sexta-feira, 19 de junho de 2020

O PASSEIO - PARTE IV


Estou tão cansado que adormeço de imediato, nem janto.

Na cozinha, todos jantam em silêncio e é só quando a Matilde e a Clarinha estão já no quarto que os adultos conversam.

" Falei com a agente que estava de serviço no parque e ela diz que, apesar do pânico, o Gustavo foi bastante competente." observa o Inspector Bernardes " Foi essa a palavra que ela usou " competente", fez uma descrição pormenorizada da Clarinha, mostrou uma foto que tinha no telemóvel, levou-os ao sítio onde ela estava a brincar, onde ele e os amigos a procuraram..."

" É teu filho; falas dos teus casos, discursas sobre a importância dos pormenores... ele ouviu-te." interrompe a Madalena e a Rita sorri.

No fundo, o cunhado até está orgulhoso do filho, ela própria está, mas a Madalena continua preocupada.

" Pena que não tenha escutado tudo... Porque já tivemos este tipo de conversa: se estão com a Clarinha, vejam o que ela faz, para onde vai. Sigam-na... O Gustavo falhou redondamente..." continua a Madalena.

" Não discordo, mas ele também provou ser uma pessoa capaz de enfrentar a situação e assumir a culpa." comenta a Rita.

A Mãe não está convencida, ainda está muito magoada.

A Clarinha adorou ver o esconderijo dos patos, ficou assustada porque não soube voltar para trás, o Gustavo não teve culpa, frisa.

" Para a próxima vez, chamas o Gustavo e ele vai contigo, ok? Ficamos muito assustados, não sabíamos onde estavas..." explica a Madalena, mas a Clarinha não percebeu.

A Rita levanta-se, está a ficar tarde, amanhã tem uma reunião importante.

" Amanhã, o Gustavo vai falar contigo. Ouve-o... ele está muito arrependido e precisa que tu o perdoes." pede e saí.

A Madalena entra no quarto das filhas, tira o telemóvel da mão da Matilde e dá um beijo na cabeça da Clarinha.

O filho está a dormir profundamente em cima da cama, a Mãe estende uma manta por cima dele.

Depois, vai para o quarto dela e desata novamente a chorar nos braços do marido.

CONTINUA

quinta-feira, 18 de junho de 2020

O PASSEIO - PARTE III

 
A Mãe não diz nada, tira-me a Clarinha dos braços e olha-me tão magoada, tão triste que eu fico envergonhado.

O Pai também não diz nada e o rosto da Rita, sempre tão exuberante está sombrio.

" Senta-te, Gustavo." pede o Pai muito formal e eu obedeço, será assim que ele fala com os suspeitos? " Sabes qual é o meu trabalho, já lidei com este tipo de situações e o desfecho pode ser muito doloroso. Não só para nós, profissionais como também para a família da vítima. Por isso, compreendes como isto foi uma irresponsabilidade? Puseste a tua irmã em perigo... E, porquê?... não, não me interrompas... É nisto que quero que penses. Também espero que compreendas a razão porque vais voltar a ficar " confinado "...."

" Oh, Pai!" deixo escapar, mas o meu Pai continua a falar, a explicar o que espera de mim nas próximas semanas.

Para ganhares novamente a nossa confiança, esclarece.

" Nada de telemóveis, video chamadas ou afins, saídas apenas as indispensáveis - escola, aulas de remo e mais nada. Porque, quero que tenhas isso em mente... sempre que saíres com a tua irmã, a prioridade máxima é a segurança dela. Nada mais! Tens muito em que pensar, tens que falar com a tua Mãe... Porque ninguém aceita que tenhas sido tão irresponsável!" remata.

Cedo à pressão e, para minha grande consternação, desato a chorar.

Não é o Pai que me abraça, é a Rita que diz baixinho:

" Calma! Foi um erro que poderia ter sido fatal, nem quero pensar. O importante agora, Gustavo é o que aprendes com isso. O que estavas a fazer? "

" Encontrei dois amigos, estávamos a conversar. A Clarinha estava no labirinto, estava entretida... Foi só uns minutos, Rita!" explico.

" Foi o que bastou!" responde a minha Tia " Agora, vai tomar um duche, muda de roupa. E, depois, tens que conversar com a tua Mãe. Não hoje.." acrescenta " ela está muito magoada, mas amanhã, tens que ser franco com ela."

Sigo o conselho dela, vou tomar um duche e quando chego ao quarto, vejo que o Pai já lá esteve.

O telemóvel desapareceu, a consola de jogos também. Só ficou o computador, mas não me atrevo a ligá-lo.

CONTINUA

quarta-feira, 17 de junho de 2020

O PASSEIO - PARTE II


Ali perto, há um parque com baloiço e um labirinto que a Clarinha quer explorar.

Fico cá fora, coloco as bicicletas no local adequado e sento-me no muro a vigiar a minha irmã.

Avisto, entretanto, dois amigos meus, o Manuel e o Vicente e ficamos ali uns minutos a conversar.

Confesso que não me lembro da Clarinha, não me passa pela cabeça que ela pode ficar aborrecida e decidido seguir uma família de patos até ao seu esconderijo.

Só vejo que ela não está no parque quando a Mãe telefona e pergunta porque é que não estamos ainda em casa.

