, atalha o Pai, basta um pequeno passo em falso e acabou-se.

A Matilde acena que sim, a Carolina também vai e um cliente da tia oferece a casa para ficarem durante o semestre de intercâmbio.

A Rita e a Madalena acompanham as raparigas, tão excitadas que de certeza absoluta se iam perder.

Gostam da família, visitam a Universidade e os arredores, pensam que não haverá qualquer problema.

Durante os dois primeiros meses, as notícias são óptimas e a Madalena começa a relaxar, estás a ver? não te disse que as coisas iam correr bem? repreende a Rita, a irmã suspira de alívio.

Até ao dia em que a Carolina telefona ao Meireles, nervosa, incoerente de tal forma que o Sargento tem dificuldade em a entender.

Respira fundo e conta-me tudo devagar, aconselha o Sargento e fica aterrado quando a amiga lhe diz que não sabe da Matilde há vários dias, já avisou a Polícia da Universidade, estes vão contactar a Polícia Nacional.

Tenho que dizer aos Pais dela, mas sinceramente, não sei como, soluça a Carolina e o Meireles diz para não se preocupar, ele tratará disso.

Contudo, quando chega a casa do Inspector Bernardes, os Pais da Carolina já lá estão bem como o Inspector Geral.

Já sabem, murmura o Sargento, recebi o telefonema há uma hora, achei melhor falar pessoalmente, diz o Inspector Geral.

Ficam todos em silêncio, os Pais da Carolina não sabem verdadeiramente o que dizer e todos pensam, o que é que aconteceu à Matilde?

FIM

domingo, 12 de setembro de 2021

A PAIXÃO PARTE VI

 

Porque é que me estás a evitar? a Matilde atira a pergunta para o ar, não dês a desculpa do trabalho, conheço isso bem demais!

Mas é a verdade! diz o Meireles pacientemente, Matilde, não sei bem como te dizer isto, mas eu não sou a pessoa adequada para teres uma relação. Sou mais velho do que tu, trabalho com o teu Pai...

Porque é que todos me dizem isso? interrompe a Matilde, estou cansada de ouvir isso!

Porque é a verdade e às vezes, custa-nos ouvir a verdade, responde o Sargento, convive com pessoas da tua idade, escuta o que têm para dizer, vais encontrar loucos na vida, não posso negar isso, mas no fundo, sabes como podes gerir isso. Compreendo que seja mais confortável ignorar isso, mas és uma pessoa inteligente, criativa e forte, repete o Meireles.

Forte? Há quem pense que sou fraca, observa a Matilde e o Meireles abana a cabeça, pediste ajuda, enfrentaste o problema e olha onde estás agora! explica.

A Matilde sorri, não foi, não está a ser um percurso fácil, admite ao Meireles que pensou seriamente em beber antes de lhe bater à porta.

Mas não o fizeste! observa o Meireles, anda lá, tenho que almoçar qualquer coisa. Queres que te deixe na Universidade?

Não, no escritório da Rita, já estou atrasada, pede a Matilde, e agora o que acontece? pergunta enquanto esperam pelo elevador.

Continuamos amigos. podemos almoçar de vez em quando, vou gostar de saber as novidades, brinca, e posso sempre verificar o passado dos teus namorados!

A Matilde ri-se, dá-lhe uma palmada no braço e quando entram no carro, está já a explicar o projecto em que está a trabalhar.

Se tiver uma boa nota, o professor acha que posso fazer um estágio numa universidade estrangeira, concluí e o Meireles fica apreensivo.

Será uma boa ideia viver no estrangeiro por uns tempos com um problema que não está ainda resolvido?

CONTINUA

sábado, 11 de setembro de 2021

A PAIXÃO PARTE V

 

No dia seguinte, a Matilde está irritadiça, não dormiu bem, diz à Carolina e as aulas da manhã foram muito exigentes.

Á hora do almoço, a Carolina fica preocupada, a Matilda olha longamente para uma cerveja, mas depois escolhe um Ice Tea.

O Meireles não tem aparecido, está cheio de trabalho e o teu Pai não está nada satisfeito, desculpa-se e a Matilde desconfia que ele não está interessado em continuar a relação com ela.

O Meireles continua apaixonado, mas está cada vez mais convencido de que não é a pessoa certa para ela, a Matilde deve conhecer, sair com alguém da mesma idade, com os objectivos semelhantes, explica ao irmão.

