domingo, 31 de janeiro de 2021

O NOVO NAMORADO - PARTE III


Temos que nos ir embora, diz a Filipa, vá lá, arrumem tudo e quando chegarem a casa, têm que tomar um bom banho, estão imundos, acrescenta.

Ajudo-os a arrumar as coisas, os dois rapazes continuam a olhar-me cautelosamente e eu sinto-me desconfortável.

São apenas miúdos, tento convencer-me, mas sinto que eles estão preparados para irem até às últimas consequências se eu magoar alguma das irmãs.

Gostam de BTT? pergunto e o rapaz mais velho, o Matias fica interessado.

Sim, gostamos, porquê? explico então que pratico o desporto, faço parte de um clube, até os posso levar lá para conhecerem as pessoas, as actividades.

Os dois começam a fazer imensas perguntas, só posso responder a uma de cada vez, rio, mas a Filipa intervém, temos que falar com os Pais primeiro e os dois rapazes ficam desiludidos.

Estamos em frente ao prédio onde moram, preparo-me para entrar no átrio, quem sabe até subir para os ajudar a levar as coisas, mas o porteiro saí rapidamente.

A Filipa faz sinal aos dois rapazes para entrarem, eles obedecem e ela olha então para mim com um sorriso.

É um sorriso bonito, não fica apenas na boca, ilumina-lhe os olhos também. É agora que a posso convidar para sair, é o momento perfeito, decido, mas a Filipa é mais rápida do que eu.

Obrigada, Jaime, agradeço imenso a ajuda. Se não te importas, vou subir também, tenho ainda muita coisa a fazer, vemo-nos na Universidade? e estende-me a mão que eu olho como se nunca tivesse visto uma na vida.

Ela dá-me um último sorriso, entra e eu fico ali especado na rua. 

Só desperto quando alguém me dá um empurrão e me chama idiota.

Realmente, sou um idiota, isto correu mal do princípio ao fim e a culpa é da Beatriz.

Minha??? repete a Beatriz, estás louco ou quê? Ela estava a tomar conta dos irmãos, ia deixá-los à solta só para te ouvir? Ainda por cima, essas frases idiotas que costumas dizer? Acho melhor mudares o reportório.

Sempre resultaram! exclamo indignado, mas a Beatriz abana a cabeça, acusa-me de ser teimoso e estúpido.

Estúpido??? Estás a exagerar! mas a Beatriz continua, sim, para um rapaz inteligente, és muito estúpido, a Filipa deve ter percebido que és um galã de meia tijela, mostra que és diferente.

A minha amiga ri-se com o meu ar espantado, não entendes nada de mulheres! murmura.

Tenho as mulheres que quero! e a Beatriz ri ainda mais, escolhes umas idiotas que adoram esse teu ar misterioso e acham que és Deus na terra.

Nunca quis ser isso! interrompo com um ar tão chocado que a Beatriz tem pena de mim e interrompe o discurso.

Eu sei, Jaime, só que às vezes, ages como um palerma e com a Filipa, não podes ser um palerma!

CONTINUA


sábado, 30 de janeiro de 2021

O NOVO NAMORADO - PARTE II


A Beatriz diz-me que a Filipa está de serviço naquele sábado.

De serviço??? repito, o que queres dizer? e a Beatriz explica que os dois irmãos mais velhos revezam-se para tomar conta dos mais novos.

Se saí um à noite, o outro tem que ficar, ou qualquer coisa assim, acrescenta e eu torço o nariz.

Que estranho! Nem pensar deixar de sair para tomar conta da minha irmã, penso, e até estou admirado de me ter levantado cedo e estar aqui a passear casualmente no parque.

Melhor dizendo, a fingir que estou simplesmente a passear no parque e que surpresa encontrar-te aqui, não te lembras de mim? Sou o Jaime, o amigo da Beatriz, na minha mente, a conversa vai ser assim, tenho a certeza.

Vejo primeiro os rapazes, nota-se de imediato as semelhanças com a Filipa, estiveram a andar de bicicleta e estão agora sentados no banco a beber água.

Óptimo, sei alguma coisa sobre isso, sou fã de BTT, decerto que gostam do desporto, posso dar-lhes dicas, vai ser fácil conquistá-los, murmuro convencido.

O que não esperava era ser conquistado pela irmã bebé.

A Filipa está com ela ao colo, a falar-lhe baixinho, a miúda parece ouvi-la atentamente.

Uau, que beleza! a pele parece cetim, os olhos são grandes e pestanudos e ao ouvir a minha voz, brinda-me com um sorriso tal que eu lamento não ser ela a Filipa.

Não é que a Filipa não seja bonita, mas vejo que já está a usar base, sombra nos olhos e um batom.

Olá, quem és tu? e a bebé estende-me os braços, chamo-me Inês, diz a Filipa, e este é? Desculpa-me, esqueci-me do teu nome.

Jaime, sou amigo da Beatriz Novais, sabes quem é? Está na tua aula de Mineralogia, acrescento e a Filipa acena com a cabeça.

Os dois rapazes observam-me atentamente, aproximam-se cautelosamente, olá, sou o Matias, apresenta-se o ruivo, deve ter 11, 12 anos no máximo.

Olá, sou o Edgar, este tem o cabelo preto e os olhos da bebé que lhe estende de imediato os braços.

Anda cá, minhota, oh, Edgar, que ideia chamares-lhe minhoca, repreende a Filipa, mas o irmão nem responde.

Senta a miúda na manta, faz rolar uma bola, mas não tira os olhos de mim. 

Aliás, o Matias continua ali parado ao pé de mim, a tentar descobrir quem sou, o que quero.

Bolas, isto não está a correr como eu pensava! Sinto-me vigiado e isto devia acabar comigo a convidar a Filipa para sair.

Moras aqui perto? quer saber a Filipa, não me lembro de te ver por aqui.

Mudamos há pouco mais de seis meses, para ser sincero, é a primeira vez que venho a este parque, há outro a sul e é mais perto de casa, esclareço.

Nós conhecemos esse parque, intervém o Matias, mas não tem pista para bicicletas nem parque infantil para brincarmos com a Inês e por isso, este é melhor. 

Ok, Matias, vai ter com o Edgar e a Inês. Temos que ir para casa dentro de meia hora, interrompe a Filipa, e quando o irmão se afasta, pede desculpa.

São muito protectores da Inês, ela gostou logo de ti e eles ficaram de pé atrás, esclarece.

Não há problema, eu compreendo, ela é uma beleza, respondo.

CONTINUA



sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

O NOVO NAMORADO

 

A minha Mãe é fã do espião mais charmoso do Mundo e por isso, decidiu que me chamaria Jaime.

Cresci à sombra do homem enigmático, sempre rodeado de belas mulheres,; contudo, em breve, aprendi que até pode ser engraçado apresentar-me como Jaime, mas podes chamar-me James Bond numa festa de Carnaval, no dia a dia, as pessoas não acham piada nenhuma.

Por isso, estudei cuidadosamente a forma de abordar as mulheres e posso dizer que tenho tido bastante sucesso.

Ás vezes, é complicado, porque elas afeiçoam-se demais e eu não me quero prender. 

Acusam-me de ser egoísta, pouco confiável, mas acho que não me escutaram devidamente: não fiz promessas nenhumas.

Até ao dia em que conheci a Filipa e fiquei loucamente apaixonado.

Sabia quem ela era; tinha uma certa reputação porque tinha tido um namorado violento e todos viram as pisaduras.

Depois, tinha sido ela a maltratar um outro namorado ao apaixonar-se por um professor. 

O namorado ficou de rastros, era um namoro sério, todos pensam que acabariam casados e ele acabou por pedir a transferência para outra universidade.

