sexta-feira, 30 de abril de 2021

A EXPLICAÇÃO - PARTE II

 

Quero que fales com o Pedro, desabafa a Laura, quero que lhe digas que é absurdo ter as visitas ao Miguel controladas e ter que ter aquela estúpida da baby sitter sempre presente, desabafa, quero levar o Miguel para a Maiorca, mas ele diz não, fica na quinta contigo e com os avós. É um absurdo! repete.

Foste tu que causaste isto tudo com os teus ataques de loucura, observa o Gonçalo, ele apenas protege o filho e já que falas na baby sitter, onde é que ela está? Supostamente, não deves ficar sozinha com o Miguel!

Ah, o tom de voz da Laura é descontraído, estávamos na confeitaria, pedi-lhe para ir pagar e escapuli-me.

O Gonçalo suspira, valha-me Deus, que mal fiz eu para me calhar esta maluca como irmã! pensa e procura o telemóvel.

O que é que vais fazer? pergunta a irmã quando o vê com o telemóvel na mão, vou ligar ao Pedro, o que é que pensaste? responde o Gonçalo, o homem deve estar doido a tentar descobrir onde estás! Tu não regulas bem!

NÃO! grita a Laura e a Rita, que está na cozinha com o Miguel a tentar que ele coma alguma coisa, assusta-se.

Não sabe bem porquê, mas levanta-se e tranca a porta. Nem dois segundos depois, sente alguém mexer no puxador.

ABRE A PORTA! exige a Laura, mas o Gonçalo que a seguiu pede, Rita, está sossegada, tenta acalmar o Miguel, abre a porta quando eu te disser.

A Laura senta-se no chão, começa a chorar, ninguém me compreende, sou uma desgraçada! exclama e o Gonçalo tem que se conter para não lhe bater.

O Pedro atende ao primeiro toque, suspira de alívio quando o cunhado lhe conta que a Laura está em casa dele, estou aí dentro de dez minutos.

A Laura continua a chorar, o Gonçalo telefona ao irmão, oh, pá, é melhor vires! Não aguento esta louca sozinha, ainda cometo uma loucura e vais ter que me visitar à prisão! confessa.

O António não diz nada e chega poucos minutos após o Pedro, ficam os três a olhar para a Laura sentada no chão do corredor.

É melhor ajudar a Rita com o Miguel, pede o Pedro à baby sitter que está visivelmente perturbada com os acontecimentos e o Gonçalo bate na porta da cozinha, podes abrir, Rita, é a baby sitter.

O António pega no braço da irmã, obriga-a a levantar-se e a entrar na sala, que loucura é esta? Queres explicar-me? Os Pais estão doidos à tua procura, praticamente raptas o teu filho, questiona.

A Laura encolhe-se e opta por ficar calada, mas o António insiste, fiz-te uma pergunta, quero uma resposta! Já viste o que fizeste? Deste cabo do meu fim de semana, do Pedro, do Gonçalo!

Laura, tens que te controlar, interrompe o Pedro, caso contrário, terei que dizer que não podes ver o teu filho mesmo acompanhada, que és um perigo! É isso que queres?

A ex-mulher encolhe os ombros, já decides tudo em relação ao miúdo! resmunga e o Pedro suspira.

Porque tu não és coerente e eu tenho que me assegurar que o Miguel cresça num ambiente saudável, explica.

CONTINUA

quinta-feira, 29 de abril de 2021

A EXPLICAÇÃO

 

Tenho saudades do Clube, queixa-se a Rita naquele domingo.

Ela e o Gonçalo saíram com uns amigos, a noite durou até às tantas e acabam de se levantar.

Porquê? pergunta o Gonçalo concentrado a fazer a omolete e a Rita suspira.

A Aída foi promovida, continua, o Nicolau está ocupado com as palestras, os seminários e tanto o Major como o António estão interessados na nova vida que têm. Não me interpretes mal, ainda bem que conseguiram estabilizar a vida, mas o Clube deixa de ser tão importante, acrescenta.

As pessoas definem outras prioridades, observa o Gonçalo, mas tu também tens novas prioridades e estás feliz com isso.

Estou a falar de coisas fora da órbita profissional, protesta a Rita, sinto falta dos debates, dos Mapas que o Major fazia para demonstrar as batalhas, até mesmo dos comentários irónicos do Bernardo.

O Gonçalo fica pensativo, pousa o prato com a omolete em frente da Rita e diz, sentes falta de um filho?

A Rita olha-o surpresa, podemos tentar, comenta o Gonçalo, sei que nunca falamos nisto, mas talvez esteja na altura de o discutir.

Não sei, confessa a Rita, nunca quis ter filhos enquanto fui casada com o Raul, ele era muito instável e o assunto parecia tabu contigo.

Não é prioritário, admite o Gonçalo, adoro os meus sobrinhos, mas o importante para mim era e é estar com a mulher que amo verdadeiramente! Por isso, faço o que tu quiseres... Queres ter um filho?

Mas antes que a Rita responda, a campainha toca violentamente.

Quem será a esta hora e ao domingo? Aconteceu alguma coisa aos miúdos? pensam e o Gonçalo apressa-se a abrir.

No patamar, está a Laura a segurar um Miguel muito zangado.

Olá, posso entrar? e entra sem esperar resposta. Mal cumprimenta a Rita, despe o casaco, atira-o sem cerimónia para cima do cadeirão.

O Miguel fica sentado no hall a choramingar. A Rita tem pena dele, levanta-o e leva-o para a cozinha.

Se bem conhece a Laura, esta deve ter-se esquecido de lhe dar de almoçar.

O Gonçalo fica de pé na sala e espera que a irmã fale.

Como ela permanece calada, pede uma explicação e verdadeira, pede.

CONTINUA

quarta-feira, 28 de abril de 2021

O DIÁRIO DE MEIRELES - FIM

 

O Inspector escuta-me atentamente e quando termina, diz, confirmam-se as suspeitas, terei que discutir o assunto com a Chefia para saber como proceder, acrescenta, quando é que tem que dar uma resposta?

Suponho que na terça, quarta-feira, esclareço, ficou de me telefonar.

Ok, obrigada, Meireles, observa o Inspector, tenho que consultar a Chefia. Até lá, nem uma palavra! Nem ao Mateus, nem ao Fonseca! repete.

Aceno que sim, que compreendi e despeço-me.

Suspiro aliviado quando entro no carro, até ligo o rádio para descontrair, a Cláudia é que não deve estar muito satisfeita, sussurro, terei que a recompensar de alguma maneira.

Depreendo que é nessa altura (descobrirei anos mais tarde) que o Inpsector Bernardes liga ao Chefe da Brigada e lhe conta resumidamente a conversa que teve comigo.

Então, o Tavares está preocupado com esse caso, exclama o Chefe, era o que suspeitávamos, quem é que ele quer proteger? Qual é a ligação que ele não quer que se investigue?

Não conheço bem o caso, terei que o estudar, afirma o Bernardes, posso ir amanhã ao arquivo e investigar.

Ok, mas não o leve para a sua Brigada, aconselha o Chefe, o Tavares está já em contacto com o seu sargento, se lhe contou a conversa, é porque não caiu no estratagema, ainda!

Nada de informações relevantes? pergunta o Bernardes, nenhumas! responde o Chefe, vamos considerar o caso como concluído por falta de provas, deixe que o Sargento diga isso ao Tavares e vamos vigiá-los. Aos dois!

Mesmo o Meireles? repete o Bernardes, mas porquê? mas o Chefe não comenta e desliga.

Por curiosidade, no dia seguinte, abro o ficheiro que o Inspector Tavares pediu e leio que a conclusão é "concluído por falta de provas".

Acho estranho, falo com o Inspector Bernardes que apenas encolhe os ombros e murmura qualquer coisa como " está aí a sua resposta!".

Olho-o atentamente, está a ocultar-me informações, não têm a certeza de que podem confiar em mim, mas porquê?

Decido não dizer nada, ignoro até as chamadas do Inspector Tavares, mas começo a vigiar o Inspector Bernardes tão atentamente como sei que ele me vigia.

