quarta-feira, 24 de outubro de 2018

O CASO DO LEONARDO - PARTE V


Maria do Carmo está espantada com tudo o que contam. Não quer acreditar que tal coisa aconteceu.

" Então, alguém assaltou a nossa casa e bateu no meu marido? E abandonou-o na berma da estrada? Sabem como ele está? Gostaria de ir ter com ele."

" Claro que sim, mas antes, temos que lhe fazer algumas perguntas." interrompe o Detective Jorge. " Talvez não se importe de ir até ao Posto e depois levo-a ao Hospital."

" Talvez seja melhor utilizarmos o meu gabinete É mais seguro." sugere o Presidente, ao deparar-se com os olhares discretos, mas curiosos, dos restantes clientes do restaurante.

Saem os quatro e as conversas explodem na sala.

" Ela vai presa?" pergunta um e o Chico diz de imediato:

" Claro que não. Vão só fazer-lhe umas perguntas!"

" Será que lhe vão perguntar sobre o affair com o bonitão do Parque?" sugere outro e soltam-se gargalhadas.

Alheios a isto, no gabinete do Presidente, o Detective Jorge frisa que as perguntas têm que ser feitas para tentarem perceber o que se passou.

" A Senhora sabe de alguém que tivesse um problema com o seu marido? Algum negócio que estivesse a correr mal? Disseram-nos que ele andava com uns indivíduos estranhos."

" Não, não sei se o posso ajudar. O Leonardo não falava muito sobre a empresa. Dizia que a casa era para descansar." e Maria do Carmo sorri. " Ultimamente, temos tido alguns problemas e estamos um pouco afastados."

" Mudou alguma rotina? Conheceu pessoas novas? " insiste o Detective.

Maria do Carmo abana novamente a cabeça.

" Temos que saber se falta alguma coisa. Tem um inventário dos objectos? Ou poderá ir connosco lá amanhã e fazer uma lista do que falta." interrompe Leitão.

" Talvez seja melhor. O Leonardo pode ter feito uma lista por causa do seguro, mas não sei onde está. Ele tratava disso." acedeu Maria do Carmo. " E agora, posso ir ver o meu marido? "

CONTINUA


terça-feira, 23 de outubro de 2018

O CASO DO LEONARDO - PARTE IV


À hora do jantar, já todos sabem o que aconteceu e torna-se o assunto preferido de discussão no café da D.Rosa.

" Telefonei à Maria do Carmo e ela deve estar a chegar. O Presidente quer falar com ela antes de ela ir ver o Leonardo no Hospital." conta aos interessados.

" Vai ser um choque!" comenta um.

" Ou não. As coisas entre eles não estavam bem!" diz outro e a discussão prolonga-se.

No restaurante, o Chico serve peixe grelhado às autoridades, pois Leitão convidou o Detective Jorge para jantar com ele e com o Presidente.

" Então, o Leonardo lá apanhou uma sova... Ultimamente, andava com um grupo um pouco estranho." confidencia.

O Detective pergunta de imediato: " Que grupo?"

" Sim, que grupo, Chico?" repete Leitão e o Chico, consciente de que falou demais, é evasivo e retira-se.

" Isto é interessante. O Inspector sabe de alguma coisa que se passe aqui na zona?" pergunta Jorge.

" Não, terá que falar com Gomes. Além de turistas perdidos, roubos de carros no parque, algum contrabando.. não se passa nada de muito grave." confessa Leitão.

O telemóvel do Presidente toca e ele diz baixinho aos outros: " É a mulher do Leonardo!".

" Oh, Dona Maria do Carmo, não fique nervosa! Venha ter comigo aqui ao restaurante do Chico e explico-lhe tudo. Sim, sim, depois levo-a ao Hospital." concorda.

Dez minutos depois, entra no restaurante uma mulher alta, loira, muito bem vestida.

Parece transtornada e o rosto crispado suaviza-se quando vê o Presidente.

" É a mulher do Leonardo!" sussurra o Presidente e o Leitão fica a pensar se o Sargento Gomes não terá razão quando insinuou um affair entre esta mulher e o " bonitão" do Parque.

CONTINUA 


segunda-feira, 22 de outubro de 2018

O CASO DO LEONARDO - PARTE III


Leitão observa cuidadosamente o separador e varre com a lanterna a ribanceira.

