terça-feira, 16 de abril de 2019

SKATE - PARTE IV


Depois de muitos abraços e beijos ao Gonçalo, a minha Mãe repara nas três pessoas que o acompanham.

Ela conhece muito bem a D.Fernanda e o Sr José, os porteiros do prédio e a terceira apresenta-se como Jacinto.

" Eu explico tudo, D. Alice." apressa-se a dizer a D. Fernanda " O Simão deixou o Gonçalinho aqui com o Jacinto e como estava a ficar tarde, o Jacinto foi à procura dele no terreiro. Quando chegou lá..."

" Soube do acidente..." interrompe o Sr José " Ficou sem saber o que fazer, se havia de levar o menino a uma esquadra de polícia, mas, como conhece quase toda a gente da zona, perguntou..."

" E a D. Madalena do 505 disse-lhe para vir ter connosco." diz a D. Fernanda " Telefonamos tanto para a D. Alice como para o Dr Gaspar, mas não atenderam."

" Por isso, viemos até cá e o Jacinto veio connosco..." acrescenta o Sr José.

" Para entregar o Gonçalo aos Pais, já que foi o Simão quem o deixou ao meu cuidado." esclarece o Jacinto.

Todos ficam em silêncio, sentem-se culpados pelas ideias macabras que passaram pela cabeça. 

Mas ouve-se tanta coisa e a verdade é que nem sabiam da existência do Jacinto Jardineiro.

A D. Alice agradece imenso, o Jacinto responde que não há nada a agradecer e despede-se.

A D. Fernanda e o Sr José também se vão embora e a D. Alice tenta localizar o marido.

A cunhada oferece-se para levar o Gonçalo para casa e dar-lhe de jantar.

Adivinha-se uma noite muito longa... 



CONTINUA

segunda-feira, 15 de abril de 2019

SKATE - PARTE III


O médico acaba por dar um sedativo à minha Mãe e cá fora, o meu Pai fala com o polícia de serviço e a assistente social.

O parque fecha às seis horas, o Pai tem medo que o Gonçalo se tenha perdido e esteja a vaguear sozinho pelas estufas.

Entretanto, chegam os Pais do Mateus que conhecem alguém que trabalha na Câmara e será que pode ajudar? pergunta o meu Pai.

O pobre do Mateus recebe um sermão, apesar de não ter culpa e me ter alertado para o facto de termos deixado o Gonçalo sozinho, mas está toda a gente muito nervosa.

Levam-me para cima para o bloco operatório e o Pai do Mateus conseguiu falar com o amigo.

Meia hora depois, este telefona a dizer que encontrou o encarregado do Parque e que estão a caminho para vasculhar as estufas.

O meu Pai e os Pais do Mateus e do Maurício vão lá ter com eles e as Mães ficam com a minha, a dar-lhe apoio.

A família vai chegando, a preocupação não é a minha perna partida, mas sim o Gonçalo.

Têm que o encontrar, não pode passar a noite sozinho naquela parque. E, afinal, quem é esse Jacinto Jardineiro?

Que irresponsabilidade do Simão! Deixar o irmão a brincar ao pé de alguém que ninguém conhece.

Que importa se é conhecido de toda a gente no Parque? Nós não o conhecemos, repete a Mãe do Mateus, que confessa mais tarde, nunca a viu assim tão zangada.

As horas passam, o desespero é crescente, suspiram de alívio quando o médico diz que a operação correu bem, mas voltam de imediato ao cerne da questão.

Onde está o Gonçalo? Deve estar tão assustado, diz a minha Mãe e desata num chora que aflige toda a gente na sala de espera.

" Mãe, oh, Mãe!" exclama a voz fininha do Gonçalo.

CONTINUA



domingo, 14 de abril de 2019

SKATE - PARTE II


Claro que foi uma irresponsabilidade tentar aquela pirueta.

Embato no muro, deslizo pela curva a toda a velocidade e desmaio.

Acordo no Hospital e um médico aponta uma luz para os olhos.

" Ainda bem que tinhas o capacete!" diz " Caso contrário, seria bem pior. Vou falar com os teus Pais, vão gostar de saber que já acordaste."

A enfermeira diz-me que tenho uma fractura má na perna e parti o pulso. 

" Vais estar umas semanas em casa." acrescenta e saí também.