Depois, talvez peça a transferência para outra Brigada.


FIM



terça-feira, 27 de abril de 2021

O DIÁRIO DE MEIRELES - PARTE V

 

A conversa demora cerca de dez minutos, o Inspector quer saber detalhes sobre uma operação que não é da nossa brigada, " mas implementaste o sistema de arquivo, deves saber como o contornar. Pagamos bem! Tens dois dias! e desliga.

Fico a olhar para o écran com ar de idiota como descreve a Cláudia quando entra na sala, admirada por não ter tomado ainda duche, é para isso que temos duas casas de banho, sabes, diz.

Não sei o que pensar, não sei o que fazer e a questão mais importante é, porquê eu?

Sou vulnerável, fraco? Não estou com a corda na garganta, trabalhamos os dois, os meus Pais têm dinheiro.

A razão principal é realmente a que o Inspector Tavares apontou: implementei o sistema de arquivo, posso aceder facilmente e não deixar rasto.

Mas valerá a pena? Posso ir para a prisão ou ter que fugir para um País estrangeiro, é isso que quero?

Claro que não, decido enquanto dou voltas e mais voltas na cama e a Cláudia acorda, pergunta, o que é que se passa contigo?

Este domingo, almoçamos em casa dos meus Pais, os meus irmãos, as mulheres e os filhos estão presentes, é um almoço divertido, barulhento, mas eu não consigo participar.

O que é que se passa contigo? perguntam os homens da família quando nos sentamos no jardim, problemas no trabalho, estou realmente preocupado, tenho que tomar uma decisão e não consigo, confesso.

Acho que já a tomaste, observa o Pai, ou não estarias tão nervoso! e os meus irmãos concordam.

O que tenho que fazer é telefonar ao Inspector Bernardes, expor-lhe a situação e decidirmos o próximo passo.

Se o Inspector Bernardes fica admirado por receber uma chamada do subordinado num domingo à tarde, não diz nada.

Há um café aqui perto da minha casa, podemos encontrar-nos lá, comenta quando lhe digo que o assunto é " delicado e não devemos falar na brigada", ou melhor ainda, venha cá a casa, estamos mais à vontade.

A Cláudia não fica nada satisfeita quando a deixo em casa, ter uma reunião com o Chefe ao domingo à tarde francamente!, protesta.

Eu estou nervoso, tão nervoso como um miúdo que começa a escola, mas o Inspector não é nenhum papão.

Impõe apenas respeito!

CONTINUA

segunda-feira, 26 de abril de 2021

O DIÁRIO DE MEIRELES - PARTE IV

 

Não consigo pesquisar nada sobre a Casa Pirata quando regresso ao gabinete; o Mateus tem uma pista nova que o Bernardes considera relevante para o caso e passamos a tarde a confirmar os detalhes.

É o nosso fim de semana de folga, chego a casa extenuado, mas a Cláudia quer ir dançar e não a quero desapontar.

Fico surpreendido por encontrar a Bela Antunes no bar acompanhada por um individuo que o Mateus interrogou e classificou de " insolente".

Não sei se me reconheceram, só me viram no corredor que leva às salas de interrogatório, mas o facto é que uns quinze minutos depois de chegarmos, os dois saem.

Acho estranho, o meu instinto diz-me para os seguir, mas a Cláudia exige toda a minha atenção e passa das quatro da manhã quando entramos em casa.

Acordo tarde e mal disposto, não devia ter bebido tanto, queixo-me e a Cláudia ri-se, ninguém te obrigou, diz.

Vamos até ao parque fazer um pouco de exercício? convida, mas antes de sairmos, mando um SMS ao Mateus, talvez se consiga saber para onde aqueles dois foram.

É uma hipótese muito remota, mas temos que tentar. Aqueles dois escondem qualquer coisa, temos que saber o que é.

O parque está cheio, as pessoas estão a aproveitar o dia de Sol, encontramos um grupo de amigos e acabamos por almoçar todos juntos.

Chegamos a casa por volta das seis, a Cláudia é a primeira a tomar o duche e eu ligo a televisão, mas não percebo nada do que se está a passar e adormeço.

Acordo sobressaltado com o toque do telemóvel, quem será? o Mateus descobriu alguma coisa, é a primeira coisa que me ocorre.

Mas não reconheço a voz do outro lado, quem fala? insisto e ouço uma risada.

Sabes muito bem quem eu sou, diz, trabalhaste comigo! Era um detective insignificante, mas eu sei quem és.

Faz um esforço, continua a voz, não me insultes e não digas que não sabes!

Tenho a certeza de que não é o Sargento Luís, observo e ouço novamente uma risada, já te disse para não me insultares!

O Inspector Tavares! respondo, mas a que devo a honra?

CONTINUA


domingo, 25 de abril de 2021

O DIÁRIO DO MEIRELES - PARTE III

 

Dizem que fez " desaparecer" provas relevantes, forjou uma assinatura, conta o Sargento,  e estão a investigar-lhe as contas bancárias, porque suspeitam que recebeu " luvas ".

A esta altura, o dinheiro deve estar numa conta offshore, observo e o Sargento encolhe os ombros, diz pois.

Olha para o relógio, vais chegar atrasado, diz e eu apresso-me a subir as escadas.

O Bernardes já está no meio da sala com um ficheiro na mão quando entro.

Murmuro uma desculpa, porque é que não bebi o café aqui? penso e sento-me na minha secretária.

Não sei quem escreveu este relatório, mas está uma verdadeira lástima, começa o Bernardes, têm que o reescrever e reparem bem na cronologia. A testemunha não está a dizer a verdade, por isso, voltem a falar com ela.

Ninguém se atreve a falar, o Inspector entrega-me o ficheiro e eu leio o relatório em questão.

Oh, Fonseca, que se passa contigo? recrimino e o membro mais novo da Brigada fica atrapalhado, já te explicamos como o trabalho deve ser feito, continuo, e quem é esta Bela Antunes?

Trabalha na Casa Pirata, intervém o Mateus, pois o Fonseca continua calado, achamos que ela viu qualquer coisa, mas recusa-se a falar connosco.

Tenta novamente, insisto distraidamente, porque o nome " Casa Pirata"  não me é estranho.

Creio que ouvi a Cláudia ou a minha Mãe falar nessa Casa; tenho que lhes perguntar.

Por coincidência, a Cláudia tem uma reunião perto da Esquadra, almoçamos juntos? diz o SMS e como o Bernardes saí para um almoço misterioso com os Chefes (vi a agenda dele, confesso, se ele te apanha... avisa o Mateus), respondo que sim.

Está um dia bonito, cheio de Sol, sentámo-nos na esplanada, a Cláudia satisfeita com o resultado da reunião.

Também não podiam dizer não, explica, o nosso produto é o melhor do mercado; seguimos à risca todos os protocolos e regulamentos....

Desculpa, mas conheces uma empresa chamada " Casa Pirata" ?,  interrompo e a Cláudia olha-me surpreendida, geralmente, não me interesso pelo trabalho dela.

" Casa Pirata"? repete a Cláudia, já foi uma empresa importante, mas não soube modernizar-se e perdeu uma parte importante do mercado. Dizem, não tenho a certeza, frisa, que um Grupo Espanhol a comprou. Mas porque é que isso te interessa?

Por nada, por nada, atalho, como o peixe grelhado chega nesse momento, a Cláudia não me faz mais perguntas sobre a " Casa Pirata".


CONTINUA



sábado, 24 de abril de 2021

O DIÁRIO DO MEIRELES - PARTE II

 

O Inspector Bernardes é o oposto do Tavares: há reuniões diárias para falarmos sobre o desenvolvimento do caso e decidirmos o próximo passo, dá-nos uma certa liberdade na forma de trabalharmos, mas exige relatórios sempre actualizados, pois " tenho que estar ao corrente de tudo o que se passa!" diz e muitas vezes, até chega antes de nós.