 " Pensei que tivessem roubado o carro dele, estivesse outro aqui à espera e feito o dele rebolar pela ribanceira." elucida " Mas não encontro qualquer sinal disso ter acontecido. Temos que descobrir onde está o carro e dar uma vista de olhos à casa dele."

Gomes não gosta nada da interferência, mas não pode negar que o Inspector tem razão e por isso, diz que o melhor é irem os três a casa do Leonardo e destacar o Guarda Antunes para seguir a pista até à estação de serviço.

Quando chegam a casa do Leonardo, a porta da garagem está arrombada e o carro tem os pneus furados.

Há ali uma mancha que Leitão suspeita ser de sangue e por isso, impede os outros de entrarem.

A porta de acesso a partir da garagem está também arrombada e a principal está aberta.

Com cuidado, recomenda Leitão e entram.

Parece que passou ali um furação. Vidros partidos, móveis tombados, livros espalhados.

" Vou ter que chamar alguém da Sede." anuncia o Gomes " Não tenho nem homens nem meios para processar tudo isto."

" Não pode usar os seus conhecimentos? " pergunta o Presidente.

" Sim, posso falar com o meu antigo sargento. Ele pode ajudar-nos; porque vai precisar de uma equipa forense, Sargento." diz Leitão " Mas isto não pode ficar abandonado; não há mais ninguém no posto?"

" Só os estagiários. " responde o Gomes " Vou chamá-los; podem ficar aqui até chegar alguém mais graduado."

Chegado a casa, Leitão telefona ao antigo sargento e explica-lhe a situação.

O sargento está já destacado para outro caso, mas fala com o Chefe da divisão e a meio da tarde, chega uma equipa forense acompanhada pelo Detective Jorge Monteiro.

CONTINUA


domingo, 21 de outubro de 2018

O CASO DO LEONARDO - PARTE II


" Oh, Gomes, tenha calma. O Inspector Leitão está aqui a meu pedido." interrompe o Presidente " Isto diz respeito a todos. Quem quereria magoar o Leonardo e porquê?"

" Talvez o bonitão do Parque!" diz o Sargento baixinho, mas Leitão ouve-o e pergunta:

" O bonitão do Parque? Quem é? " e tanto ele como o Presidente olham o Sargento, que cora e está visivelmente embaraçado.

" É um inglês que abriu uma loja gourmet no Parque." elucida o Zé das Molas " A mulher do Leonardo vai lá muito...."

" Pois, compreendo, as pessoas já estão a escrever uma história de amor." acaba o Presidente " Por falar nisso, onde está a mulher do Leonardo? "

" Foi visitar a irmã e deve voltar amanhã ou depois!" esclarece a D.Rosa, a dona do Café da Praça. " Mas se o Sr Presidente quiser, eu telefono-lhe."

" Talvez seja melhor, D. Rosa, se não se importa. Obrigada." as pessoas começam a afastar-se, mas o Presidente, o Inspector e o Sargento ficam.

" Há um posto de gasolina aqui perto, sei que têm câmaras. Pode ser que se descubra algum carro com a pintura raspada ou coisa parecida," diz o Sargento " Vou até lá; a esta hora, há pouco tráfico e qualquer coisa fora do normal..."

" Dá nas vistas." concorda Leitão " Faça isso, Sargento, mas o que me preocupa mais, porque é que o Leonardo estava aqui a esta hora? "

" Principalmente sem carro!" acrescenta o Presidente.

" Pois." repete o Sargento, descontente por não se ter lembrado disso.

Leitão tem uma ideia e pergunta:

" Alguém tem uma lanterna?"

CONTINUA

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

O CASO DO LEONARDO


Alguém desesperado arranca o Inspector Leitão, agora reformado, do sono dos justos.

Mas estará alguma coisa a arder? Há necessidade de baterem assim a esta hora da madrugada? é o que o ex-inspector pensa ao levantar-se.

Continuam a bater e Leitão grita: " Já vai! Um minuto, por favor!"

Veste o roupão, acende a luz do corredor e desce as escadas.

Abre lentamente a porta e o Zé das Molas (o inspector ainda não descobriu o porquê da alcunha) diz ofegante:

" Oh, inspector, tem que vir... Alguém magoou o Leonardo e abandonou-o na berma da estrada. Já chamamos o INEM, mas o Sr Presidente achou que era melhor o Inspector lá ir." e deixa-se cair numa das cadeiras do átrio.

Surpreendido, o inspector sobe as escadas e veste-se num instante.

" Vamos lá!" e o Zé das Molas segue-o sem uma palavra.