Diz-lhe, aconselha o irmão, encontra uma forma gentil de lho dizer e o Meireles encolhe os ombros, já lho disse e ela desvalorizou o assunto. Ainda por cima, é filha do meu Inspector! suspira.

Por isso, continua a desculpar-se com o trabalho, saí tão tarde que o Bernardes exige que tire dois dias de folga, pois precisa de um Sargento concentrado, observa.

O Sargento está indeciso, talvez seja uma boa ideia ir para fora, há algum tempo que não visita os Pais, mas está tão cansado que adormece e acorda muito tarde.

Perdi metade do dia, lamenta-se, mas nem tudo está perdido, pode almoçar num café perto do rio, fazer uma boa caminhada pelos passadiços do parque e telefonar a uns amigos, desafiá-los para uma jantarada.

Quando abre a porta, encontra a Matilde no hall, uma Matilde furiosa, com o olhar e o sorriso fechado.

O que estás aqui a fazer, Marilde? pergunta, como é que soubeste que estava em casa? o Meireles fica aborrecido, não podes vir a minha casa sem avisar!

Temos que falar! afirma a Matilde, só tenho uma pergunta a fazer!

Qual? repete o Meireles, está a ficar desesperado porque nota que a Matilde está muito nervosa e ele não tem a certeza de que saberá como lidar com ela.

CONTINUA


sexta-feira, 10 de setembro de 2021

A PAIXÃO PARTE IV

 

O Meireles responde ao SMS da Matilde, não, não se podem encontrar esta noite, está muito ocupado.

O Inspector Bernardes repreendeu-o naquela manhã, o que se passa, Meireles? Sempre tão atento ao detalhe e não investigou esta dica? pergunta e o Sargento apenas pediu desculpas.

O Inspector tem razão, não estou concentrado, estou atrasado com os relatórios, pensa e decide ficar a trabalhar até mais tarde.

Entretanto, a Matilde fica em casa da Carolina, estão a terminar um projecto e estão muito satisfeitas com o resultado.

A tua tia deu-nos boas dicas, observa a Carolina, espero é que o Professor gosta.

Gosta de certeza, afirma a Matilde, ele diz para sermos criativos e nós falamos com alguém que trabalha na área há vários anos e que está ao corrente das novas tendências!

A Carolina sorri, estás muito bem disposta! Aconteceu alguma coisa de especial? e a Matilde volta a ficar corada.

Estou interessada em alguém...já o conhecia, mas ainda não tinha olhado bem para ele, confessa.

Eu conheço? a Carolina está curiosa e apreensiva ao mesmo tempo, sabe muito bem o que aconteceu nas relações anteriores.

Não sei... Ele trabalha com o meu Pai, é sargento na Brigada, conta a amiga e a Carolina deixa escapar um oh espantado.

Matilde, ele é muito mais velho que tu! Tem outra experiência de vida e além disso, se o teu Pai sabe, não vai ficar nada satisfeito, comenta.

A Matilde suspira, parece que estão todos contra ele, não fizemos nada, só nos encontramos para almoçar ou jantar, ele nem me deixa ficar em casa dele muito tempo! explica.

Tem a cabeça no lugar! Estou bem impressionada com esse Sargento! desabafa a Carolina e tenta desviar o assunto, nota que a Matilde está a ficar irritada.

Terminam o projecto, fazem uma pequena ceia na cozinha e só se deitam porque a Mãe da Carolina lhe diz que passa das duas da manhã.

A Matilde não dorme bem, os comentários do irmão, da Carolina ocupam-lhe a mente e no fundo, ela sabe que eles têm razão.

Só que o Meireles é diferente dos outros rapazes que conhece, e lá porque um foi violento e o outro um imbecil, não quer dizer que os restantes o sejam, observa, conhece as pessoas, deixa que te conheçam, aconselha a Rita.

Foi o que aconteceu contigo e com o Gonçalo? a Matilde quer saber e a Rita ri-se, eu e o Gonçalo foi amor à primeira vista e foi a loucura total!

CONTINUA



quinta-feira, 9 de setembro de 2021

A PAIXÃO PARTE III

 

A Matilde segue o conselho do Meireles, telefona ao irmão e este aceita logo o convite para almoçarem juntos, às sós, frisa a rapariga, sem Pais e sem Clarinha!

Oh, tolinha, achavas mesmo que estava zangado contigo? desabafa o Gustavo, fiquei irritado, confuso, não vou negar, mas NUNCA na vida te afastaria!