O Sargento Luís não me preparou para isto, confesso à minha namorada certa noite, ter que estar sempre vigilante e tentar antecipar-me às ordens!

Mas isso é bom! responde a Cláudia, obriga-te a estar sempre actualizado e lembra-te que agora és tu o Sargento e podes também estabelecer os teus métodos.

Não sei se sou capaz! insisto e a Cláudia suspira, às vezes, és irritante! Sabes perfeitamente que és capaz, apenas tens que te organizar, mas dizes sempre que não podes, que não sabes! Fizeste a mesma coisa com o sistema de arquivo e no final, até o implementaste com bastante sucesso!

É a minha vez de suspirar, ela tem toda a razão, duvido sempre das minhas capacidades!

Acordo cedo, penso que serei o primeiro a entrar na Brigada, mas o Inspector já lá está.

Este homem não dorme? penso e vou buscar café.

Encontro o Sargento Geral na cafetaria, conversamos um pouco.

Então, como é que te estás a dar com o Inspector Bernardes? pergunta o Sargento Geral, não está a ser fácil? e sorri.

É diferente, digo diplomaticamente, muito diferente da forma de trabalhar do Inspector Tavares.

Ah, reage o Sargento, esse pouco ou nada fazia e o que fazia era pelas razões erradas! Não admira que o Luís tenha pedido a transferência!

O Sargento Luís é muito competente, interrompo, fiquei muito surpreendido por ter pedido a transferência e para longe desta Brigada!

Ás vezes, é bom recomeçar do zero noutro local e acho que o próprio Luís ficou chocado por saber da corrupção do Inspector Tavares.

Sabe-se mais algum coisa sobre isso? questiono e o Sargento olha em volta para ver quem está na cafetaria.

CONTINUA

sexta-feira, 23 de abril de 2021

O DIÁRIO DO MEIRELES


Os meus Pais não ficaram satisfeitos quando lhe disse que ia ingressar na Polícia.

Então, o teu curso? protestam, mas explico que posso aplicar os conhecimentos adquiridos no curso na investigação de crimes.

Por isso, após terminar o ano de formação, aqui estou na Brigada do Inspector Tavares.

O Inspector é um individuo mal encarado, preguiçoso, que chega sempre atrasado, mas exige que os outros cumpram o horário.

Deixa a organização do dia da Brigada ao Sargento Luís, um homem franzino que parece que vai desatar a chorar a qualquer momento.

Mas depressa descubro que é inteligente, disciplinado e não aceita tolices.

Aprendo bastante com ele e tento não ligar aos rumores que circulam sobre o Inspector Tavares.

Segundo dizem, trabalhou com uma das lendas do Departamento, o Inspector Leandro, um homem que descrevem como rigoroso e ao que parece, o Tavares não aprendeu nada, afirmam, porque o Bernardes está a ter sucesso como Inspector!

Não sei quem é esse Inspector Bernardes, estou concentrado na minha carreira e fico surpreendido quando o Sargento propõe que eu faça o curso de Sargento,

Tens capacidades, és organizado, atento ao detalhe, sabes lidar com as vitimas, acho que vais ser um bom sargento, concluí.

Enquanto faço o curso, sei que o Inspector Tavares é suspenso, está a ser investigado, suspeitam de corrupção.

Entretanto, o Sargento Luís pede transferência, penso que vou ocupar o lugar dele, mas os Chefes reorganizam a Brigada.

Durante uns tempos, trabalho no arquivo central, desenvolvo um outro sistema de arquivo, mas transferem-me para uma outra Brigada,

É então que conheço o famoso Inspector Bernardes, discípulo do falecido Inspector Leandro.

CONTINUA

quinta-feira, 22 de abril de 2021

A FAMILIA - FIM

 

A Clarinha fica amuada e fica decidido que os Pais vão para a casa de férias na quarta-feira e regressam no domingo à noite.

Assim, a Teresa não fica tanto tempo sozinha, decide a Mãe e tu podes começar com a fisioterapia na segunda.

A Clarinha fica em casa da Rita e do Gonçalo e a Matilde pede para ficar em casa do Pai, é mais perto da Universidade, diz ela, mas eu suspeito que quer ficar lá sozinha com o namorado.

Tem cuidado, aviso-a, tens a certeza que é isto que queres? Já tiveste uma má experiência, não deixes que se repita!

Mas a Matilde assegura que tem a certeza, que o Zé Maria é uma pessoa confiável, já falaram sobre o assunto e esta é a altura certa.

Ok, se tiveres dúvidas, fala com a Rita. A Mãe vai acabar por saber, mas a Rita pode ajudar-te nisso, concedo e depois de me despedir dos meus Pais, volto para casa.

Os Pais partem na quarta-feira, a Clarinha faz uma birra tremenda, mas a Rita lá a consegue acalmar.

O Chefe chama-me ao gabinete dele nesse dia, mentalmente revejo tudo o que fiz, esqueci-me de algum pormenor? mas ele apenas diz que estão a desenvolver um projecto para uma empresa na cidade onde moram os meus Pais.

É um projecto exigente, requer muita atenção e tempo e achamos melhor abrir lá um escritório temporário, explica, como o Gustavo viveu lá, conhece a cidade, é a pessoa ideal para nos ajudar. Não estará sozinho, o Dr Veiga trabalhará consigo e terá que vir à empresa fazer um relatório semanalmente, mas a base será lá.  O que me diz?

O quê? Ser responsável por um projecto ? Muito obrigado, gaguejo, pode confiar em mim e o Chefe sorri, vá falar com o Dr Veiga, acertem os pormenores.

O Dr Veiga deve ter quarenta anos, raramente eleva a voz, dizem as más línguas, mas depressa percebo que é um homem inteligente, astuto e pressinto que vou aprender imenso com ele.

Marquei a primeira reunião para a próxima segunda-feira, explica, o Chefe diz que os Pais moram lá? Ok, encontramos-nos na empresa às nove e trinta e estende a mão.

Mal posso esperar por contar tudo aos Pais, por isso, combino com a Matilde irmos até à casa da Carolina no sábado, podemos voltar com eles no domingo, vou ficar aí uns dias em trabalho.

Durante a viagem, a Matilde esquiva-se a discutir comigo o que se passou com o Zé Maria, mas eu acho que a experiência foi boa e não tenho com que me preocupar.

Os Pais ficam satisfeitos com a ideia de eu passar uma larga temporada em casa, mas vou ficar no teu apartamento, protesto, e sabes mais alguma coisa sobre a investigação?

Mas o Pai não diz nada, esconde-se no clássico " não posso falar numa investigação em curso", sei que a Mãe continua preocupada e fico contente por estar mais perto caso haja alguma coisa.

Porque o Pai não contou tudo.


FIM

quarta-feira, 21 de abril de 2021

A FAMÍLIA - PARTE VI

 

A irmã do  Inspector entregou-me o diário dele e descobri-me ao abrir umas caixas lá em casa, continua o Pai, quando o li, percebi muita coisa. O Inspector estava a seguir umas pistas sobre um caso de corrupção e falava no suspeito que confirmamos agora ter ligações ao gangue.

Alguém que conhecia, que tu conheces? interrompo e o Pai suspira, um homem da minha antiga brigada e que o Inspector Leandro treinou! observa.

Compreendo que deve ter sido duro, comento, e agora o que acontece? e o Pai fecha-se imediatamente, responde-me com o " não posso falar sobre uma investigação em curso".

Encolho os ombros, não vale a pena insistir, embora esteja preocupado com uma possível retaliação, estes gangues são doidos! murmuro.

O Pai pergunta-me sobre a Catarina, conto-lhe tudo o que aconteceu, é fria, calculista, concluo, nunca me tinha apercebido disso! O Bernardo avisou-me, mas eu estava doido!

Tens falado com o Bernardo? e eu abano a cabeça, estamos um pouco distantes! Ele concluiu o estágio, mas uma outra empresa fez-lhe uma oferta e ele aceitou. Por isso, temos horários, rotinas diferentes, esclareço, de vez em quando, almoçamos juntos, mas não é a mesma coisa!