Na berma, no lado sul do parque, está uma pequena multidão reunida.

Leitão cumprimenta-os com um aceno de cabeça e procura o Presidente que está já à conversa com um paramédico.

" Têm que fazer exames para confirmar, mas parece ter um traumatismo craniano e a perna esquerda está partida. Fractura exposta..." relata.

" Terá sido atropelado?" pergunta Leitão já à procura de pistas. Há ali sinais de derrapagens e um dos separadores está amolgado.

" Tudo leva a crer que sim!" responde o paramédico e afasta-se.

" Desculpa, não se importa de pedir que guardem a roupa dele?" pede Leitão.

O Sargento Gomes chega naquele momento e interrompe desajeitadamente:

" Esse é o meu serviço, Inspector!"

CONTINUA

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

O DISCURSO - FIM


A vida de ninguém...

E chego ao grande dia sem nada preparado...

Espero sinceramente que se esqueçam que me convidaram a discursar, pois não tenho nada a dizer...

Quando chego ao local, recuo perante os cumprimentos espalhafatosos, as risadas e os gritos...

Sim, há pessoas que soltam um grito, assustando os demais e depois lançam-se numa correria desenfreada pela sala para abraçar quem chega.

Já estou com uma grande dor de cabeça quando nos servem finalmente o café...

Talvez este seja o momento adequado para sair à francesa, despedindo-me apenas das pessoas que ficaram na minha mesa.

Lembro-me da Matilde e da Carolina, vagamente da Magda e do António Luís. 

A conversa entre os cinco (os respectivos companheiros recusaram-se a acompanhá-los) até decorreu fluída, interessante e não estou totalmente perdida.

Estou a rir-me de uma piada quando a organizadora do evento, a Ana, anuncia que vai haver discurso.

As pessoas começam a aplaudir, há alguém que grita " Quem vai botar faladura, Ana?" e um outro ri.

" Mas eu não preparei nada!" protesto " Pensei que estavas a brincar!"

" Anda lá, não sejas tímida!" incentiva a Carolina.

Há assobios, risos e alguém pensa que me ajuda, dizendo: " Hoje sou eu quem fala e vocês calam-se."

Levanto-me, olho em volta, a Ana sorri-me trocista e eu não hesito.

" Efectivamente, hoje eu falo e vão ouvir-me. 

Porque somos adultos e os adultos têm que saber ouvir... A vida seria muito mais fácil se ouvíssemos...

E ouvíssemos bem.... E, neste momento, ninguém está a ouvir ninguém..."

A Ana tenta interromper-me, mas sem sucesso. 

Porque eu continuo a falar, as pessoas estão a calar-se e quando termino:

" Obrigada por me escutarem. Talvez não tenha sido o discurso mais adequado, mas foi dito com coração."

Os primeiros a baterem palmas são os da minha mesa. 

Os outros, noto, estão desorientados.

Faço as minhas despedidas e saio.

Posso dizer que a noite foi um sucesso... Para mim... 

Mas a verdadeira questão é: será que me escutaram verdadeiramente?


FIM


terça-feira, 16 de outubro de 2018

O CONVITE - PARTE III


Acabo por rejeitar aquele rascunho e os posteriores....

Há qualquer coisa falsa que não me deixa continuar.... 

Nada tem sentido... Como o facto de ter aceite o convite...

Pouco ou nada me lembro dos colegas... 

Seguimos rumos diferentes, temos prioridades opostas...

Por isso, pergunto-me: o que vou lá fazer? O que vou responder à pergunta " O que é feito de ti?" ?

" És tão complicada! Vai, diverte-te!" aconselham, mas eu tenho essa pequena dúvida enraizada na mente e desorganiza os meus dias.

" Não te percebo! És assim no trabalho? Demoras cinco dias a responder a um email?" repetem. 

Não, não demoro cinco dias a responder, faço o possível e o impossível para ser o mais rápida possível e até me torno aborrecida de tanto insistir com os fornecedores nessa resposta.

Isto é não é uma cotação, uma encomenda, uma análise de vendas que exige toda a minha atenção e ponderação.

É um simples discurso e sei o irónico que é dizer que não me sinto à vontade.

Por isso, vou improvisar; talvez tenha sorte e seja um sucesso.

Ou um fracasso...

Mas a minha vida não depende disso...


CONTINUA






segunda-feira, 15 de outubro de 2018

O DISCURSO - PARTE II


Ou talvez não...