Fico sozinho a pensar como tudo aconteceu e só então me lembro do Gonçalo.

Ai, meu Deus, onde está o miúdo e a minha Mãe pensa a mesma coisa, porque depois de se certificar que estou bem, pergunta pelo meu irmão.

" Deixei-o a brincar com o Jacinto Jardineiro." confesso e a minha Mãe fica tão branca que penso que vai desmaiar.

O meu Pai fica convencido do mesmo, pois segura-a e segreda:

" Calma, Luisa. Onde está o Gonçalo? Conta tudo, Simão."

" Queríamos andar de skate e o Gonçalo gosta de flores... O Jacinto Jardineiro não se importa..." conto e vejo a minha Mãe a ficar muito vermelha " não, não, o Jacinto Jardineiro é de confiança...."

Mas claro que os meus Pais estão já a pensar o pior e o Pai sai da sala para falar com os meus amigos e esclarecer a história toda.

" Irresponsável! Não posso confiar em ti." declara a Mãe, toda zangada e pela primeira vez em anos, desato a chorar.

A enfermeira entra, pergunta o que se passa e aconselha a Mãe a ter calma.

CONTINUA

sexta-feira, 12 de abril de 2019

SKATE


" Eh, pá, ás vezes não entendo a D.Alice. " escrevo no Messenger.

" Quem é a D.Alice?" responde o Mateus. 

Eu e o Mateus éramos inimigos declarados e um dia, lutamos por causa do meu irmão Gonçalo.

Fomos obrigados a fazer as pazes e descobrimos que temos interesses em comuns.

Desde então, não há um dia em que não estejamos juntos e como já passa da meia noite, estamos a falar pelo Messenger.

" Não sabes que a D.Alice é a minha Mãe? Adiante, está sempre a dizer que sou um irresponsável e amanhã tenho que levar o miúdo comigo para o parque!!" queixo-me.

" Que estopada! O que é que vais fazer? " pergunta o Mateus, pois amanhã já combinamos andar de skate e claro está que o Gonçalo não pode andar.

Ainda parte a cabeça e a minha Mãe fuzila-me.

" Vou deixá-lo com o Jacinto Jardineiro. Ele gosta de flores e o Jacinto gosta de mostrar as estufas." decido.

Por isso, o Gonçalo, com a promessa de um gelado gigantesco, fica a ajudar o Jacinto a tirar ervas daninhas.

Eu, o Mateus e o Maurício vamos para o terreiro e preparamo-nos para deslumbrar umas miúdas que estão a assistir aos treinos com as nossas habilidades.

Ao fim de uma hora, o Maurício pergunta-me:

" Não será melhor ires ver o teu irmão? "

" Tem a lancheira; está bem!" e lanço-me numa pirueta que nunca tentei antes.

Aquela miúda de azul é um espanto.

CONTINUA

quinta-feira, 11 de abril de 2019

IMPOSSÍVEL - FIM


E, como não queremos ceder, continuamos calados até que ao dia em que o Francisco envia um SMS.

" Temos que falar " é só o que diz e eu imagino mil coisas sobre o tipo de casamento que vamos ter, a viagem de núpcias, etc.

É um choque, e eu não me assusto facilmente, quando o Francisco diz que quer terminar tudo.

É muito stress, confessa, tem uma vida preenchida e bem sucedida.

O casamento poderá um entrave e....

" Um entrave a quê? " pergunto de imediato " À carreira? Já tínhamos falado sobre isso, porque ambos queríamos continuar a investir nisso."

Mas o Francisco não responde.  Não quer discutir o assunto; está encerrado.

" Assim tão facilmente?" insisto " Sem me ouvires?"

" Não há mais nada a dizer... Estás a ficar mole..." observa o Francisco e levanta-se para sair.

Não sei o que aconteceu, mas a minha mão levanta-se e acerta-lhe em cheio na face.

O Francisco prende-me o pulso e sorri, velhaco.

" Mole!" e empurra-me suavemente. 

Volto a cair na poltrona e ouço os comentários das outras pessoas.

" O que se passa? " pergunta uma.

" Que falta de respeito!" diz outra e há uma terceira que comenta: " Então, ele está a acabar com ela!?

Mas este não é o local ideal para o fazer.

O Francisco é mesmo impossível e passados uns dias, eu já não penso no assunto.