Fico imediatamente aflito, pergunto a toda a gente se viu uma miúda com leggings azuis escuras e T-Shirt rosa, a fita do cabelo também é rosa, acrescento.

Há uma senhora que me diz que a viu sair do parque e subir aquele carreiro, aponta e leio no olhar dela uma certa censura.

Subimos o carreiro, mas há tantas bifurcações que decidimos separar-nos e explorar.

Não a encontramos, estamos os três sem fôlego e eu estou desesperado.

Procuro funcionários do parque, um polícia, sou Gustavo Bernardes, identifico-me à agente que está à entrada do parque, não sei onde está a minha irmã, pode ajudar-me?

Em menos de um minuto, organiza-se uma equipa de salvamento e busca e ligo então à minha Mãe.

A Mãe, conta a Matilde mais tarde, ficou tão branca que a minha irmã pensou que ela ia desmaiar.

Afligiu-se, pediu ajuda à vizinha e como a Mãe começou a chorar descontroladamente, telefonou ao meu Pai e à Tia Rita.

Por isso, quando duas horas mais tarde, apareço em casa com uma Clarinha muito suja e muito assustada nos braços, enfrento um júri muito hostil que me aplicará a pena máxima.

CONTINUA

terça-feira, 16 de junho de 2020

O PASSEIO



Ups! Já posso treinar remo e que sorte que o clube é perto de casa, pois não posso usar os balneários.

" Que horror! Cheiras mal!" queixa-se a Clarinha quando entro em casa.

Eu rio, porque agora posso sair, maldito confinamento, penso e já não tenho que a aturar.

Depois arrependo-me, a miúda só tem cinco anos, o jardim infantil fechou e ela aborreceu-se imenso.

Por isso, de vez em quando, batia à porta do meu quarto, oh, Gustavo, fazes um desenho comigo? A Matilde não quer.

Pois, a Matilde deve sentir-me como eu - presa, frustrada, sem festas, sem saídas com as amigas.

" Atenção às regras! Máscara, higienizar as mãos e manter o distanciamento social." os Pais estão sempre a chamar a atenção para isso, mas nem sempre é fácil.

Se queres ver um video ou ler um post engraçado no Face, tens que te aproximar.

Como filho de um Inspector da Polícia, tenho que dar o exemplo, mas é tão duro...

Hoje, a Mãe pede-me para levar a Clarinha ao parque. 

Tem uma série de coisas a fazer, não pode arrastar a miúda, ela aborrece-se imenso, queixa-se e desorganiza-me o dia, diz.

Porque é que a Matilde não a leva? pergunto, mas a minha irmã quer dar uma volta pela Baixa com as amigas, ver as novidades, esclarece.

Não me agrada muito, faço saber à Mãe, mas esta não admite mais discussões.

Trouxemos as bicicletas, a Clarinha está feliz por estar ao ar livre.

Damos uma volta ao parque e depois paramos ao pé do lago.

CONTINUA

Nota:
Gustavo, Matilde e Clarinha são sobrinhos da Rita.


segunda-feira, 15 de junho de 2020

OS CUNHADOS - FIM



" Vocês param com isso?" reage a Teresa " A atacarem dessa maneira quando têm que estar unidos??? Ok, o António não devia dizer isso, depois falam nisso, mas agora temos que pensar na Laura e como a podemos ajudar."

" Oh, pá, desculpa!" o António é o primeiro a pedir desculpas.

" Deixa lá." concede o Gonçalo " Eu também fui um bocado estúpido. É como a Teresa diz, temos que pensar na Laura."

" Pois... vamos dar-lhe espaço, ver o que ela decide!" diz o António e o Gonçalo despede-se uns minutos depois.

Nem telefona à Rita, vai para casa dele directamente, precisa de pensar.

A Mãe telefona nesse fim de semana, a Laura pediu para passar uns dias com eles e o médico concordou.

Não, é melhor não aparecerem cá, o médico quer ver como ela reage, não quer muita gente à volta dela.

Os irmãos compreendem, o Pedro fica um pouco desapontado, queria conversar com a Laura, saber o que ela quer fazer.

" Dá-lhe espaço!" aconselham as irmãs " Deixa-a gozar a companhia dos Pais e do Miguel.  Ela cresceu naquela casa, tem boas memórias e isso pode ajudar."

Mas o Pedro não está convencido, está a ficar frustrado com a situação, sente-se a sufocar.

O Gonçalo e a Rita convidam-no para jantar, tentam distraí-lo, mas o Pedro confessa não estar na melhor das disposições.

A Rita e o Gonçalo não sabem o que fazer mais, a Teresa e a Carolina sentem-se impotentes, a única coisa que podem fazer é apoiá-lo.

A Laura gosta de passar aqueles dias na quinta, interessa-se pelo que lá acontece e até sugere algumas mudanças.

O médico acaba por lhe dar alta, a Laura instala-se na quinta e pede aos irmãos para a visitarem.

Contudo, não diz nada ao Pedro.

Pelo contrário, contrata um advogado para concluírem o divórcio e discutirem a custódia do Miguel.

Quando o António lhe pergunta se tem a certeza, a irmã sorri e diz que tem a certeza absoluta, está na altura de controlar a vida sozinha, com as suas próprias regras.