Supostamente é um evento festivo... Estão à espera de um discurso brincalhão, que os faça rir...

Falar de consciência, projectos, sonhos.... vou ser vaiada pelos mais superficiais...

Ou talvez não...

As pessoas mudam... podem surpreender-nos pela positiva ou pela negativa...

E eu não sei quem vai... 

" Ai, tantas reticências! Escreve qualquer coisa e não penses mais no assunto!" dizem-me para me dizerem quase de imediato quando lêem o primeiro rascunho.

" Que piroso! Caros colegas, é com prazer que.... Opta por um estilo mais simples, mais terra a terra!"

Fico a matutar no assunto e escrevo uma nota:

" Talvez não deva confessar isto, mas não sei porque me pediram para escrever um discurso.
Um discurso sobre o qual pensei muito para concluir rapidamente que não sei como escrever um discurso.
Porque sei que não me querem ouvir... continuo a ouvir risinhos e tagarelice...
Por isso, o que vamos fazer? O que querem que eu diga?."

" Ainda às voltas com o discurso??? Que disparate é este?"

" A verdade!" digo.

Calam-se.... Talvez porque a pergunta que faço faz todo o sentido... Ou não...


CONTINUA





domingo, 14 de outubro de 2018

O DISCURSO


Não sei muito bem como escrever um discurso...

Pode ter um tema, ter citações, mas deve ser coerente, fluido e sobretudo, não ser maçador.

O que é importante, porque me lembro muito dos discursos do 10 de Junho: complexos, cheios de mensagens políticas e muito longos.

Por isso, não quero escrever um discurso muito longo e aborrecido. 

Nem vou falar sobre a situação política.

É um evento amigável; posso intercalar momentos sérios com piadas inocentes.

Mas continuo sem saber sobre o que vou escrever e porque é que aceitei essa tarefa ingrata.

Porque é ingrato falar para pessoas com quem, salvo raras excepções, se tem pouca ou nenhuma afinidade.

Que me consideravam estranha, introvertida, misteriosa, a quem não se podia dizer nada porque se ofendia facilmente.

Talvez isso seja realmente um defeito, mas preferi ignorar do que viver eternamente em guerra.

Se fui cobarde? Talvez... mas estou em paz com a minha consciência...

Ah, acabo de encontrar o tema para o meu discurso.

CONTINUA



sexta-feira, 12 de outubro de 2018

A DISCUSSÃO - O FIM


Mas a Anabela continua a dizer não e as discussões sucedem-se...

Cada vez mais sérias, cada vez mais azedas...

Até que o Alexandre saí de casa e pede o divórcio...

Mostra-se irredutível, embora aceda almoçar com a Teresa que os tenta reconciliar.

A Teresa fica preocupada com a Anabela que aceita tudo o que é proposto; não luta, não pede nada.

Uma das condições do divórcio é a venda da casa. O valor da venda será dividido pelos dois.

Teresa ajuda a filha a desmontar a casa; Alexandre deu uma lista das coisas com que quer ficar.

O que a Anabela não quiser, será igualmente vendido e depois dividido.

" O que vais fazer agora? " pergunta-lhe.

Anabela abana a cabeça e responde calmamente:

" Ainda não sei. Não pensei nisso!"

" Vai comprar um apartamento mais pequeno? Há uns perto da casa do teu irmão que são bem engraçados." insiste a Teresa.

" Mãe, não sei!" repete a filha e cala-se.

A casa é vendida, o dinheiro dividido e a Anabela continua indecisa.

O Alexandre conhece outra pessoa, casa-se novamente e uns meses mais tarde, convida a Teresa para almoçar para lhe dizer que vai ser pai.

Anabela não reage quando a Mãe lhe conta e Teresa desabafa com os outros filhos que a aconselham a ter calma.

Um dia, Anabela surpreende-a com a notícia de que aceitou um novo emprego numa outra cidade.

É raro vê-la e quando se encontram, constata que a filha pouco ou nada mudou.

Continua apenas interessada no trabalho, na promoção, na possibilidade de se tornar sócia e nada mais existe.

A Teresa questiona-se se isto é realmente viver.


FIM



quinta-feira, 11 de outubro de 2018

A DISCUSSÃO - PARTE V



Alexandre envia-lhe um SMS. Vai estar dois dias fora e a Anabela nem se preocupa em fazer o jantar.

Deixa-se ficar sentada na sala às escuras. Tem muito em que pensar, mas tem a cabeça vazia.