A Matilde sorri, todos me dizem isso, confessa e o irmão dá-lhe uma palmada amigável nas costas.

Bem sei que a vida pode parecer absurda, triste, cansativa, diz o Gustavo, mas temos que encontrar uma forma de a enfrentar e não vais encontrar qualquer resposta no álcool e quanto a namorados...olha, esquece e avança para outra.

Dito assim, parece que é fácil, responde a Matilde e o irmão abana a cabeça, não é, pensas que nunca tive dúvidas, que as coisas nunca me correram mal? Claro que sim... concentrei-me no trabalho, no meu filho...

Achas então que sou fraca? repete a Matilde e o Gustavo apressa-se a esclarecer.

Não, não, podias ter falado comigo, com a tia Rita, há muita gente que te pode apoiar, bastava teres pedido! Mas o que é importante agora é que aprendeste a lição, estás a lidar com a situação, os Pais estão muito contentes.

Mas não me deixam viver sozinha! comenta a irmã, é natural, acabaste numa cama de hospital e só aí é que enfrentaste o problema e pediste ajuda, recrimina o Gustavo.

O Meireles também diz isso, e a Matilde fica muito vermelha, não queria falar sobre ele.

O Gustavo fica desconfiado, tens falado com o Sargento? insiste e a Matilde suspira, não vale a pena negar.

Sim, encontrei-o no shopping um dia deste e ele ofereceu-me o jantar. Vejo de vez em quando, explica.

Só de vez em quando? Tem cuidado, Matilde, ele é mais velho do que tu! observa o Gustavo.

Não te preocupes! É um bom amigo, é uma pessoa interessante, gosto de conversar com ele, afirma e o Gustavo não diz mais nada.

Vai estar atento, há qualquer coisa que ela não me está a dizer, conta ao Bernardo mais tarde.

Achas que se está a apaixonar por ele? pergunta o Bernardo, o Meireles é um homem com uma certa experiência, vai saber como lidar com ela.

Espero bem que saiba! Não quero que a Matilde volte a entrar numa espiral destrutiva! replica o amigo.

O Bernardo encolhe os ombros, a Matilde está a demonstrar força de vontade, tem a certeza de que vai tomar a decisão certa quando for o momento.

CONTINUA

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

A PAIXÃO PARTE II

 

A médica gosta do que está a ouvir, a Matilde está mais entusiasmada, concentrada no curso e até participa activamente nos projectos da Tia Rita.

O que está a preocupar um pouco é a ligação amorosa com o Sargento Meireles, a idade pode ser uma desvantagem, o facto dele ser um subordinado do Pai complica a relação ainda mais.

Quando a Matilde lhe conta que ele não a deixou ficar em casa dele, a médica aplaude mentalmente a atitude do Sargento, um homem com princípios e valores, pensa.

Alto, diz, o Sargento tem toda a razão, não se precipite, Matilde, goze o momento e sobretudo, lembre-se... às vezes, é melhor ter uma amizade profunda do que uma relação maldita.

Foi exactamente isso o que o Meireles disse, exclama a Matilde e despede-se. 

A próxima consulta será dali a quinze dias, a médica acha que brevemente as consultas poderão ser mensais, se continuar a frequentar as reuniões, manter a rotina de estudos, claro está, frisa.

A Matilde promete, a vida está a correr bem e ela sente-se livre.

Os Pais também estão satisfeitos, ainda acham que ela deve ficar mais uns tempos lá em casa, embora a Matilde já tenha tentado convencê-los a deixá-la viver sozinha com uma amiga.

Não, ainda é muito cedo, explica o Pai, tens que merecer novamente a nossa confiança. O que aconteceu foi muito duro para a família; tens que compreender isso.

A Matilde fica amuada, mas quando discute o assunto com o Meireles, este também concorda.

Prova que estás apta a viver sozinha, aconselha, e quando fores viver sozinha, não cometas excessos. Podes gozar a vida sem álcool ou amigos tóxicos!

A Matilde fica corada, então, o Pai contou-lhe, pensa, mas o Meireles é uma pessoa discreta, depreendeu o que aconteceu pelos rumores que ouviu, mas nunca discutiu o assunto com o Inspector Bernardes.

Não vamos falar disso, repete, é um assunto privado, só quero dizer que estás a ter a atitude correcta para ultrapassar a situação.

A Matilde suspira, não se lembra de tudo o que aconteceu, apenas da vergonha, do desapontamento dos Pais, das palavras duras do irmão.