FIM




domingo, 14 de junho de 2020

OS CUNHADOS - PARTE V


No dia seguinte, enquanto tomam o pequeno almoço, a Rita volta a perguntar ao Gonçalo:

" Achas que isto foi uma boa ideia?"

" Rita, isto já aconteceu entre nós... não vai mudar nada entre nós. Somos adultos, somos responsáveis..." responde o Gonçalo pacientemente.

" Mas também trabalhamos juntos." observa a Rita, mas o Gonçalo abana a cabeça, explicando que a relação  profissional é possível porque se conhecem pessoalmente.

" Por falar nisso, tive uma ideia..." e expõe o que pensa fazer no novo projecto que estão a desenvolver.

" É assim que vão começar os dias?" brinca a Rita, o Gonçalo dá-lhe um beijo intenso que lhe tira o fôlego.

" Maluco!" ri-se a Rita e o Gonçalo diz: " E, tu adoras!!!"

Despedem-se, o Gonçalo tem uma reunião fora e já está atrasado.

A Teresa telefona-lhe ao fim da tarde, pode passar lá por casa e falar com o António? ele está muito desanimado, comenta.

O Gonçalo não sabe bem o que dizer ao irmão, partilha as preocupações, claro, mas a única pessoa que tem que resolver os problemas é a própria Laura.

"... acho que ela não quer...talvez queira que tenham pena dela!" concluí.

" Por amor de Deus, Gonçalo! Como podes dizer isso?" explode o António.

" Já pensaste bem como a nossa irmã reage quando a situação não lhe é favorável? Esconde-se, espera que os outros reparem que as coisas não estão bem..." continua o Gonçalo e a Teresa suspira.

Não pode negar que o Gonçalo tem uma certa razão, não é fácil para o António admitir que a irmã gémea tem problemas sérios.

" Desculpa, António, a Laura também é minha irmã, mas temos que ser sinceros. Só assim a podemos ajudar. A Rita acha que ela é mimada..." e o António interrompe-o:

" Andas a discutir isto com a Rita? A que propósito? "

" Qual é o problema? " insurge-se o Gonçalo " A Rita é minha amiga, trabalha comigo, confio nela."

" E também dormes com ela!" e mal acaba de pronunciar a frase, o António percebe como foi cruel.

Oh, António, diz a Teresa muito baixinho e a expressão do rosto do Gonçalo muda.


CONTINUA


sábado, 13 de junho de 2020

OS CUNHADOS - PARTE IV


A mãe está desapontada, não sabe realmente o que se passa com a Laura, desabafa com o marido nessa noite, educamos os três da mesma maneira e a Laura, sempre tão activa e exuberante, é a que está a ter mais problemas. Onde é que falhamos?

Mas o marido não concorda, temos que nos concentrar no que podemos fazer agora para a ajudar.

O Pedro está magoado, a Teresa está preocupada com ele e com o António também, embora este não fale sobre o assunto.

Só o Gonçalo é que consegue dizer abertamente o que lhe vai na alma.

O Miguel fica com os avós, precisas de descansar, Pedro, diz a Mãe da Laura e este aceita a sugestão com alívio. Tem muito em que pensar.

Por isso, regressam os quatro à cidade, um pouco desanimados e pouco falam.

O Gonçalo resolve telefonar à Rita, precisa da companhia de uma mulher bonita, confessa e a Rita ri.

" O que aconteceu à Eduarda? " pergunta quando já estão a tomar o café.

" Não a vejo há uns meses. Acho que tínhamos objectivos diferentes e era um pouco ciumenta. Não lido muito bem com isso..." explica o Gonçalo.

" Por causa da tua irmã? " comenta a Rita e bate-lhe carinhosamente na mão. 

" Em parte... Está a ser muito duro, sabes? nunca vi a minha Mãe tão triste, tão desanimada." diz o sócio, apertando-lhe a mão.

" Também não entendo a atitude da Laura. Bem sei que ela teve uma série de problemas, mas...." interrompe-se, não quer magoar o Gonçalo.

" ... a Laura não os soube enfrentar... O que é uma contradição em si, porque a Laura sempre foi expansiva, pró-activa..." termina o Gonçalo por ela.

Suspira, olha-a intensamente e a Rita advinha o que ele está a pensar.

" Achas que é uma boa ideia? "

" O quê? Ficarmos juntos esta noite?...." comenta o Gonçalo " Ora, Rita, conhecemos-nos há muito tempo, há qualquer coisa em nós que é inabalável... e respeitamos-nos o suficiente para não ultrapassar limites."

" Sempre soube que eras um romântico!" diz a Rita muito baixinho e segue-o até ao carro.

CONTINUA

sexta-feira, 12 de junho de 2020

OS CUNHADOS - PARTE III


Mas a Laura só aceita falar com o António.

O Pedro fica muito aborrecido, o médico explica-lhe novamente a evolução da doença e o tratamento que está a ser feito.

Mas o filho? é a pergunta desesperada do Pedro, o Miguel precisa de ter contacto com a Mãe,  mas o médico acha que é cedo, poderá desencadear sentimentos para os quais a Laura não está preparada.

" Disparate!" comenta o Pedro nessa noite ao jantar " Ela era obcecada pelo Miguel! Sempre tão cuidadosa, tão atenta!"