Sente-se magoada por não ter sido escolhida. Tinha grandes planos para a delegação, tinha a certeza absoluta que ia ser convidada para sócia.

Aí, talvez pudesse pensar num filho. Podia gerir o tempo em função das necessidades do filho.

Agora está ainda a pisar em terreno escorregadio. Tem que consolidar ainda mais a posição.

Não, o Alexandre pode pensar o que quiser, mas ela não está ainda pronta para um filho.

Não vai gostar, mas não, não quer arriscar perder tudo o que conseguiu até agora.

Egoísta, é o que a Mãe vai pensar. 

Insegura é o que vai dizer a Vera, a irmã mais velha que decidiu trabalhar só em part-time para acompanhar os filhos.

E a cunhada Joana não vai dizer nada, obcecada pelo fitness, até a vai apoiar.

Mas engana-se, porque a Joana anuncia que está grávida nesse domingo. 

Está radiante, feliz e pede a toda a gente que escreva no bloco que traz um nome de rapaz e outro de rapariga.

Quando o bebé nascer, o nome que tiver mais votos vai ser o escolhido.

" Só espero que não escolham Cunegundes." ri-se.

" Grávida? Pensei que não querias estragar a tua figura!" diz a Alexandra.

" Estou em boa forma física, vou continuar a treinar de acordo com os conselhos do médico e quando o bebé nascer, organizo um outro plano de fitness." responde a cunhada.

Alexandre não comenta, mas quando chegam a casa, pergunta:

" A nossa cunhada tem tudo organizado para a vinda do bebé. Porque é que não podemos fazer um plano igual?"


CONTINUA

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

A DISCUSSÃO - PARTE IV


Não falam um com o outro naquela semana.

Quando o Alexandre chega, come qualquer coisa e fecha-se no escritório. 

Dorme no quarto de hóspedes e a Anabela não diz nada.

Está decidida, quer chefiar a nova delegação durante seis meses e regressar quando tudo estiver organizado.

É um duro golpe para ela quando a Administração decide contratar alguém de fora.

Conhece bem a zona, tem bons contactos e tem bastante experiência na área do negócio.

Vai passar uns três meses ali na sede para se familiarizar com os objectivos/regras da empresa e depois, a Anabela descobre, virá às reuniões trimestrais para prestar contas.

É um homem simpático, faz questão de se apresentar a toda a gente e a Anabela não pode apontar uma falha.

Apenas lhe roubou o lugar...

" Roubou de facto? " pergunta Teresa, deveras espantada com o convite da filha para almoçar num dia de semana.

" Talvez não... Talvez me tenha precipitado; toda a gente sabia que iam abrir a nova delegação..." confessa a Anabela.

" E convenceste que te iam pedir para a chefiar... " termina a Mãe. " Um castelo no ar, não é verdade? Promoveram-te há 6 meses? e já queres chefiar uma delegação... Por amor de Deus, Anabela, pensa melhor nas coisas. E o Alexandre? O que pensa disto?"

" Não sei; não falamos desde domingo. Tem dormido no quarto de hóspedes!" diz a filha.

" Por amor de Deus, Anabela! Como é que deixaste as coisas chegarem a este ponto? " observa Teresa.

" Ele quer ter um filho." conta a Anabela e bebe um pouco de vinho.

" Um filho? " repete Teresa " E o que pensas tu sobre isso?"

" O problema é esse: não sei!" admite a filha.

CONTINUA

terça-feira, 9 de outubro de 2018

A DISCUSSÃO - PARTE III


" Então, falaste com a tua mãe sobre a tua última loucura?" pergunta o Alexandre quando regressam a casa depois do almoço em família.

" Não é uma loucura, como tu e a minha Mãe podem pensar!" replica a Anabela " Se fizer isto, posso ser convidada a fazer parte da sociedade."

" E é tudo o que te interessa? Ser sócia? Eu gostava de ter um filho!" responde o marido.

" Mais tarde, não agora! Não vou ter tempo para cuidar de um filho agora!" contesta a Anabela.

Alexandre para o carro e diz calmamente:

" Isto está a passar dos limites! Não descansaste enquanto não te promoveram, tudo bem, eu aceitei. Eu próprio estava concentrado no meu trabalho, mas agora que já consolidamos as nossas posições, podemos pensar na família. Dizes que este não é o momento???"