Eu gosto muito do Bernardo! confirma a Clarinha que entra nesse momento com um chávena nas mãos.

É chá, anuncia, a Mãe disse que o Pai precisava de beber qualquer coisa!

Ah. mas não há biscoitos??? Eu adoro biscoitos de chocolate! brinca o Pai e a Clarinha fica muito vermelha.

A Mãe aparece então, traz um tabuleiro com fatias de pão, compota, bolo e os famosos biscoitos de chocolate.

Trouxe-te um copo de leite, diz, sei que preferes ao chá e sorri.

Está mais calma, os olhos estão mais brilhantes e o sorriso mais alegre.

A Carolina, a irmã da Teresa, ofereceu a casa dela de férias para passarmos lá uns dias antes de começares a fisioterapia, explica, a Teresa diz que não há problemas, tem tudo controlado, por isso, o que é que pensas?

Não sei se será uma boa ideia, quero saber o que se passa com a investigação, declara o Pai.

Oh, Pai, há rede lá! E, depois tu foste ferido em serviço, tens todo o direito de descansar, protesto e a Mãe apoia-me.

Eu também vou? quer saber a Clarinha, e a escola? atalho de imediato, queres perder o ano por faltas?

CONTINUA

terça-feira, 20 de abril de 2021

A FAMÍLIA - PARTE V

 

Que frieza! penso, mas estou tão cansado, tão preocupado com o meu Pai que escondo a Catarina no lado mais escuro da mente.

Quero saber mais sobre a operação, vai ser difícil o teu Pai explicar, comenta a Rita, sabes como ele é, as regras são sagradas e eu concordo com isso até certo ponto. 

Mas ele foi ferido em serviço e a família tem que saber porquê, insisto e a Rita abana a cabeça, a única coisa que ele disse à tua Mãe foi que, quanto menos ela soubesse, melhor para ela!

Talvez o Meireles me possa elucidar, mas lembro-me dos comentários da Rita e eu pouco ou nada sei sobre o homem, quem sabe o que pode acontecer se faço perguntas incomodas.

Valha-me Deus, digo em voz alta, sou mesmo filho do meu Pai! Já estou a ver conspirações em todo o lado!

Deito-me, mas não durmo sossegado e ligo à Mãe logo às oito da manhã.

Ela diz-me que ainda não ligou para o Hospital, está à espera das nove, devem estar na mudança de turno, a preparar os doentes, continua, e se houvesse qualquer alteração, já me tinham telefonado. Não te preocupes, filho, ligo-te quando souber mais alguma coisa.

Apresento-me ao serviço à hora habitual, o Chefe fica surpreendido, mas eu explico que o meu Pai está fora de perigo e afinal de contas, estou a duas horas de distância, há um comboio diário, não vai haver problema!

O dia decorre sem complicações, a Mãe telefona-me à hora de almoço, o Pai vai no dia seguinte para casa, para nossa casa, frisa, não o vou deixar sozinho naquele apartamento!

Quando falo com o Pai no fim de semana, ele ri-se, queixa-se da " atenção excessiva das tuas irmãs; a Clarinha nem me deixa ir buscar um copo de água!"

Já tentaste explicar que não estás inválido? pergunto e o Pai volta a rir, creio que a tua Mãe lhe disse que tem que ser muito carinhosa e ela interpreta isso como uma forma de carinho! esclarece.

Rio também, observo o Pai atentamente, tenho que lhe perguntar o que aconteceu, mas não sei bem como abordar o assunto.

Estás bem, Gustavo? Estás preocupado com alguma coisa? o Pai interrompe-me os pensamentos e eu tento pôr-me numa posição mais confortável.

O que é que aconteceu naquele dia, Pai? Ok, sei que não podes falar abertamente sobre o caso, mas deves poder contar alguma coisa, peço.

O Pai suspira, morde os lábios, sinal de que está preocupado, mas depois diz, não te deves lembrar do Inspector Leandro? Terias uns cinco, seis anos e o Inspector nunca foi homem de frequentar a casa dos subordinados.

O Inspector morreu durante uma operação, os pormenores eram pouco claros e a investigação foi considerado " inconclusiva", observa, mas ficou sempre no ar uma dúvida, percebes?


CONTINUA

segunda-feira, 19 de abril de 2021

A FAMÍLIA - PARTE IV

 

A Clarinha senta-se no meu colo, conta-me as novidades, descreve-me em pormenor o que está a fazer na aula de arte.

De repente, lembra- se que há muita gente na sala, que devíamos estar todos a trabalhar, por isso, o que é que estamos a fazer aqui? E onde está a Mãe? pergunta.

O Pai foi ferido, está no Hospital, vamos para lá daqui a um bocadinho, explico e a Clarinha abana a cabeça em sinal de compreensão.

Também posso ir? mas o Gonçalo interrompe, hoje não, o Pai tem que descansar, amanhã se verá, diz e a Clarinha prepara-se para fazer uma das cenas dela.

A Mãe entra nesse momento, parece estar mais calma, mudou de roupa, penteou-se e anuncia, o Pai já está no quarto, acordou, está com alguma dores, mas está a perguntar por nós.

Tropeçamos uns nos outros na ânsia de sair de casa, o Gonçalo quase que arrasta a Clarinha para o carro dela, não se preocupem, ela vai ajudar-me num projecto, declara.

A Rita não pode entrar, só é permitida a entrada de duas pessoas no quarto, por isso, eu e a Mãe somos os primeiros a falar com o Pai.

O Pai está de olhos fechados, abre-os por uns minutos e aperta a mão da Mãe, sussurra, estou muito cansado.

Vê-me e sorri-me, que bom estares aqui, filho! e eu aperto-lhe a outra mão.

A Mãe dá-lhe um beijo, a Rita e a Matilde também te querem ver, murmura e saímos.

Pedimos para falar com o médico, que confirma que o Pai está estável, vai ficar uns dias em observação, mas pode ir para a casa em meados da próxima semana.

Nada de esforços nas primeiras duas semanas, recomenda, terá que fazer fisioterapia por uns tempos, mas cremos que vai recuperar totalmente.

Jantamos num restaurante ali perto, a Mãe acha melhor o Pai ficar lá em casa, vai precisar de ajuda, diz.

E as birras da Clarinha? Vão interferir na recuperação, brinca a Rita e a Matilde atalha, talvez a presença do Pai lá em casa a distraía.

Olhamos para a Matilde com surpresa, parte do problema da Clarinha foi o Pai sair de casa, continua, se o Pai lá estiver, se a incentivarmos a tomar conta dele, ela pode sentir-se responsável e tornar isso um ponto de honra!

Não deixas de ter razão, concede a Rita e eu continuo a olhar para a minha irmã, admiro-lhe a maturidade, como é possível que esteja tão crescida?

A Mãe não diz nada, o fim de semana passa-se entre casa e o Hospital e no domingo à noite, volto para o meu apartamento vazio.

A Catarina foi buscar o resto das coisas e deixou a chave no balcão da cozinha com uma nota, lamento saber do teu Pai! Espero que não seja nada de grave.

CONTINUA



domingo, 18 de abril de 2021

A FAMILIA - PARTE III

 

Partilho uma pizza com a Matilde.

A Rita está ao telefone, é um assunto importante, tem que ser resolvido já, desculpa-se.

Pergunto à minha irmã o que aconteceu, mas a Matilde diz que pouco sabe, é uma investigação em aberto, não pode falar sobre isso, conta.

Mas isso não é importante agora, continua, sabes que os nossos Pais estão juntos novamente?

Fico estupefacto, o quê??? e a Rita ri-se.

É um segredo, observa, tentam ser discretos, mas como podem ser discretos, se passaram um fim de semana juntos com a Clarinha ou se a tua Mãe não está aqui, está no apartamento dele?

Sempre achei que o divórcio deles foi precipitado, comento, que foi loucura por parte do Pai; se eles ficarem novamente juntos, vou fica muito contente. Acho que eles se completam... Pensei ter esse tipo de relação com a Catarina...