Tem realmente que merecer a confiança deles, principalmente do Gustavo.

Preciso de falar com o meu irmão, confessa, há muito tempo que não temos uma conversa franca... Mas ele ficou muito magoado com o divórcio, tenho medo...

Ora, és irmã dele, interrompe o Meireles, tens que ser franca com ele, abrir o jogo... se calhar, ele está à espera que o faças. Anda lá, telefona-lhe....

Não sabia que eras tão bom a dar conselhos, troça a Matilde, mas o Meireles abana a cabeça, vejo coisas muito sujas no trabalho, mas também sei que há revelações importantes em momentos complicados. O Gustavo deve ter ficado chocado, foi bruto, mas deve estar arrependido, não sabe como atravessar a ponte...

Eu tenho que o ajudar? pergunta a Matilde.

CONTINUA


terça-feira, 7 de setembro de 2021

A PAIXÃO

 

O Sargento Meireles está apaixonado.

Tão apaixonado que está a ter dificuldades em se concentrar no trabalho e logo agora que o caso em aberto é complicado, o Inspector Bernardes está mais exigente que nunca.

Contudo, o maior problema é que a rapariga por quem se apaixonou é a Matilde, a filha do boss e com menos quinze anos que ele.

Além disso, o Meireles sabe que a Matilde teve relações complicadas, quer que ela se sinta confortável com ele, que pode confiar nele.

E confio, diz a Matilde, não compreendo é porque estás com tantas dúvidas!

Trabalho com o teu Pai, explica o Meireles, sou mais velho que tu e não te quero forçar a nada!

Não me estás a forçar a nada, responde a Matilde, sei muito bem o que são relações tóxicas, tu também te deparas com situações idênticas no trabalho... acho que saberemos contornar os obstáculos!

E os teus Pais? insiste o Meireles, não vão gostar da relação, porque sou mais velho e trabalho com o teu Pai. Depois, tenho um horário verdadeiramente louco...

Mas estou habituada a isso, interrompe a Matilde, o meu Pai é Inspector...Falhou tantos jantares, reuniões de família, aniversários, etc que só o conheci verdadeiramente quando teve o ataque cardíaco e ficou uns meses em casa!

O Meireles sorri, gosta da sinceridade da Matilde, do frescura do riso... 

Achas que posso ficar em tua casa hoje? pergunta a rapariga e o Meireles fica surpreendido.

Fica calado por uns minutos, a Matilde beija-o na boca, ele corresponde, mas depois afasta-a.

É melhor não, replica, vamos esperar mais algum tempo, não quero que te arrependas!

Oh, não te preocupes com isso, repete a Matilde, eu já tive relações, uma delas foi bastante violenta! Não me vais agredir; não és esse tipo de homem!

A franqueza, o à-vontade da Matilde surpreende-o, volta a sorrir, sim, não sou homem de agredir mulheres, nem mesmo quando são culpadas de crimes! comenta, mas não, não vais ficar comigo esta noite! Vou levar-te a casa!

A Matilde atira-lhe uma almofada, chato! troça.

CONTINUA


segunda-feira, 6 de setembro de 2021

O CLUBE DOS MIÚDOS FIM

 

O discurso do Edgar é tão incoerente que nem a Inês o compreende.

Vocês são uns mafiosos! remata o irmão, e eu vou ter a minha vingança! Preparem-se que vai ser terrível, vão desejar não ter nascido!

Mas que disparate é esse, Edgar? a Mãe ouviu a última parte do discurso e não está nada satisfeita.

A Inês engole em seco, é melhor não dizer nada, a voz da Mãe é fria, cortante, não se pode contrariar.

Esta confusão com a T-Shirt termina aqui, levanta a mão quando o Edgar tenta protestar, eu disse que não quero saber! Vão ficar todos de castigo, mesmo os mais pequenos! Inês, o que é que eu disse? Vão jantar, não quero ouvir uma palavra que seja! Não há história depois do jantar, não há jogos de computador, as luzes...apagam-se às nove e meia sem excepção! anuncia.

O que é que se passa aqui? pergunta o Matias, acaba de chegar, teve treino de voleibol.

Nem uma palavra! repete a Mãe, e Matias, acrescenta, estás calado ou sofres a mesma sanção!

Eu? diz o Matias, eu acabo de chegar! Sei lá o que estes idiotas fizeram!