" Não sei, Alexandre, não sei, está bem? Não sei o que quero neste momento!" Anabela exalta-se e saí do carro.

" Não, sabes muito bem o queres. Queres organizar a delegação da empresa, porque isso pode ser a porta de entrada para te tornares sócia da empresa. Por isso, não digas que não sabes. Tens um plano e não tens espaço para ninguém." contesta o Alexandre.

" Tu também tens planos!" acusa a mulher.

" Claro que sim. Mas agora estou pronto a organizar a vida de forma a ter tempo e espaço para um filho. " esclarece o Alexandre " Obviamente tu não estás!" e volta para o carro.

Anabela segue-o e observa:

" É a primeira vez que falas em termos em filho!"

" Concordamos em adiar até termos o emprego estável e pensei que, com a tua promoção, fosse a altura ideal. Pelos vistos, enganei-me!" concluí o Alexandre.

Não voltam a falar e quando chegam a casa, o Alexandre deixa-a sozinha na sala e vai para o escritório.

CONTINUA

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

A DISCUSSÃO - PARTE II


" Disseste, quero ir-me embora, assim a frio? Não o preparaste? Não explicaste? " Teresa não quer acreditar no que a filha está a contar.

" Sim, disse. Estou bastante interessada na proposta." e Anabela encolhe os ombros.

Teresa dá-lhe uma palmada e diz:

" Estás a ser muito egoísta... Foste promovida, compraram aquele andar,  deitaram paredes abaixo, está ao teu gosto e estás sufocada??? Não te entendo!"

" É uma oportunidade única. São só 6 meses e depois volto para aqui. Isto vai ajudar-me imenso, pois posso ser convidada para sócia." Anabela explica, triunfante.

Teresa suspira e pensa que, por mais que tente, nunca vai compreender a filha.

Não tem nada contra ser-se ambiciosa e atingir-se um determinado patamar... ela própria teve uma empresa, ainda assiste às reuniões anuais, mas deixou a Administração diária ao filho mais novo.

Porque achou que era altura de viajar por lazer, explorar novos hobbies... e não está nada arrependida.

Mas a Anabela vive concentrada no trabalho e dá pouca atenção ao Mundo.

O Alexandre também vive em função do trabalho, mas a Teresa acha que, nestes últimos tempos, está mais relaxado, mais aberto aos outros.

Teme que esta nova aventura da Anabela cause uma brecha no casamento.

" e agora não me fala." confessa a filha.

" Acredito, mas estavas à espera do quê, anuncias que te vais embora e achas que ele vai aceitar pacificamente? " censura a mãe.

Entretanto, o neto mais novo entra na cozinha e anuncia que está com fome, tanto fome que não sabe se vai aguentar até ao almoço.


CONTINUA

domingo, 7 de outubro de 2018

A DISCUSSÃO


Anabela dormiu pouco.

Sente os olhos pesados, a boca seca e está com um grande dor de cabeça.

Prende o cabelo num rabo de cabelo, veste o roupão e vai até à cozinha.

Talvez um café forte a ajude e é aí que o Alexandre a encontra.

Com o roupão vestido às três pancadas e o cabelo despenteado.... o Alexandre não reconhece a mulher elegante com quem casou.

" O que se passa?" pergunta enquanto se serve de um café.

" Quero ir-me embora!" responde a Anabela sem o olhar.

Ir embora? Desta casa que remodelaram de acordo com a visão dela? 

Da cidade onde cresceu, onde está a família?

Alexandre não percebe nada e é isso mesmo que diz.

" Embora daqui? Porquê? Esta não é a casa dos teus sonhos? Explica-te!" insiste.

" Não sei!" confessa a mulher " Não sei... não posso explicar o quê! Sinto-me sufocada!"

" Sufocado estou eu!" explode o Alexandre " Tens a casa dos teus sonhos, foste promovida recentemente... O que queres mais? "

" Fizeram-me uma proposta... Vão abrir uma nova delegação e querem que eu seja a coordenadora." explica a Anabela. " Que trabalhe lá durante seis meses, treine a pessoa que ficará como responsável, estabeleça os objectivos."

" O quê ? Não o podes fazer a partir daqui? " diz o Alexandre.

Anabela hesita, mas sabe que tem que o dizer.

" Eu quero ir. É importante para mim!"

A caneca do Alexandre caí e despedaça em mil bocadinhos.

CONTINUA

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

A COLUNA - O FIM


Sentem o vizinho subir novamente as escadas e a porta a fechar-se.  