O namoro com o professor terminou mal, como seria de esperar, estava à espera de quê? mas dizem-me que ela agora está livre.

Os rapazes mantém-se um pouco à distância, tratam-na com deferência, é certo, porque ela também é educada, mas não fazem qualquer esforço para ultrapassar os limites.

Eu não tenho esse problema; estou muito interessado nela.

Dizem-me que ela tem quatro irmãos, a mais nova terá uns dois anos no máximo e aconselham-me a começar por aí.

O quê? a fazer de baby sitter? repito, não tomo conta de miúdos! não faço isso nem mesmo à minha irmã mais pequena!

Não, palerma, diz a minha amiga Beatriz, podes aparecer no parque, os irmãos mais novos gostam de jogar futebol e tu podes participar.

Como sei que ela vai lá estar? pergunto curioso, a ideia até não é má.

Deixa comigo, responde a Beatriz.

CONTINUA


quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

OS MANOS - FIM

 

A paz é restabelecida, eu volto para o meu desenho e os outros meninos para a piscina de bolas.

Só o Miguel fica sentada a um canto, isolado do resto do grupo. Que parvalhão! penso.

A Tia Carolina diz que é por culpa da Tia Laura, mas a minha Mãe é mais generosa e que temos que o ajudar a ultrapassar a instabilidade.

O que é a instabilidade? atrapalho-me a pronunciar a palavra, mas a Inês também não sabe o que é e somos orgulhosas demais para perguntar aos outros.

Felizmente, o Tio Pedro tem outros planos e por isso, somos só nós, o Pai e o Gonçalo a fazerem um piquenique no parque.

Depois de tanto perseguir as pombas, o Gonçalo adormece e o Pai resolve voltar para casa.

Deita o Gonçalo, instala-me na sala com as minhas bonecas e senta-se no sofá a ler um livro.

O Mundo está sossegado, a Mãe deve estar a chegar e segue-se o ritual do banho.

Às vezes, o Gonçalo finge que é um elefante, mas eu gosto de ser uma ninfa.

Os Pais acham imensa piada e até inventam histórias sobre esses seres.

Ainda não sabia na altura, mas mais tarde, vou lembrar-me dessas histórias malucas contadas à hora do banho e torno-me em adulta escritora de contos para crianças.

O Gonçalo vai tornar-se veterinário, especializar-se em animais selvagens e viajar pelo Mundo fora a tentar salvá-los.

Quanto a Inês, vai ser um modelo internacional e depois fundar a sua própria marca de cosméticos.

O Miguel? Querem mesmo saber do meu primo?

É um indeciso, um insatisfeito, acha que tudo é uma conspiração para o tramar.

É uma pena, porque é um homem bonito, elegante, mas tão egoísta que não me surpreende nada quando a mulher se divorcia.

Terá sido, como disse a Tia Carolina, culpa da Mãe? Mas o Tio Pedro é um homem equilibrado...

Nunca saberemos... eu dou graças a Deus por ter Pais tão carinhosos, tão terra a terra que nos deixaram conquistar o Mundo.


FIM


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quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

OS MANOS - PARTE V

 

Na manhã seguinte, o Gonçalo está insuportável.

Não se quer vestir, não quer tomar o leite e até luta com a Mãe.

O Pai dá-lhe uma sapatada, o Gonçalo fica tão espantado que pára de chorar e deixa-se vestir.

Toma o leite desconfiado, atento ao Pai, mas este lê o jornal tranquilamente.

É sábado, o Pai não vai trabalhar e se bem que tenha que ficar com estes dois safados, acho que os posso deixar na creche do ginásio, diz à Mãe, estou a precisar de nadar um pouco.

Falaste com o Pedro e o Gonçalo? Eles também devem ir, observa a Mãe, podem almoçar todos juntos, sugere.

Espero bem que o tio Pedro não vá, ainda leva o Miguel e o Miguel é muito aborrecido! Está sempre a chorar, digo baixinho ao Gonçalo, mas este não me liga.

Está entretido com a folha do jornal que caiu ao chão, está a rasgá-la aos bocadinhos, ai, Gonçalo, que o Pai não vai gostar nada, aviso.

Mas agora que tem um plano para o dia, o Pai não protesta e dez minutos depois, estamos nas cadeirinhas no carro a caminho do ginásio.

A educadora coloca-nos na piscina das bolas coloridas, há já lá outros meninos a brincarem e o Gonçalo em breve faz parte do grupo.

Eu fico sentada no meio das bolas, não tenho vontade de participar nas brincadeiras dos outros meninos e por isso, a educadora senta-me numa mesinha perto da janela e dá-me um papel e crayons de cor.

A porta abre-se e entra o tio Pedro a arrastar um Miguel muito indignado. 

Todos param de brincar, o Miguel está a gritar bem alto, mas a educadora lá o convence a entrar na piscina.

Em breve, ele e o Gonçalo estão a lutar porque ambos querem a bola amarela, a educadora mostra ao Miguel outras bolas da mesma cor, mas o Miguel quer a que o Gonçalo tem na mão.

Mau! Feio! grito, mas o meu primo olha-me com desprezo e atira-me uma bola que, felizmente, não me atinge a cara.

Há outras bolas que voam pelo ar, um menino rasga o meu desenho, outro empurra o Miguel para dentro da piscina e a educadora tem que chamar alguém para a ajudar.


CONTINUA

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

OS MANOS - PARTE IV

 

Mas o que se passa aqui? quer saber a minha Mãe que entra no quarto e dá um pequeno grito quando me vê com a cara pintada.

Estas safadas encontraram um batom da Filipa e resolveram fazer desenhos psicadélicos, explica a Tia Carolina, vamos lá para a casa de banho limpar isto.

A Mãe segue-a e a Inês protesta, mas a Tia Carolina ignora-a. 

Lava-lhe a cara e as mãos, passa um pouco de creme e decide mudar também de pijama.

Precisas de um? pergunta, mas a minha Mãe abana a cabeça, trago sempre um extra no saco.

Vai buscar o saco e é a minha vez de protestar quando vejo o pijama.

Odeio aquele pijama, azul escuro com elefantes brancos, atiro-o sempre para o chão quando o vejo, não gosto disto, declaro, mas a Mãe finge que é um jogo e veste-mo na mesma.

Por isso, a Mãe avisa-me logo para não fazer cenas, foste muito marota, Sofia, partir assim o batom da prima! repreende, eu tento defender-me, dizer que a culpada foi a Inês, mas ninguém vai acreditar em mim.

A culpa é das duas, intervém a Tia Carolina, tenho a certeza absoluta de que foi esta safada quem teve a ideia e dá um beijo na ponta do nariz da Inês.

Mas não vão comer bolo, acrescenta a Tia, estão de castigo, vão direitinhas para a cama!

Entretanto, o meu irmão cansado com a escalada adormeceu na cama do Matias, mas a Mãe tem medo que ele rebole e caia, não, não pode ficar aqui!

O Matias oferece-se para o levar para o quarto da Inês. A minha prima tenta desafiar a Mãe, quer a luz ligada, mas a Tia Carolina só deixa a luz piloto.

Deixam a porta entreaberta, nem um pio! avisa a Mãe, mas mal os passos se afastam, a Inês pergunta, o que achaste?

Não achei piada nenhuma, confesso, não sei porque é que a Filipa põe aquilo na cara!

Acha que fica bonita, ri-se a Inês, mas eu acho que ela fica uma palhaça! e rimo-nos tão alto que o Gonçalo acorda.

Desta vez, é o Pai quem vem ver o que se passa, a Inês tem muito respeito por ele, por isso, deixa que ele lhe endireite o cobertor, lhe dê um beijo na testa e a aconselhe a dormir.

