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MATILDE PARTE IV

  Mas? insiste a Dra Lúcia, ok, não fiquei muito contente por o Bernardo ter decidido procurar um apartamento sem discutir primeiro o assunto contigo, explico, ele redimiu-se depois, pôs-me à vontade, mas fiquei um pouco magoada. Há uns meses, teria ficado calada, interrompe a Dra Lúcia, a remoer tudo, mas já foi capaz de falar, de explicar ao Bernardo do que não gostou. É isso mesmo que quero que faça... é um bom passo! Mas ainda não estou totalmente convencida, confesso à Tia Rita, o Bernardo não quer aceitar as minhas economias, acha que é melhor ter um fundo de maneio. Tem toda a razão, concorda a Rita, sempre achei o Bernardo um rapaz sensato, têm bons salários, são jovens, e se souberem negociar... pagam a casa em dois tempos! Suspiro, às vezes, fico um pouco irritada com esse positivismo, digo e a Rita solta uma gargalhada, já há muitas sombras no Mundo, temos que ver o lado positivo das coisas. Goza a vida, Matilde, não te preocupes com os pormenores. O preço do apartamento...

MATILDE PARTE III

  O apartamento no bairro onde os meus Pais vivem está bem dividido, a sala dá para um terraço enorme e imagino já o Bernardo a planear grandes festas no Verão. Podemos fazer aqui churrascos, convidar amigos para drinks ao fim da tarde, diz o meu companheiro, ou uma estufa, sugiro e vejo que o Bernardo fica surpreendido. Abro as portas dos armários, o chão é em madeira flutuante, cheira tudo ainda a novo, gosto, confesso quando nos despedimos da agente e voltamos para o carro. Não nos vamos precipitar, aconselha o Bernardo, ainda temos mais dois apartamentos para ver. Um é muito sombrio, temos que fazer algumas obras e não gosto da zona.  Nem eu nem o Bernardo gostamos das divisões do terceiro, são pequenas demais e não gostei nada do esquema de cores, comento quando regressamos ao estúdio. Também gostei mais do primeiro apartamento, concorda o Bernardo, temos aquele terraço imenso, há aquele quarto perto da cozinha que podes transformar no teu escritório... Ou podemos utiliza...

MATILDE PARTE II

  A Dra Lúcia sorri, sinto que estou no bom caminho, estou a adorar o meu trabalho na empresa de decoração da Carolina. Saio satisfeita da consulta, o Bernardo já deve estar à minha espera no átrio, ele é sempre tão pontual. Lá está ele em frente aos elevadores, a olhar atentamente todos os que saem e quando me vê, sorri, aponta para o relógio. Onde vamos? pergunta, mas ambos sabemos o que queremos. Jantar naquela pizzaria perto do Centro, de preferência na mesa do canto, discreta, sossegada, queremos conversar. Acho que devemos mudar de casa, diz o Bernardo no fim do jantar, estamos já a tomar o café, um apartamento maior, com mais espaço, tens que ter um escritório para ti. Fico surpreendida, gosto de viver no estúdio, às vezes, é complicado quando trazemos trabalho para casa, mas encontramos uma solução. Não sei, nunca pensei no assunto, confesso, mas uma sala maior para recebermos os amigos é uma boa ideia e, sim, gostava de ter um escritório só para mim. Ok, encontrei doi...

MATILDE

  Uma noite, contei tudo ao Bernardo. Tudo o que me aconteceu naquelas semanas em que estive " desaparecida "... confessei-lhe tudo e o Bernardo ouviu tudo sem me interromper. No fim, suspirei fundo, sentia-me mais leve, talvez porque só li carinho, amor, compreensão no olhar dele. Nessa noite, ficamos juntos e no dia seguinte, tive uma conversa com a Mãe, pois decidimos viver juntos. A Mãe fica preocupada, tens a certeza? repete, falaste com a Dra Lúcia sobre isto? Não será melhor discutires isto primeiro com ela? insiste. Mas eu tenho a certeza de que esta é a decisão acertada, explico, Mãe, tens que me deixar viver e aprender com os meus erros, repito, e o Bernardo está ao corrente de tudo, acrescento. Vejo que a Mãe não está convencida, mas eu tenho que tentar, vivo com medo e tenho que o vencer. Estou convencida de que o Bernardo me pode ajudar nisso, afirmo na consulta com a Dra Lúcia, sei que vai ser complicado para os meus Pais. É a sua vida, Matilde, observa a Dra Lú...