Não ouvem mais nada... Silêncio por completo....

Eles também não falam.  

Mara está surpreendida pela ousadia do individuo, mas o João está furioso, tão furioso que ergue a mão a pedir silêncio.

Quando finalmente fala, fá-lo com aquele tom que não admite discussões.

" Nem uma palavra sobre isto na tua coluna! Desvia as atenções para o teu menu vegetariano, descobre mil maneiras de decorar a mesa... não quero saber! mas lançar para o ar rumores... NÃO!!!! Chega, Mara."

Pega no casaco e é agora ele quem bate com a porta.

Mara fica no meio do corredor a tentar definir o estado de espírito... 

Espantada? Abismada? Aterrorizada? Não, porquê?

Conhece bem o João; sabe que ele precisa apenas de desanuviar e quando voltar, até pedirá desculpa pelo sucedido.

Suspira e volta a sentar-se em frente do computador.

Afinal, tem uma coluna para escrever.   

Mas as palavras do João fazem todo o sentido e segue o conselho.

Hoje, fala sobre as perguntas que vai fazer à nutricionista e à instrutora de yoga.

Dos videos, dos livros que já consultou sobre o assunto...

Amanhã, ninguém se vai lembrar da discussão dos vizinhos do andar de cima.

Apenas eles, pois recomeçam a discutir e a Mara decide colocar os headphones para se concentrar totalmente no que está a escrever.

FIM



quinta-feira, 4 de outubro de 2018

A CRÓNICA - PARTE V


Há uma porta que se fecha com violência e nas escadas, sentem-se uns passos apressados.

O que terá acontecido? Quem está a descer? Ela ou ele? Para onde vai?

Tocam à campainha e o João interroga a Mara com os olhos. Estão à espera de alguém?

Quem quer que seja, está apressado, pois não larga o botão.

O João abre a porta devagar e depara com um individuo alto, vestido desportivamente.

Está despenteado, nota-se que está muito irritado e quando fala, o João tem uma certa dificuldade em o compreender.

" Oh, pá, é o marido da tal Mara? A tal da coluna do Gosto? " pergunta.

" Sim, efectivamente esse é o nome da minha mulher. Posso saber o que se passa? " responde o João, calmamente.

" Ouça lá, que história é essa da sua mulher andar a escrever sobre o que se passa na minha casa?" observa o outro.

" Em primeiro lugar, gostava de saber com quem falo. Em segundo, a minha mulher escreve sobre o que observa e não se refere em ninguém em especial." explica o João.

" O meu nome não é importante para o caso..."

" Mas eu acho que sim. Bate-me à porta, fala alto e sem o mínimo de educação e espera que eu justifique o comportamento da minha mulher? " esclarece o João, mantendo a voz baixa.

A Mara sabe que não é bom sinal. O João raramente perde o controlo, mas quando o faz, pode ser muito ofensivo.

O vizinho fica um pouco surpreendido e quando volta a falar, nota-se que se está a esforçar para controlar a fúria.

" Eu quero saber o porquê da sua mulher andar a escrever sobre o que se passa na minha casa. É possível?" repete.

" Não, não é possível. Porque não há qualquer explicação a dar. A minha mulher está a falar de má educação e maus vizinhos e verifico que o senhor se enquadra na classificação. Com licença." e fecha a porta.


CONTINUA

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

A CRÓNICA - PARTE IV


" Claro que sim!" diz a Mara.

" Por acaso, não pensaste que a vizinha pode ler as tuas crónicas e sentir-se atingida?" comenta o marido.

" Não digo nomes!" defende a Mara e continua a escrever sobre a má educação de certas pessoas, que não sabem o que é a boa vizinhança.

As respostas à crónica anterior acabam de chegar.

Alguns querem saber o menu do almoço e sugerem que lhe dê algumas dicas.

Outros referem-se claramente ao caso do " fantasma" no 2º andar e aconselham que ela consulte um exorcista, pois quem sabe, não estará a casa dela a ser igualmente influenciada por espíritos malditos?

Há um mail interessante, o remetente só assina " 1962TOP" e a Mara não sabe se é o nº da porta, último andar ou simplesmente o ano de aniversário.

" Problemas com vizinhos, Mara, todos temos.  Não pense que é exclusiva...

Quem sabe se não foi uma porta a bater? Ou livros a caírem da estante e alguém assustou-se?

E, mesmo que tenha sido uma discussão, qualquer pessoa tem uma discussão. 