Também me endireita o cobertor, sorri-me e murmura, amanhã, falamos, marota!

CONTINUA

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

OS MANOS - PARTE III

 

É a oportunidade perfeita para nos escondermos e a Inês afasta as cortinas. 

Ficamos encostadas ao vidro, ninguém nos vê, está em curso um operação de salvamento. O meu irmão é esperto, confidencio, vais ver que encontra uma maneira de os ocupar.

Olho fascinada para o tubo, a Inês explica que aquilo é uma tampa e após algumas tentativas, lá a conseguimos tirar.

E, agora? pergunto e a Inês diz que a Filipa costuma rodar o fundo e com muito cuidado, roda e aparece um outro tubo, desta vez com cor.

Toco, é macio e volto a perguntar, o que se faz agora? e a Inês faz um risco na minha mão.

Olho fascinada para o risco, a Inês ri-se e faz um outro risco, desta vez na minha cara.

Ah, dá cá, também quero fazer, digo e a minha prima pinta a ponta do meu nariz. 

Queres guerra, é? repito, já estou a ficar furiosa e prendo-lhe a mão.

O tubo caí, e antes que a Inês tenha tempo de reagir, apanho-o e fujo para o outro lado. 

A Inês segue-me, tenta tirar-me o tubo, mas sou eu agora quem lhe faz os riscos na cara.

A minha prima protesta, chama-me ruim e eu desato às gargalhadas.

Entretanto, a crise com o Gonçalo está resolvida, ouço o Miguel a perguntar aos irmãos, a Inês, a Sofia, onde estão? Também as perderam? Sei lá, exclama o Edgar indignado, não tenho quatro olhos!

Não passaram por nós, afirma veemente o Matias, mas o Miguel dá-lhe um empurrão, não tens a certeza disso!. Vá lá, temos que as encontrar, se calhar, estão na sala, escondidas debaixo da mesa.

Mas o meu riso denuncia-nos, o Miguel afasta as cortinas e encontra duas miúdas, todas lambuzadas de batom.

Oh, Filipa, vem cá, chama, estas marotas deram cabo do teu batom! e tem toda a razão, porque com a luta, o tubo de cor partiu-se.

O Miguel segura-me, o Matias faz o mesmo à Inês, que lhe dá um soco na cara com a mão fechada, não doeu nada, goza este

O que é que se passa aqui? a tia Carolina parece zangada e eu mordo os lábios, minha nossa! Andaram a fazer pinturas de Carnaval? mas os filhos negam.

Estas marotas encontraram um batom, esclarece o meu primo e o resultado foi este.

CONTINUA


domingo, 24 de janeiro de 2021

OS MANOS - PARTE II

 

Há um jantar na casa da Tia Carolina nessa noite e a Mãe decide levar-me já com o pijama vestido.

Protesto, mas a Mãe não cede, não, vais adormecer de certeza absoluta, trago-te a dormir e é só pôr-te na cama! explica, mas eu fico amuada e atiro com os chinelos para o outro lado do quarto.

O Gonçalo ri-se, o Pai está a vestir-lhe o pijama favorito, do Homem Aranha.

Não acho piada nenhuma, Sofia, queres que telefone à Ema e ficas em casa com ela? pergunta o Pai e eu mordo o lábio, abano a cabeça.

Não, quero ir, a Inês deve ter umas brincadeiras preparadas e eu não quero perder pitada.

A Inês está radiante, faz-nos o sinal secreto de que tem um segredo e mal podemos esperar que nos deixem sozinhos.

Instalam-nos no quarto do Matias e do Edgar, deixam a porta aberta e a Tia Carolina encarrega os dois irmãos de nos vigiarem.

Vamos tirar à sorte quem vai buscar a comida primeiro? sugere o Matias e claro que o Edgar protesta.

Enquanto eles discutem, a Inês mostra-nos um tubo dourado e o Gonçalo estende de imediato a mão.

O que é? pergunto e a Inês sorri, deve ser um marcador, mas deve ser especial porque a Mãe e a Filipa pintam os lábios com isto.

O quê? repito admirada, pois a minha Mãe não usa nada disso e a Inês ri-se, a Filipa diz que é para ficarmos bonitas.

O Gonçalo ri também e tenta tirar o tubo à Inês que lhe dá uma sapatada.

O meu irmão fica muito ofendido e afasta-se. Fica fascinado pela escada dos beliches, mas alguém colocou uma almofada para impedir que se suba.

Não foi muito esperto, porque o Gonçalo empurra-a, não consegue à primeira vez, mas continua a tentar.

O Matias e o Edgar continuam a discutir tão alto que o irmão mais velho, o Miguel aparece e exige saber o que se passa.

O que se passa aqui? Não sabem parar de discutir? Vocês comportam-se como dois idiotas.... olhem, o que é que o Gonçalo está a tentar fazer... seus idiotas! e atravessa o quarto.

O meu irmão já conseguiu afastar a almofada e está agarrado ao primeiro degrau, está a tentar descobrir como subir para o seguinte.

CONTINUA

sábado, 23 de janeiro de 2021

OS MANOS


Gosto de laços e ganchos e de vestidos.

A Mãe tenta vestir-me leggings para estar mais confortável, mas eu faço uma grande cena que põe o Gonçalo a rir.

Vá lá, Sofia, não podes levar um vestido para a creche, diz a Teresa e o António, atraído pelos gritos, entra no quarto.

O que é que se passa? Porque é que ela está aos gritos? pergunta e eu tento explicar-lhe, mas o Pai ri-se.

Deves ter muita razão, Sofia, mas deves ouvir a Mãe e vestir o que ela quer, aconselha e eu tive que obedecer.

Já sei que não é bom estar zangada com o Pai, é tolerante até certo ponto, não suporta abusos.

Por isso, aqui estou sentada no chão, muito infeliz, com uma bola na mão.

A educadora quer que eu pinte o céu, mas limito-me a fazer um traço.

Depois, quer que me sente no chão e cante com os outros meninos, mas eu estou zangada e fico muda.

Passo o dia sozinha, calada e a educadora fica um pouco preocupada, sou muito activa.

Não me parece doente, mas aconteceu alguma coisa que tenha provocado esta falta de interesse? comenta com a Mãe quando esta chega ao fim da tarde.

Não, ri-se a Mãe, a marota queria vestir um vestido e eu achei que ficaria mais confortável com as leggings.

A educadora ri-se também, sim, a Sofia é muito feminina, é uma senhora em ponto pequeno, mas quando a prima está presente, transforma-se.

Ah, sim, concorda a Mãe, a Inês é o comandante em chefe, ninguém está seguro ao pé dela!

CONTINUA

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

A NOVA VIDA - FIM

 

Ninguém dorme naquela noite; a Teresa e o António acabam por subir para o apartamento deles, temos um dia muito ocupado amanhã, desculpam-se.

A Madalena insiste com a Matilde para se deitar, tens aulas amanhã, mas a filha diz que não vai conseguir adormecer, pensei que ela estava a dormir, repete, mas tanto o Pai como a Mãe dizem que a culpa não é dela.

O Bernardes revista o quarto, repara que a Clarinha levou o mealheiro, planeia viajar? pergunta a Madalena e o Inspector telefona para a esquadra mais perto, identifica-se, será que podem dar uma volta pelos quarteirões, pelos jardins mais próximos? A minha filha de oito anos desapareceu, explica, sim, estamos a telefonar para os amigos dela.

Não, a Clarinha não está aqui, não, não se queixou de nada, disse só que a vida em casa estava uma " chatice ", contam os outros Pais admirados, podemos fazer alguma coisa? mas a Madalena agradece e desliga.

Onde é que ela está? é a pergunta que lhes queima os lábios e a Madalena tem uma ideia que a assusta imenso.