" Talvez seja isso que o médico quer evitar." intervém o António " Sabes tão bem como eu que a Laura exagerava, não quis que ele fosse para uma creche, raramente aceitava a ajuda de outras pessoas."

" Ela não queria ir àquele chá dançante, porque o Miguel não podia ficar em casa da Carolina, a Filipa era uma irresponsável. " acrescenta a Teresa " E a nossa sobrinha é muito responsável, aprendeu muito cedo a lidar com miúdos!"

" Também não concordo com o médico!" diz a Mãe " Acho que a Laura deve ver o Miguel na tua presença. Ou talvez na minha!"

Os filhos e o genro olham-na surpreendidos, a senhora sorri e explica:

" A Laura tem um filho, tem que enfrentar esse facto mais cedo ou mais tarde. Tem é que aprender como estabelecer a relação com o Miguel. Porque, nesse aspecto, concordo contigo, Pedro, ela era obcecada pelo filho e isso não é bom. Ela tem que ter espaço e dar espaço ao filho."

" É isso, filho!" observa o Pai " Deixa a tua Mãe falar com o médico, talvez consiga que ele  deixe a Laura ver o Miguel."

O Pedro suspira, está cansado, quer que tudo isto acabe.

O médico não gosta muito da ideia, compreende o ponto de vista da senhora, mas continua a achar que não é uma boa ideia.

Acaba por concordar, ficam no jardim e ao mínimo sinal de agitação, a Laura volta para o quarto.

Mas a Laura gosta de ver o Miguel que a olha desconfiado e não quer largar a avó.

Sentam-se numa manta, a Laura faz rolar a bola e o Miguel ri. É um dos jogos favoritos dele.

A Laura pega-lhe na mãozinha, aproxima-se mais para lhe dar um beijinho, mas o Miguel fica assustado.

Começa a chorar, a Laura entra em pânico, não sabe o que fazer para o sossegar e a enfermeira aparece de imediato.

CONTINUA

quinta-feira, 11 de junho de 2020

OS CUNHADOS - PARTE II


" Às vezes, sinto que nunca conheci a tua irmã. Sabia que ela tinha oscilações de humor, todos temos, mas um problema tão profundo...." diz o Pedro lentamente.

" Nem eu nem o António nos apercebemos disso e somos irmãos dela! Não te sintas culpado; em parte, a culpa também foi da Laura, não soube pedir ajuda." justifica o Gonçalo.

" Mas eu devia estar mais atento!" insiste o cunhado " Está naquela casa de repouso, não me quer ver e diz a tua Mãe que nem pergunta pelo Miguel."

O Gonçalo suspira, a Mãe também lho disse e o conselho médico é que a Laura está a responder bem ao tratamento e é melhor respeitar os desejos dela.

Não posso negar a vontade que tenho de ir até lá e dar-lhe um outro safanão, pensa o Gonçalo, mas isso não é realmente a solução.

Por isso, não diz mais nada, desvia a conversa para um tema mais seguro e quando o Pedro se vai embora, o Gonçalo sente que o cunhado está mais relaxado, mais animado.

No dia seguinte, desabafa com a Rita. Esta escuta-o atentamente, percebe bem o dilema, sempre achou a Laura muito mimada, mas diplomaticamente não refere o facto.

" Para te ser franca, acho que o médico está certo. A Laura tem que perceber o que se passa com ela, aprender a controlar-se e talvez nessa altura ela possa interagir com as pessoas de quem goste..." explica.

" Não estás a exagerar, Laura? " o Gonçalo está espantado " Sou irmão dela e gostava de fazer mais por ela."

" Mas é exactamente por isso que tens que lhe dar espaço... A Laura precisa de crescer..." comenta a Rita, pensando que talvez tenha ido longe demais.

O Gonçalo fica calado por uns minutos e depois, diz:

" Não tinha pensado nisso... mas és capaz de ter razão... Vou passar o fim de semana com os meus Pais, ver o que eles pensam e como podemos ajudar."

" O António e a Teresa também vão? " pergunta a Rita.

" Sim, sim, o Pedro e o Miguel." esclarece o Gonçalo.

CONTINUA

quarta-feira, 10 de junho de 2020

OS CUNHADOS


O Gonçalo está feliz...

Ter aceite o convite da Rita para integrar o quadro da empresa foi a melhor decisão que tomou.

A Rita é uma colega de trabalho excepcional: criativa e exigente, mas o Gonçalo acha que isso o obriga a explorar ainda mais todas as suas capacidades e a manter-se actualizado.

Sorri, estende as pernas para a lareira... ainda bem que comprou este apartamento, a lareira foi o que o decidiu.

Pena as coisas com a Eduarda terem terminado daquela maneira.

Talvez a Rita tenha razão: a Eduarda tinha inveja do sucesso dele ou talvez ciúme da Rita.

Talvez tenha percebido que a amizade dele com a Rita é mais profunda que uma simples relação profissional.

Sim, o affair deles foi apaixonante, intenso, nunca será esquecido e o Gonçalo sabe que muita gente acha aquela amizade inabalável estranha.

Como a Laura que ficou absolutamente indignada...

Ai, ai, Laura, porque é que és tão complicada? pensa.

Tocam à campainha, o que o surpreende, pois não está à espera de ninguém.