O que é que aconteceu com a Catarina? interrompe a Rita e a Matilde inclina-se para a frente para não perder pitada, estas duas sentiram sangue no ar, penso.

Terminamos e ela vai ser hoje de casa, respondo, e à pergunta muda da Rita, a razão é porque não consegue aturar a " birrenta da tua irmã adoptiva".

A Matilde abre a boca de espanto e a Rita começa a protestar veementemente, mas tocam à campainha nesse momento.

A Matilde vai abrir, ouvimos as vozes do Gonçalo e da Clarinha, ela percebeu que há qualquer problema e recusou-se a ir para nossa casa, explica quando entra na cozinha.

GUSTAVO! grita a Clarinha tão alto que receio ficar surdo.

CONTINUA

sábado, 17 de abril de 2021

A FAMÍLIA - II

 

Ignoro-o, procuro a minha Mãe, deve estar na sala de espera com a Rita.

O médico também lá está, a explicar-lhe que conseguiram remover a bala, não há hemorragias e o Pai reagiu muito bem.

Está ainda no recobro, diz, vamos mantê-lo lá mais algumas horas e depois é transferido para um quarto lá para o fim da tarde.

A Mãe suspira de alívio, a Matilde desata a chorar e eu fico parado à porta, sem saber o que dizer ou fazer.

Ainda bem que chegaste, confessa a Rita, tem sido uma manhã complicada! e eu abraço-a.

Oh, Gustavo, diz a Mãe e eu deixo a Rita, acolho a minha Mãe nos meus braços.

Ainda bem que ele está bem, sussurro, não, não contes nada agora, mais tarde, peço.

O Meireles aparece à porta, já sabe das novidades, quer saber se pode fazer alguma coisa, mas a Mãe limita-se a agradecer.

O sargento hesita, abre a boca para dizer alguma coisa, mas acaba por se ir embora.

Não sei porquê, comenta a Rita, não confio neste homem e pouco falei com ele!

Mas o Pai diz que ele é muito competente! interrompe a Matilde que continua abraçada à Mãe.

São coisas diferentes, contrapõe a Rita, acho que é melhor descansares um pouco, Madalena. O Bernardes só vai para o quarto ao fim da tarde, por isso, vais relaxar para casa.

Damos os nossos números à enfermeira e pedimos para nos contactar caso haja algum problema, concordo, e alguém tem que ir buscar a Clarinha e explicar o que aconteceu.

Encarreguei o Gonçalo disso, esclarece a Rita, e ela fica a dormir lá em casa hoje!

Encontramos um polícia no corredor, apresenta-se à Mãe, diz que foi destacado pelos Chefes para assegurar a segurança do meu Pai, não se preocupe, minha senhora, avisamos se houver algum problema.

Em casa, a Mãe sucumbe à emoção e desata num choro desesperado.

Eu e a Matilde não sabemos o que fazer, mas a Rita toma conta da situação calmamente.

CONTINUA

sexta-feira, 16 de abril de 2021

A FAMÍLIA

 

Termino a relação com a Catarina no dia em que o meu Pai é ferido.

Encontro-a na cozinha, ainda não são sete da manhã, com as malas feitas e com um discurso preparado.

Só a interrompo quando fala " na birrenta da tua irmã adoptiva", porque a Maria Clara é, será sempre minha irmã e estarei sempre presente para a ajudar no que for preciso, friso.

Pois, é isso que me irrita, largas tudo porque aconteceu isto ou aquilo à Clarinha, diz a Catarina e eu suspiro.

Não vou abdicar da minha família, só porque te irrita, observo e a Catarina encolhe os ombros, murmura um " venho buscar o resto das coisas ao fim da tarde e deixo a chave." e saí.

Sento-me no sofá, vou chegar atrasado ao trabalho, mas não deve haver problema, ontem, estive a trabalhar até às onze da noite.

Ainda tenho que assimilar os acontecimentos, sei que o Bernardo vai dizer que me avisou, que a Catarina era muito vaidosa e egoísta e aqui está a prova.

Tenho que concordar, a Clarinha é muito birrenta e pôs a família em sobressalto várias vezes, mas continua a ser a minha irmã mais nova, precisa da minha ajuda e não a vou abandonar.

Entre reuniões e telefonemas, a manhã passa depressa e nem me lembro da Catarina.

Ás duas da tarde, estou sentado numa esplanada a comer calmamente quando o telemóvel toca.

É a Mãe, valha-me Deus, o que é que a Clarinha fez desta vez? murmuro, mas o que tem a dizer não é sobre a minha irmã.

O teu Pai foi ferido durante um operação da Polícia, conta a Mãe, parece que foi no ombro, está agora a ser examinado, podes vir?

Nem sei o que respondi, pago à pressa e quase derrubo uma das secretárias quando entro no escritório.

Peço desculpa atabalhoadamente, bato à porta do Chefe de Departamento, explico rapidamente o que se passa.

Claro que sim, atalha o Chefe, tire uns dias, passe o projecto em que está a trabalhar ao Dias. E, Gustavo, tem a certeza de que está em condições de conduzir?

Sinto as pernas a tremer, parece que não consigo respirar; só agora é que me apercebo que estou em choque.

O motorista leva-o a casa para fazer a mala e depois seguem para casa dos seus Pais, decide o Chefe, compreensivo.

Não me recordo da viagem, o motorista deixa-me à porta do hospital e primeira pessoa que encontro é o Sargento Meireles.

CONTINUA

quinta-feira, 15 de abril de 2021

O FIM DE SEMANA - FIM

 

Não estejas admirado, continua a minha mulher, desde que descobriste o diário do Leandro, estás mais nervoso, estás distante. Por isso, o que está a acontecer?

Suspiro, ok, tem tudo a ver com o diário do Leandro, confirmo, mas não te posso dizer mais nada. Para tua protecção e minha também.

A Madalena não diz mais nada, mas sinto que fica preocupada e acabo por passar lá a noite.

Os acontecimentos precipitam-se na semana seguinte, os Chefes decidem agir antes de sexta-feira.

Todos os detalhes são analisados cuidadosamente e há uma reunião final à meia-noite.

O Meireles está presente, é um homem em quem confio, digo aos Chefes que aceitam a minha sugestão.

Vê-se que está nervoso, mas eu também estou.

Finalmente, vamos ter respostas para a morte do Inspector Leandro.

Ás cinco e meia da manhã, estacionamos perto do local, colocamos em posições estratégicas, será? duvida o Meireles, mas não me atrevo a repreende-lo, pois também eu não tenho certezas.

Às seis em ponto, invadimos o local, tal como nos informaram, o nosso suspeito está lá bem como alguns membros do gangue, não o cabecilha, conta o Meireles mais tarde.

Alguém dispara, um dos nossos homens responde e o nosso suspeito tenta fugir.

Vou atrás dele, grito para o Meireles e entro num labirinto de salas.

Onde é que estás? murmuro e encosto-me à parede. Há um tiro, alguém dispara de uma das salas ao fundo do corredor.

Sigo para lá, os tiros repetem-se e eu grito, atira a pistola para o chão, saí com as mãos no ar.

Ouço passos atrás de mim, olho rapidamente, é o Meireles, faço-lhe sinal para estar quieto.

Não nos atrevemos a respirar, esperamos que alguém saia da sala.

Silêncio total, aproximo-me da entrada, o suspeito dispara, a bala embate no meu ombro e caio no chão.

O Meireles grita, dispara para dentro da sala e deve ter acertado no suspeito, pois param de disparar.

Desmaio e só acordo no Hospital, com uma Madalena muito preocupada sentada a meu lado.

Suspira de alívio, estás vivo! constata, por umas horas, pensei o pior.

E o caso? Concluímos? pergunto, mas a minha mulher abana a cabeça, baixa forçada, vais ficar em repouso absoluto, já avisei o Meireles para falar de tudo menos de trabalho, observa.

Sorrio, mas a Madalena esquece-se que há e-mails, que posso aceder à base de dados, que há mil maneiras de saber o que aconteceu.