Será que ela foi ter com o Gustavo? diz, Oh, Mãe, é impossível, protesta a Matilde, mas a Madalena sabe que a Clarinha é esperta, é muito capaz de encontrar uma maneira.

Sabe o nome da cidade, a rua onde ele mora, já lá foi comigo e fomos de comboio porque ela acha que viajar de comboio é uma aventura, observa a Madalena.

O Bernardes está já a ligar ao Gustavo, que não fica nada satisfeito por ser acordado às duas da manhã.

Quem é? O que se passa? resmunga, morreu alguém para me ligarem a esta hora? mas quando reconhece a voz do Pai e este lhe conta a situação, levanta-se de um salto.

O que é que aconteceu? Foi no parque, na vinda da escola? e ouve atentamente a hipótese ventilada pela Mãe.

Há um comboio que parte daí às seis e meia da manhã e chega aqui por volta das oito, oito e um quarto, diz, mas a Clara terá mesmo coragem de fazer isso?

O Bernardes não responde, a Clarinha é capaz de tudo e resolve ir ele próprio à estação.

A Madalena e a Matilde ficam sentadas na sala, telefono à Rita? propõe a filha, mas a Madalena não a quer incomodar.

Pode ser que ela esteja na estação, murmura e uma hora mais tarde, o Bernardes aparece, quase arrastando uma Clarinha furiosa.

Oh, Clarinha, gritam as duas, mas o que é que tinhas na cabeça? Estávamos preocupadas, não pensas nas outras pessoas? mas a miúda com um ar de desafio responde, esta casa é uma seca! Queria ter uma aventura!

Pela primeira vez na vida, a Madalena faz o que nunca fez aos filhos: bate-lhe, surpreendendo a miúda que fica tão surpreendida que não reage.

Será esta a única linguagem que a Clarinha vai entender? a Madalena está arrependida, sempre conseguiu resolver os conflitos com diplomacia e apelando ao bom senso.

Mas a psicóloga aconselha-lhe a ter calma, basta que a Clarinha saiba que isto pode acontecer, talvez aprenda a gerir as situações doutra maneira.

Será?


FIM

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

A NOVA VIDA - PARTE VI

 

A consulta é complicada, a Clarinha recusa-se a colaborar e, mesmo sozinha com a psicóloga, não fala.

O Bernardes e a Madalena sentem-se desesperados, não sabem verdadeiramente o que fazer, tentem passar mais tempo juntos, aconselha a psicóloga, e claro está que vou continuar a trabalhar com a Clarinha.

Deixam a Clarinha em casa, precisamos de uma pausa, diz o Bernardes, há um restaurante simpático perto do meu apartamento, ou compramos ou comemos lá.

A Madalena gosta do restaurante, decidem jantar lá e a conversa é tranquila, evitam falar da Clarinha, sabem que têm que discutir o assunto, mas agora é altura de pensarem neles.

Falam do affair do Bernardes, do que correu mal, dos novos projectos da loja e mesmo dos casos complicados do Inspector.

Obrigada, tinha saudades disto, confessa o Bernardes, sempre foste muito sensata, muito perspicaz e às vezes, estamos tão envolvidos no caso que não nos apercebemos de certos detalhes.

Mantém-nos a mente activa, concorda a Madalena, e os teus casos são sempre interessantes. Mas tens tido cuidado contigo? Comido bem, dormido as horas suficientes?

O Bernardes ri-se, não sou um dos teus filhos, mas sim, tenho tido cuidado e a ex-mulher sorri.

São quase onze horas quando regressam a casa da Madalena, o Bernardes sobe para dar um beijo de boa noite à Clarinha.

Encontram a Matilde na sala muito nervosa, a Teresa e o António também estão lá, muito preocupados.

Mas o que aconteceu? Foi a Clarinha? pergunta a Madalena de imediato, Clara, Maria Clara, onde estás? chama.

O António coloca uma mão no braço dela, obriga-a a sentar-se no sofá e diz calmamente, a Clarinha voltou a fugir, a Matilde ajudou-a a deitar-se, deixou-a sossegada na cama com os olhos fechados.

Entretanto, recebi uma chamada do meu colega Rogério, atendi aqui na sala, interrompe a Matilde, estive para aí uns quinze minutos a falar e quando terminei, fui novamente ao quarto dela para me certificar que tinha adormecido e não estava a brincar com a Play Station.

Não estava, termina o Bernardes, levou alguma coisa? deixou algum bilhete? mas a Matilde abana a cabeça, a primeira coisa que fiz, foi telefonar à Teresa e ao António, observa.

Ok, vou dar uma vista de olhos e vamos ter calma, acrescenta, pois a Madalena está muito pálida, a pensar o pior.

CONTINUA

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

A NOVA VIDA - PARTE V

 

A Clarinha entra nessa momento, quem é que me leva à escola? pergunta e a Rita repreende-a, não é assim que se fala, tens que ser mais delicada, educada.

A Clarinha não responde, dá meia volta, saí da cozinha, murmura qualquer coisa que as duas mulheres interpretam como fico à espera no corredor.

Eu levo-a, oferece-se a Rita, pode ser que ela me escute, mas a Madalena duvida e tem razão.

A Rita tenta conversar com a sobrinha, a Clarinha tenta ligar o rádio, mas a tia impede-a e começa a assobiar.

Maria Clara, queres fazer o favor de te calar? Estou a falar contigo; não te disse já que tens que ser educada, delicada, simpática? ralha a Rita, o que é que se passa contigo? Posso ajudar em alguma coisa?

A Clarinha cala-se, olha em frente, a Rita não tem a certeza de que a estou a ouvir.

Chegam à escola, a Clarinha abre a porta rapidamente, saí do carro sem dizer adeus e a Rita fica ali parada uns minutos a tentar perceber o que aconteceu.

Entretanto, a Madalena telefona à psicóloga, descreve o que aconteceu e a médica marca uma consulta de urgência para aquele dia ao fim da tarde.

É melhor o Pai vir também, diz a médica e a Madalena telefona ao Bernardes de imediato.

O Inspector concorda, podem encontrar-se no Centro Comercial perto do consultório, comer qualquer coisa antes de irem à consulta.

A Clara fica amuada quando sabe da consulta, eu não  sou maluca! declara e a Matilde, que chega entretanto, observa, então, não te comportes como uma!

A irmã fica furiosa, tenta bater-lhe, mas a Matilde é mais rápida e dá-lhe uma sapatada que a surpreende.

Vamos embora, Clarinha, deixa-te de disparates, intervém a Madalena e a Matilde aprecia o novo look da Mãe.

O vestido em tons de verde e preto é elegante, a Mãe escolheu um colar com vários tons de verde, as meias e as botas são pretos.

Gosto do teu look, estás discreta, mas moderna, comenta a Matilde com um grande sorriso e a Madalena fica contente.

Eu acho que estás feia! insiste a Clarinha e a Madalena prende-lhe a mão, vamos lá, malcriada, o Pai está à espera.


CONTINUA


terça-feira, 19 de janeiro de 2021

A NOVA VIDA - PARTE IV

 

A Rita está curiosa, será uma boa ideia irem passear os três? desabafa com o Gonçalo, mas este encolhe os ombros e aconselha-a a gozar também o dia.

Vamos ter uma semana muito intensa, podemos até nem estar juntos, vamos sair, divertir-nos um pouco, a tua irmã sabe como resolver os problemas dela, diz.

A Rita cede e saem os dois para explorar a cidade, há uma exposição que o Gonçalo quer ver e talvez possam ir ao cinema depois ou a um recital numa das Igrejas da Baixa.

A Madalena não telefona nessa noite, a Rita fica preocupada, mas o Gonçalo aconselha-a a esperar, a irmã telefona se achar que é importante.

