Fiz o que sempre quis fazer…. Abri a casa ao Sol… Deixei entrar a luz interdita, ofendi memórias ainda escritas nas paredes, tornei – a mais feliz… E espero…. Espero que já estejas a caminho…
Os dias podem não ser iguais à noite... Nem as palavras ditas hoje são as de amanhã... Porque estou tão perto de ti, que o meu suspiro roça no teu, recua, assustado, mas adormece em ti... Na tua noite, com o aroma da minha...
Sei que, ao apaixonar-me por ti, deixei que te escrevesses em mim... Num poema deliciosamente erótico... De palavras quentes, que tornam o dia feliz, inventando-te, improvisando-me.... Num enlace entre a paixão e o desejo...
Há um olhar que nos toca... Absurdamente sedutor... Porque fala de prazer... O meu, o teu prazer? Simplesmente o prazer vivido com essa ânsia, esse desejo de loucos amantes... Que fingimos ser... Mas que somos, de facto....
A única explicação que me ocorre, para ficar aqui sentada no jardim.... Com as sombras da noite a esconderem o lago, os bancos, os caminhos, os últimos risos... Está quente a noite... Não sei para onde foi a brisa... Sei para onde não quero ir e basta.....
Foto de José Boia "Sinto o que escrevo ao pôr-do-Sol" (1000 Imagens)
Não sei o que dói mais. Se a saudade ou o silêncio, numa noite que é longa demais. Está vazia de amor, é mal-amada por minha causa... Porque não quero partilhar a tua memória.... Não quero dizer que partiste e que eu fiquei...
Não basta, sabes? Dizeres que me adoras e deixares-me assim… Sem nada, um gesto que seja, uma palavra gentil… Só isso que eu quero… Uma palavra que me atenue a dor, a dor que ninguém sabe como sinto. Não há palavras milagrosas, eu sei... E tenho que confiar no tempo… Mas queria confiar em ti...
Há sempre um caminho de volta. Poderá não ser o que se sonha, o que se deseja. Mas quem não teve, na vida, desilusões? Quem nunca limpou as lágrimas, olhou em frente e avançou por entre os estilhaços da dor? Há quem diga que falo de cor. Como pode afirmar tal, se nunca me olhou nos olhos e me viu?
Caminho por entre os meus sonhos, pesados como esta noite angustiada. Destroça a minha alma, o frio que volta a entrar pela frincha. Não estou a sorrir, pois já nem sei como escrever..... Perdi a vontade, o desejo, o interesse pela vida com que quebrava a monotonia dos dias.... Nem mesmo o voo altivo das gaivotas me faz sonhar.... Deixo que a solidão me embrulhe novamente.... Volto a ter medo.... Até do frio.....
Sobre os contrastes da vida, porque não falar da rosa e do espinho?? O sangue com que um nos marca a pele… O aroma com que o outro nos brinda a memória… De beleza eterna, mesmo que agora envelhecida e seca... É sempre única; ama com alma.... Reflecte-se na água, forma-se nas estrelas... Segue-nos no destino, na pintura abstracta em que limitamos o mundo... Porque nada mais há a dizer….
Esta noite, responderei às minhas próprias perguntas e cederei o meu papel de protagonista à Lua. Não estarei em cena.. Estarei nos bastidores, serei uma mera espectadora da dança burlesca do Vento e da Lua. O que queremos esquecer??? O que escondemos nessa dança frenética, que nos cansa o corpo e a mente?
Escrevo-te, nos últimos raios do Sol… Nessa hora mágica do dia, em que te volto a ter só para mim e me perco num labirinto de sensações e emoções… Definir? Descrever o que sinto?
É como pararo tempo e deixar, finalmente o corpo respirar....
O retrato da vida... Com caminhos sinuosos, dúvidas e coragem... E falar de medo, não é cobardia.... Se o próprio Hercules duvidou... Se a árvore continua serena, ali à beira do abismo... Se não entrarmos em pânico, podemos arriscar e atingir o topo... O nosso próprio topo, a meta que todos nós temos na vida... E sentirmo-nos tão confiantes e tranquilos como a árvore...
Não o vou assinalar no calendário e decidir que aquele é um bom dia para te esquecer.
Não posso....
