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RECORDAÇÕES - FIM

Preciso de exercício, decido, subo as escadas até ao gabinete do Chefe do Departamento. O que se passa? Vou ser despedido, suspenso ou promovido? penso enquanto espero na sala de espera. A porta do gabinete abre-se, a secretária faz-me sinal para entrar e além do Chefe do Departamento, o Chefe dos Detectives está também presente. Ups! o caso é sério, apresso-me a rever tudo o que tenho feito até ao momento, mas tenho seguido as regras, tive  um bom mestre. Sei que consultou os ficheiros sobre os acontecimentos que levaram à morte do Inspector Leandro, começa o Chefe, e gostaríamos de saber se o fez por alguma razão em especial. Hesito, mas o melhor é expor tudo com clareza e durante a próxima meia hora, explico as razões que me levaram a analisar os ficheiros e as conclusões a que cheguei. Quando termino, estou com a boca seca, preciso de beber água, mas não me atrevo a interromper o silêncio que paira na sala. É o Chefe do Departamento quem fala primeiro, o que vamos dizer agora, ...

RECORDAÇÕES - PARTE VI

  Não, é a Madalena a lembrar-me que este fim de semana fico com a Clarinha, quer saber se vou seguir o plano ou vou alterar. Não, vou buscá-la dentro de uma hora, digo, como é que ela está? e a Madalena suspira, para já, está calma, mas pode mudar de um momento para o outro. Temos que marcar consulta com a psicóloga, temos mesmo que considerar a hipótese dela ficar semi-interna num colégio, insisto. A Madalena não está convencida, veremos qual é a opinião da médica, pode voltar a fugir e podemos não ter a sorte de a encontrar tão facilmente, penso. Passamos um bom fim de semana, a Clara aceita todas as minhas sugestões com entusiasmo, mas evitamos falar da fuga. Sei que teremos que falar nisso, ela tem que entender que errou, mas quero discutir o assunto com a médica primeiro. Quando a levo ao colégio na segunda-feira de manhã, a Clarinha está bem disposta, conversa com toda a gente que encontra, o que nem sempre acontece e surpreende todos os presentes. Talvez esteja a preparar a...

RECORDAÇÕES - PARTE V

Mas a Clarinha não responde, eu suspiro e levo-a à casa, onde a Madalena a recebe com um misto de ralhos e abraços. Temos que falar com a psicóloga, aviso nessa noite a Madalena, talvez não seja má ideia ela ficar num internato, ficar lá durante a semana e vir a casa ao fim de semana. Não sei se será uma boa ideia, contraria a minha ex-mulher, acho que só vai piorar a situação! Mas foi uma sorte encontrá-la hoje, observo, se ela entrasse no comboio, se saísse na paragem errada? podíamos nunca descobrir onde é que ela estava! A Madalena não concorda, estamos os dois muito cansados, vamos discutir e não estou com força para isso, diz, é melhor ires para tua casa e falamos amanhã. Por isso, aqui estou eu no sofá com a televisão ligada e sem perceber nada do que se está a passar no filme. Lembro-me de repente do diário do Inspector Leandro, a irmã não quis ficar com ele e deu-mo. Escondi-o numa caixa que arrumei  algures por aqui; na sala e no meu quarto, não está de certeza absoluta e...

RECORDAÇÕES - PARTE IV

  O muro é alto demais para a Clarinha saltar e o jardineiro diz que esteve a trabalhar no terreno ao lado, deixou o portão encostado, os miúdos estavam nas aulas, justifica. O que preocupa é que há uma estrada de terra batida e que vai dar de um lado à Estrada Nacional, do outro à Avenida Principal. Será que a Clarinha escolheu o atalho que leva à Estrada Nacional? Será que apanhou boleia? De quem e para onde? Há tantos tarados por aí, segreda a minha voz profissional, a esta hora ela pode estar a quilómetros de distância! O Meireles parece que adivinha os meus pensamentos, pois diz, não se preocupe, ela decidiu ir para um local que conhece, já o fez antes! A Madalena volta a telefonar-me, a Matilde acaba de chegar, ninguém a viu no bairro, o que é que fazemos agora? insiste. Um dos colegas de uniforme comunica que alguém viu uma menina parecida com a Clarinha a descer a Avenida Principal, e não achou estranho ver uma catraia sozinha? Não lhe perguntou se estava perdida? observo. ...

RECORDAÇÕES - PARTE III

  Desço até ao arquivo central, revejo os processos e ao fim de uma hora, concluo que tenho mais perguntas do que respostas. O que me está a preocupar é o facto do Inspector Leandro ter abandonado a posição inicial e ter sido nesse intervalo para se instalar noutro local que foi baleado. O que é que ele viu? murmuro enquanto subo as escadas. O Meireles está à minha espera, suspira de alívio quando me vê, onde estava? Não tinha o telemóvel consigo? pergunta. Não deve haver rede lá em baixo no arquivo central, respondo, o que é que se passa? Algum problema grave? Telefonaram de casa, a Clarinha fugiu da escola, não sabem onde está, explica o Meireles, já avisei os colegas da zona para irem até à escola, iniciarem as buscas por lá. A esposa espera um telefonema seu. Ok, obrigada, digo, esqueço de imediato o que planeava fazer, o que é que a marota fez desta vez? A Madalena deve estar louca de preocupação! Pensei que as consultas com a psicóloga estavam a resultar, que ela estava mais ...

RECORDAÇÕES - PARTE II

  No dia seguinte, deixo a Madalena em casa e sigo para a Judiciária. Há reunião de Departamento, uma grande seca, confesso. Já passa do meio dia quando entro na sala da Brigada e o Meireles tem novidades. Oh, chefe, lembra-se do gangue do Morto? E do Zé do Laço? pergunta. Claro que sim, às vezes, dava-nos informações e passava a noite nas celas lá bem baixo para "eles não saberem que fui eu quem deu a dica", explico, o Zé do Laço morreu pouco tempo antes do Inspector Leandro, porque é que estás a falar dele agora? Pode ter morrido, diz o Meireles, mas alguém está a usar o nome dele e inspira um certo receio na noite. Tens a certeza? O Zé do Laço era inofensivo, às vezes, estava no local errado com as pessoas erradas, observo, o que é que se passa? O que é que soubeste? Esta pessoa auto-intitula-se Zé "The Big" Laço e comanda as operações a partir da Travessa do Laço, esclarece o meu sargento. Pensei que a Travessa do Laço fosse agora um sítio elegante, escolhido pe...

RECORDAÇÕES

  A Madalena dorme cá esta noite. O que é que os nossos filhos dirão se souberem que estamos novamente a namorar? ri-se a minha ex-mulher. Nada, o Gustavo e a Matilde são adultos, vão compreender, o problema será com a Clarinha, respondo e a Madalena concorda. Talvez seja melhor não dizer nada por enquanto, acrescenta, aliás, isto simplesmente aconteceu, amanhã podemos pensar que é uma má ideia e continuarmos a viver separadamente. Um dia de cada vez, digo, é muito bom falar contigo, Madalena, tinha saudades disto! Porque é que deixamos de falar? A responsabilidade, responde a minha ex-mulher, foste promovido, dedicaste toda a tua energia aos casos em aberto e esqueceste de conversar comigo. Fiz isso??? repito e a Madalena sorri, começamos a ficar distantes um do outro e depois, envolveste-te com a tua colega. Isso foi um erro, esclareço um pouco envergonhado. Não digo que não, mas talvez nos tenha ajudado a crescer, a evoluir, estávamos um pouco estagnados, não sei se é a palavra ...