É o Pedro com o Miguel. Um Miguel muito corado e zangado.

" O que se passa?" pergunta o Gonçalo e o Pedro abana a cabeça impotente.

" Não sei; está em dia não. Não comeu, não dormiu, por isso, resolvi dar um passeio com ele. Vi o teu carro, deduzi que não tivesses saído..." explica o cunhado.

" Ah, ok..." responde o Gonçalo, tirando-lhe o bebé dos braços " Anda lá, rapaz, explica-me o que se passa." mas o bebé olha-o desconfiado.

" Vamos lá instalar-te!" prossegue o tio, sentando-o no chão no meio de várias almofadas.

O Pai tira alguns brinquedos do saco, o Miguel continua aborrecido, mas, pelo menos, não desata a berrar.

" Estás com cara de quem precisa de uma bebida!" diz o Gonçalo " Porque é que estás sozinho com ele? "

" Preciso de passar tempo com ele sozinho... a Carolina e a Teresa têm sido formidáveis, mas também precisam de estar com as famílias." esclarece o Pedro, aceitando uma cerveja.

" Pois..." concorda o cunhado " E, a Laura? " e vê pela cara do Pedro que as notícias não são boas.

CONTINUA



terça-feira, 9 de junho de 2020

FILIPA - FIM



O Miguel fica lá em casa uns dias, o Edgar e o Matias adoram a ideia e a Mãe deixa que o bebé fique no quarto deles.

São os dois uns baby sitters espantosos e o Miguel dá-nos a conhecer uma outra faceta dele: ri-se das palhaçadas dos meus irmãos, tenta imitá-los e fica bastante admirado quando vai contra as paredes.

Após uma discussão acalorada, a Laura cede à pressão dos irmãos, aceita ir para uma casa de repouso e depois passar uma temporada com os Pais na quinta que eles têm no interior.

O Miguel fica com o Pai, é a decisão do Pedro que não avança para já com o processo de divórcio.

Como estamos no meio do ano, já não consegue vaga para o Miguel numa creche e tem que contratar alguém.

Contudo, o Miguel passa mais tempo em nossa casa (alguém está sempre disponível para brincar com ele) ou na da Teresa e do António.

Eu e o Gonçalo temos boa nota no trabalho que apresentamos, estamos a dar-nos muito bem tanto a nível escolar como pessoal.

Às vezes, estudamos juntos em minha casa, mas o Gonçalo não se importa com o ambiente caótico em que vivemos.

Estou feliz com a minha relação, nem me preocupo mais com o que se está a passar com a Laura.

O Verão acaba, o Miguel vai para casa dos avós passar uns dias com a Mãe, não sabemos se a Laura vai regressar.

Mas eu e o Gonçalo somos agora oficialmente namorados e a relação é totalmente diferente da que tinha com o José.

Apesar disso, continuo cautelosa e vivo apenas o momento.


FIM

segunda-feira, 8 de junho de 2020

FILIPA - PARTE VI


Coloco o prato da Mãe no micro-ondas; o Pai ajuda-me a arrumar a cozinha enquanto que o Miguel lê uma história aos manos.

Quando saem do escritório, tanto a Mãe como o Pedro estão agitados, nervosos e apesar da Mãe insistir para ele dormir aqui, o Pedro diz que é melhor ficar num hotel, tem muito em que pensar.

Ofereço-me para lhe aquecer o prato, mas a Mãe abana a cabeça e confessa que não tem fome.

" Problemas com a Laura?" pergunta o Pai e a Mãe suspira.

" Doí-me tanto ver o meu irmão assim... desiludido, destroçado.... " observa a Mãe " Mas ele diz que atingiu o limite; a Laura continua egoísta, é obsessiva, ciumenta..."

" Não quis dizer nada na altura, mas sempre achei que não era boa ideia o Pedro voltar a viver com ela. Ajudava-a, claro, mas viver na mesma casa...." comenta o Pai " A Laura sempre me pareceu instável..."

" E agora? " questiono e a Mãe volta a suspirar.

" Vão ser tempos muito complicados para os dois!" e o Pai concorda.

A Teresa aparece no dia seguinte, o Pedro contou-lhe tudo e o António está completamente desesperado.

A Laura não lhe atende o telemóvel, recusa a abrir - lhe a porta e afirma que não saí daquela casa, que é do filho dela.

Ninguém está a dizer o contrário, explica a Teresa, mas, como sempre, a Laura não quer ouvir os outros e o António não sabe o que fazer mais.

O Gonçalo tem estado fora, quando regressa, todo satisfeito com os contactos que fez, nem quer acreditar no que lhe contam.

" Está decidido; vou lá dar-lhe um safanão!" e ninguém o consegue convencer que isso poderá não ser a forma adequada de controlar a situação.

Contudo, a Laura abre-lhe a porta, o Gonçalo diz-lhe umas verdades que a irmã não gosta de ouvir, mas tem que admitir que é verdade.

A meio da tarde, telefona ao António e ao Pedro, convoca-os para o que chama o " comité de guerra".

Telefona também à Carolina, será que o Miguel pode ficar uns dias lá em casa? e eu vou lá buscar o bebé.

É o próprio Gonçalo quem me abre a porta e me entrega o bebé.

Não vejo a Laura, deve estar na sala. 