Segunda-feira é um dia complicado na loja, a Madalena está muito cansada e com a Clarinha de tão mau humor, nem pensa em telefonar à Rita.

É demais para a Rita, no dia seguinte, às nove da manhã está já a bater à porta do apartamento da irmã

É a Matilde quem abre a porta, desculpa. não posso ficar a conversar, estou já atrasada, a Clarinha está insuportável, comenta e desaparece no corredor.

A Rita entra, fecha a porta e chama pela irmã. 

Estamos na cozinha, responde a Madalena, estamos a terminar o pequeno-almoço, ou melhor dizendo, a tentar terminar.

A Clarinha olha a tia, desconfiada, nota-se que está mal humorada, mas a Rita finge que não percebe e puxa-lhe o cabelo.

A Clarinha desvia-se, se pudesse, batia-me, pensa a Rita, mas a sobrinha não diz nada. 

Levanta-se e saí da cozinha lentamente, sem tomar o pequeno almoço para grande desespero da Mãe.

O passeio ontem não correu bem? questiona a Rita e a Madalena suspira.

Correu bem até o Bernardes lhe explicar a razão de não estar tantas vezes com ela, esclarece a irmã, tem horários estranhos, porque tem um emprego muito exigente, que gosta muito dela, que pode contar sempre com ele, etc.

Mas? pressiona a Rita quando a irmã faz uma pausa, até acho que ela percebeu isso, continua a Madalena, mas quis fazer chantagem.

Uma catraia de oito anos a fazer chantagem? interrompe a Rita e a Madalena confessa que não sabe se será a palavra correcta.

Pensamos que ela tinha compreendido, ficou muito calada, conta a Madalena, mas depois a safada abre a boca e diz que está na altura de lhe dar outro IPad, já que gosta tanto dela!

A Rita fica chocada, não sabe o que dizer, adivinha tempos difíceis pela frente.


CONTINUA 


segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

A NOVA VIDA - PARTE III

 

O que não diria o Bernardes se te visse agora, comenta a Rita e a irmã volta a rir.

O Bernardes está muito ocupado, telefona todos os dias à Clarinha, mas nem sempre passa o fim de semana com ela, responde a Madalena, e quando está com ela, a menina queixa-se que ele adormece e deixa-a sozinha.

Típico do Bernardes, diz a Rita, mas a Madalena abana a cabeça, a Matilde e o Gustavo compreendem melhor a situação, a Clarinha acha que a culpa é dela.

Já falaste com ela sobre isso? E com o Bernardes? pergunta a Rita, tenho a certeza de que ele terá uma opinião sobre essa questão.

E, que questão é essa? repete uma voz muito conhecida por trás delas, as duas irmãs sobressaltam-se, olham para trás.

É o Bernardes, com um tabuleiro nas mãos, a Rita faz-lhe sinal para se sentar à mesa delas.

Obrigada, só comi sandes hoje, suspira e a Madalena comenta, não devias comer pizza! devias comer qualquer coisa mais saudável!

Estou cansado demais para pensar nisso e a pizza está quente, defende o ex-marido e é então que a observa atentamente.

Um novo look, gosto! declara e a Madalena cora como uma adolescente, a Rita ri-se baixinho.

De vez em quando, temos que nos divertir, de nos modernizar, exclama, e a Madalena estava a precisar disso...de uma imagem discreta, mas mais actual.

E tu és a pessoa indicada para isso, sorri o ex-cunhado, e a Clarinha?

A Clarinha está com o Gonçalo, intervém a Madalena, aliás, devíamos regressar, Rita! O Gonçalo deve estar cansado!

Amanhã, vou buscá-la para almoçarmos juntos...Aliás, vem também, podemos falar da tal questão que estavam a discutir quando cheguei, acrescenta o Bernardes, o que é?

A Madalena hesita, depois concorda com o almoço, assegura-lhe que explicará tudo quando estiverem juntos.

Mas a Clarinha está bem? insiste o Pai, acho que a terapia foi uma boa solução, mas se achas que devemos mudar alguma coisa...

Não, não, interrompe a ex-mulher, tem a ver com o teu trabalho, já passamos isto com o Gustavo e a Matilde e resolvemos a situação.

O Bernardes não diz mais nada e as duas mulheres despedem-se.

CONTINUA


domingo, 17 de janeiro de 2021

A NOVA VIDA - PARTE II


A Madalena concorda com o novo corte e aceita fazer madeixas em vez de pintar numa cor que a Rita diz ser o furor da estação.

Não, não, acho que as madeixas vão resultar, diz a Madalena e depois de concluído o trabalho, a Rita dá-lhe razão.

Está mais leve, mais brilhante e o próximo passo é a maquilhagem, nada de vermelhos berrantes, protesta a Madalena e a Rita finge-se ofendida, era lá capaz de sugerir isso!

A Madalena ri-se, conheço-te muito bem, responde e divertem-se a experimentar bases, sombras e batons.

Entram depois na Zara, na H&M, Massimo Dutti, Tiffosi, mas a Madalena não fica convencida com o que vê nos manequins.

Gosta da lingerie da Intimissimi e a Rita está a começar a ficar desesperada, não podes andar sempre de jeans e túnicas, comenta, sei que é prático, mas muda um bocadinho! Tenta ser a irmã mais velha da Matilde em vez da Mãe antiquada!

Não quero ser a irmã mais velha da Matilde, tenho que ser a Mãe dela! exclama a Madalena, um pouco alterada e a Rita afasta-se um pouco para lhe dar espaço.

Finge que está a ver a montra da ourivesaria, a Madalena precisa de uns minutos para se recompor e fica surpreendida quando a vê entrar na Natura.

Ups! Vai escolher vestidos étnicos como a Teresa, pensa a Rita, é uma marca da mulher do António, acha que se ela vestisse outra coisa, não seria a Teresa, mas a irmã? Não, não é o estilo dela, e entra na loja também.

A Madalena já escolheu uns três vestidos, predomina o azul como ela gosta e a Rita segue-a sem uma palavra até ao vestiário.

Não gostam do primeiro, mas os outros dois assentam-lhe na perfeição e a Madalena diz que os leva.

A funcionária diz que há uma promoção, leva três vestidos e paga só dois, não quer aproveitar? claro que sim, declara a Madalena e as duas irmãs voltam a ver os vestidos em exposição.

Até a Rita se entusiasma e compra três vestidos de uma marca que não conhece muito bem.

Chega de compras, vamos descansar, comer qualquer coisa, decide a Madalena quando saem da loja, passaram ali uma hora bem divertida, a Rita até a convenceu a trazer já vestida uma das peças que comprou.


CONTINUA

sábado, 16 de janeiro de 2021

A NOVA VIDA

 

E pronto! Tanto que criticou os filhos por utilizarem a expressão e aqui está ela a repeti-la, mas sente-se sozinha!

O Gustavo gosta do emprego, está a construir uma vida e quando vem passar o fim de semana, quer encontrar-se com os amigos e não fica muito tempo em casa.

Entre a universidade e o trabalho em part-time no escritório da tia, a Matilde pouco tempo tem para se sentar e conversar com a Mãe.

Até a Clarinha já tem o seu circulo de amigos...

Ainda bem que tenho o blog de culinária e a loja, desabafa com a Rita, caso contrário, a vida seria muito solitária.

Os teus filhos vão sempre precisar de ti, sabem onde te podem encontrar, diz a Rita, mas agora já não tens o controlo da vida deles.

Pois... por um lado, é bom vê-los levantar voo, mas por outro... e a Madalena abana a cabeça.

O que precisas é de conhecer outras pessoas, sair com alguém, observa a Rita, ter um affair, acrescenta, trocista.