Inofensiva, grave... não interessa... Toda a gente tem, Mara!

Está a dar muito importância a uma coisa que acontece em todas as casas, não só na casa da sua vizinha."

" Gosto deste teu comentador." observa o João. " Vais responder? " pergunta, malicioso.

" Talvez! Pode ser que tenha razão, pode ser que não!" responde a Mara, a pensar, não no comentador, mas na ementa vegetariana que vai colocar na próxima crónica.

Tem uma reunião com uma nutricionista e com uma instrutora de yoga.

Está muito entusiasmada com o assunto e quase esquece os problemas do andar de cima, se nessa noite, não houvesse uma outra discussão, que o próprio João classificou, de brutal.


CONTINUA

terça-feira, 2 de outubro de 2018

A COLUNA - PARTE III


Depois, fez- silêncio absoluto.

A Mara termina a crónica, jantam e o João quer ver um filme no Hollywood.

Adormece a meio, a Mara fica indecisa, não sabe se o deve acordar, pois o João tem um péssimo despertar.

Deixa-o ficar no sofá, deita-se e sente-o mais tarde, a resmungar baixinho.

" Porque é que esta mulher não me acordou? Agora fico com os sonos trocados!" mas a verdade é que adormece uns minutos depois.

No dia seguinte, com a entrega da crónica, ler e seleccionar os mails relativos à anterior, uma reunião com a directora de departamento, Mara só se lembra do que aconteceu quando regressa a casa.

O casal do andar de cima está novamente a discutir e Mara resolve investigar.

Quando abre a porta, vê que a vizinha do andar de baixo teve a mesma ideia e está a subir a escada.

" A Dra está a ouvir isto? " pergunta a D.Rafaela " Estão nisto desde as quatro da tarde. Trabalhei até às duas da tarde, pensei em repousar um bocadinho e não consegui." queixa-se a senhora.

" Ontem à noite, também fizeram barulho, mas como se calaram por volta das dez, não dissemos nada." conta a Mara. 

" Pareciam um casal tão simpático!" suspira a D,Rafaela.

" Vamos bater à porta e ver o que acontece!" sugere a Mara e sobe resolutamente as escadas.

Batem à porta, a discussão para, mas ninguém atende.

" Há aqui quem queira descansar e trabalhar! Podem falar mais baixo?" pede a Mara suficientemente alto para eles ouvirem.

Silêncio... As duas olham uma para a outra e voltam para as respectivas casas.

" Meus caros leitores, não sei o que pensar.

A discussão estava " acesa "... Eu e a vizinha do 2º andar tivemos que ir bater à porta para ver se eles se calavam.

Calaram-se, mas são muito malcriados.... Nem tiveram a gentileza de abrir a porta, pedir desculpa e prometer que teriam mais cuidado daqui para a frente."

" Vais publicar isso? " pergunta o João.

CONTINUA

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

A COLUNA - PARTE II


" Domingo... dia de descanso e almoço com os sogros...

Não, não foi um almoço tradicional, cheio de silêncios. Foi mais um " sirvam-se do que quiserem e sentem-se onde houver espaço.".....

Para mim, foi óptimo, pois pude controlar as calorias do prato e não ouvi comentários tipo " oh, minha filha, estás tão magrinha!!! Esta mania das dietas...".

Nem o João deve ter sido massacrado com " Oh, pá, o que se passa com a tua mulher? Não lhe dás de comer?" e o meu caro marido fica furioso e diz-me:

" Porque é que não te esqueces das dietas e comes como um ser humano?" e eu fico sem saber o que é que ele quer dizer verdadeiramente.

Claro que sou um ser humano, mas quero ter um corpo perfeito... 

Falamos nisso na minha próxima crónica, porque estou preocupada com os meus vizinhos de cima.

Esta manhã, ouvi um grande estrondo e depois um grito. 

O que terá sido? Um móvel, uma cadeira?

E quem gritou? Porquê? Magoou-se?

Ou terá sido um fantasma como sugeriu o João?"

Há um novo estrondo e um grande grito. Mara interrompe a crónica e saí do escritório.

O João aparece, vindo da cozinha e pergunta-lhe:

" Foi isto que ouviste esta manhã? " e a Mara sussurra:

" O que achas que é?" mas o João encolhe os ombros e volta para a cozinha.

Os gritos continuam e a Mara tenta decifrar as palavras. Só percebe " traição"...


CONTINUA