O Pedro e o António chegam nessa altura e depois da troca de banalidades, desço.

O Pai está à minha espera e eu coloco o Miguel na cadeirinha com todo o cuidado.

CONTINUA


domingo, 7 de junho de 2020

FILIPA - PARTE V


Ajudamos os mais novos a arrumarem a sala e fico surpreendida quando o Miguel se oferece para vigiar o banho dos " piratas " como lhes chama carinhosamente.

" Desde que não deixem a casa de banho tipo..." a Mãe interrompe-se e o Pai completa " pocilga".

O Miguel mostra-se ofendido, era lá capaz de fazer uma coisa dessas e desaparece com os manos na casa de banho.

Ajudo a Mãe a preparar um jantar leve, ela e o Pai não querem comer, o buffet no chã era óptimo, confidencia.

O Edgar tem dificuldade em manter os olhos abertos e por isso, só come a sopa. O Pai tem que o levar ao colo para a cama.

O Matias esforça-se por se manter acordado, mas também se rende ao sono e é o Miguel quem o vai deitar.

Depois de arrumarmos a cozinha, vamos todos para os respectivos quartos e eu ainda tento ler, mas não consigo.

Estou muito cansada e apago a luz. Os bebés são amorosos, mas muito cansativos, penso.

A semana escolar é tão intensa que nem me lembro mais das aventuras com os bebés.

Mas a Teresa lembra-se, traz uma caixa de chocolates de uma marca que vende na loja para os mais pequenos,  para o Miguel uma T-Shirt da Springfield e para mim, o vestido que cobicei na Zara e que a Mãe achou caro demais.

" Oh, Teresa, muito, muito obrigada." não me canso de repetir e a minha tia ri-se.

Conversamos um bocadinho, a Teresa tem uma reunião na loja, aparece por lá um dia, convida e não pode ficar mais tempo.

Os manos ficam eufóricos com os chocolates, o Miguel completamente doido com a T-Shirt, como é que a Teresa adivinhou que adoro esta cor? e a Mãe acha que a Teresa exagerou.

" Sim, a Teresa foi muito generosa." digo " Mas a Laura nem sequer agradeceu. Foi o Pedro quem agradeceu, ela não disse nada."

" Oh, Filipa, não foi isso que te ensinei. " interrompe-me a Mãe.

" Claro que não o fiz para ter presentes; adoro o Miguel e a Sofia e tenho todo o gosto em ajudar. Estou apenas a dizer que a Laura pode estar diferente, mas continua a ser muito egoísta!" explico.

" Isso vai ser difícil de contrariar!" concorda a Mãe " Preocupo-me com o Pedro e com o bebé. O teu tio parece estar feliz, mas não sei até que ponto!"

O Pedro aparece nessa noite, está cansado, sem cor, com olheiras.

" Vocês desculpem, mas preciso de falar contigo, Carolina!" estamos a meio do jantar, a Mãe pede ao Miguel para pôr mais um prato na mesa, mas o Pedro declina.

Fecham-se os dois no escritório, o Pai faz-nos sinal para continuarmos a comer.

" É uma conversa entre irmãos! Vamos respeitar isso!" comenta.

CONTINUA

sábado, 6 de junho de 2020

FILIPA - PARTE IV


" Quando não arrumas os brinquedos, a Mãe fica aborrecida e diz-to, não é? Fala-te muito séria e num tom de voz que não admite brincadeiras... Isso é falar grosso." esclareço, o Edgar diz ah, ok, muito sério e desatamos todos a rir.

Resolvemos organizar um jogo para os bebés, espalhamos almofadas no chão e fazemos rolar a bola do Miguel para a Sofia.

O problema é que o Miguel não quer largar a bola, a Sofia não percebe porquê e tenta tirá-la das mãos do primo.

O Miguel dá-lhe uma sapatada, a Sofia chora e o primo Miguel fala-lhe novamente " grosso".

Entretanto, o Edgar vai buscar os livros dele e mostra-os à Sofia. Esta gosta das cores, acha piada ao virar das páginas e o Edgar explica-lhe pacientemente que o Sol é dourado, o céu azul.

" Ela não vai entender!" diz o Matias com ar de quem sabe do que está a falar.

Mas a Sofia está distraída, os dois Migueis estão envolvidos num jogo de bola que só eles compreendem e eu sinto-me esgotada.

O Gonçalo sorri, sugere um jogo de cartas ao Matias, mas só se ele se portar como um " cavalheiro".

" O que é isso? " o Matias repete a pergunta do Edgar e o Gonçalo volta a rir.

" Podes perder, mas isso faz parte da vida. Por isso, aceita-o!" diz o meu amigo muito sério e o Matias senta-se em frente dele.

Sento-me num sofá a rever o trabalho, sinto-me ensonada e acabo por me encostar melhor.

Acordo com a Mãe a chamar por mim:

" Filipa, Filipa, estás bem? " e abro os olhos.

A sala está cheia de gente, vejo a Teresa e o António, muito sorridentes, a Laura parece estar um pouco aborrecida, mas o Pedro esforça-se por não rir.

Olho em volta e vejo que todos adormeceram.

O Miguel bebé está ao colo do Miguel primo, o Edgar e a Sofia estão abraçados e o Gonçalo e o Matias ressonam.