Oh, Rita, que disparate! reage a Madalena, tenho lá idade para isso!

Não vejo porque não! Tu e o Bernardes divorciaram-se, porque ele tinha um affair e o Major só não divorciou da primeira mulher, porque ela morreu, responde a Rita, e depois, tu ainda estás em boa forma, temos é que modernizar o corte de cabelo e o vestuário. Amanhã, vamos à compra, decide.

Rita, estás maluca! Não sou sexy como tu, protesta a Madalena, mas a Rita nem quer ouvir.

O Gonçalo leva a Clarinha ao circo, ao cinema, ao museu, continua a Rita, deixo isso ao critério dele, mas nós vamos sair e quando terminarmos, ninguém te vai reconhecer!

A Madalena olha-a assustada.

CONTINUA

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

OS ORGULHOSOS - FIM

 

O Gonçalo aparece no exacto momento em que vão cantar os parabéns à Teresa, todos esquecem a razão porque estão ali reunidos e sucedem-se os oh's, os ah's.

Foi tudo combinado ao milímetro, explica a Rita enquanto o António dá um grande abraço ao irmão, que saudades, pá! que saudades! repete.

O Nicolau e o Major querem saber tudo sobre a estada na Bélgica, as mulheres perguntam à Rita se se reconciliaram e quais são os planos para o futuro.

A Rita ri, é muito cedo, temos ainda muita coisa a resolver, mas sim, estamos novamente juntos. A verdade é essa, acrescenta, não sabemos viver um sem o outro.

A Glória acha isso muito romântico, há uma lágrima teimosa no canto do olho da Teresa e a Madalena suspira de alívio.

Sorri à irmã, aperta-lhe a mão e murmura, depois falamos.

Por vontade deles, ficam a conversar a noite toda, mas a Sofia e o Gonçalo acordam com o barulho, assustam-se e os Pais têm que os acalmar.

Fica combinado um almoço no dia seguinte, no restaurante habitual, o Nicolau encarrega-se de telefonar para lá e marcar uma mesa para a uma da tarde.

Se possível, peça para ser no jardim, pede a Teresa e o Gonçalo e a Rita despedem-se.

O António diz baixinho, não te esqueças de telefonar aos Pais, há novamente problemas com a Laura, mas amanhã ou depois, tomamos o pequeno almoço juntos e esclareço tudo.

O Gonçalo fica imediatamente preocupado, mas o irmão assegura-lhe que não é nada de grave e é tão bom ter-te cá, comenta.

Sempre o ajudo a suportar o fardo, observa o Gonçalo e a Rita abana a cabeça, a tua irmã é muito problemática realmente, não sei como o Pedro a atura.

Sabes o que se passou? pergunta o Gonçalo, mas a Rita sorri, podemos deixar isso para amanhã? Hoje, a noite é nossa.

O companheiro beija-a apaixonadamente; a Rita tem razão.

A noite é deles e a paixão, o desejo despertam novamente os sentidos.


FIM


quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

OS ORGULHOSOS - PARTE V

 

Até o Bernardo está nervoso, será que eles se vão entender? pergunta à Mãe e a Aída repete que é o que todos esperam.

A Rita está diferente quando regressa, está mais sorridente, mais vibrante, parece a Rita do antigamente, murmura a Matilde.

Contudo, quando a Madalena insiste para que ela lhe conte os detalhes da viagem, a Rita apenas sorri e evita o assunto.

Reconciliaram-se ou não? É uma pergunta simples, não percebo este suspense, queixa-se o Gustavo que veio passar o fim de semana a casa, para saber das novidades.

O Gonçalo também não diz nada, diz o António, sempre que falo na Rita e da viagem que ela fez à Bélgica, ele mostra-se muito admirado.

O teu irmão está a mentir, interrompe a Teresa, supostamente a Rita foi à Bélgica porque tinha assuntos pendentes a discutir com a empresa, achas mesmo que ela não encontrou o Gonçalo? Claro que encontrou, isto é uma cena de teatro, dizem-nos quando estiverem prontos.

O Nicolau e o Major também concordam, de certeza absoluta que se reconciliaram, têm que resolver certos detalhes, afinal, o Gonçalo tem um contrato de trabalho, por seis meses, não é? questiona o Professor.

Efectivamente, a Rita e o Gonçalo encontraram-se para jantar durante a visita dela à Bélgica.

Num local neutro, pediu ela e o Gonçalo sugeriu um restaurante discreto na baixa da cidade.

Falaram do trabalho que o Gonçalo está a desenvolver, dos projectos que a Rita está a orientar, até mesmo da pessoa que ela contratou para a ajudar.

A meio do jantar, o Gonçalo pergunta se podem falar deles, do que se passou,  teve tempo para pensar e agiu muito mal, compreende que seja difícil para ela perdoar-lhe, mas podem tentar, recomeçar?

A Rita fica calada por uns minutos, depois confessa que o objectivo da viagem foi exactamente esse, encontrar uma forma de recomeçarem, tanto profissional como pessoalmente, somos uma equipa em todos os sentidos, diz, sinto a tua falta na minha vida.

O Gonçalo sorri, também eu, sussurra e quando saem do restaurante, são novamente um casal, conscientes que há muita coisa a resolver, mas estão juntos e prontos para encontrarem uma solução.

Para já, o Gonçalo vai terminar o contrato, a Rita faz questão disso, somos profissionais e o que estás a aprender aqui, vai ser muito útil.

O resto resolve-se depois, e o que vamos dizer aos outros? questiona o Gonçalo na manhã seguinte, depois de uma noite muito exótica, muito sensual.

Vamos manter segredo, a Teresa está a planear uma festa de aniversário, quer que estejas presente e tu vais fingir que tens um fim de semana de trabalho, uma acção de formação qualquer a que não podes faltar, sugere a Rita.

E apareço na altura em que se corta o bolo?e o Gonçalo ri-se, está bem disposto, tranquilo, há meses que não se sentia assim.

A Rita acena que sim e sentam-se a fazer planos.

CONTINUA


quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

OS ORGULHOSOS - PARTE IV


Tive uma ideia, diz o Nicolau na quarta-feira seguinte e tanto o António como o Major olham-no com surpresa.

A sessão do Clube foi interessante, a Rita fez uma análise pertinente do livro, que serviu de mote para a discussão posterior.

Parece que a Rita está a ultrapassar a tempestade, comenta o Nicolau, mas o António abana a cabeça, segundo a Teresa, ela está ainda muito magoada, a Madalena queixa-se que a Rita está distante.

O Major concorda, a Glória passou pelo escritório, tentou que fosse almoçar com ela, mas a Rita recusou-se, está com muitos projectos em cima da mesa, conta.

A minha ideia é organizar uma video chamada, aqueles dois têm que falar, explica o Nicolau, claro que temos que ser um pouco diplomáticos, não podem saber que vão falar um com o outro, mas é uma solução.

Nem o Major nem o António ficam convencidos; a Glória acha que a video chamada vai piorar a situação e a Teresa diz que a Rita vai cortar relações com todos.

Lembra-te que ela é responsável pelo marketing das lojas, as ideias dela são brilhantes e além disso, faz parte da Administração da empresa, salienta.

Mas o Nicolau persiste, combina um almoço com todos no domingo e quando servem a sobremesa, convida a Rita para ver um livro raro que comprou e está no escritório.

O computador está ligado, enquanto a Rita folheia cuidadosamente o livro, o Nicolau liga para o Gonçalo.

Oh, Nicolau, que bom ter ligado, exclama o irmão do António, conte-me tudo.

A Rita levanta a cabeça, suspende a respiração e olha fixamente o Nicolau que apenas lhe sorri.