NA CAMA ÀS 09H30! decide a Mãe e afasta-se, deixando os miúdos de boca aberta.

E, agora? quer saber a Sofia e a Inês suspira, temos que obedecer, caso contrário, o castigo ainda vai ser pior, sussurra.

O Edgar e o Matias fecham-se no quarto, os miúdos ouvem a discussão, o Edgar a tentar justificar-se e o Matias a acusá-lo de ter " estragado os meus planos".

A D. Margarida aparece, então, estamos de castigo? Que pena! Portem-se bem, até amanhã! despede-se.

Não sei se vou conseguir adormecer sem ouvir uma história! lamenta-se o Gonçalo, devíamos ter pensado noutra coisa para fazer!

Deixa de ser tão pessimista! Temos é que estar unidos! recrimina a irmã.

A Inês não diz nada, já está a pensar numa outra partida para pregar aos irmãos, também ela está zangada por ter que estar calada ao jantar e ficar sem a história, logo agora que está num ponto tão interessante.

O Edgar faz umas vozes absurdas, mas o Matias parece que está num palco, desempenha com eloquência as várias personagens e hoje, é a vez dele ler a história.

A Inês sente-se frustrada, porque é que a Mãe a castigou também? e tudo por culpa do Edgar.

Quase não dorme a pensar numa forma de se vingar do irmão e no dia seguinte, explica aos primos o que vão fazer.

Mas, desta vez, os primos dizem que não vão participar; afinal, o Edgar não lhes fez nada, não têm que o castigar.

A Inês fica furiosa, arma uma cena, as educadoras põem-na de castigo, mas tanto a Sofia como o Gonçalo sabem que ela não vai desistir.

Porque é que não são amigos como nós? o Gonçalo está confuso e a Sofia abana a cabeça, mistérios que nunca entenderemos.

E tudo aconteceu por causa de uma T-Shirt, o que é um perfeito absurdo!

FIM


domingo, 5 de setembro de 2021

O CLUBE DOS MIÚDOS PARTE V

 

Estamos fritos! diz o Gonçalo quando estão sozinho, não vamos ter qualquer hipótese!

Cala-te! Não digas disparates, recrimina a Inês, vamos encontrar uma solução, porque o Edgar não vai vencer! afirma com tanta veemência que os primos olham-na com algum medo.

Claro, claro que não vai vencer, reage finalmente a Sofia, o que é que pensas fazer?

Mas antes que a Inês responda, ouve-se um grito pavoroso.

Os miúdos saem imediatamente do quarto, encontram a Filipa parada no meio do corredor, tão surpreendida como eles.

Na cozinha, o Edgar e a D. Margarida discutem vivamente, se a T-Shirt está na máquina, foi porque o Edgar a pôs no cesto para lavar, afirma a governanta.

Não, não, afirma o Edgar, ela estava limpa! A Inês escondeu-a!

Olha que disparate! Acha mesmo que a sua irmã ia esconder a T-Shirt e logo aqui? interrompe a governanta, pense melhor e agora faça o favor de me deixar trabalhar.

Mas é verdade, insiste o Edgar, mas a Filipa interrompe-o, acaba com isso, Edgar, por amor de Deus, vê se deixas de te comportar como um imbecil!

EU NÃO SOU UM IMBECIL! grita o Edgar e a irmã aperta-lhe o ombro de tal maneira que o Edgar faz um esgar de dor.

Isto acaba de provar que és um imbecil! observa a Filipa, pensa bem no que acabas de fazer! Tudo por causa de uma T-Shirt! Francamente, Edgar, tem cuidado quando escolhes as tuas batalhas!

Os três miúdos seguem atentamente a troca de palavras, adoram ver o Edgar atrapalhado.

Contudo, quando ouvem a Filipa perguntar pela Mãe, decidem fugir novamente para o quarto.

Têm quase a certeza de que o Edgar vai aparecer por lá, descarregar neles o mau-humor, mas a Inês não está nada preocupada.

Basta gritar pela Mãe, explica, a Mãe não tem paciência para as palermices dele, já a ouvi dizer isso várias vezes. Por isso, não, não estou preocupada, repete.

Ouvem passos apressados no corredor, o Gonçalo abre à pressa um livro e finge que lê.

A Sofia não sabe bem o que fazer, vê umas bonecas fora do sítio e resolve arrumá-las.

A única que está calma e recebe o Edgar com um sorriso maroto é a Inês.


CONTINUA