" O que se passa aqui? " quer saber a Laura a preparar-se para tirar o Miguel do colo do primo.

O Pedro impede-a, o bebé está ainda a dormir, é preciso ter cuidado para não o acordar e não haver um berreiro.

A Teresa acorda delicadamente o Edgar, este ainda está confuso, mas endireita-se e a Sofia passa para os braços da Mãe ainda a dormir.

O Gonçalo fica um pouco envergonhado, adormeci, peço desculpa, mas o meu Pai dá-lhe um palmadinha no ombro, não há problema.

Beijos, abraços, obrigada Filipa por tomares conta dos bebés, despedem-se os Tios e o Gonçalo desce com eles.

Ficamos os seis no corredor, o chá dançante deve ter corrido bem, os Pais parecem felizes.

" E agora?" pergunta o Edgar " O que fazemos? "

" Eu tenho uma óptima ideia!" observa a Mãe " Que tal arrumarem a sala?"

CONTINUA

sexta-feira, 5 de junho de 2020

FILIPA - PARTE III


" Anda cá, pá... nós vamos ter uma conversa de homem para homem!" decide o Miguel e tira-me o bebé dos braços " Ora, vamos lá saber a causa desse berreiro todo... Falta-te alguma coisa???"

O Miguel bebé cala-se, está surpreendido, olha desconfiado para o primo e depois sorri.

Todos respiramos de alívio enquanto Miguel continua a conversar com o bebé que parece estar a escutá-lo atentamente.

O Miguel leva-o para a sala, o Matias e o Edgar fecham o cortejo.

Eu vejo se a Sofia tem a fralda suja, o Gonçalo pergunta-me se não está na hora de lhes dar de comer.

Consulto o relógio, falta uma hora de acordo com os horários que tanto a Teresa como a Laura deixaram.

" Escusamos de ficar aqui, ela não vai voltar a adormecer. Vamos até à sala? É melhor levar a cadeira do Miguel..." determino e o Gonçalo concorda.

Na sala, estão todos sentados no chão, o Miguel bebé ao colo do meu irmão.

O Matias e o Edgar organizaram o que parece ser um safari e o bebé está a achar piada.

O Miguel impede-o de pegar nos carros mais pequenos, sugiro que os guardem, deixem só os grandes, aconselho.

A Sofia fica sentada na cadeirinha,  brinca com as mãos, tenta levar o pé a boca e o Gonçalo ri-se.

" O nosso trabalho de  Filosofia fica em stand-by? " pergunta-me.

" Podemos tentar terminar... os bebés estão divertidos.... não sei se vamos ter sossego." respondo e o Gonçalo vai buscar o PC e os livros à cozinha.

De vez em quando, os membros do safari gritam e a Sofia assusta-se, mas até conseguimos terminar o trabalho.

É hora de dar de comer aos bebés, o Miguel encarrega-se do primo e fico espantada por o ver comer sem protestar.

A Laura diz que ele costuma fazer birras, que tanto ela como o Pedro ficam desesperados, mas o Miguel apresenta-lhe a colher, ele abre a boca obedientemente.

" O que é que lhe fizeste?" quero saber.

" Ora, tudo o que ele precisava era que alguém lhe falasse grosso!" explica o meu irmão e a gargalhada é geral.

" O que é isso? " o Edgar está um pouco confuso.

CONTINUA

quinta-feira, 4 de junho de 2020

FILIPA - PARTE II


O tempo passa, os bebés crescem e a Teresa e a Laura voltam ao trabalho.

E eu conheço o Gonçalo. Ainda estou um pouco hesitante, a história com o José foi complicada, mas tanto a Mãe como a Teresa dizem que devo viver a relação com calma, ao primeiro sinal de violência verbal ou física, afastar-me de imediato.

Contudo, no dia em que toda a família vai a um chá dançante, o Gonçalo prontifica-se a ficar comigo a tomar conta dos bebés.

Para a Teresa, não há problema nenhum em deixar a Sofia comigo, mas a Laura resiste à ideia e é preciso o Pedro intervir, o Miguel fica com a Filipa e não se fala mais nisso, precisamos de nos divertir, conviver com outras pessoas.

O Miguel, meu irmão, organiza um jogo para entreter o Matias e o Edgar na sala de estar.

Eu e o Gonçalo instalamos os bebés no quarto dos meus Pais, deixamos a porta aberta e sentamos-nos na cozinha.

Temos um trabalho de Filosofia para entregar, espalhamos os livros para pesquisa na mesa e a troca de ideias é fluída, interessante.

De repente, vem um grito da sala, a primeira coisa que nos ocorre, alguém caiu e depois, ai que vão acordar os bebés.

Corremos para a sala, eu já estou zangada e pronta para castigar quem ousou quebrar o pacto de não fazer barulho e o Matias está muito vermelho, a tentar bater no Miguel que se ri como um idiota.

" Oh, Miguel, o que se passa??? Ainda acordas os bebés!" digo e o Miguel tenta respirar fundo enquanto o Matias repete:

" És mau!!! Mau, mau!!" 

O Edgar está calado, sentado no sofá a observar a cena.

" O Matias não gosta de perder, principalmente quando é o Edgar que ganha!" explica o meu irmão e ri-se o que enfurece ainda mais o Matias.