Até me recuso a comentar com a Cristina e com a Madalena que ficam desesperadas.

Não preciso de apoio moral. Apostei, perdi, avanço para outro.

Por isso, aceito o desafio da empresa e vou trabalhar durante seis meses para a Polónia.

Talvez encontre lá outra pessoa. 

Mas é o Francisco quem encontro e surpresa, surpresa, casamos lá.

FIM







quarta-feira, 10 de abril de 2019

IMPOSSÍVEL - PARTE III


Durante alguns dias, não falamos e o assunto torna-se tabu.

Mas a Cristina diz-me que aquele vestido na Rosa Clará é um espanto e a Madalena conta que a Quinta do Tojo é perfeita para a festa.

" Vocês já escolheram o dia? Têm que se marcar com uma certa antecedência." diz, confiante que eu e o Francisco já temos tudo resolvido.

" Não, não resolvemos nada. Nem sequer sabemos se queremos ter uma festa!" acrescento.

" Mas que ideia é essa? Mesmo que não queiram uma grande festa, pelo menos, um almoço." questiona a Cristina.

" Sim, para a família e os amigos. Escusas de convidar aquele tio que só vês uma vez por ano." comenta a Madalena.

" Nem nisso estamos de acordo." confesso e a Cristina e a Madalena olham uma para a outra, incrédulas.

Sei o que estão a pensar.  Somos malucos; também já eu me convenci disso.

" Por amor de Deus..." reage a Cristina " Vocês estavam tão apaixonados, diziam que tinham finalmente encontrado o amor da vossa vida e agora, não sabem o que querem?"

" Doidos! Tanto um como o outro!" desabafa a Madalena " Eu desisto! Nem quero falar mais no assunto."

A Cristina suspira e tenta convencer-me a falar com o Francisco. 

" Não, ele é que tem que falar comigo!" insisto " Ele é que saiu; por isso, ele tem que me pedir desculpa."

" Oh, valha-me Deus! Vocês os dois são mesmo impossíveis. Eu e o Humberto nem sempre estamos de acordo..." observa a Cristina " mas falamos sobre as opções e escolhemos a melhor."

Pois... Mas nós não queremos ceder.



CONTINUA

terça-feira, 9 de abril de 2019

IMPOSSÍVEL - PARTE II


" Então, o que vamos fazer para sermos felizes para sempre? " pergunto.

" Supostamente!" diz o Francisco e eu endireito-me. Afasto-me para o ver melhor e repito:

" Supostamente? O que é que isso significa?" e o Francisco esboça um gesto que significa " deixa para lá".

Mas eu não quero deixar " para lá"; quero uma explicação e insisto:

" Não queres ser feliz para sempre? Como nos contos de fadas? " acrescento, trocista.

" Isso é impossível!" responde o Francisco.

" Impossível?" grito indignada " Mas o que vem a ser isto? Queres ou não casar comigo?"

" Alguém está a dizer o contrário? " resmunga o Francisco irritado " Vamos ter momentos, alguns bons, outros maus como toda a gente. Já devias saber isso."

" Mas o dia do casamento não deve ser um dia feliz? Tu já estás a pensar em obstáculos!" afirmo.

" A única questão aqui é casamos ou não na Igreja. O resto constrói-se depois. Estamos a discutir porquê? " e o Francisco levanta-se " Acho que o melhor é casarmos na Conservatória."

" Ah, queres negar-me a festa!" observo.

" Valha-me Deus! És mesmo impossível! Estás a distorcer tudo, porque não disse nada disso! " mas eu não cedo e volto a perguntar:

 Queres ou não casar comigo?" 

" Estou farto disto!" e saí da sala.

Uns minutos depois, ouço a porta da rua fechar-se com violência.

CONTINUA

segunda-feira, 8 de abril de 2019

IMPOSSÍVEL



Esta é uma história de amor impossível.

Porque todos dizem que eu sou impossível e que ninguém me atura.

Mas a verdade é que conheci alguém tão impossível como eu e estamos fascinados um com o outro.

A ponto de darmos o passo final na relação e a única questão é:

Casamento com tudo incluído ou uma simples ida à Conservatória?

Temos que pensar bem nisso, porque a família pode não compreender e ficar ofendida.