Não é fácil caminhar na tua ausência... Despir-me do teu desejo, ou da chuva do teu olhar. Ou libertar-me dos teus beijosprofundos, desejados, ilimitados... Não, não te vou esquecer hoje. Nem amanhã... Talvez nunca te esqueça. Aprenda só a viver sem ti...
Posso continuar a falar na brisa. Esquecer-me das palavras enterradas na areia molhada, onde volto a ser criança. Procurar “beijinhos” e búzios, fazer castelos de areia e gritar indignada quando a maré subir e os conquistar...
Não deixei de te sonhar, de te amar... É apenas querer estar sozinha, perder o olhar no horizonte e reconciliar-me com os meus pensamentos...
Quando a maré regressar e a brisa me abraçar, lembrar-me-ei das palavras, sentirei a minha pele e procurar-te-ei... Vendo-te, novamente, por completo, como parte de mim....
Beija-me…. Aqui…. Exactamente aqui… Devagar…. O mais devagar possível… Para me saboreares e ficares com o meu gosto na tua boca… Horas, minutos, segundos…. Acordares amanhã, ainda comigo em ti… Beija-me… Onde nunca pensaste beijar alguém, algum dia… Em silêncio… Fechando os olhos…. Sentindo os meus lábios … Num poema de amor…..
Ninguém precisa de saber, que deixei a imaginação voar com o Vento e inspirei-me em ti… Nos teus beijos no meu corpo nu, no desejo ainda solto. Como a chuva, quando se afoga no mar em noites de tempestade. Gosto dessas noites… É quanto te sinto mais meu… Mais terno, mais relaxado, mais cúmplice no abraço.. Pouco me importa se não houver Lua e se amanhã não for um dia perfeito de Sol… Todos os meus caminhos são os teus… Apaixonadamente.....
Nada pode ser imperfeito, se ainda repito, baixinho, as tuas palavras de amor. Se as sinto ainda como uma carícia na pele....
Como posso apagar o desejo, a paixão que vejo nos meus olhos? Como posso não acreditar no que diz o corpo transpirado, saciado? Quando tudo o que os olhos vêem é o amor escrito no sangue.
Foto de Margarida Araújo "Temáticas: Sensibilidade à Flor da Pele" (1000 Imagens)
Um é um espelho cruel… O outro, uma voz que nos condena… Dizer que são orgulhosos e implacáveis, é dizer pouco, porque nada os detém… Completam-se e ninguém nos pode acudir… Ninguém nos ouve gritar… E, nunca temos a certeza de que é o fim…
Foto do álbum "Women" de João Mateus (Via Facebook)
Não sei o que será... O que poderei dizer que é.... Quando leio o teu poema e mesmo que não menciones o meu nome, é de mim que falas... São minhas as palavras escondidas no ritmo do verso. Meu, o prazer do corpo que ainda se escuta... No silêncio que fica, quando a brisa morre e a noite termina.....
Foto do álbum de João Mateus "Silk on the Soul" - "Who are we" (via Facebook)
A noite pode desdobrar-se em cores brilhantes… Nada já vemos …. Nem sabemos muito bem quem somos… Se apenas sonhadores ou fantasmas do tempo… Esse tempo, que de nós troça e nos arrasta pelos corredores da insónia… Quem somos nós, amor, nesta noite interminável??
Foto do álbum de João Mateus, "BG Girl" (Via Facebook)
Sei o quão banal soa… Andar pela casa sem destino, ficar indiferente ao “glamour” da noite e falar só na tua ausência… Queixo-me da minha saudade, em palavras zangadas que depois rasgo… Abraço o meu próprio corpo, como se pudesse sentir ainda o teu calor…. nada banal...
Foto do álbum de João Mateus "La Cantina" (via Facebook)
Quero... Ter o teu beijo, o teu suspiro lento e longo, a vaguear pelos meus lábios, no deleite da noite... Na frescura da manhã, antes de deixares a minha cama... Ser o segredo que te acompanha e te surpreende o sorriso... A fantasia que passeia pelos teus dias e alastra-se pela pele... Quente, húmida, sedutora em corpos já seduzidos.....
inventar palavras, talvez tu não ficasses na sombra e eu não me sentisse tão frágil. Se eu pudesse escrever o teu poema, fazer sentir todo o teu desespero, talvez as memórias de ambos não fossem tão pesadas. E, as noites sem lua tão assustadoras....