Nem que tenha que " roubar" o computador da Matilde!


FIM

quarta-feira, 14 de abril de 2021

O FIM DE SEMANA - PARTE V


Os Chefes estão preocupados; uma operação tão complexa como esta demora meses a preparar, mas nós temos que agir rapidamente.

Temos que escolher cuidadosamente a equipa, diz o Chefe do Departamento, organizar protecção para o Bernardes, sugere o Chefe dos Detectives.

Mas eu recuso; isso daria azo a comentários e poria em alerta o nosso suspeito.

Por isso, o dossier relativo ao assalto a minha casa é concluído, " acto executado por desconhecidos" escreve-se no relatório e o Meireles fica intrigado.

Tem a certeza de que não quer o caso investigado a fundo? pergunta, há qualquer coisa por trás disto e é grave. Tudo leva a crer que foi obra de profissional, não há impressões digitais...

Olho-o muito sério, o Meireles não desvia o olhar, vejo que respira fundo e depois, diz baixinho, oh, inspector, está em perigo?

Não propriamente, respondo cautelosamente, mas o caso é muito delicado e está a ser tratado com todas as precauções. 

Conte comigo, pode confiar em mim, observa o Meireles e eu sorrio, eu sei, sargento, eu sei que posso contar consigo, para já, quero apenas a sua discrição, repito.

O Meireles não diz mais nada, mas segue atentamente a minha rotina e é ele quem descobre quem me está a seguir.

É alguém do Gangue descrito no diário do Leandro, o que confirma as nossas suspeitas, falta apenas provar quem é o " espião" dentro do Departamento.

Tens a certeza de que está tudo bem? insiste a Madalena naquela quinta-feira à noite.

Telefonou-me à tarde, vens cá jantar e não aceito um "não", declara e eu não recuso, estou farto de comer take away.

A Matilde está em casa de uma amiga, somos só nós e a Clarinha.

A Clarinha fica um pouco aborrecida quando a Mãe diz que são horas de ir para a cama, é dia de escola amanhã, mas obedece e ficamos na sala a conversar.

Estás cansado, comenta a Madalena, cansado e muito preocupado, conheço-te muito bem, não podes mesmo dizer o que se passa?

Não posso falar de uma investigação em curso, já sabes disso, mas tens razão, confesso, estou cansado e ansioso que isto chegue ao fim.

Tem a ver com o que aconteceu com o Inspector Leandro? interrompe a minha mulher e eu olho-a surpreendido.

CONTINUA

terça-feira, 13 de abril de 2021

O FIM DE SEMANA - PARTE IV

 

Matilde, tem calma.... Respira fundo e conta-me o que aconteceu... O meu apartamento foi assaltado? Forçaram a porta? Não??? Disseram ao porteiro que iam visitar os meus vizinhos e não foram? Ok... vais telefonar a um dos teus tios para ele estar presente quando chegar a Polícia. Eu vou telefonar ao sargento de serviço, comunicar a situação e alguém vai aparecer para tomar conta da ocorrência.

O que aconteceu? a Madalena quer saber, mas eu murmuro, explico depois e telefono para a esquadra.

É o Sargento Nunes que atende, claro que sim, Inspector, vamos já para lá, não se preocupe, responde e eu desligo.

Assaltaram o apartamento? Mas porquê? pergunta a Madalena e eu suspiro, não sei, teremos que ver se falta alguma coisa, mas para já, é importante que a Polícia tome conta da ocorrência, explico.

Tenho quase a certeza de que isto não aconteceu por acaso, penso, mas não o digo alto.

O Gonçalo telefona-me uma hora depois, a Polícia já lá esteve, fotografou tudo e segundo diz a Matilde, acrescenta, não falta nada. Estranho, não é? Não te preocupes com a Matilde, vai dormir lá em casa.

Então? insiste a Madalena, o que disseram? e eu repito o que o Gonçalo me disse.

Terei que confirmar quando chegar, concluo, mas não levaram nada de valor. Apenas deixaram a minha secretária muito desarrumada e...fico calado.

Estarão à procura do diário do Leandro? É uma possibilidade, murmuro, tenho que discutir isto com os Chefes, mas é sábado à noite, não é a altura certa de lhes interromper o fim de semana.

Então? repete a Madalena, estás a esconder-me qualquer coisa, conheço-te muito bem, confia em mim.

Não é uma questão de confiança, observo, para tua protecção, até porque ainda não tenho certeza de nada, é melhor não saberes nada.

Não gosto quando falas assim, comenta a minha mulher, é sinal de que podes correr perigo.

Sorrio, tento desvalorizar a situação, mas estou tão preocupado como ela, se estão à procura do diário do Leandro, a situação é mais grave do que pensamos.

Nem eu nem a Madalena dormimos bem, temos vontade de nos irmos embora depois do pequeno almoço, mas a Clarinha está tão animada com a ida ao spa, que cedemos.

Por isso, só depois de almoço é que regressamos, deixo-as em casa e sigo para o meu apartamento.

A Matilde já arrumou tudo, deixa-me um bilhete a dizer que não mexeu na secretária, está tal e qual como a encontrou.

Desarrumada, os dossiers remexidos, os papéis postos de qualquer maneira e eu fico com a certeza de que estão à procura do diário do Leandro.

O nosso suspeito tem alguém lá dentro que está a seguir os meus passos e não querem definitivamente que se reabra o caso.

Procuro o numero do Chefe e ligo-lhe.

CONTINUA




segunda-feira, 12 de abril de 2021

O FIM DE SEMANA - PARTE III

 

A Madalena opôs-se ao meu plano de ficar no spa enquanto elas vão explorar os trilhos e a escola de equitação.

Vamos gozar este fim de semana em família, diz ela, por isso, vamos todos explorar o trilho e não, interrompe-me antes que eu vocalize a minha objecção, vamos começar pelo mais curto.

Contrariado, lá me equipo e sigo-as. 

A Clarinha está toda excitada, fala pelos cotovelos e nós interpretamos isso como um bom sinal.

A vista é deslumbrante quando chegamos ao topo e lamentamos ter que descer novamente para o vale.

Há ali perto um café, a Madalena e a Clarinha instalam-se num banco cá fora a aproveitar o Sol e eu entro para pedir as bebidas.

Com umas perguntas discretas, fico a saber que o Inspector Leitão sofreu um ataque cardíaco, a família achou melhor mudá-lo para uma residência assistida.

Não, não sabem para onde e eu suspiro, porque esta pista fica em suspenso.

A Clarinha entra então, exige saber a razão da demora, estou a morrer de sede, comenta, o que faz com que as outras pessoas se riam.

Sorrio também, gosto de a ver assim tão activa, tão interessada e acabo por não me importar de passar o resto do dia na escola de equitação.

Eu e a Madalena aproveitamos também para falar, para já, vamos manter as coisas como estão. não me vou mudar lá para casa.

O Gustavo diz que vão renovar o contrato, vai ficar por lá, conta a Madalena, está muito satisfeito, planeia ir viver com a namorada.

Pensei que já estava a viver, respondo, já não é primeira vez que lhe ligo e é ela quem atende. Mas gosto dela, parece ser simpática, bem educada, trabalhadora.

Sim, também fiquei com essa impressão, concorda a minha mulher, e se ele está feliz, eu estou feliz. Quanto à Matilde, candidatou-se a um estágio na sede da empresa da Rita.

Na Bélgica? repito e a Madalena acena com a cabeça, está toda entusiasmada, a Rita ajudou-a a preparar tudo e ela tem uma palavra a dizer, não lhe vão recusar o estágio.

Rio-me, os nossos filhos estão a crescer, não tinha ainda assimilado isso, explico, ficamos nós e a Clarinha.

Que, graças a Deus, está a melhorar! acrescenta a Madalena e eu beijo-a.

Voltamos ao hotel de bom humor, a Clarinha quer dar um mergulho, mas a Madalena convence-a a descansar um pouco antes do jantar.

Tiveste um dia em cheio, fazes isso amanhã de manhã, aconselha-a e é então que o meu telemóvel toca.