Por outro lado, são os primeiros a dizerem que somos difíceis, complicados, impossíveis porque defendemos as nossas ideias até à última.

Não queremos dizer com isto que estamos a impor ideias, opiniões e a rotular pessoas.

Mas há quem pense que é mais fácil cingir-se a ideias pré-concebidas do que discutir e aceitar ideias novas.

Casamos ou não na Igreja com a família ou fazemos uma festa só nossa?

Nem o Francisco nem eu sabemos responder e por isso, estamos sentados no sofá, em silêncio, com a TV ligada sem percebermos nada.


CONTINUA

Desafio:

Estou aberta a sugestões.

Vão casar pela Igreja ou na Conservatória?

A família vai reagir bem ou mal?

Vão discutir por causa disso e acabar?

Até já

domingo, 7 de abril de 2019

O LEGADO - FIM


" Recapitulando: " diz Jorge quando se reúnem no gabinete nesse fim de tarde " o Zé do Laço foi morto porque se encontrou com o Inspector Leandro e foi visto. E, como se isso não bastasse, também o mataram porque andava enrolado com a miúda de um dos membros do gangue. Que confusão!"

" É mesmo uma confusão. Tenho quase a certeza que foi essa a conclusão do Inspector Leandro, mas o sobrinho recusa-se a mostrar os diários." e Leitão suspira.

" Acha que são importantes? Podemos falar com um Juiz..." sugere o Inspector Jorge.

" Isto não é uma investigação oficial. Haverá um relatório, claro está, mas vai ser arquivado." responde o ex-Inspector.

" E, se tentássemos falar com esse tal Cris Forte e com a Rute Beatriz?" comenta Jorge, mas Leitão não está optimista.

Mas, segundo a Brigada Anti-Gangue, o Cris Forte está a viver em Espanha, está casado com uma espanhola e leva um vida muito discreta.

Quanto à Rute Beatriz, há muitos bares, muita gente na zona do Atlântico e talvez ela tenha também ido para outra cidade.

Jorge entrega o relatório, o Leitão assina como consultor no caso e despedem-se.

O Leitão volta para a aldeia onde escolheu viver a reforma, para tratar do jardim e da horta biológica que desenvolveu.

Mas, ao lembrar-se dos diários do Inspector Leandro, pensa que talvez não seja uma boa ideia escrever um livro sobre os seus próprios casos.

Afinal, já colabora com aquela revista com artigos de opinião. 

Um livro não será muito diferente, acha e decide expor a ideia à revista. 

Talvez o possam ajudar...

Será que vai conseguir?


FIM



sexta-feira, 5 de abril de 2019

O LEGADO - PARTE V


" Ah, ah, o Zé do Laço era o motorista. Também organizava jogos de carta com apostas altas." conta o " Baco" " Pensávamos que era inofensivo até que se meteu com a miúda do Cris Forte."

" E quem é esse Cris Forte? Onde o posso encontrar?" pergunta Leitão.

" Um dos distribuidores. O Cris começou a vigiá-lo quando desconfiou que ele andava a dormir com a Rute." explica o " Baco ".

" Estou a compreender..." diz o ex-Inspector. 

Se o Zé do Laço se encontrou com o Leandro e esse tal Cris o viu, percebeu o esquema todo.

" Foi por isso que ele morreu? Por andar com a miúda do Cris?" insiste o ex-Inspector.

O " Baco" abre muito os olhos e repete: 

" Morreu? O Zé do Laço? Como? Quando?"

" Atiraram com um carro contra a porta de uma esquadra na Véspera de Natal e o Zé do Laço estava lá dentro." esclarece Leitão " Não sabias disto? Não te pareceu estranho ele deixar de aparecer?"

" Não, os motoristas rodavam. Eu próprio mudava de zona; por isso, não, não achava nada de estranho." confessa o " Baco".

" Esse tal Cris, onde o posso encontrar? Sabes o nome da miúda dele?" e o " Baco" muda imediatamente de atitude.

" Não sei, não lhe posso dizer. Ouvi dizer que ele foi para Norte, para onde exactamente não sei. E, quanto à miúda, só sei que se chamava Rute Beatriz e trabalhava num bar ali para os lados do Bairro Atlântico." e cala-se.

Deste, já não vou ter mais informações, reflecte Leitão e faz sinal ao guarda.

