Esta noite não tenho o tempo contado. E ao apelo da minha fantasia, escondida, mas não esquecida, sucumbirei. Serei um poema exótico, uma voz despojada de tabus num corpo nu.
Breve é uma palavra perfeita. Para contar uma história de amor. Em que falo com as tuas mãos. Inesperado é também uma palavra perfeita. Só assim consigo descrever o calor, esse calor com que surges em mim. Mas o prazer em me amares, quando te sinto a amar-me, é apenas indescritível.
Consigo ver o Vento, mesmo que o meu poema fique inacabado. Escuto as vozes do Vento, mesmo quando as luzes estão apagadas e ninguém sabe que estou ali. Pinto cores no Vento, dou-lhe formas abstractas, quando me abraça o desespero. Nunca lhe grito, porque o Vento uiva mais alto que a dor. A dor que quero esquecer, tenho que esquecer, não sei como esquecer. Talvez o Vento saiba. Ou talvez não, por a dor ser minha.
Amar-te, um disparate? Nunca o será, se já o disse. Amo-te, esqueço-te, lembro-te em todos os minutos do meu dia. Sei como te quero, como te desejo. Como pode isso ser um disparate?
Posso falar sempre do Vento, deixar que, nas memórias do tempo, enterre as minhas. Mas o sabor da tua pele, a clareza do teu desejo, completam os momentos da tua ausência. Fico prisioneira da minha própria paixão, escondo a cara como se tivesse vergonha... Vergonha porquê? E de quê? Nunca de te amar.....
Se eu não soubesse como te amo... Assim, veemente, intensamente.... Talvez esta paixão que sinto, e no meu corpo te descreve, esmorecesse. Talvez a minha alma não fosse livre e a verdade não fosse um segredo, só nosso... Talvez soubesse a resposta à pergunta, e lhe roubasse o encanto… De não saber o porquê de tanto te amar….
Dizem que levo uma vida de saltimbanco... Não tenho “eira nem beira”, ando pelas bermas da estrada e da vida. Sabem lá se não gosto de andar assim, fantasiada de ilusões, recriando sonhos. Os meus e os de quem me pede para tocar... Músicas de outros tempos, que ninguém mais toca, porque não sabe falar com o coração a quem já só vive de memórias. Eu sei, porque a minha vida é assim: ilusões e sonhos....
vou gritar violentamente… Como se tivesse perdido, o juízo. Que alguém me escute, mas que não seja o Vento. Para que as palavras fiquem completas e não sejam fragmentos, farrapos… De uma angústia, que não sei, não consigo explicar…
“Abram alas, já disse!!!” soa o vozeirão do Vento na tranquilidade da noite. “Fujam, escondam-se! Nada,eu perdoarei esta noite! É minha!” E desço pelos montes, em reboliço. Invado, furibundo, os vales. Exijo, arrogante, obediência ao arvoredo.
Rompo a escuridão, com raios brilhantes e elegantes… Numa dança diáfana, profana que enternece os amantes e perturba a oração de quem pensa em Deus. Imponho respeito, com trovões violentos e assustadores. Ouço gritos e pedidos de clemência, mas avanço, decidido, impiedoso pela noite.
“Responde o que sentires” diz-me o Vento quando passa por mim... Mas eu fico sem saber se isto foi apenas um sonho fugaz como o Verão... Despreocupado, alegre, vivo... “Mas o que importa?”, ri-se o Vento...
Como as horas são vagarosas, amor, e como as palavras estão sonolentas, sem sentido em mim. Porque este é o meu momento… A minha memória de ti, e de palavras, não precisa... Só de ti, do teu nome...
Ando a vaguear por aí… Por entre beijos e desejos escritos na palma da mão. Sem que o tempo me preocupe, me afaste do Sol, me agrida numa noite de tempestade. Se te procuro e não te encontro, é porque estou mais longe do que pensava… Se falo de beijos e desejos, é porque continuo a sonhar acordada. E tenho as minhas mãos estendidas para ti.
Às vezes, tenho medo de te perder e deixo a luz acesa... Para que me encontres onde me deixaste... Aqui, nas sombras do jardim, escondida nos meus segredos, aconchegada nas tuas palavras. Para esquecer a dor, a saudade que tenho do meu Pai. Mas hoje, nada atenua essa dor e já nem sei se a luz ajuda... Não sei mais o que dizer; não te encontro nas tuas palavras. Apenas vejo monstros, fantasmas, que não caminham pela luz, que tenho medo de perder. Porque me posso perder de ti....
Nenhum toque é desnecessário; todos são irresistíveis… Nesse gemido sonolento, de quem se amou febrilmente. Em que fomos invadidos, conquistados, esmagados pelo prazer… O prazer mágico do toque que se sente, escorrendo pelo corpo…
Podia falar nos desejos, que se escondem no Vento. Ou contar as folhas, que se espalham pelo jardim. Podia explicar-te o que é “sweet”… Ou encontrar palavras que rimem com sensual… Mas quero amar-te… Simplesmente... Por esse facto...
Quando a chuva se calar, desafiarei o Vento. Serei tão louca como ele; entregar-me-ei à tua pele. Definirei limites, que não cumprirei. E quero que me lembres; escutes a minha voz esta noite. Quero que saibas como te amo, como nunca pensei amar-te assim... Tão louca, tão cheia de paixão...
nos meus lábios. Escrevo-te no brilho da Lua Cheia, com o suor insinuante do meu corpo. Fecho os olhos e vivo-te novamente. Os teus lábios em mim, o teu corpo abraçado em mim, as palavras de amor que se murmuram e se repetem. Incansavelmente…