É a Matilde, o que é que aconteceu?


CONTINUA


domingo, 11 de abril de 2021

O FIM DE SEMANA - PARTE II


Os nossos filhos sabem que estamos a namorar, frisa a minha ex-mulher, o Gustavo acha divertido, a Matilde pensa que somos doidos e a Clarinha não diz nada.

Rio-me também, a Madalena está diferente, foi bom ter voltado a trabalhar, a alargar o circulo de interesses e amigos.

Por isso, estudamos atentamente as brochuras que trouxe, tem que ser um sítio com um parque para a Clarinha se divertir, comenta a Madalena e um spa para nós, acrescento.

O problema será se a Teresa não voltar ao trabalho esta semana, exclamo, ou tu não conseguires ter folga, responde a Madalena.

Mas o caso está num impasse, é melhor aproveitar agora as folgas, aconselham os Chefes, vamos precisar de toda a sua atenção e tempo mais tarde.

Na sexta-feira, vou buscar a Clarinha e a Madalena à loja principal, ainda ficamos um bocado a conversar com a Teresa, já totalmente recuperada da constipação.

Temos bastantes planos para as lojas, confidencia a Madalena, vamos apresentá-los na próxima reunião e veremos o que acontece.

Achas que não vão concordar? pergunto e a Madalena abana a cabeça, temos que ser objectivos, para isso é que a Administração existe. Ajuda-nos a manter a cabeça fria.

O que é isso de cabeça fria? interrompe a Clarinha e a Madalena tenta explicar, mas a nossa filha não percebe e pede para pormos a música do rádio mais alta.

Chegamos ao hotel a tempo de darmos um mergulho na piscina interior e resolvemos jantar no quarto.

A Madalena lê o folheto do hotel à Clarinha, há imensas coisas para fazer e a filhota fica indecisa.

Porque não começas por ir até à escola de equitação? sugiro, depois, há os passeios pelos Trilhos Selvagens? e olho para a Madalena à procura de apoio.

Vamos descobrir tudo amanhã, responde a minha mulher, e tu, vais passar a manhã no spa?

Apenas sorrio, descobri que o Inspector Leitão, o amigo do Leandro, reformou-se e vive aqui perto.

Os chefes concordaram com a minha sugestão e amanhã, vou procurá-lo, pode ter informações relevantes para o caso.

Se o disser à Madalena, ela vai ficar zangada e com razão.

CONTINUA

sábado, 10 de abril de 2021

O FIM DE SEMANA

 

Há anos que não pensava na Helena, na relação escaldante que tive com ela.

Uma loucura completa, foi pura diversão.

A Helena era uma mulher muito sensual, muito livre e foi um choque saber que tinha sido casada com o Leandro, um homem tão discreto, tão rigoroso.

Profissionalmente, a Helena também o era, mas pessoalmente...era uma outra história e talvez tenha sido por isso que o casamento deles não funcionou.

Durante uns dias, fui incapaz de encarar frontalmente o Inspector Leandro, mas ele era um bom professor, tinha tanto que aprender que escondi a Helena no recanto mais escuro da memória.

Acho que nem falei nela à Madalena que conheci umas semanas após ter terminado a relação.

Quem é esta Helena? Alguma suspeita? a voz da Madalena traz-me novamente para a realidade, tem o diário do Leandro na mão.

Devo ter adormecido, ela deve ter usado a chave da Matilde para entrar.

Que horas são? pergunto e a minha ex-mulher sorri, passa das sete, trouxe-te um bolo, pensei que podíamos jantar juntos, responde.

Aceno com a cabeça, a Clarinha está com a Rita? E a Matilde? questiono, sim à primeira pergunta e a Matilde está a estudar em casa de uma amiga, diz a Madalena, por isso, conta-me o que é isto.

Isso é o diário do Inspector Leandro, observo tirando-lhe o diário das mãos, é uma pista importante para o caso que estou a investigar.

O homem está morto há mais de dez anos, a Madalena está surpreendida, como é que isto te vai ajudar num caso hoje?

Nem eu sei bem, concordo, mas não vamos falar mais nisso. Vamos jantar fora? Ao cinema?

Mas a Madalena está cansada, foi um dia longo, a Teresa tem estado doente, por isso, teve que supervisionar a gestão das duas lojas.

Os miúdos estiveram com gripe, depois foi o António, continua a Madalena, e agora foi ela. Mandou-me um SMS, espera voltar na segunda. Se assim for, vou estar livre no próximo fim de semana; podíamos ir para fora, levávamos a Clarinha.

Estamos divorciados, já te esqueceste? Passarmos o fim de semana juntos dará um nó na cabeça da nossa filha, comento.

A Madalena volta a rir.

CONTINUA



sexta-feira, 9 de abril de 2021

EU E O BERNARDES - FIM

 

Algum aspecto do caso que se complicou e não sabe como abordar o assunto comigo? penso enquanto revejo o relatório.

O relatório está perfeito, o Bernardes assinala as pistas mais importantes, descreve o que está a ser feito.

Não sei o que aconteceu com os outros inspectores, murmuro, comigo, o trabalho do Bernardes está a ser exemplar, é organizado, atento ao detalhe, respeita as opiniões dos outros.

Então, o que se passa para o sargento estar a agir como se eu fosse um déspota? 

De repente, lembro que o Bernardes é o tipo de homem que a Helena aprecia e não me surpreende nada que seja com ele que ela esteja a ter um caso.

Coitado do sargento, sorrio, deve ter descoberto que a Helena foi casada comigo e tem receio de me estar a ofender.

Tenho vontade de o chamar e lhe dizer que não se preocupe, eu e a Helena não somos amigos, há uma história pesada por trás do nosso divórcio e tudo o que quero é esquecer.

Suspiro tão alto que o Bernardes levanta a cabeça e olha-me curioso.

Como não digo nada, o sargento baixa a cabeça para o dossier que tem aberto na secretária; eu volto a concentrar-me.

Volto a ler cuidadosamente o relatório, há um nome que me chama a atenção e chamo então o Bernardes.

Este Zé do Laço, já falaram com ele? pergunto e o Bernardes abana a cabeça, ainda não, estou a tentar estabelecer uma ligação, pedi para me enviarem todas as informações disponíveis sobre ele.

Não é preciso, interrompo, conheço muito bem o Zé do Laço, é um delinquente de baixo calibre, mas é capaz de ter informações relevantes para o caso.

Convoco-o? diz o sargento, não é preciso, repito, deve estar no Bar do Beco, vamos até lá conversar com ele; se tiver alguma coisa a dizer-nos, ele aparece aqui na esquadra.

Ah, compreendo, observa o Bernardes, o Zé do Laço é nosso informador?

Não propriamente, digo já a vestir o casado, mas conhece bem o meio e às vezes, dá-nos boas dicas. Vamos até ao bar, o Bernardes conduz.

Mal sabia eu o que a informação dada pelo Zé do Laço iria desencadear, mas, naquele momento, tenho apenas a certeza de que vou resolver o caso.

Nem quero saber se a minha ex-mulher está envolvida com o meu sargento.

Este está a revelar-se um bom elemento para a equipa.


FIM

quinta-feira, 8 de abril de 2021

EU E O BERNARDES - PARTE IV

 

No dia seguinte, acordo de mau humor, ainda bem que não estou de serviço, penso, não me ia concentrar.

A Helena voltou e está a trabalhar no Tribunal de Família? Segundo o que me contou o Leitão, regressou há uns seis meses.

Curioso que não te tenhas cruzado com ela, disse o Leitão, eu sei porque ela era a responsável pelo caso que eu investiguei há umas semanas.

Não respondi, o Leitão percebeu que estava a tocar num ponto sensível e despediu-se, deixando-me aturdido no parque de estacionamento.

Quando conto à minha irmã, estás livre? pergunta, vamos tomar um café?, ela fica sem palavras.

O que vais fazer? questiona, não lhe vais telefonar ou aparecer no Tribunal para falar com ela? Não é uma boa ideia!