Contudo, já tem uma ideia muito clara do que aconteceu.

Veremos se o Jorge também concorda.


CONTINUA


quinta-feira, 4 de abril de 2019

O LEGADO - PARTE IV


Leitão lê atentamente os últimos casos do Inspector Leandro. Pede igualmente toda a informação disponível sobre o Zé do Laço.

Não encontra nada de suspeito. Os relatórios estão claros, a conclusão final baseia-se nos factos apurados e confirmados.

Leitão está um pouco confuso e tem que ler os diários do Inspector Leandro.

Talvez encontre a resposta à questão que o sobrinho levantou.

Mas Vicente Aguiar recusa o pedido do ex-Inspector. Se não está relacionado com uma "ongoing" investigação, como lhe chama, não tem nada que os ler.

São privados, da família. Escreveu um artigo sobre investigação criminal e sim, baseou-se no que leu nos diários.

Mas é a opinião pessoal, dele, não de Leandro. 

O Tio não conta pormenores sobre os casos em que trabalha; apenas comenta que tem um novo caso e tem várias pistas. Não diz mais nada, pode ter a certeza disso.

" Então, é apenas a opinião pessoal dele? Para um trabalho da Universidade?" comenta o Inspector Jorge " O Inspector acredita nele?"

" Sim, li o dito artigo. Apresenta o Zé do Laço como um ladrão insignificante, fala da vida dele na Travessa do Laço, o que as pessoas pensam dele e levanta as mesmas questões que nós." confirma Leitão.

" Então, estamos a perder tempo? " pergunta Jorge.

" Agora, estou curioso em saber porque é que o Zé do Laço aparece morto dentro de um carro na Véspera de Natal, atirado contra a porta de uma esquadra. O Leandro refere-se ao caso, fala nas várias pistas que seguiu e a conclusão é que foi um aviso por parte do Bando dos Poderosos." responde o ex-Inspector.

" Nunca apanhamos os cabecilhas. Apanhamos os " correios" e alguns distribuidores, mas não os cabecilhas." explica Jorge.

" Será possível eu falar com um desses " correios"? Talvez consiga alguma informação." observa Leitão.

Mas o dito " correio" ao ouvir falar do Zé do Laço ri-se, o que surpreende o ex-Inspector.


CONTINUA

quarta-feira, 3 de abril de 2019

O LEGADO - PARTE III


" Se me lembro do Inspector Leandro? " diz o Meireles " Claro que sim, um profissional competente, inteligente, rigoroso... Trabalhei com ele uns seis meses, depois transferiram-me para a Unidade de Fraudes. O que se passa? "

" Ao que parece, o sobrinho dele anda a fazer perguntas sobre um dos casos deles. Zé do Laço, diz-te alguma coisa?" pergunta o ex-Inspector.

" Não... Ouvi rumores, porque era, ao que parece, um ladrão insignificante, mas deu uma boa dica ao Leandro e este resolveu o caso em aberto." explica o Meireles " O Leandro tinha um dom a interrogar as pessoas... Não sei explicar..."

" Pois..." e a conversa desvia-se para outros assuntos.

À tarde, o Leitão resolve falar com o Bernardes, agora Inspector, mas que trabalhou como sargento sob as ordens do Leandro.

O Bernardes está muito ocupado com um caso, mas não se importa de conversar uns minutos com o Inspector reformado, ainda por cima sobre o seu mentor.

Do Zé do Laço? Sim, lembra-se que tiveram que o prender uns dias para não levantar suspeitas no gangue que tinha denunciado.

Infiltrado? Não, não, o Zé do Laço conhecia bem os locais onde esses gangues se movimentavam e quando era " apanhado" por qualquer coisa, apelava ao Leandro e dava-lhe algumas informações.

Não, não estava de serviço quando o Zé do Laço morreu. Talvez tivesse transmitido alguma coisa ao Leandro, mas não pode afirmar, porque pouco depois, o Leandro também morreu.

Foi um tempo complicado, os casos foram distribuídos e ele e os outros detectives foram transferidos para outras unidades.

O que detestaram, confessa com um suspiro, porque o Leandro era muito organizado e sabia ouvir.

Leitão agradece e desce até ao arquivo.

Talvez aqui esteja a chave de tudo.