MIGUEL FIM

  Tens a certeza? repete o Pai, mas porque é que não falou connosco??? Pela mesma razão que não quis falar em frente da Mãe, respondo, não os quis preocupar! Até me passou pela cabeça que a Filipa podia ser vítima de violência doméstica!!! Ainda bem que não! Eu matava-o! exclama o Pai, e agora o que fazemos? Não sei, admito, esperar que ela fale, dar-lhe a entender que sabemos, mas não fazemos mais! A Mãe bate à porta, entra, o que é que vocês estão a conspirar? Ups, que ar tão sério!!! Aconteceu alguma coisa? pergunta, desconfiada, mas o Pai consegue distraí-la e vamos todos para a cozinha. A D. Margarida preparou um bom jantar e a Inês faz-nos rir com histórias absurdas. Quando me despeço, o Pai diz que vai falar com a Filipa no dia seguinte, mas os acontecimentos precipitam-se, o Tadeu saí de casa naquela noite. A minha irmã telefona-me na manhã seguinte, conta-me tudo, pede-me para explicar aos Pais, estou muito cansada, não consigo falar. Vocês sabiam e não me disseram nada! a...

MIGUEL PARTE VI

  A tua irmã está grávida novamente e eu não quero ter esse filho, explica calmamente e cala-se. Estou confuso, digo, não querias ter mais filhos? e o Tadeu suspira, claro, só que não os quero ter com a Filipa. O QUÊ? Agora é que não estou a entender nada, respondo, que história é essa e explica tudo devagarinho! Encontraste outra mulher? Queres estar com essa mulher? A minha irmã sabe? É uma colega de trabalho, conta o Tadeu, estamos na mesma equipa de trabalho, sabes como é... Não, não sei como é, interrompo, mas continua e o Tadeu continua calmamente, ficávamos até tarde no escritório, conversávamos muito. A Filipa estava ocupada com a Matilde, com o trabalho dela, estava sempre cansada, mal nos víamos. Talvez não fizesses um esforço para contrariar isso, exclamo, talvez também não tenhas escutado a Filipa...talvez os dois não se tenham esforçado, concluo, e o que pretendes fazer? Divórcio? A tua irmã quer fazer mais uma tentativa, acha que o devemos a esse filho, explica o Tade...

MIGUEL PARTE V

  A Filomena é a primeira a reagir, sorri ironicamente e diz, não estou surpreendida! Orgulho de macho ferido! e suspira. Eu continuo sem dizer nada e ela continua, vou para casa da minha irmã, não vejo futuro para nós! e pega no saco, meio escondido atrás do sofá. Acho melhor pedires a transferência para outra secção! aconselha, talvez sejas promovido mais rapidamente e solta outra gargalhada. A porta fecha-se violentamente, amanhã vou ter os vizinhos a protestarem e com toda a razão! murmuro e mando um SMS à Filipa, tinhas razão! ela foi embora! A resposta não se faz tarde, és louco, Miguel? Sabes que horas são??? Mas ainda bem! e eu rio-me. Estou de mau-humor no trabalho, marco uma reunião nos Recursos Humanos, peço para ser transferido. O pedido causa uma certa confusão, mas porquê Miguel? Está a fazer um trabalho importante, protestam, desculpe, não podemos aceitar! É um elemento imprescindível para a equipa! Pois, mas agora é a Filomena que supervisiona as equipas e organiza ...