Não, não é, respondo, sabes as circunstâncias em que nos divorciamos, nem amigos ficamos! Não a vou convidar para tomar um café e exigir saber porque voltou.

Decerto a relação com o outro cavalheiro terminou e aqui sempre tem a família, os amigos, observa a Gina, mas não deixes que isto te afecte.

O Leitão também disse que circulam alguns rumores sobre ela no Tribunal, explico, não sabe até que ponto são verdadeiros, mas parece que a Helena está envolvida com um detective.

A Gina fica calada, está ao corrente das várias aventuras que a Helena teve enquanto esteve casada comigo, mas só falou quando o meu casamento terminou.

Tu és o detective, tu é que devias estar atento aos sinais, argumentou quando a confrontei com o facto, não te queria magoar!

Não me admira, comenta, afinal, está livre, não tem compromissos com ninguém! Pode fazer o que quiser, Mateus e tu tens que seguir a tua vida.

Suspiro, a Gina tem toda a razão e quando um casal amigo me convida para jantar, eu aceito.

É um jantar agradável, fala-se da nova peça que vai estrear e alguém discute comigo as diferenças entre Mozart e Beethoven.

Acabo a noite de sábado a ouvir a Sinfonia nº 40 de Mozart e no domingo, vou dar um passeio pelo cais e almoço por lá.

Na segunda-feira, já estou mais descontraído e aceito o café que o Bernardes me entrega com um sorriso.

Reparo, então que o meu sargento está um pouco distante e evita olhar directamente para mim.


CONTINUA



quarta-feira, 7 de abril de 2021

EU E O BERNARDES - PARTE III

 

Nesse mesmo instante, o Bernardes está a terminar a relação com a companheira.

A Helena não está surpreendida; afinal, é vários anos mais velha que o Bernardes e é natural que o rapaz se interesse por uma mulher mais nova, queira casar e ter uma família.

O Bernardes é um homem interessante, um excelente companheiro e vai ter pena das escapadelas de fim de semana, das idas aos motéis, dos jantares no conforto do apartamento dele.

Mas, como disse muitas vezes às amigas, esta relação tinha prazo.

Volta à realidade quando o Bernardes lhe fala do novo chefe, é um homem curioso, ainda não o conheço muito bem, mas tem ideias bem definidas e gosto disso, diz.

Não vais entrar em conflito com ele desta vez? pergunta a Helena, em seis meses, é a segunda vez que mudas de brigada e eles não gostam muito disso.

O Bernardes fica intrigado, como é que sabes? indaga e ri-se.

Fui casada com um Inspector, aprendi muita coisa durante esses anos, responde, os jantares interrompidos a meio, a falta de horários, as férias adiadas. Fiquei cansada! 

Não sabia, observa o sargento, não disseste nada! Com quem é que foste casada, talvez eu conheça?

A Helena faz uma pequena pausa, aquele casamento terminou mal e não é bom mexer no passado.

Com o Leandro, Mateus Leandro e assusta-se quando vê a expressão do Bernardes, será que vai desmaiar?

O quê??? Foste casada com o Inspector Leandro??? repete, eu trabalho com ele agora, é o meu novo chefe de brigada.

A Helena suspira, de todos os homens que podia ter conhecido, teve que sair com o subordinado do ex-marido, pensa.

Estamos divorciados há mais de dez anos, foi um divórcio muito complicado e não tem nada a ver contigo! exclama, aprende com ele, o Leandro é um excelente profissional.

O Bernardes está confuso, está apreensivo e mesmo depois da Helena se despedir, não sabe o que fazer.

Tive uma relação com a ex-mulher do Leandro! Valha-me Deus! Com quem me fui meter! murmura, o que é que eu faço agora?

CONTINUA

terça-feira, 6 de abril de 2021

EU E O BERNARDES - PARTE II

 

O Inspector Leitão convida-me para jantar. É viúvo há alguns anos, os filhos já são adultos e têm a sua própria vida e jantarmos junto à sexta-feira tornou-se um hábito.

Partilhamos o mesmo gosto pela boa comida, boa música e bons livros e não nos falta tema de discussão.

Mas, naquela sexta-feira, o Leitão está mais interessado em saber da minha relação com o Sargento Bernardes.

Dizem que se alguém é capaz de domar o Bernardes, esse alguém és tu, exclama, por isso, dá-me as tuas impressões.

É observador, atento, explica-se com clareza, respondo, aliás, frisei bem isso quando entrou na minha brigada.

Pois, eu sei que exiges isso a todos os que colaboram contigo, concorda o Leitão, mas corre o rumor de que o Bernardes é insubordinado, tem dificuldade em seguir ordens.

Não digo que não, tive que o repreender uma ou duas vezes, observo, mas talvez o que ele precise é que o ajudem a pensar.

O Leitão ri-se, lá estás tu com os teus truques, ok, explica-te, comenta o meu amigo.

Ouves o que ele tem a dizer e depois expões o teu raciocínio, explico, o Bernardes é inteligente o suficiente para perceber que deixou uma ponta solta e que a tem que seguir.

O meu amigo volta a rir-se, sabe que tenho razão, há colegas nossas que não gostam de partilhar os louros com os sargentos e os outros membros, afirma.

Eu encolho os ombros, não estou preocupado com isso, nem quero falar sobre o assunto.

O Leitão percebe isso e desvia a conversa para um assunto neutro, a Biblioteca organizou um evento para sábado à tarde, vais? O tema é " Poesia Fantástica" e estou deveras curioso em saber o que é, confessa.

Discutimos hipóteses e estamos de bom humor quando saímos do restaurante.

É já no parque de estacionamento, em frente dos respectivos carros que o Leitão me pergunta pela minha ex-mulher.

Não gosto muito de falar no assunto, olho-o descontente, mas se me está a fazer a pergunta, o Leitão tem as suas razões.

Nada, porquê?

CONTINUA


segunda-feira, 5 de abril de 2021

EU E O BERNARDES

 

Observo atentamente a pessoa que tenho à minha frente.

É alto, atlético (sei mais tarde de que pratica natação e ciclismo) e parece estar muito relaxado.

Como se não fosse importante causar boa impressão ao novo chefe.

Sorrio, pois os olhos não enganam; são vivos, inteligentes, estudam-me atentamente e eu gosto disso.

Telmo Almeida Bernardes, repito, dizem que é um excelente detective, mas insubordinado. Eu não vou tolerar isso, aviso-o já. A minha equipa trabalha com base na confiança e não tolero elementos que causem distúrbios. Por isso, vou fazer-lhe uma pergunta: vou ter problemas consigo, Bernardes?

O Bernardes olha-me curioso, está intrigado, nunca pensou que alguém lhe fizesse essa pergunta directamente.

Os meus colegas limitam-se a apresentar os outros membros da brigada, presumem que estes expliquem os detalhes do caso em aberto e esperam resultados.

Eu gosto de conhecer os membros da minha brigada, conhecer o potencial, os limites para saber o que exigir e geralmente, obtenho bons resultados.

Deve ter sido por isso que transferiram o Bernardes para a minha brigada e por isso, repito a pergunta.

Não, Sr Inspector, não vai. Vou seguir as suas instruções à risca, responde com um leve sorriso de troça.

Não preciso que siga as minhas instruções à risca, digo secamente, espero que use a cabeça, exponha as suas ideias claramente e depois, eu decido qual será o próximo passo.

O Bernardes respira fundo, abre a boca para dizer alguma coisa, mas decide não o fazer.

Também gosto de organização, de relatórios claros e entregues a horas, friso, por isso, estendo o dossier que tenho em cima da minha secretária, estude este caso, veja o que falta, apresente-me novos procedimentos.

O Bernardes volta a respirar fundo, pega no dossier e saí do gabinete.

Através do vidro, vejo os outros membros da brigada a apresentarem-se, o Bernardes a tirar o casaco e a sentar-se na secretária.

Volto a ler o dossier dele, coloco um ponto de interrogação na observação feito pelo outro Inspector.

CONTINUA