Abro a boca para consolar o Matias, mas vem um choro furioso do quarto dos Pais.

" Bonito! Deve ser o outro Miguel, espero que não acorde.... a Sofia!" mas claro que a minha afilhada também acorda e reclama atenção.

O Gonçalo segue-me, os meus irmãos no nosso encalço e deparamos com um bebé muito zangado a tentar sair da cadeira.

A Sofia está acordada, mas apenas observa.

" Bonito! Vamos ver se ele sossega...." repito e pego no Miguel ao colo.

O Edgar faz-lhe caretas, mas o Miguel não lhe acha piada e continua a chorar.

CONTINUA

quarta-feira, 3 de junho de 2020

FILIPA


Ser-se a única rapariga numa família de rapazes é complicado.

Felizmente, o bebé da Teresa é uma rapariga e eu vou ser a madrinha.

" Sabes o que isso implica? " pergunta-me a Mãe e eu fico na dúvida se está a brincar comigo.

Afinal, tenho três irmãos mais novos, posso dizer que sou perita em bebés e até sou capaz de identificar se é um choro de sono ou de fome.

" Não há regras!" avisa a Mãe " Cada bebé tem necessidades diferentes!" mas eu estou convencida de que tudo o que é preciso é ter paciência e não entrar em pânico.

É o que acontece com a Laura; noutro dia, fui visitá-la com a Mãe e ela estava quase a entrar em " parafuso " (a Mãe não gosta que eu use esta palavra, mas sou sincera, não me lembro de outra).

O cabelo sujo, ainda de roupão, descalça, a Laura estava completamente perdida e o Pedro não estava muito melhor a tentar sossegar um Miguel muito zangado, aos berros.

A Mãe tomou conta do assunto eficientemente, tirou o Miguel ao Pai e o bebé, talvez por sentir que estava ao colo de alguém calmo, calou-se.

" Anda cá, Filipa, pega nele e vê se o consegues adormecer. Vocês os dois... " disse " vão relaxar, tomar um banho, se quiserem fazer uma pequena sesta, façam. Eu e a Filipa vamos organizar as coisas."

A Laura e o Pedro suspiraram de alívio, eu lembrei-me de uma canção que costumava cantar ao Matias e ao Edgar para adormecerem e o Miguel gostou tanto que fechou de imediato os olhos.

Entretanto, a Mãe arrumou a cozinha, sempre a soltar ah's e oh's, pois a casa está muito desarrumada.

" Porque é que a Laura não contrata ninguém para a ajudar? " perguntei-lhe quando saímos umas duas horas depois.

A casa ficou mais ou menos arrumada, o Miguel continuava a dormir e o Pedro estava já fechado no escritório a dar andamento a trabalho atrasado.

" Não sei! Sabes como é a Laura... não aceita conselhos de ninguém e creio que o Pedro não a quer aborrecer!" confessou a Mãe.

Sim, todos sabemos do mau feito da Laura.

Não é definitivamente a minha pessoa favorita e espero sinceramente que o Miguel não se torne numa versão masculina dela!

CONTINUA

terça-feira, 2 de junho de 2020

O REFÚGIO - FIM


Interroga a irmã com o olhar; esta encolhe os ombros ligeiramente como que a dizer que não tem qualquer importância.

" Ok, minhas senhoras, não vai haver mais discussões, não quero saber qual o motivo. Vamos gozar a gravidez, pensar neste pequeno ser humano que nos pertence e que nos vai dar tanta alegria!" diz o Pedro calmamente.

A Laura abre a boca para protestar, mas o ar sério do marido impede-a e admite mais tarde ao médico de que ele tem toda a razão.

A partir daí, a vida decorre calmamente, cada casal a gozar a gravidez e evitam-se conversas sobre o tamanho da barriga, o enxoval, as cores para o quarto do bebé quando estão juntos.

No final de Agosto, o António e a Teresa são surpreendidos, não quiseram saber o sexo antes, pela chegada de uma menina muito sossegada.

Convidam a Filipa para madrinha, até lhe pedem para escolher o nome e a pequena Sofia vai ter uma poderosa aliada na prima/madrinha.

Umas semanas mais tarde, é a vez da Laura receber um rapaz forte, cheio de cabelo e com um ar tão zangado que o Gonçalo dá-lhe logo a alcunha de " rezingão".

Os primeiros meses são bastantes complicados para o Pedro e a Laura, pois o rapaz, a quem chamaram Miguel, não gosta de dormir e reclama toda a atenção dos Pais.

Em contrapartida, o António e a Teresa não sabem o que é uma noite sem dormir, a Sofia só chora se estiver aborrecida ou se não cumprem os horários da comida.

A loja está a ser um sucesso, a Margarida até já fala em expansão, mas a Teresa não concorda.

O Gonçalo e a Rita estão entusiasmados com os novos projectos e já têm que contratar um novo designer.

Quanto à Laura, está a pensar novamente em abrir a loja online.

Poderá gerir o tempo em função das necessidades do Miguel, não o querem inscrever para já numa creche, não neste primeiro ano de vida.

O Pedro acha que é uma boa ideia, mas ainda tem as suas dúvidas.

O que espera é que a Laura não queira trabalhar no refúgio.

Afinal, ele pediu para ter um espaço só para ele!

FIM