CONTINUA


terça-feira, 2 de abril de 2019

O LEGADO - PARTE II


" Sim, apareceu morto na Véspera de Natal e dizem que era informador do Inspector Leandro" confirma Jorge.

" Supõe-se também que terá sido por isso que foi morto!" comenta o ex Inspector " Conheci bem o Leandro e não me admira nada que ele tivesse " recrutado" o Zé do Laço. Mas descobriram quem o matou?"

" Não, porque o importante na altura era o Bando dos Poderosos. Não apanhamos os cabecilhas, mas alguns elementos chave para a organização da rede." explica o novo Inspector.

" O que mudou para reabrirem o caso do Zé do Laço?" pergunta Leitão e o Jorge é surpreendido mais uma vez pela intuição do ex Inspector.

" Alguém anda a fazer perguntas sobre o caso e alguém na prisão quer falar!" diz  " Gostaríamos que lesse as notas do último caso do Inspector Leandro e nos ajudasse a deslindar isto. O Inspector conheceu-o, sabe como ele trabalhava."

" E os membros da equipa dele? Não sabem de nada? Preciso de ter mais detalhes. Quem é que anda a fazer as perguntas? Quem é esse alguém que quer falar?" questiona o ex-Inspector.

" É o sobrinho dele, diz que encontrou uns diários..." e Leitão assobia baixinho.

O caso complica-se, mas Leitão aceita o desafio.

Terá que fazer uma visita à Sede da Polícia, consultar os arquivos e conversar com a equipa que trabalhava com o Leandro na altura.

Prepara uma mala, avisa a vizinha que estará ausente uns dias e parte à procura de respostas.

A primeira coisa a fazer é convidar o Inspector Meireles, que está também reformado, para almoçar.

Lembra-se vagamente que o Meireles trabalhou uns meses com o Leandro.

CONTINUA

segunda-feira, 1 de abril de 2019

O LEGADO


Se o Inspector Leitão pensava que, agora que estava reformado, teria sossego, está muito enganado.

O Detective Jorge, agora promovido a Inspector, é um profissional muito capaz, mas de vez em quando, consulta-o sobre determinados casos.

" No fundo, tu até gostas!" diz o Presidente da Câmara durante o jantar semanal no restaurante do Manuel.

" Sim. mantenho-me ao corrente dos novos métodos e conheço alguns dos criminosos." responde o ex- Inspector " Nem sempre se reformam..."

" Pois, pois... Eu lembro-me desse tal Jorge. Também esteve cá a passar as férias? " e a conversa desvia-se para a abertura de novos trilhos no Parque.

O Inspector espera que não modifiquem muito a vida da vila, mas o Presidente garante que não.

Veremos, pensa o ex-Inspector ao regressar a casa. 

As ruas estão sossegadas, há poucas pessoas na rua. É o que lhe agrada.... o sossego.

Se precisar de um banho de civilização, chamemos-lhe assim, vai à cidade mais próxima.

O Inspector Jorge chega no dia seguinte pouco antes da hora de almoço.

Almoçam os dois no pátio, a vizinha ajudou-o com a ementa e o Jorge não se cansa de dizer que está uma maravilha.

Estão a beber o café quando o ex-Inspector lhe pergunta o que se passa.

Jorge hesita, mas abre um dossier. Dentro está a foto de um homem que o Inspector conheceu muito bem noutros tempos.

" Este não é o Zé do Laço e não foi morto há uns anos? " questiona o ex-Inspector.


CONTINUA








domingo, 31 de março de 2019

ÍRIS - O FIM


A Tânia e o Daniel acham um disparate...

Claro que ela não é culpada de nada...

Passou-se tudo cabeça do Guilherme... Se ela nunca lhe deu esperanças...

Tem que reagir e esquecer... Concentrar-se na carreira...

Mas Íris está tão perturbada que se esquece das falas e portanto, as cenas têm que ser repetidas.

Os colegas começam a ficar cansados, o Director chama-lhe a atenção várias vezes.

Um dia, a Íris não aguenta e pede para que " matem " a personagem.

O Daniel e a Tânia estão contra, até o Director conversa com ela sobre o assunto, mas Íris está irredutível.

Vai para casa dos Pais uns tempos e depois recebe um convite de uma pequena companhia de Teatro.

Talvez seja o que precisa... Um outro registo, outras pessoas, outro tipo de audiência.

