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O " IDIOTA"

Está decidido... Já que tenho fama de ser " idiota", vou abrir um bar para " idiotas". O que quero dizer com isso? Um local onde se possa estar à vontade, conversar, rir e não ser gozado, humilhado e agredido verbalmente. Haverá um canto onde se poderá ler sossegado; outro para tomar um chá à moda antiga e simplesmente conversar. Haverá um tabuleiro de xadrez, uma mesa de bilhar e até um pequeno palco para karoeke ou encenar uma peça. Enfim, ser criativo... vender sensações? Claro está que o meu irmão riu-se e chamou-me " idiota ", mas ajudou-me a preparar tudo. E creio que ficou surpreendido pela festa de inauguração ter sido um sucesso. Só não gostou quando lhe disse que o bar estava " off limits" para os amigos dele... CONTINUA

1985 - O FIM

" Só pode estar a brincar..." repito mas o Sargento ri-se e explica-me pacientemente o que quer que eu faça. Liga-se para o tal nº de um telemóvel descartável ( para não localizarem a chamada, penso eu, ou será que vi filmes policiais a mais?) e a dita Clotilde/Carlota atende. Noto um certo nervosismo na voz que disfarça imediatamente e não pode ser mais acolhedora. Combinamos um encontro nessa noite num bar cujos clientes, assegura-me o Sargento Condes, serão polícias à paisana. O João resolve ir também; acha que vai ser uma noite interessante. Ela ainda não chegou; combinamos para as nove e meia e cheguei cedo demais. Mas estava tão nervoso que achei melhor ir logo para o local da acção. O bar só tem meia dúzia de pessoas e calculo que o dono seja cúmplice do Sargento. Sento-me ao bar, peço uma bebida enquanto o João desafia um dos " clientes " para uma partida de bilhar. São quase dez horas quando ela entra. O cabelo está sol...

1985 - PARTE V

" Conhece-a, não é verdade? Ela usa vários nomes. Depende da personagem que idealizou.  Chama-se Clotilde." explica o sargento. " Carlota, ela disse que se chamava Carlota. Mas o que se passa aqui? " pergunto. " A Carlota e o cúmplice, um tipo que se chama António tem um guião. Encenam uma cena de ciúmes, ele abandona-a sem dinheiro, sem telemóvel e esperam que alguém morda o isco. Esse alguém deixa-a telefonar, ela telefona para o António e a partir daí... creio que o Senhor sabe o que acontece." diz o sargento. Faço um resumo dos acontecimentos, o sargento toma algumas notas, mas avisa-me que é muito pouco provável que eu recupere o que me foi roubado. " Eles são bons, " limpam " muito bem as cenas, mas temos uma pista. Um pormenor insignificante, pode não resultar, mas queremos tentar." continua o sargento. " Um pormenor insignificante? " repito. " Descobrimos que o nº de telemóvel que ela lhe...

1985 - PARTE IV

" É melhor veres o que falta enquanto eu telefono à polícia." aconselha o João. O plasma desapareceu bem como PC e a impressora. " Bolas! Perdi os planos das aulas e as notas para os testes! " penso e vou até à cozinha. A máquina do café, presente da minha Mãe e o micro-ondas fazem agora parte do passado. O pouco dinheiro que estava na gaveta da cozinha também desapareceu bem como um dos meus cartões de crédito. Felizmente, o pin estava guardado noutro local, mas o João diz para contactar o Banco mesmo assim. " Arranjam sempre maneira de contornar os obstáculos." explica. " Como é que entraram? " faço a pergunta óbvia e sei que tanto a D.Alice como o João pensam o mesmo. A porta parece não ter sido forçada... alguém copiou a chave...  Mas como? Só se roubaram a da D.Alice.  Depois da polícia tomar conta da ocorrência, ajudamos a D.Alice a pôr a casa em ordem. Nos dias seguintes, trato da participação ao seguro, compro...

1985 - PARTE III

Quem será a minha convidada inesperada? Abro a porta e lá está ela, a rapariga da praia (chama-se Carlota). Sentada num dos meus sofás, a beber uma cerveja... Perfeitamente à vontade....  Como se a casa lhe pertencesse...  Fico um pouco ressentido, até porque não a conheço bem. " Olá, espero que não leves a mal." cumprimenta " Estava aqui perto e resolvi visitar-te. Sei que foi um atrevimento da minha parte, mas estou aqui." e sorri. Eu não sorrio. Não a deixo beijar-me e creio que fica surpreendida. " Olá, não me lembro de te ter convidado. Foi realmente um atrevimento!" replico. " Mas somos amigos, não somos? Qual é o mal? " diz " Pensei que seria uma boa ideia aparecer e desafiar-te para um jantar agradável." " Nenhum, só que estou muito cansado e esta noite, não posso sair. Tenho muito trabalho pela frente. " e calo-me. Ela percebe que esta visita foi um erro e apressa-se a sair. Vejo ...

1985 - PARTE II

Ela é o centro das atenções do bar. O vestido é vermelho, muito justo e o cabelo está apanhado na nuca. A maquilhagem é discreta e tem um enorme sorriso nos lábios pintados. Mas reparo que os olhos são frios e calculistas e tenho pena de não poder voltar atrás. Não confio nela... Posso sempre pagar-lhe um copo e depois desculpar-me com uma chamada imprevista. Ela cumprimenta-me com um beijinho e os outros homens olham-me com inveja. A conversa torna-se interessante, mas sinto-me desconfortável. Aproveita todos os momentos para me tocar, beija-me suavemente nos lábios, mas continua a ter uma certa frieza no olhar. Creio que fica desapontada quando a levo a casa e declino o convite para uma última bebida. Volta a telefonar-me no dia seguinte, mas eu dou uma desculpa e vou para a biblioteca fazer pesquisa. Quando chego a casa, a D.Alice, a porteira do prédio, vem ter comigo e diz-me: "  Tem uma visita. É uma rapariga muito bonita. Pergunt...

1985

Devo estar maluco.... Escrever sobre os anos 80 do século passado e escolher 1985 porquê? Foi o ano do meu nascimento... podia começar por aí... Falar sobre as minhas memórias como um bebé que a minha Mãe diz ter sido " muito ruim para comer"... Não entendo bem porquê, porque adoro comer... E, não, não estou obeso.   Tenho uma alimentação saudável, frequento o ginásio e faço longas caminhadas pela praia. Aliás, foi durante uma dessas caminhadas que assisti a uma cena inacreditável... Ele deixou-a sozinha na praia e levou o carro. A pobre da rapariga estava desesperada, porque tinha deixado no carro a carteira e o telemóvel. A única coisa que pude fazer foi oferecer uma boleia para casa.  E deixar que utilizasse o meu telemóvel... Imaginem a minha surpresa quando a rapariga da praia me telefona e convida-me para um copo num bar conhecido. CONTINUA