Minha querida, algum dia terá que falar com ele, há uma história entre os dois que não pode terminar desta maneira, aconselha e saí, fechando a porta.

Cá fora no jardim, a expectativa é grande, o que é que ela disse? quer saber a Glória, será que ela não vai desligar? comenta a Teresa.

Não, a Rita não é pessoa para fazer isso, pode zangar-se com o Nicolau, observa o António, mas vai ouvir o que o Gonçalo tem para dizer.

Também estou convencido disso, a Rita é uma mulher inteligente, concorda o Major.

O que aconteceu no escritório é um segredo entre a Rita e o Gonçalo, se fizeram as pazes continua a ser um ponto de interrogação.

Mas quando a Rita comunica à irmã que vai passar uns dias à Bélgica, a Madalena pensa que tudo ficará esclarecido quando ela voltar.

CONTINUA

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

OS ORGULHOSOS - PARTE III


O Nicolau decide enviar um mail ao Gonçalo.

O António queixa-se que o irmão é muito lacónico nas mensagens, não estou a dizer que me envie um mail todos os dias, mas uma video chamada aos domingos seria uma forma de estar em contacto com ele, diz, pouco ou nada sei do trabalho que está a desenvolver, se gosta ou não.

Talvez alguém neutro, pensa o Nicolau, consiga abrir uma brecha nas defesas do Gonçalo e ele diga o que se está a passar verdadeiramente.

O Gonçalo fica surpreendido com o mail do Nicolau, afinal, não se conhecem muito bem, conhecem-se através do irmão.

Mas ali está um mail muito amável, com perguntas sobre o trabalho dele, as impressões que tem da cidade, é que estou a pensar em escrever um livro, escreve o Nicolau,  a situação da personagem é similar à do Gonçalo.

O Gonçalo sugere uma video-chamada, o Nicolau acede, o Major explicou-me como se faz isso, tenho que me modernizar, confessa o professor, aliás, fui convidado para dar uma palestra online.

O Gonçalo ri, quer saber sobre o que é a palestra, o Nicolau faz um pequeno resumo e o irmão do António lamenta que seja num horário que não lhe permite assistir.

E, o trabalho, interrompe o Nicolau, está a corresponder ao que esperava? e o Gonçalo suspira.

Não se pode queixar, é aliciante, está a aprender novas estratégias, novas abordagens, sente é falta da Rita, admite, a vivacidade, a sensualidade.

O Nicolau fica calado durante uns minuto, sim, a Rita é uma mulher muito sensual, enche a sala, confirma o Professor, eu próprio estou um pouco apaixonado por ela, sorri, mas ultimamente, a Rita tem estado muito triste.

Tem? Tem falado com ela? o Gonçalo está ansioso, pede mais detalhes, mas o Nicolau abana a cabeça.

Meu caro amigo, tente falar com ela, estão a ser teimosos, os problemas resolvem-se, mas têm que deixar o orgulho de parte, aconselha o Professor, mas o Gonçalo não diz nada.

Em casa da Madalena, a Rita também não está a aceitar os conselhos da irmã.

Vocês são muito orgulhosos, têm que ceder e conversar, observa a Madalena, havia qualquer coisa mágica na vossa relação, claro que a atitude do Gonçalo não foi correcta, mas não podem deixar que destrua o amor que existia e ainda existe, não negues, acrescenta.

Ele magoou-me muito, comenta a Rita, não sei se posso perdoar.

A Madalena encolhe os ombros, não tem mais argumentos.

Talvez a Teresa tenha alguma ideia, ela sente-se esgotada, a Rita foi sempre tão positiva e agora, perdeu a energia, o brilho.

CONTINUA


segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

OS ORGULHOSOS - PARTE II

 

O Gonçalo está no bar do hotel do aeroporto; parte cedo no dia seguinte, vou evitar o stress de ter que me levantar de madrugada para apanhar aquele metro, explica ao Pedro quando este o tenta dissuadir.

O hotel é simpático, sossegado e ele sentou-se num canto do bar, a saborear um whisky.

Está um pouco nervoso, tem a certeza absoluta de que estará à altura do novo desafio, mas sente a falta da Rita.

Pouco falaram nestas últimas semanas, a Rita foi bem educada, uma profissional de alto nível, mas cortou qualquer tipo de conversa pessoal.

E a culpa é só dele, como bem disseram a Teresa e o António, destruíste uma relação estável, poderosa e tudo porque te acenaram com dinheiro???

Fui mesmo um idiota, pensa, o que é que eu queria mais? Uma mulher inteligente e muito sexy, uma vida cheia de desafios pessoais e profissionais...

Até tem saudades das discussões que tinham... onde é que eu estava com a cabeça? repete, o que é a Rita está a fazer agora?

A Rita está cansada, o novo cliente está sempre a pedir alterações e as reuniões são longas, pouco produtivas.

Precisa de contratar alguém, a Matilde está a seleccionar os CV's para análise, mas hoje, não quer pensar nisso, onde é que estará o Gonçalo?

Tem a certeza absoluta de que ele encontraria a forma adequada de resolver o assunto, acabariam por se rir e ele diria que estavam em casa, as horas eram deles.

Sente falta do abraço dele, dos beijos apaixonados, do corpo encostado ao dele.

Hoje, sente-se velha, a irmã diria que é um disparate, ela será sempre uma mulher interessante.

Tenta concentrar-se no livro escolhido pelo Clube, mas está a ter dificuldades em compreender a trama.

Não seria a escolha dela, mas a maioria votou sim e aqui está ela a tentar decifrar palavras sem sentido.

O telemóvel vibra, a primeira pessoa em quem pensa é no Gonçalo.

Será? Mas é a Madalena, estás bem? Vem jantar connosco amanhã, podias ir buscar a Clarinha à escola, sugere.

A Rita acaba por ceder, sente-se muito sozinha e a Clarinha está a ultrapassar aquela fase sombria de fugas e má educação, está mais divertida, tem sempre uma história engraçada para contar.

Sim, vou buscar a Clarinha e levo a sobremesa.

E, sabes alguma coisa do Gonçalo? pergunta a irmã, a Rita suspira, acho que vai amanhã para a Bélgica.

CONTINUA



domingo, 10 de janeiro de 2021

OS ORGULHOSOS

 

O Nicolau suspira de alivio. Estão todos presentes, até mesmo o Bernardo!

O António faltou a umas sessões, estou a ajudar a Rita no novo projecto da empresa, esclarece e o Major estava preocupado com a saúde da Glória, é só stress, convenci-a a pedir uma licença, explica.

Ainda bem, responde o Nicolau, senti a vossa falta, não é que a Aída e a Rita não sejam pessoas interessantes, apressa-se a dizer, mas faltava o ponto de vista masculino.

Que a Rita não o oiça a dizer isso, Nicolau! aconselha o Bernardo e o Nicolau ri-se.

A Rita está diferente, houve qualquer coisa nela que morreu, o Nicolau não sabe como explicar em palavras.

Não é de admirar, suspira o António nessa noite ao jantar, o meu irmão não foi exactamente correcto! Escondeu-lhe coisas importantes e a Rita não perdoou!

Entendo o ponto de vista da Rita, ela construiu aquela empresa do nada, comenta o Nicolau, não deve ter sido fácil saber que receberam uma proposta de compra e ela não saber absolutamente nada.

O Gonçalo diz que também a ajudou a construir a empresa, a proposta era muito interessante, responde o António, mas o Major não concorda.

Desculpa, António, é teu irmão, mas agiu mal. Não estou a dizer que agiu de má fé, mas praticamente deu a palavra dele à empresa estrangeira, não consultou a Rita antes. Eu também ficaria aborrecido e não sei se não deixaria a empresa, observa.