E entrega-se de corpo e alma...

FIM


sexta-feira, 29 de março de 2019

ÍRIS - PARTE V


Claro que a polícia quer falar com ela.

Já sabem da relação complicada que ela tinha com o Guilherme.

O Director falou nisso, a Tânia e o Daniel confirmaram e agora querem saber a opinião dela.

Não apresentou queixa na polícia? Não, a Íris está no início da carreira, não queria entrar em conflitos.

Sim, pode ter namoriscado um pouco, mas pode não ter qualquer significado e se o Guilherme leu o que não estava lá, bem, o problema é dele...

A última vez que viu o Guilherme foi quando ele apareceu no set e o Director o mandou embora.

Não, não sabia nada dos planos dele para o fim de semana. Sim, pode dar os nomes dos amigos.

Quando saí do gabinete, Íris encosta-se à parede e respira fundo.

A Tânia e o Daniel estão à espera dela, estão preocupados, mas a Íris está nervosa, quer descansar.

Eles aceitam a desculpa, mas acompanham-na até ao quarto com recomendações de lhes telefonar a qualquer hora.

Mas Íris quer ficar sozinha, quer processar tudo o que acontece.

A grande questão é: é ela a culpada do suicídio do Guilherme?

Revê tudo o que se passou entre eles e tem a certeza absoluta de que nunca lhe deu qualquer esperança.

Passou-se tudo na cabeça do Guilherme, um homem egoísta.

CONTINUA

DESAFIO AOS COMENTADORES:

A Íris é ou não culpada (moralmente)?


quinta-feira, 28 de março de 2019

ÍRIS - PARTE IV


Sem a presença do Guilherme, as filmagens decorrem mais calmas e sem grandes problemas.

O Daniel regressa e voltam a almoçar juntos. 

A Tânia também almoça com eles de vez em quando e os três são já conhecidos pelos " Divertidos" no set.

Um dia, o Guilherme aparece no set, mas não diz palavra. 

Ri-se sempre que a personagem da Íris fala e o Director pede-lhe para sair.

Como tem folga este fim de semana, a Íris resolve aceitar o convite de uns amigos.

Eles tem um casa na praia, convidaram outras pessoas que a Íris também conhece e o fim de semana promete ser interessante.

Quando regressa na segunda feira de manhã, encontra toda a gente reunida no átrio do Hotel.

A Tânia vê-a e levanta-se imediatamente. Puxa-a pelo braço e fecham num gabinete ali perto.

" O que aconteceu? Diz-me, estás a assustar-me!" pergunta a Íris.

" Tens que ter muita calma. Primeiro que tudo, diz-me. Onde passaste este fim de semana? Estiveste com pessoas que possam confirmar a tua presença?" diz a Tânia.

" Sim, sim, mas o que se passa? Conta-me!" insiste a colega.

" O Guilherme está morto. Suspeitam que é suicídio e dizem que deixou uma nota..." a Tânia interrompe-se e respira fundo.

" Suicidou-se? Uma nota?" repete a outra, sem compreender nada.

" Sim uma nota. Não tenho os pormenores todos, mas ouvi-os falar com o Matos...e diz que és tu a culpada da atitude dele." conta a Tânia.

" EU???" grita a Íris.

CONTINUA

quarta-feira, 27 de março de 2019

ÍRIS - PARTE III


" Ou a do Guilherme. É promovido, começa a circular noutros locais e a Íris fica onde está." contrapõe o argumentista.

Na semana seguinte, o elenco recebe as novas cenas e o Guilherme não fica satisfeito com a reviravolta da personagem.

Quando discute o assunto com o Director, este diz-lhe que é melhor estar calado; afinal, a personagem está a evoluir e não era isso o que ele queria?

A Íris esteve de folga e passou o fim de semana fora; por isso, só quando regressa é que sabe das alterações.

O Guilherme está cá fora no jardim; se por coincidência ou à espera dela, Íris não sabe.

Mas sente a mão dele a fechar-se no braço e a fúria quando lhe segreda:

" Pensas que te livras de mim? Não contes com isso; vou arranjar uma maneira de te chatear e tu vais pedir que matem a tua personagem."

Íris fica assustada, mas dá-lhe um safanão e entra apressadamente no estúdio.