De qualquer modo, a Rita é uma mulher de armas, negociou um bom contrato e continua a ser a dona da empresa, isso é que é importante, intervém o Nicolau, e o teu irmão?

O António volta a suspirar, já não bastam os problemas com a Laura, agora tem que se preocupar com o Gonçalo.

Ao que parece, vai passar uns tempos na sede da empresa no estrangeiro, conta o António, a Rita fica.

Talvez seja a melhor solução, concede o Nicolau, vão ter tempo de pensar, de definir prioridades.

Talvez voltem a ficar juntos, opina o Major, mas o António abana a cabeça, tanto a Rita como o irmão são muito orgulhosos.

CONTINUA

 

sábado, 9 de janeiro de 2021

O INSATISFEITO - FIM

 

A Menina Laura não está bem? comenta a D. Margarida e a minha avó suspira.

Fico curioso, porque é que suspiram? Ajuda em alguma coisa? quero perguntar, mas ninguém olha para mim e a fatia de bolo é muito mais interessante.

Não, não está e creio que se esquece de tomar a medicação, explica a avó, mas o que provocou isto foi o Pedro dizer-lhe que está a pensar em casar novamente.

O Menino Pedro vai casar novamente? repete a D. Margarida, isso é normal, refazer a vida, ter outros filhos, a menina Laura tem que compreender.

Vai ser complicado convencê-la disso, diz a avó. Parece triste, cansada, mas sorri-me e eu sorrio também.

Não volto a ver a minha Mãe nessa noite, fecha-se no quarto, recusa-se a sair do quarto para jantar, apesar da ordem directa do avô.

Os dias seguintes são cheios de descoberta, pouco vejo a Mãe, mas a D. Margarida e a avó estão sempre prontas a ceder aos meus caprichos.

Mas o Pai telefona naquele dia à noite, tenho que voltar, que regressar ao colégio, preciso de ter uma vida normal com regras.

O avô decide levar-me de carro, a Mãe faz uma cena, não, não deixo que o leves, mas a avó convence-a de que é melhor eu ir voluntariamente, ou queres que o Pedro peça à polícia para o vir buscar? e a minha mãe fica mais calma.

A viagem é divertida, o avô conta histórias sobre cavalos, javalis e piratas em ilhas desertas, canta-se e depois eu adormeço.

Quando acordo, o Pai está a abrir a porta do carro, então, campeão, gostaste de estar com os avôs? e tira-me da cadeirinha.

A Ângela fica comigo enquanto o avô conversa com o Pai. 

O que decidiram, não sei, só vou descobrir quando for mais crescido. 

E só vou ver a Mãe meses mais tarde, nunca a entenderei.

Não sei o que aconteceu à namorada do Pai, voltamos a ser só os dois e a vida decorre entre o colégio, a casa e os almoços em casa dos tios.

O Matias e o Edgar continuam a dizer que sou um insatisfeito, a Inês continua a ser atrevida e mandona. 

A Sofia e o Gonçalo não dizem nada, querem apenas divertir-se.

Eu? Também não quero dizer nada....Quero ficar em paz, nada mais!

Será que é pedir muito?


FIM


sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

O INSATISFEITO - PARTE IV

 

Fico no jardim das traseiras enquanto os adultos conversam na sala.

Finjo que estou a jardinar, claro que as minhas ferramentas são de plástico, e tento imitar a D. Margarida, a governanta da avó.

A senhora acha-me graça, cheira isto, Miguel? sabes o que é? é hortelã e ri-se quando repito a palavra.

Mas hoje o que me interessa verdadeiramente é a mangueira. Parece uma cobra, tal e qual a do meu livro, ali enroscada ao Sol.

Aproximo-me cautelosamente, será que me está a vigiar? mas não acontece nada. Aproximo-me ainda mais e ups! sou recebido com um jacto de água (ou será veneno?).

É o Gustavo, o neto da D. Margarida que abriu a torneira e " regou-me" como diz.

A D. Margarida recrimina-o, apanha uma constipação e a Menina Laura fica zangada comigo.

Entramos em casa sorrateiramente, os ânimos estão exaltados na sala, ouço a Mãe a gritar e o avô a dizer para se acalmar.

A D. Margarida seca-me o cabelo, limpa-me a cara e muda-me a roupa.

Depois, olha muito séria para mim e diz, não vamos contar à Mãe, ok? e eu abano com a cabeça em sinal de concordância.

Continuas a não falar muito, não é? O meu neto na tua idade falava pelos cotovelos, comenta a governanta, gostas mais de ouvir e suspira.

O que será que ela está a pensar? Tenho uma Mãe doida, não, instável e um Pai paciente demais e  não vale a pena desperdiçar as palavras com eles? Será verdade?

Voltamos a descer, a D. Margarida prepara-me o lanche. Fez um bolo de chocolate, corta-me uma fatia e eu sorrio.

Infelizmente, a Mãe saí da sala nesse momento, está muito corada, parece que esteve a chorar e ao ver o prato com a fatia de bolo, grita de imediato.

Não, não quero que ele fique obeso! Dê-lhe antes uma peça de fruta! e tenta tirar-me o prato que agarro com toda a força.

Laura, para com isso! exige a avó, deixa o Miguel comer o bolo, ele vai andar pela quinta, vai gastar as calorias.

Oh, Mãe, porque é que está contra mim? e a minha Mãe sobe as escadas apressadamente.

CONTINUA


quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

O INSATISFEITO - PARTE III

 

Oh, Pedro, diz o avô, não te preocupes, estão aqui. Chegaram há cerca de meia hora, a Laura foi dormir, mas o Miguel está aqui na cozinha connosco. O que é que se passou?... Ah, conheceste alguém e estás a pensar em voltar a casar?... Pois, compreendo que a ideia não agrade muito à Laura, mas tens todo o direito de refazer a vida, voltar a ser feliz....não, não, deixa-o ficar aqui uns dias... e claro que sim, conversamos com a Laura.

Desliga e suspira profundamente. A avó comenta, o Pedro vai casar novamente e a Laura ficou desorientada.

O Pedro diz que foi uma cena muito desagradável e que isto de fugir a meio da noite com o Miguel é ridículo,  responde o avô, será que a nossa filha não compreende que isto não abona nada a favor dela, que o Pedro pode em qualquer coisa alterar a situação e ela começar a ver o filho em dias específicos e acompanhada por alguém da confiança do Pedro?

Agora é a avó quem suspira e eu escuto tudo atentamente. 

O Pai recebe muita gente em casa, mas nem todos ficam lá a passar a noite e tomam o pequeno almoço connosco.

Será aquela mulher muito sorridente que rouba beijos e abraços ao Pai a namorada? 

Gosto dela, senta-se no chão comigo a brincar, tem uma voz aceitável para ler as histórias e não se importa nada que eu a borrife com água quando estou no banho.

Pois, a Mãe não deve ter gostado nada... é muito ciumenta.

Mas não estou a prestar atenção à conversa dos avôs que se sentem impotentes perante a atitude da filha.

Temos que conversar com ela, talvez até telefonar ao médico dela e ver o que ele diz, sugere a avó, ela tem que voltar a fazer terapia.

Pois, concorda o marido, mas ela tem estado bem, concentrada no trabalho, a obter bons resultados, mas quando acontece qualquer coisa que ela não controla, ela toma estas atitudes que magoam toda a gente.

Os dois suspiram novamente e eu acho que é uma boa altura para deixar cair uma colher.

Assustam-se com o barulho, a avó sorri e o avô chama-me malandro.

Que tal uma sesta? Acho que é uma boa ideia, convence-me a avó e leva-me para o meu quarto.

Sim, o meu quarto, porque sou o neto que passo mais tempo cá em casa.


CONTINUA