Vai de encontro à Tânia e esta percebe de imediato que se passa alguma coisa.

" Oh, rapariga, parece que viste o Diabo? Se foi o Guilherme, afasta-te. Não te preocupes; ele vai ter outro destino." continua a Tânia.

" Que outro destino? De que é que estás a falar? " pergunta a Íris.

" Não sabes? Alteraram o guião e o Guilherme já não tem cenas contigo." responde a outra actriz.

" O quê? " e Íris fica preocupada. 

Agora, está tudo explicado. 

Será que agora vai ter paz?

Não sabe bem porquê, mas acha que as coisas vão ser mais complicadas.

CONTINUA

terça-feira, 26 de março de 2019

ÍRIS - PARTE II


Íris está satisfeita com as cenas que gravou. 

Estava descontraída, ela representa uma personagem que vê sempre o lado positivo das coisas.

Mas o Guilherme acaba de chegar e sorri-lhe. É um sorriso irónico, calculista e Íris fica um pouco apreensiva, tanto mais que tem que passar por ele.

" Oh, minha Princesa, hoje não te enganaste? Pronunciaste bem as palavras, escondeste esse sotaque de ilha?" e ri-se.

" Guilherme, eu já sabia, mas agora tenho a certeza absoluta de que és um grande, mas mesmo grande malcriado." diz a Tânia, uma outra actriz que está sentada ali perto " Deixa a rapariga em paz."

O Guilherme abre a boca para protestar, mas a Tânia é daquelas pessoas que impõem respeito e nem mesmo ele gosta de a irritar.

" Não podes deixar que ele te fale assim; tens que lhe responder à letra!" aconselha a Tânia.

" Tento ignorá-lo. Acho que é o melhor a fazer." confessa a Íris.

" Não sei; há homens que compreendem e aceitam, mas o Guilherme não está habituado a que lhe digam não." observa a Tânia " Tem cuidado para não te magoar ou prejudicar." remata.

No dia seguinte, o Guilherme está insuportável e as cenas têm que ser repetidas.

A certa altura, Íris não aguenta a pressão e saí de cena.

Está toda a gente aborrecida e o Director reúne-se com o argumentista.

" O que se passa com aqueles dois? Sabes de alguma coisa?" pergunta.

O argumentista encolhe os ombros e responde:

" Se bem conheço o Guilherme, ele não vai desistir. Ela deve ter dito não a qualquer coisa e ele não gostou."

" Ela pode dizer não... Mas nenhum dos dois vai falar no que se passou. A solução será dar um outro destino à personagem da Íris, por exemplo. Gosto muito dela, é muito natural, muito expressiva..." comenta o Director.


CONTINUA


segunda-feira, 25 de março de 2019

ÍRIS


Íris está preocupada. Não sabe o que fazer e talvez a culpa seja dela...

Bebeu um pouco demais, namoriscou demais e talvez o Guilherme tenha pensado que ela seria uma conquista fácil.

Mas uma rapariga pode dizer não... está no seu direito de dizer não e não avançar mais....

O Guilherme não aceitou a recusa e agora está a fazer-lhe a vida negra. Pior, até pode estar a prejudicá-la profissionalmente

Sempre que filma uma cena com ela, engana-se propositadamente e quando ela tem que responder, ele " estraga" tudo, rindo-se.

O Director já lhe chamou a atenção, o resto da equipa está a ficar cansada, pois obriga-os a fazer horas extra.

Na cantina, deixa-se ficar para o fim só para conversar com a menina da caixa e a Íris tem que esperar dez, quinze minutos para pagar e comer sossegada.

Uma vez, o atraso foi de tal ordem que a Íris só teve tempo de engolir a sopa e guardou a salada para comer numa pausa.

O Daniel deu conta que se passava alguma coisa, perguntou-lhe, mas Íris desvalorizou a situação.

O Daniel não insistiu, mas sempre que pode, convida-a para almoçar e se está presente no set, o Guilherme comporta-se.

Mas agora a personagem do Daniel está a fazer uma viagem e só regressa daqui a duas semanas; por isso, não está no set e o Guilherme está sempre a provocá-la.

Íris suspira; hoje, vai ter um dia tranquilo, pois não tem nenhuma cena com o Guilherme.

Porque é que o argumentista não arranja uma viagem ou o mata mesmo?

CONTINUA